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#013 Temporada

If I Can't Have You
Shawn Mendes

 

Tudo ou Nada

Escrita por Queen B | Revisada por Songfics

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Inspirada na música “If i can’t have you” do Shawn Mendes

  Kwon Jiyong odiava fuso-horário.
  Ele estava acostumado a viajar, ainda era uma criança quando dera seus primeiros passos em direção aquela vida, a música e a fama, mas sabia desde o inicio que, se fosse bem sucedido, viagens frequentes viriam no pacote. E ele fora, se esforçara tanto por aquele sonho que terminara sendo, nada menos, um dos maiores nomes da música coreana, reconhecido mundialmente e uma referência para artistas mais jovens de toda a Coréia.
  Então, por que ele se sentia tão sozinho?
  O cantor, membro de um dos maiores grupos de K-Pop da atualidade, bem ou mal, se acostumara aos reveses da vida pública. Jiyong fazia aquilo há mais de dez anos agora, ele aprendera a suportar o gosto amargo que fazia sua língua coçar quando publicavam uma mentira sobre ele ou distorciam algo que falara, assim como aprendera que noites solitárias podiam ser dolorosas, podiam lhe fazer repensar todas as escolhas que já fizera, mas sempre passavam. Youngbae dizia muito aquilo:“O sol vai chegar logo, cara.”
  Eles tinham tipos diferentes de sensibilidade, aquilo era outra coisa que Jiyong aprendera. Youngbae era seu melhor amigo desde que podia se lembrar e os dois tinham tanto em comum quando tinham diferenças. Jiyong apreciava demais aquelas diferenças, sempre encontrando alivio no otimismo e tranquilidade típicos do mais velho. Era difícil não acreditar quando Youngbae dizia que tudo ficaria bem, ele sabia.
  Naquele momento, no entanto, ele estava longe demais do amigo para que aquelas características do mais velho fossem capaz de lhe ajudar. Jiyong estava em Toronto, longe demais de casa, preso em uma daquelas noites em que tudo era pesado demais, encolhido na king size gigantesca num quarto de hotel qualquer, com o celular nas mãos, encarando sua lista de contatos sem realmente enxergar o que via. Ele pensava em sua casa, em seus amigos, em... Em .
  Céus, sentia falta dela.
  Antes que pudesse passar muito mais tempo pensando naquilo, no entanto, Jiyong balançou a cabeça e percorreu sua agenda em busca de um número especifico. Sabia muito bem, afinal, o que acontecia quando passava tempo demais pensando em . E tanto quanto sabia daquilo, sabia os motivos de sentir falta dela, de não poder estar com ela. Aqueles motivos não haviam deixado de existir, por mais que ele quisesse.
  Enfim, Jiyong respirou fundo e iniciou uma chamada de vídeo, encarando o celular enquanto movia o pé de um lado para o outro na cama, esperando que lhe atendessem.
  — Hyung, e aí? — Kang Daesung perguntou ao lhe atender, sorrindo para a carranca que Jiyong sequer notou que fazia. Daesung era bom em sorrir para carrancas, e bem, seu sorriso era ótimo em desfazer carrancas.  Era o “combo Daesung”.
  Os lábios de Jiyong já começavam a se repuxar num sorriso frouxo.
  — Estou em Toronto. — o mais velho murmurou, num tom de resmungo. Ele soava como uma criança se queixando, o que era, no minimo, cômico já que Kang era o mais novo dos dois e não o contrário.
  — O tempo está ruim aí? — Daesung perguntou, daquela maneira tipicamente simplista dele. Daesung não gostava de imaginar que havia sempre algo maior, um problema grandioso, por trás de cada insatisfação das pessoas ao seu redor. Ele preferia acreditar que os motivos podiam ser pequenos também, fáceis de lidar.
  — É o Canadá. O tempo está sempre ruim aqui. — Jiyong retrucou, incomodado, e Daesung abriu outro de seus sorrisos mágicos. Jiyong rolou os olhos, sabendo que terminaria sorrindo também em pouco tempo se ele continuasse com aquilo.
  — Sinto muito por isso. Quando você volta pra casa?
  — Depois de amanhã, à noite. — o mais velho respondeu, suspirando pesadamente em seguida. — Não consigo dormir. É de manhã na Coréia, não é? — Jiyong suspirou outra vez quando Daesung assentiu — Eu odeio fuso-horário.
  — É claro que odeia. Fuso-horário nos lembra do quão longe estamos de casa e você odeia estar longe de casa, especialmente sozinho. — Daesung retrucou com simplicidade e Jiyong acabou rolando os olhos dessa vez, completamente ciente que estava agindo como uma criança mimada, mas sem conseguir evitar. Daesung era atencioso demais, despertava o lado mais carente de cada um dos membros mesmo sem tentar. — Você precisa descansar, Jiyong. Tem que dormir e ignorar o fuso-horário ou vai chegar em casa exausto e dormir por dois dias seguidos.
  — Isso só aconteceu uma vez. — Jiyong reclamou e Daesung arqueou as sobrancelhas, fazendo o outro resmungar qualquer coisa inteligível, baixinho — Algumas...
  Daesung riu, concordando.
  Os dois conversaram mais um pouco, porém não muito depois Daesung precisou desligar. Era dia na Coréia, afinal, e ele tinha compromissos. Jiyong estava sozinho outra vez. Ele suspirou e se levantou, se arrastando até a varanda do quarto. A vista dali era incrível, as luzes noturnas de Toronto brilhando em vários tons diferentes.
  O Canadá era realmente bonito. Enorme e majestoso como poucos lugares eram, além de limpo, era tão limpo que, da primeira vez que Jiyong esteve lá, se perguntou se podia ser outro planeta. Não se lembrava de nenhum outro lugar tão limpo na Terra.
  Enfim, o cantor tirou do bolso um cigarro e seu isqueiro, acendendo-o e levando-o a boca antes de voltar a dar atenção a seu aparelho celular. Jiyong foi parar outra vez em sua lista de contatos no aplicativo de chat, clicando sem pensar na conversa com . Ele não apagara nenhuma de suas mensagens. Não sabia se teriam novas e não queria perder as lembranças do relacionamento que costumavam ter, de sua amizade e da paixão, que começou a crescer mais e mais em seu peito conforme passavam o tempo juntos.

Sinto sua falta.

  Jiyong passou alguns segundo encarando a mensagem recém digitada, o dedo pairando sobre a opção de enviar, então suspirou de maneira pesada e apagou as palavras, guardando o celular outra vez e sentando-se na poltrona ali perto, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos.
  Não podia fazer aquilo, não podia voltar a importuná-la, não quando sabia como a história terminaria e, pensando naquilo, ele se deixou mergulhar nas lembranças de quando achou que nunca veria problemas em mandar uma mensagem para quando sentisse vontade. Quando achou que teria acesso a ela o tempo todo.

Um mês e meio antes

  Naquela noite, sua insônia tinha um único e odioso motivo: Bloqueio criativo.
  Jiyong tinha um prazo e aquilo parecia ser um antídoto de toda sua criatividade, que se esvaíra no instante em que lhe fora imposto uma data. Aquela droga de comeback se aproximando... Ugh.
  Ele era do tipo que sentia demais, então, normalmente, não tinha problemas de criatividade. Ele escrevia sobre a vida, sobre os pequenos e grandes acontecimentos, era capaz de transformar a menor das decepções na dor mais profunda de todas com a batida certa e sempre fora assim, mas de repente... Nada. Odiava aquilo. E tudo porque decidiu que seria bom pra si ficar longe de relacionamentos por um tempo, concentrar-se no trabalho e em si mesmo. Maldita hora.
  Suspirando de maneira pesada, ele largou seu caderno com palavras rabiscadas sem nenhuma conexão satisfatória, se pondo de pé e seguindo para fora do estúdio, decidindo que precisava de ar fresco ou terminaria enlouquecendo de vez. 
  A nova empresa onde ele e os outros membros do BIG BANG se instalaram era um lugar bem diferente da YGE, onde passaram tantos anos antes. Era uma empresa menor, e talvez por isso, um lugar onde ele se sentia mais a vontade do que jamais se sentira na YGE. E, bem, tinha o terraço. Não havia um lugar tão bonito na YGE inteira. Se Jiyong não estivesse tão entregue aquela droga de bloqueio, com certeza escreveria sobre aquela vista.
  Seul era incomparável.
  Jiyong ia muito lá, tanto que já se sentia na liberdade de simplesmente empurrar a porta e entrar, como se já tivesse alguma propriedade sob o lugar. Não tinha, mas aquilo não fora um problema também. Apesar do terraço já estar ocupado, aquela não era uma companhia que Jiyong desprezava ou desgostava.
  Era .
   era uma das produtoras musicais daquela empresa, a favorita de Jiyong, que se vira hipnotizado pelo magnetismo que ela nem parecia notar que tinha desde o primeiro instante em que a viu, quando foram apresentados, na festa que celebrou a assinatura do BIGBANG naquela empresa.
  Naquela noite, no entanto, era em outro de seus talentos que ela estava concentrada e os olhos de Jiyong brilharam assim que a encontraram ali, com um cavalete, tintas, pincéis e os olhos focados na tela a sua frente.
  Ela estava pintando.
  — -yah? — ele chamou baixinho, curvando-se educadamente assim que ela virou para lhe encarar, surpresa com o chamado repentino.
  — Oh. Jiyong-ssi. — ela se curvou também, surpresa. Os dois não se falavam muito, ela sempre dava um jeito de fugir quando ficavam sozinhos e Jiyong nunca soubera o por que. Naquela noite, quem sabe.
  — Não precisa me chamar assim. — ele retrucou, sorrindo pequeno em seguida e ela sorriu da mesma forma, acenando com a cabeça.
  — Está tudo bem? Por que ainda está aqui?
  — Estava tentando compor alguma coisa. — ele explicou, fazendo uma careta automaticamente — Não deu muito certo.
   soltou uma risada sem graça em resposta.
  — Sinto muito.
  Jiyong fez um gesto com a mão, indicando que ela não tinha que sentir, e então se aproximou, fazendo sinal para o quadro como se perguntasse se podia ver o que ela pintava. assentiu timidamente e, tão tímido quanto ela, Jiyong se aproximou para olhar a tela, sorrindo assim que seus olhos encontraram a pintura na qual a garota trabalhava. pintava aquele exato momento, ou bem, minutos antes, quando Jiyong ainda não estava em seu cenário, atrapalhando.
  No quadro, se via a noite estrelada, um prédio, e uma garota de costas, no terraço desse prédio, concentrada no quadro que tinha de frente para ela.
  — O céu dessa noite merecia mesmo uma pintura. — ele falou, sorrindo diante do quadro e ela sorriu também, virando para lhe encarar.
  — Merecia, não é?
  — Eu tenho uma coisa com o céu. — Jiyong comentou, sem notar quando passou a respirar mais rápido, como se suas palavras houvessem feito algo com ela. — Não sei explicar, eu só... Podia passar horas olhando.
  — Eu também. — ela retrucou rápido demais, quase vomitando as palavras, rindo quando ele lhe encarou tão surpreso quanto desconfiado. — É verdade, eu juro. Não esperava que você tivesse isso em comum comigo, mas eu... Eu tenho uma coisa com o céu também.
  — Acredito em você. — Jiyong decidiu, afastando-se e sentando-se no chão, recostado a parede mais próxima. — Tudo bem se eu ficar aqui um pouco?
   assentiu, afastando-se do quadro.
  — Eu ia dar um tempo, de qualquer forma. Vou lá embaixo buscar um café, você fica de olho pra mim? — ela pediu, referindo-se ao seu material de pintura, mas Jiyong fez que não. Ela ia fazer aquilo de novo, ia aproveitar a primeira brecha que viu e fugir. Jiyong não queria aquilo, lhe hipnotizava, era pura e vibrante arte. Ele queria conhecê-la.
  — Senta aqui. — ele chamou, batendo de leve no espaço ao seu lado e obedeceu, ainda que claramente sem jeito. — Por que você foge tanto de mim?
  — Eu não...
  — Ah, você sim. — ele retrucou, sem nem mesmo esperar que ela terminasse, abrindo um pequeno sorriso em seguida. — Seu expediente já acabou, mas você também está aqui, então vamos dizer que o fato de estarmos aqui, juntos, seja destino. Afinal, nós dois sempre viemos aqui nesse terraço, certo? Mas a gente nunca se bateu aqui...
  — Como você sabe que eu sempre venho aqui? — ela retrucou, arqueando as sobrancelhas e ele deu de ombros.
  — Eu estava testando você. Agora eu sei. — murmurou, muito orgulhoso de si e a garota rolou os olhos, desviando o olhar e mordendo o interior das bochechas a fim de segurar um sorriso. Agora entendia.
   conhecia tanto a respeito do BIG BANG quanto qualquer cidadão coreano que não acompanhava tablóides, escutando apenas uma noticia ou outra uma vez por mês. Isso porque eram eles, ela nem mesmo era capaz de nomear mais que três outros grupos do gênero que vinha dominando o mundo.
  As noticias que escutava vez ou outra, porém, tinham certo padrão, especialmente aquelas que tinham como foco o líder do grupo, Kwon Jiyong. Ele estava sempre namorando alguém, ou de olho em alguém, suas músicas eram sempre sobre alguém... Enfim, era um homem apaixonado.
   Ela nunca realmente refletiu sobre tais noticias, não o suficiente para decidir se acreditava, mas começava a entender porque obtinham um buzz tão grande. Jiyong tinha um brilho diferente nos olhos, e o sorriso... Céus. Ela não formara uma opinião sobre seu caráter ainda, mas tudo que ele dizia e fazia parecia tão sincero. Era exatamente o tipo mais difícil de resistir.
  — Você estava dizendo... ? — ela, por fim, cedeu. Não tinha certeza do que estava fazendo, mas era mais forte que ela. Querer conhecer Jiyong era mais forte do que ela.
  — A gente devia encarar que nosso destino é se conhecer e, bem, se conhecer... Você não acha? — ele sorriu de maneira levemente arteira para a garota, que mordeu a risada, não conseguindo, no entanto, conter o sorriso frouxo que escapou, firmando-se em seus lábios.
  — Eu não acredito em destino. — ela retrucou. — Acredito que Deus coloque em nossas vidas as pessoas certas para nos fazer crescer e enxergar quando Ele nos mostrar o caminho certo, mas não em destino. Nós temos escolhas, Jiyong.
  — Certo, mas como você sabe que não sou uma dessas pessoas? Que vai te fazer crescer e ver o caminho certo? — ele retrucou de pronto, arrancando uma gargalhada realmente deliciosa da garota. Jiyong gostou tanto do som que achou que, com a batida certa, poderia transformar em música. — Para de rir, estou falando sério! — ele reclamou, porém seu meio sorriso deixava claro que levava as próprias palavras tão a sério quanto ela.
   mordeu o lábio para conter a risada mesmo assim, balançando a cabeça e virando para lhe encarar um instante depois.
  — Você já faz isso sem realmente precisar estar na vida das pessoas, eu suponho. — ela, por fim, respondeu — Com a sua música. — explicou, diante do sorriso levemente confuso que recebeu.
  — Droga. — ele reclamou baixinho, mais para si mesmo do que para ela, fazendo os olhos de brilharem em divertimento. — Devia ter guardado o ouro pra mim, não é?
  — Se ia usá-lo para tentar conhecer garotas, então sim, provavelmente — ela retrucou, passando a usar o mesmo tom que ele. Como se também acreditasse na seriedade daquela conversa. Jiyong fez uma careta, balançando a cabeça como se estivesse muito frustrado.
  — O que eu faço agora, então? — ele quis saber, erguendo o olhar para encarar a garota. Seus olhos escuros brilhavam sob a luz da lua e deixaram sem ar por um instante. Caramba. — Digo, se você fosse eu e quisesse conhecer essa garota que sempre vê por aí na empresa, que parece estar sempre fugindo de você, o que você faria? Para que ela parasse e lhe desse alguma atenção?
   arqueou as sobrancelhas, desacreditada, e então riu baixinho.
  — Eu estou aqui conversando com você, não estou? — ela retrucou — Já tem minha atenção, Jiyong-ssi.
  — Só Jiyong. — ele corrigiu, mal tendo tempo de sentir as borboletas vibrarem no estômago simplesmente porque a barreira que a formalidade que vinha no modo como ela dissera seu nome trazia consigo um gosto amargo que tomava todos os cantos da boca de Jiyong.
  — Só Jiyong. — ela concordou, desistindo de lutar contra ele. Provavelmente se arrependeria depois, mas naquele momento, diante do sorriso que ele deu a ela em resposta, pareceu a coisa certa. pensou que poderia concordar com ele e fazer tudo que ele quisesse a vida toda se ele fosse continuar sorrindo daquele jeito.
  E, bem, Jiyong finalmente sentia as borboletas no estômago, fazendo uma verdadeira zona em sua barriga enquanto ela lhe abria um pequeno sorriso em resposta ao dele. não sabia daquilo, e ele nunca chegou a falar, mas seu sorriso tinha exatamente o mesmo efeito sob ele que o dele tinha sob ela.

Dias Atuais

  Depois daquilo, Jiyong e passaram a ter conversas como aquelas, ou mais intimas, sempre que se viam. Em algum momento, ele pediu o telefone dela, e os dois passaram a ter conversas parecidas quando se viam também. Era fácil para Jiyong falar com ela, não parecia esperar nada dele, mas ainda assim, tinha aquela curiosidade crescente sobre ele, uma vontade que nem ele poderia ignorar de conhecê-lo. Talvez ele fosse realmente bom em cativar as pessoas.
  O problema todo veio quando notou o que sua vida pública faria com . Ela tinha uma vida tranquila e gostava daquilo, gostava de produzir músicas para aquela empresa pequena na qual o BIG BANG acabara de chegar, gostava de ir para casa e dormir abraçada no seu gato Heechul, gostava das calmarias das manhãs silenciosas dos fins de semana, quando podia acordar na hora que quisesse e ninguém estava lá para atrapalhar sua rotina.
  E, acima de tudo, gostava de nunca na vida ter precisado usar aquelas mascaras que coçavam e escondiam o rosto quase todo. Aquelas mascaras já eram parte integrante de quase todo o guarda-roupa de Jiyong. E foi assim que ele entendeu que não podia dar a ela o que ela precisava, por mais que quisesse. Queria, e podia, lhe dar tudo, menos aquilo. Menos a vida tranquila que ela sempre prezou.
  Restava para ele ir dormir sentindo falta dela, absolutamente todos os dias. Nem sempre era aquela primeira noite que voltava a sua cabeça quando fechava os olhos, mas era sempre uma que passara com ela. era sempre sua protagonista.

+++

  Jiyong estava exausto quando entrou no avião, horas atrás.
  Havia se aconchegado em sua poltrona no avião da melhor forma possível, escondido entre seu cobertor e a almofada de apoio para o pescoço, além do chapéu e da mascara. Ele sempre fazia seu melhor para não ser reconhecido em seus vôos, afinal, bem ou mal, era o melhor momento para ele dormir. Bem no meio do fuso-horário.
  Jiyong havia cumprido sua agenda em Toronto e estava voltando para a Coréia, já com o corpo dolorido depois de tantas horas dormindo de mau jeito naquela poltrona que, apesar de toda sua tecnologia, nunca seria confortável o suficiente para um sono digno, não importava o quanto tentassem. Ele só estava parcialmente acordado quando seu manager lhe arrastou em direção ao carro que lhes esperava no aeroporto, de modo que até mesmo os gritos das fãs no lobby do aeroporto soaram distantes demais e ele só acordou por completo quando seu manager lhe deixou na casa de Youngbae.
  — Por que estamos aqui? — ele perguntou, coçando, confuso, os olhos enquanto o manager abria a porta do carro para ele. Ele não se lembrava de ter marcado nada com Youngbae.
  — Eu sabia que ele estava mentindo, droga — o manager reclamou, rolando os olhos, e Jiyong franziu o cenho, confuso.
  — O quê?
  — Youngbae mandou mensagem pedindo para que eu trouxesse você direto pra cá. — retrucou, curvando-se como quem pedia desculpas em seguida. — Eu devia ter confirmado com você, desculpe Sr. Kwon...
  Jiyong balançou a cabeça, indicando que ele não tinha motivo para se preocupar, e apertou a campainha da casa onde seu velho amigo morava, bocejando em seguida.
  — Está tudo bem, é só o Youngbae. Você pode confiar nele. — falou por fim, enquanto esperava que o amigo abrisse a porta, porém foi quem o fez e Jiyong estreitou os olhos assim que a viu, despertando por completo e entendendo o que acontecia. — Nela, você não pode, Nam.
  O manager que trabalhava com Jiyong há anos estava de férias, acabara de ter uma filhinha e indicara um colega a Jiyong. Nam ainda estava pegando o jeito com alguns detalhes.
  — Ei! — a garota reclamou, ofendida, mas ele já ria e ela apenas rolou os olhos, fazendo sinal para que entrassem. Jiyong fez que não.
  — Nam, você pode ir. Descanse um pouco, eu estou de folga hoje. — o mais velho murmurou para seu manager, que assentiu e se curvou para a frente antes de dar as costas, deixando-o sozinho com . — Cadê o Youngbae, hein?
  — Aqui dentro, aqui dentro... — ela retrucou, seguindo para dentro e Jiyong rolou os olhos, entrando e fechando a porta atrás de si.
   e Youngbae estavam juntos há pouco mais de seis meses, mas pareciam anos. Até mesmo os outros membros do grupo já a consideravam parte da família, a tratando como se a conhecessem a anos também. Jiyong a considerava uma mistura divertida de Youngbae com Seungri, o maknae do grupo. Ela tinha todas as características de humor do mais novo, que estava sempre fazendo drama com besteira e piadas bobas, mas também tinha o melhor lado de Youngbae em si, a calmaria e tranquilidade que contaminavam todos ao seu redor. Era tão adorável quanto detestável.
  A pior parte, no entanto, era sua amizade com , que foi quem apresentou a garota a Youngbae. sempre sabia como estava e Jiyong nunca resistia a perguntar.
  — Ei. — Jiyong cumprimentou Youngbae quando o viu sentado no sofá, com o celular em mãos. Ele desviou o olhar do aparelho e se levantou, abraçando o mais novo e perguntando sobre Toronto. os deixou conversar por exatamente um minuto, então interveio.
  — Ok, vocês se vêm todo dia, eu não tenho tempo pra isso — reclamou, arqueando as sobrancelhas quando os dois lhe encararam com confusão no olhar — O quê? É verdade, eu vou pra China finalizar minha especialização daqui há dois dias. Não tenho mesmo tempo.
   trabalhava com tradução, era aquilo que fazia para pagar as contas, mas suas pesquisas ao redor do mundo eram todas voltadas para mulheres, para o feminismo. Era o que ela amava fazer e todos os seus cursos de especialização tinham apenas aquela intenção: Lhe ajudar a crescer naquele pequeno oásis e ajudar o máximo de mulheres possível.
  — O que você tá querendo, hein? — Jiyong perguntou, sentando-se de frente para o casal um instante depois de sentar ao lado de Youngbae no sofá.
  — Que você pare com a palhaçada, ué. Amanhã é a noite de estréia da na galeria de artes, você devia ir.
  — -yah...
  — Não, escute, eu conversei com o Youngbae sobre isso — ela o interrompeu, tentando fazê-lo lhe escutar antes de negar e Jiyong desviou o olhar para Youngbae, como se perguntasse se aquilo era verdade. O mais velho assentiu.
  — Eu concordo com ela.
  — Que eu devia ir?
  — Jiyong, você está miserável. E eu via você com ela, podem não ter chegado a ter nada, mas teriam sido perfeitos juntos. Ela gostava de você também.
  — Gosta, no presente — retrucou, olhando feio para o namorado, que riu e pediu desculpas, fazendo sinal para que ela assumisse. limpou a garganta e Jiyong rolou os olhos, se perguntando se ela tinha que ser daquele jeito. Era exatamente o tipo de coisa que Seungri faria, afinal. — Jiyong, está chateada. Você simplesmente sumiu e fazia bem a ela. Ela está confusa e chateada, mas acredito que tudo vai ficar bem se você for sincero. Vocês só precisam conversar. E você aparecer na estréia seria ótimo, leve flores e seja você mesmo. Ela já está apaixonada, de qualquer forma.
  — Espera, espera... Apaixonada? Ela disse isso? — Jiyong perguntou, surpreso. As borboletas, que não sentia a tanto tempo, voltavam com toda a força.
   apenas deu de ombros.
  — Ela é minha melhor amiga, tem coisas que não precisa dizer.
  Jiyong suspirou.
  — , isso é sério. Eu não vou lá se isso só for piorar as coisas.
  — Não vai. — a mais nova retrucou, sustentando o olhar sério dele. parecia tão certa do que dizia, tão absolutamente firme quanto a própria posição que ele não pôde deixar de se contagiar um pouco. Quando não a detestava, ele queria abraçá-la com toda força, céus. — Eu garanto, não vai.
  Ele ia abraçá-la.
  Youngbae acabou rindo enquanto gritava, no instante em que Jiyong se pôs de pé a puxou para si, abraçando a garota com tanta força que seus ossos doíam.
  — Kwon Jiyong, me solta agora! Youngbae! — ela gritava em meio aos tapas que distribuía no garoto, que apenas riu antes de lhe botar no chão.
  — Eu vou. — ele prometeu, curvando-se em agradecimento e levando o tapa na nuca assim que o fez. Jiyong riu outra vez por isso, assentindo com a cabeça para Youngbae, que espelhou o ato, e então acenando para o casal, saindo com pressa dali.
  Precisava de uma boa noite de sono se ia fazer aquilo, afinal de contas.

+++

  Jiyong segurava um buquê simplório de rosas em uma mão, com apenas três rosas envoltas no plástico que embrulhava seu caule de maneira elegante. Ele sabia que não tinha sentido levar para um buquê enorme de flores, não combinava com ela e seu espírito que apreciava tanto as coisas simples. Ele, que também aprendera a amar o simples, combinava.
  Seu coração batia forte no peito quando entrou na galeria, que estava cheia de gente, alguns conhecidos de Jiyong, outros não. Ele cumprimentou algumas pessoas, mas passou pela maioria apenas pedindo desculpas, varrendo o lugar com os olhos em busca de .
  Quando a viu, prendeu a respiração sem que sequer notasse.
  Céus, ela estava linda.
   tinha o cabelo preso de maneira elegante, em harmonia perfeita com o vestido preto que parecia expor toda a região de suas costas. Os saltos também eram pretos, mas seu corpo ou cabelo passavam longe de ser a parte favorita de Jiyong. Ele estava vidrado em como seus olhos brilhavam e ela não parava de sorrir.
  Tão bonita. Esplendida, até.
  Esfregando a mão livre na calça para tentar o secar o suor, Jiyong caminhou em direção a garota. Suas pernas pareciam estar bambas e era estranho precisar concentrar-se para fazer algo tão natural quanto andar, mas foi o que ele precisou fazer. Um passo depois do outro, pés tocando firmemente no chão, e nenhuma pressa. Exceto que, bem, ele estava com pressa. Tanta pressa. Só queria chegar até ela e abraçá-la, antes mesmo de falar qualquer coisa. Só precisava abraçá-la.
  — Jiyong-ssi — a garota murmurou, surpresa, assim que o viu se aproximar e algo dentro dele murchou. Precisou repassar a conversa com na cabeça para ter coragem de continuar, sentindo-se ser esmagado sem precedentes pela barreira que o honorifico em seu nome criava.
  — Só Jiyong.
  Ela sorriu minimamente, assentindo.
  — Só Jiyong. — concordou — Eu não esperava ver você aqui hoje.
  — ... disse que eu devia vir — ele murmurou — Eu não estava planejando, não achei que você quisesse me ver.
  — Eu queria. — ela retrucou, e as borboletas voltaram a se mover de maneira violenta no estômago do cantor. — Na maior parte do tempo, quero te ver só pra dizer o quão idiota você foi. Mas também quero muito te abraçar. Eu sinto sua falta. — ela murmurou, com uma expressão triste, e Jiyong se sentiu mesmo o maior idiota de todos, ainda que ela não houvesse chegado a expressar o quão idiota ele foi.
  — A gente pode conversar num lugar mais calmo quando você estiver livre? — ele pediu, quase numa suplica — Eu espero.
   assentiu, fazendo sinal para que o garçom se aproximasse e servisse uma taça de champanhe a Jiyong.
  — Eu volto. — ela prometeu e ele assentiu, só notando que ainda segurava o buquê que planejava lhe dar quando ela se foi.
  Era mesmo um idiota.

...

  Quando voltou, Jiyong lhe esperava sentado no bar. Ele não bebera, sequer bebera a primeira taça que lhe fora servida, estava muito nervoso pra isso.
  Ele dera uma volta pelo local, admirara cada um dos quadros, lembrando-se de já ter visto alguns, em processo de criação, e então se sentou para esperar pela garota. Ele não sabia se tinha o direito, mas sentia orgulho dela, vendo aquele cenário tão bonito, tão vibrante quanto ela. Suas artes eram a coisa mais bonita que Jiyong já vira, depois dela em si, e ele estava satisfeito que ela houvesse conseguido fazer aquela noite acontecer. Jiyong sabia, afinal, que podia amar a vida como produtora musical, mas era aquilo que fazia sua pulsação acelerar: seus quadros.
  — Estou livre. — ela murmurou ao se aproximar e ele sorriu fracamente, assentindo e se pondo de pé, lhe entregando o buquê de rosas que ainda segurava.
  — Eu trouxe para você.
   olhou para o buquê por um longo instante antes de aceitar, erguendo novamente o olhar para ele.
  — A vista lá em cima é bem bonita. — falou — Você quer ver?
  Jiyong assentiu e ela lhe guiou pelas escadas de incêndio até o terraço da galeria, onde, de fato, a vista era incrível. Mil vezes aquela vista que o quarto de hotel em Toronto, onde ele sequer fora capaz de dormir direito, pensando nela.
  — -yah... — ele começou, baixinho — Me desculpe. Por ter me afastado como eu fiz, me desculpe. Eu achei que seria melhor pra você, achei que se envolver comigo acabaria lhe fazendo mal, você poderia se machucar...
  — Então, você decidiu por mim? — ela retrucou, ácida e ele quase se encolheu — Isso me machucou.
  — Me desculpe. — ele pediu outra vez, como se não soubesse o que mais falar. Exceto que sabia, e tinha que falar. Jiyong respirou fundo, buscando coragem para ir em frente. — -yah, meu trabalho é parte de quem eu sou, eu amo fazer música e provavelmente sempre vou ter uma vida pública, mas não posso pedir que você aceite fazer parte disso e... 
   balançou a cabeça, aproximando-se dele e fazendo com que Jiyong se calasse e ajeitasse a postura imediatamente, sentindo o coração bater forte demais contra sua caixa torácica, que não era lá das mais fortes. Faltava tão pouco pro coração atravessar seu peito.
  Sem que ele esperasse, no entanto, jogou os braços ao seu redor, lhe abraçando forte e Jiyong levou um instante para recuperar os sentidos e lhe abraçar de volta, apertando-a com força contra si, sentindo-se ser imediatamente inebriado pelo perfume tão singular da garota. Céus, como sentira falta daquilo.
  — Nunca mais faça isso. — ela ordenou, afastando-se para encará-lo e Jiyong assentiu imediatamente, sorrindo quando ela voltou a enterrar o rosto em seu pescoço, lhe abraçando. Então, era aquilo? Estava tudo bem?
  — -yah, você... Você me perdoou? — ele perguntou, se afastando para encará-la, com medo que o alivio se dissipasse quando ela respondesse, mas sabendo que precisava perguntar. Precisava saber.
  Ela sorriu.
  — Não foi só com você que a falou. — Jiyong sorriu, balançando a cabeça e xingando baixinho, o que fez rir.  — O jeito que você leva a sua vida não é um segredo, Jiyong, é parte de quem você é e eu nunca vi como um problema impossível de lidar, você quem viu. Eu posso te perdoar se prometer conversar comigo quando achar que algo está errado de agora em diante. Você promete?
  O cantor concordou com a cabeça e lhe surpreendeu pela segunda vez na noite, ficando na ponta dos pés e lhe roubando um beijo na boca. Ele segurou sua cintura imediatamente, tentando lhe dar algum sustento mesmo que mal houvesse encontrado sustento para si quando ela aprofundou o beijo.
  E não podia ter havido momento ou lugar melhor para um primeiro beijo dos dois. Ali, sob a luz das estrelas, tudo estava perfeito.
  Afinal, os dois tinham uma coisa pelo céu.

FIM

  Oie!
  Essa fic foi inspirada na música “If i can’t have you” do Shawn Mendes, escrita especialmente pro especial de Songfics aqui do site. Espero que vocês tenham curtido e, por favor, comentem!
  Xx.