Starry Night

Escrito por Júlia Oliveira | Revisado por Lelen

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  Colocou o corpo para fora da janela: resmungando de todas as maneiras que conhecia e encontrando a vizinha cantando, a plenos pulmões alguma música do Blink 182. Por Deus, eram dez horas da manhã de um domingo, quem ela achava que era?
  Para começo de conversa, quem tinha construído os dois prédios tão próximos um do outro? Tão diferentes, por que não havia um muro ou pelo menos cinco metros de distância entre um e o outro? Por que eram apenas dois? Bufou, fechando a janela e tornando o som de After Midnight abafado, não que não gostasse da música, o fato era que a vizinha insistia em cantá-la e ele estava sonolento.
  Sonolento depois de uma noite inteira em um pub no Soho, vivendo sua vida de jovem “filhinho-de-papai” enquanto podia, ignorando o processo gigantesco que tinha que ler e entregar em uma semana na faculdade e bebendo como se não houvesse amanhã. Talvez fosse por isso que seu apartamento estava revirado, ou talvez, a garota da noite tenha pegado alguma coisa de seus armários: não que se importasse, afinal de contas, o cartão de crédito ilimitado dourado continuava reluzente em sua carteira, disso tinha certeza.
  Virou-se novamente para a janela da cozinha, que dava vista para a janela da sala da vizinha. Já estava acordado, fora acordado pelo berro de Avril Lavigne e da vizinha, cantarolando junto “Hot”. Acabou por sentar-se sobre um dos bancos da bancada, conseguindo assistir uma das cenas mais interessantes de sua vida.
  A garota usava um blusão enorme e cinza, seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo irregular enquanto suas pernas eram cobertas por um short curto, que parecia ser de pijama. O chão da sala estava coberto com jornal, o sofá estava no outro extremo e ela caminhava entre o corredor e a sala, carregando latas de tintas das cores mais diferentes. Então, ela laçou um lenço sobre a testa, esticando-se e estralando os dedos: abaixou-se e pegou um pincel, derramando a tinta sobre algum tipo de pote – daqueles que tem bolinhas para tirar o excesso de tinta. –, ela pousou o pincel sobre o pote, passou sobre as bolinhas e de repente: começou a pintar calmamente a parede branca de azul: por vezes, algum verde tomava o lugar do azul e às vezes um amarelo.
  Não conseguiu se mover enquanto assistia a cena e tomava sua xícara de café: o short deixava suas pernas – oh, que pernas! – à mostra. E sua curiosidade falava mais alto: a parede, antes branca e sem graça, estava tomando forma de algo que ele conhecia, vagamente, uma lembrança distante. Sem falar de que, apesar da música alta, ainda conseguia ouvir a risada da garota toda vez que ouvia uma piada de Tom DeLonge e Mark Hoppus. Principalmente quando o CD ao vivo da banda começara, e com ele, aquelas músicas que tinha que ouvir escondido durante a adolescência: como Family Reunion ou Blow Job. Antes das duas da tarde, a parede já estava completa: uma noite estrelada.
  Levantou-se rapidamente, sentindo a curiosidade sair-lhe pelas entranhas. Abriu a janela, antes fechada.
  - HEY! – ele a chamou, não sabia sequer seu nome: mas precisava saber o que ela tinha pintado.
  - I’M LOOKING UP FOR MY STAR GIRL! I GUESS I’M STUCK IN THIS MAD WORLD. – Ela cantarolou, contrariando o Linkin Park que soava por suas caixinhas de som. Notando alguma coisa, parou de cantar e balançou a cabeça, como se quisesse afastar um pensamento. – Desculpe, posso ajudá-lo? – riu, simpática enquanto caminhava em direção à janela, onde ficaria próxima o suficiente para que a escutasse e visse-e-versa.
  - Posso saber o que você está pintando? – ele perguntou, dividindo seu olhar entre a parede e a moça: que tinha o alto das bochechas sujos de tinta azul, as sobrancelhas amarelas e os dedos imundos de vários tons das três cores.
  - Minha parede. – Ela respondeu, sorrindo. – Ela é branca, sem graça, então...
  - Não - ele a interrompeu, fazendo-a xingá-lo mentalmente por ser tão grosso –, eu tenho a impressão de que conheço essa pintura...
  - A Noite Estrelada, de Vincent Willem Van Gogh – ela sorriu, interrompendo-o da mesma maneira.
  - Pode traduzir para a língua dos mortais, por favor? – ele pediu, arqueando uma das sobrancelhas e tentando soar simpático.
  - A Noite Estrelada, daquele cara que cortou a própria orelha porque não conseguia desenhá-la. – Ela respondeu-o, cheia de lógica e com um sorriso satisfeito no rosto ao vê-lo concordar com a cabeça: lembrando vagamente de alguma aula de Artes que não cabulara. – E deu para uma prostituta.
  A última parte fizera arregalar os olhos e encarar a moça, indiferente ao que dissera. Não que não conhecesse essas coisas de prostitutas e fosse um certinho: era apenas a maneira natural a qual ela tinha dito, como se fosse algo comum cortar a própria orelha porque não consegue pintá-la e dá-la a uma prostituta.
  Queria ter lhe perguntado mais sobre o tal Van Gogh, quando dissera o nome do tal pintor: tinha dito com uma admiração óbvia nos olhos. Os olhos castanhos foram transformando em pérolas douradas enquanto ela abria um sorriso belíssimo. Mas ela fora mais rápida.
  - Se me dá licença, eu tenho que tentar pintar Guinguette de Montmartre no outro quarto. – Ela sorri, passando a mão sobre a franja e a colocando atrás da orelha, sujando-a.
  - Guinomo o quê? – perguntou, sem entender. Era curioso demais para deixar passar.
  - Guinguette de Montmartre, é francês. – Ela corrigiu, segurando a risada. – Outro quadro de Van Gogh.
  - Oh, tudo bem. – Abriu um sorriso, entendendo, finalmente. Fez um gesto com as mãos em direção à moça e sorriu. – Fique à vontade.
  - Obrigada. – Ela sorriu, saindo da janela e recolhendo mais tintas, dessa vez de tons amarronzados.
  Observou-a por mais alguns segundos, apenas o suficiente para vê-la levando as tintas até outro quarto – onde já não podia vê-la – e lembrar a si mesmo que tinha que almoçar.

   olhou para o quadro, resmungando alguma coisa inteligível enquanto brigava consigo mesma: insatisfeita. O quadro era perfeito, como conseguia tê-lo estragado dessa forma? Toulouse-Lautrec teria desgosto de sua pequena aprendiz. Abaixou a cabeça, encarando o chão como uma criança birrenta que acabara de ouvir um belo “não” dos pais.
  - Querido Delacroix, sei que é ofensivo, mas peço, não... – se interrompeu – não, imploro – se corrigiu – que me perdoe por tamanha ofensa.
  Dito isso, pegou o quadro – ou tentativa de quadro, dependia de quem estivesse avaliando – e mais alguns rascunhos sobre a sala e os colocou debaixo do braço, resmungando e decepcionada consigo mesma. Desceu as escadas, cabisbaixa e pensando qual quadro deveria tentar pintar agora, algo mais fácil para evitar decepções como os outros.
  Com certeza, tentaria A Noite Estrelada novamente, era seu quadro favorito: então tinha certa preferência. Tentaria Toulouse-Lautrec novamente, e Claude Monet seria, certamente, adicionado à lista.
  Aproximou-se da lixeira, jogando os quadros, os rabiscos e os estudos de algumas obras pouco relevantes agora. Voltando a caminhar em passos pesados e mal humorados em direção ao apartamento sussurrando para si mesma: “Dê uma estudada enorme em Baille no Moulin de la Galette, e tente de novo.”

   assistiu a cena boquiaberto, do outro lado da rua, segurando seu saco de pão recém-comprado: por que ela estava jogando pinturas tão belas quanto aquelas fora? Não conseguia dizer o nome de uma, mas tinha certeza que eram belíssimas! E mesmo que ela não fosse uma pintora renomada, certamente, valiam alguma coisa.
  Atravessou a rua e correu as escadas – esbaforido, tenho que confessar – largando a compra sobre o sofá e descendo ainda mais depressa, caminhando até a lixeira e tirando de lá alguns dos quadros, reconhecia um da capa do CD do Coldplay (n/a: se ficou curiosa, é “ A Liberdade Guiando o Povo” de Eugene Delacroix.) outro, um senhor amarelado sentado na frente de várias gravuras, usando um chapéu de palha. Outro, parecia ter sido pintado em milhões de bolinhas, uma cena bem curiosa em algum parque.
  Olhou para cima – na verdade, para o quinto andar – como se perguntasse à construção se aqueles quadros eram da moça. Dividiu seu olhar entre a construção e os quadros, suspirando pesadamente e criando coragem.
  Coragem necessária para entrar no prédio da moça e se arrastar até o quinto andar empunhando os quadros enquanto ainda os encarava atônito.
  Deduziu que seu apartamento seria o 503. Apertou a campainha.
   encontrou o vizinho do outro dia, segurando sua péssima versão para “ A liberdade Guiando o Povo” em suas mãos, enquanto ele mantinha os olhos abertos, em indignação.  
  - Como pode jogar isso fora? – ele perguntou sem rodeios.
  - Está horrível, um lixo! – ela disse, abrindo os braços, também indignada. – Uma vergonha para Delacroix e qualquer um que goste do trabalho.
  - Dela o quê? – ele repetiu o feito do dia da janela, arqueando uma das sobrancelhas. tentou não rir, e muito menos revirar os olhos.
  - Delacroix, o pintor do quadro.
  Ele olhou para o quadro rapidamente e depois para a moça. Podia jurar que o quadro era de Chris Martin. Afinal, ele era o vocalista do Coldplay, e aquela imagem era a capa de Viva La Vida.
  - Tá pensando que eu estou errada e que o quadro é do Chris Martin, não é? – ela disse, batendo a mão na própria testa, com um sorriso irônico nos lábios.
  - Na verdade, eu...
  - Não sabe nada de pintura e ficou curioso em relação à “As Duas Amigas”? – ela sorriu, ainda mais desafiadora enquanto pegava um dos quadros e o exibia.
  - Na verdade - ele corrigiu, impondo seu tom e voz –, eu fiquei mais interessado neste daqui. – Levantou um dos quadros que mostravam dois jovens, na cama, dormindo, cobertos por uma manta vermelha.
  - “Na Cama”, 1893, Toulouse-Lautrec. – Ela sorriu. – Boa escolha. – Ela disse, colocando uma das mãos sobre a porta e fazendo menção de fechá-la. Mas fora impedida por um dos pés de .
  - Quero saber mais. – Ele pediu, sem largar os quadros.
  - Saber mais sobre o quê? – ela perguntou, nervosa por não poder voltar à sua tentativa de “Lago com Nenúfares” de Claude Monet.
  - Sobre Delacros - disse erroneamente, fazendo-a sorrir timidamente –, Tomás de não sei o quê e o cara da orelha.
  Ela ignoraria: daria um jeito de conseguir fechar a porta, compraria cortinas mais pesadas e fingiria nunca ter escutado as palavras do rapaz, mas não conseguia dizer não a alguém que chamava Delacroix de Delacros, Toulouse-Lautrec de “Tomás de não sei o quê” e Van Gogh de “O cara da Orelha”.
  Mas antes disso, não conseguia dizer não aos olhos do rapaz.
  - Certo, entre. – Ela disse, ríspida, abrindo a porta do apartamento e um dos braços, indicando que entrasse.
   caminhou, entrando na sala com “A Noite Estrelada” do “cara da orelha” na parede. Encarou-a com curiosidade, a pintura era ainda mais bonita de perto. Mesmo com a TV e alguns moveis abarrotados de livros na parte de baixo, ainda era um espetáculo.
  - Tudo bem – ela sorriu –, sente-se. – Ele fez o que ela mandou, sentando-se no sofá branco de frente para a pintura, sem tirar os olhos dela. – Se vamos realmente fazer isso, você tem que aprender: é Delacroix, é francês. – Repetiu o nome, pausadamente. – E não foi Chris Martin que desenhou essa pintura aí – apontou para o quadro, sorrindo –, e o nome dela não é Viva La Vida, é “A Liberdade Guiando o Povo”.
  - Certo. – sorriu, agora olhando para a menina, atento não só ao que ela dizia, mas nos movimentos bem calculados de suas mãos, pernas e braços, como os movimentos de seus lábios.
  - “Tomás de não sei o quê” – fez com aspas, tentando não rir – é Toulouse-Lautrec. Também é francês, o autor do quadro que você gostou...
  - Eu gostei de todos. – Ele a interrompeu, fazendo-a rolar os olhos.
  - O da cama. – Ela respondeu, pacientemente.
  - Oh, certo. – Ele sorriu novamente.
  - E “O cara da orelha” – ela continuou a fazer as aspas com as mãos – é Van Gogh.
  - Autor de “A Noite Estrelada” – ele completou sorrindo.
  - E de Retratos de Père Tanguy – ela adicionou, apontando para o quadro do senhor de chapéu, assistindo-o sorrir.
  - E o seu?
  - O meu o quê? – ela largou o quadro.
  - Nome.
  - . – Ela disse, pegando os quadros na mão do rapaz e os deixando em um canto da sala. – E o seu?
  - . – Ele sorriu, simpático.
  - Belo nome. - Ela sorriu. – Então, já que você quer aprender sobre pintura, você tem que conhecer as originais, certo? – ela sorriu, caminhando até um dos móveis e tirando alguns livros. – E então vai concordar comigo que elas estão ofensivas.
  Ela se sentou em frente ao móvel, folheando as enciclopédias. não suportou a curiosidade, então levantou-se, sentando à frente da moça. Ela sorriu ao vê-lo a seu lado.
  - Aqui - apontou para um dos quadros, o do beijo –, Toulouse-Lautrec amava boêmia. – Sorriu, mostrando-lhe algumas pinturas do mesmo, alguns cartazes do Moulin Rouge. – Ele era um boêmio, talvez seja por isso que morreu tão cedo, aos 36 anos.
  - De quê? – perguntou, curioso.
  - Sífilis e alcoolismo. – Ela sorriu, encantada pelo interesse do rapaz.
  Afinal de contas, o que ele queria? Do nada, aparecer assim, interessado por artes? Para quem chegava durante a madrugada nos fins de semana com cara de quem tentou entrar em coma alcoólico, suas atitudes eram bastante suspeitas.
  E , por sua vez, não sabia o que estava acontecendo, só queria passar algum tempo com ela e talvez, aprender alguma coisa.

  Então, brevemente, uma noite de sexta em um pub no Soho fora trocada por uma aula sobre Dalí.
  Na verdade, adorava: depois de se matar na faculdade, tinha a companhia de – sempre atento aos pintores mais excêntricos e curiosos – enquanto pintava, ou mesmo estudava. Pouco a pouco, com suas aulas diárias, o rapaz começava a ter um bom perfil artístico: gostava de romantismo, mesmo sem ter consciência. Sem perceber, de repente, levava suas coisas da faculdade – de direito, que não tinham nada a ver com a faculdade de Artes que cursava – até o apartamento dela, pois “é mais agradável ler um processo estúpido com algo de Georges-Pierre Seurat ao lado do que de uma televisão.”
  Outra coisa que adorava era sua dedicação, impecável. Nem parecia que era um advogado quase formado quando ela surgia com algo novo para lhe mostrar. Ele estava muito bem em francês e finalmente conseguia dizer “Toulouse-Lautrec” como um verdadeiro francês. 
  A verdade era que seu interesse por artes era minúsculo se comparado a sua admiração por : ela tinha 22 anos e pintava de uma forma divina, falava quatro línguas – inglês, espanhol, francês e português. Todas por conta da nacionalidade de seus pintores prediletos – e tinha a risada mais bonita de todas, um sorriso encantador e fazia uma lasanha como ninguém. Certo, continuava interessado em ouvi-la contar coisas sobre Guignard ou Picasso, mas adorava lhe fazer cócegas enquanto ela pintava, só pra vê-la gargalhar e depois ficar irada com ele, dizendo “Você quase estragou o quadro”. Adorava treinar seu francês com ela, mas também amava encontrá-la dormindo, desmaiada de cansaço, sob um livro enorme que detalhava a vida de Paul Signac e poder carregá-la até sua cama.
  Mesmo que seu cérebro não quisesse confessar, talvez estivesse se apaixonando por ela.
  Entrou no apartamento de , fazendo-a dar um pulo no sofá e derrubar o livro que lia, milagrosamente, um romance: nada sobre pintura.
  - Preciso que me explique uma coisa. – Ele disse, ficando na frente do sofá, enquanto ela se levantava, sonolenta.
  - Bom dia pra você também . - Ela riu, ironicamente. – Dormi bem, , obrigada por perguntar. – Ela acrescentou, coçando os olhos. Só então que notou que ela estava de pijamas.
  - OK, – chamou-a pelo apelido também –, preciso que me explique uma coisa.
  Enquanto ouvia , caminhou lentamente até a cozinha enquanto era seguida pelo rapaz: que segurava um cartaz, enrolado.
  - Tudo bem, aceita? – apontou para a xícara de chocolate quente, enquanto voltava a se sentar no sofá.
  - Não, já tomei café.
  - , você acordou cedo hoje? – ela riu, arregalando os olhos, surpresa e implicante – Deus, fiz um milagre.
  - Por favor, me explica! – ele quase se jogou no chão, implorando.
  - Tudo bem. – Ela colocou a xícara de chocolate sobre uma mesinha na sala e caminhou até o rapaz, pegando o cartaz e o abrindo. - "A Persistência da Memória", qual o mistério? – ela perguntou, encarando o quadro de Salvador Dalí. Surrealismo não era seu forte, mas ela gostava do pintor em si. Sabia muito bem que também, uma vez havia deixado “O Grande Mastubador” sobre a mesa e ele simplesmente ficara no seu pé semanas para que ela contasse-lhe os segredos do quadro.
  - Tudo. – Ele disse, ficando ao lado dela.
  - Quer começar pelo nome? – ela perguntou, fechando o cartaz e apontando o sofá para , ele sabia que, geralmente, quando ela o mandava sentar, era porque a história era longa. Fez que sim, vendo-a sentar-se em uma cadeira a sua frente. – Ele deu esse nome, porque achava que a pintura era marcante, não seria facilmente esquecida por quem a visse. – Ela sorriu, paciente.
   tentou, tentou mesmo, prestar atenção no que ela dissera, mas ela estava encantadoramente linda trajando seus pijamas de algodão, o rosto sem nenhuma maquiagem e o cabelo sem pentear; os olhos um pouco inchados por terem acabado de acordar e o sorriso, impecavelmente compreensivo e belo. Podia ser sua impressão ou imaginação, mas parecia que a cada dia que passava, parecia mais bonita.
  - Por que os relógios são derretidos? – ele perguntou, fazendo-a rir tímida e moderadamente.
  - Os relógios flácidos foram idealizados por Dalí após jantar uma porção de queijo camembert. – Ela sorri. – Lembra de quando fomos ao restaurante francês e comemos aquela coisinha cremosa? – ela perguntou, vendo concordar com a cabeça. – Ele tinha comido aquilo.
  - Ele quer que a gente entenda que relógios são gostosos de comer? – ele arqueou uma das sobrancelhas, confuso. não conteve um risinho.
  - Eles conotam dois significados distintos: primeiramente, a relatividade do tempo e espaço, maleáveis, característica notada também na marcação das horas, diferente nos três relógios, e na mosca pousada em um deles, indicando que “o tempo voa”. – Ela sorri, pacientemente, enquanto abria o cartaz e mostrava a mosca.
  - E não tem nada erótico nesse quadro? – arqueou uma das sobrancelhas, fazendo não conseguir deixar de rir, dessa vez escandalosamente, fazendo se aquecer por dentro. Amava sua risada.
   se levantou da cadeira, se jogando no sofá ao lado de e sussurrando, como se tivesse vergonha de dizer:
  - E subliminarmente - encarou-o nos olhos, sem conseguir conter um sorriso malicioso -, o contraste entre macio e duro, indicando impotência e erotismo, respectivamente.
   fez sua expressão de “Oh, entendi” pegando o cartaz que o estendia.
  - Então, posso voltar a ler? – ela disse, deitando-se sobre o sofá e colocando os pés no colo de , voltando a pegar seu livro no chão.
  - Não temos nada para hoje? – ele perguntou, largando os pés da jovem e se levantando.
  - Nadinha. – Ela balança a cabeça, encarando o livro. – Você não tem nenhum processo pra ler? Lei pra decorar? Onde está aquele livro enorme que você tinha que ler?
  - Fiz tudo isso ontem porque achei que você tinha algo novo pra me mostrar hoje. – Ele respondeu, ajoelhando-se, ficando no nível da cabeça de . – Vamos, ... – quase implorou. – Você está me devendo aulas sobre Picasso... Eu não esqueci a sua promessa de me levar ao Louvre.
   fez força para manter-se séria, afinal, parecia uma criança de cinco anos.
  - Eu te trago Twix. – Ele disse, fazendo-a rir novamente. – Achei que era seu chocolate favorito.
  - É o meu chocolate favorito. – Ela riu, ignorando o fato de que ele sabia isso. Mas, internamente, se perguntou como. – Uma visita ao Louvre tem que ser planejada, . Não é acordar “oh, vamos ao Louvre” e ir. Ainda mais para quem não mora em Paris.
  - Eu vou lá, compro as passagens enquanto você se arruma: em uma hora e meia estamos na França. – Ele sorri, com os olhos brilhantes.
  - , estou falando sério, eu amor ir ao Louvre, mas hoje não vai rolar. – Ela sorriu. – E bem que eu poderia te mostrar alguma coisa sobre Picasso, mas você sabe...
  - Você não é fã de cubismo.
  - Então não tenho material pra te dar essa aulinha. Podemos deixar pra amanhã? – sorriu, tentando parecer como o gatinho do filme, enquanto a encarava, um pouco decepcionado. – OK, não me faça essa cara, pode ficar aqui se quiser.
  - Com você lendo e eu sem nada pra fazer, não tem graça. Fazer seu café não é uma opção.
  Ela riu novamente, largando o livro e levantando-se, para se sentar à frente de .
  - O que quer fazer então, ? – ela sorriu, belíssima. Ele olhou para ela maliciosamente. – Por favor, nada que envolva minhas pernas ou meu corpo fora do meu lindo apartamento. – Ela sorriu, deitando-se sobre o carpete branco da sala e fechando os olhos, era tão macio que podia dormir ali.
  - Nem uma visitinha rápida à algum museu?
  - Eu já te levei aos melhores, ! Só falta visitar o Louvre...
  - E Montmartre e o Museu Van Gogh. – Ele adicionou, deitando-se de frente pra ela.
  - E é exatamente por isso que não podemos visitar Paris de uma hora para a outra: temos que passar pelo menos um fim de semana lá para podermos aproveitar a cidade da forma correta. – Ela suspirou, fechando os olhos. – E você sabe, Amsterdã requer um hotel e hotel requer dinheiro...
  - E eu já disse que pago pra você. – a interrompe.
  - Não vou discutir sobre isso, , de novo não. – disse, ignorando enquanto voltava a se aninhar sobre o carpete.
   virou-se, ficando de barriga para cima e encarando o teto.
  - Como você pintou o teto? – perguntou, ignorando o fato de que podia ter caído no sono.
  - Andaimes. – Respondeu, sem abrir os olhos. – Então você se deita sobre eles e pinta: é horrível pintar deitada.
  - Mas ficou muito bonito. – Ele sorriu, encarando as estrelas no teto. – Eu gostei.
  - Obrigada. – Ela sorriu, abrindo os olhos rapidamente e fechado-os logo após.
  - ? – ele a chamou, depois de alguns segundos em silêncio. riu, ele lhe lembrou a seu irmão mais novo, chamando-a depois de um pesadelo.
  - Oi - respondeu, sem abrir os olhos.
  - Vamos ao Louvre? – ele perguntou, apenas para irritá-la.
  - Não. – Ela respondeu, mantendo a calma. – Desista logo.
  - Claro que não - riu –, Van Gogh recebeu um “nunca” e mesmo assim insistiu.
   abriu os olhos e escorou-se sobre um dos braços.
  - Van Gogh é meu pintor favorito.
  - Eu sou seu vizinho favorito.
  - Mas você não é pintor. – Ela sorriu, desafiadora.
  - Posso ser. – Ele disse, imitando-a e ficando escorado sobre seu braço enquanto a encarava.
  - Desafio-o. – Ela sorriu, maliciosamente.
  - Desafio aceito.
  Dito isso, se levantou como um raio: passando por cima de com uma expressão determinada no rosto.
  - Meu apartamento, às nove. – Disse, enquanto abria a porta, sentou-se, encarando-o.
  - Vamos fazer o quê?
  - Sair pra comemorar o fato de que eu pintei um quadro maravilhoso.
  - Vai lá, então, novo Goya.
  - Eu gosto mais de Delacroix. – Ele sorri, em desafio enquanto saía da sala.
  Oh, finalmente, além de certo, dizia o nome do pintor da maneira mais bonita que já tinha escutado.

  Balançou-se sobre os calcanhares, testando os saltos: tinha uma paranóia desde que um salto de sua amiga quebrara enquanto passeavam no shopping, desde então, testava os saltos antes de sair de casa, mesmo que uma coisa como essa fosse imprevisível.
  Pegou o casaco e saiu do apartamento, trancando a porta e descendo as escadas cantarolando algo aleatório, talvez Oasis. Saiu do prédio e caminhou até o de , onde cumprimentou o porteiro educadamente e subiu até o quinto andar, dando dois toques de leve na porta.
   caminhou até a porta ajeitando-se.
  Nem se ele tivesse uma obra original de Da Vinci, teria valido a expressão de quando o viu vestido daquela fora: um terno.
  - Por que está vestido assim? – ela arqueou as sobrancelhas, com os olhos brilhantes enquanto devorava a cena: o cabelo impecavelmente desarrumando, o maior charme de . As pulseiras rastafári nunca deixariam seus pulsos e nem muito menos seus all stars surrados. A questão era a gravata borboleta, que tendia ao azul, deixando os olhos de ainda mais destacados.
  - Você me disse que deveríamos ir o mais elegante possível a qualquer estréia. – sorriu, dono de uma lógica impecável.
  - Desde quando você usa terno? – ela perguntou, deixando que um sorriso encantado tomasse-lhe o rosto.
  - Sou um advogado quase formando, tampinha, tenho ternos. – Ele riu, desafiador enquanto saía do apartamento.
  - Aonde nós vamos? Eu ainda nem vi seu quadro. – Ela continuou com a expressão curiosa, ainda encarando dos pés à cabeça.
  - Nós vamos até o meu quadro. – riu, pegando-a pela mão e puxando-a até as escadas.
  Resolveu não render, quanto menos falasse, mais rápido saberia o que tinha aprontado: o que ela não tinha a mínima ideia do que seria, afinal, ensinara-lhe a história da arte, alguns nomes – seu gosto prevaleceu neste quesito, Goya, Delacroix, Van Gogh... e rapidamente alguns extremamente relevantes, como Salvador Dalí, por exemplo – e estilos, mas não lhe ensinara nada de técnica. Se encontravam há quase seis meses, e ela nunca dera um pincel a .
  Enquanto estava presa em seus próprios devaneios, a guiava pela escada até seu carro, onde abriu – educadamente – a porta (ato que, se em seu estado normal, teria deixado maravilhada. Mas estava ocupada demais tentando adivinhar qual seria a peripécia de ) e entregando uma venda.
  - Não, não , uma venda não! Pra que uma venda? – ela perguntou, segurando a tira preta que ele lhe entregara. a encarou, ainda não tinha dado a partida.
  - É surpresa, poxa. – Ele resmungou, começou a entregar-lhe a venda.
  - Vai, põem isso logo. – Ela disse, virando-se um pouco, ainda praguejando. – E vamos logo com isso, pois estou muito, muito, muito, muito curiosa. – riu, dando o nó na venda e certificando-se que estava bem colocada.
  - Além de lisonjeada. – Ele riu, dando partida.
  - Por que estaria lisonjeada? – ela arqueou as sobrancelhas, por debaixo do pano.
  - Porque eu estou te levando pra sair e estou de terno.
  - Vou repetir o que disse mais cedo: - ela sorriu, olhando para frente, nervosa com a venda – você não é o meu pintor favorito.
  - Vou repetir o que disse mais cedo: - ele a imitou, sorrindo – sou seu vizinho favorito.
  - Não tente competir com Van Gogh, você não pintou a “A Noite Estrelada”. – Ela sorriu, cruzando os braços e afundando-se sobre o banco.
  “Eu Fiz algo melhor”, respondeu internamente.
  Demorou um pouco, ele distraía perguntando algumas coisas que ele já sabia. Apenas para irritá-la voltou a falar sobre o Louvre. Ela tentou lhe dar um tapa no ombro, o que não conseguiu devido à venda.
  Quando parou o carro, ficou tensa: fez de tudo para não demonstrar o quão ansiosa estava, mas não conseguiu. Continuava se sentindo rígida no banco, como se cada músculo de seu corpo se contraísse.
  Relaxou quando ouviu a porta se abrindo e a mão de puxando a sua.
  - Cuidado, o chão é um pouco irregular. – observou, guiando-a enquanto segurava suas duas mãos.
  - Estou curiosa.
  - Borbulhando? – ele perguntou, rindo, enquanto a ajudava a andar um pouco.
   mediu seus passos, era uma desengonçada enxergando, imagina vendada? ajudou-a, fazendo com que sentasse sobre uma superfície rígida e gelada, além de muito lisa.
  - Posso tirar a venda? – perguntou, ansiosa.
  - Só um minutinho. – Ela ouviu-o fazendo alguma coisa, como dando alguns passos para trás enquanto soltava-lhe as mãos. Ele limpou a garganta, fazendo-a sorrir por exibir tamanho nervosismo. - "Andei por esta terra durante vinte anos e, por gratidão, quero deixar alguma lembrança." – Iniciou, citando o pintor favorito da moça, mudando apenas a quantidade de anos. Van Gogh dissera trinta.
  - E quer começar por onde, ? – ela desafiou, estimulando-o a continuar.
  - “Não há nada mais artístico do que amar verdadeiramente as pessoas.” – Citou Van Gogh novamente, fazendo-a sorrir. – Ou no meu caso, uma pessoa.
   arqueou as sobrancelhas, confusa. Mas a curiosidade a aquecera por dentro fazendo-a corar e sentir-se extremamente bem.
   deu os passos que o separavam das costas da moça, pousando uma das mãos sobre um de seus ombros e encaixou seu rosto próximo ao dela, colocando-o entre seu pescoço e seu ombro.
   arrepiou-se, detestava quando se aproximava assim, além dos limites, porque detestava estar fora de seu próprio controle.
  - "O amor é cego” – iniciou, colocando as mãos sobre o nó da venda e começando a desatá-lo -  “e os namorados nunca vêem as tolices que praticam".
  Dito isso, tirou a venda sobre o rosto da garota, deixando sua obra prima à mostra. A Noite Estrelada, não a pintura, mas a cena.
  O céu de Londres estava milagrosamente coberto por estrelas, de uma maneira que nunca estivera antes. A luz, cheia, reluzia no topo do céu e o Big Ben completava a cena, deixando-a idêntica – ao que possível – à cena de seu quadro favorito.
  - Gostou? – ele perguntou, agora ao lado dela.
   suspirou por um segundo, sem saber responder, abraçou os próprios braços, sentindo algumas lágrimas teimosas caírem sobre o rosto. Encheu o peito de ar, tomando a coragem necessária para laçar a mão de e repousar sua cabeça sobre o ombro dele.
  - É a coisa mais bonita do mundo, . – Sorriu, sentindo mais lágrimas teimosas. – Só tenho uma ideia de como te agradecer...
  - Como? – ele perguntou, interrompendo-a um pouco. Mas seu pensamento logo fora impedido de continuar, afinal, juntara seus lábios em um beijo calmo, verdadeiro. Suas línguas bailavam, quentes e ferozes enquanto eram um só, dançando alguma música que nenhum dos dois escutava. Os corpos se aqueciam de alguma forma, era como se explodissem por dentro, em milhões e milhões de flores.
  Quando a necessidade de ar surgiu, descolou os lábios – um pouco inchados – e encarou os olhos de , sorrindo.
  - O amor é eterno, a sua manifestação pode modificar-se, mas nunca a sua essência. – Sorriu, citando Van Gogh mais uma vez.
  - Que assim seja. – Ele concordou, antes de selar seus lábios novamente.

“Eu sonho minha pintura, e então eu pinto o meu sonho.”
Vincent Willem Van Gogh.



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