That's My Secret

Escrito por Clary Avelino | Revisado por Lyra M.

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1 - A oitava série e seus podres

Fevereiro

  

Bem, a oitava série em si é podre. Mais podre que ela, sou eu. Dawson, idiota o bastante para não fazer merda nenhuma o ano inteiro e achar que iria passar de ano. Bem, isso foi mais um motivo para eu odiar minha segunda oitava série, o fato dela ser uma SEGUNDA. Bem, se vocês não forem tão burros quanto eu, sabem que isso significa que eu estou fazendo a oitava série pela segunda vez.
  Eu tenho 14 anos, faço 15 em maio. Isso dá a mim um ponto, por passar alguns meses fingindo ser uma aluna normal da oitava série. Não, espera aí... Todos os alunos me conhecem, todos os professores me conhecem, toda a escola me conhece, não posso fingir que sou uma aluna normal, porque alunos normais de oitava série têm 14 anos, não 15 – exceto por aqueles que fazem aniversário no final do ano – mas essa regra não se aplica a mim.
  Muitas pessoas me chamam de dramática, mas eu estou apenas relatando fatos! Meus pais pagaram uma escola de XX reais mensais, eu estudei durante quase nove meses e, para piorar as coisas, eles tiveram que pagar 5 recuperações, cada uma custando XX reais. Calculemos que eles gastaram mais de mil reais – o que para uma pessoa como eu, que não tem dez reais no bolso, é demais – apenas comigo, tirando o caso que eu tenho mais duas irmãs e o outro caso que uma delas também perdeu de ano. Pelo menos uma de nós havia passado direto – Mary, que não conta muito, por ter apenas oito anos.
  Voltando ao colégio, eu odiava cada pedaço daquele lugar. Ele não era ruim, um pouco, mas na minha cabeça tudo aquilo era culpa deles. Bem, eu sou maluca, então ignoremos isso.
  Primeiro dia de aula, eu sentei no fundo da sala e encostei a cabeça na mesa e fui tentar dormir. Atitude de quem quer repetir de ano mais uma vez, mas o que eu queria realmente era mandar todos eles tomarem nos seus devidos orifícios anais. Pelo menos eu estava usando termos científicos, o que ajuda a não parecer tão obsceno.
  O professor entrou na sala, batendo os pés de maneira ritmada e forte. Como se quisesse atrapalhar o cochilo de uma certa repetente.
  – Bom dia, classe! – ele disse com certo entusiasmo na voz. Mas que classe? Havia no máximo 15 alunos na sala. Os famosos otários que vivem para estudar e aqueles que são obrigados a virem para o colégio, tipo eu – Hoje não vamos fazer coisas a não ser apresentações, que, suponho eu, teremos que fazer novamente semana que vem, pois eu ficaria realmente decepcionado se nossa classe tivesse apenas 18 alunos – eu adoraria – Bem, eu sou o professor Augusto, e leciono Ciências. Alguém aqui gosta dessa matéria?
  Eu levantei a mão. Por parte, ciências é legal, até você estudar o ser humano, que torna o assunto chato e lento.
  – , vejo que você criou interesse em ciências desde que essa matéria a reprovou. – ele sorriu sarcástico e continuou olhando para minha mão levantada – Então, , o que mais gosta em ciências? Especificamente em anatomia humana, que é nosso assunto.
  – Bem, Augusto... – falei de modo sonolento – Eu adoro o fato de seres humanos terem que dormir pelo menos oito horas para poderem ter mais atenção nas coisas e até aprenderem mais rápido, e suponho que aulas às sete horas da manhã não ajudam muito no desempenho dos alunos.
  – Suponho que você não tenha dormido as oito horas. – neguei com a cabeça – Então, por que não dormiu mais cedo ontem?
  – Porque tem uma coisa que eu prezo muito, chamada vida social, que adolescentes normais têm. – alguns alunos riram de minha piada sem graça, afinal, era a única coisa um pouco engraçada que aconteceu durante todo o dia – Professores normais também têm vida social.
  – Alunos normais, minha querida , não são reprovados. – e foi aí que eu falei sem pensar.
  – E professores normais, meu querido Gu, não namoram com alunas. – e foi aí que a classe inteira ficou calada.
  Augusto tinha 24 anos, era alto, com cabelos pretos espetados de forma engraçada, uma pele clara e olhos muito escuros. Ele não era chato, na verdade, era um dos melhores professores, mas a partir do momento que essa foi a única matéria que fui reprovada, comecei a odiar tanto a matéria quanto o professor – mais uma das minhas maluquices.
  – Não vai fazer nada com ela? – um dos alunos perguntou, esse eu conhecia. Era Alexander Williams, metido a inteligente, mas que sempre ia para recuperação, tirava banca de riquinho e era bem chato.
  – Na verdade, ela está certa. – Augusto murmurou com certa decepção na voz – Professores normais não namoram com alunas no terceiro ano. Mas você, , não devia se rebaixar a isso e me afetar falando essas coisas. Você é brilhante. Relaxada, mas brilhante. Lembre-se de que é mais que isso. Quero conversar com você depois das aulas.
  Revirei os olhos com aquele discurso moralista de “Você é melhor que isso”. Meu Deus, aquilo era tão antigo, chato, démodé que dava nos nervos. Sério professor? Podia usar algo desse século, não acha?
  – Que porra! – Williams gritou, e todos o olharam como se ele estivesse invocando o demônio.
  Augusto revirou os olhos e continuou olhando para Williams, com uma expressão de paisagem.
  – Não vai fazer nada comigo? – ele gritou, olhando para o professor com desprezo, como se espere algo a mais.
  – , você pode responder ao seu colega de classe o porquê de a minha pessoa não fazer nada com a dele? – Augusto voltou a sorrir sarcasticamente – Se acertar, não precisa ter aquela conversa comigo.
  Pensei por três segundos e falei:
  – Williams, a palavra porra não é em si um xingamento, pois porra não é nada mais que o líquido que é ejaculado pelo homem durante o ato sexual. Líquido de espermatozoide. Não um xingamento. Agora, se o ser humano adquiriu a mania quase ignorante de achar que isso é um xingamento, então o professor não pode mandar você para a diretoria ou coordenação por você ser um boboca.
  – Cala a boca, vadia, ninguém falou com você. Professorzinho de merda.
  – Mas ele pode te mandar para a coordenação por isso – sorri vitoriosa, eu queria levantar e estapear sua cara, mas me contive e continuei com meu sorriso – E professor, eu ainda quero ter essa conversa, daí poderemos conversar sobre quem eu sou ou quem eu deixo de ser, deixando bem claro. – pisquei para ele de forma irônica e rolei os olhos quando ele começou a dar o assunto.

2 - Lindas Quedas

Fevereiro

  

Depois das três primeiras aulas, eu fui caminhando para a direção lentamente, pois o professor Augusto ainda queria falar comigo, mas eu não estava nessas animações todas.
  Continuei no mesmo passo de lesma e, quando avistei a porta da direção, senti algo pesado e grande esbarrar fortemente em mim, derrubando-me no chão e fazendo minha cabeça bater no piso duro e frio.
  Sabendo que a qualquer momento eu poderia esfregar a cara do ser inútil no asfalto, inalei todo o ar possível, me sentindo uma bolha de sabão e querendo deixar minha raiva dentro dessa bolha, para não explodir a qualquer momento e arranjar confusão no primeiro dia de aula. Levantei um pouco tonta, colocando a mão no lugar machucado e procurando o ser que havia me derrubado – que por acaso também estava no chão.
  Bem, nem tudo é do jeito que queremos. Eu não consegui concentrar minha raiva numa bolha, muito menos não arranjar confusão no primeiro dia de aula.
  – IDIOTA! PRESTE ATENÇÃO! OLHA POR ONDE ANDA, SEU BABACA! – passei a mão mais uma vez pelo machucado na minha cabeça, que estava fazendo o favor de crescer – Ai senhor, eu estou realmente cheia desses otários. – falei, como se o garoto não estivesse ali.
  – Desculpa, é que é meu primeiro dia e eu não sei onde fica minha sala. Eu sou novato. – ele disse um tanto sem graça. Mas quem não estaria sem graça depois de derrubar uma garota no chão e ela gritar com você como se tivesse derrubado sua comida no chão?
  – Com tantos otários aqui, você me manda mais um? – perguntei olhando para cima, como se estivesse falando com Deus.
  – Cheio de otários? – ele me olhou, sem toda aquela educação de antes no ar – Suponho então que você seja mais um deles.
  Olhei sarcasticamente para ele, com um sorriso falso no rosto e mostrei meu dedo do meio com tamanha vontade de pisar em sua cabeça até os seus miolos saírem ou seus olhos pularem para fora das órbitas.
  – Olha aqui, seu babaca, mais uma palavra vindo desse desastre que você chama de boca e eu quebro a porr...
  – O que está acontecendo aqui? – uma voz de uma senhora velha e chata me interrompeu.
  Era a diretora Lúcia, uma velha baixa e gorda, irritante e que devia morrer logo para qualquer mercenário doido por dinheiro venha a substituir no seu cargo de ladra. Não, espera... Ela é diretora do meu colégio. Ah, tanto faz. Os dois são a mesma coisa.
  – Ela estava me dando as boas vindas. – o garoto disse de modo sonoro e calmo, nem parecendo o otário de segundos atrás – E também me disse para tomar cuidado, pois havia alguns babacas no colégio que provavelmente falariam isso para mim, se eu fizesse qualquer coisa que não os agradasse.
  – Ah. – ela disse sorrindo como se falasse que não era velha o bastante para acreditar naquilo – sempre foi uma aluna muito prestativa, suponho então que ela adoraria mostrar o colégio para você e, quem sabe, informar onde fica sua sala. Ou até te falar mais desses babacas, pois eles estão em toda parte, e muitas vezes se fingem de bonzinhos. – ela olhou para mim com o mesmo sorriso – Agora, os dois podem me explicar porque estavam vindo para a diretoria?
  – O professor Augusto pediu para eu vir conversar com ele. – respondi de imediato, com um sorriso amarelo no rosto.
  – Eu perdi a hora, acabei de chegar ao colégio e o porteiro disse que eu tinha que passar na diretoria para poder entrar na sala. – o novato murmurou, suas bochechas ficaram vermelhas e ele ficou um tanto envergonhado – E acabei me batendo na . Derrubei ela e acabei caindo no chão também.
  – Meu Deus! – agora sim, a diretora parecia se preocupar com algo de verdade – Vocês se machucaram?
  – Não, foi só uma qued...
  – bateu a cabeça no chão e eu bati meu cotovelo. – o garoto me interrompeu, fazendo uma cara de dor.
  – Vamos para a enfermaria, acho que o professor Augusto pode esperar um pouco para conversar com você, . – então agora que eu estava machucada era ? Tome no seu orifício anal.
  – Tudo bem. – ele sorriu para a diretora e me olhou com um sorriso mais falso que os peitos da Megan Fox – Alias, eu sou Bennet.
  A enfermaria ficava ao lado da diretoria, então não tivemos que andar muito. Assim que chegamos lá, a enfermeira perguntou onde tínhamos batido, e disse que não havia machucado, mas que o lugar estava inchado e precisava colocar gelo.
  A diretora e a enfermeira saíram da sala para comunicar aos nossos pais do incidente, o que era ridículo, pois ninguém havia se machucado de verdade. Eu não ligava muito que as duas saíssem da sala, pois ambas eram chatas, mas minha ultima escolha era ficar sozinha numa sala com aquele garoto.
  O que é irônico, pois o conheço há pouco tempo. Mas já percebi que ele é tão falso quanto soa sua voz.
  – Então, – ele começou a falar – você é de que série?
  – Isso te interessa? – perguntei ainda com a cara emburrada e segurando um pacote de gelo na cabeça.
  – Eu estou apenas tentando ser legal. – retrucou, fechando a cara.
  – Vai ser legal na puta que pariu. Não gaste saliva comigo, Bennet. – percebi que aquilo tinha sido grosso demais, até mesmo vindo de mim – Ou então devia começar andando devagar e não tentando quebrar todos os dentes dos outros ao empurrar eles e os fazerem bater a cara no chão. – no momento, era o mais perto que eu conseguia chegar a ser uma pessoa legal e sociável. Não tenho culpa se o garoto me conheceu em um dia que meu humor estava maravilhosamente terrível.
  – Nossa, o que você tem de bonita tem de antipática. – aquilo era para ser um comentário bom?
  – Minha cara de que liga para o que você diz. – olhei para ele numa expressão séria e entediada – E caso não tenha percebido, isso foi um elogio.
  – Claro que eu percebi que foi um elogio, eu meço as coisas que eu falo – foi impressão minha ou isso foi uma indireta mais direta do que deveria ser? – Eu me apresentei pelo menos, nem isso vai fazer? – olhei para ele como se fosse enfiar uma faca em sua cabeça e voltei a fitar o nada – Esse colégio está cada vez melhor, saudades da velha educação. – resmungou.
  – Você quer saber da minha vida? Então. Sou Dawson Vasconcelos, nascida em oito de maio de 1998, curso a oitava série do ensino médio, mas eu deveria estar no primeiro ano, pois fui vagabunda o bastante para não fazer porra nenhuma durante o ano passado inteiro. Estou repetindo a porcaria da oitava série na turma A, onde só tem nerds e vadias e, no momento, estou querendo receber um comunicado para os Jogos Mortais, porque qualquer coisa é melhor que ficar na mesma sala com você, que se mostrou ser uma pessoa insuportável nos últimos minutos que eu o conheci. Mas eu também não colaboro, porque sou uma pessoa extremamente insuportável e chata, então, por favor, não cobre palavras boas vindas da minha boca, pois eu nunca as prometi e, mesmo que um dia o faça, não será verdadeiro. E por favor, não reclame do meu jeito de ser, pois eu estou o avisando o que tem aqui dentro, antes que tente abrir o pacote. – soltei as palavras com tamanha rapidez. Sincera demais, sempre fui. Não importava se eu fosse assustá-lo ou coisa do tipo, manter as pessoas longe de mim sempre foi o melhor resultado da equação que era minha vida.
  Ele comprimiu os lábios, como se estivesse processando todas as coisas que eu acabara de falar, então passou a mão nos cabelos, bagunçando-os, e depois direcionou o olhar a mim.
  – Você é um amor de pessoa. – seu tom de voz foi irônico e doce ao mesmo tempo – Na sua turma tem otários também.
  – Olha aqui, se me chamar de otária mais uma vez, eu...
  – Na verdade, , eu estava falando de mim. – ele me interrompeu com a melhor notícia do ano.
  Olhei para ele o fuzilando com os olhos e por fim, dei um tapa em minha testa, arrastando minha mão pelo resto do meu rosto. Ao reparar em minha reação, ele deixou uma gargalhada escapar dos lábios e depois mudou sua posição em outra maca da enfermaria, deitando completamente seu corpo.
  – O que você tem de bonito tem de boboca. – afirmei me acalmando um pouco.
  Me permiti o olhar por alguns segundos, talvez querendo ver qual seria a piadinha ou o comentário vindo a seguir.
  – Caso não tenha percebido, isso foi um elogio – sua voz soou exatamente igual a minha, o que por alguns segundos me assustou – Tá vendo? Acabamos de trocar bordões! Vamos ser melhores amigos durante esse ano!
  – Olha aqui, Bennet, dá pra calar a porcaria da boca? Por favor, caso não tenha percebido minha cabeça ainda está doendo graças a você e sua atenção enquanto anda! Não esquecendo que eu estou aqui obrigada, por que eu adoraria estar recebendo um sermão disfarçado do meu professor de ciências. – falei demais, mais uma vez, para variar só um pouquinho nesse drama de pensamento, conversa e vida.
  – É impressão minha ou, com tantas pessoas nesse colégio, eu me bati com a mais problemática? – a sinceridade presente na sua voz por um segundo, doeu.
  – Em parte. Eu sou mais um drama do que um problema. – ri sem humor, deitando na minha maca e observando a claridade daquela sala.
  Não sei quanto tempo se passou. Segundos, minutos, talvez até uma hora. A cabeça não doía mais, o gelo já havia derretido, mas o silêncio permanecia, de um jeito estranhamente amigável.
  Depois de mais pensamentos, ouvi a voz do desconhecido me chamar.
  – . – pausou, esperando minha resposta. Apenas virei o rosto em sua direção, para mostrar que eu estava ouvindo – Dia ou século errado?
  – Um pouco de cada.
  – Era o que eu esperava ouvir. Bem, meus pais já devem ter chegado ou estão chegando, sei que esse silêncio me incomoda muito. Vou pegar minha mochila na portaria e esperar na diretoria. Até mais, Dawson.
  – Espero não te ver amanhã, Bennet.

3 - Grite

Fevereiro

  

Cheguei em casa e quis apenas me jogar na cama, meus pais foram me buscar no colégio e a diretora contou do incidente das pancadas, minha mãe fez um alvoroço e o que era para ser uma tempestade em um copo d’água, se transformou em um dilúvio em tampinha de refrigerante.
  Para a sorte do infeliz, assim que ele saiu da enfermaria, seus pais chegaram para levá-lo de volta para casa, resumindo, ele não foi a nenhuma aula – o que acho que todos já sabiam. Em outras palavras, a única coisa que ele fez naquela porcaria de colégio foi se bater em mim e tirar qualquer impressão boa que ele poderia causar em mim – nem tanto, mas abafemos esse lado da conversa.
  A semana passou se arrastando, no mesmo passo de lesma que eu estava no primeiro dia de aula, a diferença era que nada havia a jogado no chão. Infelizmente.
  O dia mais esperado da semana havia chegado, a famosa e querida sexta-feira, amada por todas e odiada pelos outros dias da semana que sentem inveja dela.
  A primeira aula era de literatura, aula legal, professora legal, matéria legal, tudo se encaixava em um perfeito pacote. Essa era a única matéria que eu conseguia passar com 10 fechado em todas as unidades, pois a única coisa que acrescentava um pouco de paciência à minha vida eram os livros. Talvez minha válvula de escape para todo esse drama.
  A professora se apresentou e já foi puxando assunto sobre a vida e falando de várias coisas que, incrivelmente, me entediaram. Abaixei a cabeça e fechei os olhos, desejando intensamente que aquela aula ficasse tão legal quanto as outras.
  – , por que está com a cabeça abaixada? Ela está doendo? – Adriana perguntou, com uma mistura de preocupação e cuidado.
  – Eu quero morrer. – disse baixinho, olhando em volta dos meus braços, o que não era muita coisa, pois meus cabelos cobriam todo meu campo de visão.
  – Por que, exatamente, você quer morrer, ? – ela perguntou mais uma vez, agora sentada ao meu lado, passando a mão no meu cabelo.
  – Eu odeio esse ano, odeio essa classe, odeio a oitava série, odeio esse colégio, odeio estudar. – choraminguei – E odeio minha vida.
  – Então, você quer morrer porque perdeu de ano. Certo. Mas sua vida está só começando, há muitas coisas pelas quais valem a pena viver. Por que morrer por algo tão banal? – sua voz me acalmou e eu levantei a cabeça, enxugando meu rosto com a manga do meu suéter.
  – Por que viver por algo tão banal? – abaixei a cabeça novamente, ninguém daquela sala precisava apreciar meus momentos de fraqueza.
  – O que, exatamente, é banal? – sua voz tinha o dom de ir atrás da parte mais calma do meu corpo e puxá-la para fora.
  – Esperar que um dia as coisas melhorem. Nunca melhoram, esse é o ciclo da vida. A tendência é piorar. – resmunguei alto, percebendo que todas aquelas pessoas estavam prestando atenção em mim. Vão estudar, idiotas.
  Uma voz irritante veio do fundo da sala.
  – Você devia deixar essa negatividade em casa e trazer seu lado positivo para o colégio! – levantei os olhos e me deparei com Bárbara, duas fileiras para a direita, gargalhando – Oh, que indelicadeza! Esqueci que ele não existe! – ela pôs a mão na boca que agora estava em forma de o.
  Bárbara Bailey, garota chata, popular, metida e muito sem sal. Seria mais clichê se ela fosse loira.
  Respirei profundamente e soltei as palavras.
  – Você devia trazer seu cérebro para o colégio! Oh, que indelicadeza! Esqueci que ele não existe. – uma explosão de risadas surgiu em minha audição como ruídos irritantes, eles não poderiam rir mais baixo e menos parecidos com hienas? – MAS QUE DROGA! VÃO ESTUDAR! VOCÊS NÃO TÊM COISA MELHOR PARA FAZER DO QUE RIR DA DESGRAÇA ALHEIA? – explodi, tirando de mim toda a raiva que estava acumulada pelos últimos minutos.
  – Melhor? – a professora que ainda estava na minha frente perguntou, querendo dar risada, mas com a velha expressão de quem vai dar sermão – Não xingue na minha aula.
  – Desculpe – respondi muxoxa.
  – Tudo bem. – sorriu serena e levantou, caminhando até sua mesa. Ao chegar ao local, pegou um piloto preto e escreveu em letras de forma gigantes no quadro GRITE. Segundos depois virou para a classe com um sorriso um tanto travesso no rosto – Façam um circulo com as cadeiras. Agora.
  Todos se entreolharam compartilhando aquela onda de confusão. Levantei arrastando minha cadeira para o círculo que estava sendo formado. Quando finalmente o ruído das cadeiras parou, tentei me concentrar para não ouvir os murmúrios intermináveis que os alunos emitiam.
  – Tudo bem, classe. Sei que estão confusos sobre isso, mas vamos fazer uma atividade diferente. Uma coisa que nos faça liberar todos os sentimentos presos e que estão entalados na garganta, nos sufocando – pausou, respirando ainda com aquele sorriso de quem poderia abrigar o mundo debaixo do braço – Algo me diz para começarmos com , mas acho que todos queremos ouvi-la por último. Então passamos para nossa amiga Bárbara. Já que começou com as piadinhas, que tal terminá-las?
  Um olhar torto e muito mal encarado foi enviado à Adriana vindo de Bárbara, mas mesmo assim, ela sorriu plasticamente e pigarreou.
  – Hoje eu acordei feliz! Mas depois que vi nesse humor, meu coração foi despedaçado! Acho que nossa amiga é muito carente ou sofre de depressão!
  – EM DEPRESSÃO SUA CARA VAI ESTAR AMANHÃ! – rosnei, sentindo um par de braços me segurarem quando levantei para quebrar a cara daquela garota. Sentei novamente, vendo a onda de cabelos loiros chicotearem em minha cara.
  Nem me importei em ver quem tinha me segurado, era apenas um aluno qualquer querendo impedir uma briga qualquer. Não seria ninguém interessante. Até porque Bennet estava do outro lado da sala com os olhos levemente arregalados.
  – Exatamente isso que eu estou falando! Impor os sentimentos assim! Não que seja necessária uma ameaça junto a ele, mas tem que colocar os sentimentos para fora! Falar o que se passa em sua cabeça nesse exato momento! Mas sem piadinhas, por favor. – olhou diretamente para Bailey, que parecia tão assustada quanto .
  Uma voz foi ouvida do meu lado, um garoto. O que me impediu de bater em Bárbara.
  Agora, ele parecia magro demais, alto demais, branco demais e com cor de menos. Se não fosse toda aquela falta de vida que ele transparecia, seria muito bonito. Seus cabelos eram loiros, tinham um brilho que não estava presente em si, e cachos bagunçados, mas bonitos. Seus olhos eram tão castanhos que provavelmente eram mais bonitos que muitos azuis por ai. Sua boca era fina, sem cor, mas sexy de um jeito único. Mesmo com toda aquela beleza escondida, me perguntei como ele conseguiu me segurar com tanta força, sendo tão magro.
  – Posso falar o que eu estou sentindo no momento? – Adriana assentiu, sorrindo por alguém ter se prontificado à tarefa – Mas envolve uma pessoa. Sem piadas, só o que eu estou sentindo lá no fundo. Ainda posso? – assentiu novamente, com um olhar curioso por trás do sorriso – Eu estou me perguntando por que diabos segurei . Do jeito que a garota falou dela, merecia ter apanhado mesmo. Meu único arrependimento é esse. Mas sabem o que dizem, não se pode ir para enfermaria duas vezes na mesma semana. – gelei. Como ele sabia que eu fui para a enfermaria?
  Arrastei os olhos com toda vontade do mundo até Bennet, que sorria prontamente e deu uma risadinha quando todos estavam confusos sobre o comentário do garoto que, até um minuto atrás, ninguém sabia quem era.
  – Sou Drummond. Mas acho que a sala inteira sabia, menos você.
  – Deve ser porque eu cuido de minha vida. Não fico dando opinião na vida dos outros.
  – Cuidado, , daqui a pouco ela voa em cima de você para te bater também. E você iria ter evitado uma briga por nada, porque ela iria para a enfermaria de qualquer jeito – mais uma vez, aquela voz irritante me fez querer ser totalmente surda. Ou ter um revolver na mão.
  – Por favor, eu não bato em garotas.
  – Mesmo que batesse, todo mundo sabe que eu iria para diretoria. Quem estaria na enfermaria seria você. – seu sorriso era debochado, de um jeito que eu não gostei nadinha. Soltei minhas pernas e as deixei jogadas, apoiei minha nuca nas costas da cadeira e joguei meus cabelos para trás, massageando minhas têmporas de olhos fechados.
  – Você bateria em mim?
  – Ao contrario de você, meu querido , eu não vejo problema em bater em garotas. – finalmente eu estava tirando proveito de minha situação.
  Por três segundos, pensei em limpar minhas lágrimas e provavelmente o rastro preto causado pelo lápis de olho exagerado. Clichê demais.
  – Então, ela tem senso de humor.
– sorri vagamente, nem querendo mudar minha posição para olhar quem comentara, como se eu não conhecesse aquela voz – Eu vou ter que aprender a lidar com essa bipolaridade que vive em você, Dawson?
  – Não sei, Bennet, você decide com o que vai lidar.
  – Quem é você, Dawson?
  – Quem sou eu? Depende da pessoa que você quer que eu seja, Bennet. Se bem que ver você perdendo a paciência por mim, deve ser uma maravilha.
  – , ver você perdendo a paciência por mim é uma maravilha, lembro bem do nosso primeiro encontro. Pena que apenas eu e você estávamos na enfermaria, as outras pessoas poderiam ver como você é interessante perdendo o juízo.
  – Bennet – sentei ereta, o encarando profundamente e pensando nas coisas que iriam sair de minha boca – eu sou interessante de qualquer jeito e sei fazer coisas interessantes de qualquer jeito. Mas você nunca verá nada disso. E eu vou ficar quieta, pois nessa sala existem algumas crianças que abrem a boca, espantadas, quando chegamos pertos de assuntos que envolvem garotos e garotas.
  – Garota, só porque você é uma puta não significa que todos nós tenhamos que ser especialistas em sexo ou termos vergonhas do assunto.
  Senti meus pés puxarem um impulso da cadeira e meu corpo ser jogado para frente, mas como sempre, algo me interrompeu antes que eu chegasse à puta mimada da Bárbara. Mas dessa vez não fora quem me segurara.
  – Me solta, Bennet. – gritei, e mais uma vez a sala estava espantada com minha reação. Qual é gente? Fiz isso duas vezes só hoje, se acostumem, temos pelo menos mais cento e noventa e cinco dias juntos para eu ter três surtos por dia.
  – Gravou meu perfume? – estava na hora de encontrar alguém com a mesma linha de pensamentos sarcásticos que eu. Ou ele estava acima de mim? Impossível.
  – Me solta, Bennet.
– repeti, expressando a fúria por trás de minha voz, eu provavelmente estava descabelada e com o rosto ainda manchado de preto. Será que me mandariam para um reformatório?
  – Você não vai bater na Bárbara, me ouviu? Apenas ignore o que ela disser, respire fundo e finja que ela não está falando contigo.
  – É porque não foi você quem chamaram de puta! BENNET, ME LARGA AGORA!
  Meu corpo foi puxado sem pudor, os braços que seguravam os meus segundos atrás estavam em meu pescoço agora, uma de suas mãos desceu para minhas costas e a outra parou em minha bochecha.
  – Não fui eu, porque se me chamassem de puta eu iria rir. Agora você não. Já disse, finja que não foi com você. Você pode ser muitas coisas de ruim, mas puta eu sei que você não é.
  – Você não sabe de nada. – soltei pesadamente, suspirando e sentindo novas lágrimas escorrerem pelo caminho que já estava seco.
  – Sei que você é inteligente o bastante para escolher com quem vai trocar saliva. – sem sarcasmo, sem intenções por trás das palavras. Ele parecia apenas um garoto tentando acalmar uma garota – Passei a semana te observando, Dawson. Talvez devesse sair desse mundo onde você vive e não deixa ninguém entrar.
  Fui envolvida em um abraço, que por alguns segundos pareceu ser a válvula de escape daquilo. Me julguem, mas um abraço era tudo que eu precisava. Não especificamente de Bennet, de qualquer pessoa – exceto Bárbara –, naquele colégio. Ou na rua, ou em casa. Eu precisava ser abraçada.
  Encostei a bochecha úmida no braço de , fazendo questão de molhar seu uniforme branco e de sujá-lo de preto. Puta merda, , ele está te ajudando, não seja uma cretina apenas uma vez.
  Ele apertou o abraço e eu levantei o rosto, observando os detalhes dele. Alto demais, nada magro, era forte demais para a oitava série. Tinha algo em seus olhos que acalmou a fera que estava presa dentro de mim. E que olhos. Azuis, seriam mesmo azuis ou aquilo era uma miragem perfeita demais? Seu cabelo extremamente preto, caía abaixo de sua orelha, bagunçado e lindo. Me perguntei como era enfiar os dedos ali dentro e quem sabe os puxar. Sua pele era branca, corada nas bochechas por natureza. E seus lábios... Me perguntei mais uma vez se estava diante de uma miragem. Eram finos, não finos demais, mais do jeito certo, do jeito sexy e bonito. Tinham uma cor forte, do tipo que gritava que com dois minutos sendo usados em algo, ficariam muito vermelhos e mais sexys do que já eram.
  14 anos, , pare de pensar como quem tem 16 ou 17.
  – Sei também que essa é uma máscara que esconde quem você realmente é. E acredite, , eu ainda vou desmascará-la.
  Toda aquela admiração foi substituída por um ódio.
  Levantei as mãos e empurrei seu corpo para longe do meu.
  – VOCÊ É UM TREMENDO BABACA, BENNET! EU NÃO SEI COMO POR DOIS SEGUNDOS ACHEI VOCÊ UMA PESSOA LEGAL, PORQUE VOCÊ NÃO É! VOCÊ É UM IDIOTA! IGUAL A MAIORIA DAS PESSOAS DESSE COLÉGIO!
  E mais uma vez, voltei para minha cadeira com raiva, fazendo cabelos voarem e todos pararem para olhar a maluca da sala, mais uma vez. Talvez eu devesse cobrar para eles assistirem ao show de horrores.
  – Você devia ir para um motel com seu namoradinho, . – mais uma vez, mais uma vez. Será que com tantas pessoas, ela tinha que infernizar logo a mim?
  – Vamos lá, Barbie, todos nós sabemos que quem quer sentar no colo do Bennet e gemer loucamente é você, não eu.
  – Co...
  – CHEGA! CHEGA! CHEGA! CHEGAAAAAAAAAAA! – num pulo, Adriana estava no meio da sala gritando e não espantando os alunos, que já estavam acostumados com gritos inesperados no meio da sala – Isso era o que vocês estavam sentindo? O que estava entalado na garganta de vocês? – assenti, ainda séria – Meu Deus, não quero nem saber o que passa no resto da sala. – ela olhou para três pessoas em especial, que eu nem precisarei citar nomes – Vamos fingir que essa aula nunca aconteceu e nós estávamos nos conhecendo como pessoas normais em sua primeira aula. Não sei por que diabos vou perguntar isso. Mas alguém aqui tem algo para dizer? – uma garota levantou a mão, ela parecia estar assustada de um jeito engraçado, como se apreciasse aquela briga como alguém aprecia um grande sorvete num dia de verão – Que não tenha o nome de nenhum dos três. – ela corou e abaixou a mão em seguida – Existe alguma ofensa? Algo por trás? – balançou a cabeça, sorrindo maliciosamente, claro que existia algo por trás – Vá em frente.
  Ela suspirou profundamente e abriu a boca.
  – Bem, eu devo admitir que durante toda essa briga maravilhosamente interessante, a única coisa que me chamou realmente atenção foi como a fica sexy e atraente com esse cabelo bagunçado e com a maquiagem borrada. – soltei uma gargalhada e limpei a maquiagem por impulso, Adriana rolou os olhos como quem já havia desistido daquela turma.
  A garota tinha cabelos coloridos e interessantes, seus olhos eram amigavelmente castanhos e ela era pequena, talvez oito centímetros menor que eu. Se não fosse pelos seus olhos, extremamente contornados pretos, ela pareceria uma boneca de porcelana.
  Seu nome era .
  E foi assim que eu arranjei minha primeira amiga.

4 - É melhor trabalhar, vadia

< p align="center">Junho

  

era uma das melhores pessoas no mundo. Ela dividia tudo comigo, do pensamento até o refrigerante. Éramos como irmãs gêmeas, tudo que uma pensava a outra já tinha a resposta. Seu único defeito era que, muitas vezes, estava de guarda. Ele tinha uma obsessão por ela, sempre pedia para ficar com ela ou tentava agarrá-la, mas ela nunca queria. Não que eu esteja com ciúmes ou coisa parecida, mas esse garoto me irrita.
  Ele tenta ser legal, mas não é. O pior nem é que ele esteja correndo atrás de , e sim que ele esteja namorando com... ADIVINHEM A PEÇA DA VIDA? Talvez o Tocantins inteiro para quem disse: Bárbara.
  Ela é irritante, chata e eu tenho uma grande lista de antecedentes de quase brigas com ela, mas a garota tem mais enfeites que uma árvore de Natal. Bem, isso é muito ruim – na verdade, que merda de ruim. Isso é ótimo, Bárbara que se foda bem grande.
  Ela escolheu namorar o Bennet, só porque o garoto é gostoso e gato pra caralho.
  O que foi isso, Dawson?
  – Bom dia, classe. Bem... – classe? Ahn? Eu estava sem prestar atenção em mais uma aula? Puta merda, acorda pra vida, Dawson – Como já sabem, temos um seminário de história em mãos, e o assunto é a Revolução Industrial que aconteceu na Inglaterra. Lembrem-se de que eu não mandei reunirem grupos, então não fiquem alegres achando que vocês irão escolher seus parceiros. Vamos pensar de um novo jeito, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades e, quem sabe, nos livrar daquela panelinha social. – Juliana sorriu alegremente, era nossa professora de história. Apesar da idade, ela ainda tinha traços jovens e um sorriso angelical, ela me fez gostar de história na sexta série, mas perdeu toda a graça na oitava – O primeiro grupo será Dawson, Ferraz, Drummond e Bennet – e foi ai que aquele sorriso angelical se transformou numa risada diabólica e maquiavélica, uma fumaça verde saiu do chão e inundou onde ela estava e sua roupa ficou toda preta com aranhas por toda parte... Não, espera aí.
  É, acho que eu exagerei.
  – Professora... – comecei, piscando os olhos rapidamente de forma meiga.
  – Não. – vociferou do outro lado da sala.
   Uma risadinha rompeu meu silencio e eu pude ver quem era o dono. Bennet. Minha única vontade era de jogar meu celular em sua cabeça, mas é o único que eu tenho e provavelmente, TPM não é desculpa para tacar celulares na cabeça dos babacas da sala.
  Juliana continuou falando quais os outros grupos e, no final da sala, haviam vários quartetos formados. E pela primeira vez, a sala parecia realmente interessada. Talvez por esse trabalho ser o salvador do semestre – que estava quase no fim – de todos e uma grande chance de se livrar da recuperação de história no fim do ano ou pelos alunos estarem realmente interessados no assunto. Fico com a primeira opção.
  Abri o livro emburrada e comecei a destacar as partes mais importantes do assunto. ficou encarregada de fazer o resumo, conseguiria algumas máquinas a vapor de um parque de exposição e me ajudaria a fazer o slide em si.
  – Eu posso fazer o slide com a ! – resmunguei fitando que fizera o sorteio – Sério que eu tenho que fazer a porcaria do slide com o ? Não tinha pessoa pior para colocar? Como Adolf Hitler? – e a sala toda se calou olhando para mim, como se segundos antes de eu começar a gritar estressada todos se calassem querendo prestar atenção no que a futura professora de recuperação deles falava.
  – Pelo menos você citou alguém real, – Juliana murmurou erguendo uma das sobrancelhas – achei mesmo que você ia falar Voldemort.
  – Amiga. – falou baixinho em minha direção – Vai ser apenas um trabalho. Nos juntamos todos em um sábado na casa de alguém e fazemos o trabalho todo de vez.
  – Certo. Na minha casa. Sábado às nove horas da manhã. Ai vocês almoçam lá, minha mãe vai adorar ver pessoas indo a minha casa.
  – Ela ia adorar saber que fomos obrigados.
  – ! – me beliscou disfarçadamente – Eu só vou poder aparecer perto de dez horas, então vão ficar fazendo nada durante uma hora sem mim. – ela sorriu, deixando a mostra seu piercing no smile. Mande uma mensagem para nós, informando o local. Começamos e terminamos no mesmo dia!
  Olhei atravessada para , ela soltou um riso abafado e sorriu mais uma vez. estava radiante, diabo sabe porquê, e ... Ele sorria de orelha a orelha.

****

  

Sábado chegou e eu fui para a casa de , e tive que admitir que fiquei impressionada. Sua casa tinha dois andares, era larga, com persianas azuis, e alguns detalhes brancos. Havia um grande jardim de inverno atrás da cerca elétrica, com várias espécies de flores. No andar de baixo, havia duas árvores pequenas e amareladas, com rosas vermelhas rodeadas de pedras brancas e brilhantes. A grama parecia estranhamente verde demais, e o portão também era branco.
  Antes que eu pudesse tocar a campainha, abriu a porta com um sorriso que, estranhamente, parecia sincero.
  – É você. – ele disse com desdém – Mesmo assim. Oi! – vestia uma blusa branca com a palavra BAZINGA estampada na frente, uma bermuda jeans escura e estava descalço, sua cara era de quem fora acordado nos últimos segundos, mas mesmo assim, sorria sinceramente.
  – Oi. – disse tentando ser empolgada, por mais que ele tenha feito um comentário negativo, ele estava um pouco empolgado. Talvez nos sábados eu pudesse tirar uma folga de ser insuportável – Então, fui a primeira a chegar?
  – Foi sim. – ele pausou como se tivesse esquecido algo – Entra, minha mãe está lá dentro preparando o almoço. Espero que goste de lasanha de frango. – assenti com a cabeça sorrindo, eu adorava lasanha de qualquer jeito – Bem. Vamos fazer o trabalho no meu quarto, pois é o único cômodo que temos paz e internet.
  Por dentro, havia mais um jardim, com girassóis e mais rosas. Perto de um pé grande de rosas vermelhas, havia uma delicada e pequena grade branca. Bem abaixo dela, havia duas criaturas com olhos grandes e azuis, duas grandes bolas de gude. O maior tinha pelos longos e brancos, sua pata esquerda era pretíssima e ele balançava sua língua para lá e para cá. O menorzinho tinha o pelo todo preto, sem nenhuma mancha branca, sua cauda parecia um chocalho mais rápido que o normal.
  – Bem, essa é a Liz e esse pequeno é o Marvin, ele tem três meses. – se abaixou e afagou os pelos de Marvin, que lambia a mão dele.
  – Oi Marvin. Tudo bem? Eu sou a . – alisei a cabeça dele e percebi que Liz olhava minha mão atenciosamente – Oi Liz. Como você é linda. – fiz carinho em sua cabeça e ela fechou os olhos como se estivesse gostando. levantou e andou em direção a uma porta e ficou parado me esperando – Tchau, Liz. – sorri para a cadela e fui andando em direção a .
  Parei na porta e fitei seus olhos, eles pareciam felizes, com um brilho estranho.
  – Porque está feliz assim? – perguntei num tom baixo e nada arrogante.
  – Bem, eu não tinha muitos amigos e minha mãe estava preocupada comigo, então eu fico feliz em poder trazer gente para minha casa e poder apresentar a minha mãe. – ok, eu senti pena dele. Não ter amigos era uma coisa terrível, até mesmo para .
  – Se você se comportar hoje, podemos começar uma amizade. – sorri e dei um passo.
  Segundos depois, e eu estávamos presos na porta entreaberta da sala de entrada da casa dele, nós dois fomos no mesmo momento e acabamos prendendo ambos corpos.
  – Sua sorte é que é muito pequena, pois eu provavelmente ficaria tentado a te beijar. – corei, por três segundos eu dei uma risada estranha e puxei meu corpo para esquerda. Segundos depois, dei um tapa de leve no seu ombro.
  – Sua sorte é que é muito grande, pois esse tapa deveria pegar na sua cara.
  Olhei para frente rindo e me deparei com uma garota alta, com longos cabelos pretíssimos e lisíssimos. Ela tinha olhos mais verdes que o comum e um sorriso bonito. Seus traços eram perfeitos, seu nariz era afilado e empinado, seu queixo era um pouco fino e seu corpo era de uma digna rainha de escola de samba.
  – Olá, ! Sou a Agatha, mãe do . Ele me falou muito bem de você! É um prazer finalmente te conhecer! – ela estendeu a mão e depois me deu dois beijinhos no rosto.
  – É um prazer te conhecer também! me falou que você adora receber pessoas aqui, mas não me disse que era tão linda! – sorri sendo simpática e muito verdadeira, a mãe de botava a maioria da garotas do colégio inteiro no chinelo – Então, o que o fala de mim? – perguntei olhando rapidamente para a expressão envergonhada de .
  – Ele disse que uma das únicas coisas agradáveis na sala de aula são suas brigas com os professores e o jeito que você sempre corre atrás do seu ponto de vista e sempre expressa o que sente. Eu particularmente aprecio muito isso! – seria pedir muito pra minha mandíbula boca não abrir? Ou cair? Quem sabe deslocar? Bennet falando bem de mim? É isso mesmo, produção?
  Vi que estava vermelho e com os olhos arregalados. Uma ajuda não mata ninguém.
  – Bem, ele é um grande amigo. Me ajuda muito quando preciso. Acho que eu não conseguiria resolver muitos problemas sem a ajuda dele! – olhei de relance para , que murmurou alguma coisa parecida com um “Obrigado.”
  – Fico feliz que ele tenha feito amizade com você! Bem, não faz muitas amizades, mas eu não vou continuar com esse assunto, pois ele acha que eu vou matá-lo de vergonha! Vou continuar preparando o almoço, subam e vão estudar! – apontou para a escada e eu comecei a subir os degraus – E , – ela me chamou sorrindo – por favor, consiga tirar meu filho da oitava série!

5 - Antes de você ir embora

Junho

  

Subi as escadas contendo o riso, será que tinha falado para a mãe dele que eu tinha repetido a oitava série? Acho que não.
   vinha logo atrás de mim, abriu uma porta que continha vários adesivos colados na madeira e entrou no cômodo. Era seu quarto.
  – Por favor, não preste atenção na bagunça. – ele falou baixinho, ainda com o rosto corado, mas agora suas bochechas estavam iguais a um rubi, de tão vermelhas – Bem, para falar a verdade, eu já fiz o trabalho inteiro com o resumo que a fez e achei umas imagens legais, só queria que você revisasse tudo e visse se está realmente bom. – uma parte de mim ficou com raiva, quer dizer que eu não tinha feito merda nenhuma? Mas pelo menos só iria ter que revisar algumas coisas.
  Observei seu quarto e percebi que não era bagunçado, talvez fosse dez vezes mais arrumado que o meu. O quarto era todo azul claro, com uma parede pequena só com fotografias e um pôster gigante de Harry Potter. Meu coração palpitou. HARRY POTTER! HARRY POTTER! Bem, voltando ao mundo real. Ele tinha apenas a cama e um imenso guarda-roupa que, provavelmente, ocupava uma parede inteira. Ambos brancos. Seu quarto era interessante de um jeito muito descolado.
  Uma coisa chamou minha atenção. Não tinha mesa de computador nem nada, muito menos cadeiras. Onde eu iria sentar?
   pegou um controle branco e ligou o ar-condicionado do seu quarto, o que não ajudava muito pois sua porta estava aberta.
  – Não fica gelado se a porta ficar aberta – disse num tom de voz desagradável. Duas coisas que eu não gostava. Calor e ficar num cômodo sozinha com Bennet. A primeira vez que isso aconteceu, não foi uma das mais agradáveis. O que esperar da segunda?
  – Tudo bem – ele deu de ombros e fechou a porta do quarto.
  – Bem, – em cima da cama estava um notebook branco, coloquei meu celular no bolso e minha mochila no chão e na maior cara de pau, me joguei na cama de de barriga para baixo e balançando os pés – eu vou olhar o slide e acrescentar o necessário, onde está seu livro? – abri o notebook e liguei, esperando carregar e sorrindo.
   me observou por cinco segundos e depois voltou ao mundo real.
  – A senha é 1983, está na tela inicial, acho que dá para você achar pelo nome, porque eu não lembro o título que coloquei. – ele caminhou até o imenso guarda-roupa, empurrou um pouco a porta para direita e lá estava uma grande e invejável estante de livros. Pelos segundos que eu pude ver, tinha mais livros do que eu pude contar. Ele gostava de Harry Potter e de ler? Como assim produção?
  Tirei os olhos dele e abri o arquivo, olhando tópico por tópico e ainda balançando os pés, só que agora eu me segurava para perguntar de livros para ele, o que fugia completamente do assunto colégio, mas abria uma porta para uma amizade.
   sentou-se no chão, do meu lado e abriu o livro no capítulo do assunto enquanto eu procurava erros no seu slide. O que foi frustrante, pois o trabalho inteiro estava perfeito, do design escolhido até as imagens do assunto, talvez 15 vezes melhor do que meu melhor trabalho.
  – Tenho noticias ruins. – meu tom de voz era uma mistura estranha de frustração e alegria. me encarou com uma cara assustada, como se tivesse algo realmente ruim naquele futuro 10 – Eu sou inútil! Não precisa de correção nenhuma! Mas olhe pelo lado bom, – comecei acompanhando os olhos de – sem nada para fazer, você pode passar mais tempo olhando para minha bunda!
  Isso foi o cúmulo! Agora parecia roxo e sua cor estava sendo encaminhada para um preto ou coisa parecida, se eu não fosse a culpada pela vergonha, estaria com vergonha alheia pela cara que ele fez.
  – Então, e não precisam vir, e você infelizmente veio a toa. Vamos ficar sem fazer nada? – seu sorriso pareceu amistoso, mas algo em mim dizia que aquele nada tinha outro sentido.
  – Bem, primeiramente podemos falar de seu pôster de Harry Potter e quem sabe depois, falaremos da biblioteca particular que você tem no seu guarda-roupa! – agora eu estava realmente animada que senti vergonha de mim mesma pela tamanha animação.
  – Bem, minha infância foi resumida em Harry Potter, então eu amo essa saga mais que minha vida. Ler também, esses livros são abrigos para mim. – ele suspirou e me encarou com certo deboche estampado nos olhos – Mas quem sabe podemos falar na cara que você ficou quando viu minha mãe? Acho que faltou pouco para seu maxilar quebrar. – agora eu senti vergonha.
  Bem, se é pra brincar, vamos entrar na brincadeira.
  – Se ela não fosse sua mãe e, provavelmente, mais de vinte anos mais velha que eu, eu pegava ela. – me olhou do jeito que eu olhei para sua mãe, quase quebrando o queixo.
  – Você é lésbica? Isso explica não ter pedido para ficar comigo e por ser a única garota da oitava série que eu ainda não beijei. – bem vindos aos segundos de revelação!
  – Eu não sou lésbica. Estava apenas tentando curtir com a sua cara. – Suzana, Bárbara, Clara, Silvia, Carolina, Alexandra, Giulia, Leticia, Maria Júlia, Paula, Cecilia, Gabriela, Daniela, Diana, Karla, Bianca, Maria Clara, Flávia, Kelly, Cristina e Bruna... Acho que são as garotas de toda as turmas. Eca – Bem, sendo assim sou a única garota que tem juízo por não ficar com você. – parei por três segundos e pensei nos nomes, faltava uma garota – VOCÊ FICOU COM A ? QUANDO? COMO? ONDE?
   olhou para mim e soltou uma gargalhada alta e sincera, ele começou a rir como se estivesse vendo um palhaço ou uma pessoa caindo de uma bicicleta. Rindo de um jeito que eu gostaria de entender.
  – Ela não te contou? – neguei com a cabeça ainda assustada – Ela foi a primeira. Mas não foi a melhor. Aqui para nós, ela não beija muito bem. – não consegui responder ou coisa parecida, ainda estava com a boca aberta.
  – Então por que continuou correndo atrás dela por semanas? – perguntei curiosa, se ela não beijava bem e mais outras 20 e poucas garotas queriam ficar com ele, por que diabos ele havia insistido em ?
  – Porque ela disse que da próxima vez teria mais coisas – ele me olhou de modo safado e eu senti vontade de estapear sua cara com uma sandália de couro – Mas depois de um tempo eu desisti.
  – Pelo menos em uma coisa eu não me enganei em relação à oitava série desse ano. – resmunguei brincando com os dedos – Realmente só tem vadias nessa classe.
  – Bem, então por sua visão, uma garota se torna vadia por ficar comigo? – ele levantou e ficou de joelhos e direcionou o rosto para perto do meu, com um sorriso que dizia mais coisas do que eu gostaria de entender – Suponho então que você não queira ser uma vadia – arqueei a sobrancelha e deixei meu rosto ainda mais próximo do dele.
  Ele ainda sorria daquele jeito, era um sorriso mais que irresistível, não pude mentir, um sorriso que faria todas as garotas do mundo querer o beijar naquele exato momento, inclusive eu.
  – Você quase sempre supõe coisas erradas – sorri do mesmo jeito que ele sorria para mim e quando ele chegou mais perto, esperando um beijo, eu disse: – Mas em relação a isso, você acertou. – e mudei de posição, deitando na cama dele de barriga para cima – Então, Bennet, quem você vai pegar até o final do ano? Vai ficar com a Bárbara ainda? Dar mais cornos nela? Ou vai pegar os garotos agora? Já que pegou todas as vadias daquela classe.
  – Bem, você é meu projeto inacabado. Alguma chance de conseguir completá-lo até o fim do ano? – ele olhou nos meus olhos, tentando me hipnotizar com aquela imensidão azul.
  – Podemos conversar sobre isso no Natal. – mordisquei meu lábio inferior e olhei também no fundo dos seus olhos – Mas você tem que ser um bom garoto – falei num tom de voz mais sexy do que eu gostaria.
  – Eu posso começar a ser um bom garoto agora, só depende de você. – ele venceu, no tom de voz que ele falou e do jeito que ele me olhou, eu senti uma imensa vontade de beijá-lo naquele exato momento.
  – Estamos em junho ainda, você tem mais um semestre para me conquistar. – levantei em um pulo, peguei meu celular e mandei uma mensagem, coloquei minha mochila nas costas e fui em direção a porta – Meus pais estão me esperando no clube, já vou. Tchau.
  – Mas e ainda vêm para cá! E minha mãe fez o almoço só para vocês! Seria muita grosseria de sua parte sair assim. – verdade – E bem, seus pais sabiam que você iria almoçar aqui, então eles não vão sentir sua falta.
  – não vem mais, ela disse que teve que viajar oito horas porque hoje é o aniversário da avó dela. Eu já sabia, mas não quis falar.
  – Mas vem ainda, poderíamos passar a manhã fazendo alguma coisa legal. Mas por favor, não vá embora. – o olhar dele era mais que sincero, ele queria mesmo que eu ficasse.
  – , eu vou para... – ele foi para cima de mim e me beijou. Eu não queria que ele tivesse feito isso, não queria mesmo, mas eu não consegui simplesmente empurrá-lo e parar o beijo. Virei um pouco a cabeça e fechei meus braços ao redor de seu pescoço, fiquei na ponta do pé para conseguir chegar mais perto dele. Os braços de apertaram minha cintura de um jeito que doeu, segundos depois ele soltou um pouco e me puxou para cima. Eu senti seu corpo ficar preso ao meu e depois fiquei arrepiada ao sentir a superfície gélida e lisa da porta do seu quarto.
   Então por isso que todas as garotas ficaram com ele, por causa desse beijo. parou de movimentar a boca, mas não se afastou, continuou ali, com os lábios juntos aos meus. Me afastei e continuei na ponta do pé para conseguir olhar no seus olhos e ver sua expressão.
  – Bem, você conseguiu não foi? Completou sua lista de alunas. Agora por favor, – tirei os braços de seu pescoço e o empurrei – saia da minha frente porque eu quero ir para casa.
  Antes que ele pudesse falar algo, abri a porta e desci as escadas rapidamente, me batendo com Agatha ao chegar perto da saída.
  – O que houve? – ela parecia preocupada, seu tom de voz era uma mistura de surpresa e curiosidade – Pensei que fosse ficar para almoçar.
  – ainda virá. Você não vai sentir minha falta. – falei tentando não ser grosseira.
  – Mas por que você não vai ficar? – ela perguntou – O que houve? – repetiu a pergunta e me olhou de modo curioso.
  – Seu filho me beijou. Eu não queria que ele tivesse me beijado pelo fato de ter beijado todas as garotas das duas oitavas séries. Quer mais alguma explicação?
  – Ah. – ela suspirou, como se fosse apenas aquilo, como se não estivesse surpresa pelo seu filho ter chupado a língua de todas as garotas de duas turmas.
  – Não parece surpresa.
  – Não estou. – ela sentou na bancada da mesa e começou a balançar os pés – Eu desconfiava que ele tinha beijado a escola inteira. Mas saber que foi apenas a oitava série significa que não foi tão ruim. Por que ele te beijou?
  – Porque eu estava indo embora.
  – Ele achou que, se beijasse você, ficaria aqui. Golpe baixo. Bem, o que ele não sabia era que isso faria você querer estapear a cara dele e daria vontade de ir embora, certo? – assenti com a cabeça, ela me entendia, mais que ninguém, o que é até estranho, pois ela é a mãe do garoto que eu quero capar – Bem, eu tive sua idade. é igual ao pai, ele fez a mesma coisa comigo. Mas houve uma grande diferença entre eu e você.
  – Qual? – perguntei num tom curioso.
  – Eu fiquei grávida meses depois. Tive com 15 anos. Meus pais quase me mataram, mas eles estavam certos. George não tinha um pingo de responsabilidade. Mas graças a Deus, o tempo o mudou. – Agatha sorriu de modo sereno e continuou a balançar os pés – O que você fez quando ele te beijou?
  – Retribui o beijo. – meu tom de voz era baixo e envergonhado, se eu não tivesse deixado, ele nem teria começado direito – Mas depois eu gritei com ele. – como se isso fosse alguma defesa, eu tinha deixado ele me beijar, não podia ficar com raiva.
  – Bem, eu peço que você fique para almoçar conosco. – assenti com a cabeça, que mal faria fazer amizade com uma mulher que só é 16 anos mais velha que você? – Você pode me ajudar a levar as coisas para o térreo?
  – Térreo?
  – Bem, hoje é sábado. Todos os sábados nós almoçamos no térreo e depois ficamos na piscina. Espero que tenha trazido um biquíni.
  E eu trouxe. Que sorte.
  Encaixei a mochila nas costas e peguei alguns pratos de porcelana branca, depois enfiei os talheres prateados em um recipiente de plástico para não caírem e se espalharem pelo chão. Agatha estava com tantas coisas nos braços que eu me senti inútil, foi na frente e com alguma magia negra, abriu a pequena porta que prendia os dois cachorros e sumiu da minha vista.
  Esse portão levava a uma escada, e depois tinha uma pequena porção de piso um pouco íngreme e, logo após, algo que se parecia uma garagem de bicicletas, e lá atrás eu vi um pequeno paraíso particular.
  Havia dois coqueiros e uma mangueira bem no fundo, o chão era misto, alguns lugares havia uma grama verde e em outros, um piso colorido e chamativo. A piscina era gigante, ocupava a metade do quintal, havia duas mesas brancas com guardas sol e cadeiras também brancas. Um chuveirão se encontrava ao lado do quiosque que Agatha arrumava as coisas em cima de uma grande mesa de vidro.
  Caminhei até o quiosque – havia um pequeno caminho com as pedras coloridas que dava até o local –, arrumei os pratos e os talheres em ordem. Agatha foi até um pequeno freezer e jogou um saco de gelo – que apareceu também com magia negra – e depois sentou em uma das cadeiras da mesa.
  – Bem, eu espero que esse tal de realmente venha.
  – Ele é um pouco tapado, quieto, mas quando abre a boca assusta um pouco. – assumi, era um garoto idiota e normal para a idade.
  – Tapado? Do tipo ou do tipo videogame?
  – Por favor, na presença de não murmure a palavra videogame, nem pense nela. O menino sabe até o nome dos criados dos jogos e não é algo agradável para ficar ouvindo durando algumashoras. – murmurei com certa repugnância, eu odeio videogames – é um tapado? De que tipo? – ela me olhou como se eu perguntasse em que planeta nós vivemos – Por favor, não me olhe assim. Acho que seu filho tem dupla personalidade, porque tirando essas coisas de garotas e galinhagem, ele é bem maduro. E muito educado. Na verdade, eu nunca imaginei que ele fosse tão educado.
  – Não achou que quem fosse tão educado?
  – Você. – respondi mudando o tom de voz para uma mistura de azeda e insuportável. Olhei atravessado para e depois virei o rosto lentamente em direção à mãe dele.
  – Também não achei que você fosse tão chata. – resmungou.
  – E eu, , achei que você não gostasse de dividir saliva com todas as garotas da sua classe. – ri abafadamente, de um jeito radiante – E também pensei que não beijasse garotas só porque elas se irritaram com sua presença.
  – Você contou para ela? – assenti com a cabeça ainda rindo – O que faria se eu chagasse para seu pai e dissesse a ele que nos beijamos?
  – Eu ficaria parada vendo ele te espancar e depois arrancar seu peru. – dei de ombros e sorri – Agora, se não se importam. Eu vou trocar de roupa e colocar meu biquíni. – comecei a caminhar em direção a uma pequena porta com uma placa escrito MULHERES.
  – Mas seus pais estão te esperando no clube. – vi Agatha dar um tapa no braço de de relance e continuei rindo. Entrei no banheiro e troquei de roupa rapidamente, coloquei uma saída de praia preta por cima do biquíni, enfiei minha roupa na mochila e sai do banheiro.
   havia chegado e estava conversando empolgado com . Ele não era um garoto chato, mas tinha amizades erradas. Com ele, eu descobri coisas que pareciam muito intrigantes, como o fato de ter 16 anos e ter perdido a oitava série no ano anterior, do mesmo jeito que ele também perdeu e por alguma coisa do destino, também.
  Me aproximei dos garotos e ouvi dizer algo parecido com “Falando no cão.”
  – Bem, eu adoraria saber o que estavam falando de mim. – coloquei minha mochila encostada atrás da mesa e sentei na bancada – Hm, deixe-me adivinhar. Vocês estavam falando sobre como me agarrou no quarto dele? – meus olhos tinham um ar sarcástico e eu tinha um sorriso no canto dos lábios.
  – Quase isso. Na verdade, eu estava falando que finalmente você entrou para o clube de vadias da oitava serie, por ter me beijado. – imediatamente meu sorriso sumiu e eu fiquei sem reação. Idiota, idiota, idiota. Como eu achei que podia ser amiga disso?
  – Bem, , tem uma coisa que você não sabe sobre mim. – pulei da bancada e fiquei de pé, caminhei até a piscina e parei na ponta, soltando meu cabelo de forma que balançasse com o vento e quando percebi que os garotos seguiam na minha direção, puxei minha saída de praia e fiquei apenas de biquíni – Eu fundei o clube das vadias.
  Mergulhei perfeitamente na piscina e segundos depois, levantei colocando a cabeça fora da água e batendo os pés para conseguir ficar de pé.   – Por que vocês não entram, garotos? A água está uma maravilha. – abaixei novamente e ouvi um estrondo bem atrás de mim. e haviam pulado juntos na água. Nadei rapidamente para algo que me parecia o raso, onde havia uma elevação. Um lugar onde eu poderia ficar totalmente em pé. – Ei! – chamei os dois garotos que estavam em pé – Vamos brincar de pega-pega! – eles realmente não prestavam atenção no que eu disse. Estavam parados olhando para meu corpo.
  Quando se tratava do meu corpo, eu sempre tinha vergonha ou algo do gênero, mas uma coisa dentro de mim avisava que os hormônios a mais para quem tinha apenas 15 anos ajudavam muito naquele momento.
  – Então, eu disse para brincarmos de pega-pega na piscina! – gritei e eles rapidamente olharam para mim – , você pega. Conte até dez e pode pegar qualquer um. – dei o sorriso mais malicioso de minha vida e pensei na merda que eu estava fazendo.
  Mergulhei mais uma vez e percebi que estava contando de olhos fechados, passei pelo seu corpo e fiquei bem atrás dele, apoiando as mãos na quina da piscina e sorrindo.
  – Dois, um... – ele abriu os olhos e viu que estava do outro lado da piscina, procurou dos lados e olhou para baixo, abaixei rapidamente e passei por baixo de sua perna enquanto ele virava para onde eu estava.
  O braço de segurou meu calcanhar e me puxou, comecei a me debater de modo engraçado enquanto ele sorria. Respirei profundamente ao conseguir colocar a cabeça para fora. me segurou forte, como se não devesse me soltar.
  – O que está fazendo? – me soltei de seus braços e voltei para o lugar que estava antes, encostando o corpo na parede da piscina e fazendo ele se virar em minha direção, assim que ele viu o modo que eu sorria, puxou minhas pernas e fez um circulo com elas ao redor de sua cintura – Depois de fazer todo aquele escândalo, vai fazer o que eu quero?
  – Na verdade, – empurrei meu corpo para frente, apertando minhas pernas e levando a boca a orelha de , mordi o lóbulo e puxei a pele para baixo, depois, com um breve sorriso, terminei a frase – estou fazendo o que eu quero.
  – E o que você quer? – ele usou o mesmo tom de voz sexy do quarto, se eu não estivesse tão determinada, já estaria com as pernas bambas.
  – Esse é meu segredo.
  Mordi seu lábio inferior, sentindo seus pelos ficarem arrepiados, segurei seu braço e me apoiei nele. Suas mãos deslizavam e subiam pelas minhas costas, fazendo um carinho que certamente não me ajudava muito a ficar concentrada. abaixou a cabeça e começou a passar a ponta do seu nariz nos meus lábios entreabertos, depois de segundos seus lábios encontraram os meus. Abri a boca, fazendo menção para sua língua, que invadiu minha boca, segundos depois. A sensação de algo gelado na sua boca devastava todos seus sentidos. Retribui o jeito que ele me beijava, fazendo sua língua brincar com a minha segundos depois.
  Parei para respirar, sentindo o sorriso dele em minha boca.
  – Então, esse é seu segredo? – parecia tão ofegante quanto eu – Você beija seu travesseiro?
  Seu hálito quente, seus dedos fazendo carinho em minha nuca, sua boca macia roçando na minha pele, os pingos de água que caiam do seu cabelo molhado. Tudo me fazia querer derreter em seus braços. Mas nada daquilo me fez querer se apaixonar por ele. Eu sou boa demais para isso.
  – Não, – sussurrei em seu ouvido, voltando os lábios para os dele e os tocando levemente – se é um segredo, ninguém deve saber.
  Me soltei dos braços dele, pulei para fora da piscina colocando minha saída de praia de volta em meu corpo. Comecei a andar em direção ao quiosque e fiquei lá.
  – Oi, – acenei sorrindo.
  – Oi. – ele retribuiu meu aceno um pouco pasmo com tudo aquilo que havia acontecido.
   apareceu no meu ângulo de visão, ele não parecia muito amigável. Seria muito tolo se estivesse com um sorriso no rosto. Suas narinas pareciam maiores que o comum, seus olhos estavam um pouco escuros e furiosos, a linha fina e rígida que matinha a boca era séria e ao mesmo tempo sexy; eu simplesmente acharia graça de qualquer coisa que viria a seguir.
  – Por que ainda está aqui? – ele perguntou alterando seu tom de voz em cada palavra, ele falava alto e sem um pingo de paciência – Você acabou de me fazer de otário na frente do , me fez acreditar em coisas que não eram verdade e ainda...
  – Ainda o quê? – perguntei o interrompendo, aquilo era prazeroso, ver seu olhar confuso e sua expressão ainda mais atordoada, ele parecia cambalear em seus pensamentos.
  – Ainda me fez acreditar por alguns segundos que você é capaz de sentir algo. – suspirou olhando para baixo, ele parecia decepcionado por dentro, ele não estava realmente chateado ou coisa do tipo, aquilo não passava de um teatro, para eu sentir pena dos seus sentimentos e dar mole para ele.
  – Você está dizendo que não tenho sentimentos? Meu amor, assim eu fico ofendida! Você não sabe o que se passa dentro de mim, como pode julgar uma pessoa tão rápido só porque ela foi diferente com você? – sua expressão tinha mudado bruscamente, voltando para o urso assustador. Ele transmitia fúria no olhar, o que deixava as coisas mais interessantes – Meu bem, isso é um jogo. Você tem que se atualizar um pouco. Tsc tsc, está muito feio para você, não saber o que se passa aqui. Afinal, foi você quem fundou a brincadeira de gato e rato.
   – O que está fazendo? – ele perguntou pela segunda vez no dia, mas agora, ele não estava tão empolgado como na primeira vez.
  – Estou apenas mostrando que eu sei jogar. – misturei meu tom de voz sarcástico ao meu sorriso no mesmo estilo – Mas vamos e convenhamos, eu jogo bem melhor que você.

6 - Como uma vadia

Junho

  

O resto da manhã decorreu do mesmo jeito: soltando indiretas ridículas, rindo abafadamente e Agatha sorrindo de modo que não entendia nada do que se passava ali.
  Eu não via o mínimo de lógica nas coisas que eu estava fazendo, mas era divertido. O que foi muito contraditório foi que eu fiquei enraivada pelo Bennet ter me chamado de vadia, mas segundos depois mostrei a ele o que era ser realmente uma vadia... Isso não faz o menor sentido para mim, mas tenho que assumir que foi divertido.
  Perto do pôr do sol eu me despedi de todos e fui para casa com tanta informação que nem mesmo parecia que era eu.
  Já havia tomado banho e tirado todo o cloro do cabelo e corpo ainda na casa de , graças à insistência de sua mãe e, depois disso, ela havia me chamado para ver um filme com eles, a cara de seu filho ficou ainda mais emburrada quando ela nem mencionou o nome de na lista de convidados para aquele cinema de sala.
   Cheguei em casa e não havia ninguém, meus pais provavelmente tinham chegado do clube com minhas irmãs e saíram para outro lugar logo depois e nem se deram o trabalho de ligar para mim.
  Fui até meu quarto, joguei minha mochila em qualquer lugar e depois me joguei na cama com toda a vontade do mundo. Peguei meu celular e liguei para , que não sabia de nada e teria mais de uma surpresa hoje.
  Depois de dois toques, ela atendeu.
  – Você não consegue passar um dia sequer sem ouvir minha voz? Ok, pode assumir que ama o som de minha voz. – amava mais ainda a explicação que ela daria – E aí, o que rolou na casa do galinha mais cobiçado da oitava série?
  – ! Meu Deus, você tem que saber das coisas que ele me contou! – não iria ser tão fácil assim, eu ia jogar verde para colher maduro – não é tão ruim assim, ele é bem legal na verdade, acho até que depois de hoje, podemos ser amigos! – ouvi a risada de no outro lado da linha – Mas enfim, ele me contou o nome de todas as meninas que ele ficou! E não foram poucas... Quer dizer, as da oitava série... Cada ogro feio, não sei como ele conseguiu trocar saliva com aquele tipo de gente, sério.
  – Ele te falou todas as meninas que ficou lá do colégio? Todas? Todas mesmo? – seu tom de voz era assustado, e por dentro eu ria das palavras que saiam de sua boca.
  – Bem, nem todas, ele não me falou alguns nomes não é? Algumas ele deve ter muita vergonha de falar, mas eu nem liguei, foram tantos nomes que eu nem senti tanta falta assim. Mas enfim, não sei quem é pior, as nojentas lá do colégio por ficarem com ele ou ele por aceitar ficar com aquelas garotas que se humilham por um pingo de atenção. Fico impressionada com a vadiagem desse povo.
  – Eu também. Eca. Quem em santa consciência fica com Bennet? Ele já ficou com tantas garotas que não se pode contar com os dedos... Quem sabe ele tem alguma doença, ninguém sabe onde ele enfia aquela boca. De hoje em diante eu nem chego perto dele, vai que é contagioso!
  – Quanta hipocrisia cabe em você? Será que é contagiosa também? Que coisa feia, Ferraz, mentindo para sua melhor amiga. Isso é um exemplo de confiança, talvez um selo. Posso anotar o dia de hoje como o dia que fui traída pela minha melhor amiga por ficar com um cara que eu odeio! – palavras saiam como um canhão, quanto mais eu falava, mais vontade de falar eu tinha – Então quer dizer que se você soubesse que ele ficou com todas essas meninas, não teria ficado com ele? – ficara muda, não dissera nada, simplesmente congelara com o celular agarrado a orelha – Vai falar ou o gato comeu sua língua? Depende do gato, né? Se ele se chamar Bennet, talvez ele volte. Porque você pode fazer mais coisas com ele, quem sabe ele arranque sua calcinha também, seu sutiã, vai variando de acordo com o seu humor.
  – Eu não queria contar porque sei que você odeia qualquer pessoa que tenha ficado com o e achei que...
  – Não posso odiar a mim mesma – a interrompi seca, sem expressar nenhuma emoção, e então congelou mais uma vez do outro lado da linha – Sim, ele me beijou hoje, na casa dele. Pode me chamar de hipócrita depois disso tudo, mas quem pegou o telefone para falar para a suposta melhor amiga que pegou o menino mais gato e galinha do colégio fui eu, não você. Não esquecemos isso. Mas enfim, voltando ao assunto, ficamos duas vezes, brinquei com ele e depois me chamou de vadia.
  ...
  – Calada. – a cortei, balançando os pés de forma rara, agitada e rápida. Eu estava nervosa, muito empolgada também, eu sentia na ponta do meu estômago um sentimento bom o bastante para merecer mais alguns dias – e talvez meses – de glória como resultado. Endireitei meu corpo e sorri, me preparando psicologicamente para o que eu falaria a seguir – Você tem duas opções. Primeira: Esquece que um dia foi minha amiga e vai correndo para , porque além de mim, ele é a única pessoa daquele colégio que consegue passar mais de dez minutos conversando com você sem se irritar.
  – Tenho que declarar que essa não é a opção mais acolhedora, mas como eu infelizmente não estou em situação de escolher muito, estou a todos ouvidos para a segunda opção.
  – Vamos mostrar quem é a vadia. – numa alegria contagiante, murmurei com um sorriso nos lábios.
  – Essa raiva toda é impulsionada pelo beijo, por ele te chamar de vadia ou por sua amiga piranha? – soltou uma gargalhada abafada e continuou esperando minha resposta.
  – Um pouco de cada.
  – Me lembre de te irritar mais vezes para conseguir despertar o ser maquiavélico que habita seu interior. – agora sim ela ria de verdade, gargalhadas contagiantes e estranhas, como uma hiena parindo um unicórnio – Ah! Essa o colégio precisa ver! Dawson, nossa nova vadia. Bem vinda ao clube.

7 - Querida segunda-feira

Junho

  

Olhei para o visor do meu celular procurando o horário, talvez fosse a décima vez que eu fazia isso em... Cinco minutos? Talvez seis, ou quatro. Mas não fazia diferença agora. Se eu pudesse voltar atrás, estaria dentro de casa, escondida no meu quarto, com o rosto enfiado em algum livro que eu já li mais vezes do que gostaria de lembrar.
  Mas não, eu não estava em casa escondida no meu quarto, estava trancada em um boxe no banheiro feminino, esperando o sinal bater e a aula começar, para eu poder chegar atrasada na aula e causar aquele impacto.
  Mas todo mundo sabia que eu não conseguia fazer isso, eu não conseguia ser uma vadia. Simplesmente não consigo, posso até estar parecendo fisicamente como tal, mas por dentro, minha alma estava gritando para eu tirar toda aquela maquiagem, pedir uma blusa maior na diretoria, pedir uma calça jeans e tirar aquele short minúsculo de educação física, jogar água nos meus cabelos e tirar aqueles cachos artificiais feitos de babyliss...
  Eu só queria voltar atrás de tudo isso. Mas já era tarde. O sinal já batera, todos estavam entrando na sala, sentando em suas cadeiras e cochichando algumas coisas inúteis sobre seu fim de semana, baixo o bastante para o professor não ouvir.
  Dois minutos, três, quatro, cinco... E de repente, percebi que estava atrasada dez minutos, já poderia subir e entrar na sala, sorrindo de modo exibido, balançando o cabelo e agindo como uma pessoa que eu não sou.
  Senti meu celular vibrar e peguei o aparelho com tamanha rapidez, havia chegado uma mensagem no de .

Onde você se meteu? Apareça logo, eu vou ter um ataque de curiosidade!

  Soltei um riso abafado e abri a porta, pondo a mochila nas costas e caminhando em direção à escada. Cada passo era mais lento, eu não queria entrar naquela sala e atrair os olhares alheios.
Vou chegar em cinco minutos. O professor já começou a chamada?

  Na verdade, professora. A primeira aula da segunda-feira era de Adriana, e ela odiava dar faltas tanto quando odiava atrasos...
Faltam dois nomes para o seu.

  Arregalei os olhos e senti meus pés acelerarem por mim, comecei a correr procurando a porcaria da minha sala.
Talvez chegue em cinco segundos...

   Dawson. – ouvi a voz de Adriana de longe, corri mais um pouco e consegui entrar na sala a tempo.
  – Presente. – falei, fazendo todos se virarem de vez para a porta e, tenho que admitir, ter a atenção de todos não é tão ruim assim – Desculpe o atraso, tive problemas na portaria...
  – Pela falta de roupas, eu suponho. – Adriana me interrompeu com um olhar sério. Sua boca estava numa rígida e fina linha que, por um segundo, me assustou.
  – Por que eles me barrariam por estar com o short de educação física? Que eu saiba, ele foi feito para ser usado. – caminhei lentamente até minha cadeira e sentei, com um sorriso estampado nos lábios.
  – Bem, pelo menos você tem belas pernas para exibir, ao contrario de outras pessoas... – Adriana olhou rapidamente para Barbara e voltou os olhos a lista de chamada na mesma rapidez – Daniela Alvernando...
  Olhei rapidamente para e ri baixinho. Adriana tinha olhado mesmo para Barbara? Ai meus órgãos, eu não acreditava no que estava vendo.
  Alguns minutos depois, eu ainda era o centro da atenção da maioria dos alunos. Rastejei os olhos pela classe, procurando o olhar que eu mais desejava.
  Ele tinha olhos fixos em mim, sem nem disfarçar. Me encarava de modo curioso... Sorri para ele e acenei levemente, fazendo questão de jogar meu cabelo para o lado e depois voltar meu olhar a . Ele retribuía meu sorriso agora de modo malicioso, olhei para ele do mesmo modo e mordi o lábio inferior, sem nem ligar para o batom vermelho que ficaria em meus dentes.
  Virei para frente e passei a ponta da língua nos dentes, numa tentativa estranha de tirar o batom.
  Comecei a prestar um pouco de atenção na aula quando senti uma vibração vindo do bolso esquerdo do short. A tela inicial indicava uma notificação do whatsapp, provavelmente soltando uma piada sem graça.
Você não sabe o quanto esse batom se destaca em você.

  O número era desconhecido, algum colega de classe que conseguiu meu número ou...   Levantei os olhos e vi o celular de escondido entre seu caderno e seu estojo, seus lábios estavam repuxados levemente num sorriso travesso. Ele havia mandado a mensagem.
Ainda bem que você gostou.

  Respondi tentando esconder o celular no meio das minhas pernas.
Por quê?

  Olhei para e vi sua testa franzida, era estranho estar conversando com ele daquele jeito e depois olhar cada movimento que ele fazia.
Porque assim eu tenho a garantia de que você não vai tentar tirar ele.

  Ri mais alto do que eu quis, atraindo olhares estranhos e depois tapei a boca com a mão.
Fique achando. Eu fico muito bem de batom vermelho... Amiga, eu arraso nas baladas ok? Sambo na cara das inimigas de batom vermelho.

  Ri mais uma vez e mais alto do que antes, tirei print da conversa e mandei para , que se assustou quando sentiu a vibração. Ela pegou o celular e depois de alguns segundos arregalou os olhos e pôs a mão na boca tampando o riso.
Ele está sendo legal? É isso ou eu estou imaginando coisas? Depois de tudo o que você fez? Acho que ele deseja seu corpo nu.

  Encostei a cabeça na mesa, cobrindo meu rosto, rindo desesperadamente. Quem visse aquela cena de longe, acharia que eu estava tendo uma convulsão ou um ataque epiléptico, mas era só uma risada abafada e histérica.
  – Algum problema? – Adriana perguntou me olhando séria.
  – Não. – falei segurando o riso – Na verdade, sim. Eu preciso beber água, posso? – perguntei fechando e abrindo os olhos de modo rápido e meigo, meus cílios alongados pelo rímel me ajudaram muito no olhar boneca.
  – Vá, mais volte logo. – não tinha como não voltar logo, o bebedouro ficava ao lado de minha sala.
  Levantei e andei lentamente até a porta da sala, desfilando e esbanjando certa sensualidade que eu não tinha. Ao atravessar a velha porta de madeira branca, peguei meu celular e li a nova mensagem que tinha de .
Nunca tinha reparado como sua bunda é grande
Calada

  Respondi ainda rindo, aquela cena não era uma das mais engraçadas no mundo, mas eu achava graça de tudo quando ficava estranhamente nervosa.
E você tem uma perna grandona também.

  Revirei os olhos, começando a conter o riso.
Mais uma palavra e eu acho que você deseja meu corpo nu.

  Contei até dez mentalmente e voltei para a classe, ainda recebendo a chuva de olhares estranhos, tortos e alguns hipnotizados. Isso era o resultado de se vestir como uma vadia.
  Levantei meus olhos e percebi que o quadro branco estava com o assunto da prova final do semestre, pelo menos de literatura. Anotei rapidamente fazendo garranchos quase ilegíveis, fechei o caderno e sorri falsamente para Adriana que estava à beira de apagar tudo, até uma voz a chamar no fundo da sala.
   – Professora Adriana, boa tarde. Você está muito ocupada agora? – ela negou com a cabeça. Era Cátia, a secretária do colégio – Linda pediu para você passar na sala dela, se puder, agora. – Adriana deu de ombros como se não tivesse opção de escolha, mas na verdade, não tinha. Linda era a vice-diretora e coordenadora do colégio, ela mandava em quase tudo, menos na diretora.
  – Comportem-se, e não saiam dos seus devidos lugares. – ela disse, num tom de voz autoritário como se estivesse falando com uma turma de primeira série.
  Mas, na verdade, estava. Assim que seus pés passaram pela porta, várias alunas levantaram para fofocar alguma coisa, alguns pegavam seus celulares e atualizavam seu cérebro do que podia estar acontecendo com o mundo.
  Quando eu pensei em levantar, já vinha em minha direção com os lábios levemente repuxados. Seus dedos brincavam com os cachos que se formavam na ponta dos fios que um dia foram coloridos, pois toda tinta havia saído, deixando as mechas loiras.
  – Você não sabe o quanto esse batom se destaca em você. – repetiu as palavras de deixando os olhos com um ar brincalhão.
  – O que seria de uma vadia sem seus lábios pintados de vermelho? – revirei os olhos em sinal de desprezo, mas logo depois, sorri.
  – Nem precisava da maquiagem, só de vir com esse short, faz todos os garotos ficarem de PD. Acho que vou virar lésbica para poder pegar você.
  – Primeiro fica falando de minha bunda e minhas coxas, agora fala que vai me pegar. Tem alguma coisa que queira me contar, ? – ela sentou no meu colo e eu abracei sua cintura com os braços, sorrindo amigavelmente. Sorriu de modo tímido e olhou para baixo, como se algo além do meu batom dominasse seus pensamentos, ela parecia estar corada com alguma coisa e foi aí que eu percebi que alguém olhava fixamente em direção a ela.
  ...
  – Se explique ou eu vou gritar. – sussurrei. havia mesmo corado por Drummond olhar para ela? Seus pequenos olhos castanhos se levantaram e ela olhou para ele mais uma vez, fazendo seus cílios baterem que nem cortinas.
  Ela ao menos ouviu o que eu disse? Não. Olhei para mais uma vez, com uma súbita vontade de arrancar seus cabelos. Arrastei os olhos até , ele olhava para o amigo com o mesmo olhar de repugnância que eu usava.
  Seus olhos chegaram até mim e do nada, sua expressão ficou altamente confusa, e suas pedras azuis se arregalaram de forma estranha. Como se ele perguntasse o que estava acontecendo ali. Dei de ombros ainda perplexa, estávamos no mesmo barco.
  – , fala comigo. – a chamei, mas ela nada respondeu.
  Balancei tentando acordá-la daquele estranho transe. Ela continuava naquele estranho olhar hipnotizado e estranho.
  – FERRAZ, FALE COMIGO, MERDA! – gritei a balançando mais forte, levantou num pulo quase caindo de susto.
  – Você é louca? – ela me olhou de modo estranho, como se eu estivesse gritando com ela do nada.
  – Eu estou falando com você há séculos, por que você não responde? – perguntei mais baixo, pelo fato de meu grito atrair olhares curiosos.
  – Você não falou nada. Maluca. Eu estou aqui sentada...
  – Olhando para Drummond? – murmurei baixo, seus olhos se arregalaram e ela abriu a boca no formato de um “O”.
  – Como...? Eu... Quem te contou? – ela sussurrou, eu estava com um sorriso debochado nos lábios, ela não tinha visto mesmo que estava encarando o garoto há minutos?
  – Eu tenho olhos. Agora, a pergunta que importa: quando você ia me contar?
  – Não ia. – foi curta e grossa, fazendo meus olhos se estreitarem e minha testa franzir automaticamente.
  – Tipo quando você ficou com , quase deixou ele tirar sua virgindade e não me contou? Nossa, grande amiga você.
  ... Você não entende...
  – Não entendo o quê? – a interrompi – O fato de minha melhor amiga não confiar em mim para guardar seus segredos? Realmente, não entendo. Porque eu te conto tudo, todos passos que eu dou, conto para você.
  – Eu não te contei de e de , somente.
  – SOMENTE? – gritei sem me importar com as pessoas olhando, sem nem ligar se a professora poderia aparecer a qualquer hora e me colocar na detenção ou me expulsar da sala – São seus únicos segredos, as únicas coisas que você escondia de mim.
  – Agora você vai gritar comigo porque simplesmente eu não te contei que estou apaixonada e ficando pelo estranho que fica jogando videogames o dia inteiro? Ou pelo fato de ter sido idiota por trocar saliva com Bennet? – arqueou a sobrancelha e me encarou com um olhar sarcástico, sua mão segurava a curva de sua cintura a deixando com um ar irônico.
  – Não, porque eu sou sua única amiga, eu não quero brigar com você. Mas como agora eu quero dar um tapa no meio de sua cara, eu vou levantar e sentar com alguém que me conta todos seus segredos e fala o que quer na minha cara.
  Levantei e direcionei meu andar até Bennet, o idiota que me ouviu quando eu quis falar, que me contou o que pensava sem nem hesitar, que me revelou coisas que eu nem sonhava que eram verdade. O idiota de cabelos pretos, com olhos grandes e azuis que conseguiam ser mais bonitos que seu leve repuxar de lábios, que também não perdiam no quesito beleza, lábios tentadores... Seu braço era desenhado levemente, músculos bonitos e não exagerados para um garoto de dezesseis anos... Porque eu não conseguia simplesmente parar de encarar ele e sentar ao seu lado?
  – Por que está sentado no fundo da fila? Assim você fica sozinho. – falei, sem o tom de voz sexy, sem as intenções sobressaídas em minha voz. Só falei, querendo alguém que me ouça sem esconder as coisas de mim.
  – Se eu estivesse sentado com todo mundo na frente, não teria como você puxar uma cadeira e sentar ao meu lado. – sorriu, de um jeito honesto. Talvez percebendo que eu não estivesse para aqui para jogar.
  Puxei a cadeira rapidamente e sentei sem aquela graciosidade e charme, me joguei na cadeira como se ela fosse minha cama.
  – Eu sou um monstro, . – falei baixinho, brincando com os cachos falsos no meu cabelo.
  – Por quê?
  – Ainda no sábado, eu joguei na cara de que sabia que ela tinha ficado com você, contei que nos beijamos e ainda a forcei a armar um plano contra você. Eu estava com tanta raiva por você ter me chamado de vadia que queria te mostrar como é realmente ser uma vadia, queria fazer você se apaixonar por mim, depois simplesmente partir seu coração em milhares de pedaços. Agora minha única aliada não quer olhar na minha cara porque, como sempre, eu disse coisas horríveis e joguei a verdade na cara dela do jeito mais cruel do mundo. E como você é a única pessoa dessa sala que não tem nojo de mim, não podia desabafar com mais ninguém. – sem nem respirar, joguei tudo para fora. Como eu consegui guardar tantas mágoas dentro de mim em apenas dois dias? E a pergunta que não conseguia calar: como eu consegui contar tudo para ele sem nem hesitar ou prestar atenção que eu poderia estar perdendo minha única quase amizade nessa porcaria de sala? Ou estragando o plano ridículo que não tinha a mínima chance de ser completo com êxito.
  – Esse plano nunca daria certo. – sua voz saiu num sopro, senti meu rosto corar e de imediato senti a vergonha se alastrar pelo meu corpo.
  – É tão clichê a esse ponto? – me encolhi na cadeira, passando os dedos levemente no uniforme branco do colégio.
  – Não é tão clichê, na verdade chega a ser brilhante... Mas a outra parte, eu não iria me apaixonaria por você.
  Um baque ecoou na minha mente, como se alguém estivesse pisando no meu coração e me deixasse amarrada assistindo. Eu fui rejeitada... Então aquela era a sensação de um quase-fora?
  – Eu... Eu... – gaguejei, escondendo uma mecha do cabelo atrás da orelha, comecei a encarar o chão perplexa, sem coragem de olhar aqueles olhos, mordi meu lábio inferior com vontade, para que doesse realmente – Eu sou tão repugnante assim? – soltei as palavras sem pudor, se era para me machucar, vamos fazer isso do jeito certo.
   olhou diretamente nos meus olhos e soltou uma risada abafada e totalmente sem humor.
  Mordisquei o lábio inferior mais uma vez, se eu deixasse minha boca aberta acabaria falando mais uma merda.
  – Dá pra parar com isso? – ele enfiou as mãos nos sedosos cabelos pretos e os puxou para trás, semicerrou os olhos e tirou as mãos da cabeleira, os bagunçando de qualquer jeito – Por favor, pare de morder seu lábio, eu estou sofrendo por você não morder o meu. E não faz essa cara de ingênua, de vítima... Para com isso !
  Franzi a testa, o encarando perplexa e extremamente confusa... O que exatamente ele queria dizer com aquelas ações de louco?
  – Você está mesmo sendo ingênua? Meu Deus. Não consegue perceber que eu estou me controlando para não morder sua boca agora? Para te beijar, em um beijo urgente que envolva sua língua e o gosto de sua boca? – ele falou baixo, para que ninguém mais ouvisse sua repentina confissão – Não percebe que eu quero tirar esse maldito batom da sua boca? Que eu quero te prender na parede mais uma vez? Que eu quero envolver suas pernas na minha cintura mais uma vez? – seu hálito envolveu minha orelha, me deixando mais arrepiada do que eu gostaria de assumir – Mas não posso fazer isso, porque a vaca da minha namorada está do outro lado da sala me olhando com uma cara feia.
  – Então você devia falar mais longe de minha boca e quem sabe parar de olhar para ela. – murmurei baixinho, perdendo totalmente aquele ar inocente que estava me consumindo segundos atrás.
  – Que merda, . Você é, e sempre será, meu projeto inacabado.
  – E quanto tempo dura seu sempre?
  – Até um de nós enjoar.
  – Que bonitinho, vai conquistar muitas garotas assim.
  – Acha isso ruim? – riu seco, sem graça na voz.
  – Acho isso ótimo.
  – Por que a cara feia?
  – Esse seria um ótimo momento para te beijar. – sussurrei, voltando para minha falsa postura de vadia. Levantei e encostei os joelhos na cadeira, repuxando o canto dos lábios de forma vitoriosa.
  – Essa postura de vadia nunca combinou muito com você. Já me fez ter um surto por você. Agora só falta partir meu coração. – sorriu, de um jeito encantador, um sorriso decepcionado e ao mesmo tempo perfeito, como um verdadeiro cara de coração partido, mas orgulhoso de ser aquilo.
  – Bem, eu ado...
  – Adoraria uma explicação para você estar de pé fora de seu lugar mesmo eu mandando todos ficarem nos seus lugares e não conversarem – a conhecida voz de minha professora de literatura foi ouvida da porta. Eu já conseguia imaginar a linha rígida que sua boca estava, podia ouvir o batuque repetido do seu pé esquerdo contra o chão e talvez até sua mão apertando sua cintura.
  – Bem, eu nunca conheci a sala de detenção. – pressionei meus lábios um contra o outro e me virei, andando de volta para minha cadeira.
  – E eu aposto que adoraria acompanhar você nessa aventura até a velha sala da Sra. Rodrigues.

8 - E essa detenção?

Junho

  

É a primeira vez na vida que eu vejo uma professora colocar alguém em detenção por estar fora do lugar. Tudo bem que eu a provoquei, mas mesmo assim... Pelo menos eu já sou ferrada, pois uma detenção no meu histórico não vai manchar de vermelho um papel que provavelmente já está menstruado.
  Quando Adriana disse “velha”, ela se esqueceu de mencionar “malcheirosa” e “chata”. A sala parecia um lixo, com as cadeiras bagunçadas em um bolo estranho, várias teias de aranha crescendo do ventilador de teto quebrado até o quadro branco que era amarelo. O cheiro de mofo invadia o ar de maneira ágil e muito inconveniente... Essa sala precisava urgentemente de uma faxina ou até mesmo uma dedetização, incluindo a própria Sra. Rodrigues, que parecia um rato gordo e cheio de pelos brancos. Seus dentes eram estranhamente grandes, e eu percebi uma grande verruga escura perto da sua boca... Ou algum bicho ali e ela nem percebeu.
  Meus pais já haviam sido comunicados do meu incidente, coisa que também era desnecessária; eu ia chegar uma hora depois do almoço, podia muito bem falar que estava estudando com a para algum trabalho, mas não, a porcaria do colégio tinha que informar para meus pais que a filha deles além de perder de ano estava rodando pela sala e o diabo a quatro.
  – Bem, a detenção começou. Nada de aparelhos eletrônicos, comida ou conversa. Se quiserem fazer alguma coisa durante esses cinquenta minutos, peguem seus livros e estudem ou adiantem a lição de casa. – Sra. Rodrigues se sentou na cadeira, puxou a mesa velha e desgastada para mais perto de seu corpo, tirou um grosso livro de algum lugar que eu não fiz questão de prestar atenção e começou a folheá-lo.
  Olhei por cima do meu ombro, procurando . Ele estava duas cadeiras atrás da minha, desenhando alguma coisa na cadeira, levantou os olhos rapidamente e pareceu sorrir com eles. Mais três alunos estavam na detenção, duas garotas e um garoto que não quis verificar quem eram.
  Arrastei os olhos até a professora, que continuava imersa em sua leitura, e virei meu rosto em direção a , que ainda me olhava.
  – Vou sentar atrás de você. – sussurrei tão baixo que senti meus lábios tremerem.
  Ele apenas negou com a cabeça e voltou os olhos para a mesa que agora era mais preta que branca.
  Abri a boca para protestar, mas nenhum som saiu dela. Esse garoto é bipolar ou coisa do tipo? Mordi minha bochecha respirando profundamente para não surtar naquele momento. Eram coisas assim que me faziam perder a cabeça, ele estava falando comigo na sala agorinha e por que agora faz essa palhaçada?
  Se acalma, , vai que ele só não quer pegar mais um dia de detenção? Deixa de neurose por uns míseros segundos.
  Pensei comigo mesma respirando profundamente, não era correto me importar com as atitudes do Bennet, ele tinha uma namorada para isso, ser ciumenta e neurótica.
  – Com licença. Sra. Rodrigues, poderia conferir se falta algum nome em sua lista? – Cátia perguntou, se encaixando entre a porta e a parede. Ela parecia furiosa com algo e seu tom de voz denunciava quanta raiva ela carregava no momento.
  – Claro. – ela respondeu, pegando a lista de alunos que estavam de detenção naquela manhã – Vou fazer a chamada agora mesmo. Dawson – levantei a mão, sentindo olhares em minha direção que não me intimidaram, só me fizeram arquear a sobrancelha e colocar mais força no olhar superior – Bennet.
  – Aqui. – a voz foi ouvida atrás de mim. Contive todos meus impulsos de virar em sua direção e continuei olhando para o rato gordo que chamava os alunos.
  – A... – ela franziu a testa e trouxe o papel para mais perto de si – Alexandria Nolasco?
  – É Alejandrina Nolasco. – ela disse, com um sotaque mais forte do que o necessário. Ela era intercambista vinda da Espanha.
  – Certo. Dominique Ferraz? – ela levantou a mão, encolhida no canto da sala. Dom era a irmã mais velha de , nada parecida com a irmã e nem de longe tão legal quanto ela – Roberto Melo? – o garoto levantou a mão com a cara emburrada, ele tinha um piercing na sobrancelha e cabelos espetados artificialmente. Parecia mais um integrante de Tokio Hotel do que um aluno normal – É, hm. Drummond?
  Levantei os olhos a procura de , ele não estava na sala. Uma voz conhecida foi ouvida atrás de Cátia e eu percebi instantaneamente o porquê da irritação.
  – Estou aqui. – o outro lado da porta foi empurrado, revelando um extremamente emburrado e com a cara enfezada. Ele estava fugindo da detenção.
  – Ele estava no corredor se agarrando com uma garota. Violando o regulamento do colégio, que é bem claro quando diz que alunos que não estejam no ensino médio não podem se relacionar em público.
  – E onde está essa garota?
  – Ela não estava com a farda do colégio. A partir disso, não pode ser enviada para um castigo.
  – Trágico. – resmunguei, encaixando os pés na cadeira em frente á minha. Abaixei minha cabeça e esperei o sono da aula de história vir agora, podiam chamar a professora para explicar como o Brasil é atrasado em relação ao mundo para eu poder dormir novamente.
   sentou na cadeira em frente à minha e começou a balançar os pés de forma que me estressou de todas as maneiras possíveis. Ele era chato assim sempre ou só nas horas vagas?
  – Para com isso. – sussurrei perto de sua cabeça, baixo o bastante para que apenas ele ouvisse.
  – Com o quê? – perguntou, erguendo o canto da boca num sorriso misto. Agora a ponta dos seus dedos faziam leves batuques na mesa – , você não acha que deve me tratar melhor? Eu guardo seu segredo sujo de sábado sem nem hesitar e você me retribuí assim?
  – Eu não sou a única que tem segredos, certo? Ou preciso gritar que a garota do corredor é a minha melhor amiga? – ele parou os dois movimentos e ficou estático – Porque se não for, você realmente vai ter que começar a me tratar bem.
  – Eu não sou o . – sua cabeça virou levemente em minha direção e seu olhar parecia sério – Se eu estou com a , é porque eu gosto dela. Não seria capaz de fazer isso.
  – Me diga, como você é amigo do mesmo? – perguntei expressando livremente minha curiosidade – Retiro todas as coisas que eu disse sobre você à Agatha.
  – O que você disse sobre mim?
  – Que era mais maduro que você.
  – Cada um amadurece do jeito que quer. amadureceu para a vida, eu amadureci para o amor. – seu sorriso ficou limpo, mostrando que aquelas palavras eram realmente sinceras.
  – Como eu amadureci, ?
  – Você amadureceu demais em relação a tudo. Assim explica o porquê de você ser esperta demais. Mas ao contrario do certo, você mostra para todos que é podre, que passou do ponto. Por isso ninguém espera coisas boas de você.
  Parei para perceber que a sala inteira estava olhando para mim e para . Todos menos o rato gordo, que tinha dormido ou estava morta.
  – O mundo espera que você seja bom, mas você não pode ser bom o tempo inteiro. Então nada mais justo que mostrar sempre seu lado ruim, para quando você quiser mostrar que todo lado ruim tem um lado bom, eles se surpreenderem e lembrarem que antes de pedir algo para seu anjinho fazer, do outro lado do ombro tem um diabo. As pessoas fingem que são anjos, mas todo anjo precisa de seu demônio. Essa é uma das leis da vida. Ou pelo mesmo uma das minhas leis. Você não pode andar sempre na mesma linha, às vezes andar na contra mão é mais interessante.
   se virou completamente e sorriu, pressionando os lábios e estendendo a mão para mim.
  – Acho que começamos com o pé esquerdo. Sou Drummond. – apertei sua mão e sorri.
  – Muito prazer, sou Dawson. – aproveitei que o rato ainda estava dormindo e pus minha cadeira ao lado da de , fazendo-o rir baixo – Só para constar, eu não gosto de seu nome, os apelidos para ele são muito comuns. Mas seu sobrenome é interessante, porém grande.
  – Então, como vai me chamar? – perguntou numa mistura de curiosidade e diversão.
  – Drummer! Eu vou te chamar de Drummer! Problema seu se não gostou.
  – Drummer é legal. Nunca gostei de meu nome mesmo. Além dos apelidos, o nome é muito comum. Eu poderia me chamar Everozebaldo. Ou Refrigerante!
  Pus a mão na boca, juntando todas as forças para não rir naquele momento. Não precisava despertar o guardião do inferno.
  – também é um nome comum. Vou te chamar de Corbíniana! – senti que meu rosto estava variando entre o vermelho ao roxo, se eu segurasse o ar por mais alguns segundos, iria ficar preta.
  – Vamos nos conhecer melhor. Se você continuar fazendo piadas, sinto que eu vou ter um ataque e acordar aquela coisa ali. – apontei para Sra. Rodrigues.
  – Bem, um tempo atrás eu te disse que era repetente e que tinha atrasado a alfabetização, por isso é um ano mais velho que você. Então acho que você me deve informações sobre . Sabe, eu sei algumas coisas sobre ela, mas queria saber mais. – seus olhos brilharam ao pronunciar o nome de e eu senti uma pontada de inveja da minha amiga.
  – Tudo bem. Por onde começamos?
  Alguns minutos mais tarde, sabia mais coisas sobre que a Dominique. Ou não. Mas isso não vem ao caso. Pelo menos não agora.
  Um sino foi ouvido de longe, e eu tive que checar as horas para ter certeza de que aquilo não era um sonho de mau gosto. Mas não era, o sinal havia tocado mesmo. Mas como assim, eu entrei na sala há cinco minutos?
  – Meu Deus, o tempo passou tão rápido! – Drummer sorriu, expressando estar tão espantado quanto eu.
  – Acho que eu devia ficar de detenção mais vezes. Mas é claro, se você vier comigo. Passar a detenção sozinha deve ser horrível. – puxei a alça de minha bolsa e a encaixei no ombro, seguindo para a porta acompanhada de . Por segundos eu pensei: Onde esse garoto estava nos últimos meses?
  – Quando eu chegar em casa, meus pais vão me esperar com um grande abraço por ficar em detenção. Provavelmente eu vou ficar o fim de semana de castigo e o resto do mês sem videogame.
  – Videogame diminui os neurônios. Eles deviam fazer isso sempre, sem videogame você será uma pessoa mais inteligente.
  – Isso é uma ofensa! – ele pôs o peito da mão na testa e jogou a cabeça para trás, fazendo cara de ofendido – Eu não sou burro! Tudo bem que eu estou repetindo a oitava série, mas isso não faz de mim uma pessoa burra! Olhe para você, repetiu a oitava série sem nem jogar videogame!
  – Eu sou vagabunda, Drummer! Isso torna as coisas diferentes. Não faço nada, odeio estudar... A lista continua, posso citar até a porta do colégio. – não estávamos relativamente muito longe, mas foi o primeiro lugar que eu vi na frente – Vamos testar sua inteligência sobre os assuntos desse ano... Hm, qual a formula de delta?
  – B² - 4ac, minha avó lembra disso, e ela fez a oitava série com Jesus Cristo. – rolou os olhos ao chegarmos à portaria, eu ia andando para casa e não sabia se ele ia também, mas pareceu não se importar com o fato – Minha vez de perguntar.
  – Eu não disse se você podia perguntar, quem faz as perguntas sou eu! – protestei, ainda rindo – Eu vou para casa, .
  – Eu não quero almoçar em casa, quero comer alguma besteira. Vamos ao Bob’s? – peguei meu celular e chequei o horário, faltavam dez minutos para dar 14h30min, não era uma hora apropriada para almoçar.
  – Acho que meus pais não vão deixar, eles já querem jogar minha carne num tanque de tubarões por ter acabado na detenção. – murchei, brincando com o aparelho que estava em minhas mãos.
  – Eu peço para sua mãe. – ele puxou o celular de minha mão e desbloqueou a tela, pensando no que poderia ser a senha. Franziu a testa e começou a tamborilar os dedos impaciente – Deixe-me ver. Qual sua senha? “euamoluigi” ou “bennetminhavida”?
  Mostrei meu dedo do meio para ele e puxei o celular de volta, digitando minha senha e entregando o objeto branco.
  – A senha é “queenofgasstation”. Você nunca iria acertar.
  – Por quê? Só porque é o título de uma das músicas mais antigas da Lana? Na época que ela se chamava Lizzie Grant ainda? – deixei minha boca abrir e ficar em forma de “o”. Encolhi meu nariz e continuei parada, totalmente pasma – Não julgue um livro pela capa.
  – Não julgar. Ok. E quem sou eu? – arqueei uma sobrancelha, ainda sorrindo de forma engraçada. pôs o telefone na orelha e segurou o riso.
  – Uma garota que desafia professores e xinga como uma louca, mas chama a mãe de mama. – ai meu Deus, ele estava mesmo ligando para minha mãe?
  – DRUMMOND, DESLIGUE ISSO AGORA! – voei nele, mas senti sua mão cobrir meu rosto e me segurar onde eu estava. Repetindo o que disse há algum tempo, não se de onde ele tirava tanta força.
  – Alô? É a mãe da ? – ele ainda segurava a risada, com uma das mãos no telefone e a outra me mantendo longe dele.
  – PONHA NO VIVA-VOZ PELO MENOS! – pedi de um jeito autoritário, como quem estivesse mesmo desesperada.
   pressionou algum lugar da tela e a respiração de minha mãe ficou muito alta.
  – ? – a voz da minha mãe me tirou dos devaneios que me encontrava nas expressões de Drummer.
  – Oi, Sra. Dawson. Eu sou o , e queria sair com sua filha agora. Nós vamos almoçar no Bob’s. Claro, se a senhora deixar. – procurei por qualquer buraco para poder enfiar minha cara. Havia tanta educação na fala de que minha mãe me perguntaria depois se ele era um professor de etiqueta.
  – Você é o namorado dela? – buraco? Eu quis dizer uma cova.
  – Não senhora. Sou apenas um amigo. Mas se a senhora quiser, posso te apresentar seu provável futuro genro. – me deem uma passagem só de ida para o centro da terra.
  – Ah querido, seria ótimo! Se quiser vir jantar hoje à noite conosco, eu ficaria muito feliz! Aproveitando que o pai da não vai estar em casa, esses assuntos são altamente proibidos perto dele. Ele acha que as filhas vão começar a namorar na faculdade! – mamãe soltou uma risada nasalada e eu desisti de procurar alguma cratera no chão para me enterrar – , amor, eu sei que você está ouvindo.
  – E pedindo para alguém estourar meus ouvidos também – resmunguei.
  – Querida, não seja tão rabugenta.
  – Não precisa ser tão educada também, pode falar como você fala normalmente, com palavrões e gírias. Essas falas de matriarca não combinam com você. – retruquei apontando para um banco branco na praça, caminhei até lá e sentei acompanhada de Drummer que ainda segurava o celular – Isso serve para você também, . Não precisa de toda essa educação. Você falou “senhora” tantas vezes que eu quase achei que minha mãe tinha oitenta anos.
  Mais uma vez, a risada de minha mãe foi ouvida do outro lado da linha, agora ela falaria como a mulher que eu conhecia.
  – Você é um pé no saco, , eu nem posso fingir ser uma boa mãe. Se eu fosse uma mãe nova e que usa roupas que nem às suas, você não iria gostar, pirralha. – agora sim, apresento a vocês Amellie, minha mãe.
  – Você casou com o papai com 20 anos, usou camisinha até os 25 porque quis. Nunca obriguei ninguém a nada!
  – Olha aqui, pirralha, vai logo pra essa porcaria de lanchonete antes que eu vá ai onde você está e dar na tua cara.
  – Também te amo, mãe. Desliga, . Agora.
  – DESLIGA NÃO, EU AINDA QUERO VOCÊ AQUI NA JANTA PRA SABER DESSE TAL... – graças a Deus, ele desligou a tempo.
  – Essa mulher ainda vai me matar de vergonha – bati a mão na testa e a arrastei pelo rosto.
  – Ela é assim todo dia?
  – Não, só quando o papai faz alguma surpresa ou quando o time dele perde alguma partida.
  – Qual foi a surpresa?
  – Nenhuma, ontem teve jogo.

****

  

– Você saiu da sala? Mas por quê? – perguntou curioso. Nós estávamos no interior da lanchonete, mais rindo que comendo.
  – Porque ela disse que quem quisesse sair, não era obrigado a ficar na sala! Não queria assistir àquela aula, então levantei da sala e saí. – respondi simples, ainda rindo da expressão dele.
  – Você não é uma boa influência para mim! – ele deu mais uma mordida no seu hambúrguer e se afastou meio metro de mim.
  – Estamos no mesmo barco, querido. – finalizei meu milkshake e levantei da cadeira ao perceber que apenas seu refrigerante estava em mãos – Vamos embora? Preciso dormir.
  – Vamos. – ele levantou e passou o braço pela minha cintura, me puxando para perto dele – Obrigado.
  – Por quê? – perguntei, encostando minha cabeça em seu peito e o abraçando fortemente.
  – Por me deixar te conhecer. – apertei o abraço e respirei fortemente.
  – Me arrependo de não ter deixado antes. Mas sua primeira impressão de mim foi meus cabelos na sua cara. Você deveria estar bem longe. – gargalhei – E depois eu ainda te chamei de garota. – parei de rir e virei o rosto para cima – Por que você me segurou?
  – pediu para eu sentar ao seu lado e impedir qualquer coisa que tentasse fazer.
  – Como ele sabia que eu ia fazer algo?
  – Ele sabia que a futura namorada dele ia fazer algo. Aquela vaca.
  – Você não gosta dela. – afirmei, rindo do modo que ele falou da namorada do melhor amigo.
  – Por isso que eu não te segurei na segunda vez que foi para cima dela.
  Apertei o abraço mais uma vez, desejando não perder aquela amizade nunca.
  – Vamos embora. – repeti, entrelaçando meu braço no dele.
  Ele assentiu com a cabeça, sorrindo levemente. Seus olhos se moveram para nossa frente e de imediato fazendo seu sorriso sumir.
  Acompanhei seus olhos e senti eu rosto se transformar numa expressão de nojo. Logo há alguns metros de nós, Bárbara estava no colo de , numa tentativa frustrada – assim espero – de arrancar seus lábios.
  Drummer se soltou de meu braço e começou a caminhar em direção do amigo, como quem não quer nada com nada.
  – Ei, amigo. – ouvi sua voz – Calma aí, assim as atendentes vão expulsar vocês dois daqui. – sentou ao lado de e sua namorada, agora vermelha – , amor, venha aqui. Não pode conversar com os outros a metros de distância – o quê?
  – Eu não pretendo ficar, já disse que quero ir para casa – não pretendo conversar com ninguém, nem chegar perto desses dois, posso pegar HIV.
  – Cinco minutinhos e eu prometo que te levo em casa. Agora sente aqui conosco, aposto que eles dois adorarão sua presença – anotação do dia: sempre perguntar a o que ele vai fazer.
  Caminhei lentamente até eles, mas não sentei; fiquei em pé, encostando meu corpo na mesa, bem longe da bactéria e seu namorado.
  – Então. – Bárbara saiu do colo de e sentou no banco, se recompondo. Em parte, porque se começássemos a restaurar aquele ser demoraria a eternidade – Quando você e começaram a namorar? – se eu tivesse comendo ou bebendo algo agora, toda comida iria para quilômetros luz de mim.
  A troca de olhares entre e eu foi mais que rápida, segundos depois estávamos nos contorcendo e rindo escandalosamente, atraindo a atenção de outras pessoas que estavam presente.
  – Não estamos namorando. – disse, depois de receber olhares confusos.
  – Então porque ele te chamou de amor? – não é de sua conta, vadia.
  – Porque ele é meu amigo, Bailey. Amigos chamam os outros de amor – olhei para Drummer que me encarava de maneira sugestiva. Sua boca se movimentou sem emitir nenhum som. “Aja” – Você deveria saber disso, ou não tem amigos? Aliás, seu namorado deveria ser seu amigo também! Ele nunca te chamou de amor? – ela estava estática, com aquela cara de aberração que vem segundos antes da cara de nojenta – Estranho, tive a impressão de que ele já me chamou de amor antes, afinal, somos amigos, não é, Lu? – olhei em sua direção e sorri sarcasticamente, quem sorria do mesmo jeito que eu era Drummer – Mas enfim, a conversa foi ótima, mas eu tenho que ir para casa! Vamos, Drummer. – caminhei até meu amigo e estendi a mão, que foi agarrada segundos depois, caminhamos até a porta e eu acenei lentamente – Tchau Bárbara, tchau amor! Nos vemos amanhã!
  Continuei caminhando com o braço encaixado no de Drummer até chegarmos à esquina perto da praça em que estávamos algumas horas atrás. Ao chegarmos ao mesmo banco, ele sentou ao meu lado e me encarou sério, sem aquele deboche de antes.
  Sentei ao seu lado, sem entender muito o que se passava em sua expressão, mas eu estava disposta a ouvir.
  – Porque ? – as palavras saíram de sua boca com uma entonação confusa, ele não sabia mesmo o que se passava ali. Na verdade, nem eu sabia.
  – Devia perguntar para ele, porque eu. Eu não o escolhi, – pausei – na verdade, acho que não houve isso de escolha, ninguém escolheu ninguém.
  – Vocês se escolheram, sem nem perceber.
  – Ninguém escolheu ninguém. – repeti – Aliás, escolheu Bárbara. Você viu como ele está feliz com ela, eles se merecem.
  – Está feliz com ela e te beijou na casa dele. Nossa, como isso é interessante. Ah, o que foi que vocês fizeram na piscina mesmo? Vocês se beijaram, e só com aquele beijo você fez ele ficar com cara de otário! – ele levantou do banco, parando na minha frente e mexendo as mãos a cada palavra – Você é a única pessoa que não percebe isso, mas ele te escolheu desde a primeira vez que te viu. Sabe, eu fiz amizade com ele na primeira semana e ele me contou sobre você, sobre a garota estranha que se bateu com ele no primeiro dia, xingando-o de todos nomes possíveis. De como ela era interessante. E na sexta, ele sabia que você faria alguma coisa. Ele fez piadinhas, chamou sua atenção e depois foi até você te ajudar!
  – Pena que ele estragou tudo, não foi? Pena que depois de todo esse esforço, ele estragou tudo abrindo a boca! Esse é o problema de ! Ele sempre estraga tudo! Foi assim em frente à diretoria, na sala de aula, no quarto dele, na piscina e hoje na detenção! Ele sempre estraga tudo! Ele nunca sabe a hora de parar de falar merda!
  – O que ele disse naquele dia? Na sexta-feira? – perguntou, ignorando tudo o que eu disse antes.
  – Ele disse que iria me desmascarar, que iria fazer a mascara cair. Que iria mostrar como eu realmente era.
  – Quem você é?
  – Você não sabe como eu odeio que me perguntem isso. As pessoas acham que eu não tenho sentimentos, que eu sou um vegetal! No começo, eu achava que essa não era eu, que isso era uma fase. Depois eu percebi que esse ser que convive com vocês todo santo dia é apenas o que estava escondido dentro de mim, precisei de um empurrão para liberá-lo.
  – E a vadia? – seus dedos me apontaram de cima á baixo e ele me observou por alguns segundos, esperando a resposta.
  – Ela não existe. Não é uma fase. É uma imagem. Essa é a personagem que eu criei para jogar com Bennet.
  – Você quer continuar com esse jogo, ? Quer continuar a fazer uma coisa que você não gosta só por raiva? Você vai acabar magoada no final, e o pior é que não vai ser a única.
  – Drummer...
  – Você sabe que não pode continuar com isso por muito tempo. Não é algo que ninguém saiba, não é nenhum segredo. Mas vai ficar com você no final. Você sabe disso, Bárbara sabe disso, todo mundo sabe disso.
  – Porque nos beijamos uma vez?
  – Porque é assim que as coisas acontecem. Não é algo precipitado, é algo que devia estar acontecendo desde o primeiro dia de aula.
  Não respondi nada. Ele estava errado, não era algo que acabaria daquele jeito. Todos sabiam ao contrário, todos sabiam que qualquer coisa que fosse relacionada a mim acabaria em encrenca.
  – ?
  – Me leve para casa. – respondi baixo, olhando para meus pés.
  – Agora? – ele puxou minha mochila pelos meus braços e encaixou em suas costas.
  – Todos dias até nos formarmos.
  – Você vai ficar bem?
  – Eu vou processar todas as coisas que você disse e depois vou ignorá-las até a hora que eu explodir na frente de todo mundo, de novo.
  – Dessa vez vai ser diferente. Eu estarei lá, não só para te segurar, mas para te ajudar.
  – Obrigada por me deixar te conhecer, Drummond.

9 - Dawson’s a bitch, so are you

Agosto

  

Sabe aquela bipolaridade que você sente quando entra de férias? Saudade dos amigos e de ter algo para fazer. Excluam a segunda parte, sinto falta apenas dos meus amigos, adoro mofar no sofá revendo Harry Potter e Senhor dos Anéis, às vezes até Meninas Malvadas, para relembrar um pouquinho da infância. Mentira, é porque eu de verdade não tinha o que fazer. Mas ai, não tinha, a vida boa acabou.
  Agosto chegou, fim de recesso, fim de preguiça e a volta ao inferno.
  Eu estava no que mais gostava, metida no meio de um bando de idiotas aglomerados na portaria do colégio, esperando nossa querida diretora abrir os portões para nós sorrirmos e fingirmos que estávamos felizes que a tortura começasse.
  – Bem vindos de volta ao colégio! – minha diretora favorita disse na porta do colégio, sorrindo falsamente. Ela queria mesmo que voltemos a pagar essa maldita mensalidade.
  – E que abram as portas do inferno.
  Caminhei até minha sala, rindo internamente da cara que Lúcia fez ao ouvir minha resposta. Ela queria que eu sorrisse para ela? O posto de aluna favorita e mais prestativa nunca foi meu, algum tempo em casa definitivamente não iria mudar isso.
  Pus minha mochila numa mesa um tanto quanto afastada dos demais, aonde não tinham muitas mochilas marcando lugares.
  – Eu estou procurando pela pequena gafanhota! – o som fez eco pela sala e eu virei já sorrindo. e estavam parados na porta com o sorriso igual ao meu.
  – DRUMMER! FERRAZ! – corri para os dois num clichê abraço em grupo – Eu senti tanta falta de vocês, nunca detestei tanto ficar fora do colégio!
  – Foi porque você não teve que passar suas férias com sua família estranha que não come carne. – Drummer franziu o nariz e fez cara de nojo.
  – Por que eles não comem carne? E por que você teve que passar as férias com eles? – perguntei curiosa, sentando na minha mesa e apontando para as mesas seguintes á minha, onde eu poderia conversar com eles.
  – Porque matar os animais para comer é errado e minha mãe disse que eu precisava me aproximar desses seres estranhos. – sentou-se na mesa ao lado e sentou entre suas pernas.
  – Não adentrou a vida de vegetariano? Mas por quê? Ficar sem comer carne deve ser bem legal. – disse, sorrindo debochadamente. Dentre nós três, ela era a que mais comia carne.
  – Vá à merda, Ferraz.
  – Também te amo, Drummer.
  – Desde quando eu autorizei vocês a usarem o apelido que eu dei? Ouch, ele é meu melhor amigo, você deveria chama-lo de amor, ou de . Coisa que esses casais bregas fazem.
  – Você acha que somos um casal brega? – assenti séria, fechando e abrindo os olhos lentamente, como quem dá um sermão – Ok. – deu de ombros e levantou a boca até a orelha do namorado – Ela fala isso porque não tem um namorado.
  – Eu ouvi! – mostrei o dedo do meio para eles e levantei, indo em direção à porta e rindo abertamente com o casal, que fazia o favor de me seguir – Vocês adoram que eu segure vela, só pode. Deviam se assumir para o publico logo, já que ficam se pegando pelos cantos e corredores.
  – Nada de velas, tochas ou qualquer coisa que envolva fogo. Vamos falar de um assunto mais importante, como por exemplo uma festa de aniversário que está chegando. – Drummer disse assim que paramos de andar.
  – Por favor, nem comenta. Eu quero sair correndo e me esconder em algum lugar. Não sei por que eu concordei com essa porcaria.
  – Porque sua mãe quer que você seja uma boneca. – cantarolei, deixando bem claro meu tom de deboche.
  – E a sua é maluca por concordar com minha mãe sobre o seu vestido. – retrucou, fazendo uma careta engraçada. Nem eu, nem concordamos com os vestidos escolhidos pelas nossas mães, mas era isso ou nada – Não posso falar nada, meu vestido é vermelho. Minha mãe disse que eu não poderia usar vestido preto.
  – Pelo menos você não fica parecendo uma prostituta. – estremeci, rindo descaradamente – Mas uma prostituta que provavelmente ganharia muita grana. – joguei meu cabelo despenteado para o lado, numa tentativa frustrada de ser sexy – Porque eu fiquei muito gostosa com aquele vestido. Acho que vou casar com ele.
  – Uh, estávamos falando de festa é já partimos para um casamento? Vocês são bem adiantadinhas. – o ser esquisito e magrelo que por acaso era meu melhor amigo, diga-se de passagem, falou ao soltar as mãos da cintura da anã de cabelos que estavam mais desbotados que a tinta do colégio que por acaso é minha melhor amiga, e saiu para falar com alguém que chegava atrás de mim.
  O perfume amadeirado tomou conta do ar. Eu conhecia quem era o dono, e nem precisava virar para cumprimentar – como se eu fosse educada o bastante para cumprimentar alguém.
  Por acaso eu já disse que aquele perfume amadeirado é maravilhoso? Se não, esse perfume amadeirado é maravilhoso.
  Não sei se já falaram isso em algum lugar, mas é um aviso para todas as garotas do mundo: nunca confie em um garoto com perfume amadeirado.
  Principalmente se ele se chamar Bennet.
  – Não sei se já te falaram isso, Dawson, mas as pessoas costumam pentear os cabelos. É uma coisa bem útil nos dias de hoje, não nos deixa parecendo leões selvagens. E você pode consertar isso com uma coisa chamada pente, também bem útil.
  – Não sei se já te falaram isso, Bennet, mas você tem sua vida para cuidar, porque insiste em cuidar da minha? Sei que sua vida com aquele namoro tedioso é bem chata, mas não precisa ficar se metendo na vida dos os outros não, é feio fazer isso. Sei que você adora qualquer coisa relacionada à minha vida, mas temos que maneirar um pouquinho, não acha?
  Puxei sua mão que estava tentando desembaraçar os inúmeros nós nas pontas do meu cabelo e a deixei no ar, abrindo os braços num sorriso amigável e recebendo um apertado abraço de Bennet segundos depois.
  – Sempre tão pretensiosa, devia mudar seu jeito, Dawson. – murmurou entre meus cabelos, puxando meu corpo para o ar, já que é muito esforço ficar mais de cinco segundos tentando ficar do meu tamanho.
  – Não vou nem dizer com quem aprendi isso. – falei rabugenta, empurrando ele com as mãos – Agora olhe quem chegou, vá falar com sua namorada, ela já não gosta de mim sem motivos, não dê mais motivos para Barbieranha não gostar de mim.
  – Sem motivos? – ele arqueou a sobrancelha de modo que Drummer e riram bem atrás de mim – Bem, você quase arrancou os cabelos dela na primeira semana de aula, chamou ela de vadia, beijou o namorado dela duas vezes, mas isso nós podemos abafar, e ah, disse para a professora que ela estava colando na prova, chamou ela de Cipó de Goiaba no meio do seminário, e a lista continua...
  – Primeiro, ela me chamou de vadia primeiro, e por isso eu tentei arrancar os cabelos dela. Segundo, eu não beijei o namorado dela sozinha, lembre-se de passagem que ele quem me beijou a primeira vez. Claro que eu disse que ela estava colando! Ela iria tirar notas razoavelmente boas sem ter estudado!
  – Mas você não estudou também!
  – Mas o Drummer estudou! – bati as mãos e apontei para o garoto atrás de mim que estava tendo algo parecido com uma crise epiléptica de gargalhadas – E não me interrompa, Bennet! Onde eu estava? – parei três segundos, tentando voltar a linha de pensamento que havia cortado – Ah, e sua namorada parece um bicho-pau, um louva-deus, um galho seco e queimado, uma minhoca, os galhos que descem de uma trepadeira, o talo de uma flor, e eu posso jurar que ela lembra a corda que usamos na aula de educação física. Ainda acha que eu chamei ela só de cipó de goiaba?
  – Só de cipó de goiaba. – riu baixo, balançando a cabeça – Vou por minha mochila na sala – virou de costas e adentrou a sala, provavelmente indo atrás do bicho-pau.
  Voltei minha atenção para o casal e quando abri a boca para falar, fui interrompida pelo sino. Que fazia o favor de ser bem alto.
  – Vamos. – fiz biquinho, puxando a mão de minha melhor amiga em direção á câmara de tortura.
  Ao chegar a sala, algumas pessoas rodeavam e conversavam animadamente. Sentei na minha mesa e virei para , que revirou os olhos com alguma cena que acontecia atrás de mim. Segundos depois sua expressão mudou para algo espantado, mas ao mesmo tempo muito interessado.
  – Se eu fosse você, não virava para olhar. – disse, agora olhando para mim.
  – Já disse que não dou a mínima para Bailey e Bennet se comendo nos corredores. – retruquei azeda. Quando eles iam por na cabeça que eu não tinha ciúmes de ?
  – Na verdade, é bem pior que nosso casal favorito.
  Virei o rosto de imediato, me deparando com uma cena que conjugava muito bem o pretérito mais que perfeito.
   estava sentado na mesa da professora, do mesmo jeito de sempre. Um sorriso branco estava estampado no seu rosto, seus cabelos pretos estavam propositalmente bagunçados. Mas seus olhos estavam diferentes, estavam protegidos por duas camadas grossas de lentes e uma armação fina preta cobrindo parte do seu rosto.
  Óculos. Bennet estava usando óculos! Como é possível uma pessoa ficar tão sexy usando óculos?
  – Uau. – foram as únicas palavras que saíram de minha boca.
  – Exatamente. – deu dois tapas em minhas coxas e começou a gargalhar – Terra chamando Dawson. Are you there?
  – Se fode, , quero apreciar a visão. – mostrei o dedo do meio para ela – Como ele pode ficar tão sexy?
  – Quem ficou sexy? – alguém perguntou ao meu lado.
  – Bennet, com aquele óculos. – respondi de imediato, me deparando com uma Adriana risonha e segurado a gargalhada.
  – Ele é um gato, não é? – confirmei lentamente, com uma pontada de vergonha – Seja bem vinda de volta.
  Adriana falou algumas coisas sobre as férias e começou a contar algumas piadas para descontrair a classe.
  – – chamei baixinho – Acha que ele vai usar esse óculos na festa?
  – Não sei. Por quê?
  – Anote o que eu estou dizendo, se ele estiver de óculos nessa festa, eu pego ele e faço um grande estrago.
  – Você não existe, vai pegar o garoto só por que ele está de óculos?
  – Ele está irresistível. Com cara de safado! E de coisas que seriam muito imorais para citar numa aula tão boa.
  – I’m a little dazed and confused, Dawson’s a bitch, so are you.
  – Você vai ver Ferraz, essa festa vai ser melhor que briga de piranha. Anote as palavras de Dawson.

10 - Vamos ser amigos?

Agosto

  

FERRAZ! VOCÊ É MALUCA? VOCÊ SABIA QUE NÃO PODIA TIRAR ESSA PORCARIA DE TIARA! COMO VOCÊ TIRA E DEIXA ELA PRENDER NO VESTIDO? SABIA QUE EXISTE UMA COISA CHAMADA CELULAR? VOCÊ ME MANDAVA UMA MENSAGEM, ME LIGAVA OU QUALQUER COISA! MAS TINHA LOGO QUE RASGAR A PORRA DO VESTIDO?
  – Xingar não vai trazer uma bolsa de costura magicamente até aqui, se acalme.
  – ! – suspirei fundo, parando em frente ao espelho e ajeitando o vestido azul-marinho em meu corpo. Agora que eu já estava com ele há mais de duas horas, não parecia tão assustador, estava até bonitinho – ! Posso lhe dar meu vestido!
  – Acorda , você tem corpo, eu não. Provavelmente esse vestido cairia no meio do salão!
  – Mas ... – choraminguei – Você precisa dançar às 23h30min! É a hora marcada, não podemos atrasar porque a equipe de filmagem só vai ficar até a meia-noite! E a de fotografia também! – comecei a andar em círculos mais uma vez, passando a mão delicadamente pelo cabelo no receio de desmanchar aquelas malditas tranças.
  – Minha mãe disse que só consegue chegar 23h50min!
  – NÃO PODEMOS CANCELAR A VALSA! , é seu momento! Não podemos cancelar!
  – Não vamos. – sorriu maliciosa – Que horas são?
  – 23h28min! – respondi com os olhos presos ao relógio que estava pendurado na parede.
  – Venha comigo, a dança irá acontecer alguns minutos. – ela segurou minha mão e foi me puxando para fora do banheiro com o mesmo sorriso – ! – avistamos que estava a alguns metros da entrada do banheiro feminino – Preciso de sua ajuda. – o namorado veio correndo e ela falou alguma coisa em seu ouvido e depois os dois se viraram para mim – Você consegue?
  – Difícil seria se você pedisse para eu trazer a Lana Del Rey para cantar. Isso é tão fácil que eu me sinto inútil.
  – O que é fácil? – perguntei confusa, nenhum dos dois respondeu – e , o que é fácil?
  – Venha comigo. – mais uma vez eu estava sendo arrastada por pelo salão de festa – JOHN! – ela gritou o DJ, soltou minha mão e saiu correndo – Preciso que coloque a música cinco para tocar em cinco minutos. Raphael, você vai começar a filmar em quatro minutos, e só vai parar meia noite em ponto. – os dois assentiram com a cabeça e voltou para o meu lado – Estenda os braços – a obedeci, sem entender. Ela puxou as mangas de renda do vestido e as dobrou nas pontas – Agora vire de costas.
  – O que você está fazendo?
  – De costas, Dawson.
  – OK. – virei, sentindo as mãos de minha amiga puxarem meu vestido para baixo.
  – Qual sapato fica melhor? Você consegue se equilibrar com meu sapato?
  – Consigo, mas por quê? Seu pé é menor que o meu, não cabe direito, fica apertado.
  – Então fica com o seu mesmo.
  – , o que foi? Para que eu preciso do seu sapato?
  – Você vai me fazer um grande favor. – mais uma vez, eu estava sendo arrastada por aquela porcaria de salão. As pessoas agora estavam vidradas no centro do salão, que estava vazio a espera de e . A mesma pegou o celular que estava enfiado em seus peitos e checou alguma coisa – Minha mãe está no estacionamento, eu tenho uns cinco minutos para consertar o vestido, e enquanto isso não acontece, você vai dançar uma das músicas.
  – EU? Mas eu não sei a coreografia, e muito menos irei dançar com seu namorado!
  – Você sabe dançar valsa sim, eu vi nos ensaios! E, aliás, ninguém disse que você iria dançar com meu namorado. Você vai dançar com o namorado de outra pessoa.
  Arregalei os olhos e fui empurrada para o centro do salão, que tinha apenas uma pessoa à minha espera. A música começou e eu fiquei arrepiada da cabeça aos pés ao reconhecer as primeiras notas de Dark Paradise.
  Para a felicidade do complô, eu realmente sabia aquela coreografia. E pelo visto sabia também.
  Abaixei a cabeça e comecei a sincronizar os passos cantando mentalmente. Levantei os olhos e encontrei o olhar dele no outro lado do salão, tentei sorrir, mas estava com vergonha de começar uma crise de risos. O que você faz agora? Mão. Levantei minha mão direita e deixei os dedos estendidos, caminhando lentamente até a palma de ficar a centímetros da minha. Quando ouvi o ritmo mudando, abaixei a mão direita e levantei a esquerda e também trocou de mão.
  Por dentro eu estava rezando o Pai Nosso para não cair no chão. Ouvi mais uma vez a música acelerando e percebi que o refrão estava chegando.
  – Acelera. – disse baixo, sentindo as mãos de entrarem em contato com minha cintura e, consequentemente, com minhas costas nuas – Como sabe a coreografia?
  – Quem você acha que ensinou para ? – ele deu risada e focou os olhos nos meus – Aprendi a dançar só para ensinar esse troço para ele, e você?
  – Assisto The Vampire Diaries. – ele fez cara de confuso e balançou a cabeça, rindo disfarçadamente.
  – Você está linda.
  – Obrigada. E você está muito sexy com esses óculos.
  – Você nem sabe do que me chamaram quando eu apareci com isso.
  – Já posso até imaginar. – me rodou, fazendo minha visão parar numa Bárbara quase nua e com a cara emburrada – Alguém já disse para sua namorada que dá para ver o hímen dela com aquele vestido?
  – Que hímen?
  – Você e ela? – fiz cara de nojo e ele riu – Eca, , você deve ter AIDS.
  – Eu não tirei a virgindade dela. Aquela ali já deu para o diabo a quatro! – aproveitando o tamanho que os sapatos altos me proporcionavam, encostei a cabeça no ombro dele, me segurando para não rir – Já não era virgem antes de mim. Aliás, eu nunca fiz nada com ela.
  – Ela deve adorar o fato de chamá-la de arrombada. – suspirei aliviada, a última coisa que eu quero é Bárbara grávida de .
  – Chamei uma vez, ela deu um tapa em minha cara.
  – Pelo visto, dar é o verbo favorito dela.
  – E qual seu verbo favorito?
  – Trair. – falei baixo no ouvido dele, que enrijeceu por alguns segundos e depois voltou a se mover no ritmo da música.
  – Assim você estraga nossa amizade, .
  – Ela já ia se estragar sozinha, eu estou adiantando. Mas então, , já que estamos falando de verbos, vamos falar de palavras? Eu adoro a palavra amante, e você?
  – Adoro a palavra outra. Amante e outra. Duas palavras que definem você.
  – Prefiro não comentar as palavras que definem você. E tenha certeza de que elas não são nada boas.
  – Vá em frente, , – a ponta do seu nariz deslizou sobre minha bochecha e sua boca parou perto do meu ouvido – grite para todos e faça vexame como sempre.
  – Caro , eu não sou o monstro dessa vez. – soltei meus braços de seu corpo e me afastei dele, deixando-o sozinho no vazio do salão.
   e me encaravam confusos, e eu dei de ombros como quem não liga, atraindo uma furiosa.
  – O que você pensa que está fazendo? – sua voz saiu baixa e concentrada, como quem conta mentalmente para não esmurrar alguém.
  – Evitando uma briga com Bennet. Você não quer escândalo em sua festa. – sorri irônica e tentei passar, sendo impedida pela mão de , que me barrou e apontou aonde eu estava segundos atrás.
  – Escândalo vai acontecer se você não voltar a dançar com ele.
  – A música acaba em alguns segundos.
  – Eu mando colocarem de novo.
  – Ele já saiu de lá, , você quer que eu volte e dance com meu amigo imaginário?
  – Devia olhar mais uma vez.
  E então eu olhei e o vi parado no mesmo lugar que eu havia deixado, mas com uma cara de cachorro sem dono.
  – Ils ne peuvent pas aller à ma place? Pourquoi toujours moi? Une pute que quoi que ce soit! – resmunguei bem alto, atraindo a atenção de todos que conseguiram ouvir minha quase briga com . Eu tinha manias estranhas, e daí? O quê que tem demais em resmungar em francês?
  Tirei meus sapatos rapidamente e sai correndo feito uma maluca, encaixando rapidamente os braços aonde estavam antes e voltando a sincronizar passos repetidos em minha mente.
  – Por que voltou?
  – Não está na minha lista de regras de sobrevivência deixar um homem dançando sozinho.
  – Nem na minha lista te chamar de outra, me desculpe.
  – Não falou mais que a verdade. Deixemos isso no passado e vamos continuar com nossa amizade estragada. Eu gosto dela assim, passada da validade.
  – Não quero ser apenas seu amigo. – assumiu, acho que mais para ele do que para mim, mas não pude deixar de ouvir.
  – Diga isso para sua namorada. – suspirei encostando minha cabeça em seu peito e dançando totalmente fora do ritmo, com um pingo de felicidade por finalmente ouvir o fim da música – I don't wanna wake up from this tonight.
  – ? – levantei a cabeça e senti os dedos de percorrerem por toda minha pele que estava exposta – Seria muito eu te beijar?
  – Você sabe que independente do que aconteça agora, nós vamos brigar, eu vou chorar, você vai ficar com raiva, vamos estragar a nossa noite e vamos fazer alguma merda que vai acabar com tudo.
  – Sempre fazemos. Qual seria a graça se a noite fosse perfeita?
  – Ela seria perfeita de verdade. Não seria só uma ilusão de tempo.
  – Você acha isso? – assenti, tentando não suspirar com os carinhos que suas mãos faziam – Então vamos criar nossa ilusão juntos.
  Sua mão direita parou em meu pescoço e a esquerda segurava meu queixo levemente, obrigando-me a olhar em seus olhos.
  – Você não pensa nas consequências. – afirmei, ficando na ponta dos pés para alcançar a boca dele.
  – E você pensa?
  Claro que não. Se eu pensasse, não correria atrás de problemas na primeira oportunidade. Não correria atrás de .
  Suspirei profundamente aspirando o perfume amadeirado e maravilhoso que ele exalava. Seus lábios estavam entreabertos de um modo que só aqueles olhos podiam me deixar mais embriagada que eles. Apenas um beijo daqueles lábios me deixaria calma.
  – Bennet? – uma voz ecoou e eu nunca senti tanta raiva em toda minha vida. Como alguém pode ser tão inconveniente?
  Ah, claro! Pare de gritar, Bárbara, eu quero beijar seu namorado!
  – COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE FAZER ISSO COMIGO? – lá vem coisa – SEU CACHORRO! – e dito isso, Barbieranha saiu correndo do salão fazendo a típica cena de corna vítima e cega.
   revirou os olhos e os abaixou em minha direção.
  – Espere um pouquinho, eu tenho um relacionamento que precisa ser terminado urgentemente.
  – Tomara que ela bata com força. – murmurei seguindo para o outro lado do salão, procurando urgentemente algo para beber – Tomara que ela bata com força. – repeti levando a mão a um copo vermelho vivo e ingerindo todo liquido de vez. Droga, era só refrigerante.
   infelizmente já estava voltando em minha direção. Com cinco dedos bem marcados no rosto. Ah, e com muita raiva também.
   e tentaram se aproximar, mas eu apenas neguei com a cabeça. Eles não precisavam se meter ainda mais em minha vida e causar ainda mais problemas.
  Peguei outro copo e comecei a bebericar. Cruzei um dos braços sobre o peito e me arrependi por estar sem meus sapatos.
  – Ela bate com força, não é? – perguntei, arqueando uma sobrancelha e pressionando os lábios.
  – Ela deveria vir atrás de você, não é? – seu tom de voz saiu calmo e baixo, mas eu tinha certeza que aquilo não passada de fachada.
  – Você não pode bater nela, eu posso. Claro que ela não iria vir querer apanhar de mim.
  – Claro, não é? A invencível Dawson, por que brigar com ela? Você vai acabar se dando mal mesmo! – seu tom de voz apresentava sarcasmo e deboche. E eu não sei qual dos dois me irritava mais.
  – Não me venha com mais brigas, não aguento mais uma briga hoje. Espere dar meia-noite e venha brigar comigo.
  – Eu comecei a falar e eu vou terminar...
  – E VAI FAZER O QUÊ? – o interrompi gritando, um tanto impaciente – Você ia me beijar e eu ia deixar. Como a primeira vez, como a segunda vez! Você já a traiu antes de mim, então por que sou a única que importa? Por que graças a mim seu infeliz namoro acabou? De nada, .
  – Você viu como a garota ficou?
  – Nem eu nem você nos importamos como ela ficou. Você não dá a mínima para isso.
  – Você por acaso sabe o que eu estou sentindo?
  – Você por acaso sabe o que EU estou sentindo? – repeti sua pergunta gritando de forma irritante – Você faz parecer que eu sou o monstro dessa história, que eu te obriguei a fazer todas essas coisas. Mas não foi bem assim, certo? Ao contrário de você, eu deixo as pessoas verem o que eu sinto! E sabe o que eu estou sentindo? Nada.
  Coloquei o copo de volta na mesa e comecei a mover os pés. Eu ia chegar a algum lugar, se não sentisse meu corpo ser puxado e preso contra a parede pelo garoto bipolar que conversava comigo segundos atrás. Com toda certeza eu ficaria com dores nas costas depois.
  – Você não sente nada porque é uma vadia mimada. Ferra com tudo ao seu redor e nem se dá o trabalho de se importar.
  – Você se importa, ? – aproximei meu rosto do seu – Você fala tanto, tanto, tanto, mas na verdade está no mesmo barco que eu. Eu sei com o que você se importa. Você se importa com a proximidade de meu rosto com o seu. – dito isso, aproximei mais ainda meu rosto, me segurando para não roçar seus lábios no meu – Você se importa se eu vou te beijar ou não. Eu sei com o que você se importa, Bennet. Você se importa comigo.
  – Você é engraçada, sabia? – ele se afastou rindo forçadamente – Você acha que eu me importo com você? Já disse uma vez e vou repetir lentamente. Você não passa de uma vadia mimada.
  Virou e saiu andando, expressando sua raiva nos passos fortes e curtos.
   “Você não passa de uma vadia mimada” A voz dele ecoou pela minha cabeça e eu senti meu corpo estremecer. Escorreguei pela parede e sentei no chão, encostando minha cabeça em meus joelhos.
  Você não vai chorar, você não vai chorar. Pensei comigo mesma, arrancando os grampos e soltando as tranças, fazendo os fios loiros caírem sobre meu rosto.
  Mas já era tarde. Eu já sentia as lágrimas escorrerem e agradeci mentalmente por passar maquiagem à prova d’água.
  As coisas podiam começar a dar certo, nós poderíamos parar de brigar e sermos mais que amigos, como ele mesmo sugerira. Mas quanta hipocrisia, não é? No final de tudo, era mais que uma ilusão de tempo. Era uma ilusão de vida. Onde apenas uma pessoa podia fazer sua história.
  – ? – levantei os olhos e me deparei com , que estava de joelhos em minha frente – Seus pais já foram embora. Na verdade, eles saíram alguns minutos antes da valsa. Sua mãe pediu pra dizer que vai te buscar amanhã na , e disse que depois quer ver o vídeo da valsa.
  – Aquela maldita valsa. – resmunguei sentindo mais lágrimas acumuladas rolarem pelo meu rosto – Por que eu não podia dançar com você? Por que me colocaram para dançar com o Bennet?
  – Porque achamos que daria certo, que vocês dois iriam finalmente se acertar de verdade. Mas foi só uma ilusão.
  – Não diga essa palavra em minha frente, por favor. – implorei, sentindo Drummer sentar ao meu lado e passar o braço sobre meus ombros – Sabe, por alguns segundos vocês acertaram. Por míseros segundos, eu consegui acreditar que as coisas que ele soltava sem querer, que aquelas coisas eram verdade. Sabe o que ele disse? Ele disse que queria ser mais que meu amigo. E o pior de tudo foi que eu acreditei. Acreditei por um terço de tempo que ele estava apaixonado por mim. Mas esqueci que estamos falando de mim. Esqueci que é humanamente impossível alguém se apaixonar por Dawson.
  – Aí que você se engana, – ele beijou minha testa e ficou fazendo carinho no meu cabelo – É humanamente impossível alguém não se apaixonar por você.
  – Vou contar isso para . – comentei baixinho, apoiando minha cabeça em seu peito. Seu braço livre passou por meu pescoço e o abraço ficou mais apertado – Como estou? – sai por debaixo de seus braços e amarrei o cabelo num coque frouxo, sorrindo engraçada e falsamente para .
  – Como uma princesa. – juntou as mãos em baixo do queixo, balançando os dedos como se estivesse jogando pó magico em algo e piscando os olhos como uma garota – Agora levanta daí, princesinha da mamãe, temos mais umas cinco horas de festa. E temos que procurar uma que se escondeu em algum lugar para não dançar. Mas já cancelaram tudo mesmo, todas as valsas dessa noite podem dar em mais brigas. Ninguém quer isso, não é? – ele levantou e me puxou, rindo pelo nariz ao falar.
  – Drummer, preciso ir ao banheiro. – me desvencilhei dos seus braços e senti meu corpo parar bruscamente por uma mão – O que foi? – perguntei virando para , que me segurava.
  – O banheiro feminino está ocupado, é melhor você usar o masculino que eu estou aqui na porta de guarda.
  – Mas o banheiro feminino não tem só um box, tem vários, não tem problema estar ocupado. – argumentei achando estranho.
  – Um garoto precisou de absorvente e está no banheiro feminino, sabe lá o que ele tentaria fazer se você entrasse.
  – Um garoto? – espremi os olhos franzindo a testa.
  – Sim. Ele estava com o nariz sangrando e sugeriram que ele colocasse um absorvente interno no nariz para estancar o sangramento, algo assim.
  – Meu Deus! – murmurei assustada – Como aconteceu? Ele está bem?
  – Pelo que me disseram, foi bem feito. Ele estava gritando com uma menina por nada, brigando feio com ela, até fez a coitada chorar. Ai depois que ele saiu, um menino magrelo voou em cima dele e deu um murro bem no nariz dele, e começou a sangrar. – ele deu de ombros com um sorriso convencido no rosto – Mas me disseram... Sabe como as pessoas são, não se pode confiar muito no que dizem.

11 - Por que tão sério?

Agosto

  

Puxei todo ar para o meu corpo e sentei na primeira cadeira que vi na frente. ria da dança estranha que o namorado fazia, enquanto eu estava ofegante pelas inúmeras gargalhadas que saíam involuntariamente de minha garganta. O pai de não achou suficiente a falta de fôlego da filha e sobrinha por causa de , e se juntou ao garoto na coreografia estranha.
  Todos os convidados fizeram uma roda onde sogro e genro eram as atrações principais. Sério, eles deviam ir para algum concurso de dança, como tio Patrick consegue rebolar assim? Pesquisar mais tarde.
   – Venha cá, ! – o pai chamou a garota que apenas negou com a cabeça um tanto acanhada.
  – Vai, – levantei da cadeira e corri um tanto animada, pulando nas costas de minha amiga – Mostre a todos suas habilidades.
  – Eu vou se você for. – falou num tom desafiador, apenas dei de ombros e andei até , que me chamava com o dedo.
  Caminhei em sua direção, mexendo os pés de maneira estranha. Reconheci a música que tocava, uma de LMFAO um tanto antiga, mas, ainda assim, bem legal.
  – I’M SEXY AND I KNOW IT! – joguei os braços para cima e comecei a rebolar rápido, deixando as mãos direcionadas para minha barriga, numa tentativa estranha de deixar a dança mais engraçada.
  Olhei para de modo cúmplice e tapei o nariz, fingindo que estava sendo afogada ou afundando, vendo meu amigo me olhar estranho mas logo depois imitar meu gesto.
  Fiz biquinho quando a música parou e comecei a me abanar, um tanto cansada e com muito calor.
  – Preciso beber água. – comentei comigo mesma, amarrando novamente o cabelo que tinha feito o favor de soltar sozinho. Voltei a me abanar e peguei o primeiro copo que eu vi na frente, sorrindo comigo mesma ao beber algo gelado.
  – Você dança muito bem. – ouvi algo atrás de mim e me deparei com imensos olhos castanhos com um brilho um tanto enigmático. Ele tinha lábios volumosos e seus cabelos loiros caiam sobre os ombros. Sua pele era um tanto rosada, de um jeito meigo e que se destacava em seu smoking exageradamente arrumado – Sou o Diggory. – entendeu sua mão com um sorriso no rosto, sua voz era rouca e percebi que ele aparentava ter mais de dezoito anos.
  – Eu sei que está elogiando minha dança porque viu minha bunda, aquilo foi ridículo. – suspirei limpando a camada de suor que se formava em meu rosto – Ah, e eu sou lésbica, gosto de outra coisa. – menti descaradamente, sorrindo de forma cínica.
  – Tenho provas de que essa afirmação é mentira. – mais uma voz foi ouvida atrás de mim e uma onda de ódio invadiu meu corpo.
  – Tenho certeza que seu rosto não aguenta outro tapa. – mantive o sorriso e fiz questão de soltar o cabelo – Agora, se me dão licença rapazes, não quero estar atrapalhando a discussão de vocês dois sobre minha suposta sexualidade.
  – , eu quero falar com você. – gritou, correndo atrás de mim. Sua camisa social estava dobrada no seu antebraço e seu blazer pendia no ombro esquerdo.
  – Vai pedir desculpa de novo? E depois me xingar de algo pior? Como Bárbara, por exemplo?
  – ... – ele pôs a mão no meu ombro, fazendo meu corpo se virar em direção ao dele.
  – Meu nome é . Se quiser mesmo me chamar, chame direito. – tirei sua mão do ombro com a ponta do dedo, como se estivesse com nojo – Agora, por favor. Eu não quero mesmo conversar com você.
  – Por que você faz isso? – ele estava fazendo alguma piada? Eu? Ok, Bennet, vamos voltar a jogar.
  – Porque eu sou uma vadia mimada, . Não sabia disso? É com toda certeza o pior tipo de pessoa que você pode encontrar. Agora não venha atrás de mim, porque eu não quero mesmo começar uma gritaria.
  – Tudo bem. – seus olhos ficaram sérios e ele deu de costas, sentando numa cadeira próxima à mesa de doces e, consequentemente, ao centro do salão, onde havia algumas pessoas dançando.
  Avistei minha amiga atacando alguns doces e corri em sua direção, um tanto alegre.
  – FERRAZ! – ela arregalou os olhos e escondeu o rosto entre as mãos, um tanto envergonhada – Preciso te dizer duas coisas.
  – Diga.
  – Você conhece algum Diggory?
  – Sim, um alto e com o cabelão loiro? – afirmei – Ele é meu primo, por quê?
  – Arranje alguém para ele, porque ele estava dando em cima de mim. – revirei os olhos e sorri logo depois – E preciso que você coloque uma certa música para tocar.
  – Que música? – ela me olhou apresentando certa malícia no olhar.
–   Come and get it. – sorri abertamente.
  – Seu pedido é uma ordem. Agora, eu vou realizá-lo e sentar para apreciar o show.
  – Sente mesmo, porque o show vai começar.
   caminhou até a bancada de John e fez o pedido, atraindo olhares confusos quando a música que tocava parou repentinamente.
  Verifiquei se meu vestido estava cobrindo pelo menos minhas coxas e cumprimentei algumas pessoas que tentavam reconhecer a música que acabara de começar.
  Passei as mãos no cabelo e encostei o corpo numa garota desconhecida que estava em minha frente. Ela deslizou as mãos pelo meu quadril e encaixou seu corpo no meu.
  Uma garota também desconhecida encaixou o corpo atrás do meu e eu repeti o gesto da garota da frente, mas fazendo questão de apertar sua bunda com a ponta dos dedos.
  Senti meu corpo reagir e acompanhei os rebolados da garota atrás de mim e ao sentir alguém apertar minha cintura com certa força – a garota de trás –, abri a boca num suspiro quase imperceptível. A não ser por , que me fitava com uma mistura de admiração e desejo.
  Olhei em sua direção, cantando sem emitir som nenhum. Levantei o dedo indicador e o chamei. Ele apenas negou com a cabeça e passou a língua pelos lábios entreabertos. Dei de ombros e voltei a mexer os quadris no ritmo da música.
  Deixei a boca entreaberta e minhas mãos deslizaram por toda extensão coberta e descoberta do meu corpo, causando arrepios em lugares aleatórios.
  Virei minha cabeça em direção a , que já estava mais próximo de mim, com um sorriso altamente malicioso no canto dos lábios.
  Entreabri as pernas empurrando um pouco a garota que estava em minha frente. Comecei a mexer a bunda no ritmo da música e deixei meu corpo ser levado pela vontade insaciável de descer até o chão.
  Quando eu voltei a ficar de pé, meu corpo foi puxado bruscamente e eu já não estava no chão.
  Minhas pernas encaixaram nos quadris de , e eu senti um frio percorrer a extensão do meu pescoço até meu colo. Aonde a boca quente e macia dele distribuía beijos e mordidas.
  Levei minhas mãos até seu pescoço e deixei minhas unhas arranharem levemente o local. Abaixei minha cabeça, parando os lábios em sua orelha. Não fiz nada a não ser abrir a boca e deixar minha respiração descompassada causar calafrios no corpo de .
  Calafrios esses que foram confirmados por mim quando eu senti seus dentes cravarem na parte exposta da extensão que um dia fora branca, e agora pulsava num vermelho vivo – extensão essa denominada pele.
  Suas mãos invadiram meu vestido pelas costas expostas e mais um tremor se apoderou do meu corpo. Ele estava retribuindo tudo o que eu fiz com ele: Ver, desejar e não poder ter.
  Subi os dedos, invadindo aos poucos os fios sedosos e pretos, quando senti mais calafrios percorrerem meu corpo por culpa das mordidas exageradas, fiz questão de puxar seu cabelo sem medir pudor.
  Ele começou a se mexer e mais uma vez senti minhas costas se chocarem contra a parede, causando uma dor que foi substituída por prazer logo depois.
  – Minhas costas agradeceriam se você fosse menos violento.
  – Não posso te bater, mas se você fosse um garoto já estaria bem machucado. – sua voz saiu baixa e acompanhada de algumas falhas no tom – , eu quero tanto te bater, mas não posso. Então essa é minha forma de descontar a raiva.
  – Você quer me bater, ? – perguntei em meio a sussurros, parando de me mexer.
  – Eu quero fazer tanta coisa com você, . – sua boca entreaberta passou pela minha bochecha, deixando um rastro de saliva pelo local.
  – Então faça. – sussurrei, levantando a cabeça e encarando seus grandes olhos azuis – Faça antes que eu me arrependa dessa merda toda. – me aproximei, falando de modo que minha respiração invadisse seu espaço. Segurei seu rosto com as mãos e por alguns segundos, notei que ele segurava minha cintura de forma carinhosa.
  Então, pela primeira vez na noite, eu percebi.
  Percebi que só por essa noite, eu me renderia a Bennet.
  – Tem certeza que não vai se arrepender? – perguntou, com os olhos fechados e a pele roçando na minha.
  – Seu nariz ainda está doendo? – perguntei, fazendo um carinho no seu cabelo, ele sorriu levemente e assentiu com a cabeça – Então eu não vou me arrepender.
  Apertei minhas pernas e controlei os impulsos de suspirar ao sentir os dedos de passearem por minhas costas nuas. Eles pararam em meu pescoço e o empurrou para baixo, causando um impacto ao sentir seus lábios se chocarem contra os meus.
  Me permiti deixar um gemido escapar quando senti sua língua invadir minha boca sem permissão. Movi a boca contra a sua e percebi o quanto eu senti falta daquilo.
  Sua língua emanava o mesmo gosto da primeira vez, mas agora com um gosto quase inexistente de álcool. Seus lábios pareciam mais quentes e mais macios, com um gosto alta e perigosamente viciante.
  Fechei os olhos involuntariamente e apertei os dedos, puxando alguns fios de cabelo que ali estavam presos.
  Soltei as pernas de sua cintura e as joguei para baixo, entrelaçando os braços ao redor do pescoço de . Por alguns segundos, fiquei pendurada no ar e depois senti meus pés alcançarem o chão.
  Mas logo depois eu estava na ponta dos pés, consequência das mãos de que seguravam minha bunda com certa precisão.
  – , – o chamei baixinho, quase sem ar – eu preciso respirar. – sua boca se separou da minha e eu inalei toda quantidade de ar possível.
  – Respirar, isso. Parece ser bom. – abri os olhos e levantei o queixo, só para olhar que cara ele fazia – Parece que suas parceiras de dança não gostaram que você as abandonou.
  – Hm. – as olhei por cima do ombro de e percebi que realmente elas não estavam fazendo uma cara amigável, uma parecia estar com raiva e a outra parecia um tanto surpresa – Você quer que eu volte a dançar com elas?
  – Não. – ele respondeu de imediato me fazendo rir baixo – Esse lugar em que você está agora, é de bom tamanho.
  – Presa entre a parede e você? Maravilha. Me sinto uma vagabunda assim. – foi a vez dele de rir, fiz cara de entediada e pus minha língua para fora. Seu polegar parou em meu queixo, o levantando mais ainda.
  – , você não devia dizer essas coisas para mim. Eu tenho a mente suja! – exclamou e eu senti que estávamos numa luta interna para não explodir em gargalhadas.
  – Presa entre a parede e um tarado. Tem coisa melhor? – passei os braços em sua cintura e apoiei meu queixo em seu peito, ainda com os olhos nele.
  – Eu queria te dizer coisas bonitas, coisas que fariam você sentir outra coisa. Eu tento dizer às vezes, mas elas nunca serão boas o bastante para você.
  – Elas sempre serão boas demais para mim. Não perca seu tempo pensando nisso, , eu não mereço palavras bonitas. Lembre-se que eu sou a garota que planejou partir seu coração.
  – É fácil falar, difícil mesmo é conseguir partir meu coração.
  – Você acha? – arqueei a sobrancelha de modo desafiador, fazendo sorrir levemente.
  – Claro que não, te dou um mês para fazer isso. – fiquei na ponta dos pés, desencaixando meus braços de sua barriga para conseguir fazer o contorno em seu pescoço. Aproximei meu rosto do seu, passando os lábios levemente pelo seu pescoço.
  – Você cheira bem. – falei para mim mesma, sabendo que ele ouviria devido a aproximação – Seu cheiro é tão bom... – confessei, roçando o nariz e absorvendo o perfume que estava marcado em sua pele.
  – Eu estou suado, .
  – Isso deixa o cheiro ainda melhor. – sorri ao passar os dedos sobre seus lábios entreabertos.
  – Já que você diz... – ele deixou a frase no ar e abaixou os olhos, finalmente encontrando os meus.
  Pensei em sorrir, mas percebi que eu estava sendo mole demais. Mas afinal, who cares? Eu só queria sentir o gosto daquela boca.
  – Vem cá, vem. – chamou, então eu me permiti não pensar demais – Faz as coisas sem hesitar. Faz o que você realmente quer.
  – Tudo bem. – passei a mão em seu pescoço, o puxando para mais perto de mim.
  Diferente do outro, fiz questão de tocar seus lábios levemente antes de iniciar um beijo lento e calmo, aproveitando cada segundo daquilo.
  Senti um arrepio percorrer minha barriga e diminuí o espaço entre nós dois, apertando mais ainda seu pescoço com as mãos.
  Dessa vez quem deixou um grunhido escapar foi , que riu um tanto espantado com a própria reação. Quando eu percebi que ele ia quebrar o beijo, soltei minhas mãos de seu pescoço e pus suas mãos em minha cintura, refazendo os inúmeros calafrios que percorreriam meu corpo quando sua pele entrava em contato com a minha.
  Continuei o beijo, e alguns segundos depois senti uma imediata saudade dos quinze centímetros a mais que meus saltos proporcionavam.
  Da segunda vez, deixei ele parar o beijo, sentindo tanta falta de ar que minha pele poderia estar encaminhando para um vermelho estranho.
  Percebi que minha respiração estava tão falha quanto a de . Balancei a cabeça negativamente, rindo de minha reação.
  – OLHA SÓ QUEM ARRANJOU COM QUEM FICAAAR! OLHA AQUI, SEU BOBOCA. A DAWSON SUMIU! Se você tiver brigado com a garota mais uma vez e feito ela chorar, eu juro que o murro agora é em seu olho! – gritou, fazendo-me esconder o rosto na camisa de , assustada com o grito, mas alegre pelo comentário.
  – Hm, oi Drummer. – virei minha cabeça de modo que só ela apareceria ao lado do braço de – Acho que não precisa do murro.
  – Acha? – arqueou a sobrancelha e virou o rosto para um um tanto assustado.
  – Só por precaução. – dei de ombros passando por debaixo dos braços dele e sorrindo exageradamente para meu amigo, que continuava com a cara de paisagem.
  – Por que parece que ele vai gritar? – perguntou, fazendo cara de assustado.
  – Porque eu acho que ele vai. Será que ele se assustou demais? – cutuquei que ainda estava parecendo que viu um fantasma – Drummer, você está bem?
  – , seu pescoço está vermelho. – ele apontou para o pedaço de pele que parecia começar a pulsar – Vou te perguntar apenas uma vez, ele te bateu?
  Gelei, era o melhor amigo de , como em sã consciência ele conseguia pensar nisso?
  – , ele me mordeu. – falei num tom de voz assustado, espremendo os olhos para acreditar que era ele mesmo ali – Isso é um chupão.
  – , para que mentir? Eu bati em você! Eu dei um tapa em sua cara, por isso ela está quente e vermelha. E Deus sabe o que eu fiz para deixar o pescoço da garota desse jeito... Ah, e ela estava presa entre a parede porque eu estava tentando estuprá-la!
  Fechei os olhos e passei as mãos pelo rosto, temendo pela expressão e até mesmo a posição que estaria nesse momento. E com razão, da ultima vez que eu o vi desse jeito, ele estava sem camisa, cabelo molhado e com raiva de mim.
  – , calma... – apelei para seu apelido, pondo as mãos em seu peito para tentar segurá-lo – , ele não falou por mal. Foi só uma pergunta inofensiva.
  – , você vai mesmo defender ele? Ele achou que eu bati em você! Não faria isso no meu pior estado! Eu disse algumas coisas que por segundos podiam ser suspeitas, mas apenas você as ouviu! Você mais que ninguém sabe que eu não sou covarde o bastante para isso! Eu, eu não faria isso no meu...
  – Pior estado, eu sei. – virei para ele de vez e passei os dedos nos cabelos bagunçados, sorrindo levemente – Ele se assustou, somente.
  – Não ponha palavras em minha boca, Dawson.
  – Ouviu, ? Ouviu o que ele disse?
  – QUE DR MAIS INSUPORTÁVEL! CHEGA! MAS QUE PORRA! – gritei, encaixando minha mão na de , dei um passo para trás e fiz o mesmo com – Vocês dois, venham comigo. – nenhum dos dois se mexeu – Se vocês não vierem por bem, eu vou puxar os dois pelas devidas orelhas, fazendo questão de machucar.
  – O que você planeja fazer? – perguntou, com a voz vinda bem atrás de mim.
  – Uma coisa, confiem em mim. – virei para sorrindo falsamente – Alguma vez eu decepcionei vocês? – percebi que ambos tinham aberto a boca para responder, mas os interrompi imediatamente – NÃO OUSEM RESPONDER, SEUS INGRATOS! – suas risadas abafadas foram ouvidas quando eu revirei os olhos – Já estão rindo juntos. Mas mesmo assim, venham.
  Fui puxando os dois para o banheiro masculino, atraindo a atenção de muitas pessoas. Uma delas até perguntou se eu tinha camisinha ou se dois meninos eram mesmo necessários.
  Mas eu apenas sorri e disse que não sabia qual dos dois era o pai do filho que eu estava esperando e precisava resolver isso.
  Arranquei risadas dos dois garotos, que agora estavam dentro do banheiro – trancado, diga-se de passagem – comigo.
  – O que você quer, Dawson? – perguntou, com um tom de voz grosso demais. Como se tentasse esconder a risada.
  – Eu? Nada. Vocês vão conversar – sorri e senti minha boca se fechar involuntariamente pelas expressões enraivadas que recebi – P-A-C-I-F-I-C-A-M-E-N-T-E!
  – , assim você tira toda a graça da brincadeira. – deu de ombros e sentou na pia – Estou me mantendo numa distância aceitável para ouvir a explicação de vocês.
  – Claro, pai. Quer saber como e com quem foi meu primeiro beijo? Qual foi meu maior amasso e aonde? Não me coloque no meio, . A briga é entre você e .
  – Seu primeiro beijo foi com Fernando, que agora é segundo ano, e logo depois você vomitou. Seu maior amasso foi aquele com na piscina.
  – Na verdade, acho que aquele de agora supera o da piscina. – respondi e senti meu rosto corar. Eu estava assumindo que era uma quase santa, fruta que caiu. – Ou foi aquele com o Bruno na casa da Amanda?
  – Eu não conheço esses dois. Quem são? – arqueou a sobrancelha e fez uma cara confusa.
  – Eu tinha uma vida antes de vocês, sabiam? – retruquei, sentando ao lado de na pia.
  – Então por que você nunca falou deles para mim? – mais uma vez, Drummer perguntou e os dois garotos enviaram olhares curiosos para mim.
  – PORQUE ELE NÃO EXISTE, OKAY? – pus a mão no meu rosto e eles começaram a rir escandalosamente – Meu maior amasso foi com Bennet numa festa! SATISFEITOS?
  – Presa numa parede, com um vestido curto, mãos bobas por todos lados, mordidas e chupões na pele e com telespectadores. Não foi tão ruim assim... – ele se aproximou e encaixou o corpo entre minhas pernas, aproximando o rosto do meu.
  – EI EI EI EI. OLHA A FALTA DE VERGONHA DO MEU LADO. – a mão de empurrou para longe de mim, gargalhei alto e virei para meu melhor amigo que tinha uma cara de mandão e ciumento – Seu pai não gostaria de ver isso.
  – Tudo bem, papai, agora vá se desculpar com o seu melhor e, lembrando de passagem, único amigo.
  – Merda, , você poderia ser um homem. Sei lá, agora tenho que apelar para o ... – ele fez uma cara de nojo forçada e engraçada e virou para o amigo – Mil perdões, meu lorde amado, meus modos não foram bons o bastante para vossa alteza, e com toda certeza minha audácia foi merecida de punição. – ele abaixou os olhos e deu um sorriso sacana – Pode me bater, eu deixo.
  – Vá à merda, Drummond. – empurrou o amigo rindo dele e veio em minha direção, virado para ele mas com o corpo encostado no meu.
  – Drummer, posso fazer uma pergunta quase séria? – murmurei, passando os dedos no cabelo de Bennet – Por que você teve aquela reação? – perguntei estreitando os olhos para , que agora parecia um tanto irritado com a pergunta – Drummer?
  – Você pode guardar um segredo? Vocês, aliás... – assenti, percebendo que repetira meu gesto – Uma vez, eu cheguei em casa tarde, faz tanto tempo isso... Meus pais estavam na mesma posição que vocês estavam, eu não entendi, sabe? Era um moleque de 10 anos e só sabia jogar vídeo game com os vizinhos. Eu chamei minha mãe e ela saiu por baixo dos braços de meu pai. Descabelada, vermelha e suada. Mas ela estava com marcas roxas e uma mão marcada no rosto. Eu nunca fiquei tão assustado em toda minha vida. Meu pai me mandou para o quarto e eu fui. Eu podia ter defendido minha mãe, mas eu só fui para meu quarto...
  – Ei, Drummer, não foi culpa sua. Você não podia fazer nada. Mas ele melhorou não foi? Seu pai. Caso contrário, eles não estariam juntos até hoje. Isso é bom.
  – Ah, claro. Aquele desgraçado melhorou sim, quando morreu e levou minha mãe junto num maldito acidente de carro.
  Congelei e fechei os olhos disfarçadamente. Como eu teria uma reação para isso? Pensa, ... Melhor, o que eu falaria para ele? Sinto muito pelos seus pais?
  – Com quem você mora? – perguntou, apertando minha pele pela abertura do vestido. Ele estava achando aquilo muito estranho, igual a mim.
  – Com meus tios. Eles eram próximos demais de minha mãe e nunca tiveram filhos. Com o tempo, peguei a mania de chamá-los de pais
  – Isso explica algumas coisas...
  – Drummer, olha. Não teve nada. Estamos bem, você não precisa ficar com isso na cabeça. Eu sei que não é fácil superar isso, nem estou mandando você fazer tal coisa. Mas precisa errar em relação a isso, precisa fazer uma coisa que eu não gosto. Você precisa confiar. – vomitei as palavras sendo mais um conselho para mim mesma do que para ele, eu precisava confiar mais – Precisa confiar nos seus melhores amigos.
  – Tudo bem. – me desfiz do abraço de e fui abraçar meu melhor amigo. Fechei os olhos absorvendo o cheiro dele, me sentindo bem com aquilo. Ele era meu escudo para todas essas coisas. Apesar do pouco tempo, ele era melhor do que gente que conheci durante toda minha vida.
  – Como vai ser você e o Bennet agora? – sussurrou em meu ouvido, fazendo vários tipos de pensamentos ecoarem pela minha cabeça.
  – Foi só um... Uns beijos. E antes que fale mais alguma coisa, eu sei o que acontece no final dessa história, mas eu estou disposta a ver.
  – O que os dois estão falando? – Bennet perguntou atrás de mim, respirando perto do meu pescoço. Balancei a cabeça, espantando todos os pensamentos maliciosos em relação àquilo.
  – Eu estava comentando com a sobre como vai ser divertido nós três e a num quarto pelo resto da noite...
  – Oi? – perguntamos juntos, desmentindo completamente a farsa de .
  – Bem, como sabe, ele e eu combinamos com a de dormir na casa dela, e depois ela lembrou que tinha combinado com você também. E como minha garota é uma ótima amiga, nós vamos dormir lá.
  – Putelvis que los pario! EU DURMO NA CAMA DA COM ELA!
  – Ei, minha garota, minha parceira de cama!
  – Vamos ver se o tio Patrick vai deixar... Não dormirei com !

****

  

– Oi? Como? Você quer mesmo que eu durma na mesma cama que Bennet? Que tipo de amiga você é?
  – Vamos lá, ! Ele não têm doenças contagiosas! Qual o problema de dormir com ele? – cruzou os braços e arqueou a sobrancelha esquerda.
  – A) Eu nunca dormi na mesma cama que um garoto! B) Você viu o que fizemos com as pessoas olhando, imagina sozinhos em um quarto! C) Eu sou virgem e não quero dar adeus à minha companheira por causa de ! D) É ! Você está mesmo pedindo isso para mim? ALIÁS... O que você pretende fazer sozinha num quarto com ?
  – Só dormir. Não tenho coragem para fazer isso... – seu rosto ficou rosa e ela olhou para baixo, balançando os pés de forma envergonhada.
  – Vou pensar no seu caso... – eu ia ceder, ia desistir do meu orgulho por causa de minha amiga. Uma causa nobre... E idiota – Mas ele vai dormir no chão. Vamos, eu quero ir para casa logo!
  A mãe de nos esperava na porta do espaço da festa para irmos embora. Puxei minha amiga pela mão e a arrastei até o carro, onde dois garotos com roupas bagunçadas e sorrisos sacanas, estavam encostados.
  – Desistam. Eu sorrindo sou mais malvada do que vocês dois assim. Se ao menos tivessem jaquetas de couro. Mas não...
  – E aí, convenceu nossa garota malvada? – perguntou, entrelaçando os dedos no da namorada.
  – Sim. – respondi seca, abrindo a porta do carro e sentando na frente – vai dormir no chão.
  – Não quer dormir comigo, então dorme você no chão.
  – O homem é você, seja cavalheiro uma vez na vida!
  – Com alguém que não é uma dama? – virei o rosto, sentindo parte dele mudar de cor devido a irritação.
  – Tia, você se importa? Se houver uma tentativa de assassinato no carro?
  – Não, querida, eu adoro um teatro. Mas não era você quem estava aos amassos com ele? Um tempinho atrás? – olhei indignada para a mãe de e virei o corpo para frente, encaixando o cinto de forma bruta – Ninguém vai dormir sozinho, os meninos colocam o colchão no chão do quarto da e os casais podem dormir juntos, contanto que antes do almoço vão para a outra cama. e estarão juntas e e também. – ela parou no sinal vermelho e esperou os gritos de alegria atrás de mim cessarem para voltar a falar – Ai, se Patrick imagina que eu deixei isso... Darei adeus a meu casamento.
  – Nós vamos dormir, mãe, apenas dormir.
  – Querida, eu não estou falando de sexo. Longe disso, mas sabe como os pais são, eles são preocupados demais. Ainda mais que você é a mais nova. Sua irmã é mais fechada, mais madura e... Puta que pariu, esqueci a Dom na festa!
  – Papai ainda está lá.
  – Ah, voltando... E Dom não tem namorado. Eu confio no Drummer, meu amor, não confio em você.
  – Um tapa na cara doeria menos.
  – Por que todos estão usando MEU apelido? Eu não deixei, fui eu quem inventei! Ainda existem milhões de apelidos para !
  – CHEGAMOS! Obrigada, meu Senhor. Não gritem tanto no quarto. Incomoda tantos gritos seguidos! Não quero ouvir gritos, estão me entendendo?
  Muito menos gemidos.

****

  

, larga o celular e dá atenção pra gente! – ouvi resmungar e aumentei o volume da música. Voltei os olhos para o jogo – , larga o celular! – neguei com a cabeça e balancei os pés no ritmo da música.
  – Dawson? – dessa vez era , não respondi, aumentando o volume ainda mais – Uma merda que ela vai ficar assim. – senti os fones serem arrancados de meus ouvidos e as minhas mãos continuaram na posição do jogo – Suck it and see? Sério? Esse lado apaixonado da vida não combina com você.
  – Essa música não é para apaixonados! E devolva meu celular que eu estou jogando Plants Vs. Zombies!
  – You got that face, just say “Baby I was made to break your heart”. – cantarolou, tirando os fones do celular e jogando-os em sua mochila – Corrigindo, você estava jogando Plants Vs. Zombies. E só vai ouvir música se ouvir com todos nós... Qual música vocês querem?
  – In my veins! – gritei.
  – Dark Horse! deu um pulo empolgado.
  – The Scientist! – agora quem gritara fora .
  – Vai ser Million Dollar Man. – Drummer deu de ombros e colocou a música. Repeti seu gesto e deitei no colchão, e fui acompanhada dos três, que ficaram na mesma posição que eu. deitou ao meu lado com o corpo junto ao meu, de barriga para cima. Se batendo com minha cabeça, estava , e ao seu lado , do mesmo jeito.
  Alguns segundos depois, me incomodei com o silêncio que só era quebrado pela voz de Lana. Então comecei a cantar, sendo acompanhada pelo coro.
  – And I don’t know how you, get over, get over. Someone as dangerous, tainted and flawed as you. One for the money, two for the show. I love you honey, I’m ready, I’m ready to go. How did you get that way? I don’t know. You’re screwed up and brilliant. You look like a million dollar man, so why is my heart broke?   – Credo. – bocejou – Estamos acabando com a música – riu passando os braços por cima do corpo do namorado – Temos que parar de ouvir música dessa mulher, a voz dela faz alguma coisa com nossas cabeças.
  – Ela é maravilhosa... Quero ser que nem ela quando crescer. Quem sabe assim as pessoas gostem de mim. – confessei, rindo do meu próprio comentário.
  – É crime gostar de você assim? – a voz rouca e sonolenta do garoto ao meu lado, soou baixinho.
  – É crime gostar de mim de qualquer jeito. – virei o corpo de lado e deitei a cabeça sob minha mão. Balancei-a negativamente e levantei do colchão, pronta para expulsar o casal de minha cama – Dormiram. Putelvis que los pario! Como eles ficam fofos dormindo juntos! Deixa os dois aí e vamos subir para cama. – sentei na ponta da cama e estendi minha mão para ele, o mesmo segurou meus dedos, encaixando nos dele. Puxei o corpo dele para cama e tentei sorrir sinceramente, mas provavelmente saiu parecido com uma exposição de caninos.
  – Não vai deitar? – perguntou, já esparramado na cama.
  – Vou. – deitei ao seu lado, virada para ele na mesma posição de minutos atrás.
  – Você parece distante e perdida.
  – Ah, não se esqueça de citar “confusa”.
  – Parece gostar de estar assim. Como se já estivesse acostumada com todo esse gelo dentro de si.
  – De fato. Não existe nada dentro de mim que seja quente o suficiente para derreter esse gelo.
  – Isso não te deixa perdida? – seus dedos deslizaram entre os fios de meu cabelo, então fechei os olhos, apreciando o carinho.
  – Sempre dou um jeito de me encontrar. Não é difícil assim. Mas tem dias que é complicado lidar comigo mesma.
  – Tem outras pessoas aí dentro?
  – Várias.
  – Posso conhecê-las?
  – Não consegue lidar com uma, imagina com todas elas. Não é algo muito fácil para entender... – falei, soprando o ar em seu rosto. Sua mão desceu para meu pescoço e a restante parou por cima de minha cintura.
  – Posso tentar entender todas elas.
  – Daqui que você entenda todas, já enlouqueceu de vez. – ri do meu modo sério de falar e fiz carinho no pé de seu pescoço.
  – Está se denominando louca? – sorriu, fazendo as pontas dos meus dedos involuntariamente deslizarem pelos seus lábios.
  Inclinei minha cabeça e beijei sua boca, sorrindo em meio ao beijo. Sua mão puxou meu pescoço para apertar o beijo. Toquei seus lábios, selando mais um beijo e voltei para minha posição inicial.
  Meu celular ainda tocava música, sendo o pedido de agora.
  – Eu nunca disse que me entendia.

12 - Verdades Não Ditas

Setembro

  

Espremi os olhos, tentando enxergar o que diabos o professor estava escrevendo no quadro branco. Me odiei por não precisar usar óculos, toda aquela luz estava me matando, e eu não sabia o que tinha escrito ali. Por que ele precisava escrever no quadro inteiro só hoje? Porque semana que vem tem simulado e ele está revisando o assunto, . Pare de reclamar. Era uma causa nobre, ok. Mas pelas barbas de Merlin, por que as letras do professor de química tinham que ser tão pequenas?
  Alguma alma piedosa fechou a janela, escurecendo a sala e deixando o quadro visível para meus olhos. Por um momento, senti vontade de levantar e dançar o Macarena, de tão feliz que eu estava.
  Quando abaixei minha cabeça para olhar a folha em branco do meu caderno, senti alguma coisa ficando enganchada em meu cabelo. Passei a mão pelo local e senti uma bolinha de papel presa ali. Puxei e a abri, lendo o que tinha escrito dentro.

Preciso conversar com você. Não saia quando o sinal bater.
, xxx

  Virei para , me perguntando porque diabos ela tinha feito isso. Mas aí lembrei que ela estava com notas um pouco baixas em química, e a mãe dela havia tomado seu celular. O que significa que ela deveria estar copiando a revisão do assunto, não mandando bilhetes no meio da aula. Bufei com raiva e acenei com a cabeça, vendo apenas um pequeno sorriso brotar em seu rosto.
  Quando finalmente terminei de copiar todas as fórmulas e coisas que estavam anotadas no quadro, o sinal bateu, indicando o final das aulas naquele dia. Continuei sentada, vendo as pessoas arrumarem suas coisas e voltarem para suas vidas patéticas. Ninguém se importou em saber por que e eu continuamos na sala – até porque e haviam faltado o colégio porque não conseguiram acordar a tempo de chegar aqui. Culpa de um imenso trabalho de geografia sobre a África.
  Enfiei todos meus livros de vez na mochila e fechei o zíper, virando para , que estava sentada em sua cadeira, batucando com as unhas na madeira. Seus olhos levantaram e chegaram até mim, e quando ela fez isso, percebi o quão abatida ela estava. Bolsas azuis estavam abaixo dos olhos, sua pele parecia mais pálida que o comum, seus cabelos estavam bagunçados em um rabo de cavalo e, além de todas essas coisas, ela parecia morta.
  – O que foi? – sentei na cadeira em sua frente e coloquei a mão sobre seus dedos frenéticos.
  – Se eu te perguntar uma coisa, você promete ser totalmente honesta comigo? – sua voz estava fraca, parecia tão morta quanto sua expressão.
  – Prometo. – respondi rapidamente, querendo que ela acabasse com aquela curiosidade que estava crescendo em mim.
  – falou alguma coisa sobre mim para você? – neguei com a cabeça, franzindo o cenho com aquela pergunta – Tem certeza?
  – , por que acha que eu não teria certeza? – apesar de minha defensiva exagerada, eu não via porque estar perguntando esse tipo de coisa para mim.
  – Eu não sei. Posso te contar uma coisa? – assenti e seus olhos ficaram cheios de lágrimas – Acho que vai terminar comigo. – as lágrimas que estavam presas, rolaram pelo seu rosto e isso me assustou – Ele não está como antes. Ele não segura minha mão em público, ele não me abraça mais... Na verdade, todas as demonstrações de afeto em público diminuíram para quando nós estamos sozinhos. Ele só age como o de sempre quando está apenas comigo e...
  – ! O que você quer dizer com isso? – meu tom de voz mostrava o quanto eu estava perdida. O que diabos tinha dado nela?
  – Eu acho que o está com vergonha de mim. – ela deu de ombros e voltou ao choro – A ficha dele finalmente caiu.
  – QUE FICHA? – balancei seus ombros e ela cobriu o rosto com as mãos, como quem está com vergonha.
  – Olhe para mim, ! Que tipo de garoto me namoraria? Quer dizer, eu sou a estranha dessa sala! Minha boca tem gosto de metal graças a esse piercing que eu não tenho coragem de tirar. Se dependesse de mim, meu cabelo ainda estava desbotado porque eu não queria pintar de nenhuma cor. Que tipo de garota não quer uma festa de 15 anos? Que tipo de garota rasga o próprio vestido só pra não dançar em sua festa de 15 anos? Que tipo de garota se esconde no banheiro em sua própria festa?
  – VOCÊ! E por isso que se apaixonou por você! Não foram suas qualidades que fizeram o menino te ver em meio a todas essas garotas iguais. Foram seus defeitos. São essas coisas que fazem você ser diferente de todas essas s e Bárbaras desse colégio. se apaixonou por você porque você é única. Você vê coisas que mais ninguém vê, você vê um lado bom nas coisas. Um lado bonito no que é feio. E é por isso que você namora com . – um sorriso pequeno apareceu em seu rosto e ela riu em meio ao choro. Limpei suas lágrimas e passei os dedos pelas suas bochechas, fazendo um carinho leve – Não fique pensando que você é inferior a alguém ou a algo. Você é a garota que se apaixonou há meses e a mesma pela qual ele estará apaixonado amanhã.
  – Você tem certeza?
  – Claro que sim! Adaptei uma frase de um dos meus livros favoritos só pra falar isso. Acha que eu brincaria com isso? – ela desfez o rabo de cavalo e deixou os cabelos caírem abaixo dos ombros, seu corpo levantou e ela parecia mais cheia de si – Você daria uma péssima depressiva, cruzes. Vamos para portaria esperar seu pai. – encaixei o braço no dela e fomos andando para a porta do colégio, onde tio Patrick já estava esperando com uma expressão impaciente no rosto. foi até ele, entrou no carro e os dois partiram com um aceno em minha direção.
  Quando vi que o carro já estava bem longe de minha visão, enfiei a mão no bolso e puxei meu celular, discando o número de , que no terceiro toque atendeu.
  – Oi, . – sua voz estava pesada e cansada, ele parecia ter acabado de acordar, mas eu não estava dando a mínima para isso.
  – Oi. está ai ainda?
  – Dormindo, por quê? Daaaawson, eu fui dormir quase quatro horas da manhã fazendo nosso trabalho, por que me acordou agora se sabe que ele ta dormindo ainda? – se eu não estivesse com uma pontada de raiva, provavelmente estaria rindo do modo arrastado e lento de pronunciar as palavras.
  – Eu estou indo para sua casa agora. Precisamos conversar e não quero ouvindo a conversa. – recebi o silêncio como resposta – Acho bom você arranjar alguma coisa pra proteger seu amiguinho, porque dependendo do que eu vá ouvir, você pode ter ele arrancado hoje. Chego ai em meia hora. – desliguei, sem esperar a resposta dele.
  Amarrei meu cabelo num coque bem apertado e comecei a caminhar.

****

  

– Ela acha que eu vou terminar com ela? – ele perguntou pela nona vez em cinco minutos. Eu tinha extrapolado a lei máxima entre a regra das garotas, contando o que eu sabia e o que ela tinha me contado. Mas naquele caso era diferente, era a relação dos meus melhores amigos que estava em jogo. Eu não iria deixar isso acabar por causa de um desentendimento bobo.
  – Sim, Drummer. – assenti, já sem paciência.
  – Por quê?
  – Se eu soubesse, não viria aqui te perguntar! – gritei, recebendo uma advertência como resposta. Estávamos na sala da casa de e , que disse que iria conversar com a gente, estava jogado no sofá, no seu centésimo primeiro sono – Por que você anda estranho com ela?
  – Estranho? – ele franziu o cenho e fez cara de desentendido – Que tipo de estranheza? Porque estranho eu sempre fui.
  – Ela disse que você fica agindo como se tivesse vergonha dela.
  – De onde ela tirou isso?
  – Parece que você não mostra mais afeição por ela em publico. – dei de ombros e sentei no braço do sofá aonde dormia.
  – Ah. – ele pareceu entender o que eu tinha falado e suspirou profundamente – Você acha que ele está realmente dormindo? – assenti com a cabeça – Vem aqui pro meu quarto.
  Caminhamos até seu quarto. Eu nunca tinha entrado exatamente no quarto de , mas era um quarto clássico de menino. Nada ala Bennet, com surpresas maravilhosas. Era um quarto comum, com coisas comuns de meninos. As únicas coisas que chamaram minha atenção foram as diversas fotos de nós quatro espalhadas pelo quarto, e o cheiro excessivo que o quarto tinha de flores e coisas limpas.
  Ele se jogou na cama bagunçada e apontou para o espaço vazio ao seu lado. Dei a volta na cama e me joguei ao seu lado, ele me abraçou por cima dos ombros e encostou o queixo na minha cabeça, fazendo carinho em meus cabelos com os dedos.
  – Ah, . – ele suspirou – Eu queria poder te contar das coisas. De tudo. – não contestei, apenas esperei ele continuar a falar – Você acha que existe alguma possibilidade de a terminar comigo? – neguei de imediato, ela não terminaria com ele nem em mil anos. Eles dois eram um casal pra vida toda. – Você acha que ela me ama?
  – Eu tenho certeza. – respondi – Mas e você, ? Você ama a ?
  – Mais que a minha vida. – seu tom estava preocupado e eu desejei que ele se abrisse comigo. Ele era meu melhor amigo, por que simplesmente não confiava em mim? – Mas eu não a mereço. Eu não sou um santo, . Eu não posso mudar o que eu já fiz, mas posso tentar mudar o futuro. E é isso que eu estou fazendo, tentando dar um sentido as coisas que eu amo. – não consegui achar uma resposta exata para aquilo. Apenas engoli em seco. Se Drummond não era um santo, eu era o próprio Lúcifer.

****

  

A porta da sala foi aberta, e dela saiu uma garota alta e morena. Flávia. A aluna que tinha ido à coordenação verificar porque nenhuma professora tinha chegado já com vinte minutos de aula. Ela tinha um sorriso empolgado no rosto e fechou a porta rapidamente.
  – GENTE! – sua voz ecoou pela sala – A Linda pediu para avisar que a avó da professora Juliana faleceu hoje de madrugada, e como ela é prima das professoras Ivana e Laura, as três primeiras aulas do dia são vagas. Só pediu para não fazermos barulho. – dito isso, cinco segundos depois a sala explodiu em gritos e frases de comemoração. Não façam barulho. Okay. Anotado.
  – O que vamos fazer? – alguém perguntou ao fundo.
  – Podemos brincar de verdade ou consequência! – a sala toda virou para a origem daquele som extremamente irritante. Vindo de Barbara Bailey, você não pode esperar coisa boa – Mas como sorteio! – todos enviaram olhares confusos para ela – Todos escrevemos uma escolha aleatória para a verdade ou consequência e colocamos o nome da pessoa que queremos desafiar ou perguntar! Aí quando for a vez de alguém, é só fazer sorteio!
  Rolei os olhos, tentando imaginar que merda estava por trás daquilo. Com certeza tinha alguma, ela não ia se dar o trabalho de pensar por nada.
  Assenti como a maioria da sala e escrevi o nome de num papel e depois “verdade” numa letra estranha e de forma. Rasguei os dois papeis e os amassei, entregando para uma das seguidoras de Bárbara, que os colocava em um estojo vazio.
  Minutos mais tarde, a sala estava toda reunida numa rodinha com dois estojos cheios de papeis no centro. Um olhava o outro de modo assustado, assassino ou enfurecido. Então era isso que me esperava, a selva.
  – Quem quer começar? – Bárbara perguntou, parecendo a única realmente interessada no jogo. Ninguém se prontificou – Tudo bem, eu começo. – suas mãos foram para os estojos em sua frente e de lá ela tirou dois papeis amassados. Segundos mais tarde seus olhos tinham uma expressão de decepção, ela os revirou e abriu a boca para falar – Verdade para . – ela levou os olhos até ele e sorriu com escárnio. – Você está namorando com ?
  Quase soltei uma risada alta demais. Ela tinha mesmo gasto a pergunta com isso? Quer dizer, ela viu e juntos na festa, ela vê eles dois juntos todo santo dia e tem a brilhante ideia de perguntar...
  – Não.
  Isso?
  Toda a sala parecia em estado de choque. Eu estava me perguntando se aquilo era mesmo real ou apenas uma miragem? Não? Eles terminaram? Por que diabos não me contou? Eu devia ter percebido, eles nem se falaram direito quando chegamos ao colégio.
  Virei para , e vi que ela estava com a expressão tão assustada quanto a de todos nós. Então era isso, ela não podia me contar porque nem ela sabia.
  – O que foi? Por que vocês estão me olhando assim?
  – Você não é o namorado de Ferraz? – uma garota perguntou, parecendo assustada como a maioria das pessoas ali.
  – Não. – ele falou com desdém – Agora minha vez. – ele levou a mão a um dos estojos – Verdade para... Alexander. – senti o mesmo tom de voz de Bárbara quando fizera a pergunta a ele – Qual das meninas aqui da sala você levaria para cama?
  – . – seu sorriso era provocante e sujo.
  – Uma que não tenha nojo de você e do que carrega entre as pernas. – a voz dela representava nojo e raiva. Aquela era uma que eu não tinha visto antes.
  – , então.
  – Faço as palavras de as minhas. Pega logo seu papel antes que eu te leve pra cama de um hospital.
  – Consequência para... Dawson, como a vida é linda.
  – Vai me forçar a ir para algum lugar com você? – indaguei, de modo desafiador.
  – Não, amor. Eu sou mais que isso.
  Era só o que me faltava, hoje o garoto ativa o cérebro. Logo hoje? Provavelmente, eu iria beijar . Ou Bárbara. Ele sorriu de um jeito que causou arrepios em diversas partes do meu corpo.
  – Minha vez. – falei entre suspiros enraivados – Consequência para... Mim mesma. – merda, peguei meu próprio nome. Embaralhei o bolo de papeis e peguei mais dois – Verdade para... Bárbara Bailey. Hm, isso começou a ficar bom.
  – Então...? – seus olhos pareciam pequenas flecha na espreita para me acertar.
  – O que você perguntaria a mim? – perguntei, me divertindo com a reação alheia.
  – Sério? Sua pergunta para mim é sobre você? – perguntou, assustada de forma deliciosamente engraçada.
  – Claro que sim! Sou arrogante o bastante para perguntar a você sobre mim. Não dou a mínima para sua vida.
  – É assim então... , você ficou com na festa de ? – pela primeira vez, Bárbara parecia realmente preocupada com algo.
  – Claro que sim, logo depois que você foi embora. – então ela sorriu aliviada, mas não ia ficar assim – Mas não foi a primeira vez... – deitei no chão de barriga para baixo com os pés balançando freneticamente.
  Sua cor foi embora e a maioria das garotas segurou a risada. Aquelas que não seguraram estavam com a culpa estampada no rosto – elas também tinham ficado com quando ele estava namorando.
  Elas não eram feias, na verdade, aquele colégio era entupido de cosplays de Regina George. A verdade é que eu não gostava de com elas. Merda. Passo número 1: ter ciúmes do que não é seu.
  Ah, estamos falando de Dawson. É claro que eu acho que sou melhor que elas – e mais bonita também.
  – Me poupe dessa cara, Bárbara. Você não é idiota, não faça o papel de tal. – parei de balançar os pés e pela segunda vez no dia, fiquei estupidamente chocada.
   Bennet acabara de assumir que havia traído sua namorada. Para a sala inteira. Com toda certeza, isso é um sonho.
  – E antes de falar algo da , lembre-se que ela sempre te odiou e deixou isso bem claro. Ao contrario de suas amizades. Ou seja lá como você chama aquilo.
  Ele sorriu galanteador e mandou um beijo para Mariana Rocha, uma das vadias seguidoras de Bárbara que entrou no meio do ano. Bleh. Espera aí... Meio do ano? Ela ficou com ele agora em agosto?
  Idiota. Idiota. Idiota. Merda. Merda. Merda. Aff. Aff.
  Continuei sorrindo para não parecer enraivada, agressiva ou um instrumento de morte.
  – Você vai perguntar algo para alguém? Não, então pegue logo esse papel e mude essa cara de merda. – rosnei, parecendo tão estressada quanto a corna mansa.
  Barbieranha bufou e revirou os olhos, pegando dois papeis.
  – Consequência para Daniela. Dani, sua vez, pegue os papeis – ela anotou algo num papel e olhou com desdém para a garota.
  – Consequência para – arqueei a sobrancelha. Quantas pessoas haviam colocado meu nome?
  – Não jogo mais, podem perguntar para mim ou colocar os desafios. Mas eu não pergunto. – a maioria deu de ombros e algumas me olharam estranho.
  – Eu vou. – falou, enfiando a mão num estojo e consequentemente em outro – Verdade para Dawson. Você é famosa, garota. Então, qual foi o melhor beijo que eu te dei? – ele queria brincar com Bárbara, ele estava com raiva da pergunta para . Com raiva de também. Igual a mim.
  – Sempre fico em dúvida sobre a piscina e a cama. Aliás, não, o da piscina foi o melhor – falei com um sorriso nos lábios, depois de todas as vezes, estávamos juntos. Não éramos o jogo, éramos os jogadores.
  – O meu também. Podemos repetir qualquer dia desses, minha casa sente sua falta. Principalmente meu quarto.
  Sorri, mesmo estando com raiva dele. Era um Bennet feliz e que estava ao meu lado. Não era uma coisa para se ver todo dia.
  – Quem vai agora? – Bárbara perguntou, ainda na mesma pose.
  – Eu! – se pronunciou, finalmente! Olhei para os dois papeis que estavam em sua mão e um deles tinha seu nome escrito com uma caligrafia estranha, e o outro com algo que ela fez o favor de ignorar. Seu rosto ficou endiabrado e então eu percebi que aquela caligrafia pela qual seu nome fora escrito era de – Verdade para – e ai está o porquê da expressão endiabrada – Os rumores são falsos ou não? Quer dizer, seu amiguinho é realmente... – ela riu baixo e levantou o mindinho, o balançando de forma engraçada.
  Me toquei de sua pergunta e só tive tempo de abaixar a cabeça antes da sala explodir em risadas.
  – Você não presta... – sussurrei, ainda escondendo o rosto por causa das risadas.
  – Não vai responder, ? Eu deveria perguntar a sua namorada. Talvez ela saiba...
  Que aula maravilhosa!   – Você não quer ver? – opa – Não, , não é desse tamanho. Minha vez. – segundos depois, dois papeis estavam em suas mãos – Consequência para ... Acho melhor acabarmos com esse jogo depois disso...
  – Apenas com uma condição. Que a vá fazer todas as consequências independente do que esteja escrito. Caso contrário, vamos continuar até os papeis acabarem.
  – Eu não tenho medo do que está ai. Já disse que eu vou fazer. – minha voz saiu ríspida e trêmula. Deus sabe o que colocaram naquela merda – Leia em voz alta...
  – Primeira consequência: vai beijar . – estremeci, Alexander – Segunda: vai beijar . – Bárbara? Não, Daniela. – Terceira: vai respirar. – Bárbara fuzilou e eu comecei a rir baixinho – Agora a consequência de Daniela. Espero que curta meninas, porque você vai beijar a .
  Os murmúrios cessaram e todos viraram em minha direção. Vadia. Mal comida. Mal amada. Respirei profundamente e senti meu corpo ser dominado por um sentimento forte e que vai e volta mais rápido do que me lembro: raiva.
  Minhas mãos tremiam e eu ainda aspirava longas porções de ar, numa tentativa frustrada de me acalmar.
  – Alguém segura a !
  A voz de pareceu um flash de distância. As mãos de – conhecia o perfume – agarraram minha cintura no mesmo momento que minha mão acertou a cara de Bárbara em cheio.
  – Eu não tenho medo do que está aí. – Bárbara fez uma imitação barata de minha voz, rindo com toda aquela cara de prostituta.
  – Que comecem as consequências. – minha voz mal saiu.
  – Quer começar comigo? – a voz de estava baixa e calma, suas mãos ainda estavam em minha cintura e eu precisava apenas girar e beijar , mas neguei com a cabeça – ?
  – Daniela.
  O carinho fraco que suas mãos faziam parou de imediato. Todos pensavam que eu não ia fazer, mas eu ia.
  Me desvencilhei dos braços de e fui até Daniela, a cutucando no ombro. Ela se virou e sua face mostrava que ela estava tão assustada e em choque quanto eu.
  – Vamos rir disso mais tarde, ou daqui a alguns anos. – falei. Vamos lá , é só uma garota. Fecha os olhos e finja que é . Ou um garoto qualquer.
  Fechei os olhos e senti seus lábios encostarem nos meus. Na mesma rapidez que começou, o beijo terminou. Digamos que foi um beijo técnico, ou algo assim.
  A sala estava com olhos e ouvidos em mim. Espiei Bárbara por cima do ombro e vi sua mão com a caneta passando uma linha reta em algo.
  Continuei respirando alto só pra poderem ouvir e dei risada logo depois, só mesmo pra fazer aquela merda. Puxei pelo braço e o obriguei a sentar na cadeira, sentando em seu colo e passando os braços por cima de seus ombros.
  – Como foi beijar uma mulher? – seu tom de voz era uma mistura de deboche e interesse.
  – Cale a boca antes que eu tente arrancar sua língua com os dentes – semicerrei os olhos, o que fez rir rápido e aproximar o rosto do meu – Foi sexy?
  – Foi nojento. – ele franziu o nariz e percebeu que toda a sala estava à espera do beijo.
  Acabei com os centímetros que nos separavam, resultando num longo, nervoso e agitado beijo. Logo depois que o primeiro acabou, começou o segundo, o terceiro, o quarto e assim seguiu por diante, até que...
  – EI! Deixa um pouco da para mim! – era mesmo. Ainda tinha ! Alexander foi bem esperto, coisa que ele não é há muito tempo. Me colocar pra beijar meu melhor amigo, o namorado de minha melhor amiga e o melhor amigo do menino que eu não sei o que é meu. Confuso? Sim. Talvez. Claro.
  – Não quero beijar . – sussurrei, com os cabelos emaranhados nos dedos de .
  – Não beije. – a voz dele estava baixa e ofegante.
  – Beijei a Daniela, por que não ? – perguntei, rindo da careta que ele fez.
  – Porque é o Drummer. Namorado da . Ou ex, pelo visto. Quando será que eles terminaram? Foi uma surpresa.
  – Pombinhos, por favor, ainda tem uma consequência sobrando. – torci a boca ao ouvir Barbieranha gritar do outro lado da sala.
  – Para todos. – suspirei e revirei os olhos – Que nem você e a Mariana Rocha... – levantei do seu colo e vi que ele tinha um sorriso safado no canto da boca.
   estava com cara de quem acabara de arrancar os rins de alguém. Sua voz chamou meu nome e ela tinha o dedo indicador me chamando. Caminhei até ela, que sorria do mesmo jeito assassino.
  – Faça-o pagar.
  – Quando vocês terminaram? – ignorei seu comentário e tirei minha duvida.
  – Não terminamos, mas por pouco tempo... Agora vá lá e o beije até ficar com inveja.
  – Pode deixar. – pisquei para ela.
  Andei até que sorria travesso mas nervoso ao mesmo tempo. Ao chegar perto dele, minha mão acertou seu rosto, dando só tempo das pessoas na sala se assustarem com o barulho.
  – Isso foi por . – falei baixo o bastante para apenas ele ouvir. Mas havia duas pessoas naquela sala que não precisavam de alguém para explicar.
  – Depois eu explico. – ele passou os braços pela minha cintura e antes que eu pudesse falar algo, minha boca foi ocupada pela dele. Seus lábios eram macios e tinham um gosto doce, mas faltava alguma coisa naquele beijo... Faltava vontade, desejo ou até mesmo prazer por fazer aquilo.
  Parecia mecanicamente forçado. “Beije-o até ficar com inveja” A voz de ecoou na minha mente, e eu soube o que fazer. Parei o beijo e quando o frio me atingiu por não ter ninguém comigo, puxei de volta para mim.
  – Bem, Drummer. Nós começamos isso, vamos terminar.
  – Até aonde você pretende ir? – sua boca estava um pouco vermelha e seus olhos com um brilho surpreso.
  – Até o inferno. – já comentei que meu tom de vadia é o melhor? Porque ele é.
  Nos minutos seguintes, eu não estava assimilando coisas muito bem. Beijar não estava sendo ruim – em parte, pois em minha cabeça eu estava beijando Avan Jogia –, mas eu ainda sentia um pouco de remorso por . E ... Ele não sabia o que estava acontecendo, minutos atrás eu não queria beijar e agora estava quase arrancando a boca do garoto.
   finalmente sentiu falta de ar e separou a boca da minha. Sua expressão era engraçada e até um pouco debochada.
  – Arrependida? – sua sobrancelha foi erguida e eu senti uma imensa vontade de estapear sua cara.
  – Vá para o inferno. – murmurei, saindo de perto dele e sentando ao lado de uma amarga.
  – Pensei que já estivéssemos nele. – fechei os olhos pacientemente e respirei de forma pausada, batucava com os dedos na madeira da cadeira ao lado.
  – Preciso falar com você. – ignorei os olhares que recebi. Eu não estava exatamente preparada para ouvir piadinhas ou comentários maldosos. As pessoas já achavam que eu era uma puta. Depois disso, eu seria uma prostituta. Levantei os olhos e analisei cuidadosamente a expressão estampada no rosto de . Ele não parecia com raiva, muito menos com ciúmes. Então era isso, ele não se importava com quem eu estava ou deixava de estar. Ele não tinha mentido na festa de , ele não se importava comigo.
  – me contou. – ele passou o dedo na sobrancelha e ajeitou a perna – Tudo bem.
  – Eu estou me sentindo uma bosta. Uma grande bosta. – falei, mexendo nas bordas do seu uniforme. Ele sorriu de modo fraco e eu senti uma pontada de felicidade no estômago.
  – Eu também estaria. – sua voz estava preocupada. Dei de ombros e procurei . A porta da sala estava aberta e nenhum dos meus amigos se encontrava.
  Passei a mão pela cabeça e corri atrás deles. A princípio, eu não percebi nada além de duas pessoas conversando. Alguns segundos depois, vi a cara de desespero de e chorando. A merda já estava feita.
  Adiantei alguns passos até ouvir o resto de uma briga.
  – Não adianta, ! Você já viu alguém andar para trás? Não. Nada existe mais. Nós. Acabou aqui. – sua voz estava esganiçada e eu conhecia muito bem o jeito triste que ele falava – Você me fez de idiota.
  – , você po...
  – Não, . Quem vai falar sou eu. Não quero voltar. Aliás, eu quero terminar. Ou seja lá o que nós tínhamos, já que você não namora comigo. – ela parou em frente ao banheiro e entrou correndo. ia entrar, mas segurou seu braço e eu passei pelos dois, descendo as escadas atrás de minha amiga.
   estava no último degrau da escada, sua cabeça estava apoiada no seu joelho e soluçava alto.
  Sentei ao seu lado e puxei seu corpo para um abraço. Eu conhecia , sabia muito bem o que ela estava fazendo, pois eu já tinha feito isso.
  Ela estava dançando em cima dos restos do próprio coração.

13 - Dois pedaços de um coração partido

Setembro

  

Olhei para ele por cima do ombro e suspirei fracamente, tentando disfarçar minha preocupação. Meus dedos enrolavam as pontas do cabelo de , em um gesto de carinho. Seu rosto estava molhado devido às lágrimas que já cansaram de rolar, e haviam deixado apenas um rastro. estava atônito. Em um segundo ele tinha aberto a porta do quarto para , e no outro ela estava se jogando em minha cama com uma cara inchada e vermelha.
  Em parte, me salvou, pois eu estava tendo uma conversa constrangedora com . Sobre nós. Estávamos sem brigar, conseguindo manter uma conversa sem insultos e, por mais estranho que pareça, quando precisávamos de companhia ou consolo naquela semana estressante de brigas de e , um procurava o outro. Mas a conversa de agora, parecia constrangedora e estranha.
  Senti as mãos de em meus ombros. Ele apertou, e depois começou a fazer massagem. Tirei as mãos da cabeça de , que estava repousada em meu colo, e puxei as pernas de para minhas costas, apoiando o peso do meu corpo no dele. Entendendo o recado, ele passou as mãos em minha barriga e me puxou para seu colo, trazendo junto e quebrando aquele muro entre nós.
  – Vocês precisam conversar. – a voz dele estava rouca e seu hálito estava quente o bastante para fazer os pelos do meu pescoço se arrepiarem.
  – Você falou com ele alguma vez? – ela negou com a cabeça – , só você sabe o quanto sente a falta dele. Você sabe o que sente sem ele. É melhor adiantar a conversa do que ficar remediando. – falei, sentindo algo como tristeza subir em meu peito.
  – Eu não sei se quero conversar com ele. – sua voz estava fraca e eu tentei não parecer surpresa em ouvi-la – Nem sei se quero olhar para a cara dele! , ele basicamente me traiu!
  – Comigo? – arqueei a sobrancelha e torci o bico.
  – Basicamente. – ela repetiu, com uma ponta de sarcasmo na voz.
  – Essa vida de acabar com relacionamentos está me cansando. – comentei, tirando a expressão carrancuda de e quase arrancando um sorriso.
  – Cansada? Pensei que você era vadia em tempo integral. – falou em meio a um riso. Dei um tapa em sua coxa e ele recuou – Agora é sério, . Vocês precisam conversar e voltar. Não aguento mais ouvir os resmungos de . Ele é uma versão piorada de você.
  – Um bom jeito de fazer isso é atender quando ele liga. Sabe, todas as vezes. Ou apenas na primeira vez, talvez assim ele não ligue mais oitenta e sete vezes.
  – Ele ligou oitenta e sete vezes? arqueou as sobrancelhas e apoiou o queixo no meu ombro – Você devia atender. E voltar com ele. Por mim.
  – E por mim. – sorri falsamente, fazendo fechar a cara.
  – Vocês são péssimos amigos. – ela pulou para fora do meu colo e começou a caminhar para a porta do quarto – Eu tenho que ir embora...
  – ? – a chamei, interrompendo qualquer coisa que ela estivesse prestes a falar. Seu rosto virou em minha direção e sua mão estava na maçaneta – Você sente falta dele?
  – Ah, ... – ela suspirou – Eu estou em pedaços. Um pedaço de mim sente falta dele. O outro quer liberdade. O problema é que eu não sei qual dos dois é o maior. – a porta foi fechada e sumiu de minha vista, me deixando com uma grande interrogação na cabeça.
  – Nossa relação nem ao menos existe e já é menos complicada que a deles. – ele suspirou, fechando os braços em volta de minha barriga – Você sabe por que ele estava daquele jeito com ela? – neguei com a cabeça, apoiando a mesma na curva do ombro dele.
  – Podemos falar de algo que não envolva nosso casal preferido? – cof cof, indireta, cof cof – Sei lá. Vamos falar de minha paixão por ruivos.
  – Você gosta de ruivos? – sua voz estava debochada.
  – Olhe para meu quarto, . Os Weasley. Ed Sheeran. Rupert Grint. Lily Collins. E meu filme favorito é A pequena sereia. – falei como se fosse obvio.
  – Você disse que era Valente.
  – E a Merida é o que? RUIVA!
  – Oh. Então é realmente verdade. Acho melhor eu pintar meu cabelo de ruivo. Bem ruivo.
  – Não. Você é minha exceção. Gosto do preto. Combina mais com você. Eu tenho vontade de pintar meu cabelo de preto, mas tenho medo que fique feio. Ou que eu fique muito branca.
  – Vira pra mim. – saí de seu colo e fiquei de pé em frente a ele – Você realmente ficaria branca demais. Mas eu ia gostar de qualquer jeito. – sentei na cama novamente, agora sentando em seu colo, de frente a ele. Passei as pernas pelo seu quadril e mordi seu queixo, sentindo um calafrio percorrer meu corpo ao fazer isso – Esperei a manhã inteira para...
  – ? – uma voz foi ouvida bem atrás de mim. Virei o rosto tentando disfarçar toda minha frustração e procurei quem era o dono.
  – Oi, pai. – ajeitei meu corpo e meu cabelo, ficando totalmente vermelha por saber que ele tinha visto essa cena.
  – Tem alguém querendo ver você lá em baixo. – sua voz estava calma e baixa e eu sabia que ele estava segurando a vontade de voar em cima de .
  – Quem é? – perguntei, tentando parecer interessada na pessoa que já era odiada por todas minhas células.
  – . – olhei confusa para , que deu de ombros como quem está tão no escuro quanto eu – Ah, não fechem a porta do quarto. – assenti com a cabeça e levantei da cama, esperando e seguindo com ele para a sala de baixo, onde estava sentado no sofá.
  – Drummer? – perguntei confusa. Ele se virou e eu percebi que naquela semana, eu não tinha o visto por mais de cinco minutos. Seus olhos estavam muito vazios, sem todo aquele brilho do dia que eu o conheci. Sua expressão estava tão opaca quanto o olhar. Ele parecia mais magro, sua pele estava mais pálida e ele cheirava a desespero. Meu Deus, eu dormi por quanto tempo? Um ano?
  – ! E... ? Não sabia que estava aqui. Eu ia à sua casa depois daqui, não vou precisar mais. – seu tom de voz estava fraco, mas mesmo assim alguma coisa nele me fez ter medo do garoto.
  – Está meio tarde para visitas inesperadas, não acha? – não estava tão tarde assim, o relógio no pulso de indicava 19h27min – Você está sozinho? – ele assentiu com a cabeça, sem se importar com o jeito estranho que eu falava com ele – Você mora do outro lado da cidade! Como você veio a pé até aqui? É perigoso.
  – Não vim a pé. – ele deu de ombros ignorando todos os meus comentários anteriores – Eu peguei o carro do meu pai. – tio.
  – Você sabe dirigir? – e eu perguntamos juntos. Quem era aquele garoto que vestia a pele do meu amigo, mas não era nada parecido com ele?
  – Vocês podem me deixar terminar de falar uma só vez? – sua voz soou irritada e eu assenti quase automaticamente – Eu vim pedir desculpa pra vocês. Eu sei que na última semana eu tenho sido um grande pé no saco e fico resmungando feito um otário e sumindo toda hora. Mas eu preciso conversar com a , preciso resolver as coisas com ela e esclarecer tudo. Mas também preciso de opiniões. Você acham que eu devo ir atrás dela? Pedir desculpas e tentar voltar?
  – SIM! – gritei correndo em direção dele. O abracei com toda força que consegui reunir e afundei a cabeça em sua camisa – Você foi um grande merda. Você devia contar as coisas pra gente. Somos seus amigos. Nós te ajudaríamos independente do que aconteça.
  – Vocês não entenderiam...
  – Por que? Por que nós não entenderíamos? – O interrompi, sentindo a raiva começar a subir pela minha cabeça.
  – Porque, , ninguém entende. Cada um só sabe daquela dor quando passa por ela. É como dizem, você só dá valor quando perde. Eu a perdi. Perdi a coisa mais importante de minha vida. Perdi minha menina. A garota que eu amava! Sabe o que mais? Eu parti meu coração assim como ela partiu o dela. E adivinhe? Os pedaços de dois corações não podem formar um só.
  Ele gritava, chamando a atenção de meu pai e minhas irmãs. estava fazendo um escândalo por nada. Ninguém havia falado nada de mais e em dois segundos ele estava gritando.
  – Quer saber? Você é um grande otário! Deixa eu te falar uma coisa. CORAÇÕES QUEBRAM SEM FAZER BARULHO! O único culpado dessa merda toda é você! não vai te perdoar. Ela não vai voltar com você, porque quem saiu perdendo nessa merda foi você, não ela. Porque ela não fez nada demais, o idiota daqui foi você. Você acha que um perdeu o outro? Não, . Você a perdeu. Para sempre. Porque ela não é seu brinquedo, você não pode fazer com que ela vá e volte o tempo todo. Você não vai fazer isso com minha melhor amiga porque, depois, quem vai ter que limpar os cacos da vida dela sou eu, não você!
   estava sem reação. Assim como Mary, Sammy, papai e . Eu havia explodido, havia jogado todas as verdades que vieram em minha mente na cara dele. Todo aquele jogo deles dois estava me cansando, porque ele era a única pessoa que estava jogando. E nesse tipo de jogo só existe um campeão. E dessa vez não seria .
  – Você sabe que eu vou para casa dela, não é? Eu vou sair daqui e vou bater na casa dela e dizer todas as coisas que eu quero dizer. O que você diz ou deixa de dizer não vai afetar nada em minha vida.
  – Então por que veio nos pedir opinião? E se não é importante, por que veio pedir desculpas? Porque você está errado e sabe disso.
  – Cara... – interveio antes que eu abrisse a boca para soltar mais desaforos para – Vamos conversar lá fora.
   segurou meu braço quando eu avancei para ir com eles e me empurrou de volta pra dentro de casa. Percebi que eu deveria ficar quieta e me esconder atrás da porta para ouvir.
  A conversa foi toda resumida em dando sermões calmos e pacientes em . Dizendo que ele não poderia pedir desculpas sem esclarecer as coisas para , sem contar tudo que está acontecendo com ele, para ela. Disse também que se ele tiver um motivo real para ter feito aquelas coisas, deveria contar para ela.
  Também disse que ele era seu melhor amigo, e que ele tinha que correr atrás de sua menina antes que fosse tarde mais para os dois.
   não respondeu uma vez sequer, apenas ouvia atentamente e assentia com a cabeça. Droga. Por que tinha que ser tão paciente? Ele basicamente falou a mesma coisa que eu, só que com uma coisa que eu não usei: educação.
  Andei até parar onde eles ainda conversavam e falei:
  – Mas lembre de uma coisa: não é uma pessoa de certezas. Uma vez, ela pode enjoar de você. Ela pode dar uma crise e fazer as mesmas merdas que você fez. não é a primavera que você sabe que vai chegar em três dias. Ela é humana, muda de decisões toda hora. E...
  – Dawson, não.
  – Drummer. Vocês são meus melhores amigos. Eu sei a merda que isso dá no final da história.
  – Exatamente. Cabe a nós dois decidir se a história vai ter um final ou não.
  Então ele saiu. Não dando um tchau, sem avisar das coisas que iria fazer. Mas afinal, a gente sabia o que diabos ele ia fazer. Ele ia partir o coração de mais uma vez.
  Ouvi o barulho do carro se afastando da gente e sentei no sofá onde estava minutos atrás. Me encolhi até esconder o rosto com as mãos, sentindo minha cabeça pesar mais do que deveria. Um peso cedeu ao meu lado e eu vi que me abraçava e murmurava coisas como “Vai ficar tudo bem”. Era isso, ele estava mentindo para mim, para eu não ficar pior do que já estava.
  Levantei a cabeça e tateei a mão no sofá até achar o controle da TV que estava lá.
  – Vamos ver um filme? – perguntei, mudando o clima e o assunto. assentiu e eu comecei a passar os canais numa disputa de quantos canais eu poderia passar em cinco segundos. pegou o controle de minha mão e parou em um canal qualquer. Passava um filme de terror, mas minhas unhas pareciam mais aterrorizantes que ele.
  – Você me chama pra ver filme e fica encarando suas unhas. ? Olha pra mim. – virei apenas os olhos em sua direção e vi um com um sorriso amarelo e olhos brilhantes – Podemos terminar o que começamos no quarto. Não tem ninguém aqui e não estamos exatamente com a porta fechada – porque a sala não tinha porta.
  – Só preciso de mais um abraço. – falei, jogando os braços por cima dele. Deitei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos, pensando nas variadas coisas que podiam estar acontecendo agora.
   poderia estar perdoando , eles podiam estar se beijando. Ou ela poderia estar gritando com ele, dando um tapa em sua cara. Os dois podiam estar chorando. Poderiam estar sorrindo...
  Mas que merda. Por que eles terminaram mesmo? Ah, porque foi um otário.
  Voltamos para o eixo normal.
  Comecei a prestar atenção no filme e às vezes soltar uma risada pelos gráficos e efeitos ruins. Parecia mais comédia do que terror, e eu não era a única que achava isso, já que ria bem mais que eu.
  Os créditos rolavam pela tela e eu me contorcia no sofá, rindo do final sem nexo e sem sentido do filme. me encarava como se estivesse vendo um ET em sua frente, segundos depois ele começou a rir junto.
  Estiquei meu corpo no sofá e acabei encostando a cabeça nas pernas de . Ele as levantou um pouco, só o bastante para deixar o rosto mais próximo do meu. Seu pescoço se moveu para baixo e seus dedos puxavam meu queixo para cima.
  Ele lambeu minha boca e sorriu depois, pressionando os lábios nos meus diversas vezes antes de finalmente pedir permissão com a língua. Abri a boca concedendo passagem para o inicio de um beijo longo e diferente. Dessa vez eu não me importei em não lembrar de respirar, ou de onde minhas mãos estavam. Estava só sendo beijada de modo singelo e único.
  Quando eu ia levantar as mãos e puxar para mais perto, senti algo vibrar. Procurei meu celular nos bolsos do short e percebi que aquele não era o meu toque. Era o de .
  Ele sorriu amarelo e atendeu sem nem ver quem o ligava. Saí do seu colo, sentando onde eu estava antes e prestando atenção na sua expressão ao conversar com alguém.
   passou a mão no cabelo e levantou do sofá, começando a andar pelo cômodo em círculos e com uma expressão carregada de preocupação no rosto.
  De repente, ele parou de andar e eu notei que uma de suas mãos tremia. Foi tudo muito rápido, num momento ele estava congelado por algo que tinha ouvido, e no outro o celular havia caído no chão e corria desesperadamente para fora de minha casa.
  Peguei o celular no chão e vi que a pessoa que havia ligado era . Ele não parecia falar com , eu conhecia o tom de voz que um usava com o outro e não era aquele.
  Dei um pulo em direção à porta e comecei a correr atrás de , achando só um borrão correndo há alguns metros de mim. O que diabos tinha dado nele? O que falara que era tão importante a ponto de fazer aquilo?
  Quer dizer, ele estava na casa de...
  .
  – O QUE HOUVE COM ELA? – gritei, não recebendo nada como resposta. apenas continuava a correr como se sua vida dependesse daquilo. Eu conhecia aquele caminho, era o caminho da casa dela. Da minha melhor amiga – ELA ESTÁ CHORANDO? EM PÂNICO? FEZ ALGUMA COISA COM ELA? – parou de correr e olhou para mim. Por causa daquele olhar, eu entendi tudo. Era bem mais que isso. Não era uma simples briga. Algo realmente ruim tinha acontecido com . Comecei a correr e, por causa da parada de , fiquei ao seu lado.
  Meu coração estava acelerado e eu sentia uma forte dor no peito, sentia o medo invadir minhas veias e ser transportado para todo meu corpo a partir do coração. Eu estava com medo do que poderia ter acontecido com minha amiga.
  Faltavam ainda algumas ruas para a casa de quando eu vi uma multidão parada ao meio da rua. Não entendi, mas continuei correndo. Olhei para trás e vi que tinha parado quando vimos a multidão. Será que ele havia esquecido? Ainda faltava muita rua para chegarmos a casa de .
  Quando fui impedida de passar para o outro lado por uma das pessoas da multidão, comecei a gritar de modo raivoso. Estávamos falando de minha melhor amiga, eu não poderia deixá-la passar por um momento assim sem mim.
  Passei por baixo de algumas pessoas até me deparar com uma faixa amarela, um policial alto e com um bigode estranho pôs a mão em minha frente e disse que a área estava interditada e que para passar eu tinha que ir por outra rua.
  Mas era longe demais. Eu ia demorar muito. Talvez fosse isso que estivesse pensando, que precisaríamos ir por outra rua.
  Mais embaixo da multidão, acompanhei os olhos do policial que me barrou e achei o motivo de terem interditado a rua e algo ter causado tamanho alvoroço no meio da rua.
  Um carro estava amassado, tinha batido contra um caminhão que vinha de algum lugar. Mas não era o caminhoneiro que estava errado, era o motorista do carro, que estava indo na contra mão.
  Olhei mais uma vez para o carro e senti algo ruim, como se todas as pessoas tivessem parado de falar e a única coisa que existisse era um carro que eu via todo santo dia chegar em frente ao meu colégio, trazendo um garoto que estudava comigo, em minha sala.
  Olhei mais uma vez para o policial, tentando juntar forças para perguntar. Mais uma vez, a resposta estava bem a minha frente. Um celular também conhecido brilhava em sua mão e ele parecia procurar alguma coisa importante nele, como o contato de responsáveis.
  Meu corpo tremia. Virei o rosto e vi que estava com os joelhos no chão, suas mãos estavam em seu rosto e algumas pessoas estavam ao seu redor. Não podia ser.
  Olhei para o carro mais uma vez. A equipe de resgate tinha terminado de quebrar a última parte da porta amassada e finalmente eles tinham conseguido pegar o corpo de quem estava o dirigindo. Meus olhos encontraram cabelos loiros e cacheados, um poucos grudados com alguma coisa pegajosa.
  O perfil de um rosto que eu conhecia, que eu esperava que levantasse sozinho e dissesse alguma merda engraçada e sem noção. Mas ele não estava acordado.
  Abaixei a cabeça e meu corpo, abraçando meus joelhos e finalmente deixei as lágrimas escorrerem de meu rosto. Eu conhecia muito bem aquele carro e conhecia muito bem que estava o dirigindo.
   Castellamari Drummond.

14 - Não posso te salvar quando ainda não salvei a mim mesma

Setembro

  

– Você está péssima. – sua voz rouca emitiu aquele som, que eu poderia reconhecer a quilômetros de distancia.
  – Olha quem fala. – olhei para ele com um desdém falso no olhar e no tom de voz, que arrancou um sorriso simples do seu rosto.
  – É injusto, visto que eu estou na maca de um hospital prestes a morrer e você não. Devia pentear um pouco seus cabelos, estão parecendo... Não, definitivamente a crina de um cavalo é mais lisa. – morrer... É a palavra que eu mais tenho evitado e mesmo assim parece que é a mais presente nos últimos dias.
  – Desculpe se eu estou sem dormir e sem conseguir fazer coisas fáceis há muitos dias porque meu melhor amigo fez o favor de ser um drogado miserável e bateu um carro que não era dele. Ah, e ele está num hospital imprestável que não descobriu a cura do câncer ou como manter ele vivo por mais sessenta anos.
  – Sua sinceridade me comove. – eram palavras duras e frias, eu sei, mas ele precisava aceitar, assim como eu achava que tinha aceitado – Como está minha ex-namorada?
  – Procurando variados jeitos de se matar, chorando o dia inteiro, trancada no quarto, sem comer há dias e mais magra que a ex-namorada de seu melhor amigo. Ah, por falar nele, passa muito bem também.
  – E como estão vocês dois?
  – Não existe isso. – respondi, de modo curto e extremamente grosso.
  – A culpa toda é daquele óculos dele, eu detesto aquela coisa estranha que fica pendurada no rosto dele. Uma tatuagem nos seus olhos seriam menos estranhas... Os olhos de são bonitos, você deveria convencê-lo a tirar aquilo.
  – Ele disse que as garotas o acham mais atraente usando aquilo... Quer dizer, eu fui uma das primeiras que falei isso, mas não é porque eu gosto dele de óculos que ele seja obrigado a usar. Aliás, ele usa aquilo por problema de vista, por que estamos discutindo isso?
  – Porque você não quer aceitar que eu vou morrer e está tentando distanciar minha mente da morte. – pelo visto, eu não era a única que sabia ser fria e dura – Esse quarto é branco demais. No começo eu não gostava, achava agonizante, agora eu simplesmente sou obcecado por ele. Todas essas coisas me deixam mais calmo, me fazem pensar que eu estou dormindo sempre.
  – Você sonha com cortinas brancas? – perguntei, fingindo estar mais interessada nas pontas do meu cabelo.
  – Eu sonho com coisas brancas, o tempo todo. Me faz pensar no paraíso, ou algo além dele. Eu sou careta, penso que existe uma luz no fim do túnel esperando por mim. Mas talvez, haja uma luz no fim do túnel.
  – Uma vez meus pais me disseram que o paraíso não era um lugar calmo, com todas aquelas coisas que nos fazem relaxar, que o paraíso era em especial aquilo que nos acalmava, que nos fazia bem.
  – Não conte isso a ninguém, mas acho que meu paraíso seria você. Juntamente a e , no quarto dela, cantando músicas depressivas e fingindo que temos vozes boas o bastante para aquilo.
  – É bom saber que eu faço parte do seu paraíso. – deixei uma lágrima solitária escapar pelo canto do meu rosto.
  – Você faz parte do meu paraíso, do meu inferno e de qualquer lugar que eu esteja. Sinto muito não poder te proteger por muito tempo, queria poder fazer o papel de irmão mais velho por alguns anos, não só meses.
  – Ah, Drummer. – agora a lágrima veio acompanhada de algo que mais parecia um oceano vindo direto dos meus olhos – Você foi o melhor irmão mais velho que eu tive, não importa se passamos menos de um ano juntos, você é uma das melhores coisas de minha vida, e não importa se algo o levará cedo demais de mim, você vai ser eterno em minha mente, em meu coração, em mim. pode te esquecer, pode te esquecer, mas eu não esquecerei, porque eu pude sentir o prazer de ser infinita quando estava com você.
  Eu soluçava, tentando aspirar algumas lufadas de ar, lágrimas intermináveis pareciam surgir do nada. Sentei na ponta da cama, segurando a mão fria de Drummer, que sorria sinceramente, como quem está genuinamente feliz por estar vivo. Mas na verdade, ele estava, por poder estar mais um dia entre nós.
  – Eu estou pronto.
  – Pronto? – perguntei, unindo as sobrancelhas em sinal de dúvida.
  – Pronto para morrer.
  – Não. – gritei, apertando sua mão fortemente, fazendo sua pele pálida mudar de cor rapidamente – Você não pode me deixar!
  – , eu estou pronto para morrer. Você precisa me deixar ir. – sua voz estava mais fraca que antes, com a rouquidão tão forte que mais parecia um urro de dor.
  – NÃO! – gritei a mesma coisa diversas vezes, até ser tirada de lá por mãos de médicos, eles trancaram a porta do quarto que Drummer estava e me deixaram do lado de fora, espiando pela janela pequena e que me fazia ficar na ponta dos pés para enxergar algo – ME DEIXEM ENTRAR! – mas nada, o corredor do hospital está vazio e parecia que ninguém me ouvia gritar.
  A máquina dentro do quarto começa a bipar frequentemente e vejo alguns médicos irem para cima de , muitos pontos verdes impedem minha visão já embaçada pelas lágrimas, de achar meu amigo.
  Então o bip parou.
  – Sem batimentos. – uma voz diz e eu sinto o desespero sucumbir minha cabeça. Encosto minhas costas na porta do outro lado do corredor e deslizo até atingir o chão, com a cabeça apoiada nos joelhos e mãos puxando os fios de cabelo emaranhados – Hora do óbito, 17 horas e 54 minutos. Anotem na ficha, por favor. – a porta ao lado da janela abre, revelando um homem alto com jaleco branco e um olhar pesado no rosto – Desculpe senhorita, mas o garoto não resistiu ao acidente, todas as coisas químicas que estavam no seu organismo complicaram um pouco seu processo até aqui, o acidente foi muito feio e ele perdeu muito sangue na vinda até o hospital... – acidente? Mas o acidente havia sido dias atrás, ele estava se recuperando aos poucos, mesmo sabendo que poderia piorar a qualquer momento, ele tinha mais alguns meses de vida, os médicos disseram isso quando chegamos com ele há... Quando chegamos com ele? – Você não pode vê-lo. Tem que deixá-lo ir, .
   “Você precisa me deixar ir.” Ouço a voz de mais uma vez e choro ainda mais, minha cabeça pesa e eu não tenho noção das coisas que acontecem ao meu redor. As coisas parecem um flashback entre o passado e o presente, fazendo os dois parecerem uma coisa só aonde eu não sei diferenciar.
   “Tem que deixá-lo ir, .” O médico, ouço sua voz, mas logo depois ele vira minha mãe e depois . Ele se abaixa e se aproxima, passando os dedos macios em meus cabelos. Sua boca se abre e ele fala alguma coisa, segundos depois eu consigo entender.
  – , acorda.

  Abro os olhos e sinto minha cabeça pesar mais que nunca. Era um sonho. Mais um sonho sobre uma despedida que nunca aconteceu entre mim e , que agora estava morto. Duas noites atrás eu tinha meu melhor amigo. Duas noites de pesadelos com ele, com fantasias... O corpo não havia sido enterrado, os tios dele ainda queriam descobrir quais eram as drogas que estavam em seu organismo e...
  Drogas. Quanta merda. “Eu não sou um santo, .” Tudo agora fazia tanto sentido que doía. Que merda de dor. Esse era o famoso problema para a realidade. No final você tem que acordar pra ela.
  – Sua mãe pediu pra eu te acordar... – murmurou, passando os dedos nos fios molhados do meu cabelo – Mas eu não consegui. No começo você estava sorrindo, mas depois...
  – Eu comecei a tremer e suar? – perguntei, soltando uma risada amarga. Logo depois, levantei a cabeça e ao ver confirmar, enterrei minha cabeça no travesseiro, segurando o choro.
  – Se você começar a chorar, eu vou chorar também.
  – Vamos lá, . – sentei na cama, com a expressão vazia – Seu... Nosso melhor amigo morreu. Sua cara diz que você não chorou o suficiente.
  – Tenho duas garotas parcialmente depressivas para consolar. Não posso bancar o garoto chorão. – me permiti rir um pouco – Cheguei da e...
  – Como ela está? – perguntei de imediato.
  – Não está. Ninguém atendeu. Então a vizinha me disse que viu os Ferraz saindo de madrugada com uma sangrenta e com vários cortes pelo corpo, dentro de uma ambulância.
  – Ela tentou...? – confirmou, comprimindo os lábios e desviando o olhar – Eu já esperava. – torci o bico.
  – Já? – me empurrou, sentando ao meu lado na cama.
  – Fui à casa dela ontem. Ela não abriu a porta do quarto para mim, quando eu liguei ela não atendeu. Mandei milhões de mensagens em todas redes sociais possíveis. Mas nada. A mãe dela disse que ela não quis comer hora nenhuma e que não saiu do quarto, nem quando tio Patrick ameaçou explodir o quarto. Ela só fica lá dentro, trancafiada e ouvindo...
  – Lana Del Rey. – concluiu, acertando em cheio – Ligue para ela...
  – Para ela não me atender? Vou ligar para a mãe dela ou para Dom... – peguei meu celular que estava na cabeceira da cama e comecei a procurar o número da irmã mais velha de .
  – Ligue para ela mais tarde. Ou amanhã. Quando a poeira estive abaixando. Agora, vá tomar banho e escovar os dentes. Porque seu hálito de manhã não é um dos melhores... – assoprei um pouco do meu mau hálito matinal no rosto dele, que apenas riu e balançou a mão em frente ao rosto, espantando o cheiro ruim.
  – Vou tomar banho. – resmunguei – Aliás, vou só me molhar, trocar de roupa e escovar os dentes. E você vai...
  – Deitar em sua cama e ficar esperando você. – ele estendeu os braços, se esparramando em minha cama – Vamos tomar café e nos distrair. Quem sabe o que vai acontecer amanhã?
  – Deixe-me adivinhar. Você recusou o café várias vezes, mas mesmo assim minha mãe insistiu que tomasse café com a gente e pediu para você vir aqui e falar isso para mim? – parei na porta do banheiro, segurando o riso.
  – Pior. Seu pai.
  Ugh.
Então as coisas estavam realmente ruins. Ruins de verdade. É melhor eu tomar café com minha família – e .
  Tomei um banho rápido e escovei os dentes. Com uma toalha amarrada na cintura e um sutiã já posto no corpo, adentrei o quarto.
  – Sai do quarto, – gritei, me enfiando no guarda-roupa.
  – Não se preocupe, eu já estava saindo. Mas peguei uma blusa para você. Acho que vai gostar. Qualquer coisa eu estou na porta.
  Assenti com a cabeça, esperando ele fechar a porta. Coloquei minha calcinha e um short qualquer. Virei para a cama e me deparei com uma blusa preta de mangas até o meio do braço, uma das mangas pendia paro lado e duas palavras estavam escritas em branco:
hello heaven
  Merda. Coloquei a blusa e abracei meu próprio corpo. Por que ele foi embora? Por que ele me deixou sozinha com uma garota depressiva e um garoto que esconde o que sente?
  E eu? Por que ele não se despediu? Por que ele me deixou fantasiando despedidas com ele?
  – ?
  – Estou aqui. – respondi caminhando até a porta, dei um pulo para fora do quarto e segurei a mão de – Fique comigo até mais tarde.
  – Fico. – começamos a descer as escadas e soltei sua mão ao chegarmos à mesa e me deparar com minha família.
  – Bom dia. – murmurei, sentando numa cadeira – O que tem para comer?
  – Eu fiz panquecas, querida. Tem algumas doces e outras salgadas.
  – Quantas? – perguntei, fazendo um bico.
  – Não sei. Por quê?
  – E se eu quiser comer todas? – abafou o riso e eu continuei com a mesma cara de inocente – Quer saber? Comam. Quando acabarem, todas que sobraram serão minhas. Você pode fazer mais algumas se quiser – todos olharam estranhos para mim – O que foi? Ou eu como, ou eu choro. Então, vou ver TV. Depois eu volto – levantei e virei para – Você vem?
  – Vou. – olhou para meu pai que deu de ombros. Okay, virou amigo do meu pai?
  Samantha me olhou de modo sugestivo e malicioso. Mary estava segurando a risada. Já minha mãe estava vermelha e meu pai, comendo sem ligar para elas – ou fingindo que não estava prestando atenção nelas –. E isso só significava uma coisa.
  Eles achavam que era meu namorado.   Mas que merda.
  Ignorei os olhares e puxei para a sala de TV. Coloquei em algum canal de clipes e virei para ele.
  – Por que essa blusa? – claro que eu sabia a resposta, mas não custava nada tentar provar que meu cérebro é neurótico.
  – Porque é sua música favorita. E a dele também – assenti, como ele sabia disso? – Eu gosto dessa música. Acho que é minha música favorita dela... – ele deixou a frase no ar e suspirou pesadamente – Agora que descobrimos tudo, as coisas parecem estar mais claras. Parece que tudo foi explicado.
  – Parece? – perguntei, um tanto curiosa.
  – Você foi à casa dele alguma vez? – neguei – estava envolvido com uns traficantes. Eles fizeram um preço com ele, depois quando ele pagou, disseram que ainda faltava metade da grana. Ele disse que não ia pagar, então eles ameaçaram todo mundo que ele conhecia, por isso...
  – Que ele estava estranho com a . Ele não estava segurando a mão dela em público. Estava agindo como se fossem apenas amigos. Estava estranho porque ela devia terminar com ele para seu próprio bem. – senti um calafrio percorrer meu corpo – Esse tempo todo ele estava protegendo ela. Mas, na sala, ele disse que não estava namorando com ela. Por quê? A sala é segura, o colégio é seguro. Por quê? Quer dizer, todos viam os dois juntos sempre!
  – Alexander Williams.
  – O quê?
  – teve a falta de sorte de se meter com Alexander. Ele era um dos manda-chuva.
  – Mas Alexander tem no máximo quinze anos! – protestei.
  – E pais com dinheiro sobrando, o suficiente para não sentir falta de umas coisinhas aqui e ali.
  – Então quando ele ficava falando que tinha muito dinheiro, não era brincadeira. – bufei revirando os olhos – Quando eu voltar para o colégio, vou matar aquela desgraça!
  – Ele foi expulso. – respirei todo o ar que pude e virei para – Eu estou indo para o colégio, sabe? É insuportável. Sem vocês lá, parece que a atenção foi toda focada em mim.
  – Ah. – apoiei a cabeça no ombro dele – Me desculpe. Acho que você não deveria aparecer lá tão cedo. Acho que só consigo ir dias depois do enterro. – uma dúvida apareceu em minha cabeça e antes de raciocinar direito, eu perguntei: – Como você sabe dessas coisas? – uma parte de mim, achava que ele estava envolvido, outra parte sentia a dor dele e sabia que ele não faria parte daquilo.
  – Meu pai me contou. Por acaso, colocaram ele nesse caso. – o pai de trabalhava na investigação de crimes. Merda. – Mas eu devia ter percebido antes, sabe? Os olhos dele ficavam vermelhos demais, ele estava sempre com fome, era magro demais. E o quarto dele cheirava exageradamente a flores.
  – Ele camuflava o cheiro? – assentiu. – Mas a maconha não emagrece, as drogas que emagrecem são mais pesadas, como heroína e cocaína... – parei e fitei , que estava com os olhos fechados como quem sente uma forte dor de cabeça.
  – A autopsia saiu hoje de manhã. Descobriram todas as coisas que não tinham saído do seu organismo ainda.
  – Mas que merda! – me encolhi no sofá e pus as mãos no rosto – Essas coisas aconteceram quando?
  – Já aconteciam. Por isso que ele mudou de colégio e perdeu de ano, mesmo sendo um tremendo CDF.
  – Quer dizer que nem se quiséssemos, poderíamos salvá-lo. – concluí.
  – Foi pensando nisso que ele morreu, . Ele ficou tentando salvar os outros quando nem conseguia salvar a si mesmo.
  – É muita informação para um café não tomado. – murmurei, escorregando e deitado o corpo no sofá – Mãe! Mais panquecas! Vamos, , eu preciso comer urgentemente!
  Pulei para fora do sofá e segurei a mão de .
  – ?
  – Hm?
  – Obrigada por estar aqui.
  Ele passou os braços por cima dos meus ombros e apertou.
  – São coisas que um amigo faz – ele sorriu, beijando minha testa em seguida.
  – Que merda de pessoa eu devo ser. – enterrei a cabeça em seu peito e fechei os olhos, prestando atenção nos batimentos cardíacos dele. Parecia bom, ter um amigo cujo coração ainda bate – Eu tenho três amigos. Um deles era drogado e morreu, uma tentou se matar e outro... – apertei os olhos ao perceber que o dedo de erguia meu queixo em sua direção. Abri a boca apenas para um beijo calmo. Assim que acabou, balancei a cabeça, rindo em negação.
  – E outro...? – perguntou, com um sorriso debochado e um olhar malicioso.
  – E outro que insiste em me beijar. – ri do meu comentário e dessa vez, que balançava a cabeça, rindo.
  – Que droga, hein? Você deve ser uma merda de pessoa mesmo!
  Uma voz foi ouvida da cozinha.
  – ! As panquecas estão prontas!
  – AS DE QUEIJO SÃO MINHAS! – gritei, arrancando gargalhadas de e minha mãe, enquanto eu corria para a cozinha.
  – Já tomei café, sua gorda. – falou, ainda rindo.
  – ENTÃO TODAS SÃO MINHAS! FIM DE HISTÓRIA! – sentei-me à mesa, vendo o quanto minha mãe estava vermelha por causa das risadas.
  – Como você está? – ela perguntou enquanto eu enchia meu prato.
  – Bem... Com muitas verdades na cabeça. – respondi com a boca cheia.
  – Sua boca está vermelha... Você a mordeu? – ela pareceu preocupada.
  – Acho que foi , ele me beijou. – dei de ombros engolindo a comida e depois de três segundos contados, parei de me mover, arrastando apenas os olhos para minha mãe, que estava sorrindo como quem ganhou na loteria. Olhei para , que estava vermelho e com uma das mãos cobrindo o rosto abaixado. – Não conte para meu pai! – sussurrei quase gritando.
  – É claro. Mas com algumas respostas. – enfiei uma panqueca inteira na boca e confirmei, com a expressão enfezada – Vocês...
  – Nós não somos namorados, mãe. Não me faça entrar em crise de vergonha depois de dois dias de depressão, é triste. Nós ficamos, tem muito tempo. A primeira vez foi em junho no colégio... – ele chutou minha perna por baixo da mesa e eu olhei de modo sugestivo para ele. O quê? Ele queria que eu contasse para minha mãe que meu primeiro beijo com ele foi no quarto dele, sozinhos? – Depois nós brigamos e ficamos só na amizade. No aniversário de , ficamos de novo e desde então estamos enrolando porque não queremos nada sério.
  – Diga por você. – cruzou os braços no peito, perdendo a pose de envergonhado e dando lugar ao gostosão irresistível.
  – Não de corda para minha mãe! Mama! Podemos conversar mais tarde? – pisquei os olhos e quando ela ia abrir a boca, saí da cadeira e puxei a mão de – Perdi a fome. Mais tarde eu chego em casa. Vou ligar para a mãe de para perguntar o endereço do hospital. TCHAU MÃE! – saí quase correndo pelo portão e dei um tapa no braço de – Vamos conversar também.

****
  

Tudo me dava arrepios, tudo parecia estranhamente familiar. Mas era. Aquele era o hospital dos sonhos, aquele era o hospital em que eu vi morrer duas vezes.
  A ligação de Dom não foi menos que estranha. Sua voz estava embargada e ela apenas deu o endereço do hospital. Nada foi dito depois disso, e eu nãoo sabia se desligava ou se esperava ela ligar. apenas tomou o telefone de minha mão e disse que Dom podia ficar bem porque logo sairia dessa. era bom, e isso transmitia paz para as pessoas.
   Apertei minhas mãos enquanto observava ele conversar com uma enfermeira. Ele não parecia nervoso, muito menos abalado ou preocupado demais com algo. A conversa acabou e um sorriso foi enviado em minha direção, levantei e fui até ele, sem pedir, segurei sua mão e apertei com toda a força que eu tinha.
  – Eu não vou a lugar nenhum... – ele falou num tom de voz baixo.
  – me disse isso uma vez. também me disse isso... – engoli o choro e passei os dedos livres pelo meu cabelo.
  – Mas eu não vou a lugar nenhum... – ele soltou minha mão e levou as duas mãos para meu pescoço, fazendo carinho – Se você quiser que eu vá embora, eu vou. Mas se não quiser, eu vou ficar aqui até o final. Eu gosto de você, além do mais, você é minha melhor amiga. Eu não vou te deixar sozinha com esse bando de idiotas.
  – Não que você seja minha primeira opção para melhor amigo... – soltou um riso nasalado e beijou minha testa – Acho que temos que visitar a . – falei num tom de voz baixo e temeroso.
  – Não fique com medo, é só a . Quantas pessoas você visitou num hospital?
  – Nenhuma. Eu nunca venho a hospitais, tenho pavor deles. Odeio tudo em hospitais, odeio visitar as pessoas aqui... – confessei baixo.
  – Olhe pelo lado bom, antes um hospital do que um cemitério! – olhei atravessado para , que sorriu amarelo.
  – Péssima hora para piada. – soltei uma gargalhada e paramos em frente a uma porta. me olhou quase sério e eu tentei sorrir, mas tenho quase certeza de que não deu certo.
  Quando eu ia empurrar meu amigo para o quarto, uma figura gigante e assustadora saiu de lá. e ele se olharam algumas vezes antes de um deles proferir alguma palavra.
  – ? – ao ouvir a voz do homem, franzi o cenho.
  – O que está fazendo aqui, Jeff? – ele sorriu para o mais velho e os dois fizeram aqueles cumprimentos estranhos de garotos.
  – Seu pai pediu pra eu vir conversar com a garota e a família dela. Por serem pessoas que ele conhece, não quer se envolver tanto no caso como já está envolvido. – ele torceu o bico como quem está triste, mas sorriu logo depois – Onde está minha educação? Sou Jefferson Bennet, tio do . Você deve ser a namorada dele, Aggy me falou muito bem de você e o George é seu maior fã!
  – Não somos namorados. – falamos ao mesmo tempo arrancando um olhar desconfiado do tio de .
  – Eu sou Dawson, a não namorada e amiga dele. Você trabalha com seu irmão? Que legal! – falei, percebendo como e o tio pareciam ter a mesma idade.
  – Sempre que brigamos ele ameaça contar tudo para a mamãe. – ele deu de ombros e riu – Bem, eu vou indo. Foi um prazer te conhecer, não namorada do , mas o dever me chama. Até qualquer dia desses! – ele sorriu galanteador e saiu andando com aquela pose de gostosão.
  – Tenho que dizer duas coisas: Minha nossa. – deixei um sorriso escapar de meus lábios e acenei para o corredor vazio – Ele é o mais novo? Aposto que não é nem 12 anos mais velho que eu e...
  – Ele é quatro anos mais velho que meu pai, já foi casado e tem um filho que...
  – Me apresenta? – o interrompi rindo com malícia.
  – Mora na Inglaterra. – ele completou com um olhar emburrado – Eu estou realmente ofendido. Vamos entrar logo antes que tio Oliver resolva aparecer e eu perca minhas chances – suas mãos pousaram em minhas costas e ele me empurrou até dentro do quarto, rindo baixo com o ato.
  – Por que você está arrastando ela? Se for pra me ver, podem ir embora. Não quero ninguém aqui com um humor pior que o meu – ouvi uma voz feminina e parei o show com .
  – não quer me apresentar o primo dele, filho do gostoso do Jeff. – ignorei todas as coisas negativas daquele quarto e sentei na cama, olhando debochada para ela.
  – Jeff é tio do ? E tem um filho? – ela levantou as sobrancelhas e gargalhou de modo malicioso – Aposto que ele é bem mais bonito que o . – respondeu sem parecer afetada.
  – Eu ainda estou aqui! – ele fingiu indignação e sentou numa poltrona – Onde estão seus pais?
  – Na lanchonete. – ela revirou os olhos – Eles só saíram quando seu tio chegou. Aparentemente, se eu ficar sozinha vou tentar me matar com os tubos, a cortina ou posso me jogar do prédio – fingiu sono e bocejou – Aposto que eles nem se deram o trabalho de perceber que eu estou no segundo andar – parei de rir e engoli em seco, olhando séria para – O que foi? É assunto proibido agora?
  – É estranho... – murmuro apoiando as pernas na cama – Por quê?
  – Eu sinto a falta dele. Como você, como o . Mas eu sinto culpa. Fui eu quem não quis atender ele, ler suas mensagens ou ouvir suas explicações. Eu fui egoísta. Me importei apenas com o que eu sentia, com o que eu pensava. Como se não importasse a parte dele! – ela gritou e abaixou a cabeça, apoiando a mesma entre as mãos – Fui eu quem terminei a porra do namoro! Por que doí tanto? Porque parece que o sentido de tudo acabou? – senti o coração apertar com seu tom de voz e levantei os olhos em direção a , com meu olhar carregado de desespero.
  – Eu me sinto vazio. – se manifestou, cruzando os braços e tombando a cabeça para o lado – Às vezes eu pego meu celular e espero alguma mensagem chegar, alguma resposta... – ele abaixou a cabeça e imitou , ali eu pude ver o quanto ele estava quebrado – Eu liguei para o número dele diversas vezes só para ouvir a voz dele na caixa de mensagem. – consegui ouvir seu choro por trás de sua voz e levantei, sentando no braço da poltrona e apoiando sua cabeça em meu colo, passando os dedos pelo seu cabelo. Suas lágrimas molhavam minhas pernas e eu acariciava seu cabelo – Eu fico esperando ele entrar gritando em meu quarto, sobre Game Of Thrones ou sobre algum novo quadrinho que eu não fazia ideia do que era. Mas ele nunca entra. Ele não vai voltar, . se foi e eu só quero meu melhor amigo de volta – apertei meus braços em volta do corpo dele e abaixei a cabeça, apoiando meu queixo em sua cabeça.
  – Se eu pudesse, tiraria essa dor de vocês dois e colocaria em mim. Vocês são gentis, decentes, vocês são como . São humanos demais. Talvez essa seja toda a raiz do problema. Vocês sentem demais. Essa é a diferença. A primeira vez que vocês me veem sofrer por alguma coisa que não é relacionada a mim mesma, foi essa semana, não foi? – os dois assentiram com a cabeça e eu enxuguei as lágrimas de – Talvez eu deva esconder meus sentimentos novamente para cuidar de vocês dois.
  Os braços de fizeram a volta em minha cintura e eu meu corpo foi puxado para baixo. Dobrei as pernas em seu colo e puxei seu queixo, depositando um selinho demorado em seus lábios, arrancando um sorriso do mesmo com o ato.
  Virei o rosto para , que tinha uma cara de nojo misturada com uma cara de deboche.
  – Isso é vingança? Por todas as vezes que ficou de vela? – ela perguntou sarcástica e mostrou o dedo do meio – Você é uma vadia mesmo! Mal desligou os sentimentos e já está jogando na minha cara que eu não tenho mais um namorado! – arregalei os olhos com suas palavras, assustada com sua reação – Ah, como eu senti falta disso!
  Sorri aliviada e suspirei fortemente. Aquilo era um sinal. As coisas voltariam a ser como eram.
  Pelo menos um dia.

15 - Olá céus

Setembro

  

Olhei para meu reflexo no espelho, imaginando se eu estava realmente preparada para aquilo. O reflexo dizia que sim, aquele cabelo amarrado e comportado, aquele vestido composto e preto e que todos aqueles quilos de base para esconder as bolsas escuras debaixo dos meus olhos eram suficientes, mas eu sabia que não.
  Algo me incomodava. Não era o cabelo, o vestido, ou aparência de cadáver. Era a situação. Eu não estava preparada para finalmente dar adeus. O adeus que eu tanto fantasiei, mas não queria ter.
  Ouvi meu nome sendo chamado da porta do quarto e apenas segui a voz, sem hesitar ou tentar reconhecer o dono dela. Era minha mãe ou uma de minhas irmãs? Não importa, nenhuma delas vão trazer de volta.
  Revivi meus dias anteriores e me perguntei como eu havia conseguido dar risada. Acho que porque não havia acontecido a sentinela e não haviam marcado um enterro. Parecia que ele estava de férias viajando, não morto.
  A sentinela começou de madrugada, quando o corpo chegou na casa dele. Eu não fui, não tive coragem de ir. Falta de sentimentos? Talvez o excesso deles.
  Entrei no carro e, algumas curvas depois de sair de casa, avistei a igreja. Cheia de carros, de pessoas na porta. Saí do carro assim que ele foi estacionado na fileira. Iria começar a missa, e depois iria finalmente ocorrer um enterro. Levantei os olhos e vi duas figuras vestidas de preto. Uma delas era alta e forte e a outra pequena e um tanto magricela.
  Minha única reação foi correr até os dois e fechar meus braços ao redor das únicas pessoas que me restavam. Levantei os olhos e enxuguei as lágrimas de e . Aquela era minha promessa, eu cuidaria deles até não conseguir mais.
  Ninguém parecia pior que ninguém. Eles pensavam que nem eu. Aquilo era um ponto final naquela parte da história. Era um adeus.
  Havia muitas pessoas que eu não conhecia, ou nunca tinha visto em toda minha vida. Não me importei em saber quem eram. Apenas uma pessoa era quem eu precisava ver e, infelizmente, aquele era o enterro dela.
  Me juntei a e e entramos na igreja. As pessoas nos encaravam como se fossemos algo fora do normal. Para eles, erámos os culpados pelo acidente ou os amigos do garoto que estava morto. Mas na verdade, era bem pior que aquilo, erámos os restos deles.
  Eu me sentia mais vazia cada vez que chegava mais perto do caixão. Eu queria ver aquilo? Não sei. Talvez eu precisasse ver, talvez aquilo fosse o final para a aceitação.
  Senti meu corpo tombar em algo e levantei o rosto, vendo alguns passos na minha frente. A cabeça dela estava parada e seus olhos estavam fixos no caixão branco não muito longe de nós. Tentei me colocar em seu lugar por apenas alguns segundos e senti uma imensa vontade de desabar ali mesmo.
  Algo apertou minha mão e eu estendi a restante para . Ela agarrou a mesma e eu puxei os dois para um dos bancos vazios e não tão próximos do altar. tremia, ela provavelmente estava tirando forças do além para não ceder a toda aquela dor, ali mesmo.
  Segurei ambas as mãos com força e fechei os olhos.
  – Quero que saibam que vocês dois são uma das melhores coisas da minha vida.
  – ...
  – Não, me deixa falar. – aspirei o ar que eu precisava e voltei a falar – Vocês são uma parte de mim. Eu os amo, talvez mais do que a mim mesma. E eu não sei o que faria se perdesse algum de vocês, então, não me deixem em hipótese alguma.
  Minha mão foi apertada mais uma vez e a única coisa que recebi como resposta foram suspiros e lamentações baixas.
  A mão que deduzi ser a de – e era – puxou meu corpo para um abraço. Afundei a cabeça em seu peito e aspirei seu cheiro – o maldito perfume amadeirado.
  Mais à nossa frente, um padre começou a falar coisas sobre a vida e a morte. Aquilo era tão comum, como se uma pessoa qualquer estivesse sendo velada. Mas não era uma pessoa qualquer, era meu melhor amigo ali.
  – Alguém deseja falar alguma coisa? – virei o rosto de imediato, levantando e chamando a atenção de algumas pessoas – Srta...?
  – Dawson. Dawson. – ele estendeu sua mão e eu a segurei, subindo no altar e evitando olhar para o caixão – Posso começar? – engoli em seco ao ver todas essas pessoas me encarando. De novo.
  – Quando quiser.
  – Bem, eu espero que vocês não se assustem comigo, porque eu vou chorar mais do que já estou chorando, todas as lágrimas de minha vida foram economizadas para isso – ouvi alguns risos de relance e aspirei o ar – Eu sei que esse não é um jeito bom de começar uma homenagem, mas eu sou viciada em jogos, tanto quanto era. E eu morro de vergonha de admitir isso. Lembro que uma vez eu estava jogando RPG com minhas amigas e uma das personagens foi morta, isso foi um choque tão grande para nós que parecia que aquilo estava acontecendo com a gente, que aquela simples personagem era alguém que realmente conhecíamos. Uma das organizadoras fez um vídeo em homenagem a ela e nesse vídeo, eu ouvi uma frase que marcou meu dia, agora eu entendo o porquê de aquelas simples palavras soaram tão reconfortantes. – fecho os olhos procurando concentração e a frase me vem em mente – A maior parte de nossa vida é uma série de imagens, elas passam pela gente como cidades numa estrada. Mas às vezes, momentos congelam e algo acontece. E nós sabemos que esse instante é mais que uma imagem, sabemos que esse momento, e todas as partes dele, viverão para sempre. – sorri ao lembrar daquilo e voltei meu foco para eles – Como falar de uma pessoa que foi embora na mesma rapidez que entrou em sua vida? era um garoto maravilhoso e está em um lugar melhor. Não, ele merece mais que isso. Uma vez ele em disse que não era um santo. Naquele momento, eu me perguntei como uma pessoa tão boa podia dizer aquilo. era humano e dava valor à humanidade dos outros. Ele me fazia ver um lado bom nas coisas. Sabe, eu não sei se foi um erro no sistema ou muita falta de sorte dos professores, juntar quatro repetentes desconhecidos em uma sala não é algo comum. O destino soube o que fazer, desde o começo, fazendo esse quarteto criar laços, reviver sentimentos e começar a amar. Bem, o destino soube o que fazer até que quatro viraram três. – abaixei a cabeça e segurei o rosto entre as mãos. Senti as mãos do padre em minhas costas e apenas neguei com a cabeça, levantando a mesma mais uma vez e enxugando toda a cachoeira do meu rosto – Deus sabe como eu sinto sua falta, Drummer. Falta do seu jeito calmo de falar, do seu gosto musical, de sua péssima mania de se fazer de cupido... – ri baixo e ajeitei a postura – Bem, Drummer, eu realmente espero que você esteja em um lugar melhor e que não esqueça dos três desajustados que você deixou. Lembre que nós te amamos, e falo isso por e , que não podem estar aqui. Mande um olá aos céus. – passei por trás do altar e vi que minha mãe me esperava com uma rosa branca na mão.
  Ela me guiou até aonde meus amigos me esperavam. Os dois levantaram e foram comigo para o final da fila, onde as pessoas estavam colocando rosas no caixão aberto.
  Quando chegou minha vez, fiquei imersa no rosto de . O cabelo estava ridicularmente arrumado, a boca estava roxa e amaldiçoei a mim mesma por não ter olhado aqueles olhos por mais tempo, quando eu pude.
  Segurei sua mão gelada e deixei minha ultima lágrima cair. Abaixei minha cabeça e beijei sua testa. Coloquei a rosa em sua mão e murmurei para mim mesma:
  – Isso é um adeus.

16 - Me acorde quando setembro acabar

Outubro
  

ter morrido e aquela cena eram quase a mesma coisa. e eu parecíamos parcialmente mortos, mas algo dentro de nós ainda clamava por vida – por mais que eu não soubesse o que exatamente era.
  Não era certo, fingir que estávamos numa animada conversa enquanto parecia estar pensando em milhões de maneiras de se matar – ou só estava realmente entretida com o teto.
   falava algo, parecendo até um pouco animado àquela altura do campeonato, mas eu não estava prestando atenção no que ele dizia. Meus olhos estavam na súbita fascinação de minha melhor amiga pelo teto.
  – ...mas eu acho que isso é uma verdadeira perda de tempo, não é, ?
  – Hm? – perguntei de imediato, percebendo que iria repetir todo o percurso – Desculpa, eu não estava prestando atenção. ? – ao ouvir minha voz direcionada a ela, sua cabeça virou em direção à minha – Você gosta de ler?
  Não houve resposta, apenas uma leve concordância com a cabeça, e logo depois ela virou para o teto mais uma vez.
  – Arranje um livro para ela.
   sumiu antes que eu pudesse ouvir sua resposta, e com a mesma rapidez que sumira, estava de volta, não com um, mas sim três livros nas mãos.
  Por um segundo, esqueci que tinha uma biblioteca particular em casa, então ousei olhar que livros eram. Uma capa preta, uma vermelha e uma azul. Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança. Bem, pelo menos eu terei sobre o que conversar com quando ela terminar.
   levantou, pegou os livros e perguntou se podia ir para o quarto de , onde ela pode ler em paz. E ele deixou, é claro que ele deixou. O estado de era tão devastador que, se ela pedisse para rasgar a capa do livro e fazer de limpador de dentes, deixaria.
  Ela entrou no quarto sem deixar rastro para trás, e então sumiu. A tarde já estava na metade, então ela provavelmente iria dormir antes de terminar o primeiro livro, mas eu não poderia deixá-la sozinha com . Ela assumiu para mim que não gostava de ficar perto de alguém que lembrasse tanto seu ex-namorado – na época que eles terminaram.
  Eles não pareciam fisicamente em nada, mas o jeito... Tinha vezes que me assustava de tão parecidos, só pra compensar as vezes que eles nem pareciam que eram amigos.
  Liguei para minha mãe e avisei que iria ficar para dormir. Ela não protestou ou nada do tipo, apenas avisou que levaria uma bolsa com minhas coisas e com as coisas de antes do jantar. Minha mãe não via porquê impedir algo para mim, ultimamente ela estava muito liberal comigo, e só de lembrar o porquê eu sentia o estômago revirar.
  Sentei no grande sofá, batendo a mão no espaço vazio ao meu lado, como uma espécie de convite para ele sentar lá. E ele sentou, empurrando meu corpo o bastante para que pudesse esticar as pernas e me enfiar dentro delas. Encostei a cabeça em seu peito sem hesitar, um tanto concentrada nas batidas ritmadas do seu coração.
  Antes que um pedido oficial pudesse ser feito, sua boca abriu e um som agradável e aconchegante começou a sair dela. Sua voz era maravilhosa, e depois de todo esse tempo com ele, eu nunca o tinha ouvido cantar sozinho. E era bem melhor que um certo quarteto cantando Lana.
  Seu bom gosto musical não era surpresa, mas dessa vez ele não entonava nenhuma das belas canções de minha cantora favorita. Não. Parecia muito mais profundo que aquilo.
  Wake me up when september ends.
  Setembro. morreu no fim desse mês, não muito tempo atrás. O acordar não era de um sono real, mas de uma realidade que nos consumia naquele momento. Para mim, aquele título era mais “Me tire daqui quando eu precisar acordar.” Não era só esse mês, mas toda a eternidade. O sono era um meio de fugir, era um refugio. se refugiou nos livros – agora, porque estava se refugiando num universo paralelo com superfícies lisas e brancas –, eu me refugiei em , e ele se refugiava em mim.
  Nesses pensamentos, adormeci em seus braços.

****
  

Acordei gritando, assustada com um pesadelo em que se jogava de um penhasco com uma versão bizarra de Green Day cantando ao fundo. O que mais me assustou foi a cena do seu corpo atingindo o chão e, segundos depois, sendo desmembrado pelo nada.
  Tia Agatha apareceu, com o cabelo amarrado num coque estranho e um robe por cima de sua camisola. Seu rosto parecia em choque e até um pouquinho assustado.
  – Volte a dormir, mãe, eu cuido dela. – a voz dele parecia sonolenta, como quem acabara de acordar.
  Meu rosto ficou vermelho e eu o enterrei no travesseiro que agora servia de apoio para o braço de . Eles me acolhiam em sua casa e, em troca, eu os acordava com gritos, que maravilha! Quanto tempo eu dormi? Muito, pelo visto, já que a mãe de estava com roupa e dormir e uma cara levemente amassada.
  – Eu te acordei também? – ele negou e senti uma pontada de alívio – Que horas são?
  – Duas e alguma coisa. – seus dedos estavam em meu cabelo, fazendo uma espécie de carinho – Pesadelos? – confirmei, sem muita emoção – Eu também.
  Tive vontade de perguntar sobre o que foi o pesadelo, se ele também estava sonhando com um despedaçado e com versões macabras de bandas famosas. Mas, do mesmo jeito que eu não queria contar o meu em voz alta, talvez ele não quisesse lembrar do seu. Isso era algo que apenas eu poderia compreender.
  – Não conto o meu se você não contar o seu.
  – Ok.
  Depois de alguns minutos sem falar nada, a agonia do silêncio me correu.
  – Que horas eu dormi?
  – Quase seis da noite... Lembro apenas de sua mãe deixando uma mochila no meu quarto e depois voltando com um travesseiro e um cobertor, depois eu apaguei também.
  – Ela falou se a estava dormindo?
  – Não, ela só disse: “Cuide bem de minhas meninas.”
  – Típico. – puxei o cobertor, cuja presença só senti quando o mencionou. Pus os pés no chão e agradeci mentalmente por ter um tapete felpudo e quente ali.
  – Vamos comer? – só em ouvir a palavra comer, meu estomago fazia um barulho mais vergonhoso que minha crise de gritos. Feito isso, percebi que as duas coisas que menos fiz nos últimos dias foram comer e dormir – Acho que sim.
  Ele levantou também, passando os braços por cima dos meus ombros.
  Um baque foi ouvido vindo do quarto de .
  – Não importa aonde vão, vocês vão me ouvir agora! – era , com olhos inchados, lágrimas escorrendo pelo rosto e bolsas escuras debaixo dos olhos. Pelo visto, Rue havia morrido.
  – O que foi? – perguntei, já sabendo a resposta.
  – Meus personagens favoritos morreram! – sua voz estava raivosa e irritada ao mesmo tempo. Por mais que fosse por algo parcialmente ruim, parecia viva.
  – Você devia se acostumar com isso, , personagens morrem sempre. – queria rir, mas talvez não fosse o momento certo para isso.
  – Sim. Personagens morrem o tempo todo. MAS POR QUE MATAR FINNICK ODAIR NAS MÃOS DE BESTANTES? E POR QUE DIABOS ELA TINHA QUE EXPLODIR PRIMROSE EVERDEEN? Que tipo de monstro Suzanne Collins é? Não sei se amo ou se odeio aquela mulher. – opa, opa, opa. Ela tinha terminado todos os livros? Minha nossa.
  – Então... Você gostou?
  – Se eu gostei? EU AMEI! MELHOR SAGA DO MUNDO! Mas agora parece que isso aconteceu de verdade... Associei isso com o assunto de história. Rebelião e Ditadura Militar... Não sei o que é real e o que não é real. À lá Peeta Mellark. Mas a diferença é que eu não fui telessequestrada! Mesmo assim, preciso fazer isso com vocês. – vou acabar chorando hoje, anotem isso – , você tem ciúmes de . Verdadeiro ou falso?
  – Verdadeiro. – sentei no mesmo sofá e joguei a cabeça para trás, fechando os olhos.
  – Meu namorado era um filho da puta. Verdadeiro ou falso?
  – Falso. – respondeu.
  – gosta da . Verdadeiro ou falso?
  – Verdadeiro. – merda, merda, merda.
  – Eu gosto que mecham em meu cabelo. Verdadeiro ou falso?
  – Verdadeiro. – respondi. Ela gostava que mexesse em seu cabelo. Mais ninguém.
  Ela suspirou e limpou as lagrimas, deixando um rosto inchado e olhos exageradamente confusos à mostra para todos.
  – Preciso ir a um lugar. Vocês vêm comigo? Se não, eu vou sozinha.
  – Eu não vou deixar você sair sozinha a essa hora. – disse de modo calmo – Vou com você.
  – Bem, aonde vamos? – perguntei, recebendo um olhar preocupado e um ansioso como resposta.
  – Vamos para o cemitério.

****
  

A noite parecia estranha e exageradamente fria. Não sei se era pelo meu medo de cemitérios ou se era aquele cemitério em especial. Meu estômago parecia que era uma colmeia de abelhas.
  Invadimos um cemitério. Três horas da manhã. Um lugar cheio de mortos. Mas não, não era isso que me assustava. Era uma lápide em especial, que se destacava em meio a todas as outras.

Castellamari Drummond
1998 – 2014
Filho e amigo amado
Veritas vos liberabit
  

Era tão bonita. Fizeram tão rápido... Olhei em volta. Eu não conhecia os nomes na lápide ao lado, mas chamaram minha atenção do mesmo jeito.
  Thiago Drummond e Castellamari.
  Os pais de .
  Não ousei me aproximar daquela área, parecia restrita demais. Era sua família ali, eu não tinha o direito de invadir assim, do nada.
  – – a chamei, mas ela parecia distante demais. Um sorriso fraco brotou em seu rosto e ela sentou em frente à lápide de .
  – Deixe-a. – segurou meu braço, me puxando para trás dele – Talvez ela precise disso.
  Voltando a observar minha amiga, percebi que seus dedos estavam deslizando pelo pedaço de mármore e, segundos depois, um soluço baixo começando.
  – Passei a noite lendo. Lembrei que você gostava de ler, falava que eu devia ler mais livros e me tornar uma pessoa culta. Agora me sinto mal por não ter ouvido seus resmungos quando seus personagens favoritos morriam. Ah, isso dói, você se apega a uma pessoa e ela vai lá e morre... Pra mim parecia ainda mais difícil, cada personagem que se tornava meu favorito morria. Eu chorei, como quem é torturado. Pode parecer besteira, mas em cada morte eu vi você. Aquelas pessoas, elas tinham parentes, tinham outras pessoas que sentiram sua falta... Eu me apaguei a eles como se eles fossem você. Mas adivinhe? Eles morreram também. Eu me apaixonei pelo Finnick Odair. Sabe o que é pior que ver o personagem que você ama morrer? Saber que aquele que o representa na realidade também está morto. – ela suspirou e voltou a falar – Acho que você ia gostar da Katniss. Eu gostei. Você não pode gostar dela, porque você morreu. – e então ela desabou, deixando a cabeça se apoiar nos joelhos dobrados e soluçando tão alto que poderia acordar a cidade inteira.
  Eu estava chorando, estava chorado. Mas que merda, por que chorar tanto? , ela estava... Ela estava sozinha. Por mais que indiretamente, e eu tínhamos um ao outro, ela não.
  – Por que você me deixou sozinha com esse casal de desmiolados? Você precisava ver eles tentando me animar, foi uma merda. Mas eu até que achei engraçado. Ah Drummer, eu sinto sua falta, tanto que dói. Deus sabe como eu sinto sua falta... Você sente minha falta? – claro que não houve resposta.
  – ... – o chamei, mas ele não respondeu. Ele também não queria sair dali.
  – Drummer. Você me ama. Verdadeiro ou falso? – o que mais me magoava era o silêncio.
  Algo aconteceu. Não foi na minha mente, as duas pessoas que estavam ali comigo também perceberam.
  Um ventou forte passou. Não em mim. Não em .
  Em .
  Suas roupas permaneceram imóveis e seus olhos quase saltaram quando apenas seu cabelo esvoaçou para os lados, exatamente como quando brincava com eles.
  Então sorriu, sabendo que ele estava com ela. Sempre estaria.
  Seus olhos fecharam e ela abraçou as pernas, satisfeita ter sua resposta.
  Verdadeiro.

17 - O diabo está de olho em você

Outubro
  

Aquele era o primeiro dia que eu vinha para o colégio depois das últimas semanas. Era estranho passar por aquelas pessoas que me olhavam ainda mais estranho e não ter sua presença ali para me reconfortar e dizer que aquilo era apenas inveja.
  A sala parecia vazia, os professores nada falavam e o mundo estava em pausa. Não havia diferença entre as coisas que eram reais e as que não eram. Eu me sentia dividida, como se estivesse num limbo que parte os mundos ao meio.
  Meus olhos estavam pesados, mas não era a falta de sono que causava aquilo, era o excesso dele. Desde o incidente do cemitério, eu apenas dormia e comia, como se estivesse numa fase de negação atrasada. Não saía do meu quarto, a única coisa que parecia realmente reconfortante era encarar a janela aberta do meu quarto.
  Nada de fantasias de uma vida normal ou pesadelos macabros. Quando eu adormecia, a única coisa que eu enxergava era uma tela branca com uma aquarela e um pincel. Não entendi de início, mas depois de sonhos iguais e monótonos, eu percebi o que minha cabeça me alertava, o que minha consciência dizia para fazer: pintar um novo recomeço. Mas a realidade era que minha mente me dava o que eu queria, mas eu sabia do que eu precisava.
  Precisava passar por todas aquelas coisas, não fingir que elas nunca estiveram lá.
  Um beliscão doeu em meu braço e eu procurei quem havia feito aquilo. Uma garota qualquer atrás de mim apontava para a porta da sala, onde a diretora estava parada com cara de quem quer uma resposta.
  – Srta. Dawson? Você pode vir? – ela perguntou e eu levantei, não entendendo o porquê daquilo. e estavam com ela, o que ela ia fazer? Mandar a gente fazer acompanhamento psicológico?
  Quando eu tentei segurar a mão de , ela empurrou meu corpo para o lado. me encarou confuso, e eu apenas dei de ombros.
  – Entrem, por favor – a diretora disse, apontando para a sala. Entramos e eu reconheci de imediato as pessoas que estavam lá: Agatha, Mona, Helena e minha mãe.
  – O que está acontecendo? – perguntei, olhado para as mães dos meus amigos e para a minha.
  – Sente-se, querida, precisamos conversar. – a diretora se pronunciou, já sentada em sua cadeira – Eu quero esclarecer algumas coisas com vocês. – sentei perto de minha mãe e segurei sua mão – Eu estava no enterro de e não pude deixar de ouvir seu discurso, e achei muito interessante a parte em que citou o destino. Sinto-me na obrigação de esclarecer que não foi destino algum, fui eu. – pisquei os olhos algumas vezes e tentei me manter centrada – Eu conheço seu temperamento, . Sei que você é brilhante, teimosa e defende aquilo que você pensa e acha certo. Como diretora, eu tenho que estudar e ler sobre os alunos que irão estudar aqui. era o cérebro, um menino inteligente e forte. Eu sabia das coisas que ele havia passado, e pensei que ele poderia ajudar os outros que poderiam passar por maus bocados futuramente. é sincera, fala o que pensa e age do jeito que quer, independente do que os outros pensam, a única opinião que realmente importa é a sua e você não deixa comentários alheios te abalarem. Já é amável. Ele ama sem medir esforços, protege as pessoas que ama e sempre está com elas, independente das coisas boas ou ruins que elas façam – ela suspirou e entrelaçou as mãos umas nas outras – Eu achei que, se colocasse vocês na mesma sala, estaria formando um quarteto de companheiros, amigos que continuariam até depois do colégio, porque mesmo que não tenham percebido, um completava o outro e ajudava també...
  – VOCÊ ME COLOCOU NA MESMA SALA QUE ELE POR CAUSA DE UMA IDEIA ESTÚPIDA? – gritou, levantando da cadeira e indo até a mesa de Lúcia. Ela estava falando de , eu também ficaria assim se fosse ela, afinal, nada disso teria acontecido – Eu saí daquele colégio miserável para me livrar dele, não basta ele ter a mesma ideia de colégio que eu, você o coloca na mesma sala? Eu perdi de ano por causa dele e você faz isso? Não podia ter estudado meu histórico de um jeito mais preciso? Não me colocando na mesma sala que a droga do meu ex-namorado? – Espera ai, já conhecia antes daqui?
  – Eu não fui o culpado por você passar o dia todo fazendo besteiras! Eu era seu namorado, mas mesmo assim não era um carrapato! Assuma que não estou e eu assumo que não estudei! – gritava, com o dedo apontado para e a raiva estampada nos olhos – Porque se for assim, foi sua culpa eu ter repetido o ano!
  Abri e fechei a boca várias vezes seguidas, sem saber ao certo como responder aquilo. Olhei para e depois para , dois ex-namorados brigando no meio da sala da direção por causa de falta de responsabilidade. Agora tudo fazia sentido. Todas as provocações do começo do ano, a reação dela quando eu achei que tinha descoberto o segredo sujo dela...
  – Você não gostava de ficar sozinha com ele por isso? – perguntei, com o queixo travado de raiva – Eu achei que vocês se conheceram no colégio! Vocês me enganaram! Me fizeram de idiota durante todo esse tempo? – fuzilei os dois com raiva e percebi os olhares de desespero dos meus amigos, direcionados a mim – Vocês realmente se merecem – soltei a mão de minha mãe e segui porta afora.
  – Ah não, , você vai me ouvir. A gente precisa conversar sobre isso. – a voz era de , e não estava tão distante de mim – e eu combinamos de fingir que não nos conhecíamos. Quando eu te contei que fiquei com ela antes de todas, estava falando do ano passado. Quando as aulas começaram nós nem conversávamos direito. Eu fiz amizade com e ela começou a sair com ele. Eu estava achando que ela queria fazer ciúmes em mim. Depois eu vi que eles se gostavam de verdade, então eu resolvi não contar para vocês. Decidimos não contar para vocês, manter segredo parecia o mais razoável.
  – Por quê? Eu merecia saber! Eu me envolvi com você, eu...
  – Você vê? Mal sabe da história e já me olha de um jeito diferente! Eu não quero que pense algo sobre mim. Não quero que pense que eu sou o ex-namorado de sua melhor amiga. Eu não sou dela, não mais.
  – – passei as mãos em seus braços e os segurei – Não estou dizendo que você é de . Você é meu. Mas as coisas poderiam ser diferentes. Você e podiam voltar, nunca teríamos nada com o Drummer e ele estaria vivo.
  – Ou não. Ele poderia voltar a se drogar no começo do ano e morrer de overdose... – ele abaixou as mãos e as parou na minha cintura – Eu sou seu, é? – assenti, sorrindo ao ver o rosto dele se aproximar do meu – Você é minha? –neguei, já na ponta dos pés – Você é minha sim, só minha. – segurei seu queixo e beijei sua boca, sem se importar se alguém visse.
  – Vocês são tão bobocas, parecem até aqueles casais com glicose anal.
  – Falou a diabete em pessoa – revirou os olhos e me puxou para mais perto dela, mostrando o dedo do meio para e murmurando um “Ela é minha, perdeu, playboy” baixo.
  – Eu estava com raiva, me desculpe pela crise. É que as coisas estão tão fora do eixo. É tão estranho vir para cá sem ele... – abri os braços e me apertou, depositando ali todas as coisas que estava acumuladas.
  Olhei por cima do ombro de e vi que encarava o nada. Ele estava se sentindo deslocado. Caramba! Era o melhor amigo dele também! A ex-namorada dele namorava o melhor amigo dele... E eu aqui achando que não podia ficar mais confuso.
  Chamei com a mão, e logo depois ele me abraçou por cima de , apertando nós duas bem forte.
  – Agora somos apenas nós. – ele encostou o queixo na cabeça de – De agora em diante, seremos nós três contra o mundo. Ou contra esse colégio, pelo menos.
  Respirei profundamente e encostei a cabeça no ombro da .
  – Vamos voltar para a aula? – fiz uma cara feia para a proposta de , que riu com minha ação – Vamos adiantar o intervalo?
  Assenti com a cabeça e soltou o abraço, caminhando na frente. Segurei a mão de e murmurei:
  – Verdadeiro, lembra? Isso vale para todos nós.
  – Sempre? – ela levantou as sobrancelhas e sorriu para mim.
  – Sempre.

18 - Doze badaladas

Novembro
  

As pontas de minhas unhas batiam freneticamente na madeira da mesa central que se localizava na secretaria do colégio. Minha mãe havia ido buscar meu boletim final, aquele que dizia se eu havia passado ou estava na final de alguma matéria, o que em hipótese alguma poderia acontecer, afinal, eu devia saber do assunto mais que todos os alunos juntos.
   De relance, vi alguns colegas de classe passarem com seus pais ou responsáveis e, para a amargura daqueles que pagavam a mensalidade, a maioria tinha uma expressão enraivada ou triste. Espantei todos os pensamentos ruins, tentando pensar em algo feliz, bom ou numa lembrança alegre e aleatória que viesse a minha cabeça, mas alguma coisa dentro de mim apelava para os olhos azuis...
  Por mais que eu não quisesse, sempre acabava naqueles olhos, naquele sorriso, naquela pessoa. . . . Aquele desgraçado era quem estava me deixando feliz, que me fazia sorrir e chorar de raiva, era com ele que eu passava a maioria do meu tempo, era com ele que eu tinha as memórias que eu tentava esquecer – mas não conseguia.
  – Matemática – ouvi algo me desconcentrar de minha obsessão por .
  – Ahn? – levantei os olhos e me deparei com minha mãe com um papel na mão, seus olhos pareciam um pouco felizes, mas sua expressão era um tanto séria.
  – Recuperação em matemática. – repetiu e o devaneio dos meus pensamentos foi interrompido por coisas horríveis e devastadoras. Eu estava na recuperação de matemática?
  – Que merda – xinguei baixo, sentindo meus olhos ficarem levemente marejados de raiva.
  – Bem, eu espero mesmo que você não chore quando for falar isso para seu pai. – sua voz me acalmava, mas por dentro eu ainda queria gritar.
   POR QUE DIABOS EU ESTAVA NA RECUPERAÇÃO?
  POR QUE EU NÃO ESTUDEI?
  PERDER DE ANO UMA VEZ NÃO BASTA?

  Eram essas as perguntas que ecoavam em minha mente, eu tinha a resposta para todas, por mais que não quisesse assumir, mais uma vez, era tudo culpa minha, de mais ninguém, apenas minha.
  Só para variar...

****
  

Os olhos de meu pai estavam quase pulando, eu senti uma vergonha crescendo dentro de mim assim que disse que estava na recuperação de matemática. A linha de sua boca ficou seriamente rígida, e ele parecia querer gritar. Mas, para acabar com minhas expectativas e partir mais ainda minha alma, ele olhou profundamente nos meus olhos e disse:
  – Eu estou realmente decepcionado com você.
  Suspirei profundamente e olhei para baixo, com remorso de encará-lo.
  – Se quiser, eu pago a recuperação, daí não precisa se preocupar com isso e...
  – ! – ele me interrompeu ainda mais enraivecido – Não percebe que o problema não é quanto gastamos com você ou quanto gastaremos nessa recuperação? Eu esperava mais de você, depois que percebeu a merda que fez ano passado! Não esperava que fizesse isso novamente! Sua irmã, , Samantha, sabe a Samantha? A idiota que não pensa? O feto burro? Resto de aborto? – ele gritou, sua voz subindo duas oitavas, relembrando da vez que eu briguei com Samantha e a chamei de todas aquelas coisas. Agora ouvindo essas palavras vindo de meu pai, vi como magoava – Ela passou de ano! Ela tomou vergonha na cara e fechou todas as matérias! Ela, , o feto burro, passou de ano e te deixou para trás com essa cara de idiota que está fazendo agora! Lembre-se que ela está na sua classe agora. Ela te pegou, . Você vai estudar com o resto de aborto se não passar na porra da recuperação!
  Eu apenas soluçava, chorando, não conseguia dizer apenas uma palavra, um “ai” ou “pai...”, nada saía de minha boca. Eu queria explodir, morrer ou coisa parecida, queria não ver ninguém mais sair machucado pelas merdas que eu fazia...
  Senti raiva de meu pai, mesmo sabendo que ele estava mais do que certo, que tinha total direito de fazer isso comigo e que ele era meu pai... Ele me ouvia sempre, me questionava quando eu estava errada e me ajudava quando eu sempre precisava. Mas agora a única coisa que eu sentia era raiva.
  Mas eu era assim, não era? Colocava o ódio nas coisas erradas, sendo que a única pessoa que eu devia odiar era a mim mesma.
  – Agora, por favor, vá para seu quarto e fique lá. Eu vou sair com sua mãe e suas irmãs para casa de sua tia, não nós espere acordada, pois como suas irmãs estão de férias, não temos horário para chegar em casa. Talvez cheguemos amanhã, ou hoje ainda... Mas apenas vá para seu quarto e não diga nada que me faça ficar mais enraivado ainda...
  Ele saiu do meu campo de visão, ouvi o barulho do portão fechando e olhei para cima, tentando me concentrar na parede branca e calma.
  Calma... Eu não estava nada calma. Queria explodir, gritar, quebrar tudo e tocar fogo na casa. Mas não podia, porque os vizinhos iriam chamar a polícia, malditos vizinhos.
  Principalmente, eu queria deixar meu pai com mais raiva do que ele estava... Se é pra fazer merda, vamos foder tudo completamente, certo?
  Varri a conhecida cozinha de minha casa com os olhos, percorrendo e procurando coisas que poderiam ferrar minha vida e, quem sabe, dar um ar de aventura àquela tarde de sexta-feira qualquer.
  É, com toda certeza do mundo eu queria ficar de castigo até Avril Lavigne envelhecer.
  Eu não estava mais com lágrimas no rosto e nem fazendo aquele barulho infernal do soluço, agora quem agia era a vadia.
  Involuntariamente, meus pés caminharam até o armário de bebidas que ficava no canto da cozinha e abri a última porta, onde ficava a parte especial, com as bebidas mais queridas de meu pai... Tequila, big Apple, absinto, ballantine’s – cujo nome me lembrava, muito bem, badaladas – e outras pelas quais eu nem me interessei. Puxei logo a garrafa azul do ballantine’s e um copinho de dose de cachaça, abri a garrafa que estava lacrada ainda com um sorriso no rosto, enchi o pequeno recipiente de vidro com o liquido até a borda e o levei até a boca sem nem perceber.
  Desceu dilacerando tudo, meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não me importei. Enchi o segundo copo e fiz a mesma coisa; no terceiro, minha boca já estava adormecida graças ao álcool, na quarta eu não senti nada, quinta, sexta, sétima... E assim foram doze doses de ballantine’s descendo para meu estômago.
  Na última dose, percebi a merda que havia feito. Aquela dose foi a que fechou tudo lindamente, aquela foi a última das doze badaladas que tiraram todo o resto de razão que eu poderia ter.
  Larguei a garrafa e o copo no balcão de mármore negro e subi as escadas lentamente até meu quarto, arranquei minhas roupas do corpo e corri para o banheiro, invadindo o boxe e ligando o chuveiro, sentindo a água gelada invadir meu corpo e penetrar em minhas veias, fazendo daquele um momento pra lá de relaxante. Molhei meus cabelos, esperando a água pender sobre minhas costas, escorrendo de forma gostosa.
  Fiquei mais cinco minutos debaixo d’água, tentando passar o efeito da bebida com uma ducha fria, mas não adiantou muito.
  Amarrei uma toalha ao corpo e caminhei molhando o chão do quarto. Sentei na cama, abraçando meus joelhos numa tentativa frustrada de me equilibrar um pouco. Soltei meus braços e levantei, indo em direção ao guarda-roupa, pegando uma roupa aleatória e enfiando no corpo, em borrões rápidos demais para serem identificados.
  Desci as escadas tropeçando nos degraus, abri o portão e saí ainda vendo borrões e, quando finamente parei os pés, estava em frente a um grande portão branco. E, como sempre, antes que eu pudesse tocar a campainha – ou gritar escandalosamente – abriu o portão com o rosto numa bela mistura de tristeza e surpresa ao me ver.
  – ! – me atirei em seus braços o apertando fortemente. Depois do susto, ele retribuiu o abraço, apertando suas mãos em minha barriga – Fui para recuperação de matemática! – choraminguei, observando o quanto minha voz estava controlada e suave, eu parecia apenas triste, não uma bêbada escandalosa segundos antes de entrar em depressão.
  – Bem, novidade, você não é a única... – respondeu encarando meus pés – Minha mãe está querendo me matar. Acredita que ela foi pra casa da vovó? Disse que se continuasse no mesmo teto que eu essa noite, iria me matar.
  – Bem, estamos quites! Meu pai saiu com minha mãe e minhas irmãs e disse que não era para eu esperá-los acordada – me surpreendi por não me embolar falando nada – Vamos subir, preciso chorar no ombro de alguém...
  – Bem, se você estiver disposta a ter alguém resmungando no seu ouvido, apoio sua ideia. – sorriu forte, fazendo suas covinhas ficarem mais fundas. Passei a mão no seu cabelo, agora curto, respirando profundamente e absorvendo o cheiro da grama verde do jardim e me sentindo menos tonta. Com toda certeza aquela casa me fazia bem.
  Subi os degraus concentrada, tentando não parecer tonta e bêbada, e eu estava me saindo melhor que o esperado. Entrei no velho quarto de sem nem pensar em cair, fechei a porta por costume e me joguei na cama, observando o corpo do garoto jogado no chão, fitando o teto.
  – Até hoje me pergunto porque você gosta tanto dessa cama, eu prefiro o chão – riu sem humor, brincando com a ponta do lençol da cama. Abaixei os dedos, pegando nos seus e fazendo círculos na palma de sua mão.
  – O chão é duro demais, prefiro coisas macias.
  – Ah, qual é? Sua bunda é mais macia que essa cama.
  – Você nunca sentou na minha bunda. – resmunguei revirando os olhos e, meio segundo depois, pulou do chão, agarrando minha cintura e sentando em cima de minha bunda – ! DROGAAAA! VOCÊ É PESADO, CARALHO! EU QUERIA CHORAR DE RAIVA DO MEU PAI, NÃO DE DORRRR! BENNET, SAIA DE CIMA DA MINHA BUNDA! – comecei a me debater sem sucesso. Passado algum tempo, ele levantou da minha bunda e deitou ao meu lado na cama – VOCÊ É IDIOTA, BENNET? – mexi minhas mãos, estapeando seus braços. Ele apenas pôs as mãos na frente, rindo freneticamente.
  – Você sabe que sim, por que pergunta?
  – Gosto de ver você assumir que é um idiota.
  – Também gosto de te beijar, mas...
  – Mas você acabou de assumir que é um idiota e eu não estou te beijando, o mundo sempre vai ser ao meu favor. – apontei o indicador para mim, fazendo um olhar superior.
  – Idiota. – ele passou a mão pela minha barriga e parou na curva, afundando seus dedos ali e me arrastando para seu encontro, depois encaixou a outra mão na curva de minha cintura e me colocou em baixo dele – você fala isso como se não soubesse que eu vou te beijar.
  – Você sempre beija. – soprei as palavras, fechando os olhos e inspirando o perfume forte dele que ficava marcado na minha pele.
  – Sabe, às vezes eu tenho uma saudade da sua antipatia, dos seus gritos e das suas ignorâncias... Saudades da antiga .
  – A antiga pode dar um tapa na sua cara agora, pelos velhos tempos.
  – Pode misturar ela com a nova ? Uma mordida talvez – ele beijou meu lábio inferior e se afastou – depois de um beijo – beijou meu lábio superior, me fazendo querer arrancar aquela boca – esquece a mordida.
  Respirei profundamente, sem nem hesitar ao soltar palavras.
  – Você pode só me ouvir? Sem beijos, abraços ou mãos na cintura – torceu o bico e se afastou, ficando longe de mim – Pensando bem, um abraço cairia bem agora – seus braços foram jogados para mim e contornaram minhas costas, fazendo o calor de seu corpo me aquecer. Seu perfume parecia mais forte, o que me deixou ligeiramente tonta, me lembrando que eu estava quase bêbada – Eu quero espancar meu pai... Tudo bem que eu não deveria estar na recuperação, mas ele fala como se nunca tivesse ido a uma recuperação! Ele simplesmente não me entende!
  – Você me diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais* – cantarolou, com os lábios grudados em minha orelha.
  Suspirei fraco, apertando o braço dele sobre minha barriga.
  – Isso vai soar ridículo, mas é bom ficar assim com você, parece que nada nunca vai me machucar...
  – Você sabe que, se fosse por mim, ficaria assim para sempre.
  – Não quero te dar esperanças de uma coisa que nunca pode acontecer. – argh, eu já comentei como odeio tudo isso?
  – Pois esperança é a única coisa que eu quero que você me dê.
  – Do que adianta uma relação com esperança e sem amor?
  – Amor você já me dá.
  – Essa é nova. – dei uma gargalhada nervosa, olhando fixamente para o forro do seu quarto – Não sabia que dar amor era uma coisa resumida a tapas, brigas e gritos.
  – Dawson, você está deitada numa cama abraçada a mim, suspirando cada vez que eu falo mais perto de sua pele, ou num tom mais baixo, – segurei o suspiro ao sentir o calor de suas palavras invadindo a pele do meu pescoço, droga – você bateu na porta da minha casa para chorar e ser ouvida, segundos atrás você disse que, quando está comigo, parece que nada vai te machucar... Bem, isso aconteceu nos últimos dez minutos, mas eu posso detalhar também o que aconteceu nos últimos meses, mas acho que você não vai querer saber... Se isso não é amor, por favor, me diga o que é.
  – Tecnicamente, eu não bati na sua porta. Antes de eu bater, você a abriu, como toda vez que eu venho aqui. – droga, isso mostrava ainda mais as coisas – Droga, é melhor eu calar a boca. Aquele beijo seria ótimo agora.
  – Um beijo para toda vez que você quiser calar a boca por falar merda? Eu estou amando essa tarde.
  – Isso soou muito gay.
  – Gay até eu calar sua boca. – suas mãos me giraram para debaixo dele e um sorriso involuntário surgiu na minha boca. Antes de qualquer movimento, enfiei os dedos em seus cabelos, sentindo uma falta ligeira do seu cabelo no ombro. Ele desceu seus dedos para meu pescoço e o empurrou para cima, finalmente pressionando os lábios nos meus.
  Abri a boca fazendo, menção para sua língua brincar com a minha, depois que a gostosa dança de línguas terminou, sua língua explorou cada centímetro de minha boca voltando a reencontrar sua parceira ao final.
  Quando ele ousou se afastar, eu não deixei, empurrando sua cabeça para a minha mais uma vez. Mordisquei seus lábios ao sentir um sorriso por cima dos meus, repetindo todas as coisas que aconteceram segundos atrás.
  Aquele velho beijo parecia uma novidade cada vez que se repetia.
  Quebrei o beijo, procurando ar e o resto do meu juízo. Levantei, encostando meu corpo na parede, e fez o mesmo, puxando meu corpo para cima do seu. Encaixei minhas pernas em seu quadril, por costume. Pressionei seus lábios e depois encostei minha cabeça na curva do seu pescoço.
  E foi aí que tudo escureceu.

****
  

O frio do quarto parecia estranhamente maior. dormia ao meu lado, e eu pude sentir sua respiração em meu cabelo.
  Minha cabeça doía como se um caminhão tivesse passado por cima. Abri os olhos, tentando me acostumar com a claridade artificial do quarto e, por um segundo, pensei: “O que eu fiz?”
  Palavras vinham aleatoriamente em minha cabeça, mas eu não conseguia associá-las.
  Ballantine’s, doze, banho, sobriedade, , macia, esperança, beijo, escuro. Escuro.
  Eu havia desmaiado nos braços de Bennet. Que vergonha.
  O sopro de sua respiração foi mais forte e fez meus pelos arrepiarem de um jeito tão forte que doeu. Dor. E foi aí que tudo acendeu. Meu pescoço doía, minha barriga, minhas pernas e... Outra coisa doía.
  Fechei os olhos com força, querendo voltar a dormir. O que eu fiz? Puxei o braço de e levantei, e foi aí que a ficha realmente caiu. Eu estava de calcinha e sutiã. Havia uma embalagem de camisinha no chão do quarto e, provavelmente, minha virgindade estava bem longe daqui.
  Quis acordar . Quis gritar. Quis sair correndo. Quis quebrar todo aquele maldito quarto.
  Mas, em vez disso, eu caminhei até o banheiro e parei em frente ao reflexo no espelho. Inclinei a cabeça para pia, querendo vomitar, mas nada saía. Levantei a cabeça e fechei os olhos, respirando e inspirando o ar levemente.
  Ri fraco, isso me traz lembranças da minha professora no jardim de infância, ela sempre falava “Cheire a flor e apague a vela” quando voltávamos ofegantes do intervalo. Minha infância parecia mais longe que nunca. Pela primeira vez, quis voltar a ser uma criança suada e com cabelos grudados na testa, sorrindo por ter ganhado de todos no queimado.
  Abracei minha cintura, sentindo minhas mãos pequenas e gélidas, segundos depois sendo cobertas por mãos maiores e quentes. Depois, longos braços apertaram minha barriga e aquela voz soou em meu ouvido:
  – Oi.
  Não respondi, apenas respirei profundamente, sentindo seu corpo esquentar o meu. Cada centímetro descoberto da minha pele estava colada à dele, causando uma mistura de coisas que eu nunca senti antes, dentre elas, nervosismo.
  Entrelacei seus dedos aos meus e me virei, levantando a cabeça e olhando seus olhos, olhos que normalmente pareciam um mar tempestuoso, cheio de ondas mortais e perigosas, mas agora estavam calmos e pacíficos, como uma piscina que não é tocada há muito tempo.
  Todas as coisas ruins que passaram pela minha mente foram deletadas.
   não tinha se aproveitado de mim, eu não desmaiei... Meu Deus, como por um segundo eu imaginei que Bennet tinha se aproveitado de mim? Nem em seu pior estado ele faria isso.
  Eu fiz todas as coisas, mas estava bêbada o bastante para não lembrar. Eu era simplesmente estúpida. Seus olhos transpareciam calma e felicidade. E foi essa felicidade nos olhos dele que desabou toda a minha calma.
  Encostei minha bochecha no seu peito nu e deixei as lágrimas descerem. Parecia que eu tinha tirado um grande peso das minhas costas. envolveu meus ombros com os braços e me apertou contra ele.
  – Eu te machuquei? – neguei com a cabeça, ainda chorando – Você está arrependida? – neguei mais uma vez, reunindo coragem para falar – Por favor, , me diz porque você está chorando... O que eu fiz de errado? – não disse nada, continuei deixando as lágrimas rolarem pelo meu rosto – Você confia em mim? – assenti, meio segundo depois ele colocou as mãos em minha cintura, me levantando e sentado meu corpo na pia, como se eu fosse uma criança – Me conta o que aconteceu.
   abaixou a cabeça e levantou meu queixo, respirei profundamente e sem nem pensar, murmurei as seguintes palavras:
  – Eu estava bêbada. Desculpa, mas eu não lembro de nada.
  Abaixei os olhos e observei os contornos de seu abdômen. Levantei as mãos e comecei a alisar sua pele com a ponta do dedo, até chegar na barra de sua cueca box preta.
  – Entendo que esteja com raiva de mim – eu nem aguentava olhar para ele. Se seus olhos estivessem com a expressão decepcionada, eu desabaria pela segunda vez em minutos.
  – Não estou com raiva, apenas triste. – alguém atirou em direção ao meu coração, estava prestes a ser quebrado em milhares de pedaços – A primeira vez de uma garota normalmente é especial, mas eu não imaginava que a de um garoto teria o mesmo valor. – fim da linha. Meu coração foi despedaçado em milhões de pedaços de imediato. Eu queria apenas chorar até não enxergar mais nada.
  Parabéns, , você conseguiu fazer o garoto se apaixonar por você e agora quebrou o coração dele.
  – Desculpe.
  – Por que tanto se desculpa? Você não fez nada de errado. Pode até não lembrar, mas eu lembro como aquele momento foi maravilhoso. Só estou triste porque você não lembra do quanto a tarde foi boa, – ele abaixou a boca e mordeu minha bochecha, depois arrastou os lábios até minha orelha e completou – ou de quanto você foi boa. Na verdade, ótima.
  Pela primeira vez, não me senti envergonhada ou tímida, não senti meu rosto corar ou meu corpo encolher. Minha única reação involuntária foi um forte repuxar de lábios.   – O que eu fiz? – perguntei num tom curioso de um jeito engraçado, como uma criança pergunta se pode comprar aquele doce. enxugou minhas lágrimas com a ponta dos dedos e enroscou minhas penas em seu quadril.
  – Foi a de sempre, só que nua.
  Lembrei como era a sensação de vergonha tão rapidamente que senti vergonha por estar envergonhada. Por milésimos segundos, esqueci que, para duas pessoas transarem, precisam estar sem roupa.
  – E você?
  – Eu te mordi. Muitas vezes. – eu sabia o que ele estava fazendo, não estava entrando em detalhes para não me deixar triste pelo fato de duas pessoas fazerem algo e só uma delas lembrar.
  – Isso eu já percebi. Vou ter que arranjar uma desculpa para meus pais. Ou muita maquiagem. E talvez um dorflex, porque elas ainda doem. – seu sorriso pareceu tímido. Enfiei meus dedos em seu cabelo, puxando sua cabeça para mais perto da minha, tocando seus lábios de um jeito preciso, forte e necessitado. Suas mãos desceram até a parte interna de minhas coxas, seus dedos afundaram na pele e meu corpo foi pendurado no ar junto ao dele. Suas mãos agora seguravam minhas pernas e faziam um leve carinho na curva de minha bunda.
  Seus lábios desceram até meu colo e fizeram um caminho para minha clavícula. Soltei o ar e puxei os fios pretos, curvando o pescoço.
  – Só avisando, nós não vamos transar agora. – murmurei entre clássicos suspiros.
  – Eu sei, mas ainda aprecio nossos momentos de safadeza sem o sexo.
  – Eu também. – assumi, sentindo meu corpo tocar a superfície lisa e gélida do chão.
  O chão realmente era gostoso, frio e duro, mas com ao meu lado, parecia confortável e aconchegante.
  Peguei uma blusa preta e larga de que estava jogada no chão, a blusa que ele usava mais cedo. Enfiei meus braços, sentindo seu perfume invadir meu corpo.
  – Eu devia ter imaginado que você estava bêbada.
  – Por quê? – indaguei de forma curiosa.
  – Você disse que me amava. – gelei. Esse era um dos resultados da bebida em mim.
  – Sabe como é, a bebida entra, a verdade sai. – sussurrei, encostando minha cabeça na curvatura do seu pescoço.
  Vamos lá, , você pode dizer a verdade, você pode dizer isso com outras palavras. Você consegue fazer mais que isso.
  Eu consigo. Certo?
  Não.
   me encarou, com um pequeno sorriso estampado no rosto. Ele transmitia uma alegria que era quase desconhecida por mim, essa era a parte boa de Bennet, ele sabia reconhecer as coisas.
  A ponta do seu nariz arrastou em minha pele, e depois de uma risada abafada, ele disse:
  – No seu caso é mais complexo. A bebida entra e a virgindade sai.

19 - Apague a luz e fiquemos a sós

Novembro
  

Do fundo do meu coração eu esperava que passasse. Que tudo voltasse a ser como um dia atrás.
  Queria que eu não tivesse pego o boletim, queria não ter ouvido sermão do meu pai, queria não ter uma mente tão irracional e pés tão sábios a ponto de me levarem para a casa errada.
  Ou talvez fosse a casa certa, com a pessoa certa. A errada dessa história sou eu.
   não soltava uma palavra sequer, o que acabava comigo. Ele era um apreciador do maldito silêncio. Aquela falta de ruídos irritantes, pela primeira vez na vida, me incomodou.
  Eu poderia sorrir e dizer que eu estava feliz, que não me importava de não lembrar de como eu perdi minha virgindade. Ia ser uma puta mentira. Eu queria lembrar. Queria entrar na mente de e caçar suas lembranças.
  Me senti estúpida por querer saber dos detalhes mais banais, mas, ao mesmo tempo, tão importantes. Eu poderia abrir a boca e perguntar a ele. Mas com que palavras?
  Sangrou? Eu falei se estava doendo? Foi muito bom? Como é a sensação? Eu tive um orgasmo? Você ficou em cima de mim?
  Com toda certeza eu não perguntaria aquilo.
  Você ficou em cima de mim?
  Que tipo de pergunta é essa, Dawson?
  – – ele virou o rosto, com o sono carregado na expressão – Eu vou para casa. – soltei seus braços de minha cintura e rolei para longe, caçando minhas roupas.
  – É, hm, eu te levo.
  – Não precisa. Eu vim sozinha, posso voltar sozinha.
  – Eu fiz algo errado?
  – Não. – claro que fez. Transou comigo e, quando eu perguntei como foi, disse: “Você foi ótima” – , não precisa colocar uma aliança em meu dedo, nem agir diferente comigo. Nós somos iguais, a mesma coisa de sempre.
  – Ok – ele parecia sem reação.
  Claro que ele estava sem reação, eu tinha sido uma vaca ao falar aquilo. Espera. POR QUE EU FALEI ISSO?
  Acredite, eu nunca estive tão confusa em minha vida sobre algo, como eu estava agora. E foi aí que eu percebi que, mesmo tentando ser diferente de todos, eu era completamente igual.
  Eu realmente era uma rebelde por apenas não gostar de ouvir a verdade. Era tão única que começava a ser clichê. Eu gostava de questionar as coisas mas não gostava de me questionar. Porque eu simplesmente não sabia responder. “Porque sim.” Era a resposta mais certa que eu daria. Porque simplesmente não via problemas em beijar um garoto comprometido, mas achava horrível o fato de não lembrar da primeira vez que tive algo entre minhas pernas.
  O grande tabu que era o sexo. Chegava a ser divertido. Eu nunca tive problemas em falar sobre sexo com as pessoas, mas nunca falava de mim. De como eu queria que fosse minha primeira vez. Sem velas, o cheiro me enjoava. Nada de praias, clichê demais. Um quarto de hotel representava muita luxúria. O quarto de um motel representava pouca luxúria. No final das contas, eu provavelmente não merecia nenhuma das situações anteriores, elas eram boas demais para mim. Talvez eu estivesse no caminho certo. Bêbada num quarto gelado com um garoto que era estranhamente virgem aos 16 anos.
  – Você vai ficar fria comigo agora? – não quis olhar em seus olhos, nem virar o rosto em sua direção. era bom demais para mim. Essa era a mais pura verdade. Sempre foi. Sim, vocês estão lendo isso. Dawson não é boa o bastante para Bennet. Talvez eu fosse o homem do casal, o cafajeste que pratica sexo casual com a garota inocente e apaixonada... Não, isso soa ridículo até mesmo para mim.
  – Não é uma situação que eu tenha reação.
  – Acredite, não vai acontecer de novo.
  – Uma pessoa não pode perder a virgindade duas vezes. A não ser que eu decida beber e dar a bunda – ri discretamente e acompanhei os olhos de , que transmitiam um ar culpado. Como se tivesse feito algo além de errado – BENNET, ME EXPLIQUE ESSA CARA AGORA! – ele não se moveu um centímetro, apenas continuou com aquela cara de culpa – BENNET, NÃO ME DIGA QUE DEI MINHA BUNDA PARA VOCÊ!
  – Eu estava brincando. – ele explodiu em risadas, mudando de cor rapidamente.
  – Como você é engraçado. Olha como eu estou rindo! – continuei séria, abotoando os botões de meu short.
  – Ei, desculpa, eu só queria fazer você rir um pouco, mas não deu muito certo – ele andou três passos contados até mim e arrancou a blusa dele do meu corpo, a substituindo por uma roxa de mangas curtas – Eu não quero que você chegue em casa com cara de quem fez coisa errada.
  – Minha mãe não está em casa. Nem meu pai.
  – Nem o whisky caro de seu pai que você quase secou. – gelei, era verdade.
  – Deixe-me adivinhar, eu te contei esse detalhe durante nossa conversa antes de perder minhas roupas?
  – Na verdade, você me contou isso enquanto estávamos no chão conversando há alguns minutos – ele fez uma cara de óbvio e eu bati a mão na testa, esquecendo completamente desse fato.
  – Eu também te contei que tenho uma pinta engraçada em forma de coração na polpa da bunda? – sentei na cama, apoiando os cotovelos nas coxas.
  – Não precisou contar, eu vi. – riu.
  Senti minha pele mudar de cor.
  – Droga Bennet, eu ainda não me acostumei com a ideia de que você me viu nua.
  – Ok. – ele riu mais uma vez, puxando minha mão e pegando seu celular no criado mudo – São seis e pouca, seus pais provavelmente não voltaram, isso nos dá uma provável vantagem. Precisamos pegar o whisky, limpar sua bagunça e esperar.
  – Os mercados vão chegar logo. Eu não tenho dinheiro para comprar isso. Em bares não vendem whisky tão caros, e não vão vender bebida para dois menores de idade.
  – Nunca disse que iriamos comprar. Confia em mim, . Vamos tentar acertar um pouco da bagunça de sua vida, por enquanto.
  Assenti e saímos silenciosamente do seu quarto, seguindo para um cômodo escuro e com um forte cheiro de álcool.
  – Meu pai tem uma terrível mania de colecionar bebidas. – explicou-se, ligando a luz e revelando inúmeras garrafas de inúmeras bebidas diferentes.
  – Mas você me disse que seu pai não bebe.
  – Isso que torna a mania dele terrível, ele gasta muito dinheiro pra ocupar um quarto com garrafas de álcool. Ele tem uma estranha obsessão por isso. Já foi ao psicólogo e já ouviu conselhos da família inteira, no final, apenas concluímos que ele tinha uma mania igual com coisas diferentes.
  Ele olhou para umas plaquinhas e foi caçando alguma coisa com os olhos, aí que eu percebi que as bebidas estavam separadas em ordem alfabética. Cada maluco com sua mania.
  Então ele sorriu e caminhou até a placa com a letra B, pegou uma garrafa azul e familiar e sorriu para mim.
  – Aqui, sua ballantine’s. Um ponto a mais.
  Arregalei os olhos e sorri de forma estranha. Pulei duas vezes e joguei meus braços para cima.
  – , menos pulos e mais beijos.
  Parei imediatamente a comemoração estranha e olhei para ele de forma retorcida, espremendo os lábios e expondo o desprezo nos olhos. teve uma reação instantânea, cara de tacho, de surpresa e acima de tudo, mascarado pelos olhos, uma ponta de desapontamento.
  – Ei, eu estava brincando. – gargalhei, quer dizer que só ele pode brincar? Dei dois passos e parei a centímetros dele, puxando o pé para cima numa tentativa frustrada de chegar ao tamanho dele – Obrigada. – não ousei mais do que um leve encostar de lábios, eu sabia que se começasse algo ali, iria causar mais problemas em minha mente. E, bem, problemas é uma coisa que eu, incrivelmente, quero distância.
  – Vamos? – ele perguntou na porta do cômodo, com uma espécie de sorriso no rosto.
  – Vamos. – respondi estática, girando os calcanhares e passando por ele.
  Talvez um beijo de verdade doesse menos. Esse simples toque com tantas emoções escondidas por cadeados que estavam sendo violados, quebrava todas as minhas regras de existência.
  – Você pode ficar lá. Hm, dormir lá. Por enquanto que seus pais não chegam – propus, enfiando a garrafa na mochila que trazia – Provavelmente meus pais também não estão, assim não ficamos sozinhos. É menos perigoso de uma catástrofe acontecer. – menti, a verdade era que... Não, eu não queria destruir a casa mesmo.
  – Deixa eu colocar algumas roupas para passar a noite. Ainda preciso tomar banho. – entrou no seu quarto novamente e eu fiquei do lado de fora, observando o silencio novamente.
  – Só para constar, jantaremos pizza. Ou miojo, depende do meu humor. – gritei da porta, sabendo que mesmo que eu sussurrasse, ele ouviria.
  Ele riu e trouxe consigo algumas mudas de roupa, as enfiou na mochila e depois a fechou. Encaixou a alça no ombro e desceu as escadas sem aviso, me largando sozinha. Corri atrás dele, amarrando meu cabelo rapidamente num coque apertado. Quando chegamos ao majestoso portão branco, nos deparamos com um George confuso.
  – Aonde vocês vão? – perguntou.
  – Eu ia dormir na casa da . Pensei que vocês não fossem voltar hoje.
  – Na verdade, eu vim buscar umas roupas para sua mãe. Ela está estressada e vai dormir na casa de sua avó. E, bem, vindo aqui, a quilômetros de onde sua avó mora, é um bom jeito de fugir de uma Agatha estressada e extremamente irritante. – sorriu amarelo, apresentando cansaço por trás dos olhos castanhos.
  – Me desculpe por isso. É, hm, você vai contar para ela?
  – Que você está trancado em seu quarto? Gritando com as paredes? Claro que vou, ainda contarei que você me mandou eu ir me foder.
  – Obrigado. – suspirou aliviado. Se George tinha se tornado um homem maduro e responsável, eu queria do fundo do meu coração conhecer ele quando não era. Devia ser quinhentas vezes mais engraçado e legal do que já é.
  – Já tive sua idade. – adentrou a casa de forma engraçada – Mas não tenham nenhum filho! Já temos o Marvin!
  Arregaleis os olhos, sem ação e mais perplexa que antes. Coisas assim você não espera ouvir do pai do garoto que dormiu com você. Na verdade, de pai nenhum.
  – Tchau Sr. Bennet! – gritei, ainda tentando formular uma frase com nexo – Vamos de verdade? – ele assentiu, eu não morava tão longe dali, eram apenas dois quarteirões no máximo.
  O caminho foi silencioso, como esperado. Mas isso não me incomodou, foi um silencio estranhamente prazeroso. Onde muitas palavras são ditas sem um ruído sequer.
  Com toda certeza eu estava estranha, mais estranha que antes. Eu estava me sentindo uma barata saltitante e radiantemente feliz.
  Chegamos à minha casa e eu senti um nervoso na boca da estômago. Ela me dava arrepios estranhos, minha própria casa. Ignorei os olhares de e caminhei até o pequeno jardim, puxando o anão de madeira do chão e revelando a chave reserva – já que eu não fazia ideia se tinha pego a minha ou perdido no quarto de .
  Entrei em casa abrindo a porta e percebendo que ela estava vazia. Uma onda e alivio me dominou, eu não estava apta para explicações no momento.
   entrou logo atrás de mim e pôs sua mochila em cima da mesa, abriu-a e tirou a garrafa. Apontei para o armário e ele a colocou lá, pegando a garrafa que ainda estava em cima do balcão e a colocando dentro da mochila.
  – Pode ficar aí. Eu limpo.
  – Hm, produtos de limpeza no armário preto lá fora e panos de prato na segunda gaveta ao lado da geladeira. – apontei para o armário ao lado da geladeira e depois para a porta que dava entrada à área de serviço.
  Ele pegou o copinho de dose e levou consigo para área de serviço. Sentei numa das cadeiras da mesa de jantar e apoiei minha cabeça nos braços. Suspirei pesadamente, aquele dia estava ficando cada vez mais confuso. Minha vida estava confusa. Ela estava sofrendo uma imensa bipolaridade. No final das contas, a vida era mesmo uma vadia.
  – Pronto. – ouvi sua voz ao meu lado. Uma cadeira foi puxada e sentou nela – Sua cozinha cheira à limpeza, seu copinho assassino foi lavado, enxugado e guardado junto com o resto da quadrilha no armário. A garrafa está de volta ao armário de origem. Seus pais ainda não chegaram e, a não ser que eles te levem ao ginecologista e vejam que você não é mais virgem ou para fazer um exame de sangue de última hora e percebam a quantidade de álcool no seu organismo, você está salva.
  Ri pausadamente. No final, era uma boa pessoa, um bom amigo. Uma pessoa merecida de mais atenção e menos insultos e acusações. Foi nesses três segundos de pensamentos aleatórios que eu decidi que a partir daquele momento, seria uma pessoa que iria merecer dividir oxigênio com Bennet. Eu não seria uma boa garota para todos. Eu seria uma boa companhia para ele.
  – Você pode tomar banho no banheiro social ou no quarto de hóspedes. Os dois têm toalhas limpas. – levantei e segui os passos até metade da escada. Freei meus pés e virei meu rosto em direção a ele – Preciso de um banho, eu estou me sentindo – suja – cansada pra caramba. Pode pedir pizza se estiver com fome. Ou pegar miojo. Tem alguns no armário em baixo da quadrilha de copos assassinos. – voltei a subir os degraus, empurrando a porta do meu quarto e vendo que ele estava exatamente do jeito que eu deixei, confirmando minha teoria que realmente ninguém esteve aqui.
  Peguei meu celular, que estava na minha cama, e vi que havia três mensagens e duas ligações perdidas. Uma ligação era de minha mãe e outra de Sammy. As mensagens eram de duas pessoas diferentes, e papai. Li primeiro a de meu pai, que fez um pequeno sorriso brotar no meu rosto.

  
Desculpe pelos gritos, mas você sabe como eu fico quando estou com raiva. Sua mãe ficou bêbada e eu não quero dirigir, voltaremos amanhã depois do almoço. Espero que você consiga algo para comer e fique bem. Não faça nenhuma besteira. Te amo, papai.
  

E as pessoas ainda têm coragem de perguntar de onde eu tiro essa bipolaridade constante.
  Tarde demais, papai. A besteira já estava feita. Mas nada que ele precisasse saber, eu ainda tinha amor à vida de . E à minha também.

  
Eu estou bem, pai. Tudo bem, mereci ouvir alguns gritos. Não vou fazer nenhuma besteira. Tenha uma boa noite e cuide bem de minhas pequenas. E depois quero saber as pérolas que dona Mariane soltou. Não vou esperar vocês acordada, ouviu, Rick? Amo vocês.
  

Respondi sorrindo e depois lembrei que haviam mais mensagens não lidas. havia mandado duas mensagens seguidas. Senti um imenso nó na garganta e uma vontade de chorar. Eu não choraria, já tinha chorado muito, sofrido muito. Dessa vez eu ficaria apenas emocionada.

  
PASSEI, AMORZÃO. PRIMEIRO ANO, BITCHES, VOU SAMBAR EM GERAL AGORA! Me dê noticias LOOOOGO!

Amiga, já olhou no calendário? Hoje é 20 de novembro. 2 meses sem o Drummer.
  

Eu não tinha coragem para respondê-la, mas tinha que procurar essa tal coragem em algum lugar. Drummer era meu melhor amigo, mas, ainda assim, era o namorado dela.
  Digitei a mensagem rapidamente e a enviei para , esperando que ela não respondesse ainda hoje.

  
Sorte sua, amiga, fui pra rehab de matemática... Eu também sinto falta dele, meu amor, mas isso é uma coisa boa. Se sentimos falta do Drummer, significa que ele realmente importava para nós. Você sabe que eu te amo, não sabe? BN
  

Ela não respondeu, não havia resposta para aquilo. Drummer não era só uma pessoa, só um amigo, só um namorado. Ele era humano, mais humano que qualquer pessoa que eu pude conhecer, mais merecedor da vida do qualquer um naquele colégio.
  Larguei o celular na cama e tirei minha roupa, recolhendo a que eu joguei mais cedo no chão e jogando todas no cesto de roupa suja. Soltei o cabelo e o amarrei num rabo de cavalo com uma chucha perdida no quarto e fui para debaixo d’água, absorvendo as gotas causarem o efeito contrário de . Elas me acalmavam, me deixavam zen de um jeito bom. Qualquer pessoa que me visse depois de um banho poderia jurar de pés juntos que eu havia acabado de ingerir pelo menos três gotas de colírio.
  Fechei o registro e bufei de raiva ao perceber que não tinha toalha no meu banheiro, eu teria de sair molhada do quarto ou secar ali mesmo no boxe.
  Estiquei o pé para fora e fui andando, me arrependendo de ter colocado a roupa no cesto; elas poderiam muito bem me cobrir por alguns milésimos de segundos enquanto eu não achava a porcaria da toalha.
  Cinco segundos contados depois, desisti de procurar uma toalha e fui enfiando uma calcinha limpa pelas minhas pernas. Procurei um short de dormir e depois uma blusa regata preta. Eu não usaria sutiã para dormir só porque estava dividindo cômodo com Bennet.
  Saí do meu quarto, com o cabelo amarrado e pantufas engraçadas nos pés. Aquela cena era o privilegio para apenas algumas pessoas. Ninguém precisava saber que a garota com cabelos loiros e bagunçados, olhos contornados de preto e cara emburrada andava pela casa com pantufas de joaninha.
  Um vento extremamente delicioso subiu as escadas, e eu senti meu estomago revirar. Não colocava nada para dentro desde... Sei lá que horas. Cheiro de comida. Não de pizza, muito menos de macarrão instantâneo. Comida.
  – BENNET! EU ESTOU SENTINDO CHEIRO DE COMIDAAA! NÃO ME DIGA QUE MINHA MÃE ESTÁ AQUI. – gritei e ouvi sua risada como resposta. Fechei a porta do quarto, descendo aceleradamente a escada, me preparando psicologicamente para a cena que viria a seguir.
  Nenhuma preparação foi o bastante para aquilo.
   estava com uma toalha amarrada na cintura e outra ele passava levemente pelos cabelos, que ainda respingavam água. Ele segurava uma grande panela com a mão livre e despejava algo num escorredor.
  – O que está fazendo? – perguntei. A resposta era óbvia, mas eu precisava ter certeza de que aquilo não era uma miragem.
  – Macarronada.
  – Desde quando sabe fazer macarronada?
  – Minha família tem origens italianas, é claro que eu sei fazer macarronada.
  – Por que você está de toalha?
  – Porque eu pus o macarrão no fogo ,e no banho, lembrei que ele podia estar pronto. Saí às pressas para desligar.
  – Você cozinha? – perguntei mais uma vez, ainda sem entender o que se passava ali.
  – Você não? – retrucou, sorrindo de forma debochada – Para com essa cara, . Assim eu paro de cozinhar e te deixo com fome.
  – NÃO!
  – Então para de agir como se nunca tivesse visto um homem cozinhar.
  – EXATAMENTE! Homem! Estamos falando do meu querido Bennet, um garoto de dezesseis anos. Garotos não cozinham, eles passam seu tempo livre... – pensei em milhares de coisas, mas falei á primeira que veio em mente – comendo as putas do colégio!
  – Vamos lá, , eu perdi minha virgindade algumas horas atrás. Acha que só você pode ser diferente?
  Sentei no balcão que alguns minutos atrás era ocupado por uma garrafa de whisky. Deixei as pernas abertas e apoiei meus braços no mármore escuro, joguei o peso de meu corpo lá e comecei a balançar os pés.
  – Você me intriga, Bennet. Você sabe cozinhar aos dezesseis anos, mas, mesmo assim, era virgem. E se não fosse nosso amigo, whisky, ainda era virgem. Você é um adolescente normal, como sobreviveu assim o tempo todo? Quer dizer, você tem hormônios!
  – E uma mão também.
  Aquilo foi o fim da linha. Apoiei minha cabeça nas mãos e comecei a rir freneticamente. Ele estava falando sério? Eu estava de casinho com um punheteiro que cozinha? Meu Deus, esse dia fica cada vez mais interessante.
  – Tudo bem, Bennet, vá colocar sua roupa e enxugar seu cabelo. Eu cuido do resto por aqui. – pulei, voltando para o chão e empurrei com as mãos, fazendo questão de pegar naqueles gominhos que ele tinha na barriga. Se eu pegasse mais alguns centímetros abaixo, a toalha dele cairia. Droga, por que não pensei nisso antes?
  – Não acabe com meu macarrão!
  – Vá logo! – ordenei fechando a porta do quarto de hóspedes. Caminhei de volta para a cozinha e percebi que tinha preparado o molho também... Filho da puta, eu passei quanto tempo tomando banho? Uma hora?
  Peguei uma travessa e pus o macarrão dentro, jogando o molho por cima e depois um pouco de queijo ralado que eu achei na geladeira. Pus dois pratos na mesa, juntamente a dois garfos e dois copos. Peguei a garrafa de coca da geladeira e sentei à mesa, impaciente. Ele estava demorando muito.
  Pensei em lembrá-lo que hoje fazia dois meses da morte de , mas ele estava feliz demais para lembrar que dois meses atrás o melhor amigo dele morreu num maldito acidente de carro. Não é uma coisa boa para se lembrar do nada. Preferi ficar assim, sem abrir a boca e soltar algo para acabar com o resto do dia.
  Soltei meu cabelo, tentando me distrair com as pontas dele. Não deu certo. Enchi meu copo de refrigerante e comecei a bebericar pelos cantos. Levantei, ainda impaciente, e busquei algo naquela cozinha para me distrair. Uma ideia estranha veio-me a cabeça, eu era curiosa e gostava de saber das coisas. Então caminhei até o armário de bebida e comecei a ler o rótulo do absinto um tanto empolgada, até ouvir alguns passos atrás de mim.
  – Não está pensando em beber mais uma vez, está? – perguntou. Suspirei profundamente, inalando seu perfume forte e o cheiro de shampoo que vinha do seu cabelo ainda úmido.
  – Não. – coloquei a bebida no lugar.
  – Sabia que minhas blusas ficam melhor em você? – virei e, antes que eu pudesse pensar na situação, arrancou minha regata do meu corpo, me deixando á deriva de todos os tipos de pensamentos sujos que ele pudesse ter. Levei meus braços aos seios descobertos e arregalei os olhos em direção a , que estava tão surpreso e vermelho quanto eu – PUTA MERDA, , POR QUE VOCÊ NÃO ESTÁ DE SUTIÃ? – empurrou sua blusa cabeça abaixo, quando eu vi que o pano já cobria tudo, enfiei meus braços pelas mangas e contei até dez mentalmente para não gritar.
  – GAROTAS NÃO DORMEM DE SUTIÃ! BENNET, VOCÊ TEM BOSTA NA CABEÇA? DE ONDE SAIU ESSA IDEIA DE TIRAR MINHA BLUSA NO MEIO DA COZINHA? DEPOIS QUEM ESTÁ BÊBADA SOU EU!
  Vociferei, passando por baixo dos seus braços e correndo em direção à sala de tevê. Sentei no sofá e enterrei a cabeça na grande e macia almofada.
  Senti o sofá afundar ao meu lado, e nem me dei o trabalho de tirar o rosto da almofada para olhar sua cara.
  – Desculpa. Eu não sabia, mesmo. Achei que estava de sutiã e, bem, como eu tirei minha blusa que estava em você lá no meu quarto, achei que não se importasse. Eu não imaginei que você estaria sem sutiã.
  – Sutiã dá estrias. Eu não quero ser uma velha com os peitos flácidos, caídos e com muitas estrias.
  – Já entendi, sem estrias. – ele puxou meu corpo, encaixando minhas pernas em seu colo e enroscando a cabeça em meu pescoço – Seu cheiro é bom. – arrastou os lábios pela minha pele, causando calafrios em meu corpo – Seu gosto também. – beijou levemente o local, subindo os beijos até chegar em minha boca – Mas esse gosto aqui não se compara a nada. – beijou meus lábios, num beijo calmo e sereno, ao mesmo tempo, nervoso e ardente.
  Desci minhas mãos até seus pulsos e estremeci ao senti seus dedos invadirem a pele por baixo da blusa; eles brincavam com minha barriga, apertavam minha cintura e faziam contornos em minhas costas. Mas nunca passavam disso.
  Quando seus dedos chegaram às minhas costelas, parei. Era uma coisa nova para mim, e sabia disso. Ele parou o beijo e se afastou, com a boca vermelha e os olhos pedindo autorização. Por mais que algo dentro de mim dissesse que aquilo era errado, ignorei meu lado bom e resolvi dar ouvidos ao diabinho que me atentava.
  Assenti com a cabeça, sentindo as mãos de chegarem onde queriam. Ele podia sentir meu coração palpitando fortemente de nervosismo. Parou três segundos, esperando eu o impedir ou coisa do gênero. Apenas levei minhas mãos aos seus cabelos, o puxando para mais perto de mim.
  Arfei quando ele quebrou o beijo, descendo os dedos para minha cintura e descendo os beijos até meu pescoço e, depois, minha clavícula. Quando ele fez menção de subir minha blusa, neguei com a cabeça e, juntando todo ar, murmurei:
  – Quarto de hóspedes.
  Sem nem hesitar, ele prendeu minhas pernas com as mãos e andou em direção ao quarto, com a boca ainda grudada no meu pescoço, distribuindo carícias. Empurrou a porta com o pé e eu usei minha mão para fechá-la.
  Senti meu corpo sendo jogado na cama e o de em cima de mim. Segundos depois, minha blusa já estava bem longe de visão. Antes que pudesse fazer alguma coisa, tirei a dele também, cravando as unhas em seus ombros.

****
  

O dono daquele sorriso colocou minhas pernas de volta na cama e levantou, quase deitando por cima de mim segundos depois, apoiando o peso do corpo em suas mãos.
  Seus lábios se encontraram com meus num choque, sua boca parecia mais gostosa, mais inchada e com um gosto diferente. Desci as mãos até a barra de sua boxer e a arrastei até o meio de suas pernas, deixando com o trabalho de tirar o resto.
  – Você tem certeza de que não vai se arrepender amanhã? – ele sussurrou, com a voz numa mistura sexy e delicada.
  – Cala a porcaria da boca para eu não me arrepender agora. – as palavras saíram de minha boca de forma engraçada, sem ordem de tons ou até mesmo de altura. Em meio a suspiros.
  Ele saiu de cima de mim e andou até a mochila, buscando por algo. Me dei o trabalho de fechar os olhos, eu não precisava ver o que tinha no meio das pernas. Por mais ridícula que eu seja ao pensar nisso na situação que estou, me constrange.
  – Droga! Eu não trouxe camisinha! – suspirei lentamente e sentei espantada, abracei minhas pernas e comecei a balançar a cabeça negativamente, rindo por dentro.
  – Mulheres broxam? – perguntei, rindo da cara que ele me enviou como resposta. Deu de ombros e continuou me fitando, se perguntando como eu conseguia achar graça daquilo – Não sei como chamam, mas eu perdi totalmente o clima.
  – Que droga! Como eu sou burro!
  – Por que, exatamente, você não trouxe nenhuma?
  – Porque eu achei que não ia rolar nada.
  – Acorda, , eu te chamei para dormir na minha casa!
  – Porque você não queria ficar sozinha e queria impedir mais um desastre! – ele parou por dois segundos e bateu a mão na testa – Ok, você pode rir de minha cara para o resto da vida, eu deixo.
  Recolheu a boxer preta do chão e a vestiu, jogando minha calcinha e sua blusa em minha direção. Enfiei as duas no corpo e joguei a cabeça para trás, rindo da cara emburrada que ele fez ao se sentar ao meu lado.
  – Está tudo bem, .
  – Não está! Eu não sei como vou me livrar disso! – ele apontou para suas pernas e eu percebi certo volume em sua cueca.
  Me deitei ao seu lado, mordiscando levemente o lóbulo de sua orelha.
document.write(Luigi) sorria de um modo safado e, entre nós, extremamente lindo, ri por dentro – Tem água gelada no chuveiro. Tome outra ducha e acalme seu amiguinho. – dei um tapa de leve em seu ombro e ele fez beicinho.
  – Ouch! Você é má!
  – Eu sei, meu bem. – mordi seu lábio inferior e levantei da cama, abrindo a porta e enfiando meus pés do lado de fora – E você gosta dessa malvadeza. Agora vá tomar seu banho que eu ainda estou com fome.
  E, assim, ele levantou da cama e foi em direção ao banheiro, empurrando a porta.
  – Água gelada o caralho. Eu ainda tenho mãos! – ele gritou, me fazendo rir da porta do quarto.
  – Lave as mãos antes de vir comer! – saí do quarto rindo e larguei Bennet cuidando de seu amiguinho com as mãos.

20 - Escute minha voz

Novembro
  

Só para constar, eu verifiquei se ele lavou as mãos. Três vezes.
  Talvez quatro.
  As mãos dele não tinham cheiro de punheta. Punheta tem cheiro? Definitivamente, não é uma coisa que eu queira saber agora.
  – Essa é a melhor macarronada que eu já comi. – disse embolada, com a boca cheia de comida.
  – Que nojo, ! Esvazie a boca antes de falar. – fez cara de nojo e voltou a comer – Que coisa feia, uma mocinha fazendo isso.
  – Vá à merda. – enchi minha boca de macarrão e falei, arrancando uma gargalhada de .
  – Você é tão mal educada! Precisa de umas aulinhas de etiqueta! Ou de um reformatório! Daqueles de caso perdido!
  – Para, ! – dei um tapa em seu braço, rindo escandalosamente – Você fica parecendo Drummer na frente dos adultos, todo metido a professor de etiqueta.
   parou de rir e fechou os olhos por alguns segundos, engoliu a comida como se fosse pedra e torceu a boca. Seu rosto virou em minha direção e por um momento, pensei que ele fosse chorar.
  – Dois meses. – foi a única coisa que saiu de sua boca. Levantei da cadeira e sentei em seu colo, passando as mãos pelo seu cabelo e encostando sua cabeça em meu pescoço – Como o tempo passou tão rápido? Como conseguimos sobreviver sem ele?
  – Pessoas morrem todo dia, mas elas estão mortas, nós não. Temos que aprender a lidar com a saudade, com a morte. Com as pessoas que vão embora de nossa vida. – falei ainda afagando seu cabelo. Em relação a e , eu sempre fui a mais forte em aceitar a morte de Drummer.
  – Você não sente falta dele? – sua voz saiu fraca, agora ele chorava baixinho, deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
  – Todo santo dia. – afirmei – Sinto falta do cheiro dele, dos cachos, daquele sorriso, da magreza, da altura exagerada, daquela cor de vampiro. – suspirei pesadamente, sentindo a vontade de chorar me dominar, mas eu não podia chorar, eu estava consolando , que tipo de pessoa eu seria se chorasse?
  – Acho que você era apaixonada por ele... – riu e eu agradeci internamente por aquele som – Bem, – ele levantou a cabeça e enxugou as lágrimas na blusa – não é quem vai lavar essa louça, porque, além de morto, ele é preguiçoso pra caramba.
  – Nem , nem eu, nem você. – ele me olhou curioso. Como quem perguntava “Quem vai lavar então?” – A empregada vem amanhã, ela lava depois. Vamos colocar na pia e ir dormir, porque eu estou cansada.
  – Só se você dormir comigo. – arqueei a sobrancelha e sorri, negando com a cabeça – Por favor, , vamos apenas dormir, prometo que nem tento te abraçar.
  – ...
  – Tudo bem, prometo que vou apenas te abraçar.
  – Bennet... – falei mais uma vez, me segurando para não rir.
  – Tudo bem, eu posso tentar alguma coisa. Mas não significa que você irá deixar, eu vou apenas tentar, . Por favor, durma na cama comigo.
  – Meus pais vão chegar e vão querer me matar.
  – Você estará com roupas!
  – Eu estava de calcinha e sutiã quando acordei mais cedo, mesmo assim não era mais virgem.
  – Calcinha e sutiã não são roupas. – o olhei atravessado, juntando todas minhas forças para não explodir em risadas naquele exato momento – Dawson, eu prometo que não irei fazer nada com você se aceitar passar a noite dormindo comigo na cama.
  Seus olhos pareciam armadilhas, onde não é confiável passar perto nem por cima. Mas não dava para cair nessa armadilha. Era hora de respirar fundo e aceitar que eu já estava dentro dela.
  – Não sei se posso confiar em você. Você disse que sua primeira garota fui eu, mas sua língua diz outra coisa... E seus dedos também. – continuei em seu colo, passando os dedos levemente por dentro dos fios pretos do cabelo de .
  – Isso não conta, você foi a primeira garota que foi minha de verdade. As coisas que eu fiz com os dedos e com a língua antes disso ficam no chinelo. – fechei os olhos, apreciando o som de sua voz.
  – Você coloca os pratos lá fora e trate de pegar minha blusa, que ainda está jogada no meio da cozinha. Eu estou te esperando na cama.
  Caminhei até o quarto e me joguei na cama, ignorando o fato de que uma hora atrás ela servia para outra coisa. Tateei a mão no criado mudo, procurando pelo controle do ar condicionado e, quando o liguei, fui para debaixo dos cobertores por puro impulso. Olhei o relógio que estava na parede em frente a mim: 22h26min. Não estava tão tarde assim, mas eu sentia meu corpo pesar. Eu precisava dormir durante umas dez horas ou durante um dia inteiro. Perder a consciência e entrar num mundo apenas meu. Sem problemas, sem matemática, sem álcool e, principalmente, sem Bennet.
  – Já está dormindo? – a voz veio da porta e eu abri os olhos, batendo a mão no espaço vazio ao meu lado – Pensei que já tivesse adormecido.
  – Eu sou sonâmbula, não sabia? – murmurei, escondendo minha cabeça debaixo do cobertor.
  – Pega sua blusa aqui, ô sonâmbula. – senti um peso cair sobre mim por cima do tecido que me cobria, mas continuei em minha posição.
  – Tranque a porta – ordenei, ouvindo a chave virar e o barulho do trinco logo a seguir.
  – Por que mesmo?
  – Porque ainda podem assaltar a casa, Bennet. Saia com seus pensamentos impuros de perto de mim. – arrastei o cobertor e virei para onde ele estava deitado agora, sorriu e puxou meu braço para mais perto dele. Neguei com a cabeça e levantei, puxando minha blusa que estava lá. Levantei da cama e parei em frente a parede, tirando a blusa de e colocando a minha logo depois – Pega sua blusa. – a joguei, assim como fez com a minha e deitei na cama novamente.
  Agora sem nem pedir, me aninhei nos braços dele, deixando meu rosto logo abaixo do seu. Senti um arrepio percorrer meu corpo quando sua mão desceu até a minha e seus dedos se entrelaçaram aos meus. Mudei minha posição, ficando de costas para ele e senti seu queixo repousar sobre meu ombro. Fechei os olhos levemente, absorvendo seu cheiro e o toque de sua pele macia na minha. Sua respiração estava fraca, quase imperceptível para qualquer pessoa, menos para mim.
  Mudei mais uma vez de posição, deixando seu braço debaixo de mim e deitando de barriga para cima, procurando alguma distração no teto. Mas adivinhem? Nada.
  – Você está inquieta.
  Não respondi. O que eu responderia? Nada de interessante, apenas apertei a mão dele, que continuava unida à minha, e permaneci com os olhos presos na superfície lisa e sem graça que era aquela porcaria de parede.
  – ? – sua voz parecia mais rouca que o normal, com aquela preocupação exagerada estampada.
  – Eu – comecei, mexendo o corpo mais uma vez e com toda coragem reunida, olhando nos olhos de – acho que devemos acabar com tudo. Acho que devemos esquecer todas essas coisas, .
  Ele não respondeu de imediato, abriu e fechou a boca inúmeras vezes, como se procurasse o que falar.
  – Tenho direito de perguntar o por quê? – finalmente algum som saiu de sua boca.
  Não, , você não pode saber porquê. Nem eu sei, ninguém sabe, é algo que fica melhor escondido. De todos.
  – Porque vamos acabar machucados, . Não consegue ver? – choraminguei, eu queria segurar as lágrimas e parecer forte, mas não conseguiria por muito tempo. Eu não podia fazer isso com ele, não com a única pessoa que foi capaz de me entender – Por favor, , não seja cego em relação a nós, não como você é em relação a mim. Não finja que as coisas passam despercebidas pelo seu olhar, porque elas não passam. Eu vou acabar te machucando, sabe por quê? Porque eu sou uma idiota, eu não sei lidar com as pessoas, principalmente aquelas que se importam comigo.
  – Claro que eu vou te machucar, claro que você vai me machucar, é claro que vamos machucar uns aos outros. Mas está é a própria condição de existência. Para se tornar primavera, significa aceitar o risco do inverno. Para tornar-se presença, significa aceitar o risco da ausência. – sua mão subiu e parou no meu cabelo, infiltrando os dedos nos meus fios e começando a acariciá-los.
  – Acredite, Bennet, citar O Pequeno Príncipe não vai melhorar nada, quero chorar mais ainda. – murmurei, encaixando a cabeça na curva do seu pescoço.
  – Então por que você não deixa transparecer que sente algo? – perguntou, movendo os dedos sobre minha pele e enxugando minhas lágrimas.
  – Porque eu sinto medo. Medo de te perder, e eu não tenho esse direito, você não é meu, nem deve ser.
  – Você não tem medo de me perder, você tem medo de perder a si mesma e não querer se encontrar. – seus lábios encostaram em minha testa e suas mãos desceram para meu braço.
  O silencio só não era mantido por nossas respirações. Seus dedos, de vez em quando, puxavam alguns pelos de meu braço e faziam carinho logo depois.
  – Quando eu deixei você se apaixonar por mim?
  – Aí que você se engana, amor. – falou firme, apertando seus braços ao redor de meu corpo – Eu me apaixonei por você desde a primeira vez que te vi.
  – Da próxima vez que uma garota quiser se aproximar de você, vou mandá-la gritar com toda raiva possível.
  – À lá Dawson. – soltei uma gargalhada abafada pelas lágrimas e contornei sua barriga com os braços – É tão difícil sentir o mesmo? Ou o problema sou eu?
  – O problema sou eu. – falei pesadamente, suspirei forte e senti mais lágrimas escorrerem pelo meu rosto – Com tantas pessoas certas, você se apaixonou logo pela errada.
  – Depois o cego sou eu. – dessa vez foi que mudou minha posição, me pondo de costas para ele e com seus braços ao redor de minha cintura. Apoiou o queixo no meu ombro mais uma vez e subiu uma de suas mãos até o meu queixo, o virando apenas o bastante para que sua boca tocasse a minha. Depois de vários toques seguidos, não ousei abrir a minha boca e iniciar um beijo de verdade, apenas pressionei a sua com um pouco mais de força e senti o sorriso de abrir sobre meus lábios. Beijei seu lábio inferior e o prendi levemente entre os dentes, soltando segundos depois e me afastando em seguida. Encostei a cabeça mais uma vez no travesseiro, me permitindo fechar os olhos, e senti os lábios de pressionarem a pele de meu pescoço apenas para causar um último arrepio.
  – Vá pensando no que vamos falar para meus pais amanhã.
  – Tenho medo de dormir sozinho. – o som baixo estava bem ao lado de minha orelha, entre meus cabelos.
  – Vá à merda, .
  – Você vai comigo?
  – Se você calar a boca e me deixar dormir, sim.
  – Tudo bem. – tocou meu pescoço com a boca mais uma vez e ajeitou sua posição na cama, fazendo questão de apertar ainda mais o abraço – Boa noite, .
  – Boa noite, Bennet.
  – Eu te amo.
  – Eu também.

21 - Um infinito

Dezembro
  Passei o olho pelo quarto mais uma vez, só para conferir se tudo estava em seu devido lugar... Guarda-roupa arrumado, banheiro limpo, cheiro de desinfetante no ar e bagunça debaixo da cama – bem escondida. É, esse era um castigo merecido.
  Eu estava de castigo até o dia do resultado final, não podia pegar meu notebook, não podia ver televisão após as dez da noite, não podia sair de casa nem no sábado e não podia ver e . E, para piorar minha situação, meus pais proibiram que a empregada arrumasse meu quarto. Melhor que isso só se eles não deixassem eu ficar com meu celular.
  O incidente do quarto de hóspedes foi esquecido e abafado, já que Sammy abriu a porta e ficou de olhos arregalados e parada. Quando perguntaram o que estava acontecendo, ela apenas disse: “Acho que esqueci meu suéter na casa da tia.” O problema era: estamos no verão. Mas pelo visto só eu percebi isso. O que também não podia ser comentado, porque, relembrando meu histórico, eu sou a garota que vai de casaco pro colégio em fevereiro, que é tão verão quanto dezembro... Mas esse não é o caso.
  Minha mãe não viu , muito menos meu pai. Eles chegaram em casa cansados o bastante para subirem pro quarto e fazerem a cama velha ranger com o único pulo que foi dado para os dois caírem nela e desmaiarem.
  Samantha me pediu um milhão de explicações pela cena, então eu contei a maioria das coisa pra ela – omitindo o sexo, porque minha irmã mais nova não precisa saber que eu sou um péssimo exemplo – e ela até que entendeu bem. Prometeu segredo e ainda teve a cara dura de dar risada e falar que o resto de aborto era capaz de guardar segredos muito bem.
  Segredos... Eram as coisas das quais eu mais queria distância. Minha última experiência com eles não foi nada agradável. Você está num belo dia achando que a mentira de sua vida foi descobrir que seu melhor amigo de 15 anos era quase um dependente químico quando descobre que o seu casinho e sua melhor amiga são ex-namorados e que um culpa o outro pela falta de estudos no ano anterior. Ah, e pra completar, você descobre que foi colocada numa classe não por causa de sua falta de sorte num sorteio, mas porque a diretora do seu colégio acha que o mundo é um filme onde as coisas acontecem de acordo com o que queremos...
  Ah, onde eu estava mesmo? Desinfetante...
  Algumas notas conhecidas chamaram minha atenção, e eu percebi que a ordem aleatória de musicas tinha caído em Wake Me Up When September Ends. Que inferno, essa música não. Apertei para a próxima música e, para minha alegria, começa Secret, de The Pierces. Ah, foda-se o aleatório. Fui varrendo os olhos pela lista de músicas até achar Show me How You Burlesque. Abri um grande sorriso e joguei o celular de lado, trancando a porta do quarto ao levantar e cantando alegremente com a vassoura que eu tinha usado para esconder as coisas debaixo da cama.
  Antes que eu pudesse desafinar nas notas mais altas, a música foi substituída por Just One Yesterday, mas eu não tinha mudado. Oi? Meu celular estava prestes a dar adeus? Não. A foto de dando dedo para mim ao lado de um extremamente sorridente estava piscando na tela. Ela estava me ligando.
  Peguei o celular e atendi antes que desligasse.
  – Oi, – falei sem emoção, ela tinha acabado de interromper meu show.
  – Por que essa voz? – ela riu e eu sabia que ela estava deitada na sua cama, de barriga pra baixo e com os pés balançando.
  – Eu ia receber um sim de Simon Cowell. Precisava apenas de minhas notas finais na música e você estragou minha audição. – me permiti rir baixo enquanto largava a vassoura e voltava a cama.
  – Você vai dormir aqui em casa hoje. – ela anunciou, com uma voz que era a mistura perfeita de felicidade e malícia.
  – , eu não posso sair de casa pra ir comprar pão, imagina só pra dormir aí. Meus pais não deixam. Para eles deixarem eu sair, eu teria que matar os dois. – murmurei com os dedos no cabelo.
  ... – ela começou, com um tom de voz diferente.
  – A gente pode conversar por telefone, como fazemos todo santo dia.
  – As pessoas não podem se beijar por telefone. – olhei para o celular só para confirmar que era mesmo Eca, , não estou falando de mim. – ouvi uma risada masculina baixa – Digamos que é um pedido de desculpas bem atrasado e merecido.
  – está ai? – perguntei incrédula.
  – Desde as nove horas da manhã, arrumando o quarto extra para vocês.
  Um flash passou pela minha cabeça e eu entendi tudo. Era um pedido de desculpas duplo, uma segunda chance para mim e para , para as coisas darem certo pelo menos uma vez.
  – Ele te contou? De tudo? – pisquei, dando graças a Deus por não precisar esconder a vermelhidão do rosto.
  – Ótimo saber das coisas por ele. Mas eu sou a hipócrita, então, sim ele me contou e contou para minha mãe. Ajuda extra. – estremeci, fechando os olhos – Encare isso como uma segunda chance – você leu meus pensamentos.
  – Chego aí em duas horas.
  – Duas horas? gritou do outro lado da linha.
  – Uma pra convencer minha mãe e outra pra me arrumar. Ah, venha me buscar de carro. Não quero chegar aí cheirando a suor e desespero.
  – Você vai demorar uma hora se arrumando? Você vai fazer o quê? Depilação no corpo todo? – gelei. tinha ouvido isso. Que droga. – Ah, vai sim. colocou a mão no alto falante do telefone e disse: – Você não ouviu nada, .
  – Não vou fazer comentários pois eles são maldosos e farão parte do meu humor negro que eu estou tentando esquecer.
  – está se contorcendo no caixão. Você é uma vadia. – me permiti rir.
  – Já fui chamada de coisa pior.
  – Você está perdendo tempo, vadiazinha.
  – Se você não vier me buscar, eu não vou pra porra de lugar nenhum. – a porta do quarto de bateu – O que teve aí?
  – foi buscar a moto do pai em casa, pra te buscar. – agora, sem ali, ela podia ser realmente ela – AMIGA! ESSE GAROTO DÁ A VIDA POR VOCÊ. Que inveja! Não, espera aí... – maldito trocadilho maldoso que me fazia rir – Okay, minha vez de ser vadia. ?
  – Oi, .
  – Faça valer a pena.
   desligou na minha cara e eu comecei a rir. Olhei para o teto e deixei um pequeno sorriso brotar no meu rosto. Peguei meu celular e chequei as horas, eu tinha perdido 15 minutos com isso.
  – MÃE! – gritei, dando um pulo da cama para a porta, tão rápido que nem tive tempo de me embolar com a chave.
  – Oi, ! – sua voz veio do primeiro andar, mais precisamente da cozinha.
  – Quando eu fiz depilação a cera? – perguntei em meio a um grito, procurando o creme de depilação.
  – Você fez tudo domingo, por quê?
  – NADA! – joguei o creme de volta no guarda-roupa e corri para o banheiro, tomando um banho rápido mas com limpeza extra em alguns lugares especiais.
  Procurei alguma roupa íntima que me deixasse mais adulta e, depois de alguns minutos, peguei ambos pretos com bolinhas brancas. Quanta maturidade. Vesti os dois e parei em frente ao espelho, encarando minha barriga.
  – , você tá bem? – a voz de minha mãe veio da porta do quarto.
  – Mama, eu to gorda? – perguntei, apertando a carne em minha barriga.
  – Você tá a maior gostosa, pirralha. – ela veio até mim e passou os braços em meus ombros – Por quê?
  Levantei a cabeça, me deparando com os olhos verdes de minha mãe, que pareciam um escudo para todas as coisas ruins do mundo.
  – Precisamos conversar. – o tom de minha voz saiu sério. Me desvencilhei de seus braços e fui até a porta, trancando-a – Meu pai está em casa? – ela negou, sem entender – É sobre .
  – Vocês terminaram? – neguei com a cabeça, rindo baixo. Parte de mim queria falar que nós não namorávamos para podermos terminar, mas talvez aquele não fosse o momento certo para aquilo.
  – Não é nada disso, mãe. – suspirei, sentando na cama e inalando toda quantidade de ar possível – É um pouco além.
  – Se você continuar com esses enigmas insuportáveis, eu vou dar uns bons gritos – ela falou irritada, e seu tom de voz demonstrava que ela já estava sem um pingo de paciência.
  – Bem... No dia do resultado, eu não fiquei em casa, como o papai mandou – ela estreitou os olhos e sua boca ficou numa linha séria – Mãe, eu já me sinto muito mal por isso, não precisa fazer essa cara de quem vai me matar. – ela revirou os olhos e cruzou os braços debaixo dos seios – Eu fiz uma merda. Peguei uma bebida do papai e tomei algumas doses dela, o bastante para me deixar um pouco tonta. Lembro de sair de casa e ir pra casa do . Ele estava mal pelos pais dele, que tinham saído de casa também porque ele estava na recuperação de matemática, como eu. Fomos conversar e começamos a nos beijar até que eu apaguei. – os olhos dela se arregalaram até a ultima parte, aonde ela colocou a mão na testa e suspirou aliviada – Sabe quando você faz uma coisa e sua mente bloqueia ela? Faz de tudo para você não lembrar?
  – Sim. – foi a única palavra que saiu de sua boca e isso me matou.
  – Eu acordei na cama de , abraçada com ele e de calcinha e sutiã. Por um momento eu achei que ele tinha feito alguma coisa comigo enquanto eu estava desmaiada, que ele tinha se aproveitado de mim – não ousei olhar em seus olhos, passei as mãos no cabelo e fitei o chão – Mas a verdade é que...
  – Você não tinha desmaiado. – concluiu, pegando uma das minhas mãos e fazendo um carinho com o dedo na palma. Neguei com a cabeça, engolindo em seco – Você está grávida?
  – Não. – falei num tom calmo, parte de mim estava ofendida e a outra parte entendia o lado materno e preocupado de minha mãe.
  – Com o que está preocupada? – pressionei os lábios uns nos outros e fechei os olhos. Eu podia estar sendo a rainha do drama, mas aquele assunto era um pouco delicado para mim. Abri os olhos e forcei um sorriso na direção de minha mãe, que entendeu de imediato – Foi sua primeira vez.
  – A minha e a de .
  – Puta merda. – soltei uma gargalhada alta com a reação dela.
  – foi até e pediu a ajuda dela. Eles arrumaram o quarto extra da casa dela para nós dois e eles só me avisaram agora e... Eu quero sua permissão. Se a senhora não deixar, eu vou entender e vou fugir de casa de madrugada, escondida é claro.
  Foi a vez de minha mãe rir.
  – Nada de ficar grávida ou de contar para qualquer pessoa que você conheça, a não ser, claro, aqueles que já sabem. – dei um gritinho alterado e pulei em cima de minha mãe, agarrando seu pescoço – SÓ PORQUE É , SE FOSSE OUTRO MENINO EU NÃO DEIXAVA!
  – Vou passar o recado – pisquei para ela, correndo até meu guarda-roupa e separando uma muda de roupa qualquer para voltar amanhã para casa. Avistei uma calça jeans preta e uma regata branca, que segundos depois estavam em meu corpo. Enfiei um moletom rosa, que era para me prevenir do frio miserável que fazia todas as noites (inclusive no verão) e corri para o banheiro, escovando os dentes mais uma vez – Como estou? – perguntei a minha mãe, que ainda estava parada na minha cama, rindo escandalosamente de minha pressa.
  – Desesperada pra encontrar . Olha que o mais importante você já fez, imagina só se realmente fosse a primeira vez de vocês dois hoje. – lancei um olhar emburrado para ela, que apenas riu e me puxou para cama – Você parece nervosa – murmurou, sentando na cama.
  – Preciso ouvir alguma música. – sussurrei, roçando uma mão na outra.
  – Fucked My Way Up to the Top? – ela arqueou uma sobrancelha e sorriu, maliciosa.
  – Antes eu do que seu pai.
  – NEM COGITE ISSO! – gritei, sentindo o desespero atravessar minha voz.
  – Eu estava brincando, . Não precisa ficar assim. – suas mãos chegaram ao meu cabelo e ela começou a fazer carinho – Você está muito tensa.
  – E se... E se eu fizer merda?
  – Você não vai fazer merda. O que você e sentem não é novidade para ninguém. É amor, no mais puro sentido. – neguei, não aceitando – Seu problema foi amar rápido demais. Cedo demais. E quer saber? As pessoas julgam, fingindo que elas nunca passaram por isso. A maioria é arrependida por ter feito merda e não ter aproveitado o amor adolescente que tiveram por alguns anos. – ela suspirou e tirou uma mecha da frente do rosto, pondo atrás da orelha – Não estou mandando você casar com , talvez ele seja a pessoa certa, talvez não. Mas você só vai saber dando uma chance a ele e, principalmente, dando uma chance a si mesma.
  Respirei profundamente, absorvendo todas aquelas palavras. Respirei mais umas quatro vezes antes de proferir alguma palavra.
  – É possível? Amar apenas uma pessoa pro resto da vida? – perguntei, sentindo todos os órgãos de meu corpo tremerem. Talvez eu não quisesse aquela resposta.
  – Posso te contar um segredo? – assenti com a cabeça – Quando eu tinha 14 anos, me bati com um menino numa festa. Ele era novo na cidade e tudo mais, e era interessante para todas as meninas que estavam lá. Eu, como uma boa besta, fui dar boas vindas para ele. Coitado, estava com meninas da cabeça aos pés, revirando os olhos uma vez ou outra e sorrindo de modo falso para todas aquelas vadias. Quando vi todas aquelas meninas, perdi a coragem e saí de perto. O que realmente chamou minha atenção foi uma voz desconhecida chamando meu nome. Era ele. Nem me importei em saber como ele tinha descoberto o meu nome. O menino novo, ele largou todas as outras meninas e veio falar comigo. – pude ver um brilho nos seus olhos e o tom de adoração de sua voz. Aquela história não era contada muitas vezes, pelo visto, porque provavelmente meu pai não gostaria de ouvir como minha mãe conheceu seu primeiro amor.
  – E aí? – perguntei quando percebi que minha mãe não ia falar mais nada.
  – Nos apaixonamos. – respondeu, com toda certeza aquela não era a história favorita do meu pai.
  – E depois você se apaixonou pelo papai? – ela soltou uma risada nasalada – Como vocês terminaram?
  – Não terminamos. – arregalei os olhos e me dei conta da história que estava bem na minha frente – Meu segredo é esse. E ele responde sua pergunta, eu acho. Sim, é possível amar apenas uma pessoa pelo resto da vida. Eu estou com seu pai há 26 anos e todo dia dou um jeito de me apaixonar por ele.
  – E como você faz isso? Ama ele todo santo dia?
  – Eu o amo. Como se não houvesse mais nenhuma pessoa no mundo. Como se todo o amor que deveria ser dividido fosse apenas para ele. O amo o equivalente a todas pessoas desse país – dei uma gargalhada rápida e sentei em seu colo, abraçando-a como se ela fosse embora e nunca mais voltasse – Alguns anos atrás eu aprendi a dividir esse amor por ele, com três pirralhas chatas. – ela bagunçou meu cabelo – Obrigada por me contar, eu fico feliz em participar disso. – assenti com a cabeça, ainda pendurada em seu pescoço, a apertando com um abraço de urso.
  – Você está muito filosófica hoje. Me matando de orgulho!
  – Vai à merda, pirralha. – ela levantou e, quando eu ia cair, me segurou e começou a fazer cócegas em minha barriga, segundos depois foi interrompida por um grito conhecido – Ele veio te buscar? Vocês são tão fofinhos.
  – Mãe. – a censurei, mandando o olhar mais envergonhado e enraivado possível . Pensei em segurar minha mãe, mas quando vi, ela já estava correndo em direção a varanda de minha casa – NEM OUSE!
  – Ufa! – ela passou a mão na testa e respirou aliviada – Eu já estava imaginando coisas.
  – Imaginando coisas? – franzi o cenho ao perguntar, parando na porta da varanda. Mais alguns passos e me veria, coisa que eu não estava pronta. Não agora. Talvez dois minutos mais tarde.
  – Ouvi o barulho de uma moto. Aí eu imaginei “Ele dirige uma moto?” e fiquei um pouco preocupada. Depois pensei que moto ele dirigia, aí me veio “Será que ele dirige uma Harley Davidson?”, então eu vim ver que moto ele dirigia. Se fosse uma Harley, com toda certeza eu não deixaria você ir com ele e mandaria você voltar pro seu castigo.
  – Por que essa crise? – perguntei em meio a uma crise de risos, ela estava mesmo falando isso depois de todo aquele momento fofo?
  – Nunca namore um cara que dirija uma Harley! NUNCA! Ouviu, Dawson? – assenti ainda rindo, ela estava falando sério? Continuei a encará-la como quem está vendo Damon Salvatore brincando de amarelinha – Pare de me olhar assim, eu leio seus livros, menina! – recebi um tapa fraco no ombro e percebi que era hora de descer. Hora de encarar .
  Caminhei em passos rápidos até chegar ao portão, onde senti minha mão vacilar e começar a tremer bem forte. Sério, ? Seja menos patética.
  – A luz atrás de você está ligada, . Eu consigo ver sua sombra. – sua voz estava controlada e baixa, então, imaginei que ele estava tão patético quanto eu.
  – Droga, isso significa que eu não posso sair correndo e me trancar no quarto. – ouvi a risada dele, o que era bom; ele estava rindo de minha piada. Mas não era bem uma piada, era o que eu queria fazer de verdade.
  Puxei o trinco do portão e o trouxe para dentro, encarando um que, com toda certeza, me faria corar. Não que eu estivesse na pele de menina boba que cora ao ver o casinho, mas ele... Seu cabelo estava bagunçado por causa do vento, ele vestia uma jaqueta preta por cima da camisa branca. Seus olhos estavam diferentes, pareciam ter algo a mais nele. Irradiavam algum sentimento que eu não conseguia decifrar, mas seu sorriso... Era simples, satisfeito e feliz. Como se na sua frente estivesse tudo aquilo que ele precisava. E talvez estivesse – não seja pretenciosa, .
  – Como você convenceu sua mãe? – sua voz saiu baixa e eu segui seus olhos, minha mãe estava na porta de casa, com um sorriso bobo nos lábios. Ele acenou rápido e ela retribuiu o gesto.
  – Contei tudo para ela. – ele fez uma cara de desespero e depois respirou profundamente – Ela não fez enxame, encarou de boa e disse que, se você estivesse numa Harley, eu deveria voltar para meu castigo.
  – Já comentei que adoro sua mãe? – ele se aproximou, finalmente passando os braços por cima de meus ombros e apertando. Fiquei na ponta dos pés e depositei um selinho em seus lábios. Enquanto eu estivesse na vistoria de minha mãe, não ia fazer mais do que aquilo. Ainda me envergonhava.
  Minha mão foi puxada para ele e senti um aperto nela. Acenei de relance para minha mãe e fechei o portão atrás de mim.
  – Vamos direto pra casa? – perguntei baixo.
  – A gente pode dar uma volta agora. Ou não. O que você quer? – suas mãos chegaram aos meus cabelos e eu senti meu rosto formigar – Você tímida é uma coisa fofa. É algo que eu verei muito? – neguei, rindo.
  – Quero dar uma volta. A gente pode conversar um pouco pra essa vergonha ir embora.
  – Não! – ele protestou em meio a uma risada – Eu gosto dessa timidez!
  – Vamos embora antes que eu volte para meu quarto! – rosnei, torcendo o bico para ele, que apenas abafava uma gargalhada. Dei um tapa em seu braço e ele levantou os braços, como quem é inocente – Vem cá. – o puxei, abraçando seu corpo.
  – Você acha que as coisas podem melhorar a partir de hoje? Que elas podem ficar realmente bem? – sua voz soou baixa e calma, sinal de que ele estava realmente preocupado com aquilo.
  – Acho que elas já melhoraram. – ele beijou o topo de minha cabeça e me puxou em direção a moto. Sentei atrás dele, encaixando meus braços em sua barriga – Não tem capacete? – ele negou, com um sorriso malicioso no rosto – Não conte isso para minha mãe.

  

A moto agora estava bem longe de casa. Eu sentia meus cabelos serem bagunçados, e não dava a mínima para isso. O perfume dele estava todo em meu nariz, eu não sabia se era o vento ou se era minha cara enfiada em suas roupas. Mas ele era tão... Ele. Eu podia ser todas as coisas ruins do mundo, mesmo assim ele me amava. Voltei a quando e terminaram, eu disse para ela que Drummer havia se apaixonado por ela por ser única, mas por que se apaixonou por mim? Eu não sou única. Não sou a pessoa mais maravilhosa do universo. Eu sou apenas Dawson. E, bem, ele era meu Bennet. Apenas meu, e hoje eu tinha certeza absoluta disso.
  A moto parou antes que eu percebesse, e , num movimento rápido, ficou de frente para mim. Eu conhecia aquele lugar, era a pracinha onde eu brincava quando era mais nova. Estava vazia, mesmo assim alguns pais passeavam com seus filhos e duas meninas conversavam num banco próximo. se aproximou de mim, passando os braços em minha cintura. Suas mãos rapidamente me puxaram para seu colo pela minha bunda, discreta e secretamente. Ninguém precisava ver aquela quase falta de respeito em público.
  – Vamos tomar sorvete? – ele perguntou, passando a ponta do nariz perto de minha orelha.
  – Vamos. – respondi baixo, roubando um beijo dele, que sorriu com o ato. Não era uma coisa que se via todo dia; roubar beijos estava se tornando mais raro a cada dia. E eu tinha feito isso. Droga. Eu deveria esperar ele roubar um beijo meu.
  Pulei da moto e esperei por , que guardava a chave no bolso da jaqueta e carregava minha mochila nas costas. Ele estendeu a mão para mim e eu a segurei, sentindo a segurança que ele transmitia com aquele toque.
  Paramos em frente a sorveteria da praça, onde um casal de idosos conversavam enquanto tomavam um grande milk shake. Sentei numa cadeira do lado de fora do local e procurei , que tinha sumido do meu encalço. Ele estava falando com o atendente, tinha saído e eu nem percebi. Tentei focar os pensamentos na noite que começava a aparecer, nas estrelas que pareciam pontos anexados ao céu ou no casal que parecia mais feliz que nunca perto de mim. Graças a Deus, minutos depois apareceu com duas casquinhas, ambas de chocolate, e um sorriso bobo no rosto.
  – Como sabe que eu ia pedir de chocolate? – perguntei, pegando o sorvete que ele estendia na minha direção.
  – Você só come chocolate, seria muita sacanagem se seu sorvete favorito fosse de morango, não acha? E eu sei que você ama sorvete de chocolate.
  – O que mais sabe sobre mim? – peguei a pázinha e tirei um pouco do sorvete, colocando na boca com o maior gosto.
  – Hm... – ele fez uma cara de pensativo – Muitas coisas.
  – Pode ir falando, eu quero ouvir. – o incentivei, rindo da careta que recebi como resposta.
  – Você tem uma queda por ruivos e...
  – Eu te contei isso. – o interrompi, rindo de mais uma careta que ele fazia.
  – E por garotos de cabelo comprido. – segurei o sorriso enquanto ele falava – Isso me deixou bem arrependido por ter cortado o meu. Continuando... Sua cor preferida é roxa, e seu livro preferido é Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Seu personagem favorito é o Cedric, por mais que você sempre fale que é o Sirius. Quando você assistiu as duas mortes pela primeira vez, chorou que nem uma bebê. Mas você chorou mais quando viu Dobby morrer. Você sempre fala que odeia Crepúsculo, mas tem todos os livros. Você não chorou lendo A Culpa é das Estrelas, mas chorou quando Aslan morreu. Você sempre assiste A Melhor Festa do Ano só para ver o Jesse. Você enterrou seu primeiro hamster no quintal de sua casa e o nome dele era Freddy. Você não tem medo de filme de terror, mas mesmo assim odeia assistir Atividade Paranormal. Você vomitou depois do seu primeiro beijo. Você não gosta de dormir de sutiã porque dá estrias. Você tem vontade de pintar o cabelo todo de preto, mas não acha que vai ficar bonito. Quando você estava na cama comigo, me deu uma mordida bem forte no ombro, que não tinha marca até uma semana depois, onde ficou roxo, mas você não lembra. Você beija muito bem, melhor do que eu imaginava. Posso também te falar de coisas sobre você que você não sabe. – eu já estava mordiscando a casquinha do sorvete quando ele respirou profundamente e continuou – O som de sua risada é maravilhoso. Quando você sorri, aparece uma covinha apenas de um lado do seu rosto. Tem vezes que seu rosto fica escondido pelo seu cabelo e você faz uma careta muito fofa. Eu amo que você não tenha mais de 1,60cm, porque você fica na ponta dos pés quando vai me beijar. Quando eu falo, você fica me olhando com uma cara interessada. Quando você fica com vergonha, seu rosto todo fica vermelho. Você tem uma bolinha engraçada na ponta do nariz e não sabe o quanto eu adoro morde-la. Eu amo seu nome, seu cheiro, suas mordidas, seus beijos, o jeito que você pronuncia meu nome, o seu olhar tímido, sua bunda, seu jeito protetor, sua voz quando você está com raiva... E acima de todas essas coisas, eu amo você. – passei a língua pelos lábios e fechei os olhos, sentindo as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Abaixei a cabeça e chorei em cima de meus braços, deixando um confuso e preocupado olhando em minha direção.
  – Nem em mil vidas eu vou te merecer. – sussurrei, sentindo os dedos de limparem minhas lágrimas. – Que droga, . Eu queria dizer que estava apaixonada por você, daí você vem e fala essas coisas. Eu estava planejando falar algumas coisas bobas, aí vem você e fala tudo isso. Parece tão bobo o que eu ia falar, e você não merece que eu faça isso com você, você merece coisa boa, muito melhor que eu e...
  – Shh... – ele arrastou a cadeira até ficar ao meu lado, seus dedos calaram minha boca e eu vi que ele tinha jogado seu sorvete fora – Tudo o que eu mereço e tudo que eu quero está bem na minha frente. Você tem defeitos, e daí? Todo mundo tem. Se você não está pronta para dizer certas palavras, eu espero o tempo que precisar. , você precisa entender que eu não estou aqui porque eu quero transar com você. Eu estou aqui porque eu quero que você seja feliz e que me deixe fazer parte dessa felicidade.
  – Você me ama? – perguntei baixinho e ele assentiu com a cabeça, rindo – Fala isso em voz alta.
  – Eu. Amo. Você. . Dawson. – sua voz saiu baixa e quando ele se aproximou de mim, enfiei meu sorvete em seu nariz e saí correndo em direção a moto, deixando um melado de chocolate e sendo motivo de risada das pessoas presentes. Mordi mais uma vez a casquinha do sorvete, jogando-o de lado, caso quisesse usá-lo contra mim. Quando virei em sua direção, ele já estava há poucos metros, e antes que eu pudesse correr mais uma vez, meu corpo foi jogado para cima e eu senti me girar trezentos e sessenta graus.
  Ele passou o nariz melado em meu rosto e riu, pressionando os lábios contra os meus. Fechei as pernas ao redor de sua cintura e apertei os braços em seu pescoço, abrindo a boca para receber um beijo de .
  O gosto de chocolate estava forte, e meu corpo se arrepiava mais a cada segundo. Eu sentia meu coração palpitar ainda mais a cada segundo que o beijava, e parecia gostar ainda mais com o tempo. O beijo parecia ficar mais lento, mais gostoso, mais convidativo e mais apaixonante. E eles estavam lá, os sentimentos escondidos por cadeados. As coisas que eu nem sabia que podia sentir.
  Quando separei minha boca da dele, senti parte do meu coração pesar. Eu poderia ficar daquele jeito a noite inteira, mas no final das contas, eu realmente ficaria.
  – Vamos para casa. – murmurei, com a boca ainda próxima da sua.
  – Vamos. – num segundo estávamos na praça, no outro já estávamos na moto, a caminho da casa de .
  Quando chegamos ao local, o portão estava encostado e havia um bilhete preso ao vidro da janela da sala. Cheguei perto e reconheci a letra de

Meus pais disseram que a vovó queria nos ver. Mentira, eles estão com vergonha de passar a noite com o casal maravilha trepando no quarto de hóspedes. Minha irmã veio com a gente, então não se preocupem. Voltamos de madrugada, ou sei lá que horas. , não morda o novamente. , não engravide minha amiga. Amo vocês dois.
Kisses, xx <3
  – Não engravide minha amiga? – o tom de parecia indignado e engraçado ao mesmo tempo – Ela comprou umas quinhentas camisinhas e ainda comprou anticoncepcional para você e fala isso?
  – Não enche, Lu. Ela fala isso por bem. É, hm. Vamos entrar logo. – falei com certa impaciência. Segurei sua mão e saí puxando-o pela casa; eu conhecia a casa de e sabia muito bem onde ficava o quarto de hóspedes.
   parou alguns passos atrás de mim. Ele me olhava atento, como se quisesse saber minha opinião para algo. Não entendi seu olhar e abri a porta do quarto, me deparando com uma coisa que fez todo meu corpo tremer.
  Havia três velas ao todo, uma na ponta do quarto, outra em cima da cômoda e outra perto da cama, que agora estava no canto do quarto. Minha aversão a velas aromáticas foi esquecida no momento em que entrei no quarto. Havia alguns jarros com algum líquido vermelho que eu não sabia o nome e flores de diversos tipos dentro deles. O teto estava com algumas estrelas fluorescentes presas a ele, pareciam brilhar mais que nunca.
  O quarto estava impecável, com mais coisas que eu nem me dei o trabalho de olhar. Apenas abri um sorriso de orelha a orelha e esperei vir até mim. Quando ele o fez, suas mãos passeavam pela pele que estava escondida debaixo do moletom e da blusa regata. Ele fechou a porta com o pé e puxou meu moletom, quebrando o contato que nossos olhos faziam.
  Tirei sua jaqueta, passando os dedos nos contornos que eu sabia que existiam em sua barriga. Soltei meus sapatos para longe de mim e tentei não tremer ao sentir mais uma vez o contato gelado da mão de em minha pele. Virei de costas para ele e fechei os olhos ao sentir o hálito quente dele em minha nuca. Ele pressionou sua pélvis contra meu corpo e eu virei, agarrando seu pescoço com os dedos e fazendo todo esforço para ficar do seu tamanho.
  Entendendo meu recado, sua mão me puxou pela bunda e eu estava em seu colo mais uma vez. O beijo não era diferente do que estava acontecendo minutos atrás. Eu percebi qual era intenção de por trás daquilo. Ele não queria que eu tivesse uma noite qualquer de sexo, ele queria que eu tivesse minha primeira vez.
  Ele começou a caminhar em direção a cama, dobrando os joelhos e encostando meu corpo no colchão macio. Seus dedos puxaram minha blusa para cima e eu fiz o mesmo com a dele, as duas ganhando o mesmo rumo. Suas mãos passeavam em minhas coxas, e eu fazia questão de apertar suas costas. Ele lambeu minha boca e começou a desabotoar minha calça, fazendo a mesma coisa com a sua logo depois.
  Minutos mais tarde, nenhuma roupa estava como barreira entre nós dois, aquilo era tudo que havia.
  Quando se afastou, ouvi o barulho de algo rasgando, e depois ele ficou por cima de mim novamente, passando os dedos sobre meu rosto e beijando meus lábios.
  – Se eu te machucar, você me avisa, ok? – assenti com a cabeça, fechando os olhos e sentindo os lábios dele acariciarem a pele do meu pescoço.
  O turbilhão de sentimentos me acompanhava, eu senti cada pedaço de tudo, e tudo parecia me sentir. Era uma coisa estranha e, ao mesmo tempo, maravilhosa. O som da respiração ofegante de , os suspiros baixos que eu deixava escapar, os estalos dos beijos que ele deixava em minha pele e em meus lábios.
  Eu era consumida pela luxúria do momento. Não me importava se iria ou não gozar, se ia ou não ter um orgasmo. Eu me importava apenas com o jeito como ele me tinha e como eu era dele.
  Ele forçou um pouco mais e eu senti uma pontada de dor, mas algo que não importava. A sensação de formigamento na boca do meu estômago fazia todas aquelas coisas valerem a pena.
  Puxei a cabeça de para mais perto da minha e colei nossas bocas, começando um beijo calmo e doce. Ele estava um pouco suado e eu também, mas aquilo parecia deixar o momento ainda mais mágico. Separei nossos lábios e desci até seu pescoço, sentindo o cheiro do seu perfume misturado com aquele aroma doce que impregnava o ar.
  Suas mãos apertaram a curva da minha cintura e desceram até a base das minhas costas, puxando meu corpo mais para cima. Senti minha barriga contrair com o toque de sua pele na minha, e puxei o corpo um pouco para baixo, fazendo nossas barrigas deslizarem uma na outra.
  Minhas costas tocaram novamente a superfície macia da cama, e os dedos de passeavam pelas minhas coxas, acariciando e apertando algumas vezes. Ele afastou um pouco minhas pernas, e eu fechei os joelhos nas laterais dos seus quadris, sentindo o movimento do seu corpo aumentar.
  Abri minha boca e deixei um gemido baixo escapar, tombei a cabeça para o lado e apertei o lençol fino da cama entre os dedos. Levei uma das mãos até seu cabelo e o acariciei, segurando a vontade estranha que eu estava sentindo de puxá-los.
  Senti que poderia ficar daquele jeito por dias, até que a sensação atrás do meu umbigo foi ficando cada vez mais forte. Apertei meus lábios e sentia o frio na barriga aumentar de acordo com a velocidade de .
  Não muito mais tarde, eu deixei um último suspiro escapar de minha boca e ouvi fazer o mesmo, segundos depois. Fechei os olhos, absorvendo todas aquelas sensações, e fechei as pernas e os braços no corpo de .
  Eu não sei quanto tempo passou, mas agora estava ao meu lado, com a cabeça enfiada nos meus cabelos. Sua respiração parecia mais ofegante, e eu sentia como se estivesse completa, como se, num passe de mágica, tudo estivesse seguindo seu eixo certo.
  Soltei uma pesada respiração e passei os dedos em seu cabelo, vendo que aos poucos sua respiração ficava mais calma e fraca, e torci por dentro para que ele não fosse dormir, não agora.
  – ? – o chamei baixinho, com medo que se falasse alto demais fosse o acordar.
  – Oi? – seus olhos levantaram até os meus e, mais uma vez, alguma coisa estava formigando no meu estômago.
  – Eu fui bem? – perguntei em meio a um pequeno sorriso.
  Ele riu abafadamente, mexeu a cabeça e o corpo até ficar com o rosto alinhado ao meu. Seu hálito estava quente, e eu sentia o gosto de sua boca só de encará-la por mais de dois segundos.
  – A questão é, eu fui bem? – puxei o lençol da cama até minha cintura e fiquei de costas para ele, sabendo que ele iria me abraçar por trás.
  – Não sei como responder isso. – comentei um pouco envergonhada. Os dentes de estavam brincando com o lóbulo de minha orelha, enquanto que eu prendia um suspiro que estava prestes a escapar de minha boca.
  – Ah, vamos lá. Nós dois somos fodas. Foi a melhor “primeira vez” de todo o século! – ele fez aspas com as mãos enquanto falava com tamanha empolgação. Soltei uma gargalhada sentindo seus lábios macios percorrerem minhas costas – Agora pode me contar, como é o sexo do seu ponto de vista?
  – Gostoso. – falei rapidamente, arrancando um sorriso dele.
  – Minha garota é prática. Como isso é bom. Mais o quê? Pode me falar.
  – Doeu um pouquinho numa parte, mas acho que é porque eu ainda não estou acostumada com isso... – deixei a frase no ar, já arrependida por ter comentado isso.
  – ! Você me falava que eu parava.
  – Não importa, . – inclinei o rosto o bastante para beijar a ponta do seu nariz – O que importa é o agora.
  – Claro que importa, eu podia ter te machucado e...
  – E depois podia parar de reclamar. É um pênis e uma vagina. Você quer que eu te explique que os dois foram feitos para se conectarem? Porque eu sou uma ótima professora nesse assunto. – fiz uma cara maliciosa, mesmo sabendo que ele não veria.
  – Ainda tenho que decidir qual das duas eu gosto mais. Da safada ou da envergonhada... O que quer fazer agora? Eu não estou com um pingo de sono, e você?
  – Também não. – dei de ombros – Vamos continuar assim, eu gosto desse calor. Desse cheiro. E...
  – E...? – ele me incentivou.
  – Nada.
  – Se você não me falar, eu vou lamber seu pescoço.
  – Isso é uma ameaça? Por que eu estou muito tentada a não falar.
  – . – meu corpo foi puxado e virado, me fazendo ficar cara a cara com , que parecia achar graça da situação.
  – Euestouapaixonadaporvocê.
  – O quê? – ele levantou a sobrancelha, com um sorriso. É claro que o desgraçado tinha ouvido e entendido o que eu falei – Repete devagar.
  – Eu estou apaixonada por você. E de repente fiquei com sono, vamos dormir? Posso dormir assim mesmo. – passei o braço por cima de sua barriga, dedilhando suas costas.
  – , ... Você é complicada demais.
  – Você fala como se não gostasse dessa complicação. – retruquei, revirando os olhos.
  – Eu amo, pra falar a verdade.
  – Vamos dormir logo. – fechei os olhos, apertando mais meu corpo contra o dele. Eu me sentia segura, como se um escudo estivesse me protegendo nesse exato momento. Cada célula minha gritava de felicidade, de animação e ansiedade por passar a noite assim.
  Sua boca que ainda estava inquieta, desceu até minha orelha e sussurrou num tom baixo e sexy as seguintes palavras:
  – Tenha sonhos eróticos comigo.
  Não respondi, apenas assenti com a cabeça, me segurando para não dar risada. Eu tinha acabado de fazer amor com ele. Estava com o corpo colado ao dele, sem nenhuma roupa e, ainda por cima, sentia cada centímetro de sua pele pressionada contra a minha. Minhas pernas estavam entrelaçadas por dentro das dele, e a única coisa que nos cobria era um fino lençol.
  Com toda certeza eu teria sonhos eróticos com ele.

22 - Caminhos Tortos

Dezembro
  

Não era assim que as coisas funcionavam.
  Ou era?
  Não importa.
  Em menos de um mês, eu estava parada no mesmo lugar, batendo a ponta das unhas na mesma mesa no mesmo colégio. Mas a diferença era que estava comigo. Não, essa não era a diferença. Semanas atrás eu queria do fundo do meu coração que ele estivesse aqui para me acalmar enquanto minha mãe iria buscar o resultado do que eu pensava ser o juízo final, pobre de mim que nem imaginava que aquele era somente meu bilhete de ida ao inferno.
  Mas eu não estava sozinha nesse inferno, nunca estive. Ele estava comigo, e se ele estivesse todas as outras vezes, eu poderia queimar no inferno e fazer das chamas uma velha amiga.
  Hoje, com ele ao meu lado, não é tão calmo assim, ele não pode me acalmar por enquanto que estiver no mesmo barco que eu.
  Nós não iriamos para esse inferno, não dessa vez.
  Seu coração tinha uma pulsação rápida e contínua – claro, , corações não param de bater –, mais rápida que as minhas batidas. Se eu me concentrasse muito, poderia fazer ritmos com aquelas batidas. Mas não era muito bom rir da situação dos outros quando se está na mesma.
  Senti uma pontada de dor na minha perna esquerda, abaixei os olhos e vi as pontas dos dedos de beliscando minha pele. Levantei o queixo e vi que ele olhava diretamente para frente, onde se encontrava uma tal velha, gorda, chata e mercenária... E quem seria? Palmas para quem disse: Lúcia.
  – Boa tarde. – ela disse, seu tom de voz azedo e olhando com desdém para minha posição. Eu estava sentada na perna de . Mas pouco me importava. “Alunos que não estiverem no ensino médio não podem manter relações abertas com outros em público.” Regras existem para serem quebradas*, certo? – Quem for pegar os resultados da recuperação, por favor, me acompanhe. – MUITA gente apareceu do nada. Tinha algum buraco naquele colégio ou era impressão minha?
  As coisas foram mais rápidas do que eu esperei; num segundo estava entrando numa grande sala repleta de envelopes com os boletins, já em outro segundo estava com um envelope grande e marrom na mão.
  Minha passagem para o inferno.
   me encarou e, segundos depois, sua face se alargou num sorriso aliviado e realmente feliz. Ele tinha passado.
  – ? – chamou, esperando eu abrir o envelope e poder finalmente respirar.
  Rasguei o papel ao meio, puxando um pequeno e dobrado pedaço branco de outro papel.
  – Paraíso. – sussurrei sentindo minha respiração voltar e meu coração ficar com batimentos normais aos poucos – , paraíso! PARAÍSO! – joguei o papel e comecei a pular alegremente, fazendo cosplay de uma barata segundos depois de ser atacada por uma rajada de detefon.
  – Essa é a sensação de alívio? – suas mãos deslizaram por meu pescoço, fazendo uma espécie de carinho estranho, desesperado e incrivelmente – Meu bem, nós estamos de férias!
  – Férias? – minha voz saia trêmula. De certa forma, eu estava realmente tremendo – Estamos livres desse inferno! – bem, não era realmente livre, dali há um mês tudo voltaria e... Não, , nada de estragar esse momento. Aprecie sua felicidade enquanto ela dura!
  – Você não sabe o quanto eu quero gritar! Sair quebrando tudo, eu quero mostrar minha felicidade! – sua voz soava mais alegre que a minha, será que isso era possível? Alguém estar mais aliviado que eu pelo simples título Aprovada?
  – Mostre! – gritei tão empolgada quanto tal, enfiando meus dedos em seus fios de cabelo e apertando seu corpo contra o meu.
  Suas mãos deslizaram mais uma vez, parando nos meus quadris e apertando seus dedos contra minha pele, meu peso foi jogado para cima e eu senti meus pés saírem do chão. Seu corpo deu uma volta de trezentos e sessenta graus e ele parou. Uma chuva de cabelo loiro foi para frente do meu rosto e prenderam em cabelos pretos. Passei meu polegar em sua bochecha, sentindo um sorriso se formar em meu rosto.
  Seus lábios se chocaram nos meus e eu senti um choque de temperatura, meus lábios estavam gélidos e os seus estavam quentes, macios e... Clássicos.
  Joguei meus braços por cima do seu pescoço e o apertei mais ainda, meu sorriso era tão grande que eu poderia ser comparada a qualquer psicopata de filme. Mas, no meu ponto de vista, só parecia um sorriso infantil e feliz, muito feliz. Eu estava aliviada como nunca estive antes. Agora eu não era mais um motivo de brigas e discórdias. Simplesmente assim. Toda aquela baboseira agora era passado.
  Um passado distante e frio, longínquo e até aterrorizante para quem olha de longe, mas um pouco exagerado para quem o viveu.
  Abaixei a cabeça e sorri contra meu cabelo, apoiada na curva do pescoço de . Soprei o cabelo que estava no meu rosto e vi que varias pessoas me olhavam de um jeito estranho, pessoas que eu conhecia; algumas delas que estudaram o ano inteiro comigo, e outras que eu nunca vi antes. Me olhavam com repugnância, nojo e desprezo. Algumas cochichavam baixo com as mãos na frente, outras tentavam disfarçar o olhar virando o rosto, mas não conseguiam. Por que elas estavam me olhando?
  Arrastei os olhos até uma última pessoa naquela multidão. Cabelos pretos, brilhantes e cortados milimetricamente nos cotovelos. Olhos verdes, tão claros que podiam ser transparentes. Pele bronzeada. Boca vermelha e cheia. Sua blusa era branca e apertada, uma regata simples que marcava sua cintura, fazendo-a ficar mais fina que o comum. Calça jeans preta, que faziam suas finas pernas parecerem gravetos queimados de uma árvore qualquer. Bárbara Bailey, primeira e única.
  Ela sorria disfarçadamente, de um jeito cheio de poder e vitorioso. Mas o que ela tinha feito?
  – Parece que esse é o ex-namorado da Bárbara, e essa é a menina que ameaçou a Bárbara.
  Ameaçou?
  – Essa daí? Você ouviu tudo? Parece que ela disse que se a Bárbara não terminasse com , iria bater na Bárbara! Isso não é um absurdo? Não sei como ele continua com essa psicopata!
  Que parte eu perdi dessa história?
  – , me solta. – pedi e ele levantou a cabeça e apertou os olhos, fitando meu rosto de modo confuso – Por favor, todo mundo está olhando.
  – O que é que tem? – seus braços ficaram mais firmes, ele não queria que eu saísse ou era impressão?
  – Me solta, , não é de você que estão falando. Não é você que está sendo chamado de psicopata ou vadia que ameaça os outros.
  – Mas você não é nenhuma das duas coisas.
  – Exatamente! Agora dá pra me soltar? Daqui a pouco as pessoas vão achar que, além de psicopata, eu sou sua namorada. – meu tom de voz subiu duas oitavas e eu dei um tapa no seu braço, voltando para o chão e afastando seu corpo do meu.
  Seus olhos passavam seriedade e calma, segundos antes de sua boca ficar numa linha fina e rígida e sua postura mudar para... Algo enraivado e extremamente assustador.
  – Oh, que tolo eu fui por achar que você era realmente minha namorada! Meu Deus, como eu pude achar que você consegue ter sentimentos? Como eu pude achar que você consegue amar alguém além de si mesma? Como eu fui tolo por achar que a imagem de vadia era só uma máscara, eu acreditei durante todo esse tempo que essa não era você, que essa não era a que eu amava. Mas hoje você me provou que todo aquele momento de vagabunda era o que se passava por dentro de você!
  – , cala a boca, todo mundo está olhando. Você não percebe que está gritando?
  – Vossa majestade quer que eu pare de gritar também? Pensei que não quisesse que todos olhassem para você por pensarem que você era minha namorada. Mas eles não pensam mais que você é minha namorada, todo mundo sabe que você não passa de uma maldita destruidora de corações.
  – Eu sou a destruidora de corações? Olhe os restos que você deixou daquela vaca que era sua namorada! – gritei, apontando para Bárbara, que me fuzilava com os olhos – Sabe por que eu não quero que pensem que eu sou sua namorada? Porque eu não quero acabar que nem ela! Juntando migalhas de felicidade pela desgraça dos outros! Porque eu não quero acabar cheia de enfeites na cabeça e sendo mal falada por toda a escola!
  – Então por que você não pensou na fama dela enquanto me ajudava a colocar mais um chifre na cabeça da Bárbara? – uma de sua sobrancelhas foi erguida e o canto de sua boca foi repuxado num sorriso – Ah, porque a vadia da história é você, não ela.
  Num instante eu estava encarando , furiosa e sentindo a raiva subir pelas minhas veias. No outro, minha mão acertava o meio de sua face, fazendo minha pele arder como fogo em brasa.
  – Me bata mais uma vez. – quando eu levantei a outra mão, ele segurou meus braços com as mãos, com força que causaria marcas vermelhas em minha pele branca. Meu corpo foi puxado para frente sem pudor e eu senti sua boca parar em minha orelha. Sua respiração estava ofegante, e eu sentia mais uma vez os batimentos acelerados de seu coração – Você sabe que não seria assim, você sabe que eu não faria nada disso com você.
  – Por quê? – sussurrei, sentindo toda raiva indo embora e sendo substituída por uma tristeza que eu achei que não sentiria novamente. Mas eu não posso ficar triste assim, não posso parecer triste, não posso parecer afetada – Por que eu seria diferente? – levantei meus pés e encostei a boca no seu pescoço e depois a arrastei até sua cartilagem da orelha – Por que eu transei com você? Por que eu tirei sua preciosa virgindade? – me soltei de seus braços e dei as costas para ele – Você é um garoto, . Vai levar mais cem para sua cama e nem vai lembrar da idiota que perdeu a virgindade com você.
  – Talvez eu queira lembrar dela. – sua voz soou como um pedido de socorro, como se ele fosse um doente em um estado enfermo – Dessa idiota que você citou. Sabe como eu posso fazer isso?
  – Uma garrafa de whisky serve, na maioria das vezes. Se ela for muito insistente, compre tequila. – me virei, examinando cada pedaço do seu corpo, relembrando de todas as coisas que eu fiz com aquele garoto, de todos os segundos que eu perdi com aquela droga de relação que nunca existiu.
  Sorri sinceramente, não sentindo mais raiva ou ódio. Como se sentimentos negativos estivessem fora de área. Sorri como se aquele sorriso mudasse tudo, acabasse com aquela briga idiota e não ferisse mais ninguém. Sorri como se aquele sorriso fosse algo puro e singelo, sem intenções por trás.
  Fechei os olhos e senti lágrimas aparecerem no meu rosto, virei meu corpo de imediato e comecei a andar em direção à portaria. Ninguém precisava saber que eu estava chorando, ninguém precisava saber que a intenção por trás do sorriso, era o choro.
  – . – a maldita voz me chamou, fazendo meus pés pararem involuntariamente e eu esperar pelo resto da frase – Talvez eu devesse embebedar alguma puta e levá-la para minha cama, para lembrar de você.
  Meus pés voltaram a agir e eu olhei para baixo, brincando com a barra da blusa e jogando o cabelo na frente do rosto, para ninguém ver o quanto ele estava molhado. Eu não era capaz de levantar o rosto, não era capaz de mostrar as pessoas que eu estava chorando. Não era capaz de mostrar que Bennet havia quebrado meu coração em milhões de pedaços.
  Parei na escada e sentei no primeiro degrau, juntando minhas pernas e mexendo nos nós dos meus dedos. Algo encostou no meu corpo e um calor fez meus pelos ficarem arrepiados, eu conhecia aquele calor mais do que conhecia o caminho de volta para casa.
  – Essa briga foi uma droga, não foi? – murmurei baixinho, sem querer virar meu rosto para olhá-lo ou simplesmente levantar o queixo e erguer a cabeça para mostrar que eu não estava machucada.
Chega de mentiras.
  – Essa briga foi um deslize.
  – De deslize em deslize, nós vamos acabar pulando de um penhasco. E eu não posso simplesmente pular de um penhasco quando eu já caí de um maior.
   não respondeu, só pegou minha mão e começou a fazer carinhos com o polegar e depois simplesmente uniu as duas, elas pareciam tão perfeitas juntas que deveria ser errado.
  – Eu vou embora. – levantei soltando sua mão da minha, desci os degraus rapidamente, querendo evitar que ele viesse atrás de mim.
  – , por favor... – mais uma vez, seus dedos entrelaçaram nos meus e eu os puxei, girando o corpo e parando na frente dele.
  – Me deixe ir, por favor. – supliquei, com a voz fraca, lágrimas nos olhos e verdades na boca.
  – Eu quero que você me desculpe por falar tudo aqtuilo, quero que não desista de nós, não desista de tudo que passamos juntos. Quero que, principalmente, não desista de mim, .
  – Eu te desculpo, sim. – levantei lentamente os olhos e finalmente ergui o queixo, olhando no fundo dos olhos – Mas eu quero desistir de tudo isso.
  – , por favor, não desista, não jogue tudo para o ar.
  – Eu não estou jogando tudo para o ar, estou jogando em suas mãos. – segurei suas mãos e fiquei na ponta dos pés, apoiando o queixo em seu ombro e sentindo minhas lágrimas molharem sua camisa – Essa é minha decisão final, . Quero ficar longe de você. Eu te amo o bastante para querer que você seja feliz longe de mim. Não quero gastar a felicidade que merece ser compartilhada com outra pessoa. – era a primeira vez que eu dizia que o amava. Bem, a primeira vez sóbria e que nós dois ouvíamos eu dizer. Não era um “eu também” ou “a bebida entra e a verdade sai”, era um “eu te amo”, com direito a três palavras e mais significados que um dicionário pode abrigar.
  Soltei suas mãos e me virei, caminhando lentamente, com cada passo contado. A diferença é que agora eu não sentia nada de ruim, nada mesmo. Não estava escondendo meus sentimentos ou machucando uma pessoa que eu amava, estava apenas cuidando dela, de um jeito estranho, mas aquela era eu começando a cuidar das pessoas que amava.
   Não é um bom jeito de começar, mas um bom jeito de terminar tudo aquilo.

23 - Deixa Partir

Janeiro
  

Um mês é um bom tempo para seguir em frente e esquecer tudo.
  Na verdade, não é. Nem um ano seria suficiente.
  Histórias normais tem outra pessoa envolvida, tem alguém que morre de algo ou por algo, tem um problema que foi escondido no passado ou simples quilômetros de distância. Na minha história, existiam dois quarteirões e muito orgulho. Parece fácil, mas não é. Meu último encontro com o babaca se resumiu em tapas, lágrimas, gritos e despedidas. Eu pensei que realmente seria fácil, que eu precisaria de uma panela de brigadeiro, filmes de comédia e uma semana. Cinco semanas se passaram, eu ganhei cinco quilos e mais memórias do que eu gostaria.
  Eu poderia ganhar uma lavagem cerebral, não veria problemas nisso.
  Ou poderia estar abraçada a um garoto que mora há algumas ruas, num quarto azul e... , você consegue passar cinco segundos sem pensar no Bennet? Um, dois, três, quatro, cinco. Pronto, mente? Não, você está obcecada.
  Eu estava obcecada por ele, porque o amava. Que droga, ainda o amo.
  Se eu soubesse que passaria por tudo isso, nunca me permitiria ter sentimentos. Mas não é fácil controlá-los, nunca foi.
  Facilidade, quem foi o idiota que inventou essa droga de palavra? Nunca é fácil, nada é fácil. Você passa por várias fases que estão ali só para te fazer sofrer, para fazer você pensar nas coisas e ter mais obstáculos para continuar lutando. Mas desistir sempre pareceu a melhor opção. Mas era, não era? Desistir de manter a armadura e deixar as coisas acontecerem, deixar o mundo girar no seu eixo certo.
  Algum tempo atrás, eu disse que iria para o paraíso, que a partir daquele momento eu estava nele e que nada podia impedir ou atrapalhar meu pedaço particular do céu. Mas todo paraíso precisa de um pouco de inferno, não é? Ou era isso, ou outra regra mais simples: Demônios não dormem no paraíso. Muito menos ficam para o café da manhã.
  Tentei aspirar todo o ar, levantando os olhos ainda muxoxa, passei as mãos nos cabelos cortados nos ombros e depois puxei todo o tecido branco do uniforme escolar, sentindo meu peito se contrair mais que o normal.
  O relógio do meu pulso indicava 06h50min, eu estava atrasada para o colégio, mas essa era a intenção: chegar depois, sentar atrás de qualquer pessoa e não ser notada, não ser vista. Assistir as aulas, falar meu nome 5 ou 6 vezes, prestar atenção no que a professora falar e anotar as coisas.
  E depois de todo esse tempo, eu estava me escondendo atrás da máscara de boa moça.
  Meu pai me deixou na porta do colégio dois minutos antes de o sinal bater, indicando o início do primeiro tempo. Corri, segurando a alça da mochila e vi que alguém segurou a porta para mim. Passei por baixo do braço da pessoa sem nem agradecer, arrastei o olhar procurando minha sala e caçando rostos conhecidos pra indicar o lugar em que eu irei estudar pelo resto do ano.
  – Corte bonito, mas eu sinto falta do cabelo grande.
  Gelei.
  Um milhão de flashes passaram em minha mente. Aquele filme chato, que você passa no guia de canais e vê três segundos e sente uma tontura ou ânsia por ser muito ruim. Ou muito clichê.
  Girei o calcanhar e sorri sem olhá-lo nos olhos, ele parecia mais... Forte, gostoso, gato, alto, irresistível, com cara de mais velho, olhos mais escuros, lábios mais vermelhos e tantas coisas que eu poderia listar até as aulas acabarem. Bem, ele poderia ter ficado assim quando eu estava namorando com ele. Olhei para o queixo dele e vi que ali formava o inicio de uma barba... Meu Deus, ele estava com dezessete anos. Ele era quase um adulto... Como aquela barba ficava sexy nele.
  – Eu também gostava. – passei a língua nos lábios e olhei para o chão, balançando os pés de forma nervosa – Mas as vezes é necessário desapegar de coisas que nos prende ao passado. – quanta maturidade, mandando indiretas.
  Ele soltou uma risada abafada e levou a mão aos cabelos, bagunçando-os de forma frustrantemente sedutora.
  – Como sempre, no seu caso é diferente. O passado não é a melhor coisa para se apegar. – seu sorriso era tímido, mas sua voz soava firme e treinada, como se ele tivesse falado aquilo em frente ao espelho muitas vezes, mas no fundo eu sabia que ele estava tão frustrado quanto eu. Eu conhecia cada variação daquela voz, sabia o que ele sentia pelo simples som que sua boca emitia – Foi bem te ver, .
  – Foi bom te ver, . – movi o corpo e agarrei a alça da mochila mais uma vez, apertando com tanta força que podia quebrar minhas unhas a qualquer momento.
  Respirei profundamente varias vezes seguidas, tentando não ter um colapso naquele chão. Vários pensamentos vieram a minha mente, mas o principal foi: “Como ser feliz?”. E, depois, várias respostas surgiram na mesma mente. Não se pode buscar a própria felicidade nos outros. Se nosso maior desejo é ser feliz, talvez devêssemos buscar essa felicidade dentro de nós. Talvez essa fosse a hora de parar de buscar minha felicidade nos outros.
  Freei os pés e movi meu corpo num giro, chocando-me com ninguém menos que... .
  – , eu preciso c...
  – , desculpe mais eu preciso resolver um assunto que ficou pendente nas férias. E só uma pessoa pode resolver isso.
  Foi no meio dessa frase que eu percebi a única verdade do dia. Eu não era uma boa garota.
  Os olhos azuis pararam logo atrás de mim, e eu nem precisei virar para saber quem era.
  – Olá, Bárbara! – girei teatralmente – Sentiu saudades de mim? – o famoso sarcasmo estava estampado em minha voz.
  Bárbara não sorria, seu olhar estava frustrado, mas eu nem me importei com isso.
  – Vejo que arranjou um brinquedo novo. O que você fez para levá-la para cama? – sua expressão se transformou numa mascara enraivada – Ah! Ela implorou! Como eu não imaginei isso antes? Barbie sempre se humilhou por um pingo de atenção, nem quero saber o que ela fez para estar nas suas calças.
  Atrás de Bárbara, estava a pessoa que eu mais queria ver naquele momento. Garota pequena, com cabelos que já não eram mais pintados de variadas cores, estavam pretos e ondulados, como deviam ser. Seu sorriso era fraco, indicando o resto de felicidade que existia ali. No final, ela não era a única que permanecia machucada.
   me esperava, quando seu olhar encontrou o das três pessoas ali presente, um sorriso sarcástico invadiu seu rosto e ela caminhou até mim, cumprimentando as outras duas pessoas com a cabeça.
  – Bem vinda de volta. – entrelaçou o braço no meu e foi me guiando para a sala nova – DAWSON IS BACK, BITCHES!
  – E agora ela não vai embora.

****
  

Não prestei atenção nas aulas, e isso não é nenhuma novidade. Se aquela sala explodisse naquele exato momento, eu não hesitaria em ficar ali e ser queimada.
   e Bárbara me encaravam durante toda as aulas, mas eu não tirei os olhos do caderno por um segundo, pois se eu direcionasse o olhar a algum dos dois, não iria piscar os olhos por mais nenhuma aula.
  O terceiro tempo acabou, retirando todos os alunos da sala, exceto Bárbara Bailey e eu. Onde se meteu?
  – Dawson, preciso falar com você. – Sua voz vinha do canto da sala. Caminhei até a porta ignorando, seu chamado – , eu estou falando com você!
  – Não enche, Bárbara, eu tenho coisas mais importantes para fazer. Por favor, larga do meu pé.
  Parei de caminhar no corredor e procurei por minha amiga, que tinha feito o favor de tomar um chá de sumiço e, para piorar, parecia que todo o colégio estava em intervalo.
DAWSON! EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ! – cada partícula daquela voz me irritava. Ela estava chamando a atenção de todo o colégio, então ia aprontar alguma coisa.
  – Eu disse para não...
  – Isso é por roubar meu namorado, – sua mão acertou meu rosto e eu senti uma ardência em minha pele – isso é por me chamar de corna na frente do colégio inteiro, – mais um tapa, só que agora sua unha acertou meu lábio, fazendo sangue escorrer – e esse é por me humilhar hoje. – seu punho se fechou no meu estômago, causando uma imensa vontade de vomitar – Então, , o que tem a dizer?
  Ainda tonta, puxei todo o ar e inalei, tentando não cambalear pelo soco na barriga.
  – Corra. – foi a única palavra que saiu da minha boca. O sorriso dela sumiu e ela começou a gargalhar de modo sem graça.
  – Desculpe, o que disse?
  – Corra. – mas ela não se mexeu, riu mais uma vez, agora realmente achando graça daquilo.
  Dei um passo e enfiei a mão em seu cabelo, puxando os fios e levando seu rosto em direção a parede, depois soltei seu cabelo e empurrei seu corpo contra o chão, chutando sua barriga repetidas vezes com a ponta do pé.
  – Eu disse para correr.
  Me deparei como o colégio inteiro me observando, logo atrás da multidão, Lúcia mantinha o rosto numa expressão calma, mas seus olhos estavam pegando fogo.
  – Dawson e Bárbara Bailey, enfermaria AGORA! – bati os pés forte e fui caminhando, sentindo o sangue chegar a minha blusa. Empurrei a porta da ala hospitalar, sentando numa maca e esperando a alguém atravessar a porta. E isso aconteceu, Bárbara apareceu com o nariz jorrando sangue e sendo carrega por duas garotas.
  Em seguida, Lúcia apareceu com o rosto extremamente vermelho.
  – , por que insiste em vir para a enfermaria no primeiro dia de aula? – não respondi, mas ela continuava me encarando. Parte de mim queria rir por dentro, eu com toda certeza deveria estar com outra pessoa na enfermaria – Posso saber qual o motivo da briga?
  – Vingança. – respirei fundo e terminei minha frase – Digamos que essa briga está atrasada uns seis meses. E que nossa amiga demorou um semestre para reagir. Então esperemos mais seis meses para ela abrir a boca.
  Bárbara me fuzilou e eu continuei calma, sentada na maca branca balançando os pés.
  – Seus pais já foram comunicados e chegarão daqui há alguns minutos, sugiro que limpem suas feridas, porque a enfermeira não está aqui.
  Pulei da maca, caminhando em direção à geladeira, pegando dois sacos de gelo, voltei para minha maca com meu inseparável sorriso no rosto, coloquei um saco em minha boca e o outro joguei na maca de Bárbara.
  Rezei para que minha mãe viesse, porque meu pai iria querer estrangular minha pessoa, e depois jogar o corpo desfalecido para tubarões me esquartejarem e depois jogarem os pedaços fora, porque o gosto da carne é terrível.
  – Espero que esteja doendo. – Bárbara finalmente se pronunciou. E eu esperando mais cinco meses e vinte e nove dias.
  – Na verdade, eu estou concentrada demais na sua cara deformada para pensar num lábio machucado. – ironizei, rindo por dentro. Mas aquele lábio machucado estava doendo demais para eu poder rir alto.
  Levantei mais uma vez, indo em direção ao kit de primeiros socorros para limpar meu queixo e os lugares atingidos pelo sangue. Limpei-os com soro e algodão, com muito cuidado. Ainda doía. Procurei o saco que estava comigo antes e voltei para minha maca, controlando minha respiração e arrependida por não ter pego algum remédio para dor.
  – ONDE ELAS ESTÃO? – ouvi um grito de uma voz tão conhecida que senti meu corpo tremer.
  – Desculpe, Sr. Bennet, mas a enfermeira não deixa ninguém entrar além dos familiares ou funcionários. – Lúcia disse, num tom calmo demais. Talvez ela não soubesse que o porquê da briga era ele.
  – A enfermeira não está. – controlei minha respiração, me joguei de vez na maca, enterrando a cabeça no travesseiro e cobrindo meu cabelo com o lençol branco.
  Várias situações diferentes passaram pela minha cabeça, uma era mais absurda que a outra, mais irreal que tudo possível. Mas nenhuma delas era ruim.
  Tirei o lençol da cabeça e encarei o teto. Aquela sala sempre foi branca demais, quieta demais, calma demais e chata demais. As paredes eram tão claras que eu podia ver nitidamente as rachaduras e os pedaços descascados de tinta.
  Respirei desesperadamente, tentando recolher o máximo de ar possível. Me concentrei no silêncio e apertei o gelo contra minha pele e fechei os olhos, tentando voltar minha atenção à ardência contínua na boca.
  A porta foi aberta bruscamente e meu coração foi transportado para qualquer parte indefinida do meu corpo.
  – Isso é um absurdo! Como vocês arranjaram confusão no primeiro dia de aula? Isso é uma ofensa para o colégio! Um ultraje! Vocês deveriam se envergonhar e... – mais duas vozes se misturaram ao som esganiçado que saia da boca de Linda. Uma das vozes era incrivelmente conhecida: mamãe.
  Levantei o corpo e encostei na parede, observando os gritos estridentes de Linda, mamãe e uma ruiva que mais parecia uma prostituta. Provavelmente, mãe de Bárbara.
  Meus olhos pararam em Linda e eu tive uma súbita vontade de rir. Ela estava nos seus cinquenta anos, mas sua aparência era jovem. Seu cabelo era cortado debaixo da orelha e muito preto, ela era pequena demais e sempre usava grandes saltos, sua pele era num tom escuro e seus grandes óculos aro de tartaruga faziam seu rosto parecer menor. Se não fosse sua pele, ela era a cópia fiel de Edna de Os Incríveis.
  Arrastei o olhar até minha mãe, que carregava uma expressão divertida no rosto. Ela sempre achava graça quando eu brigava com alguém, quem sempre reclamava era meu pai.
  Procurei por , mas ele não estava no meu campo de visão. Agradeci por isso, assim pelo menos eu não teria tantas chances de terminar aquele dia chorando.
  – Posso saber o porquê de as mocinhas estarem se matando no corredor? – mamãe perguntou pacientemente.
  – É, eu adoraria saber porque essa vaca estava espancando minha filha! – a prostituta gritou, mostrando de onde vinha aquela voz irritante de Bárbara.
  Mamãe semicerrou os olhos e virou para mim; apenas assenti do mesmo modo paciente que ela se encontrava segundos atrás.
  – Primeiramente, sua filha foi “espancada” porque não sabe bater. – fiz aspas com a mão e respirei fundo – Segundo: a vaca em questão gostaria que você parasse de tratá-la como se ela fosse sua filha. Porque as únicas vacas que se encontram nessa sala são você e ela. – sorri, usando todo o ódio que eu estava criando pela família Bailey – Mas, respondendo a pergunta da minha mãe, Bárbara me deu dois tapas e um soco, eu apenas revidei.
  – E por que ela te bateu? – a voz agora era de Linda, que estava bem mais calma.
  Pensei em responder que ela tinha problemas mentais, mais uma coisa melhor veio-me à cabeça.
  – Porque eu roubei o namorado dela. – recebi como resposta varias caras de espanto. Rolei os olhos e percebi que, atrás da porta, havia uma sombra. – Ele traiu ela comigo. Mas, antes de mim, traiu com mais algumas garotas. Bárbara tem todo esse rancor de mim porque o garoto terminou com ela para ficar comigo. O que não aconteceu, pois nós nunca namoramos. Ah, o garoto citado anteriormente é nosso querido Bennet, que, por acaso, está parado atrás dessa porta, pois a diretora não o deixou entrar. , se você confirma essa história, de três batidas na porta.
  E para minha alegria – em parte –, três exatas batidas foram ouvidas.
  – Sua... – a ruiva falou, sua voz soou bem mais forte que antes e bem menos irritante, talvez agora ela estivesse mesmo com raiva – Sua desgraçada!
  – Já me chamaram de coisa pior... – dei de ombros, transparecendo todo o desdém de minha voz – Mas devo lembrar que não sou a única dessa sala. – claro que eu não perderia a oportunidade de atacar.
  Algo chamou minha atenção e foi um pouco frustrante quando vi o que era: Bárbara chorava do outro lado da sala. Parecia mais um porco suado do que uma garota chorando. Seu soluço lembrava levemente o cruzamento de uma hiena com um bode.
  – Ah! Puxa vida! Esqueci da parte que eu humilhei ela hoje de manhã! Como foi mesmo que eu fiz ela ficar com mais raiva? Lembrei! “Barbie sempre se humilhou por um pingo de atenção, nem quero saber o que ela fez para estar nas suas calças.”
  Deixei uma gargalhada escapar quando mais três batidas ecoaram a porta.
  Bárbara na versão prostituta arregalou os olhos e moveu o rosto teatralmente na direção da filha. Mas outro pensamento veio em mente. Bárbara sabe que eu dormi com . E minha mãe também. Vocês ouviram esse som? São os sinos de aleluia!
  – VOCÊ. TRANSOU. COM. O. BENNET? – gritou pausadamente, o tapa que veio a seguir doeu em mim.
  Senti pena dela por alguns segundos, mas depois, a onda de compaixão foi levada pelo vento.
  – Ficou irritadinha porquê seu precioso Bennet correu para os braços de outra quando você virou as costas?
  – Não. Ela te bateu porque estava cuidando do que é dela. Acredite, fui eu quem ensinei isso a ela – mamãe sorria de um jeito curioso.
  Me xinguei por todas as vezes que não quis fazer parte daquela estranha família.
  – Está orgulhosa por sua filha ter agredido uma garota por causa de ciúmes?
  – Fui eu quem ensinou isso também. Agora podemos voltar o foco para a falta de pureza de sua filha? – agora me perguntem de onde eu tirei toda minha hipocrisia.
  – Só para constar, ela nunca foi pura. – e em vez dos queridos três toques na porta, ela foi aberta bruscamente, fazendo meus olhos se desviarem para qualquer ponto aleatório – E, para alegar outro ponto que estava em questão, eu nunca fiz nada com ela. – foi inevitável não abraçar minhas pernas e apertá-las. Eu procurei algum conforto ou até mesmo alguma distração em meu corpo, mas nada que eu pudesse fazer – , você acha que eu transei com ela? – sua fala foi para mim, mas nenhum som era emitido de minha boca. Como eu poderia ser tão bipolar? Ser uma leoa enraivada na frente de uma pessoa e uma gatinha manhosa na frente de outra? – ? – chamou-me mais uma vez, desviando a atenção dos meus pensamentos. Assenti com a cabeça engolindo seco. Os batimentos de meu coração já estavam num nível indefinido de velocidade – Por quê?
  – Você... É, você... – fechei os olhos, inalando o ar e mudando minha posição naquela maca, que parecia ter ficado desconfortável – Você disse que tinha assuntos das férias, que estavam pendentes. Aí eu imaginei que vocês tinham transado.
  Abri meus olhos e me permiti olhar os que estavam na minha frente, fixos aos meus. Seu olhar, que muitas vezes me acalmou, agora estava absorto em pensamentos, em devaneios bem longe daquela enfermaria infernal. O que me deixou mais angustiada, um frio percorreu minha espinha e, se eu não estivesse tão sem ação, estaria tremendo.
  – Ela me perseguiu durante todo esse recesso, dizendo que eu poderia ir na casa dela, que ela estaria sozinha aquela noite e mais coisas que eu nem me dei o trabalho de ler. Eu ia pedir que ela parasse de correr atrás de mim e fosse viver sua vida. – passei a língua nos lábios e depois os pressionei, mordendo a carne por dentro – O que você queria falar comigo ante disso? – calmo, ele estava calmo como eu nunca vi antes. Falava como se eu fosse alguém com algum problema mental. Bem, eu estava parecendo isso.
  – Eu ia dizer que o problema das pessoas é procurar a felicidade nos outros, e que podemos ser felizes sozinhos.
  – Ninguém é feliz sozinho. Isso nunca aconteceu antes e não vai ser agora que vai acontecer.
  – Eu pensei que podia ser diferente comigo.
  – PARE DE PENSAR QUE VOCÊ É A EXCEÇÃO DO MUNDO! Que droga, ! Todo mundo é igual, mesmo sendo diferente! Você se machucou, tudo bem! MAS TODO MUNDO SE MACHUCA! Você não pode se esconder numa gaiola imaginaria só porque partiu a porcaria do seu coração! Acha que é a única que saiu machucada? Acha que foi a única que ficou se perguntando que porcaria de vazio era aquele que tanto incomodava? Meu coração está em milhões de pedaços e fica pior ainda te vendo assim!
  Lágrimas já pareciam algo comum naquele minuto, eu sentia meu coração na boca e um formigamento horrível no estômago.
  – Por quê? POR QUE EU ACABEI COMO ELA? Como eu disse que não queria acabar? Juntando migalhas de felicidade pela desgraça dos outros? ADIVINHA, ! FODA-SE! Eu sempre juntei essas migalhas! Se você quer sentir pena de alguém, sinta da Bárbara! Sabe por quê? PORQUE EU ROUBEI O NAMORADO DELA! Eu fiz o garoto se apaixonar por mim, eu parti o coração dele e o chutei quando ele poderia estar sendo feliz com outra pessoa! EU DESTRUÍ UM ROMANCE! E sabe mais, ? Eu sou a vadia dessa história, não sinta pena de mim.
  Por um segundo, esqueci que haviam outras pessoas naquela sala, uma delas, sendo minha mãe.
  – Querem saber? Chega para mim! Se quiserem reclamar comigo, me levem para a diretoria! Mas aqui eu não fico mais! – levantei num pulo e comecei a andar, ouvindo gritos atrás de mim e vozes diferentes chamando meu nome, mas nenhuma delas importava no momento.
  – DAWSON! – parei – Você pode me ouvir por alguns minutos?
  – Já não basta o que eu ouvi agora? Você quer me ver chorar mais ainda?
  – Eu só quero conversar, .
  – Ah, ! Por favor! Não sou tola! Não venha com suas palavras doces, porque eu sei as intenções que elas escondem! Eu te conheço, sei cada palavra escondida por trás das oitavas de sua voz. E sei quando fala algo na intenção de conseguir outra coisa.
  – Claro que eu quero outra coisa! Quero que você pare de drama! Quero que esqueça a merda do passado e que, apenas uma vez, siga seu coração! Porque eu também sei o que as variações de sua voz representam!
  – Você não sabe de nada. – levantei as mãos, já incomodada com a ardência contínua nos olhos.
  – Da última vez que disse isso, você estava do mesmo jeito que agora. – seus dedos se fecharam ao redor de meus pulsos e os puxaram para baixo – Você estava fragilizada, machucada e precisava chorar. Quando eu vi que do outro lado do rosto irônico estava alguém que tinha sentimentos, que por acaso, estavam abalados, eu senti uma necessidade de te abraçar, de te dizer que aquilo era algo para se ignorar.
  – Você o fez. – minha voz saiu fraca, tão fraca que chegava a parecer um ruído inaudível a audição humana.
  – É, mas você teve uma crise de raiva e começou a gritar. Foi aí que eu me perguntei mais uma vez se a garota mais interessante daquele meio era também a mais problemática. Algum tempo depois eu obtive a resposta.
  – E aí? – não pude desvendar que tom de voz era aquele e, por um momento, nem quis.
  – Eu tiver certeza que ela era a mais problemática. Mas aí eu já estava apaixonado por ela.
  Ainda prendendo meus pulsos com os dedos, seu corpo se chocou contra o meu, e aquela onda de alívio dominou-me por inteiro. Talvez eu pudesse ficar naquela posição para sempre.
  – Você se apaixonou pela vadia que te esnobava. Dá pra ser menos clichê?
  – Eu gostava muito dessa vadia. Ainda gosto. Na verdade, não poderia ter escolhido uma vadia melhor.
  – Você podia ser um nerd cheio de espinha, não um gostoso bonitão. – sussurrei entre o choro e soltei seu corpo – Você sabe que eu te amo, não sabe? Mas eu não quero ter que sofrer ainda mais. Muito menos prolongar essa porcaria de dor. Sei que vou me arrepender disso mais tarde, mas me desculpe, eu estou indo embora. – suas mãos seguraram minha cintura assim que eu fiquei de costas. Elas moveram meu corpo num giro de cento e oitenta graus e, antes que eu pudesse protestar, aconteceu.
  No começo, eu estava tão perplexa que minha única reação foi arregalar os olhos de forma completamente engraçada. Depois me toquei do que estava perdendo.
  Enfiei as mãos nos fios pretos sem pudor, senti as mãos de descerem para meu quadril e invadirem minha blusa, apertando minha cintura por baixo do pano. Abri a boca, deixando finalmente sua língua invadir o local e se apossar do que já era seu. Senti meu corpo explodir em milhares de pedaços, aquela velha sensação não mudava, o toque macio daqueles lábios e o choque de temperatura. Sua boca tinha o mesmo gosto fresco, gostoso e excitante.
  Eu poderia desmaiar naquele exato momento.
  Parei de movimentar os lábios, quebrando o beijo e prendendo seu lábio inferior com os dentes. Puxei todo o ar, encostando minha cabeça na curva do seu pescoço.
  – Achou mesmo que eu iria te deixar ir embora? Depois de todo aquele discurso? Depois de passar minutos na porta daquela enfermaria me segurando para não arrombar aquela porcaria e te beijar? Ou pensando no que iria dizer para você depois que te beijasse?
  – Não pensou no que eu falaria depois disso? Logo eu? Teimosa?
  – Na verdade, acho que sei exatamente o que você vai dizer. – ele arrastou os lábios na extensão de minha pele – Pode falar, eu estou com um humor maravilhoso.
  – Merda, . Por que me beijou? – uma gargalhada saiu de sua boca, seu sorriso estava tão grande que nem eu poderia explicar.
  – Normalmente, quando duas pessoas se beijam, é porque elas compartilham algum sentimento. Como estamos num século em que as pessoas fazem isso por fama ou ibope, fico com a primeira opção. – franzi a testa, semicerrando os olhos. Seus dedos afundaram na minha barriga e ele continuou: – Eu queria que você ficasse. – assumiu, fechando os olhos e jogando sua cabeça para trás – Mas eu já fiz isso uma vez e não deu muito certo, você fugiu de mim. Vai fugir mais uma vez?
  – Eu não sei. – um suspiro pesado saiu de minha boca, balancei a cabeça com um sorriso bobo no rosto e me inclinei, olhando profundamente naqueles olhos azuis, sabendo que podia me perder neles a qualquer momento – O que você está fazendo?
  – Esse é meu segredo. – ele sorriu, com uma ponta de sarcasmo naquele simples repuxar de lábios.
  – Qual seu segredo? – o tom de curiosidade transparecia o tom baixo de minha voz.
  – Uma vez, uma garota me disse que, se é um segredo, ninguém deve saber.
  – Bleh, essa garota não sabia de nada! – fiz uma careta engraçada, entrelaçando meus braços em seu pescoço e sorri involuntariamente, só para variar – Não confia em mim, Bennet?
  – Eu não sei... – imitou minha expressão de segundos atrás, com o deboche estampado no rosto – Dawson, você pode guardar um segredo?
  Assenti. Um segredo a mais não mataria ninguém.

FIM



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