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#016 Temporada

Forget The Lies
Quietdrive


  

Todas as Mentiras

Escrita por Nicole Manjiro | Revisada por Songfics

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  Soltei o ar, que saiu em forma de fumaça. O inverno começava a dar sinais de sua chegada, mesmo ainda sendo pleno outono.
  Encarei a estrada vazia, sem nenhum sinal de que alguém passaria por ali tão cedo. Era por isso que eu gostava dali. Deitei a parte do meu corpo que permanecia sentada e encarei o céu consideravelmente claro. Na noite anterior, cientistas disseram na TV que a lua estava mais próxima da Terra e as estrelas brilhavam mais, dando um aspecto de noite clara.
  Suspirei mais uma vez e bebi outro gole da bebida, xingando ao sentir o líquido escorrer mais para fora da minha boca, do que para dentro. Beber deitado nunca foi uma boa ideia, por isso, voltei a me sentar. Limpei o líquido da roupa da melhor maneira que consegui, mas não fez muita diferença. O cheiro do gin já havia impregnado.
  Soltei uma risada sem humor ao lembrar do que minha turma da universidade havia dito sobre minha preferência com o álcool. Gin nem poderia ser considerado uma bebida alcoólica, eles disseram.
  – É bebida de mariquinhas.
  – Então até que faz sentido o curtir. Ele é um maricas perdedor.
  E todos riram. Eu ri. Mesmo querendo responder a eles que o teor alcoólico do meu min era dez vezes maior do que a cerveja podre que eles bebiam, me mantive calado e ri junto, como se concordasse que eu era um maricas perdedor.
  Talvez eu fosse.
  Ninguém nunca disse o contrário.
  Mordi um pedaço do lanche que havia comprado, porque, para variar, sou estúpido demais para ficar bêbado de estômago vazio, mesmo sendo essa a coisa certa a fazer. Quero sentir a dor que o álcool trás na ressaca, mas não o suficiente para ser o tipo de ressaca causada por uma embriaguez de estômago vazio.
  Meus colegas estavam certos. Talvez eu fosse mesmo um marica.
  Fechei os olhos ao sinal brilhante de dois faróis entrarem no estacionamento do posto. Uma vez ou outra um veículo parava, a fim de abastecer o carro ou usar o banheiro da loja de conveniência, comprando alguma coisa para não precisar pagar para usar aquele cubículo imundo, mas mais acessível do que uma moita.
  – Me disseram que você estaria aqui.
  – Ah… - bufei, reconhecendo o dono daquela voz.
  Ou melhor, A donA.
  A capota da minha caminhonete mexeu e logo senti sua presença sentada ao lado da minha.
  – Gin? - ela riu. – Você consegue ficar bêbado com gin?
  – Você não?
  – É claro que sim. Eu fico bêbada com qualquer coisa que me der. Até Coca-Cola. - brincou, o que obviamente me fez sorrir, porque era verdade. Ela era ainda mais marica do que eu. – Qual o aborrecimento da vez?
  – Minha vida?
  – E qual a novidade?
  Suspirei de novo, desta vez de cansaço.
  – Você sabe.
  Eu sabia que ela sabia. Ela sempre sabia, porque todo mundo sempre ia contar tudo para ela. Mesmo quando ela não estava na cidade, ela sabia das coisas. Era o lado bom de ser querida por todos. Todos pareciam querer chamar a atenção dela com algum papo furado.
  – Você precisa se dar mais valor.
  Dei outro gole no gin.
  – De quem é a caminhonete? - ela olhou ao redor. Ergui os ombros. – Você está sentado no carro de alguém que não conhece? - exclamou. – !
  – Eu vim pelo silêncio.
  Sabia que aquilo provavelmente deixaria qualquer um ofendido. Eu a estava mandando calar a boca.
  Mas ela não disse mais nada, porque era assim como ela era. Era assim como era. Ela sabia exatamente como agir e o que falar. Por isso, se calou e voltou a se sentar do meu lado. A vi pelo meu campo de visão periférico que seus braços foram cruzados em frente ao peito, em um modo de abraçar-se e proteger-se do frio.
  – O que eles falaram? - ela quebrou o silêncio depois de um longo tempo.
  Mexi os ombros, como se quisesse dizer que não era importante, mesmo sendo.
  – Para onde você vai?
  – Para casa.
  – Que casa?
  Não respondi. Essa era uma resposta que eu também queria saber.
  Já fazia alguns anos desde a última vez que vi meus pais. Eles não sentiram a necessidade de se responsabilizarem por mim, quando eu lhes disse que estudaria engenharia da computação em outro Estado. Eles tampouco se importaram em pagar os custos da minha moradia ou oferecer qualquer ajuda. Trabalhei feito um condenado para pagar uma pensão de merda, e estudei feito um camelo para manter a minha bolsa de estudos. Quando me formei, comecei a trabalhar em uma agência grande em São Francisco, o que me fez pensar que eu finalmente estava colhendo os frutos de toda a merda que foi minha vida desde então.
  E agora, um ano e meio depois, fui demitido porque eles preferiam contratar um trainee. A porra de um moleque dois anos mais novo que acabou de sair da faculdade, mas que lhes custaria uma despesa bem menor do que me manter.
  – O Denis também foi demitido na semana passada. – comentou, chamando minha atenção. Denis era o imbecil do meu colega que adorava me chamar de maricas no tempo da faculdade. Por causa dele, recebi uma advertência do professor por ter colado em sua prova, mesmo não tendo colado porra nenhuma. – Ele estava desesperado.
  Queria poder dizer bem feito, mas esse não é o tipo de pessoa que sou, o que às vezes me deixa bastante incomodado comigo mesmo.
  – A namorada está grávida.
  – Ah.
  – Pois é… parece que os pais dela abriram mão da filha. Que pais faz isso com um filho?
  – Vários.
   se calou, pois deve ter percebido no calo de quem estava pisando.
  – Desculpe.
  Ergui a mão, como se pedisse para ela não se importar. Meus pais não significavam nada para mim. Apesar disso, todo mês eu mandava um dinheiro para eles, porque achava que era isso o que os filhos deviam fazer para as pessoas que os colocaram no mundo. Mesmo não estando muito feliz com a vida.
  Nunca recebi um e-mail de agradecimento. Tampouco recebi uma ligação com um pedido de desculpas.
  Entretanto, também não recebi um e-mail de cobrança, quando deixei de depositar um mês. Não sabia nem se o dinheiro estava sendo usado. Mas que se dane. Depois que eu o depositava, dizia para mim mesmo que era melhor esquecer que um dia tive aquele valor.
  – De qualquer maneira, ele começou a trabalhar num bar. – ela continuou a falar. – Não quer ficar parado, porque disse que quer comprar uma casa para a namorada. Vão se casar em cinco meses. Me perguntou se você viria, mesmo ele tendo sido um merda com você.
  – Ele faz questão da minha presença?
  – Denis mudou.
  – Pelo visto, muita gente mudou.
  – A vida adulta faz a gente perceber que algumas coisas devem ser deixadas para trás, e outras serem resolvidas para seguir em frente.
  Abri um pequeno sorriso e olhei para . Ela olhava para frente, como se estivesse assistindo à televisão. Era pequena, mas nem tanto. Muitas garotas pareceriam pequenas perto de mim. Tenho quase 1,93cm. Ela devia ter em torno dos 1,63cm. Seus cabelos ondulados, que ela dizia estar sempre armado, estavam presos em um rabo baixo.
  Eu e somos amigos de universidade. Um dia, fui numa festa da fraternidade e acabei beijando ela sem sua permissão. Foi meu primeiro tapa na cara.
  Foi o primeiro tapa que ela deu em um cara também. Nós dois rimos depois e nos tornamos amigos porque não é todo dia que uma garota te dá um tapa e ri da sua cara como se fosse sua amiga. também disse que não é todo dia que um garoto toma um tapa depois de dar um beijo em uma garota, e acha engraçado sem ser ofensivo.
  Apesar de sermos amigos próximos, eu e nunca fomos de andar juntos. Mandamos mensagens quando lembramos do outro - o que pode ocorrer a cada dois ou três dias - e geralmente nos encontramos quando não tem ninguém por perto, porque é mais divertido curtir a presença do outro. Além disso, cuida de mim como se fosse minha irmã, e eu a protejo da maneira que consigo.
  Por causa dela, parei na polícia cinco vezes e fui perseguido dezenas de vezes mais.
  Ela costuma ter bastante mau gosto com suas escolhas amorosas.
  – O que você percebeu que tem que deixar para trás? - perguntei.
  – Meus ex.
  – Boa garota.
  Recebi um empurrão e algumas risadas em resposta.
  – E você? O que acha que deve deixar para trás?
  Não respondi de imediato, porque não sabia o que dizer. Eu queria deixar muitas coisas para trás, mas não sabia por onde começar. Além disso, também queria poder dizer que não tinha muito o que desapegar, mas a verdade é que sou uma pessoa que não se desapega facilmente, principalmente das lembranças.
  – Eu acho que você deveria deixar para trás todas as mentiras que você ainda acredita serem verdade. - de repente falou.
  Olhei para ela, confuso.
  Ouvi seu suspiro e então seu rosto virar para mim e responder:
  – Você não é um perdedor, . Tampouco é um retardado. - ela fungou o nariz. – Na verdade, acho que você é um gênio. Seus pais foram idiotas de te deixarem à deriva sozinho e você deveria parar de mandar dinheiro para eles. Seus amigos do colégio são todos imbecis que precisam derrubar outra pessoa, para poderem se sentir vitoriosos. Bloqueie o número deles para que não te chamem para aquelas reuniões ridículas de colégio.
  “Pare de falar com a Anna. Aquela garota só quer te usar porque você é o tipo ideal de todas as amigas dela e várias outras garotas. Só você não enxerga o cara legal que você é. Aquela plastificada sabe que não tem nada de bonito, por isso gasta uma grana mudando o exterior, quando é o interior que ela tem que mudar. Não pague mais consultas para ela, você não deve ser patrocínio de ninguém. É mais barato pagar uma puta.”
  – Você quer que eu contrate prostitutas?
  – O que tem? O Lucas disse que elas são bem melhores do que aquelas frangas da turma da Anna!
  Soltei uma risada nasalada, porque era tudo o que eu conseguia no momento. Olhei com interesse para Anna, porque ela parecia bem imersa no momento de desabafo.
  – Aquele seu chefe merdinha também não sabe o que perdeu. O VJ disse que aquela mega empresa de tecnologia está com algumas vagas abertas na sua área. Manda logo seu currículo pra lá e, quando entrar, cuspa na cara daquele ex-chefe de merda que fazia você trabalhar 24h por dia, de segunda a segunda. Você vale cada centavo que ganha. E pare de ficar sempre depressivo! Você tem um coração muito mole! Precisa acreditar mais em você, e não nas mentiras que todo mundo conta!
  Fiquei calado esperando ela terminar. Seu peito subia e descia com a raiva que havia acabado de expor.
  – ‘Ta sorrindo por quê?
  – Porque gosto de você brava.
  – Você tem um dom com isso. - ela volta a se sentar do meu lado. – Mas estou falando sério.
  Sorrio e a puxo de leve, mas forte o suficiente para conseguir embrulhá-la em meus braços.
  – Obrigado. - murmuro em seu ouvido, afundando meu rosto no dorso de seu pescoço. Aquele era um espaço muito reconfortante para mim. sempre estava perfumada com um cheiro doce.
  – É difícil desapegar do passado, . Mas você precisa começar a trabalhar nisso, ou esse problema vai te consumir. - ela murmurou.
  – Eu sei. - disse, abafado.
  – Termina de beber essa porcaria logo. To morrendo de frio.
  – Você pode ir na frente.
  – Você acha que algum Uber vai chegar aqui para te pegar? Deixa de ser idiota. - ela me abraçou com força. – Vamos pra casa.
  Me afastei o suficiente para poder enxergar em seus olhos a certeza de que as coisas melhorariam dali pra frente. tinha esse dom de garantir o melhor para as pessoas, mesmo estando passando pelo pior. Mas ela tinha razão. Eu tinha várias coisas para deixar no passado, se quisesse começar a viver o meu futuro. E iria dar tudo certo, porque eu tinha uma amiga para garantir que eu não saísse do rumo.
  – Vamos. - respondi, me levantando e a puxando para fazer o mesmo.
  – Para onde?
  Pulei da caçamba da caminhonete do dono da loja de conveniência. Ergui os braços para ajudá-la a descer.
  – Para casa. - completei.
   sorriu e me deu dois tapinhas nas costas, indo em direção ao seu carro.
  – Bom garoto.

FIM