The Ranch

Escrito por Ray Dias | Editado por Lelen

Tamanho da fonte: |


Temporada #01
Episódio Piloto

  Demetria estava na porteira do Rancho Bennett ao lado de Galo, Beau e Maggie Bennett. A família despedia-se de Colt, o filho mais novo que havia decidido deixar o Texas para ser um astro no futebol americano.
  — Ok, Dementadora…  — Galo falou, fazendo piada com o nome da jovem, super fã da saga “Harry Potter”.
  Na verdade, o nome de Demetria era motivo de bullying pelos irmãos Bennett desde a infância, e mesmo após adultos, os rapazes insistiam em chamá-la por seu nome somente quando queriam irritá-la. Galo era o único que lhe adotou o apelido de “dementadora” porque dizia que Demetria sempre dava um jeito de acabar com as alegrias dele. Apesar de amigos, os dois viviam uma implicância considerável um contra o outro desde sempre, quase como se fossem irmãos. Felizmente, para ambos, não eram.
  — Só por hoje, eu abro uma exceção e deixo você chorar suas pitangas no meu colo, ok? — Galo suspirou ao concluir o que diria, tocando o ombro da mulher.
  — Andou tomando aquela porra de bebida estranha que o meu pai insiste em dizer que é uísque, Galo? — Demi, como preferia ser chamada, sacudiu o ombro para tirar a mão dele dali enquanto o Sr. e a Sr.ᵃ Bennett os observava.
  — Só estou dizendo que, agora que o seu namoradinho foi embora, você não precisa se sentir solitária. Apesar do seu gosto duvidoso por homens afeminados, eu posso te mostrar coisas que o Colt jamais mostraria. Coisas de um homem de verdade!
  Beau Bennett coçou a nuca e vestiu seu chapéu de cowboy, sorrindo ladino e apontando para Maggie, indicando que deveriam entrar e deixar que Demi batesse em Galo sem os estressar.
  — Vá se foder, Galo! — Demi respondeu malcriada. — Colt não é meu namorado, nunca foi!
  — Mas ele tirou a sua virgindade, não foi? — Galo comentou rindo maldoso e levou uma cotovelada da mulher em seguida.
  Demi virou-se para entrar na casa dos Bennett.
  Apesar de seu pai, Sam Peterson, nutrir uma rivalidade há alguns anos com Beau, ela sempre esteve convivendo com os rapazes da família Bennett. Anos antes, inclusive, descobriu realmente o que era sexo com Colt Bennett, motivo pelo qual o pai dela sempre atirava contra o garoto quando ele pisava nas terras deles. Nunca acertou um tiro, mas servia para assustá-lo. No entanto, Colt e Demi nunca namoraram de fato. Estavam mais para “amigos adolescentes com benefícios”, até porque, à medida que cresciam, suas famílias se afastavam mais e tudo ficou ainda mais vago após a morte de sua mãe, Laci Peterson.
  Ela aproximou-se da bancada da velha cozinha dos Bennett, deparando-se com Beau e Maggie abrindo algumas latas de cerveja.
  — Você quer comemorar com a gente pela partida daquele vagabundo? — Beau perguntou, risonho, para a jovem.
  Beau era um homem bigodudo, másculo e tradicional. Um típico fazendeiro norte-americano cheio de sarcasmo, piadas infames e rabugices, no entanto, tinha um coração de ouro escondido em camadas de grosseria. Tratava aos filhos como se eles fossem inúteis — bem, na maioria das vezes eles eram —, mas o Sr. Bennett nunca deixou de ser gentil e respeitoso com uma mulher. Era um homem absolutamente charmoso em toda a sua virilidade. Maggie parecia o par perfeito para ele, embora fosse totalmente o avesso de Beau. Ela era o que poderia se considerar uma espécie de hippie country, e também o elo que suavizava as relações da família, como tentou fazer ao dizer em resposta ao comentário que Beau acabara de falar:
  — Por Deus, Beau! O seu filho só está indo atrás dos sonhos dele!
  — Bela bosta… Sonhar em correr atrás de uma bola se engalfinhando com um monte de machos. Se ao menos fosse beisebol…
  — Não sei por que não se conformou ainda, pai! — Galo disse abrindo uma latinha também. — Ele é o afeminado da casa, apesar da Demi estar aí para dizer se ainda há alguma salvação para o Colt.
  — Você ainda não foi se foder, Galo? — Demi respondeu aceitando a cerveja que o senhor Bennett lhe ofereceu e olhou respeitosa para a mãe de Galo, dizendo: — Desculpe, Maggie.
  — Tudo bem, se eu me importasse com cada vez que alguém manda um dos meus filhos irem se foder… Bem, Beau faz isso desde que eles aprenderam a falar.
  A ironia travestida de julgamento que a senhora de olhos azuis, cabelos soltos cacheados e sem qualquer penteado, soltou, fizera Beau dizer em tom definitivo:
  — Maggie, não fui eu quem expulsei o Colt daqui.
  — É, e também não o apoiou na decisão de ir embora. Ele saiu daqui após uma discussão desnecessária… Você sempre foi assim, Beau! Quer que as pessoas larguem os seus sonhos para viver neste rancho com você para sempre?
  — Ora, eu não coloquei uma arma na sua cabeça, ou coloquei? — o fazendeiro perguntou para ela, sarcástico.
  — Pai, mãe… Chega disso. Vamos beber e comemorar que agora tenho um quarto só meu e vou herdar o rancho sozinho — Galo falou sacanamente.
  — Bem, só nos resta torcer para as coisas darem certo para ele — Demi comentou. — Eu nunca imaginei que o bunda mole do Colt teria coragem de abdicar o fadado destino de ser fazendeiro para ir atrás da sua ideia de fama… E aqui estamos nós, bebendo depois de realmente vê-lo sair naquela picape…
  — Ainda tem isso… O vagabundo levou meu carro — Beau reclamou rindo.
  — Demi… — Maggie de repente mudou o assunto, enquanto todos bebiam sentados na sala e ela trazia da cozinha um prato de petiscos de carne seca. — E como estão as coisas na sua casa? Sam está conformado com a sua partida também?
  — Bem, Sr.ª Bennett, conformado sim, satisfeito nem tanto. Sem a mamãe ele ficaria solitário se não fosse por mim na fazenda… E claro, Colt indo até lá escondido para tomar umas balas na bunda… — ela disse e todos riram. — Mas o papai sabe que preciso ir. É uma faculdade, não tem jeito. Eu vou, mas volto para ajudar ele a tocar o rancho.
  — Não sei por que você tem que estudar para fazer algo que ele sempre fez com conhecimento prático! Eu não precisei de faculdade ou de nada do que aprendi na escola para ajudar o meu pai, e veja onde estamos! — Galo comentou em tom de superioridade, mas foi desarmado por Beau dizendo:
  — É… Olha onde estamos: um filho analfabeto de vinte e poucos anos que não coça o saco para sair das minhas terras. Nisso, preciso parabenizar o Colt, ele vestiu as fraldas dele e saiu sem pensar duas vezes. Levando a minha caminhonete, mas saiu.
  — Se tiver outra picape, eu saio, pai — Galo respondeu igualmente sacana.
  — Ok, Bennetts. Tenho que ir agora. Obrigada pela cerveja, Sr. e Sr.ª Bennett!  — Demi falou deixando a lata sobre a mesinha e se levantou. — Só consegui vir me despedir do Colt porque falei para o meu pai que iria comprar fogos de artifício para comemorarmos a partida de um Bennett da região.
  Os Bennett riram.
  — E ele caiu nessa? — Galo perguntou.
  — Disse que se eu demorasse muito, carregaria a espingarda e daria tiros para o alto sem mim — Demetria falou com humor e em seguida ouviram-se disparos ocos em terreno um pouco distante.
  — Então corra, querida, pelo visto ele começou a festa — Beau falou rindo e surpreendendo os demais ao dizer-lhe: — Ah! E antes de ir embora, me avise. Eu também quero cruzar a porteira para me despedir de você e implicar com o velho do seu pai, mas diferente dele, eu não vou soltar fogos e nem comemorar que ele ficará sozinho, ok?
  — Partirei em três dias, senhor Bennett. Obrigada pelo carinho de sempre! Quando eu voltar, serei a veterinária que fará as consultas dos seus animais, combinado? Exceto o Galo, esse… Prefiro que o velho Dale Rivers continue examinando.
  Maggie abraçou a garota acompanhando-a para a saída, enquanto Galo e Beau continuaram bebendo e falando de como iriam organizar o rancho agora que teriam uma mão a menos para ajudar.

Temporada #01
Episódio 1

Alguns anos depois.

  Beau Bennett entrou em casa prestes a dar uma bronca em Galo por não olhar o trator, sendo surpreendido com a notícia:
  — Olha só quem voltou para casa! — disse Galo levantando-se do sofá, assim como Colt.
  O filho caçula parecia receoso, apertando o boné em suas mãos e olhando para trás na direção da porta da cozinha onde seu pai entrava.
  — Que diabos é isso?
  — Colt voltou! — Galo sorria.
  — E o lance de futebol americano amador no Canadá? — Beau perguntou sem demonstrar muitas emoções.
  — Era semiprofissional, pai, eu estava jogando nos Saskatoon Cold.
  — Até o nome do time é de merda. — Beau julgou, olhando para o filho de cima a baixo, com ar de superioridade. — Mas você ainda não respondeu o que está fazendo aqui. Decidiu visitar e checar se o seu nome continua no testamento do rancho?
  — Pai, qual é… — Galo tentou intervir.
  Apesar da voz mansa de Beau, a insatisfação era notória na maneira como ele olhava para o filho.
  — Ah… Você deve ter vindo porque ficou sem dinheiro para pagar o advogado, depois de mostrar suas bolas para a Shania Twain… É, soubemos que foi preso por atentado ao pudor bêbado, Colt.
  — Vocês ficaram sabendo disso? Como as notícias correram do Canadá até o Texas? — Colt tentou fazer graça e seu irmão mais velho respondeu:
  — Saiu no jornal: “ex-jogador estudantil, Colt Bennett, mostra seu ‘Twain’ para Shania”.
  Beau sorriu sarcástico pela implicância do mais velho com o mais novo, e começou a zombar também, aliviando finalmente a tensão de reencontrar o filho.
  — Você não saía na primeira página desde a final da estadual, coloquei na porta da geladeira. Me impressiona as formas como consegue orgulhar meu nome, Colt.
  Colt vestiu o boné novamente e começou a contar para o pai e o irmão como aconteceu a sua prisão por atentado ao pudor, enquanto urinava em uma estátua de gelo do Wayne Gretzky. Ele e Galo divertiam-se em comentários bem-humorados e Beau encarava Colt com a expressão de um pai que já não se surpreende com tamanhas idiotices ditas por um filho marmanjo.
  Ao final da falácia inútil dos dois filhos, Beau, ainda encarando Colt com a mesma expressão de julgamento de quando abriu a porta e o viu, perguntou mais uma vez:
  — Tá fazendo o que aqui?
  — Ué, não posso visitar a família? — Colt respondeu disfarçando.
  — Seis anos atrás você veio com essa história de visitar, falou que queria largar o futebol e ajudar no rancho — Beau relembrou como se ainda estivesse o sondando.
  — Era meu aniversário e vocês brigaram o tempo todo — Galo completou.
  — Então, você saiu escondido de madrugada, levando daquela vez a caminhonete do seu irmão e deixando a porteira aberta… — Beau continuou.
  — Não foi minha culpa, pai! O Galo ficou correndo atrás de mim gritando “é a minha picape!”, eu não tinha como fechar a porteira!
  — Porra, é verdade! Primeiro levou o carro do papai, e depois o meu! Porra, Colt, e você sempre volta sem elas! O que fez com as duas caminhonetes?
  — A do papai… — Colt encarou Beau, com medo do que ia responder ao irmão — bati quando cheguei na fronteira… Longa história.
  — Sua mãe ficou puta comigo por três meses por tirar dinheiro da sua poupança para comprar aquela picape — Beau explicou. — Que se foda, foi você que desperdiçou aquele dinheiro, não eu.
  — Tá, mas e a minha? — Galo perguntou revoltado.
  — Vendi. Precisava de grana, foi mal.
  — Você é um filho da puta, Colt! — Galo esbravejou. — Fica longe da picape antiga do papai, ela pertencia ao vovô!
  — Sabe… Não devia me chamar de filho da puta, a minha mãe é a mesma que a sua. — Colt deu de ombros e notou o irmão dar as costas, chateado, voltando a beber.
  Beau continuou em pé, com as mãos na cintura como se analisasse a situação. Olhou para o filho, novamente de cima a baixo, notando-o como se fosse um falso playboy country até perceber as botas Uggs em seus pés, felpudas como patas de carneiro.
  — Que porra é essa no seu pé? — perguntou.
  — São botas.
  — Não, não são botas — Beau respondeu, como quem acabara concordando com Galo de que Colt era mesmo um afeminado.
  — São Uggs, pai. Botas australianas.
  — Isso aí é bota de mulher — o pai falou suspirando.
  — Mas o Tom Brady também usa.
  — É, o Tom Brady se livra de muita cagada — ironizou Beau.
  — Beleza, pai, quer saber? Você já tirou sarro da minha roupa, da minha carreira, da minha cagada… Quer tirar sarro de mais alguma coisa? — Colt falou, tirando seu boné virado para trás de sua cabeça, e ajeitando sua postura.
  — Corte de cabelo ridículo — Beau mandou na lata.
  Revoltado, o filho novamente colocou o boné do jeito que usava e foi pegar sua mochila dizendo ao irmão, e caminhando pela sala sem olhar para o pai:
  — Ok, foi uma péssima ideia! Não dá para ficar aqui, Galo, ele é impossível!
  — Ah, o Colt de sempre: “Não dá para ficar aqui, ele é impossível. Não dá para ficar nessa escola, o técnico só me deixa no banco. Não dá para namorar essa garota, ela não gostou dos chifres que botei nela” — Beau repreendeu com falsa calma, implicante, como se desafiasse Colt.
  O filho, no entanto, após pendurar sua bagagem nas costas, novamente se virou ao pai e desafiou junto:
  — Falando em não curtir chifre, pode me dizer como está a minha mãe?
  Galo largou sua cerveja na mesa e foi até os dois:
  — Isso aí, começando a ficar bom. Vou pegar mais uma cerveja e não troquem socos até eu voltar!
  Enquanto o irmão mais velho saía, Colt e Beau encaravam-se como os dois homens que eram apesar da diferença de idade, e dois homens que carregavam mágoas um do outro. Beau, engasgado com o filho por ter dito aquilo, respirou pausadamente e informou:
  — Não faça acusações de histórias que não conhece.
  — Então me conta a história, pai. — Se aproximou desafiante.
  — Não te interessa!
  — É isso aí! — Colt gritou revoltado. — Não me interessa porque eu não sou da família, não é? Agora sim!
  Deu as costas como se fosse sair e, Beau, preocupado e escondendo aquilo por orgulho, segurou o braço dele, o impedindo de dar mais um passo, perguntando:
  — Mas afinal, por que você voltou!?
  — Eu vim para fazer um teste para um time semiprofissional em Denver, e precisava de um lugar para passar alguns dias. Assim que eu entrar no time, eu caio fora!
  Beau não acreditava no que estava ouvindo. Por um segundo a fagulha de esperança de que o filho tivesse tomado juízo se apagou.
  — Tá de brincadeira com a minha cara, moleque? Continua correndo atrás desse sonho?
  — Pai, eu sou jogador de futebol.
  — Você não é jogador de futebol, Colt. Você sonha em ser jogador de futebol americano, e tem 34 anos! Quando vai acordar e começar a fazer algo real pela sua vida?
  — A minha idade você não sabe, mas a dele sim — Galo provocou escorado na bancada da cozinha.
  — Pai! 34 ainda é novo para ser quarterback!
  — Isso é o que você quer acreditar. E já se foram três pancadas na cabeça, das quais você sequer se lembra — Beau advertiu.
  — Já pensou que talvez você não esteja certo sobre tudo, senhor Beau Bennett? Você está errado quanto a mim! Ainda posso conseguir e só preciso de uma chance!
  — Você teve muitas chances, Colt! Estou falando da escola, da faculdade, do futebol profissional e você jogou todas fora, fumando, bebendo e transando por aí! — Beau utilizou seu tom de bronca para fazê-lo compreender.
  — Da próxima vez será diferente.
  — Ah… — O pai ironizou: — Pode deixar, vou escrever isso na sua lápide: “Aqui jaz Colt Bennett, mas da próxima vez será diferente. Morreu usando botas de mulher”.
  A discussão entre os dois não se estendeu mais. Beau não era de insistir em fazer as pessoas compreenderem seu ponto de vista, ou simplesmente obrigá-las a voltar numa decisão. O velho fazendeiro até lutava por algo, mas indiferença era uma característica sua quando percebia que algo era perda de tempo. Com Colt, ele tentou uma última vez. Todas as vezes em que o filho sofreu um acidente em jogo, ou teve o tapete puxado por uma proposta enganosa em sua carreira desde que saiu de casa, Beau torcia pelo dia em que ele retornaria arrependido. Mas ali estava Colt, prestes a fazer um novo teste para um time, quando deveria, na verdade, estar aposentando sua carreira. Trinta e quatro anos de vida e ele não conquistou nada, somente perdeu. De novo, Beau cedeu. Bufou insatisfeito enquanto Colt e Galo o encaravam em silêncio à espera de um “pode ficar” ou de um “passa fora Colt”.
  — Leve suas coisas lá para cima, ganhe esta vaga e suma daqui de novo. E vá ver a sua mãe — Beau informou e deu as costas aos dois, subindo os degraus da escada rumo ao seu próprio quarto.

• T H E  •  R A N C H •

  Maggie dirigia um bar na cidade desde que havia se divorciado de Beau, alguns anos antes. Porém, ambos conviviam como se ainda fossem casados e até dormiam juntos ocasionalmente.
  Após acalmarem os ânimos, Beau, Galo e Colt foram juntos ao bar. Discutiram por pequenas implicâncias desde a saída de casa até cruzarem a porta do estabelecimento que tocava uma música country, em volume ambiente. A implicância da vez era porque, para Beau, Colt não sabia fechar a porta de uma caminhonete.
  — Vou ao banheiro, mas se até eu voltar o motivo das brigas acabarem, pai, saiba que ele pagou 85 dólares por essa calça jeans — Galo falou maldoso e saiu para o banheiro.
  — Que retardado paga 85 dólares em um jeans? — Beau perguntou encarando desgostoso o caçula.
  Colt não respondeu, caminhou atrás do pai que, se aproximando do balcão, fez uma brincadeira a fim de surpreender Maggie com a presença do filho:
  — Aí, garçonete, me vê duas geladinhas!
  Ela reconheceu a voz do ex-marido e virou-se sorrindo, contudo, ficou ainda mais sorridente quando notou Colt ao lado do pai. Apressou-se em ir até ele e o abraçar apertadamente.
  — Colt! Você está bem melhor agora que cortou o cabelo! — ela falou beijando o rosto do filho e afastando-se para trás do balcão a fim de pegar as bebidas, perguntou a ele: — E então, preparado para seu teste?
  Beau sentou-se no banco se apoiando no balcão, um tanto surpreso e insatisfeito.
  — Maggie, você estava sabendo disso?
  — Sabia! Eu mantenho contato com o meu filho. Deveria tentar, Beau.
  — Ande com as cervejas!
  — Reclama com a dona — Maggie respondeu ao resmungo mal-humorado dele.
  — A dona é um pé no saco. — O coroa continuou com o tom rabugento.
  — Por isso ela mora sozinha em um trailer agora… — Maggie devolveu como uma alfinetada pela razão do divórcio. — Que horas sairá para o teste, Colt?
  — Vou bem cedo, o teste é às 14 horas, mãe.
  — Depois que passar, eu posso te levar para todos os jogos — a mãe falou.
  — Mas servir as cervejas não pode, não é? — Beau reclamou sobre a demora mais uma vez.
  Maggie entregou as cervejas para Beau, e Galo voltou do banheiro também pegando uma garrafa. Os dois foram pegar uma mesa, enquanto Colt olhou para a mãe sorridente.
  — Quer uma cerveja? — perguntou ela.
  — Mãe, eu tenho um teste amanhã! — Ele corrigiu: — Me dá um uísque.
  Ela riu e começou a servir o copo no balcão para ele.
  — bonitona, hein, mãe?
  — Eu sempre fui bonitona, mas não morar com seu pai realçou a minha beleza. — Fez piada.
  — A minha também. — Colt riu brindando com ela.
  — Ele não te recebeu muito bem, não é? — Maggie perguntou e saiu para limpar uma mesa.
  — Foi como eu esperava, só que pior.
  Ela negou com um aceno silencioso de cabeça e ao se virar olhando para baixo, viu as botas nos pés de Colt.
  — Mas que porra é essa no seu pé?
  — São botas australianas.
  — Oh, Colt, meu filho, são botas de mulher… — Maggie também zombou julgando, e entregou outra garrafa de cerveja para ele, pedindo: — Entrega isso para o seu irmão e vê se não esbarra em nenhuma garçonete no caminho.
  — Foi a Alicia que caiu em cima de mim, mãe — explicou mencionando o ocorrido de anos antes, em sua última visita.
  E foi só Colt virar para ir até a mesa em que estavam pai e irmão, que Heather surgiu em sua frente. Ela não era garçonete, era moradora da cidade e cliente do bar, então, para Colt estava liberado se ela quisesse cair em cima dele. E assim aconteceu. A cerveja que a mãe mandou entregar para Galo foi parar na mão de Heather, e antes do final da noite, o sutiã de Heather foi parar nas mãos de Colt.
  Estavam no quarto dele, no rancho, e Colt ouviu Heather dizer como uma fã:
  — Não acredito que estou no quarto de Colt Bennett.
  — Nem eu acredito que estou aqui — falou como piada sobre estar de volta, enquanto distribuía beijos no pescoço da garota loira e gostosa.
  Os dois ficaram falando da carreira dele enquanto se despiam e se pegavam na cama, e antes da coisa “engrenar”, bateram na porta do quarto o chamando.
  Beau abriu-a sem aviso, flagrando o filho de cueca em cima de Heather.
  — Ela tem 22 anos, pai! — Colt, automaticamente, defendeu-se.
  — Oi, senhor Bennett — a garota cumprimentou sem graça, abaixo de Colt.
  — Pai, essa é a Heather — Colt falou perdido na situação.
  — Conheço a Heather. Como vai sua mãe, querida? — Beau falou diante da porta ainda segurando a maçaneta.
  — bem… Se soubesse que eu estaria aqui, ela teria mandado um “oi” — ironizou ainda sem graça pela situação.
  — Mulher incrível, joga boliche muito bem! — Beau elogiou e focou-se para Colt, pouco se fodendo por atrapalhá-lo: — Veste alguma coisa e desce, preciso de ajuda. A bolsa de uma vaca estourou e ela está gritando seu nome. Heather, foi um prazer em revê-la — ordenou e bateu a porta.
  — Desculpa Heather… — Colt desculpou-se e se levantou juntando as peças de roupa no chão.
  Quando pegou as botas Uggy, Heather falou:
  — Ei, espera, esses uggys são meus.
  Colt revirou os olhos com a ironia de uma mulher calçar as botas que sua família passou a noite zombando-o por serem de mulher.
  — Ei, a gente pode se ver de novo outro dia? — Colt perguntou.
  — É claro. Você precisa entrar nesse campo pelo menos uma vez, concorda? — Heather falou sorrindo maliciosa.

• T H E  •  R A N C H • 

  Galo estava preparando as coisas no celeiro para que fizessem o nascimento do filhote, enquanto seu pai telefonava ao veterinário de sempre.
  — O bezerro não virou e não posso deixar o Galo fazer de novo, da última vez ele perdeu um relógio dentro da vaca e você me arrancou bons dólares, Dale — Beau dizia ao telefone com o veterinário.
  — Você não aguenta mais enfiar a mão na vagina de uma vaca, Beau? — Dale Rivers zombou do outro lado. — Olha… Eu não estou na cidade.
  — Eu até chamei o Colt, mas… É o Colt.
  — O garoto voltou também, é? Bem, ele é um inútil, mas talvez possa aprender alguma coisa. Ele já enfiou a mão em alguma vagina? — Dale zombou de novo.
  — Foi por isso que chamei ele em vez do Galo agora… Se tem algo que acho que o Colt aprendeu a fazer, é lidar com vaginas.
  — Ei, Beau, agora que mencionou, talvez vocês possam ir até o Peterson! Eu soube ontem por Darlene que Demetria, a filha dele, retornou há dois dias. Ela é veterinária e até vai trabalhar comigo para me dar uma força, sabe… Você está velho para vaginas de vaca, eu estou velho para vaginas de vaca… — Dale mencionou com bom humor.
  — Hm… — Beau ponderou e não deixou de achar curiosa a informação. — A filha do Peterson voltou, é?
  — Dê um pulo no rancho do seu vizinho. Sam Peterson pode odiar você, mas não irá contra uma vaca prestes a dar à luz!
  — Assim espero… Até mais, Dale. Obrigado — Beau respondeu e desligou a chamada no exato momento em que Colt surgiu na sala. — Ei, vá ajudar o seu irmão. Vou até o rancho dos Peterson.
  — O quê? Mas eu não faço o parto de uma vaca há anos, pai!
  — Só faça o que seu irmão pedir até eu voltar, vou de caminhonete e retorno em 15 minutos — Beau ordenou pegando seu chapéu, as chaves e saindo.
  Colt fez o que ele mandou indo ao encontro do celeiro, para onde haviam levado Carla, a vaca, retirando-a do curral onde estavam as demais.
  — Cadê o papai?
  — Foi ao rancho dos Peterson, não me pergunte para quê. Ele me mandou fazer o que você pedir.
  Galo encarou o irmão maldosamente e riu.
  — Ah, então tire as botas, mocinha, e lave os braços, você vai enfiar a mão dentro da Carla e tentar virar o bezerro!
  — Ficou maluco?
  — E é bom não esquecer nenhum relógio lá dentro! A conta do veterinário fica alta depois… — Galo enrolava a corda que utilizariam para puxar o filhote, quando lampejou em sua mente. — Espera… O papai nos Peterson…? Não me diga que a Demetria voltou?
  — Demi? — Colt comentou curioso, um instante de nostalgia tomando seus pensamentos. — Uau! A Demi, como será que ela está?
  — Com certeza mais gostosa do que antes.
  — Ela te mataria se ouvisse você falando assim dela.
  — Ei, Colt, quem ficou sem nos visitar foi você, e não a Demi. Depois que foi estudar, ela voltou periodicamente para visitar o velho Sam, e sempre que podia vinha ver o papai e a mamãe. E implicar comigo, é claro. Ela estava ótima da última vez e ainda deve estar.
  — Vocês pararam de implicar um com o outro? — Colt perguntou terminando de lavar os braços.
  — Por favor! — ironizou Galo. — É da Dementadora que estamos falando! Não teria graça não implicar com ela! Agora, ande, mão na massa! Amarrei as patas traseiras dela, e quando você virar ele e trouxer as patas para fora, te ajudo a puxar o resto.
  — Por que o papai me mandou fazer isso? Ele esqueceu que sou o filho inútil?
  — É uma forma de fazer você pagar pela estadia, anda logo.
  Colt começou a enfiar a mão na vagina do animal e à medida que ia tentando virar o filhote e aprofundando o braço, ele dizia:
  — Calma, menina, vamos lá, eu vou te ajudar com isso…
  Galo sorriu e não perdeu a chance de mais uma piada:
  — Não é para fazer amor com a vaca, Colt. A gente vai criar o bezerro e depois fazer churrasco.
  — Me esqueci como era quentinho lá dentro — Colt comentou gargalhando.
  — Que merda, você é tão emocionado! Já se apaixonou pela coitada da Carla — Galo zombou de novo.
  Beau retornou e ao seu lado, uma linda mulher bronzeada de cabelos castanhos escuros, ondulados e soltos, o acompanhava.
  — Como é, Colt, já fez o básico ou massageando a vaca com suas botinhas de pelúcia? — o pai verbalizou se aproximando de Galo.
  Ele e Demetria pararam atrás de Colt observando-o, e Galo encarou a mulher ao seu lado.
  — Dementadora, você está ainda mais gostosa!
  — Você sente saudade de ser mandado à merda, não é? Confessa Galo. — A voz de Demi era um pouco mais sensual e madura do que Colt se lembrava. Também, da última vez que se viram, eles tinham 19 anos de idade.
  — Demi! Há quanto tempo! — Colt exclamou sem tirar o braço da vaca e nem se virar para olhá-los.
  — Concentre-se, Colt, ou deixa que a Demi faz o serviço! — Beau mandou.
  — Tudo bem, pai, eu acho que consegui virar. Peguei as patas.
  — Ótimo. — Demi se aproximou dele amarrando os cabelos, logo após ter lavado os braços, arrancado a camisa de flanela e jogado sobre Galo para que pudesse ficar só de regata e não sujar a peça ou atrapalhar o parto. — Agora laça bem as patas, com uma volta dupla pelo casco, claro.
  — Ok, isso… Você complicando, eu não faço isso há anos! — Colt reclamou embasbacado com a figura de Demetria em sua frente.
  — Oh, meu Deus, mas você não consegue nem o básico! — Beau criticou.
  — E você sempre só me criticando! — Colt reclamou com o braço enfiado até o ombro lá dentro.
  — Te critico porque você era o único inteligente na família com algum talento!
  — Obrigado, pai, estou bem aqui — Galo comentou ao canto.
  — Sei disso, Jameson — ele falou sério ao filho mais velho, mencionando o primeiro nome. — Colt, ou você tira a porra do braço daí, ou aprenda como se cuida de um rancho!
  — Pode deixar, senhor Bennett. Foi para isso que me chamou. Vá, Colt, deixa que uma profissional resolve isso — a mulher comentou fazendo sinal para que Colt saísse.
  Colt não insistiu, obedeceu ao pedido da veterinária, mas claro, descontente com a atitude de Beau. Demetria enfiou o braço e, com agilidade e competência, terminou de enlaçar e puxar as patas do animal para auxiliar o trabalho natural do corpo da vaca. Apesar de ter que puxar a corda, o restante do esforço foi da bichinha. Na posição certa e passada a primeira parte das patas e cabeça, o próprio útero expulsou o restante do filhote.
  — Parabéns, Dementadora, você deu à luz a um bezerro forte e saudável. Ele é a sua cara! — Galo comentou risonho batendo no ombro da veterinária.
  — Galo, cala a porra da boca e ajude Demi nos primeiros cuidados com os animais. Colt, você e eu vamos limpar depois, antes, me ajuda a arrumar a baia em que eles vão ficar — Beau mandou.
  Os quatro seguiram os trabalhos que precisavam ser feitos, e em seguida reuniram-se na cozinha da casa dos Bennett, como sempre, acompanhados de cerveja gelada.

• T H E  •  R A N C H •

  — Pai, não pude te responder antes porque eu estava com meus braços até os ombros na vagina da vaca e com a Demi me encarando como se eu estivesse ridículo — Colt disse assim que abriu a cerveja e parou diante dos outros três em frente à mesa da cozinha —, mas eu não estou aqui para aprender a cuidar de um rancho.
  De novo aquela história do teste. Beau poderia evitar, afinal, Demi estava ali e Colt e ela não se viam há anos. Porém, para que poupá-lo da verdade quando foi ele quem iniciou o assunto?
  — O que você não entende é que nos sacrificamos para você ter a chance de ser bem-sucedido e buscar o seu sonho, apesar de tudo. Você chegou aqui com uma montanha de fracasso nas costas e insiste em ainda tentar. Jogou sua juventude fora com as oportunidades que teve, então, aqui estamos!
  — Você banca o sabichão, mas mal está dando conta de pagar as contas do rancho! — Colt devolveu.
  — Quem te contou? — Beau perguntou indignado, e Colt não respondeu, só direcionou um olhar constrangido para o irmão.
  — Foi mal, pai, eu falo muito quando bebo.
  — Você não estava bêbado — Colt contou.
  Demetria observava a tudo virando sua cerveja, e sorriu.
  — Ok, eu voltei mesmo para Garrison, e estes são os Bennett! — ela comentou pegando duas garrafas na geladeira deles e apontou a varanda em um meneio de cabeça para Galo. — Venha, velha fofoqueira, vamos para a varanda antes que sobre mais para você.
  Os dois saíram deixando Colt e o pai olhando cada um para um ponto diferente da casa.
  — Então é verdade? — Colt perguntou ao pai.
  — Não é minha culpa. Faz mais de um ano que não cai uma chuva decente aqui, é difícil criar gado sem pasto para eles comerem! — explicava o velho Bennett. — Mas desde quando se importa? Faz quinze anos que não convive com essa família.
  — Não vamos nos esquecer que fui embora por sua causa. — Colt apontou o dedo ao falar.
  — Ah! — Beau deixou a cerveja na bancada e apontou de volta: — E por que voltou? Ah, sim, você não tem para onde ir!
  — É, pai… Está certo de novo. — Colt suspirou, pegou sua cerveja e saiu para a varanda.
  Beau fez o mesmo. Juntaram-se a Galo e Demetria, sentando cada um em um lugar, e Beau perguntou:
  — E então, Demi? Tudo certo com o novilho?
  — Forte e saudável, Sr. Bennett. Tem 40 quilos e mamando muito bem!
  — Melhor que o Colt? — Galo provocou.
  Demi suspirou, poupando-se de xingá-lo, Beau riu e Colt se levantou para falar com ela:
  — Bem, é verdade, nem te cumprimentei direito! Como você está, Demi? — Colt abriu os braços para um abraço, mas ela espalmou a mão à frente dele.
  — Você enfiou os braços na vagina de uma vaca e esse cheiro custa sair, garanhão.
  — Ué, mas você também. — Ele justificou para Demi, ainda de braços abertos.
  — Tem razão. — Ela sorriu e se levantou o abraçando, finalmente.
  — Não se empolguem, não vão caber juntos na banheira — Galo comentou.
  — Demi… — Beau falou na tentativa de dar um corte nas gracinhas de Galo. — Quanto eu te devo? Soube que estará trabalhando com o Dale agora.
  — É, pois, é. Larguei a clínica do meu ex-noivo em Phoenix por muitas razões e decidi voltar para abrir a minha própria. Mas me esqueci que é Garrison, Dale continua vivo e os clientes da cidade são tão leais ao Rivers quanto são republicanos — comentou dando um longo gole na bebida, fazendo todos sorrirem. — Não me deve nada hoje, Sr. Bennett! Considere como uma amostra do meu trabalho e me ajude a falir o Dale para tomar os clientes dele. Ele não deve demorar a morrer.
  — Gosto de você, garota! — Beau riu negando com a cabeça após um gole de bebida. — Seu único defeito é ser filha do Peterson.
  Os quatro riram e Colt até concordou silencioso em um meneio de cabeça.
  — Ex-noivo, é? O que aquele babaca aprontou? — Galo perguntou ultrajado.
  — Conheceu o noivo dela? — Colt, no entanto, perguntou surpreso.
  — Só por fotos e histórias gays que Demi contou da última vez que veio aqui nos convidar para o noivado.
  — Noivado este em que você não foi. Maggie e Beau, eu imaginei que não iriam, mas você… Achei que não perderia a chance de me ridicularizar na frente do Will.
  — Eu ia, mas o papai me prendeu no celeiro.
  — De nada — Beau comentou erguendo a garrafa para ela em cumprimento.
  — E então, o que houve com o tal Will? — Colt perguntou.
  — Ah, peguei ele transando com a recepcionista da clínica na banheira de tosa. Sim, o filho da mãe não pagou nem mesmo um motel!
  — Então essa foi a principal razão para você voltar de Phoenix. As pessoas sempre voltam com o rabo entre as pernas quando fracassam em algo. Veja o Colt! — Galo comentou.
  Demi e Beau riram e a mulher deu uma boa checada no homem que um dia ela conheceu garoto.
  — Mijar na estátua do Gretzky e cair pelado na frente de Shania Twain. É difícil defendê-lo. Você fracassou mesmo, Colt? — Demetria perguntou.
  — Que merda, até em Phoenix você leu isso no jornal? — ironizou Colt. — Não é o final do jogo até que o juiz apite.
  — Pelo amor de Deus, o juiz nem está no mesmo campo que você — Beau provocou.
  — Talvez eu devesse ter ido para faculdade como você — finalmente Colt afirmou olhando para Demi, que parecia muito bem e estaria melhor se não fosse pelo chifre do ex-noivo.
  — Deveria. Mas e agora? Vai recomeçar no rancho com sua família? — ela perguntou, notando Galo e Beau atentos a cada palavra de Colt.
  O ex-jogador olhou para os três, ciente de que, talvez, o pai precisasse mesmo dele ali, mas não daria o braço a torcer.
  — Tenho um teste em Denver, amanhã à tarde. Só posso responder essa pergunta depois que o fizer… — Colt se levantou. — O que me lembra… Está muito tarde e eu preciso dormir. Nos vemos depois, Demi. — Colt foi abraçar ela novamente. — Bom te ver, garota.
  — Bom te ver também, boa sorte amanhã.
  Eles se separaram do abraço sorrindo um para o outro. Colt deu as costas e Beau o mandou tomar banho antes de deitar, senão deixaria os lençóis fétidos. Demetria ficou mais dez minutos conversando com os Bennett, e então, Beau solicitou que Galo a acompanhasse e entregasse no rancho do pai dela.
  — Tem certeza que quer que eu vá devolver a filha dele a esta hora da noite, pai?
  — Tem razão. Eu não seria um homem decente se deixasse um calhorda como você cuidar de uma princesa dessa. O Peterson poderia me dar um tiro com razão.
  Os três riram e o próprio Beau levou a mulher para o rancho vizinho, dividido por somente uma cerca e cem metros de distância entre as porteiras.

Temporada 1
Episódio 2

[parte 01]

  Não era típico de Colt acordar cedo, mas sabia que as coisas no Rancho Bennett funcionavam de outra forma. Então, lá estava ele indo pegar uma caneca quando o som de passos chamou sua atenção e ao olhar, Colt encontrou sua mãe descabelada, vestindo uma camisa velha e enorme de seu pai. Sim, era exatamente o que parecia: Maggie e Beau dormiram juntos.
  — Mãe? — O tom utilizado por Colt era uma mescla de indignação com susto.
  — Bom dia, meu amor, acordou cedo. — Ela sorriu indo até a cafeteira e preparando um café.
  — O que está acontecendo? Ainda estou dormindo e isso é um pesadelo ou você dormiu realmente com o papai?
  — Ah, Colt. Não seja ingênuo, você já é um homem formado. Seu pai e eu, às vezes… Você sabe.
  — Não! — ele disse alarmado. — Eu não quero saber ou ouvir nada disso!
  Maggie riu e cruzou os braços escorando-se na pia.
  — Você está pronto para hoje? É o dia do teste, não é?
  — Nossa! Não vou mentir, mãe… — Colt se acalmou esquecendo o assunto anterior e serviu leite em sua caneca após pegá-lo na geladeira, e escorou-se na ilha da cozinha enquanto falava: — Eu mal dormi de tão ansioso. Sei lá, eu sei que o “Denver’s Broncos” não está entre os melhores times da liga atualmente, mas também não é uma equipe amadora. Estou fora do circuito há algum tempo e não posso deixar de sentir um certo medo…
  — Ah, querido… — Maggie se aproximou do filho e fez cafuné em sua cabeça, já que ele estava mais baixo que ela por estar escorado na bancada. — Você já sabe tudo o que precisa fazer, não se martirize com isso. Só precisa ir lá mostrar o que sabe, Colt. O resto é consequência do universo, se ele quer ou não isso para sua vida.
  — É que eu não posso ignorar um pouco do que o pai me disse, sabe? — Colt olhou para a mãe com uma certa ironia de quem precisava dar o braço a torcer para o velho Beau sobre algumas coisas. — E, além disso, fiquei preocupado com o que o Galo me contou. Mãe, o rancho está mesmo tão ruim das pernas?
  Maggie suspirou profundamente e viu que o café estava coado na cafeteira. Caminhou de volta ao aparelho pegando duas canecas e servindo-as, enquanto contava sem encarar o filho:
  — Colt, não é só o seu pai que está tendo dificuldades. Esse é o pior ano de seca da história! A maioria dos fazendeiros de Garrison estão lutando para sobreviver com suas criações e plantios. A seca que está assolando o estado é longa. Sabia que não cai uma chuva longa e decente aqui desde aquele dia em que você foi embora?
  — Mãe, isso faz 15 anos! Não pode ser assim tão ruim, senão todo mundo já havia perdido os seus ranchos há muito tempo!
  — E muitos perderam. É que você ainda não andou direito pela cidade! Seu pai até mandou embora o Pedro.
  — Espera, então realmente são só ele e o Galo tomando conta de tudo?
  — Pois é!
  — Caramba, mãe, o pai vai morrer se perder o rancho!
  — Não, ele vai morrer se continuar aqui, isso sim. O fato é que, quando chove, são chuvas de algumas horas que demoram dois a três meses para acontecer de novo. Não tem pasto e nem colheita para isso, e Garrison está em crise de racionamento de água há algum tempo.
  — Hm… — Colt murmurou entendendo e zombou: — É por isso que o Galo não toma mais banho?
  Sua mãe ignorou a piada pegando as canecas e começou a sair da cozinha, não sem antes dizer:
  — É por isso que eu ainda sou o apoio do seu pai aqui no Rancho quando precisa. E é bom ter você por aqui também, mas não coloque pesos em suas costas. Beau vai saber lidar com as crises e ele não está sozinho. Galo e eu continuaremos firmes na luta pela preservação do rancho Bennett, ainda que eu ache que isso tudo não irá muito longe.
  Colt ouviu as coisas que a mãe disse, deixando seu semblante preocupado. Maggie notou e quis tirar a culpa, ou o que quer que fosse, de cima do filho:
  — Te vejo depois, vá cuidar das vacas. Seu pai saiu faz horas, ele quase não dorme direito, então ajudá-lo vai ser bom. Não esquece de olhar como está o bezerro que, segundo seu irmão, você “teria trazido ao mundo se não fosse tão ruim em enfiar a mão na vagina da Carla”.
  Maggie zombou repetindo a frase que o filho mais velho contou a ela, no dia anterior.

• T H E  •  R A N C H •

  Colt achou que havia acordado mais cedo do que todos, mas Galo já estava cuidando do bezerro quando ele chegou.
  — Ora, ora! A mamãe chegou! — Galo zombou o irmão. — Seu novilho mama tão bem quanto você, Colt.
  — Vá se foder, Galo.  Bom dia. — Deu um risinho debochado olhando para o filhote. — Achei que estaria dormindo.
  — Achei que você estaria dormindo — respondeu Galo, continuando seu serviço de puxar a sujeira da baia, e jogou a pá para o irmão. — Termina aí!
  — Ei, você sabia que a mamãe…
  — Está em casa e dormiu com o papai? — Galo interrompeu enquanto o irmão continuava o que ele fazia. — Essa notícia é velha. Quer uma dica? Finja que não viu nada.
  — Tarde demais, trombei com a mamãe na cozinha. E ela vestia a blusa do papai. Parecia que eu estava preso no passado como em “De volta para o futuro”.
  Os irmãos riram um pouquinho, e então Galo contou uma coisa nova para o irmão. Na verdade, não queria contar, mas algo dentro de si o estimulava a partilhar aquilo. Colt teria o tal teste à tarde, e talvez, saber que o pai estava feliz com sua volta o pudesse motivar. O irmão mais velho engoliu a inveja que sentiu quando ouviu o pai elogiar o caçula, e resolveu partilhar.
  — Eu ia levar a Demi para casa ontem…
  — Não me diga que você transou com ela!? — Colt parou imediatamente o que fazia e interrompeu o irmão com aquela pergunta velada de algum sentimento que ele não reconhecia.
  — E se eu tiver transado, você vai chorar? — Galo estranhou a reação dele e com uma risadinha sacana perguntou.
  — Não… É só que… Bem, o que você ia dizer?
  — É, foi estranho para mim também quando você e ela começaram a rolar no feno escondidos na adolescência, mas isso nunca me afetou — Galo comentou e deu prosseguimento no assunto principal:  — Eu estava dizendo que iria levá-la para casa, mas o papai quem foi e eu resolvi esperar ele na varanda antes de entrar. E aí, quando voltou, ele me disse uma parada que acho que você precisava ouvir.
  Galo suspirou sem continuar a contar, e Colt então se ergueu, fincando a pá no monte de bosta de vaca e aguardou silencioso.
  — Ele… — Galo abaixou a cabeça sorrindo e engoliu o orgulho ao revelar de vez: — Te elogiou. Disse que você fez um bom trabalho ontem e era corajoso, porque mesmo sabendo que não tinha mais o jeito para puxar o bezerro, você foi lá e tentou. Que isso era uma qualidade sua que ele admirava e por isso não era para gente pegar no seu pé hoje com a coisa do teste, já que… Tinha que ser muito peitudo em continuar perseguindo um sonho tão fadado ao fracasso como o seu vinha sendo.
  Colt levou um tempo para entender o que o irmão dizia.
  — Traduzindo… — Galo complementou ao notar que Colt não entendeu. — Isso foi um elogio, caso esteja se perguntando. E também, como se ele dissesse que ia torcer por você hoje. No fundo, sabe que o papai tá satisfeito com a sua volta, não é?
  — Uau… — Colt suspirou e finalmente sorriu, apesar de sem graça. — É, ele tem um jeito estranho de mostrar que ficou feliz com minha volta e que torce pela minha carreira. Mas se você está dizendo…
  Retornando a limpar o estrume, Colt não percebeu quando seu irmão bufou virando-se de costas.
  A verdade era que Galo não admitia que o caçula continuasse olhando a situação como se o pai e a família não o apoiassem. Então, não quis e nem pôde evitar dizer para Colt como se sentia.
  Com as mãos na cintura, caminhou para mais perto de Colt de novo, e disse em um tom um pouco mais sério que o seu habitual:
  — Ele nunca disse coisas assim sobre mim, sabia? — Galo iniciou. — Senti inveja de novo de você.
  — Você nunca teve motivos para sentir inveja, sabe que eu sempre fui considerado o inútil aos olhos do papai. A vida no rancho é ótima para você. — Colt terminou o que fazia, mas ainda não olhava para o irmão.
  — Tsc… — Galo estalou a língua de um jeito sarcástico. — Você não entende nada de como o papai pensa. Te considerar um inútil foi a forma dele te dar liberdade. Até a prisão é divertida para quem visita. Você fala naquele telefone, a moça do seu lado põe os peitos no vidro…
  Ouvindo aquilo, Colt percebeu que Galo estava falando muito sério, de um jeito que nunca havia partilhado com ele antes. Já havia terminado de retirar o estrume e colocar no carrinho.
  No rancho, eles faziam compostagem com os restos de tudo. Ideia de Galo, já que um dia contou ao pai:

flashback on

  — Tem uma gente ecológica comprando estrume e restos de comida secos como se fosse o novo ouro. A gente devia parar de jogar no nosso pasto fazendo as vacas comerem a própria bosta, e ganhar dinheiro com isso.
  — Isso se chama húmus, Galo. E sempre foi ouro para quem lida com a agricultura. Não damos bosta para nosso gado comer, adubamos a terra para o pasto nascer melhor e gastar menos com fertilizantes — Beau respondeu na época em um tom de quem achava o filho um ignorante. — Mas tem razão. Tem muito fazendeiro aqui e fora de Garrison que poderia comprar compostagem mais barata do que fertilizante para suas plantações. O que pra gente tem pouco uso, para outros é necessário… E com a quantidade de matéria orgânica aqui do rancho, talvez a gente tenha um produto bom.
  — É, e eles estão falando que isso vai reduzir a metanfetamina da atmosfera. Aquecimento global.
  — Aquecimento global é meu ovo, e não é metanfetamina, é metano. Esses esquisitinhos ecológicos dizem que o peido do gado polui a terra! Veja bem! A porra da indústria dos chineses soltando fumaça em meio planeta não faz nada, né?
  — Nossa, pai, o senhor falou como um daqueles voluntários do Greenpeace que vem em toda temporada de seca protestar aqui no Texas. Tenho certeza de que foi a mamãe que te contaminou! — Galo zombou.
  — Cala a porra da boca, Galo.

flashback off

  Atento ao irmão, Colt se aproximou dele com a mão também em sua própria cintura, e encarava-o com a solidariedade fraterna que achou que Galo precisava:
  — Se é tão ruim, por que não vai embora?
  — Tá brincando comigo, né? — retoricamente ironizou Galo. — Depois que você foi, eu não tive muita opção! O pai precisava de ajuda com o rancho.
  — Se sentiu preso aqui? — Colt perguntou um pouco culpado. E quando notou o modo como o irmão o olhava, ele respondeu: — Ah, tá. Deve achar que sou…
  — Mimado? — Galo interrompeu-o e continuou: — Egoísta, irresponsável, hum, mala?
  — Tá legal, eu ia dizer egoísta, mas…
  — Convencido, teimoso, alcoólatra? — continuou Galo. — Mas você era um ótimo jogador e tinha mesmo que ir. E eu fiquei orgulhoso. Era meu irmãozinho, cara!
  Colt finalmente sorriu.
  — Obrigado. Também tenho orgulho de você.
  — Ah, é? Pelo quê? — Galo perguntou sacana.
  Colt levou um tempo vago pensando, como se não tivesse nada a dizer e riu, mas claro, havia, sim, o que se orgulhar do irmão por mais imbecil que Galo fosse.
  — Não achei que fosse perguntar “pelo quê”. — Galo se virou, então Colt riu. — Ei, ei, tô zoando! Eu me orgulho sim, porque depois do pai você é o cara mais competente que conheço pra cuidar desse rancho, e não é fácil tolerar o velho. Então ter ficado aqui ao lado dele foi um ato de muita coragem e sacrifício, eu sei. Você diz que ele não tinha ajuda e não podia sair, mas a verdade é que a gente sempre tem a escolha de sair ou não. O rancho é dele. — Colt gesticulou com a mão tentando corrigir-se. — Na verdade, é nosso porque ele vai morrer um dia, mas você entendeu! Enquanto ele viver e tendo herdado do vovô, é mais dele. Sei que no seu lugar eu não teria aguentado. Como não aguentei.
  Galo apenas lançou um olhar para o irmão que dizia algo como “obrigado por reconhecer”, e mudou o assunto:
  — Vou soltar os touros para o pasto. Espalha essa merda para secar — apontou o carrinho e aconselhou — e depois, acho que devia ir para casa, você tem uma viagem a fazer.
  Colt viu o irmão sair com um peso a menos nas costas, e terminou o serviço seguindo seu conselho adiante.

• T H E  •  R A N C H •

  Ele fez o teste. Estava no vestiário do time, com um saco de gelo amarrado no ombro e outro em seu joelho. O treinador da equipe entrou, e logo foi chamando sua atenção e tirando-o do transe reflexivo que se impunha: “será que fui bem?”.
  — Bom trabalho, Bennett! — disse o treinador.
  — Ah, obrigado! Se eu me dedicar 110% …
  — Chega de papo furado — o homem interrompeu ele. — Não é uma coletiva de imprensa, como está o seu ombro?
  — Está doendo um pouco. Nada que uma dose de morfina e duas de uísque não curem. — Deu um sorrisinho.
  — Engraçado — o treinador comentou sem rir e Colt notou, tentando ajustar-se.
  — É, eu falei brincando.
  — Bennett. — O treinador suspirou o analisando. — Aguenta uma temporada inteira?
  — Aguento se tiver uma vaga para mim.
  — Você é Colt Bennett, nessa região ainda é famoso, além disso, ainda vende ingressos, pode ser bom para a popularidade do time. Mas não posso negar… Você tá velho. Acabado mesmo, Bennett.
  — Uau. — Colt sorriu em ironia. — Falou com meu pai por acaso?
  — O que quer dizer com isso?
  — Nada… — Ele sorriu desconversando. — Então eu não passei. É isso?
  — Desculpe, Bennett, mas eu não posso ignorar que para a equipe sua experiência é até válida, no entanto, te colocar como titular pode ser um risco.
  — Mas você disse que eu ainda sou o Colt Bennett — rebateu com a fala do treinador sem entender de fato.
  — E é por isso que posso te oferecer uma temporada apenas, por enquanto, e como jogador reserva. Cada jogador tem que vender no mínimo 10 entradas para os jogos, o salário é de 250 dólares por jogo, e se por acaso chegar a ser passado a titular, recebe mais 50 dólares de bônus. E quando o time ganha, todos os jogadores, titulares e reservas, recebem mais 50 dólares.
  — Tá me zoando? Ganhei mais quando jogava na faculdade — Colt respondeu com respeito, mas não escondeu a frustração.
  — Sei que a grana não é muita, mas a qualidade do time é até boa. Motivo pelo qual eu não posso te escalar titular mesmo com sua história. Eu já falei, você tá velho pra isso, mas pode ser bom você estar dentro de alguma forma. De vez em quando, olheiros da NFL vêm assistir aos jogos.
  — Tudo bem, eu entendo. Não se ganha a loteria sem comprar o bilhete.
  — Assim é que se fala. Se quiser, é isso que podemos ofertar — o treinador declarou se preparando para sair dali. — Primeiro treino, quarta às 11 e recebe 15 dólares se vier antes de todo mundo e marcar o campo.
  O técnico saiu e Colt começou a se arrumar para voltar pra casa, ainda pensativo. Uma decisão precisava ser tomada. Ele sabia que fracassou no teste, mas por ser quem era, estava recebendo uma chance.
  Colt retornou para o rancho, chegando lá à noite. Galo e seu pai estavam mexendo na velha FORD do avô, que era o automóvel oficial de Beau desde sempre.
  — É a junta do cabeçote. Vou pedir pela internet — Galo falou ao pai.
  — Não. Vamos até o Henderson. — Beau mencionou a velha loja de peças automotivas que todos iam, um pouco distante de Garrison.
  — Não, a Amazon entrega em 24 horas — Galo justificou.
  — Esse é o problema da sua geração. Vocês são um bando de preguiçosos, nunca querem sair de casa! O que farão quando a Coreia do Norte bater à sua porta? Pedir armas e munição pela Amazon?
  — Não. Vou pegar as armas na caminhonete, ou as perto da geladeira, ou aquelas do banheiro — Galo respondeu sarcástico.
  Enquanto ouvia seu irmão falar alguma coisa sobre os velhos rifles da família, Colt se aproximava, mancando, com sua mochila em uma das mãos e uma expressão derrotada. Havia retornado meio percurso, de ônibus, após receber carona de um dos rapazes do time que conheceu no teste e também passaria por Garrison.
  — Colt! — Galo mudou o assunto ao vê-lo. Beau também dava uma encarada no filho da cabeça aos pés, insatisfeito em vê-lo retornar machucado. — E aí, como foi?
  — Podia ter sido melhor — respondeu.
  — Como assim, podia ter sido melhor? — Galo perguntou.
  — Não entrei pro time.
  O pai, automaticamente, coçou a nuca ainda apoiado na lataria do veículo. Galo ficou sem saber o que falar, mas tentou:
  — Sinto muito, Colt. Sabe o que podia fazer? Pegar seus Uggys e ser líder de torcida.
  — Vá se ferrar — Colt falou e observou o pai sacudir a perna de um jeito ansioso, como fazia quando estava irritado. Beau ainda não havia dito nada e nem olhado para ele. — Então… Eu não sei o que fazer de agora em diante, mas se não se importarem, eu queria passar um tempo aqui.
  Naquele momento, Beau se virou de frente para o filho, escorando o corpo na caminhonete e cruzando braços e pernas, surpreso, e virando a cabeça como se não escutasse bem.
  — É sério? — o pai o perguntou.
  — É. Você tinha razão. Futebol já era.
  — Nossa, não sabia que eu tinha criado um filho que desiste fácil.
  Até Galo, que havia guardado as ferramentas na carroceria e se aproximou limpando as mãos na blusa, ficou imóvel com o que ouviu. Colt também se girou para encarar o pai, incrédulo. Ele estava mesmo ouvindo aquilo?
  — Como é? — Colt falou confuso. — Você sempre disse que era pra eu desistir!
  Beau então riu, e Galo entendeu que o pai estava zombando.
  — Você não tem senso de humor mesmo! — disse o patriarca bigodudo. — Se quer saber, fico feliz de ter você aqui e não te ver todo quebrado.
  — Pera aí, você disse uma coisa legal pra ele — Galo interferiu.  — E ontem elogiou ele secretamente pra mim. Você está morrendo?
  Beau não deixou de rir da observação do filho enquanto puxava sua própria orelha e olhava para o chão. Uma mania, uma espécie de cacoete do fazendeiro. Colt achou que fosse um bom momento para puxar o envelope de dinheiro.
  — Mais uma coisa. Toma. — Entregou o dinheiro ao pai.
  — Onde arranjou isso? — Beau perguntou quando puxou o maço de dinheiro de dentro.
  — Vendi meu anel do campeonato. É o mínimo que posso fazer para ajudar vocês.
  O anel era uma relíquia de Colt, de quando foi campeão pela liga profissional no Super Bowl. Beau colocou o dinheiro de volta ao envelope e seu humor já estava ruim de novo. Contrariado, devolveu para o filho:
  — Não, obrigado.
  Apesar de chateado pelo filho vender o anel, estava orgulhoso em segredo, mas não aceitaria aquilo. Galo, no entanto, estava de pé entre os dois e observando os gestos do irmão e do pai. Quando viu Beau retornar o envelope e Colt pegá-lo como se tivesse sido desprezado, precisou dar sua opinião — que, inclusive, era bastante válida dada a situação do rancho.
  — Er… Pai, sabe… Precisamos de dinheiro.
  — É, e eu quero que fique com ele, pai. Por tudo que fez por mim também — Colt afirmou estendendo o envelope de novo.
  — Vem cá, eu tenho cara de quem precisa de esmola?! — Beau gritou.
  A verdade era que Beau Bennett não sabia lidar com humildade nas situações em que precisava admitir a necessidade por ajuda. Para o orgulho do típico texano, um homem não deveria sucumbir à pose de “coitado”. E seu ego se feria em ver o filho renunciar a algo importante para ele, como a única prova de sucesso que aquele anel representava, para ajudar um velho fazendeiro incapaz de gerir seu rancho. Era assim que, radicalmente, Beau via a situação. O que não deveria surpreender os meninos, já que o pai nunca soube lidar com os próprios sentimentos de forma clara e madura.
  — Qual é, pai, só quero ajudar — Colt disse.
  — O país está lotado de gente querendo esmola — respondeu duramente. — Só recebo pelo meu trabalho. A única coisa que farão por mim é…
  — Cavar sete palmos de terra e me jogar lá dentro! — os meninos repetiram uníssonos ao pai aquele velho ditado arrogante que ouviam sempre, desde crianças.
  Tanto Galo quanto Colt estavam exaustos daquilo, e suspiraram e reviraram os olhos com a reação do pai.
  — Mas não vai ser aqui que vão te enterrar, porque está prestes a perder o rancho — Colt disse baixo, indignado, mas com respeito. Embora o pai tenha visto como uma afronta.
  — Não é obrigação sua salvar o rancho — Beau respondeu em tom controlado e indiferente.
  — Ah! — Colt estava perdendo a paciência. — Engole o seu orgulho e aceite o maldito dinheiro!
  — Pode desistir. — Beau manteve o tom.
  — MEU DEUS! MAS VOCÊ NÃO PASSA DE UM VELHO TEIMOSO PRA CACETE, PORRA!! — Colt gritou sacudindo as mãos com o envelope como uma criança indignada e brava por ser magoada.
  Beau respirou fundo, crispando a boca bigoduda. Galo se aproximou mais, prestes a intervir pela tensão do momento, e o pai disse ameaçador, autoritário e patriarcal enquanto caminhava alguns passos pra cima de Colt, lentamente:
  — Escuta, filho, não sou velho demais para te encher de porrada — Beau falou e Galo já estava praticamente colado entre os dois.
  Colt, igualmente como o pai, se aproximou em expressão de enfrentamento.
  — É melhor não começar com isso, pai. — Era uma das poucas vezes que o pai via Colt agir como um “homem de verdade”.
  — Não fui eu quem começou, foi você — Beau disse tocando um indicador duro no peito do filho.
  Colt deu um tapa na mão do pai, afastando-o.
  — Não me toque! — gritou nervoso.
  — Ei, ei! — Galo falou, já levando uma mão no peito de cada um para os separar. — Peraí, peraí, calma!
  — Eu comecei? Eu comecei? — Colt se aproximou desafiante e, de certo modo, desesperado por jogar mais verdades sobre seu pai. — Foi você que me fez sair daqui! Depois fez a mãe sair daqui! Deixei a porra da porteira aberta e até as vacas começaram a sair!
  — Você está se achando demais para quem voltou rastejando feito um cachorro!
  Pai e filho começaram a se engalfinhar um contra o outro, sem notar as gotas que começaram a respingar devagar no meio da discussão. Galo não conseguiu os conter, mas antes que ambos rolassem no chão, ele gritou, animado e percebendo um milagre:
  — Ei, ei! — Galo gritou erguendo as mãos para sentir a chuva que se tornava mais grossa.
  — O quê? — os dois brigões gritaram para ele completamente fora de si.
  — Tá chovendo! — Galo disse sorridente, o tom de alívio e gratidão evidente em sua voz.
  Foi aí que Beau e Colt esqueceram a briga, olharam para o céu surpresos, e começaram os três a rir desacreditados. Como se nada tivesse sido dito para se ferirem mutualmente antes.
  Colt jogou o envelope de dinheiro no ar, espalhando notas sob a chuva, e os três homens se abraçaram. Beau sorria como não fazia há muitas décadas. Ele abriu os braços se molhando com a chuva e não deixou de gritar:
  — Vá se foder, aquecimento global!
  Então Galo, rindo, notou que o dinheiro estava molhando e começou a catar as notas assim como Colt. Em seguida, Colt e Beau se encararam com uma expressão silenciosa de quem pedia desculpa, o pai abriu os braços e o filho o abraçou apertadamente sob a chuva.
  Um pouco depois, molhados, Galo e Colt entravam na cozinha. Colt, ainda mancando, foi até o uísque, Galo tirando copos do armário. Beau ainda estava lá fora, agora na varanda, sentado em sua cadeira, grato e admirado com a chuva que parecia não passar tão cedo.
  — Por que não disse propai que queria ficar? — Galo perguntou aproveitando estarem a sós.
  — O que quer dizer? — Colt desconversou.
  — Sei que você entrou no time.
  — Não entrei não! — Continuou fingindo o caçula, enquanto trazia a garrafa para a ilha onde o irmão colocou os copos.
  — Você foi cortado no time do Alasca porque deu um soco no mascote.
  — Aquele pinguim teve o que mereceu — Colt falou, servindo a bebida.
  — Você é muito explosivo, se não tivesse entrado protime, jamais ia estar calmo agora — Galo concluiu, colocando Colt contra a parede.
  —Tá bom. Eu entrei, não do jeito que eu queria, mas é… Não conta propai — Colt admitiu.
  E Galo, sabendo que a situação faria de Colt alguém para receber mais um elogio, ergueu as mãos sarcástico e sorriu ao dizer:
  — Se não te faz parecer um idiota, não é da conta dele.
  Maggie não havia ido embora, ela estava sentada no banco ao lado de Beau, porém, sorria de orelha a orelha como quem estava diante de um verdadeiro milagre. Os meninos se aproximaram entregando as bebidas, sentaram em outros bancos da varanda e de repente, a família contemplava-se unida novamente.
  — Não é fantástico? — ela disse aos filhos, apontando a chuva.
  — Já é um começo — Beau falou feliz. — Todos na região estão bebendo satisfeitos, inclusive eu! — E ergueu seu copo.
  — Olha, só queria dizer uma coisa — Colt iniciou. — Só começou a chover nessa cidade depois da minha chegada, então, acho que sou o pé de coelho dessa família.
  Tal como um presságio ou contradição, ao fim da última palavra de Colt, um estouro de trovão se ouviu e um raio caiu sobre o telhado do rancho Bennett. Imediatamente Beau olhou para trás, notando um pouco distante, porém não muito:
  — Merda! O celeiro tá pegando fogo!
  E assim, os quatro Bennett se levantaram alarmados se pondo a correr embaixo da chuva até o ponto onde a má sorte caiu.

• T H E  •  R A N C H •

  Demetria chegou em casa deixando o boné em cima da mesa da cozinha. Seu pai tomava mais uma dose daquela bebida estranha que ele inventou e fatiava um grande pedaço de lombo assado. De longe, ela notou o humor de Sam Peterson muito melhor.
  — Ei, papai, não te vejo sorrir assim há tempos. Nem com a minha volta — ironizou.
  — Querida, sabe que você é o amor da minha vida. Porém, essa chuva consegue te superar. — Ele riu. — É um milagre!
  — É verdade. — Demi pegou uma garrafa de cerveja na geladeira, abrindo a chapinha com as mãos enrolando-a na camisa. — Esse aguaceiro de ontem nos dá esperança. Foi uma noite inteira de chuva intensa, não é?
  — É sim! E como se não pudesse melhorar, o celeiro dos Bennett pegou fogo ontem à noite com um raio que caiu! — Sam gargalhava. — Consegui ver daqui!
  Demi sorriu revirando os olhos e desaprovando o gesto do pai.
  — Não deveria rir, papai. Poderia ser aqui.
  — Mas não foi, e se fosse, o maldito Bennett estaria rindo também!
  A mulher deu as costas ao pai caminhando para a varanda, levando a travessa de carne que ele havia cortado para ambos. Sam seguiu a filha e se sentou ao lado dela.
  — E como foi hoje? O que Dale lhe disse?
  — Ele é um bom amigo — Demi revelou apontando ao pai. — Te estima muito, e por isso me deu a chance de atender com ele. Disse que eu posso levar o valor integral dos tratamentos, e que vai ser até bom para ele, a minha ajuda, já que está pensando em se aposentar. Nunca achei que ouviria o Dale falar em parar de trabalhar.
  — É. O velho não parece bem… — Sam comentou ciente de uma situação que desconfiava, mas não poderia contar a ninguém, nem mesmo para a sua filha. — E a vaca dos Bennett? Você foi vê-la de novo?
  — Ainda não. Na verdade, nem precisam. Eles sabem cuidar, talvez nem precisasse de mim por lá aquela noite. Senti que Beau só estava inseguro de deixar o Galo e o Colt fazerem tudo sozinhos.
  — Também estranhei aquele filho da puta não dar conta de virar a porra de um novilho com as próprias mãos! Ele está deficiente por acaso?
  Demi estalou a língua em negação para o pai de novo.
  — Ele está preparando os meninos para tomarem conta das coisas, eu acho. Parece que o Colt vai ficar…
  Sam suspirou indiferente e olhou para a filha analítico, um pouco preocupado.
  — E você não vai me dar desgosto de novo, não é?
  Demi levava um pedaço de carne à boca e parou quando ouviu a pergunta. Encarou o pai, com a cabeça ladina e um olhar teimoso.
  — Do que está falando, papai?
  — Sei o que você fazia com aquele moleque, Demetria. — Sam estalou os lábios decepcionado. — Por que acha que gastei tantas balas tentando acertar a bunda daquele inútil? Um Bennett a menos, um filho da puta a menos para tocar na minha filha.
  Ela então riu.
  — O senhor sabe que éramos apenas amigos, Colt, Galo e eu.
  — Você o Galo sim. Mas, Colt… Se eu pudesse matá-lo… — Sam falou e então parou, observando o nada e estalando o dedo disse: — Espera! Eu ainda posso matá-lo!
  — E vai matar o Colt por andar com a sua filha? — Demi perguntou rindo sem querer confessar.
  — Não. Por andar não, mas por dormir com ela quando era só uma garota, sim. Acha mesmo que acreditei que foi seu ex-noivo que tirou sua virgindade, Demetria?
  A cerveja fez um bolo na garganta dela, e o engasgo veio como uma acusação inegável.
  — Pai!
  — Não me venha com essa de “pai”. Will foi um filho da puta em te trair daquele jeito, por isso eu quis matá-lo também, mas a minha ira com ele não é menor do que, o que senti com o filho dos Bennett! Você só tinha 16 anos!
  — Pai, escuta, eu não sei o que…
  — Não precisa negar — Sam comentou interrompendo a filha. — Agora você é mulher, eu não vou reviver essa história. Mas sabe o porquê eu não falei e nem fiz nada na época? Porque eu me senti culpado! Sua mãe havia morrido e como eu falaria dessas coisas com você? Além disso, se você entregou para ele o seu corpo, é porque sentia falta de sentimentos que nem eu ou sua mãe, ainda viva, poderíamos te dar. Você sempre foi ajuizada, então não acho que agiu por fraqueza. Fez o que fez porque quis. Mas eu não posso dizer que o garoto foi correto. Ele deveria ao menos ter te pedido em namoro, por isso, me arrependo de cada bala que não acertou o colhão dele.
  Demetria mordeu o lábio, escondendo o risinho pela última frase do pai.
  — O senhor sempre soube?
  — É. Desconfiei quando vocês deixaram rastros demais de que andavam se vendo escondido no meio do mato das duas fazendas. E o Galo sempre me olhava com uma cara de espertalhão que sabia de mais coisas do que eu. Lógico, eu te conheço, e sei que você jamais daria para o Galo, é odiar demais a si mesma.
  De novo, Demi riu, mas dessa vez sem esconder, e o pai também riu com ela.
  — Laci já tinha morrido. Eu não sabia como te proteger, mas quis me garantir. Fui até a Maggie e pedi que ela te ajudasse.
  Como um lampejo em sua memória, Demetria se recordou da conversa absolutamente constrangedora que a senhora Bennett teve consigo quando ela era adolescente e estava visitando os meninos no rancho.
  — Oh, foi isso! Achei que a senhora Bennett havia descoberto sozinha e me daria uma bronca. De repente lá estava ela falando de sexo e proteção comigo. Foi constrangedor, mas… — Demetria suspirou ao dizer. — Foi importante. Eu achava que teria a mamãe para falar dessas coisas, tirar as dúvidas, mas não tinha. Obrigada por saber e, mesmo não me contando, fazer algo por mim, papai.
  O velho fazendeiro sentiu uma certa emoção e raspou a garganta para se livrar dela.
  — Não tem que agradecer por eu fazer o que um pai deveria. Você gostava dele, não é? — Demi assentiu risonha. — E ainda gosta?
  — Não! — disse certeira. — Isso já faz muito tempo e eu era uma garotinha, pai.
  — Que bom, porque treinei mais a minha mira. Consigo acertar o alvo agora, mesmo estando velho.
  Demetria riu abraçando o pai ao seu lado.
  — E pai… Não se sinta culpado por tudo o que a ausência da mamãe não me proporcionou. Ninguém teve culpa pela doença dela, ok?
  O pai, mais uma vez emocionou-se, e tocou o joelho da filha com dois tapas de orgulho, assentindo.
  — Bem! — Pigarreou de novo. — A noite acabou de começar, você trabalhou o dia todo, mas acho que deveria ir para a cidade! As pessoas já sabem que a mulher mais bonita de Garrison voltou, mas nem todo mundo te viu. E certamente você tem outros amigos além dos malditos Bennett, não é?
  A filha gargalhou, comeu mais um pedaço de carne e disse:
  — Tem razão. O bar da Maggie deve encher logo!
  — Eu poderia reclamar, mas ela não é mais uma Bennett.
  — Achei que dentre todos os Bennett, a Maggie era a menos ruim para o seu julgamento — Demi falou em pé, olhando o pai com humor e terminado de virar sua cerveja.
  — É porque ela sempre foi uma boa pessoa. É uma vítima do Beau, a coitada. Era uma garotinha quando o filho da mãe fez com ela o que o filho dele fez com você, mas admito, o Beau foi mais homem e pediu a Maggie em casamento.
  — Para de julgar o Colt, pai. A nossa época foi outra.
  — Então devo julgar o seu mau gosto? — Ele fez piada para filha.
  Demetria apenas beijou a testa do pai e saiu. Se arrumou e pegou a própria caminhonete para ir ao bar da cidade.
  Uma das curiosidades sobre Garrison, ou melhor, sobre o Texas, era que as picapes eram os automóveis populares oficiais da região.
  A sineta da porta tocou, revelando a presença de Demetria no bar que ainda não estava cheio como de costume.
  — Oi, amor! — Maggie a cumprimentou do balcão, enquanto ela se aproximava.
  — Oi, minha querida Maggie! — Hank, um bêbado que nunca saía do balcão do bar até ser expulso e já figura caricata da cidade, falou para Maggie.
  — Eu estava falando com a Demi, Hank — Maggie corrigiu revirando os olhos para o bebum.
  Demetria sorriu para ela, e acenou com a cabeça para Hank.
  — Oi, Maggie, como estão as coisas?
  — Estão bem, o mesmo de sempre. — A mulher limpava o balcão. — Uma cerveja?
  — Sim, o mesmo de sempre — repetiu Demi.
  — Bom ver você saindo um pouco. Desde que voltou tem ficado no rancho ou na clínica, não é? Aliás, como está o seu pai? — Entregou a garrafa aberta para ela.
  — Ele está muito feliz com a chuvarada, e também… Com o incêndio no celeiro, e mandou um abraço para a “vítima de Beau Bennett”.
  As duas mulheres riram brevemente.
  — Depois do divórcio, eu sou obrigada a concordar com o Sam. E como está sendo trabalhar com o Dale?
  — Melhor do que eu esperava. O Dale tem um coração enorme e a Darlene é uma pessoa muito acolhedora.
  — Eles são mesmo ótimos! Está feliz de ter voltado, Demi?
  Maggie tinha muito carinho pela garota. Lembrava-se dela criança brincando com os filhos, quando sua mãe ainda era viva e os pais eram amigos e bons vizinhos cordiais dos Bennett. Depois da briga por uma cerca entre os dois ranchos, Laci e Maggie ainda eram amigas, mas quase não frequentavam o rancho uma da outra, já que Sam e Beau sempre estavam brigando.
  As crianças ainda conviviam, mas se aproximaram mais depois que a esposa de Sam faleceu, deixando Demetria órfã de mãe aos treze anos. Maggie, no entanto, acolhia a menina com muito gosto. Demi era bem-educada e graciosa, e na adolescência, quando Maggie descobriu que ela se envolveu com Colt, a matriarca fez questão de que Demi compreendesse nela uma figura segura de confiança. Nunca aprovou a indiferença de Colt com Demetria, e chamou atenção do filho várias vezes, mas Colt continuava achando que serem somente amigos era o melhor e o mais certo. Eles só tinham entre 16 e 18 anos.
  — Estou sim. Minha saída sempre foi temporária, não é? Mesmo em Phoenix, eu sabia que um dia voltaria para Garrison. Não conseguiria deixar meu pai mais tempo sozinho, a ideia era vir pra cá depois do casamento.
  — Ah sim. — Maggie suspirou. — Sinto muito, aliás! O Galo me contou.
  — Velha fofoqueira — Demetria zombou.
  A sineta da porta tocou mais uma vez e ambas olharam, vislumbrando a figura de Abby entrando no bar. A loira viu a morena sentada ao balcão e, fingindo não estar surpresa, abriu a boca e em seguida um sorriso. Timidamente se aproximava, e Maggie sussurrou para Demetria:
  — Você ainda não gosta dela?
  — Shiii. Eu nunca disse que não gostava — Demi respondeu sussurrando de volta e virando-se de frente para o balcão de novo.
  — Ah, sei.
  Abby se aproximou mais, sentando no balcão e o assunto das duas já havia encerrado.
  — Oi, Maggie — Abby falou, mordendo o lábio.
  — Olá, Abby, querida. Como vão as coisas?
  — Bem. — Abby sorriu e olhou para a mais jovem cumprimentando-a: — Demetria Peterson.
  — Olá, Abby — Demi respondeu olhando para ela e sorrindo.
  — Quando voltou? Quero dizer… Seja bem-vinda de volta.
  Abby não tinha nada contra Demi, a não ser um ciúme adolescente quando namorava Colt, já que Demetria era melhor amiga dos irmãos Bennett, e Abby sempre achou que ela e Colt tiveram algo. Mesmo com Colt, Galo e a própria Demi negando. Já Demetria, na adolescência, não gostava de Abby e nunca escondeu aquilo, apesar de não verbalizar.
  — Há alguns dias — respondeu simples.
  Abby percebeu que a mulher não falaria mais do que aquilo, e Maggie também. Por isso interrompeu, oferecendo:
  — Cerveja, Abby?
  — Não, Maggie. Uma água, por favor.
  — Água? — A mais velha estranhou. — Vou ver se acho isso lá atrás.
  As duas ficaram sós no balcão, e Abby decidiu insistir:
  — Faz tempo que não vejo o seu pai, ele está bem?
  — Está sim, ele não sai muito do rancho a não ser para os lugares necessários.
  — É… — Abby queria perguntar se Demetria tinha alguma mágoa, afinal, era estranho ver a garota de novo, agora já uma mulher absolutamente linda e que, pelo visto, continuava segura de si. — Você é veterinária, não é?
  — Sou sim, estou atendendo na clínica do Dale. E você, faz o que da vida? — Demi decidiu ser mais simpática e virou o corpo na bancada, sentando-se de frente para Abby.
  — Sou professora na escola da cidade.
  — É a sua cara. — Demi sorriu.
  Maggie voltou e estendeu cerveja light para Abby dizendo que era o mais próximo de água que tinha ali, exceto se a mulher quisesse água da torneira. Abby aceitou a cerveja.
  — Maggie, você foi ver o celeiro? — Demi perguntou.
  — Oh, eu estava lá — falou um pouco constrangida, mas Demi arqueou a sobrancelha e riu. Somente as duas entendiam a piada interna. — Não se preocupe, não foi um grande estrago.
  — E a Carla? Está bem depois do desastre que foi o Colt violando a pobrezinha? — Demi perguntou zombando.
  Maggie riu.
  — Graças a você, ela está bem. Ele não foi tão mal assim, foi?
  — Acho que o senhor Bennett gritando com ele foi o que dificultou as coisas, ele ficou ansioso.
  — Tem certeza que foi o Beau que deixou o Colt ansioso? — Maggie perguntou arqueando a sobrancelha do mesmo jeito.
  — Desculpa, mas… — Abby as interrompeu com a expressão surpresa — O Colt está na cidade?
  — Ah, sim, ele voltou — Maggie contou.
  Demetria se manteve silenciosa observando a reação de Abby, e para não revirar os olhos, bebeu um gole da cerveja. Como se fosse invocado, Colt surgiu pela porta do bar. A sineta tocou, Abby e Maggie olharam juntas, e a mãe cumprimentou:
  — Oi, amor!
  Hank ia falar algo, mas Maggie logo o cortou. Colt veio caminhando surpreso para o balcão ao deparar-se com Abby ali.
  — Uau! Colt Bennett. — A ex-namorada dele saiu do balcão, ficando em pé na frente dele. — Você está ótimo.
  — Oi, Abby… — Colt olhava para ela de cima a baixo, meio abobalhado, e sorriu, respondendo: — Você também está ótima!
  Um breve silêncio constrangedor foi interrompido por Demi pedindo:
  — Me vê mais uma, por favor, Maggie.
  A mãe dele virou-se para o freezer pra pegar a bebida, e Colt então aproximou-se do balcão no lado esquerdo de Demetria, contrário à onde estava Abby. Ele bateu o braço no ombro de Demi, que estava sentada mais baixa e sorriu pra ela dizendo:
  — Ei, Demi, tudo bem?
  — Fala aí, Colt. — Ela sorriu de volta, dando mais atenção para a cerveja que Maggie lhe entregava do que para o filho dela.
  — Oi, mãe. — Colt suspirou. — Me dê uma dose de alguma coisa que você tomaria se ainda morasse com o papai.
  Maggie pegou uma garrafa fechada de uísque e pôs no balcão. Demetria sorriu, Maggie olhou para a garota, ponderou mais um pouco e pegou uma segunda garrafa. Deu a entender ao filho que tomaria um porre se fosse ele. Demi e Colt riram ainda mais. Abby voltou a se sentar no balcão ao lado de Demi, um pouco sem jeito ainda com a presença de Colt.
  — Dia ruim com seu pai? — a mãe perguntou.
  — Eu mal vi ele o dia todo. Ficou arrumando o celeiro com o Galo enquanto passei o dia puxando estrume com uma pá. Minhas costas estão me matando. Sugeri mudanças para o papai e ele veio com aquele papo de que minhas ideias são idiotas.
  — Você não conhece seu pai, não é? — Demi murmurou.
  — E você sim?
  — Bom, com certeza, mais do que você — a amiga respondeu.
  Maggie contou para o filho que precisaria ter paciência, pois, com Beau, qualquer relação vinha primeiro com muito trabalho no rancho. Ele prezava e admirava as pessoas que trabalhavam duro como ele, e seria daquela forma que ele conquistaria cada vez mais o respeito do pai. Colt acenou e notou Abby ainda ao lado de Demi, então, curioso e admirado de ver a ex ali, o jogador sorriu para ela dizendo:
  — Abby, e o que você tem feito?
  — Sou professora de História na Garrison.
  — Uau, nossa, isso… Tem tudo a ver com você. Ei, vamos nos sentar ali. — Apontou uma mesa.
  Maggie observou a interação entre os dois, e trocou olhares com Demetria, que não esboçava nenhuma reação, ainda bebendo tranquila no balcão. Enquanto conversavam entre si, Maggie e Demi, às vezes prestavam atenção na conversa dos dois.
  — Mas me conta, Maggie… — Demi falou assim que Colt foi sentar com Abby na mesa atrás de si. — Dormiu com o Beau de novo, não é?
  — Ai, Demi, você sabe… Beau e eu sempre brigamos quando estamos juntos, e quando brigamos nós…
  As duas riram até que deixassem a risada morrer, e ouviram Abby e Colt atrás de si:
  — Mas o que você veio fazer em Garrison?
  — Ah, meu pai me ligou pedindo ajuda com o rancho, e eu decidi me dividir entre o futebol e as tarefas familiares, sabe…?
  — Nossa, e você continua mentiroso — Abby comentou rindo.
  Maggie negou com a cabeça sussurrando para Demetria:
  — O Colt continua tentando impressionar a Abby ou é impressão minha?
  — Acho que ele não a superou. — Demi deu de ombros rindo. — E como está o trailer?
  — Ótimo! É pequeno, não exige tanto tempo para arrumar, não tem como fazer bagunça nele porque ele é super funcional, enfim, muito melhor do que morar com o Beau, com certeza!
  — Fico feliz que ele te serviu bem, Maggie.
  — Não se arrepende de tê-lo vendido para mim?
  — Não. A ideia de morar em um motor home com meu marido e poder viajar quando quisesse era algo que tive com o Will, agora… Talvez ainda tenha um motor home um dia, mas… Foi melhor vender ele pra você.
  — Sinto muito mesmo, querida, pelo que aconteceu. E desejo que você encontre um marido à sua altura para viver em um motor home viajando por aí.
  — Obrigada, Maggie. Você sabe que pode fazer isso agora, não sabe?
  — Acho que ainda tem algo que me prende em Garrison.
  Maggie falou e as duas notaram novamente a conversa de Colt e Abby, assim que a sineta tocou e Kenny entrou no bar.
  — Ok, agora o Colt vai entender que precisa superar — Maggie sussurrou para Demi apontando o rapaz que chegou.
  — Kenny? — Demi perguntou surpresa para a mais velha e viu ele caminhar até a mesa onde Abby estava. — Ela está com o Kenny? Uau, é a cara dela também!
  O homem se aproximou cortando seja lá o que fosse que Abby e Colt diziam:
  — Uau, é Colt Bennett!
  — Oh, sim, mas por favor, eu te dou um autógrafo, só que agora estou conversando com uma amiga… — Colt falou simpático como se ele fosse um fã.
  — Ah, não, não, Colt… — Abby interviu. — É meu namorado. Kenny, lembra dele? Estudou com a gente no colégio.
  Colt murchou totalmente e Demi notou aquilo, assim como Maggie.
  — Ah, meu Deus, Kenny… — Colt tentava se lembrar.
  — Ele não faz ideia de quem seja — Demi sussurrou para Maggie e as duas riam enquanto Colt ainda falava com Kenny e Abby, e depois explicou: — Como ele ia se lembrar de um nerd da banda da escola? No máximo ele se lembra das músicas da banda.
  — Era uma só, não era? — Maggie perguntou rindo também.
  — Vocês tocavam “Eye of the tiger” pra gente quando saímos do jogo — Colt disse, sua mãe e vizinha riram ao ver que Demi havia acertado.
  Abby percebeu a ironia na voz de Colt, talvez, diminuindo a presença de Kenny em sua vida adolescente, então começou a tentar vangloriar-se do futuro atual, do seu então namorado:
  — O Kenny é gerente do hotel Courtyard by Marriott em Telluride.
  — Bem, na verdade não fica bem em Telluride, mas recebemos muitos esquiadores e outros praticantes de esportes de inverno — Kenny explicou humilde para Colt, que ouvia tudo de braços cruzados e uma expressão de estranheza.
  — É incrível fazer parte da família Marriott — Abby ainda dizia. — Você nem imagina os descontos que ele tem! Ano passado fomos pra Omaha sem motivo especial!
  Colt achava tudo aquilo uma grande bosta, e Demi e Maggie sabiam. Elas observavam a cara de tacho de Bennett sem saber como reagir e queriam rir, mas se seguravam.
  — Nossa… — Colt disse com cara de bobo perdido e sarcasmo. — Como você conseguiu um emprego desse?
  Enquanto Kenny ia contando sobre sua história e Abby achando tudo muito legal, Demi tomou o último gole de sua bebida e se despediu.
  — Bem, Maggie, eu vou nessa.
  — Ah, sério? Não quer saber como vai terminar? — a dona do bar falou risonha levantando-se, havia apoiado o cotovelo no balcão para assistir tudo.
  — Eu já sei como vai terminar — Demi respondeu deixando a garrafa e se levantando. — Com o Colt frustrado indo para casa e revirando os anuários do colégio até encontrar quem é o Kenny.
  — Eu apostaria se soubesse que ia ganhar, mas confio que você conhece o Colt quase tanto quanto eu. — Maggie a abraçou e a mais nova foi embora sem se despedir de ninguém.
  Maggie voltou a se concentrar no atendimento do bar. Colt estava entediado perto do casal, mas ficou ainda mais incomodado ao ver sua ex beijando o atual namorado depois de ele lhe falar algo carinhoso.
  — Droga, olha só… Esqueci que estou com a caminhonete do meu pai e mal falei com a minha mãe, preciso ir… — Colt comentou.
  — Ah, sério? — Abby perguntou sem graça. — Tudo bem, nos vemos depois.
  Kenny ainda falou mais algumas coisas com Colt, mas logo ele estava no balcão chamando por sua mãe.
  — Mãe, eu vou indo… Ué, cadê a Demi?
  — Ah, ela já foi embora.
  — Mas nem se despediu? — Colt reclamou.
  Maggie riu anasalado como se o filho não tivesse mudado nada e ainda continuava sem entender algumas coisas.
  — Você sequer deu atenção para ela desde que ela voltou, e tá reclamando porque ela não está aqui pra beber com você?
  — Bom, ela podia ao menos ser educada.
  — Demi é educada, você que às vezes me surpreende. — Maggie riu. — Vai com Deus. Deixa meu beijo no seu irmão.
  — Eca. Não.
  Colt saiu do bar e entrou na picape do pai, dirigiu o caminho todo pensando quem afinal era “Kenny” e desde quando aquele tipo de cara entediante fazia parte do gosto de Abby?

Temporada #01
Episódio 2.1

[parte 02]

  — Olá, Bennetts! — Demetria falou assim que desceu da picape estacionada na frente da casa.
  — O Colt não está — Galo comentou virando um gole da sua bebida.
  Ele e o pai estavam sentados na varanda contemplando a noite e um bom uísque americano, como faziam todo santo dia.
  — Eu sei, encontrei ele no bar da Maggie.
  — Como vai, querida? — Beau perguntou.
  Demetria subiu na varanda, e sentou ao lado do senhor Bennett tocando a mão dele.
  — Não vai me cumprimentar? — Galo perguntou implicante.
  — Você daria a mão esquerda, ou seja, a que você enfia nas vacas e cavalos — Demi respondeu ignorando-o, explicando que conhecia a malandragem de Galo.
  — E então, o que veio fazer aqui já que sabe que o seu namoradinho está bebendo com a mamãe?
  — Vim saber como vocês estão. Eu soube do celeiro. Precisam de alguma ajuda, Beau?
  — Ah, não, Galo e eu demos um jeito. Foi um pequeno estrago no telhado — Beau comentou e olhou enviesado para Demi, coçando o bigode ao perguntar: — Foi o filho da puta do seu pai que mandou você vir aqui conferir se estamos na merda?
  Os três riram e Demi mordeu o lábio, negando com um aceno de cabeça. A rixa dos dois já havia se tornado uma piada para os filhos deles.
  — Ele ficou rindo à toa assistindo o fogo lamber tudo. Mas relaxe, senhor Bennett, ele não sabe que estou aqui.
  — Como nunca soube — Galo comentou rindo e perguntou: — Ei, quer uísque?
  — Achei que eu mesma teria que buscar um copo lá dentro.
  — E você vai. — Galo riu dando de ombros.
  Quando Demi se levantou para entrar e pegar um copo, Beau também se levantou.
  — Pegue seu copo, encha e vamos ver a Carla. Achei ela meio apática hoje, mas o novilho uma beleza. Já que pisou aqui, venha fazer outra consulta de graça, por favor.
  — Claro, senhor Bennett. — Demi riu.
  Ela buscou um copo, encheu e depois foi com o mais velho até o celeiro, onde os dois animais estavam separados do restante do curral.
  Minutos depois, Colt chegava com a expressão de quem não fazia a menor ideia do que havia acontecido.
  — Ah, agora é você… — Galo cumprimentou.
  — Vá se foder Galo — Colt falou sem nenhum mau-humor, apenas de sacanagem e entrou em casa sem perceber direito o irmão.
  Retornou com o anuário do colégio em mãos, sentando no banco da varanda e folheando.
  — Que porra está fazendo, Colt?
  — Procurando quem diabos é Kenny!
  Galo deu uma risadinha.
  — Ah… Então você encontrou a Abby.
  — É, e ela tá namorando um cara… Bem, vamos ver quem era ele…. — Colt concentrou-se no que queria fazer. — Achei. Kenneth Ballard. Atividades: banda marcial, banda de jazz, clube de francês, clube de xadrez… É, acho que não coube espaço para “clube do virgem”.
  — Sabe, eu acho que tem caras muito piores que poderiam namorar a sua ex — Galo disse enquanto observava o irmão.
  — É? Tipo quem?
  — Sei lá, tipo eu.
  — Até parece… — Colt fez pouco caso.
  — Tá bom, se quer saber… — Galo endireitou-se na cadeira preguiçosa de madeira da varanda e falou como se fosse contar a verdade para Colt: — Uma vez, dia da independência, bêbados, caçamba da caminhonete, com sapatos, sexo.
  Galo terminou a frase fazendo um sinal de “sim”, com a cabeça e um olhar de culpado. Colt encarou o irmão fechando o anuário e sentindo-se chocado.
  — Que história é essa, cara?! — perguntou em tom de autoridade.
  — Tô zoando… — Galo riu ao responder, e provocou de novo: — Talvez não.
  Colt ficou em silêncio e então negou com a cabeça, achando o irmão um babaca por brincar com aquilo. E mesmo não acreditando em Galo, resolveu perguntar de novo:
  — A Abby eu sei que não dormiria com você, mas… — ponderou. — Não, a Demi também não — Colt afirmou e riu.
  — Agora a Demi está na lista de suas ex-namoradas? — Galo indagou achando graça.
  — Não. Quero dizer… A gente não chegou a ser namorados. — Colt tentou consertar e então olhou para Galo ainda preocupado: — Porra, não me diga que ela dormiria com você?
  — Talvez. — Galo pegou sua bebida e divertindo-se com as reações do jogador, voltou a sentar-se confortavelmente, encerrando o assunto com uma frase ambígua. — Você nunca vai saber.
  O celular de Galo acusou uma notificação de mensagem, e Colt com cara de quem não queria sequer pensar naquelas hipóteses malucas, se levantou deixando o livro na mesinha da varanda, e pegou o copo que estava perto da garrafa e que Beau havia deixado ali, para se servir.
  — Quem é? — Colt perguntou estranhando que Galo recebera uma mensagem.
  — É amizade colorida. Linda Miller.
  — Linda Miller? Mas é a Linda gata ou a Linda grávida?
  — As duas são gatas — Galo respondeu.
  — Linda gráaavida! Você tá saindo com a linda grávida! — Colt zombava o irmão.
  — Qual é, cara, esse era o apelido dela no primeiro ano, o filho já tá no reformatório. Os outros quatro são legais, a gente joga Xbox.
  Enquanto Colt ria do irmão e Galo se justificava, Demi e Beau chegavam.
  — Uau, vocês continuam os mesmos ridículos — Demi disse assim que ouviu que o assunto era a “Linda grávida”, uma colega de escola.
  — Essa porra é minha. — Beau pegou o copo da mão de Colt e virando-se para Demi, deu um meio-abraço na garota, despedindo-se: — Até mais ver, querida. Obrigado pelos cuidados com os animais.
  — Até mais ver, senhor Bennett.
  Beau entrou e Demi sentou-se no banco duplo de madeira. Colt olhou para o copo dela, e ela sorriu, o estendendo para que pudessem dividir.
  — Galo está saindo com a Linda? — Demi perguntou.
  — A gente só transa de vez em quando — ele contou.
  — Algum dos quatro filhos dela é seu? — Colt perguntou.
  — Não. A gente se cuida. Só transamos quando ela já está gravida.
  Colt riu passando o copo para Demi beber, e a veterinária encarava Galo com expressão de repulsa.
  — Sinceramente, como uma mulher dorme com você?
  — Você pode responder uma dúvida do Colt, então, você transaria comigo? — Galo perguntou fazendo o irmão jogar uma bota do próprio, sobre ele.
  Demi bebeu seu último gole de uísque e encarou Colt como se tivesse sido xingada por ele da pior maneira.
  — Não está falando sério, não é?
  — Claro que não! — Colt defendeu. — O Galo é maluco, eu sei que você jamais se submeteria a este trauma.
  — Um Bennett já foi cagada demais para mim — Demi respondeu e entregou o copo para ele. — Pode ficar.
  — Ei, não fala assim, Dementadora! O Colt pode ficar magoado.
  — Espera aí, Demi… — Colt se virou para ela indignado. — Você realmente acha que fui um passo ruim na sua adolescência?
  Demi riu e Galo riu com ela, os dois não acreditando no que Colt disse. O jogador ficou encarando-os, descrente.
  — Tá falando sério? Você acha que você é um bom passo na vida de alguma mulher, Colt? — Demi respondeu.
  — Pois é! Como uma mulher dorme com Colt Bennett? — Galo devolveu a frase da amiga, cheio de ironia.
  Demetria elevou o dedo do meio para ele, e se levantou.
  — Vão se foder. — Olhou o anuário sobre a mesinha, e mordeu o lábio com as mãos na cintura. — Ela sabia mesmo que ia perder uma grana pra mim.
  — O quê? — Colt perguntou.
  Demi olhou para Colt com cara de dó.
  — Você foi buscar quem era o Kenny. — Apontou o anuário. — Sua mãe não quis apostar quando falei que você faria exatamente isso. Segundo Maggie, eu te conheço tão bem quanto ela. E bem… Acho que conheço mesmo, não é?
  — É, você conhece — Galo zombou.
  — Escuta, por que saiu do bar sem se despedir? — Colt perguntou encarando Demi de um jeito quase como se não a conhecesse.
  — Por que eu deveria me despedir? Você quem chegou depois. — Demi deu de ombros e se virou de costas. — Vejo vocês por aí.
  — Hey, Demi! — Galo chamou fazendo a mulher se virar. — Deveria parar de andar com essas regatas coladas, você tá muito gostosa, vai gerar polêmica na cidade.
  — Ah é… — Demi pendeu a cabeça para o lado e ajustou o boné em sua cabeça. — Eu ainda não mandei você se foder hoje, não é?
  — Mandou há cinco minutos, mas nunca é demais — Galo contou rindo.
  Demetria entrou no próprio veículo sorrindo, e tirou a picape do rancho Bennett, mas quando passou pela porteira de entrada, encontrou outra caminhonete chegando. Uma azul, e ela sabia muito bem de quem era.
  — A Demi… — Colt falou para o irmão, quando o automóvel dela já tinha saído. — Tá mudada, não é? Quero dizer… Ela sempre foi discreta, mas eu me lembro dela ser mais… molecona.
  — Bom, ia ficar estranho um mulherão desse agindo como uma garotinha por aí, não é? Além disso, a Demi passou por muita coisa… A perda da mãe, você ser um bundão, a partida de Garrison com o pai ficando sozinho… Sabe que ela colocou muitas responsabilidades nas costas e eu acho que essa última do ex-noivo dela não deve ter sido superado. Ela estava muito feliz quando veio nos convidar.
  — Pois, é né… Que otário perde uma mulher como a Demi Peterson?
  Colt diz contemplativo e Galo o encarou com expressão de incredulidade. Não era possível que o irmão falava sério!
  — Olha, desde quando a Abby e o Kenny estão juntos?
  — Porra, eu sei lá… — Galo não entendia a mudança brusca de assunto. — Por que tá se importando com isso?
  — É que é estranho ver ela com outro cara. Namoramos por quatro anos…
  — Mas o Kenny é bem legal. Ei… Tem alguém vindo.
  Galo falou e antes que os dois pudessem comentar mais alguma coisa do namoro da ex de Colt, o carro dela estava adentrando.
  — Ranger azul, farol de milha… É o carro da Abby… — Galo estranhou.
  Assim que o carro dela parou onde antes estava o de Demi, ela sorriu sem graça e Colt cumprimentou surpreso:
  — Oi, Abby…
  — Oi, Colt, — Ela desceu do carro cumprimentando-os. — Galo…
  — Escuta, me faz um favor? — Galo pediu assim que a loira estava na frente deles. — Dá um “alô” à Shari para mim, amanhã lá na escola?
  Abby olhou para o Bennett, confusa, assim como Colt olhou para o irmão e Galo foi logo explicando:
  — É a professora nova de espanhol, uma gata! Ela é cinquentona, mas parece ter diez años a menos!
  — Achei que estava com a Linda! — Colt comentou.
  — Não! Ela não tá grávida agora — Galo respondeu óbvio.
  Abby revirou os olhos e suspirou. Jameson Galo Bennett era o pior tipo de cara com quem uma mulher poderia se envolver.
  — Olha, eu sei que está tarde, mas queria saber se podemos conversar? — Abby disse para o ex-namorado ignorando as bobeiras do outro.
  — Claro, mas vamos sentar ali na picape, o pai tádormindo. Vaza, Galo.
  Assim que Galo fez mais uma piadinha com Abby, ele saiu de perto, deixando os dois sozinhos. Colt e ela abriram a porta da caçamba e sentaram ali para conversar.
  Na verdade, Abby não sabia dizer o que a levara ali, mas alguma coisa sobre ter reencontrado Colt e em seguida visto Demi sair do rancho deixou ela um pouco mexida. Com a desculpa de que foi até lá saber se ele estava bem após constrangê-lo um pouco com a apresentação de Kenny, Abby pediu desculpas.
  Colt falou que não se constrangeu, só não conseguia acreditar que ela estava namorando o cara do “clube de xadrez”. Eles riram, e após um tempo em silêncio, Colt perguntou o que ela realmente estava fazendo ali.
  — Escuta, por que você veio até aqui? — O tom dele era curioso e singelo.
  — Queria saber se você estava bem, já disse…
  — Podia ter ligado… Mas você dirigiu 25 km até aqui, no meio da noite, sem seu namorado, só pra ver se eu estava bem? Qual é?!
  A cara de Colt denunciava a malícia e total implicância de pegar Abby com calças curtas.
  — Para começar… — Abby explicava-se com indignação do que ele parecia insinuar. — O Kenny está indo para uma exposição de frigobar em Boulder, não poderia vir.
  O rosto de Colt segurou um sorriso sarcástico, mas Abby continuou:
  — E, além disso, eu queria te dizer pessoalmente que o Kenny e eu nos amamos. E como a gente vai se encontrar bastante agora, queria ter certeza que não ia ficar estranho.
  Colt suspirou fundo e se levantou da picape sem jeito.
  — É, pra ser sincero… Não é a resposta que eu esperava. Mas… Tá, é… Não vai ser estranho não, eu prometo que quando encontrar vocês no futuro vou tratar o Kenny com hospitalidade — Colt respondia, mas tudo já estava constrangedor demais.
  — Tá bem! — Abby sorriu entendendo a piada utilizada na palavra “hospitalidade” já que seu namorado falou nela quando conversaram sobre hotéis mais cedo e Colt quase morreu de tédio. — Não vai ter mais constrangimento?
  Ela saiu da carroceria, Colt fechou-a.
  — Não. Eu tô bem, vamos lá! Sem constrangimento.
  Colt disse em pé de frente a ela.
  — Beleza, então tá, eu tenho que ir. A detenção começa às sete.
  — Detenção? Nossa! — Colt sacudiu a cabeça e se adiantou para abrir a porta da picape para Abby. — Acho que passei mais tempo na detenção do que assisti aulas.
  Abby sorriu, entrou no carro, ele fechou a porta para ela, e os dois se olharam uma última vez antes dela sair.
  — Bom te ver, Colt.
  — Também gostei de ver, Abby.
  O carro dela ia saindo, e Galo surgiu na varanda mostrando que nunca havia saído dali e escutou a conversa toda. Aproximou-se do irmão com outra garrafa de bebida, oferecendo ao perguntar:
  — Quer relaxar mais um pouco?
  — Eu quero — Colt disse virando a bebida direto no gargalo enquanto os dois encaravam o automóvel deixar suas terras.

• T H E  •  R A N C H •

  Na manhã seguinte, Beau estava muito irritado. Não precisava de nada muito absurdo acontecer para o velho fazendeiro ficar de mau-humor. No entanto, ele poderia esconder, mas o fato de Colt não acordar cedo para auxiliar no rancho era o motivo da sua irritação.
  Estavam terminando de arrumar o celeiro, Galo e ele, quando Colt surgiu se desculpando e tentando explicar por que não acordou cedo. Beau, de novo, começou a discutir com filho, e como sempre, iniciando “sutilmente”:
  — Pai, me desculpa.
  — Tudo bem, Colt, eu não estava contando com você mesmo.
  — Não, é sério, pai, é que ontem à noite a Abby veio aqui, isso me deixou mal e…
  — Ah, pronto, começou. Você sempre tem uma desculpa — o pai ralhava. — Agora é a garota, qual vai ser a próxima?
  — Pai, qual é? — Colt mal podia acreditar na dureza do pai. — Tô aqui, quero trabalhar, quero ajudar, me diz o que fazer…
  Beau caminhou até a garrafa de café dizendo que aquela era a única função que poderia confiar ao caçula. Ultrajado, Colt se negou a fazer algo tão ridículo só porque o pai resolvia o humilhar.
  — Não me importo de limpar a baia, arrumar a cerca, mas não vou servir de empregado pra você! — Colt disse.
  — Então está fazendo o que aqui? — Beau perguntou.
  — Deixa só eu tirar essa possível arma do crime daqui… — Galo zombou entrando entre os dois para tirar uma serra circular de cima do quadrado de feno.
  — Quer que eu saia? Ótimo, então vou embora! — Colt saiu bufando.
  Ele desceu as escadas com rebeldia tardia, e seu irmão pegou a garrafa de café da mão do pai. Galo deixou Beau sozinho dizendo que traria mais da bebida. Porém, o que ele pretendia era ir atrás do irmão para o acalmar. Quando chegaram no casarão, Colt pegou uma mochila com algumas roupas e ia catando tudo no caminho enquanto seu irmão o tentava convencer. Mas, o jogador, de ego ferido, estava irredutível, e dizia que o irmão deveria deixar o rancho também.
  — Colt, qual é! O pai sempre pegou pesado com você, mas ele também pega pesado comigo…
  — Então vai embora também!
  — Deixar o pai?! — Galo falou. — Pra ele perder o rancho e quando a gente voltar tudo ter sido vendido?
  — Então fica, porra! Faz o seu papel, sempre foi o filho bonzinho! Eu vou embora!
  — Cara… — Galo suspirou pesaroso vendo o irmão juntar suas coisas. — Tava tudo tão legal aqui…
  — Não tinha nada de legal aqui!
  — Tinha sim! Ontem a gente bebendo juntos na varanda, você sofrendo, eu tirando sarro de você! Estava incrível!
  — Não! Não estava! — Colt soltou as coisas indignado. — Porque eu ainda não sei se você transou com minha ex-namorada ou não!
  — Ah! — Galo zombou. — Não vamos nos prender a esse detalhe!
  Colt ignorou o irmão pendurando a mochila e saindo, mas Galo segurou seu braço.
  — Ei! — falou sério — Olha, cara, você é meu irmãozinho, tá? Eu não quero te perder de novo.
  Colt olhou culposo e emotivo para o irmão mais velho, engoliu o bolo de lágrima na garganta e disse:
  — Desculpa.
  Deu as costas saindo, mas de repente Galo que ficou vendo Colt caminhar, saiu em disparada saltando no sofá e pulando em cima do irmão. Era o único jeito de pará-lo: contenção, como no futebol americano.
  — Que porra é essa?! O quetá fazendo, Galo? — Colt se debatia tentando escapar do irmão, que explicava:
  — Se você for embora agora, o pai não vai deixar você voltar! Você não vai embora! — E agarrou os pés do irmão que se levantava.
  Mas não adiantou. Colt tirou os pés de dentro das Uggys folgadas que ficaram nas mãos de Galo e saiu.

• T H E  •  R A N C H •

  Noite alta, e Galo jantava com o pai em casa. Beau ainda com um humor péssimo.
  — Pai, quer assistir alguma coisa depois?
  — Tipo o quê? — perguntou ranzinza.
  — Alguma coisa na Netflix.
  — Que merda é essa de Netflix?
  — Deixa pra lá. — Galo suspirou e tentava estabelecer algum assunto a fim de melhorar o clima da casa: — Ei, ouvi uma piada ótima hoje. Um cavalo entrou num bar…
  — Por que um cavalo entraria em um bar? — O pai interrompeu impaciente.
  — Pra beber — Galo falou óbvio.
  — É um cavalo, deveria beber em um cocho, porra.
  Quanto mais Galo tentava explicar a piada que Beau insistira em problematizar, mais a conversa ficava sem graça e sem sentido. Ficaram minutos naquela de “cavalo, bar, cavalo não bebe, aí o cavalo falou, e cavalo não fala, e posso contar a piada?” até que Beau mandou Galo ir lavar a louça. Enquanto tirava a mesa, o mais velho resolveu arriscar. Perguntou ao pai se não achava que ele havia pegado pesado com o irmão.
  — Tem razão — Beau concordou com o filho que ainda estava ali, em um semblante de quem odiava admitir estar errado.
  — É sério? — Nem mesmo Galo acreditava.
  — É, e não é da sua conta.
  — Ele é igual a você — Galo afirmou.
  — Ele não é nada igual a mim.
  — Vocês dois são teimosos demais para admitir que a culpa é de vocês.
  — Isso não é verdade… — O pai teimava e Galo olhou para ele julgando. — Tá, então me responde uma coisa, Galo. O que aconteceria com o rancho se eu morresse?
  — Depois da festa? — zombou Galo e Beau continuou com a expressão séria. O barbudo se aproximou do pai explicando: — Bem, eu ia administrar o rancho.
  — E se nós dois morrêssemos? — Beau insistiu na hipótese.
  — O que é isso? Tipo, assassinato e suicídio? — Galo seguia zombando das situações metafóricas do pai.
  O velho bigode branco de Beau Bennett remexeu-se sobre a boca, demonstrando uma inconformação e impaciência.
  — O Colt iria vender o gado, venderia todo o rancho e torraria o dinheiro sem fazer nada de bom com ele — justificou-se o pai.
  Na lógica de Bennett, suas ações estavam bem pautadas no ideal de “quanto mais difícil for para meu filho conviver comigo, mais fácil ele conseguirá dominar a própria vida”.
  — Seu irmão é uma criança de 34 anos. Só estou tentando preparar ele para o resto da vida dele. Se tiver que dar um empurrãozinho, que seja.
  — Bem… — Galo comentou um pouco chateado pela situação. — Foi um belo empurrão, empurrou ele para fora de casa.
  Galo saiu e deixou o pai pensativo e, por mais que não parecesse, também chateado com tudo.

• T H E  •  R A N C H •

  — Querido, eu moro em um trailer. Eu adoraria te ajudar, mas o máximo que posso fazer é deixá-lo dormir no bar quando eu fechar.
  — Mãe, o bar está lotado e provavelmente não fecha antes das quatro da manhã. E eu não duvido nada que mesmo fechando, o Hank continue ali no balcão — Colt reclamou e deu mais uma observada no agito local. — Mas que porratá acontecendo aqui, caiu um caminhão de cerveja?
  — A Heather me contou que tem um festival para começar amanhã, em Dakota do Norte, e muitos viajantes resolveram pousar em Garrison antes de seguir pela estrada. Ruim para você que não tem onde dormir, ótimo para a mamãe que vai ver muito dinheiro! — Maggie sorriu e falou saindo de trás do balcão.
  Assim que passou por Colt, deixando ele com uma mochila pendurada em um ombro, o queixo caído e uma expressão de azar no rosto, Maggie cruzou com Demetria entrando no bar.
  — Hey, querida!
  — Maggie, tá vendendo drogas? — a veterinária perguntou, a outra sorriu e Demi foi ao balcão, o único lugar com espaço para sentar e beber. Colt estava parado em pé, com uma cara de bunda mole. — E aí, Colt, já está fugindo de novo?
  Demi riu ao notar a mochila dele.
  — Andou falando com meu pai hoje, é?
  — Não, só é fácil deduzir. Sua cara de bebê chorão e essa mochila com meia cueca pendurada para fora dizem tudo.
  — Pô, Demi, hoje não, você também não… — Ele decidiu se sentar ao lado da mulher.
  — Pega uma cerveja pra gente, não senta ainda.
  — Eu não sou garçom.
  — É filho da dona do bar, ou vai querer que eu mesma invada o balcão dela?
  O argumento era forte. Ele obedeceu o que Demetria disse e passou para o interior do balcão, serviu a amiga e a si, então sua mãe voltou dizendo:
  — Ótimo! Isso, me ajude a trabalhar.
  Mal abriu sua longneck, Maggie puxou o filho para ajudá-la a atender. Demi ficou rindo, observando Colt mais sem jeito do que o bêbado do Hank. E quando Maggie notou que poderia dispensá-lo um pouco, mandou Colt sentar e conversar com a amiga que o aguardava.
  — Então… — Demi falou apontando a garrafa dele vazia. — Deu tempo de eu beber a minha e a sua, pega outra pra gente. — E riu.
  Colt fez o mesmo e dessa vez foi se sentar ao lado da Peterson.
  — Me conta, para onde vai com essa mochilinha? — Apontou a mochila que ele deixou no chão da parte interna do balcão.
  — Saí de casa. Discuti com meu pai. Ele é impossível, Demi! Torna tudo mais difícil para mim e faz questão de me tratar pior do que trataria o cachorro. Aliás, outro dia ele me proibiu de comer o resto da comida do almoço que sobrou porque o osso era do cachorro.
  Demi riu da colocação e Colt virou um gole longo de cerveja.
  — Você ri porque não é com você.
  — Dou risada porque você tem 34 anos de idade e ainda não aprendeu nada com o seu pai — Demi confessou. — E não me olha assim, nãotô contra você e do lado dele.
  — Pois pra mim parece que você sempre está do lado dele.
  — Olha, Colt… Sua família renunciou a muita coisa para você ir atrás do seu sonho. Seus pais se sacrificaram para te mandar dinheiro todo mês até você conseguir se virar e o Galo ficou na merda quando você partiu, tendo que lidar com o cargo de “filho e ajudante” em tempo integral.
  — É, eu sei disso tudo. O Galo também desabafou comigo…
  — Pois é. Fui embora alguns meses depois que você, então sei que o início da sua partida não foi fácil para ninguém. O imbecil do Galo chegou a me pedir pra ficar. — Demi riu ao se lembrar dele incomodado porque os dois parceiros estavam indo embora.
  — Você não transou mesmo com o Galo, não é? — Colt perguntou de novo, sentindo-se estranho em ver aquele sorriso dela ao falar sobre o irmão.
  — É claro que não! Que porra de história é essa desde ontem?
  — É que o Galo… — Colt suspirou. — Ah, deixa pra lá…
  Demi ignorou bebendo mais um gole, e Colt mordeu o lábio olhando para ela de novo e perguntou:
  — Então os primeiros meses sem mim aqui foram difíceis para todo mundo… Até pra você?
  Demetria ouviu aquilo sem saber se deveria dar um soco na cara de Bennett ou responder em bom-tom. Era mesmo sacanagem, não é? Ele perguntar aquilo logo para ela? Não é possível que Colt não soubesse ainda dos sentimentos que um dia a amiga tivera por ele…
  Ao mesmo tempo que se sentia aliviada porque, sem saber, as coisas entre eles seguiam naturais; Demetria se sentiu com raiva porque nada mudou muito: Colt Bennett ainda não conseguia entender os sentimentos dela, mesmo que fossem emoções passadas.
  — Foi sim, Colt, para todo mundo. — Deu uma resposta genérica.
  — Você parece ter ficado mais próxima de toda minha família. Principalmente do papai.
  — Seu pai sempre gostou de mim, Colt. Ele passou a me acolher mais depois que descobriu o que você fez comigo, sobre minha virgindade, quero dizer.
  Colt avermelhou-se e ficou chocado.
  — Do que você tá falando? O meu pai sabe que você e eu…?
  — Fomos o primeiro um do outro? Até meu pai sabe.
  — Puta que pariu, Demi! — Colt sentiu-se sufocado. — Você contou?
  — Não. Eles notaram porque fomos péssimos escondendo, e claro… Tinha o Galo cacarejando sacanagens de nós dois pra todo lado. Mas… Isso não importa agora, meu pai ainda quer te matar, mas… É porque você é um Bennett.
  — Que merda… — Colt virou sua cerveja sentindo-se exposto. — E não fala isso como se eu tivesse feito algo ruim com você! Nós dois fizemos!
  — Eu sei, mas seu pai e o meu acham que você deveria ter assumido mais responsabilidades. — Demi deu de ombros. — Agora me conta, vai fazer o quê?
  Ela mudou o assunto tratando de novo de falar sobre ele ter saído de casa.
  — Eu não sei, a mamãe inventou de morar na porra de um trailer que só cabe uma pessoa.
  Demi arqueou a sobrancelha surpresa, ela conhecia o motor home de Maggie que um dia foi seu, e caberia facilmente duas pessoas e um cachorro ali. Esse era o plano.
  — E para onde você vai?
  — Talvez esperar esse povo todo ir embora, o bar fechar e torcer para o Hank não ficar aqui dentro me vendo dormir.
  Demi riu e então mordeu o lábio olhando ao redor:
  — Não dá pra ir para nenhum hotel, a cidade está lotada. Mas talvez, até o fim da noite, você arrume uma cama para dormir se encontrar alguma mulher que não seja sua ex por aqui.
  — Não estou em condições de dormir com ninguém, Demi. Abby esteve lá em casa ontem à noite. Foi um porre, e pior ainda foi acordar atrasado, brigar com meu pai, passar o dia treinando em Denver e voltar sem ter onde pernoitar. Esse é o motivo de eu estar aqui.
  — Espera… Perdeu a hora de trabalhar e disse para o seu pai que a culpa foi da Abby? — Demi virou o corpo para Colt, chocada. — Você é mesmo muito imaturo, Bennett! Beau tinha razão, seja lá o que ele te disse.
  Colt bufou e se levantou, impulsivamente.
  — Ah, claro, é verdade! Você puxa a porra do saco do meu pai, havia me esquecido!
  Demetria olhou para Colt de cima a baixo e ficou em pé na frente dele, desafiadora e tão intimidadora como sempre foi. Tocou o peito dele com um indicador o empurrando levemente, mas dizendo firme:
  — Vai para a porra do inferno, Colt Bennett! Não joga em mim sua frustração em ser a merda de um mimadinho de 34 anos que não aceita ouvir as verdades do papai bruto!
  — Demetria, você não sabe do que… — Colt segurou a mão dela firme, mas sem ser agressivo e dizia com raiva raspando os dentes, até ela o interromper:
  — Não sei o quê? Que seu pai é duro com você pra ver se você acorda para a vida e toma juízo? Ou que ele sabe o quanto você perdeu tempo da juventude na farra enquanto deveria ter sido um jogador mais disciplinado e cuidadoso? O que mais? Não sei que desde criança você sempre busca uma desculpa para justificar seus erros ou alguém para culpar por suas falhas? — Demi dizia séria e fria. — Vá se foder, Colt. Conheço você melhor até mesmo que você! O que o Beau espera é que você crie coragem de encarar que nem tudo é da forma como a gente quer! E principalmente, ele quer saber que pode confiar nos filhos se ele morrer e a porra do rancho ficar com vocês!
  Colt ia dizer de onde ela tirou aquilo, mas Maggie se aproximou percebendo a discussão deles, e tocou o ombro de Colt, para o filho soltar a mão da mulher e assim, Demi pudesse se afastar um pouco dele. A tensão era palpável.
  — Crianças… — Maggie interferiu. — Não briguem, ok? Colt, a Demi está falando isso tudo porque sabe o que se passa na sua cabeça e na do seu pai. Embora, confesso que talvez como sua mãe, eu devesse ter te dado esse sermão antes.
  — Concorda com ela? — Colt perguntou para mãe, revoltado.
  — Concordo, e, no fundo, você sabe que ela tem razão. Agora, sentem os dois e bebam. Colt, espere um pouco, vou ver o que posso fazer para te ajudar.
  Assim que falou, Maggie foi atender outros clientes, Colt sentou-se no banquinho do balcão de novo, e Demi seguiu a mãe dele. Perto de Maggie ela indagou:
  — Por que não deixa ele ficar no trailer? Sabe que cabe vocês dois lá.
  — Demi, querida. Se eu deixar o Colt dormir ali, ele não vai embora nunca mais. Ele precisa ficar em um lugar desconfortável para ver se muda ou se volta e pede desculpas ao pai implorando misericórdia.
  — O bar não vai fechar tão cedo — Demi comentou ainda irritada.
  — Bem, você tem outras opções?
  Maggie arqueou a sobrancelha para ela e saiu. Demetria bufou e retornou ao balcão. Dessa vez, invadiu o bar e pegou a própria cerveja na geladeira. Tirou o dinheiro do bolso e enfiou na caixa registradora.
  — Você está diferente, Demi. Não parece mais a garota feliz e tranquila de antes.
  — Eu nunca fui totalmente feliz, e muito menos tranquila, desde a morte da minha mãe, Bennett — disse ríspida bebendo e gritou pra Maggie: — Deixei o dinheiro no caixa!
  Maggie assentiu de longe.
  — Vamos, Colt, pega a mochila e vem comigo.
  Demi saiu do bar pisando fundo, e Bennett não entendeu, mas fez o que ela disse e acenou pra mãe que os olhou sem entender para onde iam.
  — Espera aí, você conhece algum lugar pra eu ficar? — ele perguntou seguindo ela pela rua.
  — Vamos para o rancho.
  — Do meu pai, ou do seu pai? — Colt perguntou abobalhado e com certo temor.
  — O que você acha? — Ela abriu a porta da própria picape entrando nela, Colt parado na porta do motorista a encarava com a janela aberta e disse:
  — Não sei qual opção é menos pior.
  — Anda logo, Bennett! Meu pai já está dormindo a essa hora, vou te esconder uma noite e você só precisa acordar cedo e sair de lá.
  Colt ponderou e então aceitou. Durante todo o trajeto, ele falava igual uma velha fofoqueira e Demetria respondia monossilábica, mas já com seu humor tranquilo.

• T H E  •  R A N C H •

  — Tem o filho da puta de um Bennett dormindo no meu celeiro — Sam comentou assim que viu a filha tomando café na cozinha. — E não bastasse ser um Bennett, é o mais inútil deles. O que você fez, Demetria Peterson?
  Seu pai estava parado na porta da cozinha, um rifle na mão esquerda apoiado sobre o ombro, o boné na outra mão e um olhar de quem não hesitaria.
  — Ele é mesmo inútil. — Demi bufou por Colt ainda estar lá. — Desculpa, pai, o Beau e ele brigaram, encontrei o Colt por acaso ontem à noite sem ter onde dormir. Longa história, mas ofereci o celeiro. Deveria tê-lo deixado no curral, mas ele tem um histórico nada casto com vacas — Demetria falou séria, no fundo, achando que Galo adoraria aquela piada.
  Seu pai a encarou desconfiado e irritado.
  — Meu celeiro não é hospedaria, nem minha casa, ou seja… Meu rancho não é abrigo, ainda mais para um Bennett. Espero não o ver nunca mais aqui.
  — Tudo bem, eu disse pra ele ir bem cedo para te poupar o desgosto, mas… Colt dorme mais que os animais, pelo visto.
  — Não quero saber, vou dar um tiro na bunda dele. — Peterson avisou à filha que apenas assentiu.
  O velho Sam saiu a pé, e Demetria escorou no beiral da porta vendo o pai seguir.
  — O primeiro tiro vai ser de aviso, é melhor você acordar e ser mesmo rápido jogador… — ela sibilou pra si mesma.

  Sam entrou no celeiro e como a filha bem havia previsto, ele atirou primeiro em um monte de feno. Colt saltou em um susto e quando viu o velho Peterson, ele pegou sua mochila, meio sonolento, e arregalou os olhos.
  — Senhor Peterson!
  — Vou te dar três segundos de misericórdia, só para não tornar Demetria a filha de um assassino. Um… — começou a contar e Colt não entendeu. — Dois…
  Então ele percebeu e começou a correr para longe do celeiro. Quando estava em uma distância considerável, Sam mirou na lente do rifle e atirou:
  — Três!
  Colt saltitou, sentindo estilhaços nas pernas. O filho da mãe do velho Peterson atirou no chão. Enquanto Colt corria para o interior das terras do rancho de sua família, Galo e Beau, que já estavam acordados há tempos, ouviram os tiros.
  — Veio do Peterson — Galo falou, e de repente se sentiu preocupado. — Será que eles estão bem?
  Beau pensou um pouco e coçou o bigode, terminando de recolher as ferramentas e tranquilizando Galo:
  — Está sim. Provavelmente ele está atirando no seu irmão. Foram dois tiros, ele deixou o Colt fugir.
  — Como sabe disso?
  — Seu irmão saiu ontem de manhã sem um plano, pediu ajuda para sua mãe que negou, mas por sorte dele, Demetria estava no bar ontem à noite.
  — Acha que a Demi levou o Colt para dormir no rancho do pai dela? Qual é, pai!? Ela não odeia o Colt tanto assim! — Galo zombou.
  — Parece que odeia, sua mãe me telefonou para contar noite passada.
  E mal Beau terminou de falar, seu filho caçula chegava correndo.
  — Esse filho da puta do Peterson é um cretino!
  — Não deve ser, deu dois tiros e te deixou fugir. Acho que eu deveria ter dado uns tiros também, porque ora, você teve coragem de voltar — Beau comentou.
  Antes de achar que era outra discussão, Galo viu o bigode do pai se movendo em um sorriso presunçoso que o velho deu. Colt também notou que ele estava apenas zombando do filho.
  — Dormiu com a Demi de novo e, dessa vez, na casa dela? — Galo perguntou chocado com a coragem do irmão.
  — Por acaso eles dormiram juntos desde que o Colt voltou? — Beau perguntou agora, realmente surpreso e desgostoso com a jovem Peterson.
  — É o que estou tentando saber, pai — Galo falou com a mão na cintura.
  — Não dormi com ela! Ela me tirou da sarjeta ontem, já que nem a mamãe quis me ajudar e me deixou passar a noite no celeiro deles.
  — Ufa, que alívio. Achei que a Dementadora havia pirado de vez — Galo comentou.
  — Ela ainda tem juízo. Que bom! — Beau zombou e olhou para o filho de cima a baixo. — Você está um caco. Entre e vá tomar banho. Ainda tem ovos com bacon que o Galo fez, depois conversamos.
  Galo e Colt trocaram olhares, e o irmão obedeceu sem dizer nada mais. O mais velho sorriu.

  Maggie sabia que Demetria não deixaria seu pai matar Colt, assim como sabia que Peterson continuaria errando os tiros só pra fazer cena, mas era óbvio que o filho sairia correndo para o rancho da família, e estava preocupada com o reencontro de Beau e Colt. Por isso, ela foi para o rancho só para garantir.
  Chegou na hora que o jogador entrava em casa, e ele explicou que o pai havia mandado ele subir, tomar banho, comer, e depois iriam conversar. Não ignorando as coisas que Demi disse ao rapaz na noite anterior, Maggie resolveu repeti-las, mas do seu jeito e no seu cargo de mãe. Ela conversou novamente com Colt sobre o pai dele, sobre ele também estar errado em fugir quando a coisa aperta, e aconselhou-o na esperança de que Colt não falasse em fugir e inventar de dormir em seu trailer de novo. Sobretudo, na esperança de que o filho amadurecesse.
  Depois da conversa de Maggie e Demi com Colt, e de Galo com Beau, ambos turrões precisavam reconhecer: eram iguaizinhos um ao outro. E ambos erraram. Beau disse para Colt que depois que ele comesse, conversariam, mas aquilo não aconteceu. O dia seguiu-se, e somente na manhã do outro dia eles colocaram uma pedra sobre o assunto, do jeito deles: Colt acordou antes de todo mundo e preparou sanduíches de lanche para o pai e o irmão que iriam para o campo.
  — Queijo suíço e presunto? — disse Galo olhando os ingredientes na bancada. — Hm… Da próxima vez quero o meu com provolone!
  Zombou o irmão, que já guardava tudo.
  — Ande logo com isso, temos que levar o gado para o pasto do sul. — Beau observou o gesto do filho, mas disse apenas aquilo e já ia sair.
  Galo passou na frente e antes que seu pai saísse totalmente, Colt chamou:
  — Ei, pera aí. — Pegou a garrafa de café, o algoz da briga que havia tido com o velho, e estendeu para ele: — Fiz café.
  Beau olhou da garrafa estendida na sua frente na mão do filho, para os olhos dele. Colt tinha a feição de quem não pediria desculpa, mas estava ali, pedindo. E Beau entendia, porque ele também não pediria desculpas. Então, ele pegou a garrafa e agradeceu.
  — Obrigado.
  Colt deu de ombros e pegou o pano para passar na bancada, até escutar seu pai dizer:
  — Você vem ou não?
  Com um rosto iluminado de satisfação, ele correu para pegar a sua jaqueta ao dizer:
  — Eu vou!

Temporada #01
Episódio 3

  Demetria ajudava o pai na organização das baias dos cavalos de seu rancho, quando achou necessário tocar em um assunto delicado.
  — Pai, agora que a temporada das chuvas voltou… — O som da chuva caindo no lado de fora do estábulo, era por todos comemorado, pois as chuvas retornaram periodicamente a cair nos solos do Texas. — O senhor não acha que deveríamos replanejar as atividades do rancho?
  — O que você quer dizer com isso? — Sam olhou-a ladino, deixando de carregar um quadrante de feno.
  — O senhor mandou metade do pessoal embora, diminuiu as atividades lucrativas do rancho, manteve o mínimo da produção das vacas e interrompeu a venda dos cavalos por conta dos custos da criação… Ou seja, assim como a maioria dos rancheiros da região, por conta da seca, o senhor está muito perto de ter que vender o rancho. Eu estou aqui agora, me deixa ajudar na administração dele.
  Sam não podia negar nada do que a filha dizia. Na verdade, ele ansiava há muito tempo por aquilo, mas não queria que Demetria assumisse a administração sozinha. Pelo contrário, queria passar a obrigação ao seu futuro genro. No entanto, os planos não caminharam da forma como pensara. Contudo, o velho Peterson não poderia ignorar o pedido da filha, visto que ele necessitava prepará-la para tomar conta do rancho.
  Ele sabia que era o momento.
  — Demetria, sabe que eu nunca quis te deixar um legado difícil, não sabe?
  — Sei. — Ela suspirou aproximando-se do pai. — E não deixou. Me oportunizou estudar medicina veterinária, mesmo depois que a mamãe se foi. Segurou as pontas aqui no rancho, e apesar de desejar que eu tivesse um esposo para cuidar disso tudo do meu lado… Bem, não tenho um homem, pai. Então, temos de lidar com o presente. Não acha?
  — E quanto à clínica? Você está trabalhando com o Dale e projetando a sua clínica, como vai administrar o rancho também?
  — Ei, eu dou conta! — Demetria sorriu de um jeito convencido para o pai. — E, além disso, eu tenho o senhor aqui ainda! Não vai se aposentar se é isso que está pensando, senhor Peterson!
  — Droga, então vou ter que continuar trabalhando e passar o comando pra você? — O pai ironizou. — Não quero ser mandado!
  — Eu só vou te ajudar, pai, e aprender. Prometo — Demetria falou risonha.
  Sam era muito abençoado e tinha muito orgulho da filha. Ele a abraçou como se lhe desse a resposta positiva que Demi queria ouvir, e precisava permitir.
  — Como pensa em começar? — Sam perguntou.
  — Acho que deveríamos retornar com a criação dos cavalos! E fortalecer e expandir o gado também. Pelo menos, você não vai ter custo com veterinário! — Demi explicou e voltou à atividade de unir os feixes de feno, e seu pai de carregar o que ela amarrava.
  — Antes precisamos melhorar a terra! O pasto não vai melhorar só com a chuva… Eu também acho que se investirmos em alguma monocultura pode ser bom, já que é um retorno mais rápido do que a pecuária.
  — Plantação? Hum… — Demetria ponderou. — Nossa região vive da carne, pai… Mas talvez possamos investir no algodão porque pelo menos sabemos que teremos mercado pra escoar.
  — Somos um pequeno rancho, Demi. Os grandes produtores irão engolir nosso algodão. Acho que deveríamos apostar em algo que tem pouca oferta, já que estamos começando do zero.
  — Trigo? Frutas? — Demi mordeu os lábios pensativa.
  — Cevada — Peterson disse certeiro.
  — Cevada? — Demi repetiu curiosa. — Hum… Cevada… Então, pai, precisamos de um agrônomo. Pra avaliar a terra e as possibilidades. O senhor conhece alguém ou eu posso procurar?
  — Eu vou chamar o John — Peterson afirmou. — Queria mesmo que o conhecesse. Ele me ajudou bastante nesses tempos difíceis. E também estudou na sua faculdade.
  — John? Ele é de Garrison?
  — Não, ele é de Nevada. O pai veio proTexas quando ganhou uma bolada em um cassino, e desde então a família se envolveu com a indústria agrícola. Ele é engenheiro-agrônomo, e adivinha de quem ele é descendente?
  — Alguém que o senhor deve ser muito fã para saber tanto sobre o rapaz — Demetria zombou pela maneira como o pai parecia ter a ficha inteira do tal “John”.
  — A bisavó dele era neta de Emma Charlotte Velie!
  Sam sorria de uma orelha a outra, admirado.
  — Velie? — Demetria enrugou a testa tentando se recordar.
  — Pouca gente associa o sobrenome materno “Velie”, mas Emma Charlotte era a filha mais velha de ninguém menos do que John Deere! O garoto é descendente dos Deere!
  Demetria assentiu entendendo a empolgação do pai.
  — Um Deere, que veio de Nevada e o pai ganhou uma bolada em um cassino? É alguém a quem se ter certo respeito… Ele deve ter uma estrela e tanto.
  — Sorte é muito mais do que ele tem, o John é um bom homem! Íntegro, inteligente e humilde. Gosto dele.
  — Como o senhor o conheceu? — Demetria estava curiosa com aquela figura relacionada ao seu pai.
  — O pai dele veio para o Texas, mas apesar de investir em agricultura, não era um rancheiro. É uma família de engenheiros metalúrgicos, e você sabe… Deere! — Sam fez piada. — Então, eles arrendaram as terras daqui. O John era um garoto e foi estudar engenharia agronômica porque ele gosta do campo, e como a família produz maquinário industrial agrícola, fazia sentido para ele. Mas ele só veio pra cá mesmo quando descobriu que a seca estava impedindo a produção das terras. O pai dele, então, deu as propriedades da região como parte adiantada de uma herança em vida, e como um desafio pra ele recuperar. Os arrendatários da região não conseguiram manter. John chegou em Garrison na época em que você foi pra faculdade, recém formado e cheio de sonhos como você, e hoje, é um dos poucos rancheiros em Garrison e região que não precisou passar dificuldade com a seca.
  — O que ele produz? — Demetria perguntou um tanto surpresa por toda aquela história.
  — Algodão.
  Sam terminou o trabalho e retirou as luvas, deixando-as pendurada em uma madeira do estábulo.
  — Entendi — Demetria falou amarrando o último feixe de feno e levando para a pilha com os outros. — O senhor contou a história do tal John Deere, mas não contou como se conheceram.
  — Ele prefere John Velie, querida. Ele é discreto, apesar de os pais terem dado a ele o sobrenome do tataravô, em homenagem. Nos conhecemos na barbearia de Garrison, por acaso. Ele me contou a história dele com seus ranchos, eu contei a situação do meu, então me ofereceu ajuda e só muito tempo depois ele me disse quem era. Não são todos em Garrison que sabem de quem ele descende.
  — Vejo então que o senhor ficou amigo dele. — Demetria sorriu ao ver o fanatismo do pai pela família Deere. — Bom, então, talvez devêssemos mesmo pedir ajuda.
  — Eu vou telefonar e saber se ele está em Garrison! Vai ser ótimo vocês se conhecerem!
  Sam saiu vestindo o boné sem dar tempo para a filha falar qualquer coisa, mas Demetria percebeu o certo tom de conspiração do pai. Ela terminou o que fazia e seguiu de volta ao casarão do rancho.

• T H E  •  R A N C H •

  Dois dias depois, ela caminhava pelo rancho com seu pai e John, a quem havia feito a visita técnica que Sam pediu. O homem era dez anos mais velho do que ela, mas era mesmo um tipo e tanto! As intenções de Sam não eram totalmente ingênuas. Ele percebia que John seria um ótimo partido para sua filha, e não escondeu isso de Demetria. No entanto, tanto John quanto Demi agiam com absoluto respeito e profissionalismo um com o outro.
  — Bem, então depois de fazer tudo isso que você diz, acha que podemos começar a investir no plantio, John? — Sam perguntou enquanto os três caminhavam de volta para a caminhonete de Demi.
  — São terras ótimas as suas, Sam! Aliás, a região tem boa terra para plantio e pecuária, os rancheiros só estão mais habituados a produzir sempre o mesmo, mas você tem uma boa projeção! Acho que podem investir em cevada, sim, e em trigo! Já que o solo pode produzir ambas culturas ao mesmo tempo. Quanto ao algodão… É uma plantação mais delicada para esse momento.
  Sam riu e bateu no ombro do rapaz, amigavelmente:
  — O algodão é coisa sua! — relatou. — Eu não vou me arriscar tanto agora, e tampouco competir com uma fazenda produtora tão grande como a sua. Comentei com a Demi que acho muito mais seguro apostar no grão da cevada.
  — E não recusaremos ajuda, senhor John! — Demi falou. — Como sempre fomos criadores de cavalo e gado de corte, entrar na agricultura será uma novidade muito grande pra nós.
  — Terei prazer em ajudar, senhorita Peterson! — John respondeu cortês.
  — Você fica pra almoçar com a gente! — Sam deu o veredito entrando na própria caminhonete. — Enquanto eu me adianto pra ver o pernil que deixei no braseiro, Demi, mostre a ele o pasto e venha com John para casa em seguida.
  A mulher assentiu e os dois esperaram o rancheiro entrar na própria picape para então eles irem até o pasto do gado.
  — A chuva renovou a grama, mas papai disse que suas dicas mantiveram o mínimo de qualidade no pasto nos últimos anos, senhor John — Demetria comentou quando já estavam no carro e ela dirigia.
  — Pode me chamar apenas de John, por favor. — Ele sorriu. — Fico feliz que pude ajudar o Sam. Ele também ajudou muita gente na região, segundo eu soube.
  — Com certeza, menos os Bennett. — Demetria riu.
  — Bennett? Do rancho vizinho? — John indagou e ela apenas concordou com a cabeça. — Bem, eu soube pelo velho Carpenter da loja de insumos que Sam falou para ele propositalmente tudo o que os Bennett souberam depois sobre como manter o rancho. Ele quis parecer como se fosse uma fofoca do Carpenter. É uma antiga rixa entre seu pai e o Bennett, não é?
  — É sim. — Demetria sibilou uma meia-risada. — Garrison inteira sabe que Sam e Beau são amigos rivais de alguns anos.
  — Bom, foi generoso da parte do Sam. E eu admiro muito por isso. Ele poderia ter guardado as informações que dei e lucrar ou sobreviver sozinho, mas ele tentou salvar tantos outros ranchos quanto pôde ao partilhar as técnicas.
  — Quero o agradecer, John. Eu estava estudando, sabia da situação, mas não tudo. O meu pai escondia grande parte da realidade, e sempre que o visitava, as coisas pareciam normais no rancho. Eu só vim ter dimensão da situação real dois anos atrás, quando ia me casar.
  — Ah, então… — John comentou observando curioso a mulher. — É casada?
  — Não. Acabamos o noivado um pouco depois.
  — Sinto muito. Também não tive sorte com relacionamentos — John comentou.
  Demetria o encarou de lado e sentiu que entre os dois alguma coisa parecia gerar interesse mútuo.
  — Como eu dizia… Obrigada! Você não precisava ser generoso com meu pai também, mas foi.
  — Não me agradeça. — John sorriu e mordeu o lábio ponderando. — Ou melhor… Se quiser mesmo mostrar sua gratidão, aceite minha amizade e… Meu convite para jantar.
  — Jantar? — Demetria comentou sorridente olhando para o verde pasto além de sua janela, assim que estacionou o carro. — É… Pode ser legal. Aceito sua amizade e o jantar.
  Os dois sorriram e desceram do carro. John analisou a grama e o estado do solo do pasto, e quando viu que tudo estava indo bem, falou para Demi que, logo, o gado se recuperaria e ela poderia ficar otimista com todos os planos que tinha para seu rancho.
  — Quanto lhe devemos pelas análises técnicas de hoje? — ela perguntou antes de retornarem para o carro.
  — Ah bem, eu não vim pensando em cobrar ao Sam por quebrar um galho de dar uma avaliada nas terras dele, sabe? Mas, se você, assim como eu, não gosta de dívidas, então, o almoço de hoje já pode contar como um pagamento?
  Demetria não conseguiu deixar de rir com a gentileza e maneira naturalmente galanteadora de John.
  — Dois jantares! O almoço de hoje não conta, foi ideia do meu pai.
  — Seu pai tem ótimas inspirações, pelo visto — John comentou deixando o sorriso ainda maior e sem receio de abrir a porta do motorista para Demetria entrar.
  Ela subiu e sorria satisfeita enquanto o engenheiro dava a volta no carro para entrar do outro lado.

• T H E  •  R A N C H •

  Beau e Colt voltavam do trabalho no pasto conversando, quando Galo chegou de moto e o pai perguntou:
  — Chegando do treino?
  — Treino? — Colt estranhou. — Está fingindo ser técnico do time de vôlei feminino do colégio de novo?
  — Não, eles sacaram — Galo respondeu. — Estou como treinador da defesa do time de futebol americano do colégio. Pego mais líderes de torcida de 18 anos agora do que no colegial.
  — Nunca pensei em você como técnico — Colt falou caminhando para dentro de casa.
  — Nem eu. Mas o pai só me dá folga pra duas coisas.
  — Funerais e futebol — Beau falou, seguindo Colt.
  — Exatamente, e cinco anos atrás, quando o técnico de defesa morreu, consegui ambas — Galo explicou para o irmão.
  Os três estavam na varanda da casa, terminando de chegar e ainda falando de futebol. Colt pegou uma bola de futebol que estava disposta ali em um canto, e perguntou ao irmão se o colégio Garrison ganharia do Norwood naquele ano, e Galo, otimista, explicava que esperava por aquilo.
  — Detesto os Norwood, eles se acham tão superiores só porque tem um Walmart gigante e dois semáforos — Galo dizia em tom de rejeição.
  — Tem uma loja John Deere em Norwood — contou Beau com certa ironia seguida de orgulho: — Ano passado me ofereceram desconto pra perdedor por pena de mim. Paguei o valor total.
  — Tô confiante — Galo explicou. — Nosso time é incrível, o quarterback tem um braço fortíssimo. Chamam ele de próximo Colt Bennett.
  — Então ele ainda vai estar morando com os pais aos 34 anos? — provocou Beau.
  — O próximo Colt Bennett? — Desacreditou Colt, jogando a bola para o irmão e dando-lhe as costas, saindo da varandinha para o quintal da frente, e se posicionando distante em posição de pegada. — Dizem isso todo ano. Não vai ter outro Colt Bennett, lembra do cara que apareceu depois de mim?
  Galo lançou a bola e ele pegou. Os irmãos começaram uma pequena disputa com a bola, lançando de um para o outro.
  — Dubanowski, não era? O que ele táfazendo agora? — Colt perguntou sobre o cara que jurava que seria seu sucessor no colégio enquanto lançava a bola para Galo.
  — É cirurgião. Separou gêmeas siamesas — contou Galo e lançou de novo a bola.
  — E daí que ele separa coisas? — Colt falou com inveja. — Eu uni uma cidade toda e venci um Estadual, e tudo com esse braço. — Lançou a bola mais uma vez.
  — Não esqueça quem você puxou — Beau comentou se levantando e juntou-se a eles. Pegou a bola da mão de Galo lançando com força para o filho caçula, e provocou Galo zombando de seus lançamentos fracos ao irmão: — Você puxou a sua mãe.
  Colt receptou a bola e caminhou para perto de Beau, dizendo admirado:
  — Achei que você era um linebacker, pai.
  — Na minha época fazíamos de tudo. Jogávamos nos dois times — Beau disse orgulhoso se aproximando para se colocar em posição.
  Galo, obviamente, não perdia uma piada nem mesmo quando era contra o seu pai ranzinza:
  — É, isso significa outra coisa hoje em dia, pai.
  — Então vamos jogar um pouco! — Colt animou-se estendendo a bola para Beau. — Pai, você passa a bola, Galo, você corre.
  — Nem morto, sei qual é a sua — Galo disse.
  — Como assim, idiota? — Colt perguntou confuso.
  — Você me manda correr, e corre mais, entra em casa, se tranca e mergulha suas bolas no meu cereal.
  Beau abaixa a cabeça negando por tamanha babaquice dos filhos, segurando uma risada.
  — É hora do jantar, não vou colocar meu saco na sua sopa quente — Colt garantiu. — Esse é um erro que se comete só uma vez.
  — Qual é o problema de vocês? — Beau perguntou com a mão na cintura olhando os dois. — Cresci com dois irmãos, e nunca vi o saco deles!
  Os irmãos deram um risinho sacana, e Beau mandou:
  — Galo, pode correr.
  Mas ao abaixar-se para dar o primeiro lançamento da bola, Beau, no início do movimento deu um grito, a sua coluna travou.
  — Você tá bem? — Colt perguntou assustado.
  — Tá parecendo que eu tô bem, porra? — Beau gritou com as duas mãos segurando o chão e o quadril para o alto, e Galo, de novo, não engoliu a piada:
  — Parece que você vai jogar para os dois times.
  Beau, com dificuldade, se levantou apoiando nos joelhos e encarando o filho mais velho, enquanto Colt, numa espécie de ritual de gente velha, pegou terra e esfregou nas costas do pai.
  — E então? A gente não vai mais jogar com o pai com as costas doendo — Galo comentou. — Vamos beber lá na mãe, isso aí é falta de lubrificação. E eu não estou fazendo piada agora.
  — Vamos jantar primeiro e depois a gente vai — Colt falou.
  Beau apenas concordou com tudo, e depois de jantarem, eles foram para o bar na cidade. O mais velho dos três Bennett, adentrou ainda com a mão “nas cadeiras”, dizendo estar bem, apesar de Colt reclamar pelo pai não o ter deixado dirigir.
  — Cada vez que girava o volante pra direita, você gemia como uma jogadora de tênis, pai — Galo zombou.
  — Beau, o que foi? — Maggie perguntou ao vê-los se aproximando do balcão. — Tá andando como se realmente estivesse com uma coisa enfiada na bunda.
  — O pai deu um jeito na coluna — Colt explicou.
  — Sabe o que é bom prascostas? — Hank, o bêbado, falou aos quatro: — Pilates.
  Beau o encarou como se fosse bater nele.
  — Não ajudou, Hank — Maggie comentou. — Você tem que ir ao médico, Beau.
  — Eu tô bem — Beau falou desdenhoso, ainda de pé.
  — Está bem? Então tá! — Maggie pegou três cervejas, colocou duas no balcão na frente dos filhos. — Aqui meninos. — E a terceira ela colocou no chão na frente de Beau. — Pode pegar.
  Ele a olhou incrédulo, e ela deu de ombros voltando para trás do balcão dizendo:
  — Vai ao médico!
  — E ter que pagar mais 200 dólares em uma consulta? Não, obrigado! Se não melhorar até semana que vem, eu vou ao veterinário e pego uns comprimidos — decretou e se apoiou na bancada, cutucando o filho. — Galo, pode pegar minha cerveja?
  — Posso.
  — Jameson, se você tocar nessa cerveja, nunca mais beberá neste bar. — Maggie ameaçou.
  — Desculpa, pai. — Galo olhou para Beau, que também o encarava. — Eu te amo, mas é cerveja grátis.
  — Colt? — Beau olhou o outro filho, suplicante.
  Colt encarou pai e mãe, e com uma expressão de surpresa, ele se levantou, abaixou-se e pegou a garrafa. Quando o pai estendeu a mão, ele virou a bebida na própria boca.
  Demetria estava de passagem na cidade e decidiu entrar no bar naquele momento, e flagrou a cena sem entender muita coisa.
  — Ok, acho que você roubou a cerveja do seu pai. É isso mesmo?
  Os quatro olharam para ela, e Beau explicou com raiva dos filhos:
  — Botei dois bostas no mundo que roubam a cerveja do pai entrevado da coluna.
  — Bem, a veterinária chegou. Peça os comprimidos. — Galo deu de ombros ao pai.
  — Uau, vocês são mesmo uns filhos de merda. — Demi ria dos garotos, e foi até o balcão pedindo uma bebida para Maggie.
  E assim que a mulher passou a garrafa, Demetria entregou-a a Beau.
  — Olha… Você deveria ser minha filha. Falta muito pra ficar órfã de pai e eu te adotar? — Beau sorriu para ela a abraçando.
  — Jogo sujo, Demi — Maggie reclamou estendendo outra bebida à moça.
  — Felizmente, espero que meu pai ainda viva bastante — ela respondeu para Beau. — Mas eu aceito ser tratada como filha. O senhor pode passar a herança do Galo para mim.
  — Ei! — Galo reclamou. — Se quiser parte da nossa herança, precisa se casar com um de nós. E eu já aviso, a pior escolha é o Colt. Ele é um fracassado, e o pai não vai deixar muito pra ele.
  Colt deu uma cotovelada em Galo. Maggie riu e Beau sentou-se no balcão devagar, ao lado de Demi.
  — É, o Colt é mesmo pouco confiável — Demi concordou com Galo.
  — Ei, do que está falando, Demetria? — Colt indagou ofendido.
  — Eu disse para você sair do celeiro antes do meu pai acordar — ela devolveu a reclamação pela ajuda do outro dia. — Eu mesma deveria atirar na sua bunda magra e pálida!
  — Quer dizer que a bunda do Colt é magra e pálida? — Galo gargalhou.
  — Olha, eu não tenho culpa, o Peterson acorda cedo demais, e depois… Tava quentinho no feno…
  — Seu pai não acerta o Colt de propósito ou ele é mesmo ruim de mira? — Galo perguntou.
  — Tô começando a achar que é só pelo prazer de poder atirar várias vezes e torturar o Colt.
  — Nem vem, ele é um homicida. Atirou bem perto do meu pé dessa vez!
  — Quem é um homicida? — John perguntou baixinho no ouvido da mulher, chegando observador à conversa, e sentando-se ao lado de Demi.
  Ela virou-se surpresa para ele, e abriu um largo sorriso.
  Beau cumprimentou o homem, o conhecia de vista. Maggie perguntou o que ele beberia e o serviu assim que ele respondeu. E Colt e Galo ficaram o encarando. Um surpreso e o outro confuso.
  — Meu pai atira no Colt Bennett há anos, e ainda não acertou — Demi explicou para ele. — Era do que falávamos.
  John olhou para os dois rapazes e sorriu, curioso.
  — Bennett? O Sam odeia vocês, não é?
  — E você, ele não odeia? — Colt perguntou desconfiado.
  — Na verdade, meu pai adora o John — Demi respondeu risonha e provocante.
  — Oh-oh — Galo sibilou para Colt. — Acho que já entendi tudo.
  — Cala a boca, Galo — Colt mandou cochichando também.
  — Então, você é o John! O agrônomo que ajudou o Sam? — Beau perguntou coçando a nuca.
  — Isso mesmo, e apesar da rivalidade, não hesite se precisar dos meus serviços, senhor Bennett. — John estendeu um cartão para Beau.
  Maggie observava Demi e o rapaz, de um modo sugestiva, escondendo um risinho. Beau leu o cartão dele, o encarando com surpresa.
  — John Velie? O algodão produzido nas fazendas Velie são seus?
  — Ah, isso mesmo. — Ele sorriu sem graça. — Pouca gente em Garrison sabe quem sou, já que eu não fico o tempo todo por aqui.
  — É, são muitas fazendas pra administrar — Maggie comentou também surpresa.
  — Dementadora, como você arranjou o magnata do algodão do estado? — Galo perguntou em tom de surpresa e interesse.
  — Dementadora? — John perguntou para ela.
  Demetria deu de ombros revirando os olhos, dizendo para John ignorar Galo e explicou:
  — Não arranjei o magnata. Somos amigos — explicou.
  John sorriu para ela, como quem quisesse dizer “por enquanto”, mas apenas bebeu um gole de sua cerveja.
  — Grande coisa. Ele planta algodão, e eu sou Colt Bennett, venci um Super Bowl. — Colt estava morrendo de ciúme, mas não reconhecia aquele sentimento.
  — Você não vai querer competir legado com o John — Demi avisou, sorrindo tal qual o homem.
  — Bom, é sempre útil ter contatos — Beau falou para o empreendedor fazendeiro, guardando o cartão dele na carteira. — E sendo amigo da Demi, é meu amigo também. Ela é como uma filha pra mim.
  — Pra mim também — Maggie respondeu.
  Galo soltou um resmungo com a atitude dos pais:
  — Tsc… Eles não fazem nem questão de fingir que gostam mais da filha do Peterson do que de nós. Vamos, Colt, vamos beber longe desses traidores.
  E arrastou o irmão para longe do balcão. Maggie, Beau, Demi e John sorriram achando cômico os filhos enciumados, e conversaram entre si. No outro ponto do bar, Colt parou de encarar o tal “John” com Demi, e teve sua atenção voltada para Kenny.
  — Ah, droga, e mais essa… — ele reclamou e Galo encarou o irmão sem entender. — É o Kenny ali.
  — Você é mesmo um puta azarado. Suas ex-namoradas arrumaram caras bem melhores que você, e você esbarra neles no bar da sua mãe. Pelo menos você não paga a cerveja! — Galo deu de ombros e observou: — Tátentando evitar ele?
  — É, tôsim — explicou Colt.
  — Não te culpo. — Galo fingiu compreensão para em seguida gritar: — E aí, Kenny! Tudo certo aí?
  Colt quase engasgou com a bebida.
  — Galo, Colt! E aí, como estão? — Kenny se aproximou dos dois.
  Galo e ele trocaram breves palavras enquanto Colt só acenou e bebia suas duas cervejas: a que roubou do pai, e a que bebia antes.
  — Está tudo bem com você e a Abby? — Galo perguntou provocando. — Espero que sim, porque vocês dois formam um casal muito, muito bonitinho.
  O jogador seria capaz de espancar o irmão se estivessem sozinhos.
  — Ela é incrível! — Kenny declarou sorrindo. — Ela me entende!
  — É, eu sei porque a Abby ama você. — Galo continuou provocando o irmão em um diálogo com Kenny. — Mas por que não conta pra mim e para o Colt por que você ama a Abby?
  Kenny sorriu e Colt se viu preso com o irmão e o atual de sua ex-namorada, sentado em uma das mesas do bar conversando sobre ela como se fossem amigos. Mas felizmente, após elogiar a namorada, Kenny mudou o assunto contando que foi eleito o presidente do clube de futebol americano do Colégio Garrison. E, para iniciar a temporada, eles iriam fazer um jantar italiano, e convidou Colt para ir ao evento dar uma palavra de incentivo aos novos jogadores. Afinal, ele era a lenda de Garrison.
  Colt, no entanto, negou. Kenny, sem jeito, perguntou se ele poderia doar algo para a rifa, que seria bacana uma foto autografada dele e do novo quarterback, e ele até considerou a proposta, e brincou:
  — Se quiser, pode fazer um “ganhe um encontro com Colt Bennett”, desde que eu escolha a vencedora.
  Galo fez piadas sem graça, Kenny continuou sorrindo e conversando com eles, até que Demi, se aproximando da mesa, chamou a atenção dos três.
  — Ei, garotos — ela falou para os Bennett e cumprimentou Kenny: — E aí, Kenny.
  — Oi, Demi, você está mesmo ótima! — Kenny sorriu e se levantou para cumprimentar ela com dois beijos no rosto.
  — Obrigada, mas não deixa sua namorada saber disso. Ela tem certo trauma comigo — Demi zombou, Galo riu, Kenny não entendeu, e Colt bufou.
  — Vim me despedir, Bennett — ela falou e, encarando o Colt, explicou: — Porque, como eu te disse, quem chega depois que cumprimenta e se despede.
  — Você vai conferir se o algodão do John é fofinho? — Galo zombou.
  — Eu não acho que “fofinho” combine com o estilo do John — Demetria provocou Galo ao dizer. — Ele é bem másculo se não notou. Diferente de você que deixa a barba crescer e não toma banho para parecer um homem das cavernas.
  — Olha só, ela defendendo o coroa do algodão, Colt! — Galo zombou.
  Colt estava sentindo-se sem ar com tudo aquilo.
  — Bem lembrado! — Colt comentou: — Aliás, Demi, esse cara não é muito velho para você?
  — Como é, Colt Bennett? — Demi encarou-o jogando o cabelo para trás, descrente, e com a mão em um dos quadris. — Vou fingir que você não confundiu as coisas. Aliás, meu pai está em casa e mesmo ele não faz perguntas ridículas assim.
  — É, Colt, a Demi não tem preconceito ou sequer fala das garotas de 18 anos que você pegava. — Galo saiu em defesa da amiga, apenas para provocar mais o irmão.
  — Eu não pego garotas de 18 anos.
  — É verdade, a Heather tem 20 — Galo entregou.
  Colt ficou vermelho e suspirou.
  — Olha só, Demi…
  — Até depois, Bennetts! — Demi interrompeu o que quer que fosse a fala de Colt, acenando e saindo em direção ao balcão, onde John se despedia de Beau e a aguardava.
  — Ah, ótimo! Agora o pai e a mãe também gostaram dele? — Colt reclamou se levantando.
  — Eu não sabia que você e a Demi tiveram algo… — Kenny comentou surpreso pela reação de Colt.
  Galo começou a rir e aconselhou Kenny:
  — Você devia contar isso para a Abby!
  — Ah, é? Por quê?
  Colt encarou o irmão com fúria, e viu Kenny com uma expressão de paspalho e não suportava mais, precisava sair dali, e foi o que ele fez após se despedir de qualquer jeito.

• T H E  •  R A N C H •

  Durante dias, Beau continuou trabalhando no rancho sentindo dor nas costas. E só quando a dor começou a limitar ainda mais sua capacidade de trabalho, foi que ele decidiu ir ao médico. Estava no consultório do Dr. Boyd, quando foi surpreendido por uma doutora. Ele não curtiu nada a mudança, mas descobriu que seu médico de confiança havia morrido há doze anos e quem atendia agora era a filha dele: Dra. Boyd. A médica reconheceu imediatamente o paciente rabugento “Beau Bennett” de quem ouvia histórias do pai assim que Beau lhe deu a primeira resposta mal-educada.
  — Há quanto tempo suas costas doem?
  — Não é da sua conta.
  — Ah! Beau Bennett! Entendi! — A médica riu e foi mais direta com Beau: — Vou examinar suas costas, pedir um raio-x e verificamos o que está causando dor. Aproveitaremos pra fazer um check-up.
  — Não preciso de check-up, todo resto está ótimo.
  — Faz doze anos que o senhor não vem ao médico, não seria profissional da minha parte não fazer um check-up. Além disso, a boa notícia é que desde que virei médica, só matei três pacientes — brincou.
  — Ah, e ainda por cima é engraçadinha — Beau respondeu ranzinza de novo.
  — Tudo bem, vou te passar a receita. — A doutora Boyd anotou no papel e ao entregar para o paciente, sacanamente, ela colocou no chão para o ranzinza pegar. Encarando o homem sentado na maca, disse: — Pode pegar e ir embora, mas se não conseguir, vou fazer os exames.
  Beau bufou vencido. Depois de fazer os exames, a doutora Boyd retornou o elogiando:
  — Senhor Bennett, olha, preciso admitir. No geral, sua saúde é ótima!
  — Quando levo minha caminhonete no mecânico e não há nada de errado, eles não me cobram — Beau soltou a indireta com um sorrisinho sacana.
  A médica sorriu, ignorando a tentativa e se aproximou dando a receita para ele:
  — Tome isso até a dor nas costas passar, o senhor deve ficar bem em alguns dias.
  — Tudo bem. — Beau se levantou e agradeceu: — Nos vemos daqui 12 anos.
  — Eu não acabei — a médica falou. — Precisamos falar da sua pressão alta. O senhor tem hipertensão de estágio 2, que pode causar AVC, infarto ou insuficiência renal, a menos que mude seu estilo de vida.
  — Eu não vou fazer Pilates. — Beau já foi logo se adiantando com a mão na porta.
  — Comece pela alimentação. Diminua a carne vermelha — a médica aconselhou.
  — Esquece — negou Beau.
  — Vai ter que cortar a bebida alcoólica.
  — Vai sonhando.
  — E o estresse? O que faz para aliviá-lo? — a médica perguntou.
  — Como bife e bebo uísque — Beau respondeu bem certeiro.
  — Senhor Bennett, por favor, é sério — com toda educação e simpatia do mundo, a médica insistiu.
  — Olha, meu estresse vai diminuir quando eu vender os meus bezerros.
  — Até lá, corte o sódio e coma mais verduras.
  — Nosso papo terminou. Obrigado — Beau declarou saindo da sala da médica.

• T H E  •  R A N C H •

  Colt estava no Colégio, ao lado de Galo, conversavam e ficaram secando duas garotas que descobriram que eram alunas e não professoras, e logo foram abordados pelo antigo técnico do time, o treinador Fitz, e o novo quarterback, Josh. Colt estava ali para tirar a tal foto com o garoto, que seria usada na rifa.
  Eles foram apresentados e enquanto o garoto elogiava Bennett, o ego de Colt inflava. Em uma tentativa de parecer um pouco mais descolado, Colt começou a contar a história de quando desobedeceu um comando do técnico e o time foi campeão, assim, empolgando o adolescente que passava a encará-lo ainda mais com admiração. Josh disse que Colt precisava contar aquela história no jantar italiano do time, o convidando, e dessa vez ele aceitou.
  O que o ex-jogador colegial não notou, mas Galo sim, foi a expressão descontente do treinador Fitz ao ver Colt motivar o garoto com um de seus exemplos de rebeldia. Depois que Colt e Galo estavam sós em seu rancho, o ex-jogador brincava com o cachorro da casa, quando Galo chegou e se aproximou dele sem jeito. Colt notou que o irmão estava dando voltas em torno dele para falar alguma coisa, e então, Jameson contou que o treinador lhe disse, contundente, sobre não querer e tampouco aprovar que Colt Bennett ficasse próximo do time da escola, tudo por ele ser um mau exemplo. 
  Colt ficou revoltado:
  — Aquele idiota que se foda! Dei o único título estadual dele!
  — Colt, você foi lá e contou uma história de cinco minutos com a moral: “não ouça o treinador e vença o estadual”. Que tipo de mensagem passa ao time?
  — A que acaba com “vença o campeonato estadual”! — Colt explicou deixando claro o seu descontentamento com o julgamento do treinador Fitz. — Quer saber? O azar é dele. Azar do time e da cidade se não me querem ajudando os garotos!
  — Você está sendo infantil, e um cretino e um cuzão — Galo corrigiu o irmão, e estava coberto de razão.
  Colt não gostava de admitir quando estava errado, mas sabia que Galo estava certo e até entendia o ponto de vista do treinador. Enquanto refletia, escorado na pilastra dos degraus da varanda, Colt percebeu a picape de Abby entrando no rancho de novo. Ele não pôde deixar de sentir seu humor melhorar um pouco, e surpreendeu-se quando Abby retirou a antiga jaqueta colegial do time de futebol de Colt de dentro do carro.
  — Uau, você ainda guardou isso?
  — É… Achei uma boa ideia te devolver e você usar no jantar italiano.
  — Bacana… — Colt sorriu admirado, e ficou por um tempo encarando-a.
  A troca de olhares entre eles carregava uma antiga tensão romântica, na qual Colt, levado pela nostalgia, se aproximou mais de Abby e tentou beijá-la na boca. Mas a loira, rápida e surpresa, o afastou. 

  Demetria chegava a pé. Ela havia atravessado entre os ranchos pela cerca que os dividia na parte de trás. Estava em sua casa arrumando a maleta veterinária, quando encontrou uma pomada que poderia ser de bom uso para a dor de Beau, e com isso, decidiu montar no cavalo e cavalgar até os limites do rancho. Deixou a égua do lado de dentro de sua fazenda, e a equina voltou sozinha o caminho para o estábulo, como já estava habituada há anos, e Demi sorriu ao notar que o animal ainda sabia acobertar as fugas dela.
  Atravessou a cerca de arame farpado, e foi caminhando passeando pelo rancho Bennett até chegar na parte de trás da varanda, onde se surpreendeu ao ver Colt tentando beijar Abby. Ela parou um pouco distante dos dois, mas não muito, de forma que Abby viu a chegada dela, e Colt também. Mas o jogador pouco se importou com a presença de Demetria ali. Ele ficou irado com Abby negando sua aproximação.
  — Colt, não! — Abby espalmou o peito dele. — Tenho namorado! E amo o Kenny.
  — Ah, é? Então por que fica arrumando desculpazinhas para vir aqui?
  — Quer saber? — Abby falou ultrajada e constrangida porque Demetria estava parada perto e vendo tudo. — Esquece! Eu só estava tentando ser sua amiga, mas não se preocupe, isso não vai se repetir!
  Abby entrou no carro e Colt observava a saída dela com desprezo em seus olhos. Ele pegou um copo na mesinha de centro com a garrafa de uísque que ali estava e serviu-se de dose suficiente para um gole. Enquanto virou a dose em sua garganta, descendo rascante o líquido, Colt olhava para o carro de Abby passando pela porteira. Irado, ele lançou o copo de vidro ao chão, estilhaçando-o tal como sua raiva.
  Demi, que assistiu a tudo quieta, meneou a cabeça em sinal de negação ao presenciar a atitude de Colt. Ele não amadureceria, nunca?
  — Eu queria entender por que você segue obcecado por ela se foi você quem terminou anos atrás.
  A veterinária falou se aproximando, com as duas mãos nos bolsos da frente de seu jeans, uma regata preta colada ao corpo, com seu típico blusão de flanela xadrez amarrado na cintura.
  Demi parou em frente a Colt, que tinha a mesma expressão de birra que ela sempre viu no amigo, desde a infância. Suspirou decepcionada e olhou para o chão, ajeitando seus longos cabelos escuros e ondulados para trás, quando o encarou de novo.
  — Não enche, Demetria — Colt falou depois de ficar em silêncio observando a reação dela após a pergunta.
  — Relaxa, eu não vim aqui para te encher.
  — Tá fazendo o que aqui também? — Colt perguntou ríspido.
  — Não é da sua conta — ela respondeu simples, passando por ele na varanda da casa e entrou.
  Colt bufou mordendo o lábio inferior e observando a mulher entrar. Ela era a única que sempre o colocou no lugar dele, e Colt jamais conseguia sentir raiva de Demetria. Pelo contrário, ele sentia que ela era o seu refúgio.
  — Você quer se mudar pracá? — Entrou em sua cozinha, já falando com a mulher em um tom menos mal-humorado e vendo-a abrir a geladeira e pegar bebida.
  — Já está mais calmo? — Demi perguntou ignorando a piada dele.
  Ela abriu a bebida com a blusa, e escorou-se na ilha da cozinha. Colt ficou de pé na frente dela, agora, sendo ele a ter as mãos no bolso da frente da calça, arrependido.
  — Foi mal descontar em você.
  — Não descontou em mim. — Deu de ombros. — Descontou no copo e deixou vários cacos de vidro no chão, e vai logo limpar antes que alguém se machuque.
  — Você continua mandona.
  — E você continua pirracento.
  Os dois se encaravam de um jeito intenso, um jeito reconhecível e antigo. Colt suspirou e pegou a garrafa da mão dela bebendo um gole e a devolvendo.
  — Acho que não tem ninguém em casa, não é? — Demi falou dando uma olhada no silêncio ao redor.
  — Galo já chegou. Por quê? Não quer ficar a sós comigo também? — Colt perguntou com certa implicância.
  — Isso nunca foi um problema para mim, eu sei muito bem o que quero e quando quero ao se tratar das pessoas. Não preciso ficar criando desculpas para estar perto de ninguém, e nem tentar criar clima com nenhum ex — Demetria disse séria, madura e até, de certo modo, fria. — Embora, você não seja exatamente um “ex”.
  Colt bufou.
  — Você tá mesmo diferente, se achando muito melhor do que eu, não é, Demetria?
  — É o que você acha, Colt. É você que olha para todo mundo como se as pessoas estivessem te julgando o tempo todo. Eu não me acho melhor do que ninguém.
  Colt engoliu a frase dela e deu as costas, mudo. Pegou vassoura, pá, e foi limpar os cacos de vidro da entrada. Enquanto isso, Galo desceu as escadas sem camisa se surpreendendo com Demi ali.
  — Dementadora?
  — Cai fora. Preciso dar uma dura no seu irmão — ela falou.
  — O que ele aprontou?
  — Tentou beijar a Abby, jogou um copo no chão e está agindo como um bebê chorão.
  — Que merda, cara… — Galo pegou uma garrafa na geladeira abrindo e comentando com Demi: — Eu não sei por que ele está tão frustrado com a Abby e o Kenny, e com você e o John.
  — Não viaja, Galo. O problema do Colt é a Abby, sempre foi.
  — Você parece ter superado mesmo o Colt — Galo disse sério, como poucas vezes conversava com Demi, se aproximando escorando na bancada também.
  — É que eu sempre fui mais inteligente do que ele, não é? — Ela deu um meio sorriso. — É sério… Ele está somatizando um monte de fracassos nessa volta para o rancho e jogando em quem quer jogar. Essa parada dele com o Kenny e a Abby não tem a ver só com a Abby.
  — Tem razão. Ele não está aceitando qualquer coisa que digam contra as atitudes dele. — Galo contou para Demi: — Ele deu um péssimo exemplo ao Josh na frente do treinador Fitz, e ficou com raiva quando contei que o treinador não quer que ele auxilie o novo quarterback, e nem fique perto do time.
  — O Colt sabe que está errado, e é por isso que ele faz pirraça. Se estivesse certo, estaria se fazendo de vítima incompreendida — Demi definiu.
  — UAU.
  — O quê? — Ela percebeu Galo a encarando com uma expressão de tamanha surpresa.
  — Você conhece mesmo o Colt, até melhor do que a mamãe! Você deve ter…
  — Não termina a frase ou eu posso te deixar brocha por um tempo — Demi ameaçou.
  Galo riu e se aproximou de Demi tentando a abraçar.
  — Não encosta em mim sem vestir uma camisa, é nojento.
  — Se fosse o John você não recuava — provocou o amigo.
  — Não mesmo.
  Ela respondeu zoando e Colt voltou com vassoura e pá na mão, e encarou os dois ficando confuso.
  — Galo… Tá fazendo o que sem camisa aqui embaixo? Demi… Você não fica enjoada? — provocou.
  — Eu já vi animais de todo tipo, dos menos nojentos até o tipo do Galo — Demi zombou fazendo os irmãos rirem.
  — Eu só vim pegar uma cerveja antes de subir e mandar uns nudes para umas gatinhas — Galo explicou ao irmão. — Vou deixar vocês a sós, mas tentem não se pegar na mesa e nem na bancada da ilha, a gente prepara comida nesses lugares.
  — Vá se foder — Demi e Colt falaram juntos.
  — Estou indo. — Galo riu e deixou os dois.
  — Ele é nojento — Demi comentou suspirando com um sorriso. Olhou para Colt, que estava parado ao lado dela, escorado na bancada e ela deu a garrafa que bebia para ele, e foi pegar outra cerveja. — Tá a fim de conversar?
  — Com você eu sempre tôa fim — Colt respondeu observando a amiga de costas.
  — Não caio mais nas suas cantadas, Bennett.
  — O John é melhor de cantada do que eu? Aliás… Ele…
  — Colt — Demi o interrompeu. — Não é da sua conta. Não fica metendo o John no assunto, e para com essa porra de ficar se comparando com os exou atuais das mulheres com quem dormiu. O que você está tentando provar a si?
  — Eu não tento provar nada pra mim! Do que está falando?
  Ele odiava que Demi sempre era a mais madura, a mais destemida, e até a mais digna de confiança de todos do que ele. Porém, mesmo odiando tudo isso, ele não conseguia deixar de admirá-la e querê-la por perto.
  — Tálegal. Eu… — Colt assumiu. — Não sei por que estou tão incomodado com a Abby e o Kenny. É só que… Sei lá, é o Kenny!
  — Você acha o Kenny um idiota e não aceita que a Abby veja algo nele que a faça ser leal. Ao mesmo tempo, você também acha que ele é melhor do que você em alguns aspectos. E saber que apesar do seu rostinho bonito e corpinho gostoso, ela escolheu um cara mais inteligente emocionalmente te deixa com raiva.
  — Obrigado pelo “corpinho gostoso” — zombou Colt —, mas eu não sei se é isso.
  — Por que terminou com a Abby se ainda gosta dela?
  A pergunta de Demi mexeu com memórias e sentimentos antigos de Colt.
  — Eu ia embora, você sabe.
  — Isso não era motivo. Distância é só uma variável.
  — Não era pra mim. Eu não conseguia me imaginar namorando uma garota que estava a quilômetros.
  — Ok, entendi. Mas acha justo voltar agora e tentar estragar o que ela tem?
  — Olha só, Demi, não sou eu que fico indo atrás dela! — Colt se defendeu com raiva.
  — Tudo bem, pode até ser, mas… Tentar beijá-la e não colocar um limite também é falta de responsabilidade sua. Então se você deixar uma barra de ouro que é sua perto de mim, eu não tenho culpa se eu a levar?
  Demetria tirou o corpo que estava escorado na bancada da ilha, e Colt ao seu lado se afastou também, parando na frente dela. Os dois ficaram de pé em silêncio, se encarando. Colt se aproximou um passo e abraçou Demi de surpresa.
  — Eu…  Estou confuso com tanta coisa.
  Demi sentiu o aperto dele em seu corpo como não sentia há anos. O rosto dele afundou no pescoço dela, e um arrepio involuntário percorreu as costas de Demi. Ela segurou os ombros de Colt, como se o quisesse afastar.
  — Você é a única pessoa que sempre me entendeu, Demi.
  Aquela frase desarmou-a. Ao mesmo tempo que ela sentiu vontade de rebater dizendo-lhe: “mas você nunca me entendeu”.
  — Colt, olha só — ela falou, o obrigando a soltá-la um pouco. Colt desceu as mãos para os quadris de Demi, soltando-se de um abraço, mas sem se afastarem totalmente. Ele a olhava nos olhos, curioso com o que ela diria. — Se sentir confuso é normal, você tinha tudo e de repente não tem mais a vida de antes, voltou pra casa dos pais e ainda não realizou um monte de coisas na vida. Eu sei que a cobrança externa e interna sobre você é grande, mas porra, Colt! Você precisa crescer. Escolher o que quer da vida e agir como um homem.
  — Você tem razão. Mas esse é o problema, o que quero da vida não é nada disso que tenho agora.
  — Então vai atrás do que quer. O time em Denver, por exemplo. Se você mostrar esforço, talvez as coisas melhorem.
  — Sou só um estepe protreinador! E nos jogos e treinos eu sirvo de “rostinho popular e bonito” pra motivar a equipe e torcida.
  — Colt, ninguém vai te dizer o que deve fazer. Isso é responsabilidade e decisão sua, ok? — Demi suspirou tocando o rosto dele com as duas mãos.
  Colt sentiu a mão quente dela em seu rosto e fechou os olhos, se deixando levar por um momento pela nostalgia. As mãos que estavam no quadril dela avançaram para a bunda de Demi, que sorriu ladina pela tentativa abusadinha dele, mas Colt estranhou o objeto no bolso de trás e abriu os olhos, assustado:
  — O que você está levando no bolso de trás da sua calça?
  — O que parece pra você? — Ela sacaneou rindo.
  — A porra de um consolo!
  — Por que eu carregaria um consolo no bolso da calça, Colt Bennett? Pareço precisar de um pinto de borracha? — Demi zombou ainda mais e se afastou de Colt, que estava boquiaberto a olhando confuso, ela levou a mão até seu bolso e sacou o tubo cilíndrico e grande de aerossol veterinário. — É um spray para o seu pai.
  Colt franziu o cenho e pegou o tubo lendo: “Calminex, relaxante para dores e contusões de uso animal”.
  — Pomada pra cavalo? — Colt riu. — Tenho certeza que agora é o remédio certo.
  — Ele não está, então vou deixar isso aí com você. — Ela desamarrou a blusa de flanela da cintura para a vestir, e Colt acompanhava cada movimento dela, checando de novo o corpo de Demi. — Até mais, Bennett.
  — Ei Demi. — Colt segurou o punho a impedindo de ir, e ela apenas o encarava aguardando a fala seguinte. — Er… Você… Deixa. Deixa pralá.
  — A gente se vê por aí, Colt.
  Demi não insistiu em saber. Ela deu as costas e saiu da casa dos Bennett certa de que pela primeira vez desde que voltou, o coração dela falhou com a proximidade de Colt. E era um péssimo sinal.

• T H E  •  R A N C H •

  O dia do jantar italiano havia chegado. Todos haviam ido: Maggie, Beau, Galo, Demi, e estavam na mesma mesa. Até Abby estava com Kenny, mas em mesa oposta. Quando Abby avistou Demetria sozinha perto do ponche, ela aproveitou o momento para se aproximar. Parou ao lado da Peterson, e pigarreou sem muito rodeio:
  — Demetria, podemos nos falar um minuto?
  Demi escutou o seu nome na voz de Abby e queria esfregar a carinha sonsa da loira na parede. Ela sabia o quanto Demi não gostava de ser chamada pelos outros de Demetria, a não ser sua família e pessoas íntimas.
  — Não sei o que você pode ter a falar comigo, mas diga — Demi disse friamente sem encarar Abby, terminando de servir os ponches de sua mesa.
  — Olha, é sobre o outro dia, no rancho. A gente pode falar em outro lugar?
  Demi suspirou e então assentiu, largando as bebidas e seguindo Abby até um corredor vazio do colégio.
  — Eu só queria te pedir que não comentasse com ninguém o que você viu e ouviu — Abby pediu com o rosto culpado e gesticulando muito. — Aquilo foi…
  — Tenho cara de fofoqueira? — Demi perguntou cortando-a secamente.
  — Como?
  — Que interesse eu teria em ficar espalhando fofocas sobre a sua vida por aí, Abby? Aliás… Alguma vez eu já me interessei por algum assunto sobre você?
  Abby abriu e fechou a boca, espantada. Ela não esperava que Demi se ofendesse, respirou calmamente e pediu desculpas.
  — Desculpa, eu não quis insinuar que você…
  — Não tenta explicar, pode ficar pior. Eu não sei de nada, não vi e nem ouvi nada — Demi cortou de novo. — Se era isso que te preocupava, fica tranquila. Seja lá o que o Kenny tiver que saber, não é minha obrigação contar.
  — Obrigada — Abby comentou.
  Demetria virou-se para sair, mas Abby soltou:
  — Você me odeia por causa do Colt, não é?
  Demi estalou a língua e virou-se para ela.
  — Você não acha que isso é dar poder demais ao Colt, e importância demais a você?
  — Acho, mas eu sei que você não gosta de mim. E o único motivo que posso imaginar é porque no passado ele e eu namoramos. Vocês sempre negaram um envolvimento, mas… É bem nítido para mim.
  — Se já tem suas conclusões, por que faz perguntas inconvenientes às pessoas? — Demetria respondeu e então saiu sem retórica.
  Ela tentou ocultar o sentimento passado por Abby, mentindo que não a odiava na adolescência por ciúme, mas pareceu que o mesmo sentimento ainda a perturbava. Só que agora era ainda mais vergonhoso enfrentar aquilo. Fosse por Colt no passado, ou por uma mágoa no presente, o fato era que Abby continuava sendo muito irritante aos olhos de Demi.
  A Peterson voltou ao ponche, pegou novos copos e serviu-os. Maggie, Beau e Galo estavam retornando a mesa após os jantares servidos, e Galo zombava do pai pelo prato repleto apenas de salada.
  — O que está acontecendo? — Demi perguntou ao juntar-se a eles. Chegou na mesa, estendeu para Maggie e Beau as bebidas, já que Galo não queria “beber suquinho”.
  — O pai tá puto porque só tem mato no prato dele. — Galo riu e mostrou o celular para ela. — Registrei o momento.
  Demi riu ao ver a foto de Maggie ao lado de Beau, seu prato de salada em evidência, e o velho com o dedo do meio estendido na foto.
  — Querida, eu trouxe um prato de macarronada e almondegas para você. — Maggie estendeu a ela.
  — Demi, vinte dólares se trocar de prato comigo — Beau pediu.
  — Foi mal, senhor Bennett, mas dessa vez é pela sua saúde.
  — Droga, você é mesmo uma Peterson — Beau zombou enfiando a garfada de alface na boca.
  — E o Colt? — Demi perguntou.
  — Sei lá, ele disse que estava vindo, mas não o vi ainda — Galo comentou.
  Kenny subiu ao palco, chamando a atenção de todos e Demi olhou ao redor. Abby estava sentada novamente na mesa onde antes estava seu namorado.
  — Boa noite, pessoal, antes de chamar o treinador Fitzgerald, vamos sortear o primeiro prêmio da rifa? Uma noite de graça em qualquer Courtyard by Marriott — Kenny falou e todos aplaudiram, em seguida fez o sorteio: — E o prêmio vai para… Maggie Bennett!
  Maggie ficou muito feliz, e Beau sorria para ela incentivando-a a buscar o prêmio, mas a empolgação dele era apenas para roubar a carne do prato de Maggie, contudo, a dona do bar foi esperta e voltou tirando o prato da frente de Beau. Demetria e Galo riram daquilo.
  — E agora, uma enorme surpresa para todo mundo! O melhor quarterback da história do colégio Garrison, Colt Bennett! — Kenny anunciou com empolgação.
  Todos os presentes no salão aplaudiram e ovacionaram a presença de Colt, e sua família vislumbrou, admirados, Colt subindo ao palco para dar algumas palavras de incentivo e motivação para o time do colégio.
  — Obrigado! — Colt falou com a voz um pouco arrastada. — Respondam uma coisa!
  — Ele está bêbado? — Demi perguntou baixinho para Galo ao seu lado.
  — Quando ele não está bêbado? — o irmão zombou despreocupado.
  — Qual é o melhor time de futebol estudantil do estado do Texas? — Colt gritou a todos no microfone.
  — Garrison! — E a plateia respondeu vibrante.
  — E quem é que vai dar uma surra no Norwood esta semana?! — ele gritou de novo.
  Demetria observava a situação um pouco tensa. Ela lia no rosto de Colt que ele não estava “bem”.
  — Garrison! — gritaram em resposta, mais uma vez.
  — Quem vai procampeonato estadual!? — Colt gritou ainda mais, cambaleante.
  Demi trocou olhares desconfiados e preocupados com Maggie, que também tinha o cenho franzido olhando para o filho.
  — Garrison! — A plateia era puro orgulho.
  — Quem vai terminar a temporada e perceber que a melhor época de suas vidas ficou para trás?
  Pronto. Ali as coisas começaram a degringolar mesmo.
  — Garrison! — No automático, Galo e mais uma pessoa responderam, só se dando conta da pergunta depois.
  Demi se remexeu inquieta na cadeira, Galo olhou confuso para o irmão, Maggie continuou imóvel com o semblante preocupado, e Beau já não sorria, estando sério e decepcionado.
  — E quem vai fracassar como jogador profissional de futebol e ter que voltar a morar com o pai? — ele disse frustrado olhando para Beau, que o encarou com pena, mas Colt continuou o desabafo: — E depois descobrir que a ex-namorada tácom um cara que era da banda?! — finalizou em tom de total deboche.
  Ninguém comentava nada, apenas o olhavam com desprezo, pena ou vergonha. Abby estava decepcionadíssima e séria o encarando.
  — Garrison! — Colt gritou em resposta, soltando o microfone e saiu cambaleante e revoltado palco afora, depois de roubar o prato de macarrão de um dos jogadores juvenis.
  Maggie se levantou para ir atrás de Colt, mas Demi arrastou a cadeira antes e pediu aos Bennett:
  — Deixa que eu vou. Falo com ele.
  Beau então segurou a mão de Maggie, e Demetria saiu à procura de Colt. Ela o encontrou chorando revoltado, e jogando o prato intocado em uma lixeira, já na saída do colégio.
  — Colt! — gritou, mas ele não ouviu.
  Demi decidiu seguir ele devagar, mas se espantou quando viu Colt subindo em um tratorzinho de mini arado que estava estacionado em uma rua da vizinhança escolar, e saiu dirigindo.
  — Merda, Bennett! — ela murmurou e correu de volta ao estacionamento do colégio onde estava sua picape.
  A veterinária conseguiu alcançar Colt, que já estava na autoestrada com o trator, mas antes que ela o interpelasse, um carro da polícia local passou por ela mais acelerado, e seguindo o jogador, que foi parado metros à sua frente. Demi estacionou e observou um pouco de dentro da picape antes de descer.
  — Eu posso explicar tudo, senhor! — Colt disse arrastado ao policial que lhe jogava uma lanterna no rosto. — Eu não tavanem correndo. Olha, eu quero um advogado, ela disse que tinha 18 anos.
  — Bennett? — O policial sorriu apagando a lanterna e Demi não entendeu nada da cena que apenas via e não escutava. — É você?
  Colt abriu um sorriso, se jogou de cima do trator abraçando o policial:
  — Billy Litrão!
  Ele se separaram, e Colt encostou no trator continuando a conversa despretensiosa, e bêbado:
  — Nossa! Como é que vai a vida?
  — Tentei entrar na faculdade, cara — respondeu o policial. — Não consegui. Tentei trabalhar em alguns fast foods, não consegui. Daí, agora sou policial.
  — Aí! O que táfazendo pra esses lados? — perguntou Colt totalmente fora de si.
  — Parando um bêbado dirigindo um trator.
  — Que coisa… — Colt riu. — Eu tôum pouco bêbado, tôdirigindo um trator e acabei de ser parado por um policial… Parece que estamos fazendo a mesma coisa! Aí… tive uma ideia, vamos jogar um pouquinho?
  — E o que você acha de entrar no banco traseiro da viatura e não vomitar? — Billy falava paciente e tolerante com Colt.
  — Essa é uma ideia, mas antes… — Colt roubou o quepe policial de Billy e começou a correr em volta dele.
  — O que eles estão fazendo? — Demetria perguntou a si mesma, confusa, e decidiu descer do carro.
  Billy pegou de volta e deu uma bronca em Colt sobre ele estar ridicularizando um policial, e foi nesse momento que Demetria se aproximou.
  — Billy! — ela gritou. — Demetria Peterson!
  — Demi? — Colt perguntou arrastado.
  O policial se virou para ela, e então suspirou:
  — Eu tôlevando o Bennett, Demi. Ele infringiu dirigindo bêbado e….
  — Eu sei, Billy, eu sei — Demetria explicou como se aquilo fosse amenizar tudo. — Ele tomou um porre depois de descobrir que foi trocado pelo Kenny.
  Billy olhou para Colt com expressão de pena.
  — É, vamos, entra na viatura Colt — Billy falou o puxando.
  — Qual é, vai me prender só porque brinquei com você um pouquinho.
  — Não vou te prender, vou te levar pra casa — Billy explicou.
  — Eu levo, Billy — Demi se intrometeu.
  — Tem certeza, Demetria? Ele está podre de bêbado.
  — Eu tôacostumada com o Colt na pior e melhor versão dele, relaxa.
  Billy ainda um pouco em dúvida permitiu. Colt abraçou Demetria beijando o rosto dela várias vezes, e então ela o afastou duramente:
  — Vamos, seu pudim de merda! — Demi o empurrou. — Vou te levar pra casa!
  Billy ajudou a colocar ele no carro de Demi, e antes que ela saísse, avisou que iria escoltá-los.
  — O trator é dos Bennett?
  — Não, ele pegou na avenida principal perto do Colégio Garrison.
  Beau, Maggie e Galo estavam reunidos e preocupados na varanda do rancho, esperando por notícias dele. Haviam ido embora envergonhados do evento, logo após a saída de Demetria.
  — Falem o que quiser, ninguém vai esquecer aquele discurso — disse Galo para os pais.
  — A gente tem que sentar e conversar com ele! — Maggie falou séria, preocupada e brava.
  — Nem sei mais o que fazer, já tentei de tudo — Beau justificou.
  — Você só tentou gritar e expulsar ele de casa — Maggie falou.
  — Como eu disse, já tentei de tudo — Beau repetiu.
  — Lá vem o Litrão, e a Demi — Galo comentou vendo os veículos na entrada da porteira.
  — Se alguém tinha que pará-lo, fico feliz que foi o Billy. — Maggie suspirou.
  — E a Demi continua carregando o Colt nas costas — Beau comentou entortando o bigode com desaprovação.
  Os carros entraram devagar, e Demetria ouvia Colt grunhir como se fosse vomitar logo no instante que chegavam, e foi dura com ele:
  — Colt, se vomitar na minha picape, eu arranco as suas bolas — Demetria ameaçou.
  — Você não sabe fazer isso… — Ele ria e zombava.
  — Sou veterinária e já fiz castrações em animais de grande porte, tem certeza que não sei fazer isso?
  Colt parou de rir e sentiu-se enjoado.
  — Porra, Demi, tá tudo rodando…
  — Chegamos, aguenta aí.
  Ela estacionou, abriu a porta e ajudou Colt a sair. Ele se apoiava nela e não tirou os olhos dos peitos dela, até que riu largamente dizendo:
  — Você tem peitos muito grandes ou tem muitos peitos grandes?
  — Cala a boca.
  — Eu não lembro deles serem assim grandões e redondos… — Colt riu passando um dedo pelo pescoço de Demi até o seu decote. — Ops, licença…
  — Vou te matar, Bennett!
  — Eu levo ele! Antes, sopra aqui, Bennett. — Billy surgiu descido da viatura, e fez Colt soprar o bafômetro antes de tirá-lo do apoio da Peterson.
  Em seguida, arrastou Colt até a varanda, com Demi ao seu lado, livre de Colt.
  Assim que se aproximaram, Galo se levantou e chegou perto do Billy dizendo:
  — E aí Litrão, vai me pagar os 50 dólares?
  — Você continua vendendo maconha para adolescentes, Galo? — O policial deu a indireta.
  — Tábom, já me pagou… — desconversou Galo.
  Colt comentava ainda pendurado no ombro de Litrão:
  — É sério, eu posso fazer ainda mais pontos!
  — Não é videogame, Colt, é um bafômetro! — Demi corrigiu, porque minutos antes ele achou que o bafômetro era uma competição. A Peterson explicou aos pais dele: — Achamos ele na rota 68, com um trator que roubou de alguém na cidade.
  — E eu ainda tenho que voltar lá e guinchar aquilo. Droga! — Billy reclamou e deu as costas como se voltasse para a viatura.
  Colt, de pé apoiado em Galo agora, fez sinal de silêncio para o irmão que o olhou suspeito perguntando:
  — Que foi?
  — Roubei o taser do Billy. — Colt ria tirando de seu bolso a arma de choque policial.
  Galo não conseguiu evitar rir com o bêbado e Demi bufou se aproximando e tomando o taser da mão de Colt.
  — Francamente!
  — Não tem graça, Colt! — Billy se aproximou da Peterson pegando a arma de volta e olhou para Colt dando bronca nele: — Se eu perder mais um, estou fora da polícia! E na próxima eu te levo preso!
  O policial saiu e Demi suspirou se aproximando da poltrona da varanda.
  — Galo, coloque o Colt sentado aí, precisamos conversar! — Maggie ralhou.
  — Mãe — Colt iniciou, falando embolado ainda: —, eu não quero ouvir não. Eu já sei o que vão dizer!
  E emendando as vozes de cada um da família, Colt debochou:
  — “Colt, tô, preocupada com você!” — imitou a voz doce da mãe. — “Colt, estou bravo com você!” — imitou a voz grossa do pai. — “Colt, blá-blá-blá,” — e por fim imitou a voz rouca de Galo.
  Galo zombou o irmão, dizendo que a imitação dele seria um “blá-blá-blá” seguido de vômito, dois minutos no futuro. E como se fosse premonição, Colt tentou responder o irmão, mas veio o enjoo e ele correu para dentro a fim de vomitar, contudo, bateu no vidro da porta fechada e caiu de cara no chão.
  — Leva esse monte de merda que eu e sua mãe fizemos para dentro, Galo — Beau ordenou.
  Então, Galo carregou Colt. Demetria se levantou pronta a ir embora depois de suspirar e reclamar:
  — Esse idiota me fez sair do evento sem comer meu jantar, tôfaminta.
  — Oh, querida, me desculpe por isso. Quer que eu prepare algo? — Maggie falou cuidadosa.
  — Não, Maggie. Eu vou para casa, obrigada.
  — Obrigada você, Demi. É a segunda vez que ajuda o Colt — Maggie falou abraçando a mulher.
  — É, eu só não digo que o tenho como um irmão porque, bem… Seria estranho, não é? — Ela gargalhou ao pensar no quão absurdo era dizer aquilo dado o passado deles.
  — Demi, eu posso te falar uma coisa? — Beau perguntou a ela, sério. A veterinária assentiu. — Pare de carregar o Colt nas costas. Ele não valoriza seus esforços, me preocupa que você se decepcione.
  — Beau… — Demi suspirou. — Eu não sou mais a garotinha que foi apaixonada pelo Colt, fique tranquilo.
  — Concordo com o Beau, querida. Mas confio que você sabe que o Colt não é homem pra você — Maggie também afirmou.
  A Peterson abraçou o casal e foi para casa. Quando chegou, Sam estava preocupado em por quais motivos ela demorou tanto no jantar do time de futebol da cidade.
  — Colt deu um vexame, e eu ajudei a procurar ele. Mas amanhã te conto melhor, tá,papai?
  Sam observou a filha beijar o rosto dele, e segurou sua mão aconselhando:
  — Eu sei que não é burra, Demetria. Sabe que Colt Bennett não é homem para você, não sabe?
  — Sei, sim, pai, mas o senhor também sabe que amo aquela família e os tenho com uma estima de amigos, não é? E também, por mais que o senhor não goste, Beau e Maggie me tratam com muito carinho.
  Sam suspirou e ponderou. Ele se lembrava do passado, da amizade entre os rancheiros e filhos, e até do apoio silencioso e oculto que a filha tivera dos vizinhos após a morte de Laci.
  — Eu sei, não gosto do Bennett, mas se tem alguém que sei que cuidaria de você na minha ausência, é o Beau.
  — Pois é, não que vá ser preciso, pai. — Demi sorriu e abraçou o pai antes de ir para o seu quarto.
  O velho Peterson apagou a luz e foi para o dele também.

• T H E  •  R A N C H •

  Na manhã seguinte, Beau tomava café e lia o jornal na mesa da cozinha e Colt descia as escadas se vestindo, totalmente ressaqueado. Quando viu o pai sentado, virou-se sorrateiro, tentando voltar ao quarto, pé por pé.
  — Bom dia! — Mas Beau notou, e cumprimentou em tom firme de voz.
  — Droga… — sussurrou Colt, e falando voltou-se para perto do pai: — Tálegal, você tábravo. Me desculpa, eu sei que fiz papel de idiota. Envergonhei você e deixei nossa família constrangida.
  — Você também passou pelo drive-thru da sorveteria com o trator dos Miller — Beau contou irônico. 
  Colt assentiu surpreso, e com falsa postura de vergonha. Passou as mãos nos cabelos, deixou o boné sobre a mesa e sentou-se na cadeira, dizendo ao pai:
  — Tálegal, quer saber? Já que vai gritar comigo, pode gritar e acabar logo com isso.
  — Isso não ajudou em muita coisa até agora. — Beau olhava para ele analisando-o, e tinha a voz firme, mas calma, e soube que precisaria ser franco com Colt.
  — Quê? — Colt perguntou desacreditado à reação do pai.
  — Quando voltei do Vietnã, eu não tinha a mínima ideia do que eu ia fazer da vida — Beau começou a contar para o filho, pacientemente. — Tinha 22 anos e era soldado. Era tudo o que eu sabia fazer. Só sabia disso. Eu era um garoto perdido voltando da guerra. A única coisa que eu tinha estava bem aqui. Então voltei pra casa.
  — O vô também encheu o saco por você morar com ele? — Colt perguntou, já não conseguindo encarar seu pai de vergonha.
  — Não, acho que não. Ele ficou feliz por ter alguém pra ajudar, ajuda que ele não precisava pagar. Estávamos todos agradecidos por eu voltar inteiro. Logo depois disso, seu avô morreu. Minha mãe ficou sozinha. De repente! — Beau dizia tudo calmamente, mas o olhar que lançava ao filho era tão intenso, tão cortante, tão desesperado quanto um pai que tentava a última ficha para salvar um filho de si mesmo. — Mas o trabalho não morreu com ele. Eu soube naquela hora quem eu era: um rancheiro. E, pra mim, isso era certo.
  — É… — Colt falou tímido, mas sentindo-se entre a própria decepção e o orgulho. — Eu só não sei se o rancho é o certo pra mim.
  — Olha, Colt… — O pai encarou a mesa, um pouco derrotado, mas suspirou e disse olhando o filho nos olhos: — Não sou inteligente o suficiente pra dizer como viver a sua vida, cabe a você descobrir. Mas acredito que um dia desses você vai acordar sabendo quem realmente você é. Tomara que eu viva o suficiente pra ver isso, mas por enquanto, você tem um lugar pra ficar…
  Colt já sentia a lágrima encher os seus olhos com a forma como seu pai estava, cuidadosamente, dando conselhos que pesavam mais do que uma bronca.
  — … E trabalho de que se orgulhar — continuou Beau, vendo o filho emotivo.
  Colt apontou o dedo ao pai, pigarreou como um homem que não deveria chorar e disse sincero:
  — Muito obrigado.
  Beau voltou a inclinar-se sobre seu prato de café da manhã, e completou o conselho com uma piada para quebrar o clima:
  — Ou você vai acordar um dia e vai se pegar comendo quinoa.
  Colt escondeu um risinho debochado ao ver a colher cheia de quinoa de um velho rancheiro carnívoro, contrariado, que o encarou em seguida, e disse:
  — Sei nem que porra é essa!

Temporada #01
Episódio 4

  — Eu já estava achando que você havia desistido de jantar comigo, John.
  Demetria proferiu sorrindo largamente, de modo que seus dentes brancos e o batom vermelho deixavam a sua boca bastante convidativa — na opinião de Velie. Estavam na segunda taça de vinho e o jantar acabara de chegar.
  — Eu seria louco em deixar uma mulher como você sem um jantar. — John Velie Deere sorriu, mostrando as covinhas, embora escondidas pela barba rala e bem-feita, também tornando seu sorriso um espelho charmoso em que Demetria passava a se interessar cada vez mais.
  — Entendo que administrar as suas propriedades e empreendimentos não deve ser fácil, por isso te perdoo pela demora de três semanas. Até o meu pai achou estranho você não tocar mais no assunto.
  — O Sam… — John riu. — Tenho a aprovação dele pelo visto?
  — Aprovação para o que, Velie? — Demetria sorriu provocante.
  — Talvez… Me tornar mais próximo da filha dele.
  — Ah, sim, você tem. Não só a aprovação dele, inclusive. — Demi baixou o olhar com uma expressão brincalhona de quem se divertia em flertar sinceramente, após tanto tempo. — Sabe… Preciso perguntar! Você é um partido e tanto, Velie! Disse que não teve sorte em relacionamentos, então… Me conte sobre o fracasso que permitiu que nós dois estivéssemos exatamente aqui.
  John gostava que Demetria era uma mulher muito bem resolvida, apesar de dez anos mais jovem que ele. Era madura. Tinha os pés no chão, mas o coração com asas e muita coragem. Não só escutara de outras pessoas, bastava alguns dias conversando com a mulher para notar que Demetria Peterson era cristalina. Suas atitudes revelavam sua personalidade, sem qualquer receio ou máscara.
  Aquela era a primeira vez em cinco anos que John se interessava verdadeiramente por conhecer uma mulher mais do que a cama poderia contar.
  — Bom, foi uma sucessão de fracassos, talvez.
  — Uau, experiência é ouro! Sou toda ouvidos.
  — Tem certeza? O jantar acabou de chegar, não quero te deixar com indigestão. — Ele riu.
  — Tenho estômago forte, John! — Demi riu mordendo o pedaço do seu bife recém-cortado, encarando-o com a força de uma mulher que já passara bons bocados.
  — Certo… — O herdeiro de uma das indústrias mais milionárias do país observou a veterinária de olhar cheio de fogo, mas não era um fogo sensual… Era algo vívido, um fulgor em estar ali na sua presença, e contou: — Eu me casei pela primeira vez aos vinte e seis anos com a minha primeira namorada, foi mais um… Casamento familiar do que amor realmente. Não deu certo, ela não queria filhos. Bem, eu queria. Não precisávamos do dinheiro um do outro e encerramos tudo três anos depois, por pura incompatibilidade, fora que… Demos um passo imaturo em nos casar.
  Demi balançou a cabeça, atenciosa, em compreensão. Eles fizeram uma pausa para comer um pouco mais, até que John continuou:
  — A segunda vez foi aos trinta e cinco, com a mulher que eu realmente mais amei até então.
  — O que houve? — Demi sentiu a voz dele tornar-se nostálgica, quase melancólica.
  — Ela faleceu de um maldito câncer no estômago.
  — Ai meu Deus, que bola fora! — Demi soltou os talheres e mordeu os lábios, segurando uma risada nervosa que lhe subiu a garganta.
  — Pode rir, Demi. — John começou a rir ao notar a reação dela.
  — Era mentira?
  — Não, é verdade, mas seu constrangimento foi engraçado.
  — Que merda, John! Me desculpa, foi muita gafe citar um fracasso amoroso, quando, na verdade, foi uma perda!
  John não se conteve, ele soltou devagar os talheres, rindo ainda mais da expressão de Demetria que escondia o rosto entre as mãos. Bebeu um gole do seu vinho, percebendo que era a primeira vez que falava de Daniely desde sua morte, mas sorrindo.
  — Sinto muito mesmo — Demetria pediu, mais composta.
  — Tudo bem, você não teria como saber. Além disso, é a primeira vez que alguém me faz rir depois de contar que sou viúvo.
  — É o mínimo que eu poderia fazer, não é? — Ela riu leve, retomando o jantar assim como ele. — Posso perguntar mais um pouco?
  — O que quiser.
  — Então, vocês não tiveram filhos?
  — Não. Não deu tempo. Ela partiu há cinco anos.
  — Não perca a esperança, a…
  — Daniely.
  — A Daniely não foi a sua última chance, tenho certeza disso.
  — Tem é? — John comentou com um sorriso ladino, e Demetria arqueou a sobrancelha. — Bom, e a sua história? Qual o nome do ex-noivo que me deu a oportunidade de jantar com você?
  — William. Ele me traiu com a recepcionista da nossa clínica no lavabo canino. Não é uma história tão triste ou honrosa como a sua, é bem pior. É vexatório. Para ele, óbvio, porque para mim… Foi um livramento.
  — Sem dúvida, um livramento. Um homem que transa na banheira do cachorro… É… Mesmo um livramento.
  Os dois começaram a rir ainda mais animados, até que Demi escutou uma voz conhecida se aproximando ao lado da mesa onde estavam.
  — Demi? — Colt olhava para os dois, um pouco estranho, em sua expressão abobalhada de alguém que não fazia ideia do que estaria acontecendo.
  — Colt? O que faz aqui? — Demi o olhou e então se levantou da mesa, educada, assim como John.
  — Ah, eu… Estamos em Denver, esqueceu? — Colt disse recebendo o abraço em cumprimento da amiga.
  — Isso! O time, claro! Teve treino então? — Ela sorriu animada afastando-se.
  — É quase isso, depois te conto, mas… Vocês vieram até aqui só para jantar?
  — Ah, é mesmo! — Demi reapresentou os dois. — Vocês já se conhecem, Colt, John, John e Colt. Bem, sim, viemos jantar. Este é o único restaurante melhorzinho próximo a Garrison.
  — Bem, é o melhor restaurante para um encontro, mais próximo a Garrison. — Colt tocou a mão de John em um cumprimento que o outro correspondeu amigável, e compreendeu tudo, em súbito: — Ah, tá! Entendi! É um encontro! Uau… Eu, não vou atrapalhar mais vocês. Só vim jantar antes de seguir estrada.
  — Está tudo bem, Colt? — Demi indagou notando o semblante dele um pouco arrasado.
  — Claro! Claro, só estou com fome. Bom, nos vemos depois… — O Bennett assentiu para ambos, ajeitando o boné na cabeça.
  Demi e John acenaram e logo que Colt deu-lhes as costas, sentaram-se de novo. A Peterson viu que Colt foi sentar-se em uma mesa bem afastada deles, em outra ala do restaurante, mas ainda era possível que se vissem.
  — Tudo bem ele nos ver juntos? — John perguntou, notando o cenho preocupado de Demetria que observava o amigo distante.
  — O Colt? — ela perguntou surpresa. — Mas é claro! Ah, não. Nada a ver, ele é só meu amigo de infância.
  — Achei que ele seria sua segunda história de fracasso romântico. Contei duas.
  — Bem, ele é a primeira — Demetria então revelou. — Mas não tem que se preocupar com isso. Somos muito próximos, mas não desse jeito.
  John olhou para trás, percebeu que o Bennett discretamente os observava, enquanto também analisava o restante do restaurante.
  — Entendi — John respondeu para Demi, embora não convencido do que ela disse.
  — Também não tive filhos, quem sabe um dia — Demi continuou a conversa mudando o foco de Colt para o que diziam anterior a sua chegada.
  — Você tem anos a menos prase preocupar, eu já estou ficando velho para brincar com crianças.
  — Relaxa! — A veterinária bebeu seu vinho risonha ao consolar: — Meu pai e o senhor Bennett foram pais um pouco além da sua idade, não brincaram vigorosamente com os filhos, mas todos nós sobrevivemos. Embora, eu dei mais certo do que os Bennett, isso é fato.
  John riu, e os dois voltaram a comer e conversar sobre suas vidas. Finalizando o jantar, pediram uma última taça de vinho e Velie pagou a conta. Ele saiu da mesa primeiro, sendo cavalheiro com Demetria, e guiando-a com a mão nas costas, sussurrou no ouvido dela ao saírem:
  — Espero não passarmos em nenhuma blitz de bafômetro!
  — Em Garrison, ao menos, eu garanto! Tenho um amigo policial. Mas aqui em Denver… Bem, você já ofereceu propina a algum? — Demi brincou.
  Eles gargalhavam saindo e Colt assistiu tudo aquilo, Demetria inclusive acenou para ele em despedida enquanto saía, e John apenas meneou a cabeça em um cumprimento educado.
  Colt Bennett abaixou o rosto entre as mãos logo que viu o casal sair. Inspirou e expirou, frustrado.
  — Que dia de merda, Colt — sibilou a si.
  Ficou ali, até o seu jantar chegar, remoendo o que havia acabado de decidir quanto ao time de Denver, assim também, comeu engasgado com algum sentimento estranho inominável, a cada vez que via Demetria ou Abby com John e Kenny.

• T H E  •  R A N C H •

  — Demetria? — Sam chamou assim que, da cozinha, escutou a porta do casarão abrir.
  — Oi, pai!
  — Olá, Sam. — John surgiu logo atrás dela, surpreendendo o pai da veterinária.
  — John! — Sam abriu um sorriso largo ao vê-lo. — Que bom que veio me cumprimentar! Achei mesmo que ficaria envergonhado em só deixar a minha filha em casa.
  — Eu não saí com ela escondido de você. — John se aproximou para abraçar o rancheiro. — Ou você não contou ao seu pai que eu te levaria para jantar?
  — Ele sabia. — Demi riu, finalmente escorando-se na bancada da ilha da cozinha do pai. — E posso saber o que faz acordado ainda, pai?
  — Oh, planejava entrar com ele enquanto eu dormia, é? Por favor, Demetria, um pouco de respeito!
  John gargalhou ao ver o rosto da filha de Peterson ruborizando.
  — Sam Peterson! Não fale desse jeito, o que o John vai pensar da sua filha?
  Os dois homens gargalharam.
  — Você não é mais uma garotinha, embora eu deteste admitir isso — Sam falou abraçando a filha. — E então, John? Vai ficar?
  — Não, não, Sam! — o agrônomo respondeu imediato. — Só vim mesmo te cumprimentar. Vimos que a TV estava ligada pela janela lá fora.
  — Ah, então foi isso. — Sam estendeu a ele um copo do uísque que fabricava.
  — Não bebe essa merda, John — Demi advertiu.
  — É só uísque — Sam explicou.
  Assim que John virou o gole, Demetria sorriu negando e Velie deixou escapar a expressão de alguém que parecia beber a urina do capeta.
  — Que porra de uísque é este, Peterson?
  — Fabricação caseira, coisa fina! — Sam falou rindo alto e batendo no braço do homem como se o aprovasse ainda mais.
  — Se for fermentar uma bebida ruim desse jeito com a cevada que plantarem é melhor nem começar!
  — Ele não vai, Velie — Demi advertiu, lançando um olhar reprovador ao pai. — Bem, não beba o resto. Ou vai ter que pagar mais propina no caminho.
  — Mas e aí, vocês não vão me dizer nada? — Sam perguntou com a mão na cintura olhando aos dois. — Qual é? Estão namorando? Se beijaram pelo menos?
  — Está desesperado para me empurrar aos braços de alguém, pai?
  — Não, claro que não! Mas o Velie está te olhando como se fosse te pedir pra voltar de onde vieram!
  John então mordeu o lábio de um modo tímido. Sam também era transparente como a filha. Deere se aproximou de Demetria, tocando a mão dela de um jeito educado.
  — Ele está certo, melhor eu ir antes que te leve de novo. A gente se vê?
  — É claro — Demi respondeu sorrindo.
  Os olhares deles estavam carregados de um silêncio que conversava.
  — Bem, eu vou voltar para a TV e em cinco minutos, vou subir. Se quiser esperar, apenas saia antes de eu acordar, John.
  Filha e amigo riram da deixa de saída do pai dela.
  — Te acompanho até o carro, Velie.
  Demetria falou, puxando ele pela mão para fora de casa até a picape do fazendeiro. Quando John já havia aberto a porta do lado do motorista, encarou Demi mais uma vez, e os dois ficaram em silêncio, olhos nos olhos, depois olhos nos lábios. Demi deu um passo na direção dele, ele tocou singelo o rosto dela, e respeitoso aproximou os seus rostos.
  — Não é muito cedo para um beijo então?
  — Você levou três semanas pra me levar ao jantar, Velie.
  — Ok, fico feliz que concordamos nisso. Porque quero mesmo borrar este batom — John declarou e uniu seus lábios de forma calma, experiente, e levou a mão na cintura dela de um jeito firme, conduzindo as reações dos seus corpos, quase como um mestre. — Até depois, vou querer outro desses — ele disse ao ajeitar o cabelo dela atrás da orelha e piscar.
  — Combinado.
  Demetria suspirou dando espaço a ele para entrar no carro, e assim que John fechou a porta ainda a observando, ambos risonhos, ela sentiu que na próxima vez, talvez o fizesse ficar sob a regra dos “cinco minutos antes e depois” do pai.
  O carro de John Deere saiu de seu rancho e Demetria mordeu o lábio inferior com um sorriso de canto de boca, muito satisfeita. Ela levou a mão aos cabelos, agitando-os, e fez um gesto comedido de “yeah!”, como se parabenizasse a si pela noite. Logo que entrou em casa, seu pai já havia mesmo subido.

• T H E  •  R A N C H •

  — Pai, Colt! Ajuda aqui! — Galo gritava entrando, calmo, embora curioso, pela porta de entrada que já dava para a cozinha da casa.
  — Mas que porra é essa, prendeu seu pinto no zíper de novo? — Colt perguntou mal-humorado, desde a noite anterior.
  Beau, como de costume, continuou a tomar o seu brunch da manhã indiferente às implicâncias dos filhos.
  — Pai, a galinha está engasgada com um osso de galinha!
  — Desde quando galinhas comem ossos, ainda mais das colegas? — Colt olhou para o animal como se ela fosse uma canibal da espécie.
  — Eu não sei, Colt! Mas abri o bico dela, parece um pedaço do osso, sem falar que a meliante estava ciscando perto da bacia de comida do cachorro.
  Galo se aproximou do irmão apertando a ave entre o braço esquerdo e com a mão direita abrindo o bico dela para que Colt visse do que ele falava.
  — Hum — Colt ironizou. — Achei que papai só dava o bife para o cachorro e o osso pra nós.
  Beau encarou Colt com sua expressão de quem até achava graça naquela sacanagenzinha, mas estranhava o humor do mais novo.
  — O que aconteceu ontem, Colt? — Beau perguntou baixo e analítico, movimentando lentamente os bigodes. — Nenhuma mulher quis dormir com você?
  — É, cara, você tá parecendo o papai. — Galo deixou a galinácea em seus braços bem segura, mas deu mais atenção ao drama familiar.
  — Não foi nada — Colt disse terminando de servir seu prato com ovos mexidos e pedaços de carne e bacon.
  — Galo, que porra está fazendo com essa ave? — Beau deixou os talheres de lado, e ainda incomodado observando Colt, decidiu dar atenção ao mais velho.
  — Ela tá engasgada — respondeu como se julgasse o pai por não ouvir sua reclamação quando entrou.
  — E você quer que eu pare de comer para degolar ela? Faça você mesmo.
  — Pai! — Galo comentou um pouco surpreso. — Achei que deveríamos levar a Meliante no veterinário. Quantas vezes o senhor já viu uma galinha engolir um osso de uma irmã? Ela pode ser a ovelha Dolly do rancho, e a gente passa a cobrar pra virem tirar foto dela!
  — Por Deus, quem é essa galinha perto da Dolly, Galo! — Colt zombou rindo só um pouco, e então olhou o irmão e começou a achar graça: — Caralho, isso é bizarro! Pai, estamos diante do Galo, segurando uma galinha engasgada com um osso de galinha.
  — E eu não morro antes de ver essas merdas… — Beau suspirou zombando junto com Colt.
  — Olha só! Por que as vacas e outros animais da fazenda merecem uma consulta e uma galinha não?
  — Você está se doendo muito pela franguinha, qual é!? É a sua namorada? — Colt perguntou.
  O mais velho lhe estendeu o dedo do meio e Beau limpou o bigode com um guardanapo, escorando-se relaxado em sua cadeira e dizendo para o filho:
  — Não vamos gastar dinheiro em consulta pra uma galinha, Galo. Ela é nosso jantar. É assim que funciona, esqueceu? Os animais têm duas serventias nesse rancho: nos proporcionar o dinheiro no qual vamos comprar nossos alimentos, ou serem eles os nossos alimentos.
  — Se o pessoal do Greenpeace aparecer aqui de novo, eu vou dizer que você teve preconceito com a galinha, pai.
  — Mate logo essa galinha. Seu irmão acabou de comer o restante da carne que seria o seu almoço.
  Galo observou o pouco caso dos dois, e ajustou o cinto na calça dizendo como um salvador da pátria:
  — Sabe que foi ela que botou os ovos que estão comendo, não é?
  — E as asinhas ela vai botar no nosso prato mais tarde — Beau comentou com seu sorriso sacana.
  — Por Deus, Galo! É só a porra de uma galinha! — Colt comentou impaciente. — Você tá se importando tanto por quê?
  — Ei, qual é, Colt? Por que está gritando!? — Galo deu uma dura no irmão. — Eu vou levar ela pra Demetria, tenho certeza que ela não se importaria em dar uma olhada!
  — Se ela estiver em casa! — Colt murmurou bufante.
  Foi naquele momento que Beau e Galo notaram que entre outras coisas, Demi, provavelmente era a razão da cara de cu de Colt.
  — O que aconteceu com você e a Demi? — Galo perguntou.
  Beau podia sentir os pelos da nuca eriçarem de irritação em imaginar que Demi estivesse dando ideia para o bosta do seu filho de novo.
  — Comigo nada, mas o tal John Velie… — Bufou. — Eles estavam juntos no Denver Grill ontem à noite, em um encontro! Esbarrei neles quando estava voltando.
  — Ah… Então é isso. Tem um fazendeiro milionário e boa pinta comendo a garota que você deixou escapar. E a sua ex-namorada está feliz e graciosa com o cara que você achava ser um perdedor, mas tem a vida melhor que a sua — Galo comentou em tom de humilhação: — Vira o disco, Colt! Supera.
  Beau fez sinal para Galo sair e alertou:
  — Vá com sua galinha para outro lugar, mas já deixo claro que eu não vou bancar nenhuma consulta, ouviu?
  Os dois observaram Galo saindo e Colt terminou de comer sob os olhos julgadores do pai.
  — Pai, qual é? Vai ficar me encarando como se eu tivesse feito merda?
  — Você fez alguma merda?
  — Se estou aqui, acho que muitas, não é? — ironizou de novo.
  — Tô falando de ontem, com a Demi e o John. Ou com a Abby.
  Colt murmurou enquanto arrastava a cadeira tirando os pratos da mesa:
  — Não. Ficaria orgulhoso em ver como cumprimentei educadamente os dois. E não vejo a Abby desde o dia do vexame...
  — Colt, eu juro que não entendo — Beau começou com os braços cruzados. — Você gosta da Abby ou da Demetria?
  — Eu não gosto delas, quer dizer… Não é assim, pai. Não é igual! A Abby eu sinto que perdi por que voltei tarde demais e a Demi… Bem, é só a Demi. Me preocupo com ela, esse cara, esse tal Velie! Ele é mesmo bom pra ela?
  — Isso é ela quem tem que saber, e acho que todos concordam que… Qualquer outro é melhor do que você para ela.
  — Eu nunca fui opção para a Peterson, pai — Colt comentou.
  A frase dele fizera Beau pensar se o filho era cego, burro, ou se estava falando na própria percepção de quem nunca havia se considerado ao alcance daquela mulher.
  — Tá, então esse mau humor tem a ver com o encontro da Demi?
  — Não.  — Colt terminou de lavar a louça e caminhou até a bancada pegando seu boné e vestindo. — Tem a ver com o time de Denver. Eu saí.
  Beau mal conseguia acreditar que Colt disse que “saiu” e não que “foi chutado”.
  — Você estava certo da sua decisão? — o pai perguntou e ele assentiu em silêncio positivamente. — Então não há por que ficar com cara de quem comeu e não gostou. Quando um homem toma uma decisão, ele tira a poeira das botas e segue em frente.

•  T  H  E  •  R  A  N  C  H  •

  Demetria havia terminado de aplicar a injeção contra carrapatos no velho pastor alemão de seu pai, Brutus. O animal estava tão velho quanto Sam Peterson, e acostumado com as mãos suaves de Demi, sequer latiu pela agulhadinha. No entanto, latiu fraco, como se estivesse com preguiça, ao ver Galo Bennett se aproximando da entrada do casarão.
  — Hei, Dementadora! — gritou Galo. — Esse pulguento ainda está vivo?
  Demi olhou para o outro já erguendo o dedo do meio, e iria responder, quando Sam surgiu na varanda gritando de volta:
  — O que acha que está fazendo invadindo meu rancho com essa audácia e xingando o meu cachorro, seu idiota Bennet?
  — Olá, Sam, você também está demorando para morrer, não é, velho? Está competindo com o pulguento quem dura mais?
  — Galo! — Demetria se aproximou dando bronca. — Não fala assim com meu pai, seu merda!
  — Calma aí, Demi. Eu vim em paz.
  — Meu maior desgosto com você — Sam falava apontando e aproximando-se de Brutus — é não ter aprendido a atacar essa corja de Bennett!
  E olhou de soslaio para Galo que ria debochado, Demetria virou-se para o pai e o guiou pela varanda a entrar:
  — Entra, pai, já deixei o almoço pronto e estou indo para a cidade.
  — Antes, segura o Galo e a namorada dele aí, vou pegar minha espingarda.
  — Nunca acertou um tiro em Colt quando ainda tinha bons olhos, que dirá agora, Matusalém — Galo respondeu a Sam, com seu humor ácido e risadinha sacana.
  Demi foi empurrando o pai para dentro de casa contra a vontade dele, enquanto ele xingava Galo e o Bennett dizia: “Até mais, Sam, é bom te ver vivo!”. Quando ela retornou de dentro da casa com sua maleta veterinária na mão, parou diante de Galo e lhe deu um chute na canela.
  — É difícil ser uma mulher madura e adulta diante de você, Galo.
  — Percebi pelo seu chute de menininha. — Ele fingia segurando os lábios em dor.
  — O que faz aqui? Você nunca pisa no rancho Peterson.
  — Trouxe a Meliante para você dar uma olhada. Está engasgada com um osso de galinha, o pai mandou eu matá-la pro jantar, mas… Eu acho que ela pode ser uma aberração que nos fará ganhar uns trocados. Onde já se viu uma galinha comer osso de galinha?
  — Por Deus, eu não sei nem o que dizer… — Demetria estranhou o fato de ele trazer o animal, mais do que o motivo. No rancho Bennett, aquela ave já estaria sendo depenada se fosse Colt ou Beau. — Seu pai sabe que veio procurar meus serviços veterinários por isso?
  Demi fez sinal com a cabeça para que Galo a acompanhasse até a varanda, para onde ela voltou e abriu a mala veterinária. O Bennett sentou no toco que ali havia, e continuou segurando firme a galinha entre seus braços abrindo o bico dela.
  — Vai me dizer para sacrificar a coitada também? Que tipo de médica de bichos é você?
  — Só estou estranhando, Beau acharia isso ridículo.
  — Ele achou, mas preferiu não discutir para lidar com a mais nova crise adolescente do Colt.
  — Hm… — Demi murmurou colocando a lanterna para ver o papo da galinácea. — É um pedaço de osso mesmo, e grande demais para uma galinha.
  — Dá para tirar?
  — Não sem degolar ela. Ela vai morrer se continuar tentando comer com esse ossinho atravessado, pouco a pouco ele pode ferir o tecido e não vai passar de qualquer jeito. Acabe com o sofrimento da bichinha logo.
  — Não! — Galo lamentou e olhou para a galinha compadecido e disse: — Meliante, não acredito que até você vai morrer antes do Brutus!
  O cachorro deu um latido como se o tivesse entendido.
  — Bem, já que é assim… — Galo suspirou. — Você vai morrer com dignidade.
  — Minha nossa, você é muito estranho. — Demi riu fechando a maleta de novo e se encaminhando para fora da varanda, onde há alguns metros entraria na sua caminhonete.
  — Ei, espera! — Galo a seguiu. — O que houve entre você e o Colt ontem à noite?
  Demetria esperou o Bennett a alcançar, e os dois voltaram a caminhar até a porteira do rancho, lado a lado falando do irmão dele.
  — Nada. Por quê? Ele está rebelde e me culpando?
  — Ele parece meio puto porque te encontrou ontem com o tal John… Estava em um date, é? — Galo deu uma risadinha. — Rolaram nos algodões das fazendas dele, é?
  Demetria até tentava, mas às vezes não conseguia evitar o riso pelas bobagens de Galo.
  — Minha vida amorosa não te interessa. E não sei por que o Colt ficaria puto com isso, John e eu fomos muito educados com ele.
  — Eu acho que o Colt está sentindo remorso pelas coisas que aconteceram na vida dele… Essa coisa de reencontrar a Abby com o nerd do Kenny, e talvez, o fato de você não dar uma brecha para ele vir escondido pra cá dar umazinha com você como nos velhos tempos…
  Galo gargalhou e Demi deu-lhe um tapa na nuca, rolando os olhos.
  — O que o Colt está sentindo é o peso do fracasso. Ele sabe que perdeu muitas oportunidades e está no auge dos 34 anos buscando uma razão para continuar, mas também não sabe para onde seguir… — Demi suspirou abrindo a porta da sua caminhonete. — Ele estava vindo de Denver ontem quando parou no Grill, e sabe… Ele já estava com uma cara péssima. Não tem a ver comigo ou John.
  — Me dá uma carona até minha porteira, vim andando pela cerca dos fundos — Galo pediu já abrindo a porta do carona e entrando. — Ele te falou alguma coisa sobre o treino ontem?
  — Não, só nos cumprimentou rapidamente e nos deixou. John e eu saímos logo em seguida.
  Galo suspirou e continuou a olhando analítico, e então, teve um dos poucos lapsos de preocupação com a velha amiga:
  — Dementadora, esse cara te faz feliz?
  — Há muito tempo eu não espero que um homem me faça feliz, Galo — respondeu calma e sincera. — E não tem muito tempo que o conheci, estou vivendo. Vamos ver onde vai dar… Mas ele é um cara legal.
  — Se ele pisar na bola como o outro, ou… como o idiota do meu irmão, você pode falar que eu… Você sabe… Posso errar um tiro melhor do que o seu pai.
  Demetria sentiu um sorrisinho sacana surgir aos poucos nos seus lábios, e encarou o amigo de forma jocosa.
  — Você não tem provas que eu disse nada disso — Galo se defendeu logo antes dela falar qualquer coisa.
  — Obrigada, Galo. Eu sei que no fundo você tem um bom coração, tentou até salvar uma galinha de ser o jantar da sua família!
  — Quando eu descobrir o que aconteceu com o Colt ontem, eu te conto — disse Galo um pouco preocupado com o irmão, e sabendo que Demi também estaria.
  Os dois deram risinhos e seguiram falando besteira até a entrada do rancho Bennett, onde Galo desceu e Demi seguiu para a clínica de Dale.

• T H E  •  R A N C H •

  Outro dia havia se passado em Garrison sem eventos extenuantes, e era noite. No rancho Bennett, Colt e Galo assistiam a um jogo de futebol americano pela TV enquanto Beau, aparecia na cozinha colocando sua caixa de ferramentas sobre a bancada e perguntou:
  — Alguém viu o meu martelo?
  — Vi! — Colt respondeu puxando a ferramenta que estava na mesa ao lado do braço do sofá. — Está aqui! — E abriu a tampa da cerveja longneck com os dentes do martelo, entregando ao pai em seguida. Beau que assistia aquilo, respondeu surpreso:
  — Usando um martelo para abrir uma tampa de rosca. Devia patentear isso. — Virou-se guardando a ferramenta e avisou: — Eu vou à casa da mãe de vocês.
  — Com um martelo!? — Galo indagou confuso e irônico. — Vamos aparecer no noticiário?
  — Quando fala merda o dia todo, vai para cama orgulhoso? — Beau perguntou de volta ao filho mais velho, com tom de quem iria mandá-lo se foder.
  — Vou sim senhor — Galo respondeu, esperou o pai se afastar um pouco e falou ao irmão ao seu lado: — Aí faço outra coisa na cama e sinto vergonha.
  Colt não segurou uma risadinha ladina, mas olhou para trás checando que o pai havia saído e perguntou direto ao irmão:
  — Aí, o que acontece entre o pai e a mãe? Continuam casados, só que não moram juntos, mas ainda transam…
  — É, já perguntei pro pai e ele resmungou — Galo começou a explicar. — Aí perguntei pra mãe e ela ficou falando uns 45 minutos, eu não consegui entender nada. Mas usou o termo “almas gêmeas sexuais”.
  Colt riu achando bem típico do comportamento da mãe, enquanto Galo desconversou perguntando se ele queria terminar de ver o jogo no bar de Maggie.
  — Não, não tô a fim — disse Colt.
  — Não tá a fim de beber? Sua herpes voltou?
  — Eu tô bebendo agora! — respondeu atravessado Colt. — Além disso, dá para beber quando se tem herpes.
  — RÁ! — Galo zombou. — Você disse que não tem!
  — Acabou?
  — Acabei, mas posso voltar a qualquer hora. Que nem sua herpes. — Riu e bateu na perna do irmão, insistindo e se levantando. — Qual é, cara, vamos lá? Chamei a Demi por mensagem, mas ela disse que tem um encontro com o John.
  — De novo?! — Colt ironizou. — A coisa é séria entre eles?
  — Talvez ainda não, mas acho que vai ficar… — Galo deu de ombros. — Anda, levanta.
  — Eu já falei que não quero ir!
  — Colt, se não quer ir ao bar ver futebol e ficar bêbado, então realmente vou ficar preocupado com você! — Galo estranhou apontando ao irmão de pé em sua frente.
  — Ah… — Como um cachorro que caiu da mudança, Colt explicou: — É que eu não quero encontrar a Abby…
  — Por quê? O que você fez? Passou herpes pra ela?
  — É, eu tenho herpes. — Irritou-se Colt, pegando a garrafa que o irmão bebia e esfregando a língua nela e zombando: — Vai fundo, bebe agora!
  — Se ferrou, agora você tem herpes. — Riu zombeteiro, Galo, mas logo voltou a focar no assunto sério: — Por que não quer ver a Abby?
  — Ah, uma noite aí a gente estava conversando, eu achei que ela tava a fim de mim e tentei dar um beijo, mas ela me deu um fora.
  — Só isso? Cara, se eu fosse evitar toda mulher que eu tentei beijar, eu não poderia ir ao banco, nem ao dentista, nem à escola. — Com a última informação, Colt encarou o irmão com choque e reprovação e Galo explicou: — Calma, pervertido, foi a guarda de trânsito que trabalha na frente do colégio. Mas e aí, você vem ou não?
  — Não preciso ir ao bar pra me divertir!
  — A cerveja da casa acabou.
  Galo explicou finalmente e se virou dando de ombros e mais do que imediatamente o irmão o seguiu. Enquanto caminhavam até a porta, Colt riu e perguntou:
  — Hehehe… Guarda de trânsito? É sério que tentou beijar uma mulher segurando uma placa vermelha escrita “pare”?
  — É, devia ter entendido a placa. Ela é quem me passou herpes.
  Enquanto os garotos discutiam em casa e até fazerem o percurso do bar, Beau estava no trailer de Maggie tentando consertar o micro-ondas dela.
  — Deu tudo certo aí? — ela perguntou ao marido/ex.
  — Novinho em folha. — Se vangloriou e tentou ligar o aparelho que não acendeu.
  — Mas quando estava novo ele ligava, Beau — Maggie zombou.
  — Ah, por que será que nossos filhos são tão sarcásticos? — Beau perguntou com uma pontada de atrevimento. — Bem, melhor abrir tudo e começar do zero.
  — Beau, isso tem vinte anos, é só eu comprar um novo! — Maggie reclamou.
  — E vai comprar um novo a cada vinte anos? Eles podem fazer essas coisas pra durar mil anos, mas não fazem! Por causa de idiotas como você.
  — É! Ou é o cartel internacional de eletrodomésticos, ou o fato de eu ter fumado maconha e ter posto uma frigideira no micro-ondas? — Maggie comentou, e logo interrompeu qualquer discussão que viria entregando a Beau uma cesta de verduras e legumes. — Toma, isso é pra você. Direto da minha horta.
  — Isso é um castigo por eu não consertar o micro-ondas?
  Os dois riram e Beau se afastou do aparelho segurando a bacia, e indo sentar-se em uma poltrona olhando os legumes, frustrado.
  — Poxa, você tem que se cuidar um pouco! — advertiu Maggie ajeitando um pouco o local.
  — Que ótimo! — começou a resmungar. — Os meninos serão obrigados a comer bife, mas eles é que vão perder porque eu vou comer um delicioso… — Remexeu a bacia e pegou, dizendo com ironia: — Nabo!
  — Comer vegetais vai deixar você tão irritado assim? — Maggie indagou com as mãos na cintura, em pose de quem estava achando ridícula a resistência de Beau. — Além do mais, isso é um rabanete!
  Os dois se olharam provocantes, Beau deixou a bacia de lado e encarava o rabanete em sua mão enquanto ouvia Maggie lhe perguntar se ele não queria fazer algo diferente naquela noite. Ele, apontando o vegetal pra ela com um sorriso sacana no rosto, respondeu que, da última vez que ela fizera um convite daquele, havia o feito comer “comida exótica”. Maggie riu, sacudindo a cabeça:
  — Beau, era comida mexicana… Mas não… Eu estava pensando em usar aquela noite que ganhei no Marriott, no dia da macarronada do time.
  — Hotel é negócio pra empresário e prostituta, Maggie… — Beau resistia.
  — Nós podemos fazer um teatrinho se você quiser — Maggie respondeu brincalhona e piscou para o velho ex-marido, que não escondeu um farto sorriso sob os bigodes. — Poxa, Beau, quando foi a última vez que fez uma coisa espontânea?
  — Outro dia mesmo, no caixa da loja de ração. Comprei chicletes. Sabe que eu nem me importei?!
  — Ai, Beau, é sério! Você só trabalha! Merece férias!
  — É que eu não trouxe outra roupa. — O velho Bennett deu uma desculpa mal dada.
  — Não vai precisar de roupa! — Maggie no entanto, dizia insistente e cheia de malícia.
  — Maggie… São 50 quilômetros!
  — Eu dirijo!
  — O veterinário vai ao rancho às 6:30! — Outra desculpa dele.
  — Eu te deixo em casa às 6! — E ela rebateu.
  — Eu vou ter que ir, né? — Beau suspirou, dando-se por vencido e Maggie sorriu, virando-se vencedora ao dizer:
  — Vou pegar um casaco.
  Beau deu um risinho baixo, olhou pro rabanete em sua mão dizendo ao legume:
  — Vá se foder.

• T H E  •  R A N C H •

  — Não vai andar na garupa da minha moto de novo se ficar gritando — reclamava Galo enquanto ele e Colt entravam no bar.
  — Eu não estava gritando — se defendeu o caçula sentando no banco do balcão ao lado do irmão.
  — Qual é? “Cara, para, não tem graça! Cara, vá devagar, não tem graça!” — Galo imitava Colt forçando uma voz afeminada.
  — Eu estava quase caindo da garupa, tentando não deixar meu pinto encostar na sua bunda! — explicou com orgulho, Colt.
  Hank, o bêbado que já havia se tornado parte da decoração do bar, estava ao lado deles e os escutava rindo quando os meninos o cumprimentaram. Hank olhou para o atendente substituto que Maggie arranjou naquela noite, e explicou:
  — Eles são filhos da Maggie, e bebem de graça. Vão querer três cervejas — ordenou ao garçom.
  O rapaz fez o que ele disse, e Colt e Galo apenas riram dando uma olhada em volta. Então Galo avistou Abby, e cutucou o irmão, avisando-o. A ex-namorada de Colt estava sozinha, e ele confessou para Galo:
  — Cara… Eu sei que tenho que falar com ela, mas eu não quero.
  — Você gosta dela e se sente mal. — Galo pegou sua garrafa servida e tentou ser o irmão mais velho que aconselha: — Seguinte, fala com seu coração. E fala a verdade. Pode ser difícil, mas ela vai te respeitar.
  Colt observou ele virando um gole após o conselho, e nem acreditava que palavras maduras saíram da boca de Galo Bennett.
  — De onde é que veio isso? — perguntou assustado.
  — Eu brinco, mas no fundo eu sou bonzinho. Demi também acha — Galo explicou e virou-se para olhar melhor quem estava no bar, avistando uma garota. — Agora, espera aí. Já volto. Vou ali naquela gatinha dizer que sou superdotado e moro em uma mansão.
  Ignorando a saída do irmão e se levantando com a cerveja como um antídoto à própria culpa e vergonha, Colt virou-se ao bêbado do lado dizendo:
  — Hank! Me deseje sorte.
  O ex-jogador de futebol americano caminhou até a mesa onde Abby estava sentada.
  — Oi, Abby.
  — O que você quer, Colt? — ela perguntou bravia, sem ao menos encará-lo. Sua expressão denotando a raiva pelo acontecido anterior.
  — Quebraria o gelo se eu dissesse “um beijo”? — Colt respondeu.
  Imediatamente, ela largou o copo com a própria bebida sobre a mesa, e encarou Colt de modo que se os olhos fossem armas, ele teria levado dois tiros.
  — Olha, Abby… Eu sinto muito. Desculpa… Eu- eu passei dos limites. Naquele dia eu bebi demais e me deixei levar pelo momento. — Mudando o tom para um mais sacana ele completou: — E também por esses seus lindos olhos azuis…
  Abby no entanto, não mudou a expressão de reprovação.
  — Nada ainda? — Ele deu uma risadinha. — Que tal me dar um sinal quando estiver pronta para piadinhas?
  Abby ergueu o dedo do meio para ele.
  — Ah… Estamos de boa? — Colt zombou novamente com a expressão chocada pela atitude dela. — Não, Abby, olha… É sério, eu... eu sinto muito mesmo. Fui um idiota e não vai se repetir. Eu quero ser seu amigo e amigos não fazem isso. Acho que é hora de eu crescer…
  — E por que eu devo acreditar em você? — Abby finalmente falou.
  — Porque você é uma pessoa melhor do que eu? — ele respondeu depois de pensar um pouco.
  — Nisso eu acredito! — Ela riu depois de um tempo séria e explicou, igualmente sincera para ele: — É que eu preciso que você leve a sério meu namoro com o Kenny, Colt.
  — É claro, você está certa.
  — Mesmo ele tendo sido um nerd da banda!
  — Ah, aí! — Colt tentou puxar saco e não fazer um comentário cheio de bullying: — Tem vários Kennys legais de bandas! Kenny Chesney, Kenny Loggins, Kenny G…
  Abby não aguentou, levou as mãos ao rosto apoiando os braços na mesa escondendo a risada. Colt riu satisfeito e propôs que eles recomeçassem a amizade do zero.
  — Ok, Colt, mas… Eu estou falando sério! O Kenny é meu namorado e nada vai mudar isso!
  — Beleza, eu entendi a mensagem!
  — E outra coisa… — Abby suspirou mordendo os lábios tentando se policiar se dizia algo sobre aquilo ou não.
  — O que foi?
  — Demetria nos viu naquele dia.
  — O que é que tem? — Colt arqueou a sobrancelha confuso.
  — Ela… Não ia sair comentando, não é?
  — Demi não é esse tipo, achei que você soubesse — Colt comentou em um tom um pouco ofendido. — Quero dizer, você também a conhece há anos!
  — Não tanto quanto acho que você conhece — Abby falou dando de ombros.
  Um breve silêncio constrangedor surgiu, Colt não entendia de onde ou por qual razão acontecia aquilo.
  — Olha, se tem medo que o Kenny saiba… Pode ficar tranquila. Tenho certeza que de todas as pessoas em Garrison, Demi é a única que não daria a mínima pra sua vida particular ou para qualquer fofoca.
  — Ela ainda me odeia, não é? — Abby perguntou e Colt a encarou confuso, como se aquilo fosse absurdo. — Qual é, Colt, ela e eu nunca fomos amigas.
  — Isso não quer dizer nada, Demi nunca teve nada contra você. Tá certo que ela perdia um pouco a paciência quando você estava junto ou aparecia, mas era por minha culpa. Eu ficava alugando os ouvidos dela falando ou pedindo conselhos sobre você.
  Abby o encarou surpresa com a informação.
  — Falavam de mim? Do nosso namoro?
  — Sim, o que é que tem? Demi sempre foi a minha melhor amiga.
  Por mais ingênuo que parecesse aquilo, Abby sentiu uma fagulha antiga de ciúme daquela relação de amizade que Colt tinha com Demi e parecia permanecer após tantos anos. Além disso, ela passou a compreender melhor o motivo pelo qual a veterinária não tinha muita tendência a simpatizar com ela. Colt era absolutamente inconveniente se ficava mesmo falando de Abby para Demi.
  — Ah… Tá, não, nada — Abby desconversou.
  Colt deu um sorrisinho, e a atenção dos dois foi tomada pela presença de outra loira que se aproximava da mesa.
  — Oi, Colt! Senhorita Philipps, camisa legal! — Heather os cumprimentou.
  — Ah, é? Oi, Heather! — Abby cumprimentou a garota.
  Bennett arregalou os olhos um pouco aéreo com as duas loiras se falando.
  — Uau… Heather… — ele cumprimentou de volta sem tirar os olhos do par de seios na camisa justa da jovem. — Vocês se conhecem?
  — Pera aí, vocês se conhecem? — Abby devolveu a pergunta olhando pra Colt, um pouco surpresa.
  — É! — Heather se aproximou dele, sem saber a situação e tocou no ombro de Colt explicando para ele e para ela: — Ela foi minha professora de história, Colt. E o Colt e eu ficamos, senhorita Phillips.
  — Claro… Bom saber — Abby ironizou, virando um gole.
  — Só pra deixar claro, a gente não chegou nos finalmente — Colt justificou-se envergonhado.
  — É! Porque o pai dele entrou no quarto quando íamos começar a transar. — Heather não estava com maldade alguma, apenas a impetuosidade sincera de quem não deve nada a ninguém.
  Abby fez uma careta e tentou desviar o assunto:
  — Então, Heather, quando foi mesmo a última vez que nos vimos? Quatro anos atrás? No colégio? — Mas a pergunta saiu com um tom de julgamento tal qual o olhar que ela lançava pra Colt.
  — A identidade falsa funcionou, Heather! — Uma garota se aproximou da mesa dizendo direto para Heather, e então olhou para Abby e Colt cumprimentando: — Oi, sou Nikki!
  — Nos conhecemos, Nikki, fui sua professora de história no primeiro ano. Duas vezes.
  — Repetiu história no primeiro ano também, saquei! — Colt deu uma risadinha e fez um highfive com a garota.
  — Aí, cara, o pai mandou uma mensagem! — Galo chegou com o celular na mão, mas quando levantou a cabeça e viu Nikki e Heather ao lado de Colt e Abby na mesa, ele flertou sem disfarçar com a Nikki, que correspondeu com um risinho. Em seguida continuou: — Enfim! O pai disse que vai levar a mãe pro Marriott em Telluride.
  — Ai, mentira! — Nikki comentou animada. — Meu Deus! Nossa formatura foi lá!
  — Que demais… — ironizou Abby.
  — A casa está vazia. Estão a fim de fazer uma resenha por lá? — Galo convidou as meninas.
  — Mas é claro! — Heather sorriu.
  — Aí, quer ir com o Kenny? — Colt convidou Abby.
  — Não, desculpa, não vai dar. Estou esperando por ele, vamos levar comida pra mãe dele que não está muito bem.
  — Ah, mas ele topou — Galo comentou erguendo o celular mostrando que conversava com ele. — O Kenny vai levar a cerveja.
  — Tá, então eu acho que nós vamos. — Abby riu como todos os outros por ter sido pega na mentira.
  Os cinco se encaminharam a sair do bar, e quando Heather falou que gostaria que os pais saíssem para ela dar uma festa em casa, Abby sentiu-se revoltada comentando sarcástica para Colt:
  — Eu sou a única aqui que não mora com os pais?
  Colt riu e deu de ombros. E eles seguiram para o rancho Bennett. Antes de subir na moto, Galo falou:
  — Nikki, pode vir comigo. Abby, tudo bem você dar uma carona pro Colt e a Heather?
  — Ah, claro. Só preciso pegar o Kenny antes — Abby falou um pouco sem graça. — Seremos só nós então?
  Galo digitava no celular, parado na frente da moto e respondeu animado:
  — Demi também.
  — O quê? Ela vai? Mas ela negou vir pro bar! — Colt achou estranho.
  — Chamei ela e o Kenny na mesma hora, e os dois confirmaram. A Demi está com o John no rancho dela, e é claro que ela pode levar ele. Até porque estamos todos em casal.
  Nikki deu uma risadinha pela audácia divertida de Galo, e Colt assentiu sem argumentos, sentindo Heather entrelaçar seu braço ao dele, toda felizinha.
  — Ah… Então vamos — Abby comentou sem se lembrar de nenhum John na cidade.

Temporada #01
Episódio 4.2

  Enquanto os rapazes se preparavam para a resenha no rancho Bennett, Beau e Maggie estavam diante da porta com o cartão magnético dando de 10 a 0 em Beau. Ele enfiava e a porta não abria.
  — Está quebrado, vamos para casa! — Beau resmungou tirando o cartão e virando-se para sair, quando Maggie tirou da mão dele bronqueando:
  — Ah, sai para lá, deixa eu tentar!
  — Sabe, o governo usa esses cartões eletrônicos para rastrear nossos movimentos.
  Maggie encarou Beau como se o rosto fosse um grande letreiro que dizia “foda-se o governo, eu não estou fugindo”.
  — Jura? Eles sabem que estamos no Marriott? — zombou ela, abriu a porta e entraram. — Olha, Beau! É maior que o meu trailer!
  — Que cheiro é esse? — o Bennett resmungou.
  — Sei lá, limpeza? — Ela ironizou e apontou ao carrinho de bebida que estava disposto em frente à cama: — Legal, nos deram uma garrafa de vinho!
  — Não encosta! Às vezes eles cobram só de mexer nela!
  — Fala sério, Beau! Tem um bilhete… — Maggie pegou o cartão perto da garrafa para ler: — É do Kenny.
  — Quem é Kenny?
  — O namorado da Abby, ele é gerente daqui e foi quem deu a hospedagem.
  — E quem é Abby?
  — A ex-namorada do Colt, Beau. Nossa... Ah, e o Colt é o seu filho.
  — Ah, sim, essa Abby e esse Kenny — Beau resmungou caminhando pelo quarto sem tocar em nada, observando tudo e julgando, lógico. Até que ele foi abrir a janela do quarto, não conseguindo passar de meia janela aberta. — A janela está quebrada. Só abre uns dez centímetros… Vou consertar!
  Maggie mal acreditou quando ele tirou seu canivete de multichaves do bolso.
  — Ah não, Beau! A janela está ótima, fala sério! Não está quebrada! Larga isso. — Ela se jogou sentada no colchão, perguntando: — Vem! O que vamos fazer primeiro?
  — Bem… Eu quero relaxar. — Beau largou a janela, guardando o canivete no bolso novamente, e sentou-se em uma cadeira acolchoada por perto, dizendo: — Pronto. Relaxei.
  — Olha isso! Tem uma banheira de hidromassagem! Podemos tomar um banho relaxante!
  Enquanto Maggie explorava o quarto, Beau tirou o chapéu de cowboy, jogou na cadeira, foi pra cama sentando-se na beirada dela e pegou o controle remoto da TV. Maggie retornou pro quarto e, ao vê-lo diante da TV, ironizou:
  — Ou você pode ficar vendo TV, uma coisa que faria em casa, aliás.
  — Não é verdade, em casa não temos o canal da previsão do tempo. — E empolgado mencionou: — Ih, olha lá! Está vindo uma frente fria de Nebraska!
  — Eu vou explorar o hotel! Aliás, te espero no bar. Troca logo essa roupa, veste algo mais confortável e desce.
  Meia hora depois, Maggie se cansou de aguardar Beau e retornou para o quarto, desanimada. Abriu a porta e vislumbrou ele parado de braços cruzados encarando algo além da janela que dava para a rua.
  — Beau, o que houve? Achei que fosse me encontrar no bar… — O desânimo era nítido na voz dela.
  — Tem um cara lá embaixo no estacionamento que está no telefone há mais de meia hora — disse baixo sob os bigodes, como um agente do FBI.
  — É o quê? — Maggie não podia acreditar.
  — Um cara lá embaixo no estacionamento. — E, olhando para ela desconfiado, ele indagou: — Quem fala no telefone por mais de meia hora?
  — Quem é que fica olhando alguém falar no telefone por meia hora!? — Maggie ironizou.
  Beau voltou a encarar pela janela, certo de que...
  — Ele tá aprontando alguma… Ele está usando um terno, mas sem cinto.
  — Ah, Beau! — Maggie tomou a frente puxando a cortina para fechar e o ex-marido deu alguns passos para longe da janela ouvindo a reclamação dela. — Qual é, faz anos que a gente não passa uma noite fora! É nossa chance de ter um pouco de diversão — ela foi espiar pela janela dessa vez —, não de ficar olhando um cara sem cinto no estacionamento comendo um sanduíche.
  — Ele está comendo um sanduíche agora? — Beau levantou-se da cama do quarto voltando para a janela como se aquela espiadela fosse importante. — Ele comeu uma fatia de pizza há meia hora.
  E agora estavam os dois espiando.
  — Ah, chega, não estamos em um reality! — Maggie caiu em si, saiu da janela e puxou Beau pela mão para a encarar e disse sorridente: — O que você acha de irmos para a hidromassagem?
  — Aonde você acha que os empresários que dormem em hotéis levam as prostitutas? — Beau perguntou irônico com uma mão na cintura.
  — Será que dá para a gente fazer alguma coisa que eu queira sem você ficar reclamando? — Maggie perguntou suspirando triste e sentando-se na cama.
  — Bem, eu estou aqui, não estou?
  — Poxa, mas eu achei que a gente ia aproveitar a noite juntos!
  — Eu estou me divertindo, Maggie! O mais importante, você está se divertindo. Qual é o problema?
  — O problema é que você está totalmente ausente, Beau — ela respondeu e ele olhou para ela confuso, então Maggie suspirou, recordando: — Lembra quando eu quis viajar no meu aniversário de cinquenta anos?
  — Lembro! A gente viajou!
  — Para Denver! — Maggie alfinetou sarcástica e magoada. — Para um leilão de gado!
  — Eram vacas registradas, Maggie! Dá para rastrear a linhagem delas por dez gerações atrás, sabe como isso é raro? Vamos ter essa lembrança para sempre!
  — Por que todas as nossas lembranças envolvem vacas? A gente sempre faz o que você quer.
  — A gente vai realmente falar disso de novo? — Beau perguntou respeitoso, mas mais sério por prever um ponto sensível que os distanciava cada vez mais.
  — Você faz ideia do que eu gosto de fazer, Beau?
  — Pelo jeito não — ele ironizou.
  Maggie deu um risinho de escárnio descrente.
  — Eu não sei por que eu ainda acho que vai ser diferente. — Ela se levantou e caminhou pelo quarto com Beau a acompanhando com o olhar. — É por isso que não dá para a gente morar juntos!
  — Não moramos juntos porque você se mudou para cuidar do bar! — Beau repetiu aquela verdade que ele criou como hipótese em sua mente e repetia sempre como se não fosse a má convivência entre eles no cotidiano o real problema.
  — Você acha mesmo isso, né? — Maggie indagou de braços cruzados exatamente aquilo.
  — Só sei que quando começou a cuidar daquilo, quando você ia dormir eu estava acordando. E vice-versa. Você nunca estava presente!
  — Beau! — Maggie sentiu-se injustiçada com a fala dele. — Mesmo quando você estava presente, era sempre ausente de alguma forma, e isso foi bem antes do bar! Você se mata de trabalhar para salvar o rancho, mas não levanta um dedinho para salvar o nosso relacionamento.
  Beau abaixou a cabeça chateado e falou:
  — Você me conhecia quando casou comigo, sabia como eu era.
  — Não. Você não era essa pessoa quando me casei com você. Você me fazia surpresas… — Por um momento nostálgico ela até sorriu ao dizer: — Você até era romântico! Pelo menos você tentava ser.
  Beau tinha lágrimas sendo seguradas, uma mágoa no olhar e os sapos na garganta quando encarou Maggie. E cansado de ter que entrar em outra discussão que não mudaria os fatos, ele se levantou e disse:
  — É melhor irmos embora.
  — É sério? — Maggie não gostou, se sentiu ferida de novo e abriu os braços, sem alterar a voz, mas sendo incisiva o suficiente. — É assim que você reage a isso tudo? — Ela viu no olhar de Beau que ele não mudaria. — Hã… Quer saber? Eu vim aqui para me divertir e é isso o que eu vou fazer. Você faz o que você quiser.
  Ela caminhou até a taça de vinho branco que estava sobre a mesinha, de cortesia do hotel, enquanto Beau a observava em pé, mas com a postura de um derrotado.
  — Eu vou vestir o robe do hotel, tomar uma taça de vinho, ligar a hidromassagem e. você querendo ou não, vou me divertir!
  Entrou no banheiro batendo a porta e Beau suspirou caminhando lânguido, pesaroso, novamente para a janela, puxando a cortina e tentando abrir mais do que os 10 centímetros da janela. Sem conseguir após fazer força com os braços, ele comentou:
  — Agora eu entendi. Abre pouco para eu não me jogar daqui.
  Maggie saía do banheiro do hotel, com seu cabelo preso, a taça de vinho e o roupão, revigorada após a hidromassagem, mas levou um susto ao ver o quarto escurecido, a cama desfeita, e Beau deitado nela dentro do roupão do hotel também.
  — Uow! — ela exclamou e ele ironizou:
  — Surpresa!
  — O que você está fazendo?
  — Estou tentando — disse ele com um sorrisinho tímido, e ela sorriu de volta com a guarda mais baixa agora.
  — Obrigada. — Sentou-se na cama ao lado dele e comentou: — Seu roupão está do avesso.
  — É, eu sei. Imaginei que menos gente talvez usasse assim.
  Houve um silêncio breve entre eles, Maggie apertou o roupão no próprio corpo se aconchegando, e Beau foi sincero:
  — Olha, eu sei que não sou uma pessoa fácil de conviver Mags… Eu criei milhares de cabeça de gado, mas você criou os nossos filhos sem muita ajuda minha. — Ele a olhou e ela desviou o olhar para o outro lado, orgulhosa. — Você aguentou muita coisa e reclamou muito pouco, e eu jamais quis me aproveitar disso.
  Maggie então o olhou, e eles estavam tendo uma conversa franca e respeitosa, olho no olho.
  — Me desculpa — ele pediu e ela suspirou. — Fizemos do meu jeito por quarenta anos, então agora, vamos fazer do seu. Hoje à noite.
  — Tá bom. — Ela jogou a toalha. — Pode ser por conta do vinho, mas eu aceito. E agradeço também.
  Se aproximou dele entrelaçando seus braços e aninhando-se ao lado de Beau. O silêncio parecia selar aquele momento, até Beau o cortar, dizendo:
  — Chá com leite.
  — O quê?
  — Chá com leite. Você gosta disso. Também gosta de livros que tenha que ouvir e filmes que tenha que ler.  — Maggie começou a se sentir emotiva enquanto ele dava as respostas à pergunta que ela fizera no meio da discussão. — Também gosta da tranquilidade depois da primeira neve do ano.
  Aquela foi a frase que a matou. Não suportando encarar que o Beau com quem se casou ainda estava ali, ela se ergueu e se aproximou dele para um beijo que o homem — com toda a delicadeza ruidosa no ponto certo tinha para um momento de desejo — correspondeu.  

• T H E  •  R A N C H •

  Demi havia recebido a mensagem de Galo, e John retornava da cozinha com mais duas cervejas em mãos, uma para cada.
  — Seu pai decidiu mesmo dormir. Achei que ele só queria tomar um banho e voltaria — John comentou ao notar que Sam havia entrado há uma hora e não retornou.
  Deere entregou a cerveja dela, sentando-se no sofá de varanda e puxando as pernas de Demi, que estavam esticadas, para cima de seu colo de novo. Ambos estavam muito confortáveis.
  — Ele é assim mesmo, quando a bateria social acaba, se levanta e diz: “vou tomar uma ducha”, e nem sempre é realmente isso que ele vai fazer. Não se preocupe, sinal que ele confia em me deixar sozinha com você.
  — Eu notei quando te trouxe em casa na primeira noite e ele me perguntou se eu não iria subir, mas não acho que é confiança, talvez ele só esteja querendo te empurrar mesmo para alguém — John zombou.
  — Pelo menos ele soube escolher pra onde me jogar — Demi respondeu travessa e se levantou inclinando o corpo para cima de John, indo beijá-lo.
  John sorriu e levou a mão para a nuca da veterinária, entrelaçando os dedos nos cabelos dela e segurando de forma firme, enquanto o beijo se aprofundava e o sabor de suas línguas misturava-se em churrasco e álcool.
  — Hm… — Demi gemeu entre o beijo, espalmando o peito dele e aos poucos se separando. — Você tem a bateria social do meu pai, ou toparia se a gente levasse o churrasco para os Bennett?
  — Bennett? É tipo, prolongar essa resenha?
  — Sim, Galo me mandou uma mensagem. O que acha? Você ainda não conhece todo mundo na cidade, não é?
  — Bem, conheci aqueles que eu precisei me relacionar… — John comentou dando de ombros indiferente. — Você quer ir? Se for isso, eu vou sem problemas.
  — Beleza, vou pegar as vasilhas com as carnes. Pode tirar a costela que está na churrasqueira?
  — Eu ajeito aqui fora enquanto você ajeita lá dentro. — Velie informou e logo os dois estavam a caminho do rancho Bennett.
  Chegaram de carro, na picape de Velie. Os Bennett estavam brincando de acertar almofadas de milho nas caçapas. Galo foi quem notou a presença do casal primeiro, Abby e Kenny estavam na vez deles do arremesso, enquanto Colt, Nikki e Heather torciam para o casal errar.
  — Dementadora! — Galo abriu o sorrisão e foi até eles, esticando a mão para cumprimentar o parceiro da amiga. — Cara do algodão!
  — O nome dele é John, e você sabe, Galo! — ela já bronqueou, revirando os olhos. — Não liga pra ele, John. É o pior Bennett.
  — E aí, Galo. Obrigado pelo convite. Aqui está a costela que já estávamos assando e as vasilhas de carne que Demi mandou. — John levou na esportiva e o cumprimentou de volta entregando a sacola sustentável de mercado em sua mão com todos os itens.
  — Oh, obrigado! — Galo pegou e zombou de leve: — Sacolas sustentáveis? Sabemos quem foi o fazendeiro da região que traiu o movimento apoiando os hippies do Greenpeace! Brincadeira!
  John riu e Demi tentou chutar Galo, mas ele saiu apressado e pedindo:
  — Colt, apresenta o namorado da Demi para a galera!
  Demi não corrigiu, apenas olhou sacana para Galo e entrelaçou o braço a John. Colt fungou e se aproximou dos dois, sem graça, ao assuntar:
  — Namoro, é?
  — Ainda não é tão sério quanto eu vou fazer ser — John explicou para Colt estendendo a mão para ele, simpático. — Como vai Colt?
  — Ah, bem… Er… — Colt mordeu o lábio devolvendo o cumprimento, e então notou que Abby observava com muita atenção tudo aquilo. — Ah, então… Heather, Nikki e Kenny, não sei se conhecem a Demetria Peterson…
  — Quem não conhece? — Heather comentou animada se aproximando da veterinária e olhando admirada para o John. — Ela é a primeira mulher em Garrison a conseguir a atenção de ninguém menos que o cara dos algodões do estado!
  — Ah, então… Pelo visto, você não é tão desconhecido assim, John? — Demi zombou o encarando.
  — Jura? — E ele devolveu o sarcasmo, afinal, ele era um Deere, é lógico que certas pessoas iriam saber daquilo.
  — Espera… Você é mesmo o John Velie? — Nikki perguntou afobada, assim como Heather estava admirada.
  — Desculpa, eu acho que eu sou a única em Garrison que não conhece o senhor? — Abby comentou ao lado de Kenny abraçada ao namorado.
  — Ah, não, eu também não conheço nenhum de vocês.
  Colt arqueou a sobrancelha incomodado. Que comoção toda era aquela?
  — Senhor Velie, eu sou Kenny. — O hoteleiro aproximou-se orgulhoso. — Diretor no Marriott em Telluride!
  — Lá vai ele… — Colt sibilou para Galo.
  — Espera aí — Galo cortou a todos, mudando um pouco o foco do assunto: — Por que as gatinhas estão agindo como se você fosse uma celebridade, John? Seus algodões são mesmo tão macios assim?
  — Qual é! Não sabem quem é ele? — Nikki perguntou surpresa.
  Demetria olhou para John preocupada em se ele estaria incomodado, mas ele apenas puxou mais a veterinária em seus braços para a abraçar, como se ela fosse um escudo. Nikki abriu a boca em choque e começou a explicar:
  — Oh meu Deus! Ele é John Velie Deere! Herdeiro da indústria Deere! — Nikki virou-se para ele e Demi, respeitosa ao explicar: — Eu sei disso porque meu pai trabalhava nas fazendas que sua família comprou aqui na região, e se tornou o capataz nos dois primeiros anos lá.
  — Qual o nome do seu pai?
  — Paul Cox — Nikki respondeu.
  — Uau, que coincidência! — John comentou. — Não o vejo desde a ida dele no meu escritório pedir a aposentadoria… Ele ainda vive em Garrison?
  — Ah não, ele pegou toda a grana que ganhou trabalhando com vocês e desapareceu com a amante deixando minha mãe e eu para trás.
  — Ouch — John comentou sem graça trocando olhares constrangidos com Demi. — Sinto muito.
  — Tudo bem, eu já superei.
  Demi pigarreou a fim de disfarçar a descoberta, olhou para Colt que estava boquiaberto e a encarando como se ela o tivesse traído, e notou Galo sorrindo como se a partir de agora fosse lamber as bolas de John. Mas, foi Abby quem quebrou o clima:
  — John Deere? Sério? As pessoas em Garrison sabem disso? — Curiosa, encarava John fascinada também. Demetria a encarou como se fosse lhe dar um soco a qualquer momento.
  — Sabem, mas não é como se vocês precisassem ficar repetindo por aí — Demi cortou o assunto. — Tem cerveja lá dentro, não é, Galo?
  Galo concordou e Demi puxou John pela mão até a cozinha dos Bennett. Quando estavam lá, a sós, ela desculpava-se:
  — Ah, Velie… Desculpa! — Tocou o pescoço dele com as duas mãos. — Eu não achei que eles fossem te conhecer e dar tanta atenção pro seu nome e…
  — Ei, Demi, relaxa. Você sabe que não é segredo e eu não escondo, só… não fico dando carteirada pela cidade. Não se preocupe, eu não estou desconfortável. Não tanto quanto pode ser pra você.
  — Está falando das vadias mirins lá fora babando em você?
  — Foi ciúme, é? — Ele riu e puxou Demi para um beijo, que só foi interrompido por Colt entrando na cozinha.
  — Ah, nossa, foi mal! Podem continuar, eu só vim pegar uma cerveja, aliás… Demi, sabe onde fica os quartos, se quiser, pode subir.
  Apesar da brincadeira e tentar soar descontraído, Demetria conhecia Colt Bennett o suficiente para saber que ele estava sendo um “falso brincalhão”.
  — Não, obrigada, Colt. A gente vai pra minha cama mais tarde, por enquanto vamos lá fora beber e comer com o pessoal.
  Os três saíram de volta, e não demorou para John se enturmar com Kenny, Galo e as suas companhias. Demi observava ele jogando e rindo, quando Heather se aproximou dela ao dizer:
  — Olha, a minha mãe sempre fala muito bem do seu pai. Ela queria muito que fôssemos amigas, seu pai nos ajudou muito quando meu pai foi embora — Heather explicou. — Só que… Você já era adolescente e eu uma criancinha, então, não é como se fosse dar para você ser a minha amiga modelo.
  Demi olhou para a loira que lhe parecia ingênua e sincera e sorriu.
  — Ainda sou mais velha que você, mas posso ser sua amiga, Heather. Sua mãe é Mary Roth, não é?
  — Ela mesmo! — Heather sorriu e apontou para John. — Olha, vocês fazem um casal muito bonito e… uau… Um Deere.
  — Eu não me envolvi com ele por isso — Demi explicou sem se sentir ofendida. — Se você visse a lista de caras com quem fiquei antes dele, diria que finalmente o destino está me dando um refresco.
  — Jura? Eu também só fiquei com caras gostosos, mas… todos uns idiotas. Tirando o Colt.
  Demi arqueou a sobrancelha surpresa.
  — Espera… Você está ficando com o Colt? — Ela apontou discreta o Bennett que sibilava qualquer coisa com o irmão enquanto não tirava os olhos de John.
  — Tem pouco tempo, mas… dá para acreditar? Ele é o maior quarterback de Garrison!
  — É… E mais um nome para sua lista futura de frustrações — Demi comentou entredentes, disfarçando.
  — Ah, não, não, senhorita Peterson! Eu não tenho nenhuma ambição de ser alguma coisa dele, é só sexo mesmo!
  A sinceridade de Heather para Demi era não só louvável como invejável. Ela deveria ter pensado daquela forma na adolescência.
  — Vejo que você é esperta — Demi comentou e corrigiu: — E me chame apenas de Demi, ok? Não dá pra chegar na sua casa contando pra sua mãe que é amiga da “senhorita Peterson”, e depois… Isso me deixa muito mais velha do que você.
  — Tá legal! — Heather riu e foi chamada por Colt para tentar a sua vez no jogo.
  Abby pensou em se aproximar de Demi, puxar um assunto, mas… As duas se olharam e ficou nítido para a professora de História que não havia motivo algum para aquilo.
  — Vamos lá, Heather, nós dois contra Abby e Kenny! — Colt explicou quando ela se aproximou. — Aliás, Kenny, gostei do corte de cabelo!
  — Valeu, Colt! — E olhando para a namorada, o hoteleiro mencionou: — Ele notou.
  — Vai lá, amor, se vencermos essa, mais tarde você vence — Abby desconversou e bateu na bunda do namorado.
  Enquanto Kenny se aproximou de Heather para competir com ela, John, Demi, Galo e Nikki conversavam, e Abby se aproximou de Colt um pouco mais afastado dos jogadores da vez.
  — Então, namorando uma garota de vinte anos? — Abby repreendeu Colt.
  — Ei, calma… não é namoro… A gente está se curtindo.
  — Ah, sim, claro!
  — Olha, eu acho a Heather bem interessante — Colt explicou provocando Abby por sentir um tom de ciúme na voz dela, ao passo que defendia a sua ficante.
  — Ah sim, ela é! — Abby ironizou. — Li o trabalho escolar dela sobre como a escravidão era “tipo assim, um porre”.
  — Bem, e era mesmo. Espero que tenha dado pelo menos um oito para ela — Colt provocou e então, sorrindo sacana, desviou os olhos para Demi e John conversando com Galo, muito abraçadinhos.
  — E bem, a Demi… Quem diria… Discreta, mas fatal. — O comentário de Abby não despertou uma boa percepção em Colt.
  Além de notar que aquela era Abby bêbada começando a agir de um jeito que ela desaprovava, assim como desaprovou quando era Colt que estava sendo maldoso com Kenny, também notou que havia uma rivalidade que Abby estava colocando sobre ela e Demetria desde cedo.
  — Demi não é assim.
  — Oh, foi mal. Eu esqueci que ela é a sua — fez aspas com a mão ao mencionar — “melhor amiga”, e Colt Bennett não deixa ninguém além dele e Galo zoarem a Peterson!
  — Abby, o que tá pegando? — Colt estreitou o olhar estranhando. — Por que sempre menciona a Demi como se estivesse atacando ela? O que ela fez pra você? Você está agindo com a Heather e a Demi como eu agi com o Kenny. Não havia reclamado disso comigo?
  — Foi mal… — Abby mordeu o lábio se desculpando. — Eu só…
  Heather acertou a caçapa naquele momento, fazendo os dois prestarem atenção no jogo, e Colt gritou desconversando:
  — Boa, Heather!
  — Bem… — Abby perguntou enquanto esperavam a próxima jogada — você e a Heather tem muito em comum?
  — Sim…. Gostamos de pizza, moramos em Garrison e odiamos a escravidão.
  Colt zombou e eles riram, sendo interrompidos pelo erro de Kenny que fez Abby gritar com ele:
  — Que droga, Kenny, se concentra!
  — Escuta, Abby… — Colt chamou. — Por que está se importando tanto com a Heather e eu?
  — Ah, não é isso, só que… Eu achei que agora você estivesse procurando um namoro sério, mesmo tendo quase o dobro da idade dela.
  — Ah, nossa… — Colt virou um gole da sua bebida e notou a diferença de idade grande entre ele e Heather, mas não se importando muito, resolveu ser sarcástico para Abby: — Tem razão, isso é ruim, muito ruim. Foder uma gostosa quase vinte anos mais nova que eu… Uau, isso é péssimo.
  — Você é inacreditável, Colt Bennett. E um cretino. — Abby riu, desistindo de apelar para qualquer tipo de moral que fosse possível.
  Kenny errou novamente e ela de novo se estressou com ele:
  — Porra, mas que droga, Kenny! Vê se acerta o buraco!
  — Desculpa, amor, mas… não acha que é melhor trocar agora o álcool por água?
  — E você não acha que devia me chupar?
  O comentário fez com que Colt e Heather olhassem para o casal de um jeito constrangido, não menos do que o próprio Kenny. Demi, que apesar de atenta às bobeiras de Galo e Nikki — e nossa, como eles eram parecidos — também havia notado a tensão sobre o círculo onde Abby estava, decidiu ficar observando o que acontecia de longe.
  — Aí, por que está tão interessada na minha relação com a Heather? — Colt perguntou de novo, queria ter certeza de que não era ciúme o que ele estava vendo em Abby.
  — Isso não é uma relação, é uma brincadeira.
  — Você não sabe, ela pode ser a mulher certa!
  — Qual o sobrenome dela, Colt?
  — Ué… — Ele não sabia e saiu pela tangente: — Um dia pode ser Bennett.
  O que viria a ser uma discussão, não prosseguiu, porque de repente uma viatura da polícia invadiu o rancho. Demi riu quando Galo se levantou desesperado dizendo a todos que era para dizer que Nikki tinha 21 anos e não 18, em Garrison, a maioridade da mulher era aos 21.
  — Quem chamou a polícia? — John falou baixinho rindo junto com Demi pela reação de Galo.
  — Eu — Demetria esclareceu.
  — Por quê? — John não entendia do que Demi estava rindo.
  — Billy Litrão! — Colt suspirou aliviado gritando e indo abraçar quando viu que era o amigo policial.
  — Ele é amigo, e prenderia o Galo se eu pedisse — Demi explicou para John rindo bastante e acenando para o policial que foi logo até ela, cumprimentar a veterinária e ao seu acompanhante.
  Nikki tinha uma queda por policiais, e Heather podia jurar que Galo havia acabado de perder sua companhia pra noite.  Depois de mais um tempo entre os amigos conversando, bebendo e jogando jogos rurais, Nikki já estava bem mais bêbada do que o comum, e perguntou:
  — Quem quer tomar uma dose da minha boca?!
  Demi e John a encararam e olharam entre si, segurando um risinho jocoso. “Jovens”, eles pensaram juntos, mas sequer disseram nada. E só de se olharem entendiam aquilo.
  — Eu quero! — Galo e Billy disseram ao mesmo tempo.
  Todo mundo os encarava como se não pudessem acreditar em dois marmanjos velhos, tarados pela garota de 18.
  — Vocês são nojentos. — Demi apontou para eles, negando com a cabeça.
  — Ela só tem 18, caras — John comentou rindo.
  — Qual o problema? — Galo rebateu sacana. — É só uma dose da boca dela, o Colt tá dormindo com a Heather que tem idade para ser filha dele!
  — Hey! Não exagera! Ela tem 21! — Colt defendeu-se do irmão.
  — Ah, mas… A gente não liga de dormir com caras mais velhos, até preferimos, não é, Nikki? — Heather, ingênua, comentou.
  — Não é sobre o que você prefere, bonitinha! — Abby, que também estava bem bêbada, comentou para Heather em tom de ciúme. — É sobre o que é o certo! Além disso, deveriam deixar os caras mais velhos para as mulheres mais experientes e gostosas como nós, não é, Demetria!?
  Demi revirou os olhos e suspirou antes de responder, o menos antipática o possível:
  — Fale por você, eu estou muito bem acompanhada. — E sentada no colo de John, ela só piscou para ele e lhe deu um selinho.
  Colt revirou os olhos e então cortou Abby:
  — Para de implicar com as meninas, Abby, e além disso, o Kenny está aqui! Você não precisa de mais um cara mais velho!
  — Abby, amor… — Kenny tocou o ombro dela, cuidadosamente preocupado. — Podemos parar um pouco de beber antes de irmos, não é?
  — Ah meu Deus, a senhora Phillips não está bem, não é? — Heather disse verdadeiramente preocupada.
  — Eu estou ótima! — Apontou Heather com raiva e voltou-se para Galo e Billy. — E então, quem vai terminar a noite com a garotinha Nikki?
  — Abby! Vem comigo… — Kenny guiou-a para dentro para tomar uma água e lavar o rosto.
  — Uuuuuh… — Abby ironizou — Ele quer um boquetinho!
  Todos riram, exceto Kenny que estava envergonhado e Colt que estava mais para preocupado com a saúde de Abby. Demi olhou para Colt e notou aquilo, então antes que ele fosse flagrado pela melhor amiga, ela voltou a se aninhar em um abraço com John. Mas ele também estava incomodado com aquelas demonstrações de afeto entre eles, só não sabia por quê.
  — Billy, qual é? Eu que trouxe a Nikki aqui! — Galo e o policial entraram em uma discussão.
  — E eu estou armado, e daí?
  — Não está não! Você colocou a cerveja no coldre no lugar da sua arma!
  — É maneiro, né? — Billy riu e então caiu em si, indo até seu carro. — Espera aí, cadê minha arma?
  — Aí, ninguém vai tentar não? — Nikki disse embolado com um copinho entre os dentes e a cabeça para trás segurando o shot.
  — Ah! Que memórias! — Galo falou se aproximando dela, um tanto satisfeito. — Foi por uma dessas que eu fugi da polícia.
  Kenny e Abby retornaram para fora, ela ainda bêbada, claro. Todos viram Galo virando o shot da boca de Nikki para a sua, e saindo comemorando por não derramar nada. Depois que engolia a bebida, era comum da brincadeira os parceiros darem um selinho.
  Heather pegou um copinho também e perguntou para Abby quando ela se aproximou com Kenny:
  — Senhora Philipps quer tomar uma dose da minha boca?
  Demi soltou uma gargalhada.
  — Ah, Heather…
  — O que foi? — A loira mais nova não havia entendido.
  — Fala sério Heather? — Abby perguntou se sentindo ofendida e provocada.
  — Sim…
  Colt olhou para Kenny preocupado.
  — Ah, tudo bem, amor, você pode, eu não me importo.
  — Eu respeito você, Kenny… — Colt tentou brincar passando a garrafa com a bebida que ele segurava para ele, mas Abby respondeu grosseira:
  — Até parece, Kenny! Eu não vou beijar a boca de uma menina de 22 anos! Deixo essa para o Colt!
  Heather sentiu-se constrangida, parecia que ela era o problema. John suspirou e Demi levantou do colo dele.
  — Não precisava disso… Mas é a Abby, nada me surpreende. Vamos, John, bora olhar as carnes na churrasqueira e pegar cervejas lá dentro. Não quero assistir a novela que vai começar agora.
  — É impressão minha ou a Abby tá com ciúme do Colt? — John falou baixinho para Demi enquanto era arrastado para dentro.
  Enquanto eles saíam, Colt abraçava Heather um tanto protetor e mudou completamente o tom e a expressão com Abby.
  — Quer saber? Eu acho que não precisa mesmo de mais uma dose. — Colt pegou Heather pelo ombro e deu as costas para Abby e Kenny, virando-se aos outros. — Ei, quem está a fim de um jogo de cerveja amigável agora? Que tal beer pong!?
  Demi e John voltavam de dentro do casarão com suas cervejas, e Velie falou para ela:
  — E aí, Demi, vamos jogar? Eu acho que precisamos animar melhor essa garotada.
  — Eu topo, mas… — Demi riu. — Não tem garotada, John, só Nikki e Heather que acabaram de sair do colégio.
  — Aposto como você nem se lembra mais como joga isso, Demi! — Galo provocou.
  — John e eu, contra Heather e Colt, e você e a Nikki?
  — Quem perder tem que fazer o que o vencedor mandar!
  John e Demi se encararam cúmplices e aceitaram.
  Em um cantinho, Kenny colocou-se na frente de Abby, que estava emburrada e estranhando as reações da namorada ele perguntou:
  — Amor, você tá bem?
  — Tô, eu tô bem… — ela tentou disfarçar. — Quer dizer, preciso beber uma dose da boca de uma garota para me divertir?
  — Não, não precisa. Mas ninguém a julgaria aqui se fizesse, é só isso.
  Abby olhou para Kenny como se fosse absurdo o que ele dizia.
  Colt e Galo estavam dentro de casa preparando as coisas pro jogo, mas o Bennett mais novo não conseguia se segurar, precisava desabafar com o irmão:
  — Você viu a Abby?
  — A única coisa que eu vi foi a calcinha da Nikki à mostra.
  — É sério, Galo, todo o tempo a Abby fica falando merda para ou sobre a Heather! Só que lá no bar ela disse que eu tenho que respeitar a relação dela com o Kenny, e olha que o cara põe a camiseta pra dentro da calça! Ele deve usar meia com chinelo! E se colocar uma pochete ele vira um turista alemão!
  Galo observava o desabafo do irmão enquanto servia seu copo e pegava mais copinhos descartáveis para o jogo.
  — Para começar, não tem problema colocar a camiseta pra dentro da calça, é elegante — Galo defendeu, até porque, ele mesmo se vestia assim. — E mulher é assim mesmo, cara! Elas ficam com ciúme quando te veem com outra! Que nem a Hilary da sorveteria… Ela nem ligava pra mim, até me pegar com a Wendy do posto de gasolina!
  — Tá legal, tá… — Colt encarava o irmão com a expressão de irritação no rosto ainda, mas tentando ver onde aquela história de Galo ia dar. — E o que você fez? Largou a Wendy pra ficar com a Hilary?
  — Claro que não, Colt! Fiz um ménage e tomei um sundae depois!
  — Que bosta de conselho é esse Galo? — Colt reclamou. — Eu não vou fazer um ménage com a Abby e a Heather!
  — Pensando assim, não vai mesmo!
  — Você não tá ajudando em nada!
  — Olha cara… Tem uma gata lá fora que quer dar pra você, e tá se preocupando com a que tem namorado? — Galo falou de um jeito tão óbvio que até mesmo John, que entrou na cozinha para ver se precisavam de ajuda naquele momento, comentou:
  — Uau, isso é mesmo um desperdício de energia.
  Os dois olharam para trás, e Colt não ficou muito animado de vê-lo ali.
  — Foi mal, não queria interromper. Demi pediu pra eu vir ver se precisavam de ajuda porque, segundo ela, colocar as bebidas na mão do Galo não é confiável.
  — Velie… — Galo riu, dizendo de forma amigável. — Sua namoradinha parece inofensiva agora, mas cuidado, de todas as mulheres lá fora, Demetria Peterson pode ser a mais perigosa!
  John riu daquilo se aproximando mais e encarando Galo, ele comentou baixinho:
  — Eu gosto de correr riscos.
  — Ouch! — Galo exclamou e deu um soquinho no braço dele. — Ah é… Você é um Deere! Me esqueci que passar com tudo com colheitadeiras gigantes é o seu forte!
  John não evitou a gargalhada, mas Colt bufou.
  — Olha… — Ele mordeu o lábio curioso e, na verdade, despeitado. — Você é mesmo um Deere das indústrias Deere?
  — É, eu sou.
  — E como chegou até a Demi?
  — Ah, bom… foi o Sam. Nós nos conhecemos e nos tornamos amigos e… Você estava no bar aquele dia que nos conhecemos, não é? — John comentou apertando os olhos. — Quando ela me apresentou pro seu pai contando que eu ajudei o Sam a salvar o rancho.
  — Ele chama o velho Peterson de “Sam” — Galo comentou com o irmão, abobalhado. — Isso é praticamente um casamento. Mas escuta aqui, senhor John Velie Deere… — Galo tocou o ombro dele. — Eu posso implicar com a Dementadora o quanto eu quiser, só que, se você fizer ela sofrer… Eu atiro muito melhor do que aquele cego do pai dela, ok?
  — É, digo o mesmo. A Demi é como uma irmã para nós! — Colt reforçou.
  — Uma irmã pra mim, pra você… Melhor não ficar repetindo isso, Colt — Galo zombou.
  Os Bennett encararam um repreendendo o outro com os olhares, e John entendeu o que Galo quis dizer.
  — Ah tudo bem, relaxa. Eu já sabia que o Colt e a Demi se pegavam na adolescência — Velie respondeu, pegando as garrafas e os copos. — Não me intimida, é coisa de criança.
  — Uau! — Galo deu uma gargalhada. — Como eu disse… Uma colheitadeira!
  — Bom, eu vou levar as bebidas e as coisas. Vocês estavam tendo uma conversa séria.
  O agrônomo saiu cordialmente, deixando os irmãos a sós de novo.
  — Não gosto desse cara — Colt sussurrou.
  — Eu gosto dele! Além disso, se minha amiga está namorando um herdeiro desse porte, eu que não seria burro de ir contra!
  — Você é um mercenário, Galo! — Colt reclamou se sentindo traído. — Deveria ficar do lado do seu irmão!
  — Lado de quê? Você e a Demi são só… Coisa de criança. — E em seguida ele gargalhou observando o caçula ficar puto e sem argumentos. — Olha aqui, Colt, você tem que se decidir! Vai ficar de bode por causa da sua ex-namorada ou por causa da Demi que tirou o seu cabaço?
  — Nenhuma das coisas! Eu não estou de bode por causa de ninguém, só não é justo a Abby tratar a Heather do jeito que ela me repreendeu por tratar o Kenny!
  — Tá, tá… Vamos logo! Antes que a Heather desista de dar pra você também!

• T H E  •  R A N C H •

  Demi e John venceram o jogo e estavam comemorando e zombando da cara dos outros.
  — Se eu não me engano, o vencedor tinha direito a um pedido, não é, Demi? — Velie falou puxando-a pela cintura.
  — Tínhamos sim! E se você não discordar, eu tenho a prenda perfeita! — Demi olhou para os dois irmãos perdedores.
  — Você quem manda.
  — Droga, Velie! Eu te disse que ela é perigosa, como vai nos deixar nas mãos dela?! — Galo reclamou. — Onde está sua lealdade masculina?
  — Pelo visto, ele tem mais lealdade à língua da Demi. — Colt deu de ombros.
  — E você não teria? No fim da noite, é com ela que eu quero ficar e não com dois marmanjos barbados! — John rebateu.
  Demi adorou ouvir aquilo, ainda mais sendo dito para quem foi.
  — Ele entende, John. O Colt não pensaria duas vezes em largar uma amizade por uma mulher. É o homem mais desleal que eu conheço.
  Apesar de não querer ofender, a frase pesou. Assim como o silêncio que veio depois dela entre os olhares de Colt e Demi. E Galo cortou o silêncio com algo ainda pior que havia se atentado:
  — Você dorme com ela na casa do velho?
  — Ah… — John encarou Demi sem saber o que dizer, porque na verdade, ele ainda não tinha dado aquele passo com ela. Era respeitoso.
  — Meu pai até faz o café pra ele, Galo. — Demetria sorriu pegando a mão de John. — Vamos lá, eu quero isentar Heather e Nikki desse mico.
  — Ai, obrigada, senhorita Peterson! — Nikki falou batendo palmas e a amiga dela corrigiu:
  — Ela não gosta que a chamem assim, é apenas Demi, não é?
  — Isso aí, Heather.
  — Viraram amigas? — Abby comentou baixinho encarando Demi descrente. — Jura? Ela sim, mas eu não?
  Abby sorriu de lado, já estava sonolenta na verdade, e entrou na casa.
  — Ela….
  — Tudo bem, Kenny, a gente sabe. — Demi suspirou. — Colt, Galo, vocês terão que correr por 8 km na cidade amanhã, pelados, sem nada pra protegê-los e gritando: “Demetria Peterson é a melhor e mais gostosa, e nós somos seus capachos!”.
  — Eu concordo até a parte do gostosa — Colt comentou com raiva.
  — Tudo bem. — Galo deu de ombros. — Se você estivesse aqui todos esses anos, saberia que a cidade de Garrison já me viu correr pelado pra fugir de maridos muitas vezes.
  Eles todos gargalharam e então Demi suspirou, puxando John em um abraço e dizendo:
  — Vamos embora, temos que comemorar nossa vitória direito.
  John sorriu satisfeito, mas não sabia se ela realmente falava sério. Então não criou muitas expectativas, só abraçou a cintura dela com mais força e se despediu antes de guiarem-se para a caminhonete:
  — Valeu, pessoal, podemos repetir mais vezes.
  — Isso é bizarro, mas daria até um título de filme pornô: — Galo zombou — “A Dementadora e a Colheitadeira, noite de sexo quente no milharal”.
  — Cala essa boca, Galo! — Demi voltou e chutou o amigo.
  — Pelo menos eu estou saindo com uma garota essa noite, Galo — John revidou rindo ao notar que Billy Litrão saía sem se despedir e levando Nikki com ele na viatura.
  — Filho da mãe! — Galo gritou.
  Demetria acenou para Colt que acenou silencioso de volta a eles, se despedindo. Kenny dormia na poltrona de balanço da varanda. Abby ainda estava lá dentro da casa, e Galo, emputecido, foi limpar a bagunça. Colt e Heather ficaram sentados nos degraus da varanda, bebendo e meio abraçados.
  — Sabe… A Demi é muito mais legal do que eu pensava.
  — É, ela é incrível… — Colt concordou.
  — E uau, ela é muito linda! — Heather contou: — Eu só tinha visto ela algumas vezes por acaso na infância, e ela sempre foi uma adolescente bonita, mas quando vi ela retornando a Garrison… Ela me passa uma impressão de mulher poderosa, não é? E caramba! Ela fisgou “o cara”! Eles formam um casal tão bonito que dá até tesão vê-los juntos, não é?
  Colt suspirou com a admiração empolgada de Heather sobre Peterson & Velie.
  — É, não sei não. Ainda não sei se ele é o melhor partido pra ela — comentou, escondendo o despeito.
  — Ah, qual é, Colt — Heather zombou. — Se ele não for o melhor partido da cidade, então não tem mais ninguém. Sem ofensas…
  — Não ofendeu. — Ele riu, beijando o rosto dela. — Quer mais cerveja?
  — Eu nunca digo não.
  — Ok… — O Bennett sorriu maldoso com a resposta ambígua dela. — Vou buscar e… Pensar em mais algumas perguntas pra você.
  Saiu em direção à cozinha do rancho, no meio do caminho, Kenny, que havia acordado com a barulheira de Galo juntando tudo perto dele, foi até Colt amigavelmente.
  — Aí, Colt, eu só queria agradecer.
  Colt olhava para Kenny meio desconfiado.
  — Agradecer pelo quê?
  — Por ter nos convidado. Sabe… Podia ter sido constrangedor entre mim, você e a Abby, mas você levou numa boa…
  Naquele momento, Colt sentiu-se culpado por ser escroto com Kenny e pensar o quanto ele era meio “bundão”. Sorriu pequeno, e precisou admitir:
  — Você é um cara legal, Kenny…
  — Você também é um cara legal, Colt — Kenny devolveu a gentileza.
  Colt e ele se olharam com respeito e o Bennett entrou na cozinha. Viu o braço de Abby jogado pelo braço do sofá, a cabeça apoiada e não sabia dizer se ela estava dormindo ou não, mas gritou de trás da bancada:
  — Oi! Abby!? — E ela acordou levantando a cabeça. — Você tá legal?
  — Tô… — Ela se ajeitou melhor no sofá. — Eu só precisava de um tempo… Por que você tem duas TVS? — Ela apontou a TV da sala.
  Colt riu se aproximando.
  — A gente tem duas, mas… Naquela parede só tem uma. E só pra avisar. — Ele riu da bebedeira dela, apontando o empalhado ao lado. — Não tem dois alces também.
  — Rena, não alce! Aquilo ali é uma cabeça de rena.
  — Cara, até bêbada você é mais inteligente do que eu — Colt falou risonho parado ao lado do sofá, encostado na poltrona da sala.
  — E mais inteligente que sua namorada!
  Abby falou rindo e se levantou rapidamente para atacar o copo de uísque que ela havia deixado na mesa de centro. Foi pegar e derrubou um pouco na mesa, mas Colt se apressou intervindo e tirando o copo da mão dela.
  — Ei, ei, calma! — Ele tirou o copo da mão dela, sentando-se no sofá ao lado da moça. — Talvez seja melhor evitar isso.
  — Talvez você tenha razão agora — Abby comentou.
  — Tá bem, fala. Abby, qual o seu problema com a Heather? — Colt finalmente indagou percebendo que ela ainda estava atacando a garota.
  — Colt! Ela é uma criança!
  — Ok, Abby, já entendemos que você acha que ela é uma criança. — Riu. — Mas você falou para eu seguir em frente, é o que eu estou fazendo. E parece que você não gostou, então quero que me diga, quem nessa cidade você aprova para mim?
  — Não, não vou dizer com quem você deve namorar… — Abby negou ciente, em sua pouca sobriedade, que aquilo era absurdo.
  — Ah! Então vai dizer só com quem eu não posso? — Colt mencionou de um jeito sarcástico, tentando não soar rude. E ela olhou para ele, sentindo-se ridícula quando ele continuou apontando lá fora. — É sério, tem alguém que você aprove para eu namorar ou só quer me ver triste e sozinho? 
  — Eu não quero isso! — ela falou magoada. — Não! Eu só… — Abby suspirou e esfregou as mãos e disse como se fosse o certo: — Você merece coisa melhor.
  E Colt a encarava com um misto de sentimentos naquela hora. Não só sentimentos por ela, mas também em pensar o que poderia ser considerado uma companheira melhor para ele. E sem pensar duas vezes ele confessou:
  — Acontece que o melhor não está disponível.
  Abby ficou o encarando, um tanto em dúvida. E sem pensar muito, se aproximou para tentar beijá-lo, e dessa vez foi Colt quem evitou. Ele segurou os ombros dela a impedindo.
  — Ô-ô! — Afastou o corpo de Abby de perto do seu e se levantou imediatamente do sofá. — Vou pegar água para você.
  — Tá bom… — Abby comentou com a cabeça baixa envergonhada e ele quis esclarecer:
  — Olha só, eu quero te beijar sim, tá? Só Deus sabe como eu quero! — falou indo à cozinha. — Mas é que você… Está bêbada, e tem namorado! E o Kenny é um cara legal! Nossa… Ele é melhor do que eu, aliás… Mesmo com a camisa pra dentro! Olha, você me pediu pra eu ser maduro e eu vou ser!
  Colt falava tudo aquilo e não notou que Abby havia voltado a se deitar sonolenta. Suspirou ao perceber que ela não o escutava, abaixou-se perto dela deixando a garrafa de água. Depois pegou uma manta do sofá e concluiu seu pensamento enquanto a cobria:
  — Se for pra rolar… Abby, não quero que se arrependa.
  Ele suspirou e ela dormia. Colt olhou em volta e viu uma espécie de jarro de planta vazio, algo decorativo, talvez de sua mãe, no canto da casa. Foi até lá pegando-o para servir de balde e deixando perto de Abby. Ah, sim, ele tinha experiência naquilo!
  — Demetria… — Abby sibilou baixinho.
  — O quê? — Colt abaixou-se para ouvir melhor. — O que você está dizendo, Abby?
  — Se não eu… Demetria…
  Colt entendeu a resposta, mas não compreendia se ela estava respondendo à pergunta irônica dele. Mais uma vez ele levantou com a mão na cintura, e mordeu os lábios ao mencionar baixo:
  — Como eu disse… O melhor não está disponível.
  Saindo da sala, Colt foi até Kenny dizendo que Abby dormiu, e o namorado então pegou as chaves do carro dela, e perguntou:
  — Você e Heather vieram de carona com a gente, mas… A Heather vai ficar, não é?
  — Ah, ela vai — Galo respondeu chateado. — E eu vou ter que escutar tudo batendo uma no meu quarto porque a Demi teve a péssima ideia de chamar o Billy essa noite!
  — Sinto muito, Galo… — Kenny riu.
  Galo foi dormir, despedindo-se de Heather, Colt e Kenny, que foi buscar Abby no colo para colocar ela no carro.
  E assim, Colt e Heather ficaram sozinhos.
  — A Senhorita Phillips não sabe mesmo beber — Heather comentou rindo e então indagou curiosa ao Colt: — É impressão minha ou ela estava com ciúme?
  — Ah, não! De onde tirou isso?
  — Bem, Colt, vocês foram namorados no colegial e ela ficou me atacando a noite toda. Fora que deu pra notar que ela e a Demi também não são muito amigas… Você também namorou a Demi? — Heather fez a última pergunta animada.
  — Ah, não… Não foi exatamente um namoro…
  — Uau… Você era mesmo popular. Acho que elas são os melhores partidos da cidade… — Heather deu de ombros. — Como você foi burro, Colt!
  — Ei, não deveria falar assim! Você não acha que se desvaloriza desse jeito?
  — Não, eu tenho noção! Eu sei que eu só andei com os caras mais fracassados e sou gostosa. Mas se não arrumar um cara rico, vou acabar solteira como a minha mãe… Os caras não me levam muito a sério, mas foda-se. Eu só quero me divertir.
  — Heather…
  — Sério, Colt. Relaxa! — ela falou rindo. — Vamos foder! Não deve ter sido fácil ver que você perdeu as duas, e para uns caras bem mais sucedidos que você!
  Colt ficou chocado com o que a garota disse e ela o deixou na varanda, desfilando para dentro com um sorriso safado no rosto.
  — Você vai me pagar por isso, Heather! — Colt zombou travesso, mas no fundo, sabia que ela tinha razão quanto a ele ter perdido as duas mulheres que foram importantes na sua vida, mesmo que para ele, Demi nunca tivesse sido uma opção.

CONTINUA...



Comentários