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Ideia #001

Doada por Millena Borges

// A Ideia

Você acorda pressa em um hotel. Mas como? Você pode jurar dormir em casa noite passada, e você estava sóbria até demais. Você não está sozinha, e deve fazer de tudo para se manter viva. Mas alguém irá te ajudar. Sempre tem uma luz no fim do túnel, e nesse caso, a luz é alguém bem interessante…


// Sugestões

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// Notas

Foi inspirada no Jogo Hotel 626, mas não precisa ter os mesmos acontecimentos…




The Last Hotel Room

Escrito por Stelah

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Introdução

  Tinha um estranho costume de levantar da cama para beber água. Fui lentamente em direção a porta, e ainda com sono, tentei abri-la sem sucesso.
  Finalmente minhas vistas clarearam e o sono foi desaparecendo, só então percebi que havia algo de errado, aquele não era o meu quarto.
  Sentei-me sobre a cama, ainda confusa, e olhei em volta, tentando reconhecer o lugar:
  - Impossível! - Pensei alto.
  Sem nenhum cara nu sobre a cama, ou garrafas e roupas espalhadas pelo chão. Eu estava sóbria, o que eliminava todas as minhas hipóteses.
  A minha esquerda uma janela, talvez a vista do lado de fora pudesse me fazer lembrar de algo, ou ao menos me localizar. Mas ela estava trancada.
  De repente as luzes se apagaram, e a escuridão tomou conta do quarto. Alguns segundos depois, um flash surgiu da parede, a TV havia sido ligada.
  - Olá, . - Uma voz masculina vinha da Tv.
  - Quem é você? - Gritei.
  - Você quer realmente saber? - Ele usou um tom de sarcasmo.
  - Não, estou perguntando só pra passar o tempo. - Virei os olhos - Você deve ser um fã psicopata de jogos mortais!
  - Olha garota, não me olhe assim... Opss, você não pode me ver. - Ele soltou uma gargalhada particularmente assustadora. Ele tinha razão, tudo que eu podia ver era uma foto ridícula de um anjo negro (?).
  - Onde eu estou? Como vim parar aqui? - Rodeando o quarto, procurando câmeras.
  - Você está num quarto de hotel, e isso é tudo que precisa saber por enquanto. - Ele disse friamente.
  - Se você quer me matar, dá pra fazer isso logo? Porque eu já estou entediada...
  - Por que eu mataria uma garota linda como você? Fique tranqüila meu amor, eu prometo tirar-lhe todo esse tédio. - A voz sensual finalizou a transmissão.
  Quem seria o cara misterioso por trás de tudo isso? A curiosidade ia me matar antes dele, isso era certeza.

***

  Algumas horas se passaram, até que ele voltou a me chamar:
  - Hey, ! Será que podemos conversar?
  - Eu acho que não tenho outra opção.
  - És uma garota esperta.
  - Sabe cara, mudei de opinião sobre você. - Agora eu encarava a tela da Tv como se o sequestrador estivesse à minha frente.
  - Hum... Diga-me? - Ele pareceu curioso.
  - Você não quer me matar, mas me acha bonita... Com certeza você é só mais um daqueles tarados...
  - Wow, provando mais uma vez que é esperta. - Disse entre risadas.
  - Por favor, me diga que você não é mais um daqueles velhos asquerosos ou adolescentes na primavera. Vai ser menos pior se você for razoavelmente bonito.
  - Quer saber sobre mim, certo? Bem, você conseguiu me convencer. - Ele mudou o tom de voz. - Meu nome é , mas pode me chamar de . Tenho anos, cabelos , olhos ... Isso é atraente pra você?
  - É o suficiente para me deixar excitada.
  - Está com fome?
  - Depende do que vou ter que comer...
  - Bem, ainda não é hora de gratinado! Mas se quiser...
  - Esse é o prato que eu definitivamente não quero.
  - Tudo bem, vou te levar algo decente. - Interrompeu a chamada novamente.

***

  Minutos depois as luzes se apagaram, e assim que a luz voltou, encontrei um bilhete: "Querida, seu lanchinho está no compartimento ao lado da porta. Mas se pensou que seria assim tão fácil, se enganou. Para abrir o compartimento terá de pegar a chave que está... Opss, me esqueci onde guardei! Boa sorte.”
  - Muito bem humorado você, hein? Espero que essa droga de comida não esteja envenenada! - Eu disse procurando por câmeras.
  Revirei o quarto todo, mas não encontrei as chaves. Foi então que na tela da TV uma mensagem surgiu: “Vamos tornar isso mais divertido?”
  - Tá legal, ... O que você quer agora?
  A TV imediatamente ligou:
  - Sabe, esse negócio de procurar chave é meio infantil. Eu sabia que não iria achar graça nisso, então não escondi as chaves.
  - Engraçadinho você, hein?
  - Calma, a brincadeira ainda nem começou. Que tal se fizermos uma troca de favores? - falou em tom de malícia.
  - Isso depende...
  - Só quero ver como você é debaixo dessas roupas de grife.
  - Eu não vou tirar a roupa, não insista!
  - Okay,então você vai ficar alguns dias sem comer.
  - , eu posso ficar de roupas íntimas, está bom pra você?
  - Qual é, ? Eu já te vi de roupas íntimas quando te trouxe pra cá. Devia me agradecer por não ter feito nada com você! - Ele exclamou num tom de revolta.
  - Então você já viu o suficiente!
  - Depois que você ficar nua a gente conversa sobre limites, ok? - Deu uma pausa. - Acho que ainda não notou que sou do tipo que não se contenta com pouco... Nada vai saciar a minha sede por prazer.
  - Vai pro inferno! - Fazendo um gesto obsceno.
  - Não seja má educada! - Foi a última coisa que ele disse.

1º Capítulo: Um pouco de diversão

   tinha inteligentemente posicionado um relógio na parede do quarto. O barulho do mesmo me deixava ainda mais aflita, o tempo demorava a passar. Ele me chamou novamente:
  - !?
  - Você vai ter que esperar um pouco mais pra me fazer mudar de idéia, Sr. . Aliás, como você entrou na minha casa?
  - Vejo que está começando a ligar os pontos...
  - Eu me lembro de ter me deitado na cama, e de ter tido bons sonhos. Mas diga-me, nós nos conhecemos?
  - Não seja apressada querida, logo nós chegamos nesta parte.
  A posição dele diante da minha hipótese fez afirmar que ele me raptou depois que dormi. O que também confirmava o fato dele ter me visto de roupas íntimas, já que eu sempre me deitava assim.
  - Olha, eu sou um cara bonzinho, vou deixar você comer algo.
  - Eu já disse que não vou me despir!
  - Você não vai precisar fazer nada em troca, eu só não quero que você morra de fome.
  - Obrigada .
  - Você fica tão mais sexy quando submissa.
  - Eu não sou submissa a você!
  - Tudo bem, Sra.nervosinha...
  As luzes se apagaram, era o escuro que ele usava pra agir. Quando a luz voltou, o compartimento se abriu e só então pude matar a fome.
  Então um gosto estranho invadiu minha boca, e uma forte tontura veio. Deitei-me na cama, e esta é a última coisa da qual me recordo.

***

  - Bom dia, Bela adormecida... - A voz me despertou.
  - Cala a boca,vai! – Resmunguei ainda sonolenta.
  - Então, o que achou do lanchinho?
  - Não quero nem saber o que você colocou naquilo...
  - Nossa, eu caprichei tanto... Encomendei do melhor restaurante da cidade!
  - Tô fedendo...
  - Tem um chuveiro quentinho logo atrás dessa porta.
  - Eu nunca vou tomar banho ali, ok? Deve ter câmeras, sei lá.
  - Você devia ter um pingo de consideração por mim. Não abusei de você quando te raptei, te deixo comer, tomar banho, não te agrido. Só quero conversar com você!
  - Agora você quer conversar, daqui a pouco quer outras coisas...
  - Eu sei que comecei meio agitado, mas eu prometo que vai ficar mais leve pra você.
  - Do que você está falando ?
  - Do jogo, oras! Anda logo tomar banho, que eu estou louco pra mais desafios.
  - Desafios? Que tipo de coisa você anda vendo na TV? - Debochei – Quer saber, se foda você! Eu vou tomar banho.
  - Era disso que eu estava falando, gata! - num tom de empolgação.
  Abri a porta do banheiro e avistei um bilhete: ”Querida, aqui estão suas roupas e uma toalha limpinha. Com carinho, seu amado .
  - Amado o caramba, seu otário! - Mostrei o dedo novamente. - VAI PRO INFERNO!
  Tirei minha camisola lentamente, fiz questão de provocar o desgraçado.
  - , eu te vesti essa camisola com tanto carinho... - parecia sussurrar.
  - Isso prova o quão otário você é, eu podia jogar seminua, mas... - Tentei zoar ele.
  - Não queria que ninguém visse minha deusa assim. - Mais uma vez numa gargalhada infantil.
  - Sua deusa? Vai sonhando,vai!
  Apenas de roupas íntimas, enrolei a toalha em volta de meu corpo. De forma até mesmo circense, tirei minhas roupas íntimas sem mostrar qualquer parte do meu corpo.
  - É uma pena não poder ver a água deslizar sobre seu corpo. - faltava implorar.
  - Deve ser... - Finalizei a conversa.
  Abaixei minha cabeça para assegurar que nada estivesse aparecendo. Me limitei a olhar apenas a parte do meu corpo que não estava coberta pela toalha, a começar pelo meu busto, pude notar algumas marcas que desciam para debaixo da toalha, em meio seio. começou a gargalhar loucamente então eu tirei a toalha:
  - Desgraçado!

2º Capítulo: Hora de jogar!

  A risada dele estava realmente me irritando:
  - Dá pra parar de rir seu filho de uma puta.
  - Calma queridinha, aposto que se você estivesse acordada você iria ter adorado. - Ele não parava.
  - Cala a boca! – Gritei, silenciando-o por alguns instantes.
  - Qual é a sua garota? Ainda não percebeu? - pareceu se exaltar. - Você é apenas uma peça do meu jogo, e eu faço o que eu quiser com você!
  Algumas lágrimas começaram a surgir. Eu estava com muita raiva e mal podia me segurar, me sentia suja. Sequer queria imaginar as coisas que aquele maldito tinha feito comigo, e aquilo com certeza era só o começo:
  - Por que você está fazendo isso comigo, ? Eu te fiz algo ruim, é isso?
  - Agora é sua vez de calar a maldita boca! - Ele gritou, e não me respondeu mais.
  Tudo era muito estranho, se eu tivesse ao menos uma dica. Mas era muito esperto e dificilmente vazaria grandes informações, talvez eu nunca teria as respostas para as minhas perguntas.
  As marcas em meu corpo eram incontestáveis, eu realmente era uma peça do jogo sexual de . Aquilo podia ser uma pista sobre a personalidade dele.
  Vesti minhas roupas e me deitei na cama, fechei os olhos e desejei estar longe dali. Era impossível, se eu estava num jogo era para eu jogar. Naquele momento joguei fora toda a emoção e passei a gastar meus pensamentos com a razão, agora eu tinha um propósito: vencer .

  * Quem realmente é () ?
  * Eu e tivemos algum contato anterior?
  * Como ele havia me raptado?
  * Por quais motivos ele havia me escolhido?
  * Qual era seu objetivo?

  Tudo que eu tinha que fazer era juntar o maior número de pistas. Ele já teria deixado alguma?
  Voltando para o início de tudo e passando o tempo lentamente, eu tinha algumas informações. Algumas fúteis e outras até mesmo aceitáveis:

  * Anjo negro (A foto dele na TV)
  * Seu objetivo não era me matar, ao menos foi o que ele disse.
  * Ele concordou com minha hipótese sobre ele ser um tarado.
  * Eu sabia seu nome, sua aparência física e podia ouvir sua voz.
  * A todo momento ele procurou por prazeres sexuais, pedindo que eu me despisse e abusando sexualmente de mim quando dopada.
  * Ele me raptou enquanto eu dormia, e me vestiu antes de me trazer pro hotel.
  * Suas atitudes eram sempre premeditadas, prova disto eram os bilhetes.
  * se irritava quando sua liderança era ameaçada. O que mostrava uma personalidade narcisista.

  Seriam essas poucas informações suficientes para eu jogar?

***

  Abri os olhos.
  A solidão rapidamente substituiu a voz de .
  Gargalhei de minha própria desgraça.
  Olhei para o relógio e suspirei. Meus olhos seguiam seus ponteiros, sem nenhum resultado.
  - Maldito quarto. – Voltei a gargalhar.
  Eu estava ainda mais fora de mim.
  Por um momento me vi levantar da cama, e puxar todo o edredom que estava sobre ela. Espalhei tudo sobre o chão, e fui até um dos cantos do quarto, rasgando de forma animal o papel de parede.
  Depois de certo esforço, me joguei no chão do quarto e observei a sujeira que eu havia feito. Mas nada chamou mais atenção do que eu vi na parede. Sangue.
  Mal me recompus do choque de ver tal coisa, voltou:
  - Pois é, o item de decoração mais belo do quarto tinha que ficar escondido debaixo do papel de parede...
  Não era hora para escândalo, eu tinha que aproveitar o momento para tirar o máximo de informações de :
  - Quantos você matou aqui, ?
  - Essa pergunta é um tanto complicada, . - Ele respondeu calmamente.
  - Então você mentiu quando disse que não queria me matar? - Foi a única conclusão que eu podia tomar.
  - Eu matei muita gente, mas isso não quer dizer que eu queira te matar... Ou quer? - Ele riu.
  - Você só vai me matar depois que se sentir saciado de prazer... - Completei meu raciocínio.
  - Quando você afirmou que eu era um tarado, eu concordei, era a verdade, não é mesmo? Mas eu sequer neguei suas expectativas anteriores. - deu uma pequena pausa na fala. - Eu estou tentando te ajudar, as pistas estão a sua volta!

  A minha volta, o que ele queria dizer com isso?

3º Capítulo: O Quarto

  Procurei por toda a parte por pistas, mas nada encontrei além da mancha de sangue. Embora tentasse, não conseguia entender as pistas desconexas de . Talvez já tivesse encontrado a resposta e ele só estivesse querendo se divertir com meu desespero, como ele fez quando me mandou procurar a chave.
  Sorri e fingi de desistente, eu já havia encontrado o suficiente.
  - E então...? - Ele perguntou em meio a risadas.
  - Você está de brincadeira, né? - Me irritei.
  - Oh, . Olhe ao seu redor! – pareceu entusiasmado com a cena – Olhe para este quarto! A maior pista está bem diante de seus olhos, mas você não pode ver. - Foi assim que ele terminou nosso diálogo.
  Olhei a minha volta mais uma vez.
  Agora sabia exatamente do que ele estava falando, aquele quarto de hotel podia ser minha maior pista.

***

  Mais uma noite se passou naquela prisão, ainda mais assustadora com marcas de sangue na parede, e eu mal conseguia entender como ele havia me levado até ali.
  - ? - Ele chamou, logo que acordei.
  - Bom dia Sr. .
  - Nós finalmente estamos nos acertando, não? - parecia bem humorado.
  - A gente só vai se acertar quando eu estiver fora daqui. - Desviei o olhar para outra direção.
  - , eu estou fazendo de tudo para você sair, aliás, estou aqui para fazer-lhe uma proposta. - O tom de voz dele mudou.
  - Diga... - Confesso que ainda tinha alguma esperança de que ele mudaria.
  - O jogo poderá acabar quando você quiser, acho que você deve ter o direito de escolher... - Ele deu uma pausa. - Mas para sair, você sabe, eu quero ouvi-la gritar!
  - Eu sabia que ia ter alguma coisa dessas. - Me levantei e tentei não dar atenção a ele.
  - Será que uma tal de gostaria de observar o lado de fora? - numa proposta tentadora. - Ah, e não vai ter nada de safadeza, prometo.
  Minha mente implorava por uma resposta afirmativa, mas vindo de , nada podia ser bom. Segundos depois lá estava eu aceitando a proposta:
  - O que terei de fazer, ? - Confesso que agora estava submissa a seu comando.
  - Depois que abrir o compartimento vai saber... - Ele disse.
  Fui em direção ao compartimento e uma música de suspense tocou automaticamente em minha mente. Percebendo-me tensa, não se conteu a rir.
  Ao abrir o compartimento, me deparei com uma gilete, isso mesmo. Peguei ela com cuidado e olhei a volta, para demonstrar que não estava entendendo nada.
  - Vamos, comece o trabalho! - gritou.
  - Do que está falando ? - Dava pra ver o desespero em meus olhos.
  - Anda logo, vadia, antes que eu vá aí e faça o serviço! - Mais do que alterado.
  Segurei a gilete, com a mão um pouco acima de meu rosto. Tremia muito, e meu corpo todo formigava de anseio.
  Fechei os olhos devagar, ao som de gritos apressados de , e finalmente toquei a lâmina em meu braço. A dor veio devagar, mas foi intensa e logo o sangue estava todo espalhado por sobre minha roupa.
  Algumas lágrimas, de teimosas, caíram. Mas era necessário, se o quarto era a pista, como eu estava pensando, a vista do lado de fora podia ser o maior passo a dar.
  Por um momento me vi sorrir, o seqüestrador me acompanhou.
  Só então tive noção de minha atitude. O ferimento era grave e eu não podia deixá-lo daquele jeito, exposto. Mas pensava em tudo não é mesmo.
  Depois de estacar o sangue e dar um jeito em tudo usando apenas a mão direita, cumpriu sua promessa. Ele deixou a chave da janela no compartimento, peguei-a, sentindo-me vitoriosa.
  Segurei a chave com prazer, e fui lentamente em direção a janela. Sorri pra mim mesma e encaixei-a na fechadura. Rodei-a com ainda mais prazer.
  Parei por um instante e suspirei. Só então abri a janela.
  - Essa pista é o suficiente? Agora sabe quem eu sou? - num tom mais que sensual.

4º Capítulo: Poucas respostas, muitas perguntas.

  Neguei-me a acreditar no que tinha visto, dei um pequeno passo para trás e sentei-me ali, no chão, daquele que já não era um quarto de hotel.
  - Como é saber que por todo esse tempo estava tão perto de casa? - voltou a usar um tom sensual.
  Eu estava totalmente confusa sobre aquilo. Por todo tempo eu estava tão perto de casa...
  Mas por que ele inventaria uma mentira tão tosca sobre o lugar onde estávamos? Bem, isso só faria sentido se esta fosse uma pista importante, talvez, sobre quem ele era.
  Fechei os olhos e ignorei todos os comentários inúteis de meu seqüestrador. Tentei por um instante pensar apenas nas pessoas com quem eu convivia naquele bairro, até chegar no vizinho, dono da casa da frente, que seria o meu seqüestrador. Era o único de quem eu não me lembrava, talvez porque ele era novo no bairro.
  Concentrei-me um pouco mais. Uma memória curta de alguns dias atrás veio-me à tona...

  Flashback
  Enquanto assistia ao meu programa favorito, um barulho estrondoso de caminhão invadiu meus ouvidos.
  Fui em direção à janela e vi alguns móveis saírem do caminhão e serem levados até o interior da casa.
  Quis sair e reclamar com o novo morador, mas depois de um tempo ri de minha implicância com tal coisa.
  Apenas sentei-me de volta ao sofá e tentei voltar toda a minha atenção na televisão...
  Flashback Off

  Tudo que eu me lembrava não era o suficiente, eu precisava de um pouco mais.
  Eu sabia onde estava e artificialmente quem ele era, mas essas não eram as únicas perguntas que eu tinha. Se ele era novo e mal nos conhecíamos, por que ele me seqüestraria? Como ele fez isso? Qual era seu objetivo?
  - Sei que está se esforçando, . - tentou ser compreensivo, mas eu podia notar o tom de sarcasmo em sua voz. - Mas precisamos ir logo com isso, sabe eu estou ficando entediado...
  - Me desculpe se não sou a vítima perfeita, Sr. . - Devolvi o sarcasmo.
  - Seu vizinho aqui está realmente chateado por você não lembrar dele...
  - Eu me lembro muito bem de você, idiota! Você e aquele caminhão de mudanças caindo aos pedaços... - Comecei a me irritar.
  - Não se lembra de mim naquela noite, querida?
  - Do que você está falando?
  - Do dia em que eu te seqüestrei, fui até lá pessoalmente. Você é especial, .
  Seja lá o que fosse especial para ele, eu não queria ser. Tudo que eu queria naquele momento era me lembrar daquela cena, em que eu e encaramo-nos olhos nos olhos, ou seja lá o que tenha esquecido.

  Pistas

5º Capítulo: Prova de Sangue

  Todas as pistas em que eu acreditava, todas as respostas que eu tinha, se revelaram falsas. Eu estava do lado da minha casa, seqüestrada pelo meu vizinho, se é que isso pode ser chamado de seqüestro, se era só eu atravessar a rua e pronto.
  O pior era pensar, que se tudo isso era mentira, o fato dele não querer me matar também podia ser.
  A cada segundo eu sentia mais medo de , não pelo que ele dizia, mas pela frieza que ele mostrava em suas ações.
  À volta, tudo, cada detalhe, previamente pensado. A camisola, o quarto, os bilhetes dos desafios... Pistas que passavam facilmente de meu olhar.
  Agora tudo, tudo era uma pista. Eu iria descobrir tudo, nem que tivesse de morrer pra isso.
  O que poderia ter passado por mim que eu não tinha visto?
  Ao fechar os olhos, tudo que me vinha a cabeça eram os dizeres de : “Pois é, o item de decoração mais belo do quarto tinha que ficar escondido debaixo do papel de parede...”; “Eu matei muita gente,mas isso não quer dizer que eu queira te matar... Ou quer?”; “Mas eu sequer neguei suas expectativas anteriores.”; "As pistas estão à sua volta!”
  O quarto não era a única coisa a minha volta... O sangue era mais uma prova perdida, ele foi esperto ao contornar me dando a oportunidade de ver o lado de fora. Uma prova de sangue afirmaria todas as minhas expectativas anteriores.

***

  Com poucos dias morando ali e nenhum sumiço de vizinhas, ficava tudo muito difícil.
  Para colocar o papel de parede, demoraria um certo tempo, ele teria que chamar alguma companhia. E essa pessoa logicamente desconfiaria dele.
  Sangue, sangue, sangue... Eu precisa pensar direito, pensar como pensaria!
  - O que faz sair tanta fumaça da sua cabeça? – puxou assunto.
  - Quero caneta e papel! – Talvez assim eu conseguisse organizar minhas idéias.
  - O que vai fazer você entender que quem manda nesse jogo sou eu? – Ele pareceu se exaltar.
  - Vamos, . Proponha mais um de seus desafios... – Usei de uma voz doce para zombá-lo. – Eu topo qualquer coisa!
  - Não há mais nada que eu queira fazer com seu corpo ainda quente. – Pude sentir, depois dessa fala, que fiz com que ele deslizasse, afinal, ele não tinha planejado isso.
  - Então me mate agora, desgraçado! – Mostrei o dedo do meio para a TV, ainda com a foto do “Anjo Negro”.
  Um silêncio atormentador tomou conta do quarto. Aquilo me corroia por dentro, toda aquela coragem falsa não era suficiente.
  Meu sangue escorrendo em sua faca, esse seria meu fim. Ao som de risadas sádicas e de pouco valor.
  - Faça isso você mesma, eu lavo as minhas mãos. – Era o fim do silêncio e o início do meu fim. Ouçam as risadas. – Suicídio é mais legal, não há culpa...
  Queria voltar no tempo e ficar pra sempre presa naquele lugar. A morte era mais assustadora que qualquer situação, e mais misteriosa do que qualquer cara.
  - Não vai ver a surpresinha que acabei de deixar no compartimento? – Ele disse.
  Era uma corda. E eu realmente estava disposta a acabar com tudo isto.
  Confesso que gelei ao ouvir as palavras finais de :
  - Se não o fizer, irei até aí e farei por ti.

6º Capítulo: Anjo Sem Asas, Anjo Sem Lei

  Num momento de frieza, subi em cima da cama e amarrei a corda no ventilador desligado. Sorri para a câmera e tive uma gargalhada de como resposta.
  Mas até que ponto eu jogaria? Então me lembrei do sangue e de tudo que ele me disse outra vez. Se aquele era meu último quarto de hotel, se assim posso dizer, por que não olhar meu assassino olho a olho? Talvez fosse esta a minha última chance.
  - É uma pena que não o faça com as próprias mãos, seria uma grande honra. - Eu precisava atraí-lo para o quarto.
  - Teremos muito tempo para isso, . Sim, eu não acredito em seu suicídio. - Ele foi frio, como sempre.
   estava voltando ao topo do jogo, e eu não podia deixá-lo sobre o controle das coisas. Precisava dar um jeito de fazê-lo entrar naquele quarto.
  - Provarei que está errado, querido. - Subi em cima da cama, colocando a corda em meu pescoço. Estava a um salto da morte. Joguei-me, enquanto tudo ficava escuro, a porta se abriu e vi um par de olhos dela surgir. Antes que a morte me levasse, sim, ele mentiu outra vez: “Se não o fizer, irei até aí e farei por ti.”

***

  Abri os olhos, ainda tonta. Agora no colo dele, meu sequestrador e salvador, . Dividíamos o mesmo ar, enquanto seu nariz tocava o meu, próximos como num beijo.
  - Sou seu anjo. - Ele sorriu levemente, apenas com o canto da boca.
  - Anjo negro... - Sussurrei.
  Enquanto eu respirava com esforços, ele aproveitou para amarrar-me sobre uma cadeira. Colocando outra diante de mim, para que a todo momento olhássemos olho a olho. Janelas e portas fechadas.
  - Não sabe o quão bom é ter nossos corpos próximos novamente. - Ele disse sem demonstrar emoções.
  - Por que eu? - Questionei, deixando que uma lágrima escorresse pelo meu rosto.
  - Por que eu teria critérios de escolha? Ou achaste tu melhor ou pior do que qualquer outra que escolhesse? Apenas foi você, . - sequer piscava os olhos, como se o meu temor fosse o seu prazer. - Mas fique tranquila, agora sei que está preparada para saber de tudo... - Ele colocou uma fita por sobre minha boca e soltou mais uma de suas risadas sarcásticas. Eu estava a um salto da verdade.

7º Capítulo: Fatos não ditos, tornam verdade absoluta

   ajeitou-se por sobre a cadeira diante de mim e suspirou aliviado, talvez porque finalmente revelaria o segredo pelo qual lutei durante todo esse tempo. Tempo que sequer pude contar, serviu de apenas obstáculo para que tudo tornasse um pouco mais desesperador.
  Durante uma quantidade significativa de tempo, novamente que mal pude contar, ficamos apenas a nos observar. Lágrimas escorrendo por minha face e escorregando para dentro da fita, até salgar minha boca. A expressão pensativa dele, como quem procurasse um melhor caminho para tudo que hei de vir.
  - Mesmo com lágrimas no rosto, és linda... - Ele disse, sem demonstrar qualquer emoção. - Linda mas solitária. Durante todo o tempo em que estive lhe observando, nenhum parente ou amigo viera te visitar. Conto nos dedos as noites em que não deitaste em sua cama, por serem escassas, pois tudo em sua vida sempre foi apenas você. – Deu uma pausa. - Não seria tão mais fácil pra mim, jogar com alguém assim? Pois foi mais fácil e muito mais prazeroso.
   se levantou da cadeira e ajoelhou-se diante a mim, continuando na direção dos meus olhos:
  - Estás a ver aquela janela? Sim, era dali que eu a observava, mesmo antes de tê-la como meu objetivo. Nós somos tão íntimos quanto sempre imaginou-nos ser... - Ele sorriu, de forma que eu já estava acostumada. - Até que um dia eu cansei de jogar sozinho e precisei buscá-la.
  O cara dos olhos encostou suas mãos em meu rosto, secando todas as minhas lágrimas. E tocou seu nariz no meu como quando se tornou meu salvador:
  - As terças assistia à comédias românticas, apenas para passar a dor. Nos sábados fugia de casa, como se buscasse algo ou alguém que a completasse, mas de que adiantava, se no domingo voltava ainda mais sozinha e faltando-lhe peças de roupa... Eu conheço , mais do que ela mesma não é?
   fez uma cara desgostosa, e suspirou como se tudo o que disse não fosse o suficiente. Levantando-se e caminhando em círculos diante de mim:
  - Se lhe é prazeroso saber, nenhuma jogou como você. Mas antes que disso eu soubesse, foi tudo tão normal, digo, o seqüestro. - Apoiou as mãos por sobre meus ombros, abaixando-se até a altura de meus ouvidos. - É uma grande pena que não se lembre de mim, pois eu me lembro muito bem de quando estive com você... Toquei sua campainha, ainda indeciso quanto ao seqüestro. Você atendeu de roupas íntimas, sedutora, confesso, como se não importasse com minha presença. Apresentamo-nos formalmente como todo vizinho, e finalmente descobri seu nome: .
  Por alguns instantes ele desapareceu de minha vista do quarto e o silêncio voltou a marcar presença no local.
  - Foram aqueles poucos minutos, enquanto fechava a porta e deitava-se por sobre a cama, suficientes para que eu bolasse algo, bem simples por sinal. Eu sabia que você beberia da minha água, era isso que sempre fazia não é mesmo? Desmaiada, não foi tão difícil levá-la até minha casa. Tive de vestir-lhe uma camisola, para que se alguém nos visse, eu tivesse uma desculpa. - Ele franziu a sobrancelha. - E não é que alguém sentiu sua falta? Durante todo esse tempo, de vez em quando eu saía, pra não causar suspeitas, e não é que me perguntaram se sabia seu paradeiro? Esses vizinhos, não... Mas fique tranqüila eu avisei-os que tu estavas em viagem.
voltou a se sentar na cadeira a minha frente. E outra vez ficamos nisso, olhares e palavras mudas.

8º Capítulo: Uma luz para lugar nenhum

  E quando ele finalmente se cansou do silêncio, já passados alguns instantes, interrompeu-o sem escrúpulos:
  - Mas a viagem está no fim, não é mesmo? - esperou minha resposta, um ato de sarcasmo diante as minhas péssimas condições para isso, devido à fita que o próprio havia colocado para tapar minha boca. - Finalmente senti-me saciado, acho que atingi o meu objetivo...
  Então seus olhos tornaram-se de um brilho intenso, como se toda a luz do lado de fora do quarto espelhasse, de alguma forma, diante daqueles globos :
  - Chegaste à perguntar o motivo de a todo instante referir-me a este como um quarto de hotel? - Sorriu com o canto da boca, num gesto dominador. - Afinal, o que isto mudaria, se de qualquer não poderia sair? - Ele retrucou, ansioso, como se de alguma forma eu pudesse respondê-lo.
  A expressão facial de foi de dominante à dominado, por uma certa revolta, misturada com excitação:
  - Este quarto é como um quarto de hotel é um lugar de passagem... - Tornou o silêncio, como uma pausa para meu entendimento.
  Numa conversa sem palavras, ele se ajoelhou diante de mim mais uma vez. E numa compaixão até então desconhecida, arrancou a fita de minha boca. Respirei ofegante e aliviada, terminando o ato com um sorriso forçado. Fomos da água para o vinho, ou vice-versa.
   tirou o cabelo de meu rosto, dessa vez sem mostrar os dentes, e encostou sua testa na minha, de forma que eu sentisse sua respiração. Vi-me obrigada, por mim mesma, a tocar seus cabelos, adentrando meus dedos um a um aos fios do garoto, que sorriu com um simples olhar, após uma leve piscadela com ambos os olhos.
  - Meu anjo negro... – Finalmente pude dizer algo, que meu seqüestrador e anjo respondeu com apenas um passar de língua por sobre os lábios, como um tique.
  Num momento inconseqüente, como se nada mais importasse, vi minhas mãos, quase que inconscientemente, tocarem a cintura dele, em seguida o puxando em minha direção.
  No início senti-o evitar, mas depois de mais algum olhar de desejo, ele tocou, levemente, seus lábios nos meus. E antes que eu ao menos fechasse os olhos, ele voltou à fita em minha boca, dando mais uma de suas gargalhas sarcásticas e insuportáveis, a última coisa que eu iria ouvir vindo dele.
  Tiro.

Epílogo

O quarto fechado, num cenário claustrofóbico.
O barulho constante da dor.
A sede por prazer dada como saciada...

  Os olhos da garota foram se fechando lentamente, com a ajuda de seu sequestrador e anjo. Enquanto o mesmo, numa cena confusa de compaixão, lamentava o que havia causado.
  Numa mistura inconsistente de dor e prazer, ele finalmente havia deixado-a partir.
   Sim , eu sou seu anjo negro. - Ele sussurrou no ouvido da vítima e amante, agora morta. - E nunca poderia levá-la à luz...
   voltou-se de pé. Arrumou a jaqueta de couro, em seguida alisando os longos fios de seus cabelos num enfurecido ato de tranqüilidade.
  Sorriu para si mesmo, provando mais uma vez que nada havia fugido de seus sádicos planos. Sacou uma chave do bolso da calça e abriu a porta, saindo do quarto e indo direto para um novo começo do jogo que nunca acaba.
  Caminhou lentamente até a porta de entrada do seu lar e, para outros, prisão. Passo a passo pelo que, para alguns, foi, mesmo que não soubessem, o corredor da morte.
  Finalmente, abriu a porta.
   pagaria para ver a cena em que o sedutor rosto de fora tomado pela surpresa. Em que seus olhos eram reflexos de alguns policiais e seus devidos carros de polícia.
  Paralisado diante à porta de entrada, ele apenas ergueu suas mãos sujas em direção à cabeça, em seguida sendo rendido pelos policiais.
  Agora, quando o colocavam as algemas, era ele quem estava submisso.
   foi guiado até o carro da polícia:
  - Não vão me dizer por que estou sendo preso? - Ele perguntou.
  - Você sabe... Sonegação fiscal. - Responderam-no.
  Enquanto um dos carros da polícia levava à delegacia e o rosto do sequestrador estampava mais um de seus sorrisos com o canto da boca, ouviu-se um dos policiais gritarem de fundo:
  - Tem um corpo aqui!

FIM

Nota: The Last Hotel Room - Um jogo de códigos e pistas que agora foi totalmente revelado. Há quem ainda tenha dúvidas,mas é tirar as próprias conclusões que faz deste um jogo divertido,faz a gente entrar dentro do maldito “quarto de hotel” e viver o drama com o seqüestrador. Vejo-me obrigada á perguntar se consegui manter e finalizar o suspense bem. Vejo-me obrigada á agradecer á todas que acompanharam,comentaram e me apoiaram nessa que é a minha fanfic favorita de minha autoria. Quanto á frase final,saboreiem ou decifrem como quiserem.