Uma Carta Inesperada
Escrito por Sabrina Pires | Revisado por Júlia
“Ausência física, ausência da voz e do cheiro, das risadas e do piscar de olhos, saudade da amizade que ficará na lembrança e em algumas fotos.” – Martha Medeiros
"Amor...
Pode parecer estranho eu estar lhe escrevendo está carta hoje. Porém, sei que meu tempo é curto, não sei quando será a última vez que vou lhe dizer que a amo, ou vou acordá-la pela manhã com um beijo de bom dia. Trazer-lhe café da manhã na cama.
Escrevo essa carta para poder lhe dizer que algumas coisas que não saem da minha cabeça, porém, as palavras não saem em sua frente.
Minha doce Soph, me perdoe pelas noites em que fiz você chorar. Sei que achavas que eu não sabia que lágrimas escorriam pela sua linda face nessas horas, mas, eu sabia e me odiava por ser o culpado delas surgirem. Perdoa-me, por todas as vezes que fui ciumento sem necessidade, por ser um marido chato, por pegar no seu pé, por falar milhares de vezes as mesmas coisas. Só que sabias que eu fazia isso pois lhe amava muito. E hoje já é tarde para lhe dizer isso.
As lágrimas estão escorrendo por meu rosto nesse momento, pois, por mais que eu tente me afastar de você, para evitar que você sofra minha perda, vejo-a sofrendo pela distância que estou impondo entre nós.
Eu queria sair correndo desta escrivaninha e ir ao seu encontro. Você deve estar se perguntando em que momento escrevia essa carta, certo? Então, lembra naquela noite em que acordasses durante a madrugada e eu não me encontrava ao seu lado? Foi naquela noite que eu a escrevi.
Não suportava mais guardar o que sentia por você, e que no fundo, sempre soube. Precisava encontrar uma maneira de continuar me afastando de você. Isso parte o meu coração, pois quando casamos, prometemos que estaríamos um ao lado do outro na saúde e na doença, e hoje, encontro-me escondendo de você algo tão grave. Sei que você deve se perguntar por que nosso casamento entrou nessa decadência que está hoje, porque estamos tão afastados.
Perdoe-me, sei que tudo deveria ser diferente, mas eu não fui corajoso o suficiente para lhe contar o que estava acontecendo comigo. Fui fraco e não suportei imaginar que você sofreria, eu não poderia vê-la sofrendo por minha causa. Mas fui burro, pois a vi sofrendo todos os dias pela distância que se abria a cada dia entre nós. Você deve imaginar que foi fácil tomar essa decisão de me afastar, mas não foi, não tens noção do quanto me doeu.
Você está deitada neste momento, faz mais ou menos uma hora que você adormeceu após mais uma de várias brigas que tivemos nesses últimos dias. Eu queria que essas brigas confortassem meu coração, mas não confortam, pois eu sei que se eu não estivesse me afastando de você, não estaríamos brigando. Talvez neste momento estivéssemos deitados em nossa cama de conchinha.
Amor, espero que um dia sejas capaz de me perdoar por ter me afastado de você e ter omitido o que acontecia em minha vida, por ter escondido de você algo que pertencia indiretamente a nossa vida.
Eu queria poder estar aí neste momento, deitar ao teu lado e sentir teu cheirinho, poder enroscar minhas mãos em seus cabelos e senti-los macios deslizando entre meus dedos. Queria poder sentir seus lábios doces e suaves nos meus. Confesso que sinto saudade de você, em alguns momentos é como se eu estivesse em abstinência. Abstinência dos seus abraços, do seu corpo, da sua pele... De você.
Amor, peço perdão a você por tê-la feito sofrer tanto, por todos esses meses que a fiz chorar por brigas, ou apenas por não falar. Perdoe-me por não ter cumprido com a promessa que fiz no dia em que nos casamos. Simplesmente perdoe-me por não ter sido capaz de tê-la feito feliz.
Porém, quero que saibas que tudo o que fiz nesses últimos meses foi para tentar fazer com que sofras menos no momento em que estiveres lendo essa carta. Se eu lhe disser que não estou sofrendo, que não está doendo toda essa distância em que nos encontramos agora, estarei mentindo. Estou sofrendo como nunca havia sofrido na vida. Neste momento as lágrimas estão escorrendo livremente por meu rosto, e não faço a menor questão de que estas sejam secas.
Tudo o que eu preciso é que você me perdoe.
Amor, se chegasses a ler até este momento é porque você já sabe de tudo e me encontrasses em algum canto da casa desmaiado, ou até mesmo, morto. Eu queria ter contato a você que estava com uma doença gravíssima e que corria risco de vida, porém, não fui capaz de fazer isto. Me perdoe por isso. E eu quero que saibas que nunca deixei de amá-la por nenhum segundo de nossas vidas, da minha vida!
Amo você e amarei para sempre, minha doce Sophia.
Com amor, Thomas."
Eu estava sentada ao lado do corpo do homem que eu amei por toda a minha vida. As lágrimas estão correndo por meu rosto, encharcando minha blusa. Eu não podia acreditar que ele foi capaz de esconder de mim uma doença tão grave.
E como fui burra e não percebi que ele estava doente? Como não fui capaz de perceber que as mudanças dele ocorreram em um momento que ele se isolou, se afastou até mesmo de sua mãe. Só agora tudo fez sentindo, somente agora que eu percebi que não era culpa minha, menos ainda culpa dele por tudo ter mudado de repente. Ele queria apenas me poupar de uma dor maior.
Mas como irei viver agora com essa culpa, por ter brigado com ele todas as vezes em que ele queria apenas me poupar de sofrer. Mas agora carregarei a culpa por tê-lo perturbado tanto.
- Amor, é claro que eu lhe perdôo. Eu te amo e te amarei até o fim da minha vida – sussurro em seu ouvido.
Encostei minha cabeça na parede e permiti que as lágrimas deslizassem de meus olhos por minha face, chorei até não haver mais lágrimas possíveis para escorrer de meus olhos.
Meu peito dói e essa dor carregarei comigo junto com a culpa que sinto por tudo o que aconteceu com ele.
“Nunca precisei tanto de alguém como preciso de você, nunca desejei tanto um sorriso como desejo o seu, nunca esperei tanto por um beijo como espero pelo seu…” – Caio Fernando Abreu.

Encontrou algum erro?