SISTRIONIX

Escrito por Leticia Aguiar | Revisado por Jubs (cap. 1) | Natashia Kitamura

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Capítulo 1

  Portland, setembro de 1987.

  As sirenes só poderiam indicar uma coisa: eu estava ferrada, mais uma vez.

   O barulho estridente me dava dor de cabeça e eu sabia que uma hora ou outra ela iria aparecer e a dor iria aumentar gradativamente. Entre o sermão dela e o sermão da polícia eu preferia ficar ouvindo aqueles trogloditas gritarem comigo durante horas inteiras só para não ter que encarar a minha amada avó.
   Senti um dos gigantes me puxarem de dentro da viatura, minhas mãos estavam algemadas, o que fazia a humilhação ser bem pior, e me levaram para a tão familiar delegacia de Portland. Entrei de cabeça baixa e eles me levaram direto para uma sala.
   Jogaram-me lá de qualquer jeito fazendo com que eu resmungasse de dor. Só então percebi que não estava sozinha. Sentada atrás de uma mesa no meio da sala havia uma mulher de terno e com o cabelo amarrado em um coque justo me olhando com serenidade. Franzi o cenho imediatamente.
   - Olá, Heather.
   Como aquela mulher sabia o meu nome? E o pior de tudo: por que eu estava tendo que ficar naquela sala com ela? Normalmente, quando eu era pega, eles me colocavam numa solitária e eu ficava lá até minha avó aparecer. Já havia acontecido tantas vezes que eu já tinha feito amizade até com as baratas que ficavam na cela.
   - Quem é você?
   Eu ainda estava atordoada devido à quantidade de álcool e drogas que eu havia consumido anteriormente e, por isso, minha voz falhou ao fazer a pergunta. Deveria estar uma verdadeira bagunça, o que só me fazia sentir mais inferior àquela mulher elegante. Ela fez um gesto me pedindo para sentar-se na cadeira disponível em frente à mesa, e assim eu fiz.
   - Meu nome é Dianna Green, sou assistente social. – Ela esticou a mão para apertar a minha e eu lhe mostrei as algemas. – Desculpe, eu falei para eles que não havia necessidade disso.
   Ela tirou uma chave da gaveta e destrancou as algemas que machucavam os meus pulsos.
   - Pelo visto além de burros eles são surdos também. – Falei enquanto massageava o local que havia ficado marcado.
   Ela soltou uma risada baixa e eu a examinei profundamente tentando entender o porquê de estar numa sala com uma assistente social quando deveria estar recebendo um enorme sermão de Anna, minha avó.
   - Você deve estar se perguntando o porquê de estar aqui falando comigo, não é? – Balancei a cabeça confirmando. – Pois bem, vamos direto ao ponto.
   Agradeci internamente por isso.
   - Você tem apenas dezessete anos, Heather, mas tem um histórico criminal enorme para a sua idade.
   Rolei os olhos.
   Ela falava como se eu fosse uma criminosa, eu apenas tinha a estúpida má sorte de sempre ser pega quando estava nos meus esquemas de drogas com Jimmy. O idiota sempre conseguia escapar e me deixava lá sozinha sendo arrastada pelos trogloditas, a culpa era minha, claro, de sempre cair em sua ladainha, mas fazer o quê se o perigo me atraía. Eu ainda era menor de idade, então nunca passava mais do que vinte e quatro horas na cadeia. Anna sempre aparecia furiosa e me arrastava de volta para casa, jurando que da próxima vez que eu fizesse isso iria me mandar para um internato. Sempre duvidei de suas palavras até a senhorita Dianna Green aparecer na minha frente.
   - Sua avó está muito preocupada com você. – Me controlei para não rolar os olhos novamente. – Você não pensa nela antes de cometer esses delitos?
   Foi a minha vez de soltar uma risada baixa.
   - Em quem você acha que eu estou pensando quando estou metendo o nariz naquelas carreiras de cocaína?
   Dianna me olhou feio e eu não evitei sorrir para ela.
   - Heather, sua avó está realmente desesperada.
   - Ah, claro! Então onde ela está?
   - Ela me pediu para que viesse, ela não quer fazer isso com você, mas entende que é para o seu próprio bem.
   - Como assim? Fazer o quê?
   Aproximei-me mais colocando meus braços por cima da mesa.
   - Ela espera que você entenda.
   Ela fez um sinal para um dos gigantes que, até então eu não havia notado, e ele entrou se postando ao meu lado.
   - Do que está falando?
   O desespero me dominando por inteira.
   - Sua avó está te mandando para o internato, Heather.
   O gigante agarrou meus braços e me levantou da cadeira.
   - Ela não pode fazer isso comigo! – Gritei para todos ouvirem, mas parecia que ninguém me escutava.
   - Ela sente muito.
   Ainda pude ouvir Dianna falar enquanto eu era arrastada por aquele troglodita para sabe-se-lá-aonde. Minha garganta estava doendo de tanto gritar quando alguém enfiou uma agulha no meu braço injetando algo, logo após tudo ficou escuro e eu apaguei.
   O inferno havia começado.

   ††††

   Tem sempre aquele momento quando você está tendo um pesadelo que a sua consciência retorna e você pensa “isso não é real, é apenas um pesadelo, acorde!”. Eu estava passando por esse momento, a diferença é que o meu pesadelo era real.
   Quando acordei meu corpo inteiro doía, tentei abrir os olhos, mas parecia que eles estavam colados. Tentei me levantar mesmo assim, mas uma voz falou:
   - Fique calma, não se esforce!
   Ao invés de fazer o que a voz me mandava, fiz exatamente o contrário. Me contorci no lugar e lutei para abrir os olhos até que, enfim, consegui. A claridade os invadiu quase me deixando cega, quando me acostumei com a luz observei tudo à minha volta. Parecia ser uma enfermaria, tinha prateleiras com diversos remédios e quando olhei para mim mesma vi que estava repousando sobre uma maca. Ao lado da porta, em minha frente, havia uma mulher de jaleco, aparentemente a enfermeira, me observando clinicamente.
   - Onde estou?
   Consegui perguntar quando juntei o pouco de voz que me restava.
   - Você foi injetada com um sedativo, precisa ter calma. – Ela aproximou-se de mim e eu observei um brasão bordado em seu jaleco. No entanto não o reconheci, não fazia ideia de onde estava.
   - Que lugar é esse?
   - É normal não se lembrar de nada durante as primeiras sete horas, por isso você precisa descansar.
   Dito isso ela não me deixou falar mais nada, só abri a boca para engolir uma pílula que ela me entregou. Alguns minutos depois fingi pegar no sono e quando a enfermeira finalmente me deixou só eu me sentei na maca. Observei com mais cuidado o lugar. Era de fato, uma enfermaria, mas o que eu estava fazendo ali? A maldita tinha razão, eu não me lembrava de nada. A última coisa de que me lembrava era de quando saí da casa de Anna e fui encontrar Jimmy no lugar de sempre, depois disso, tudo era um borrão.
   Levantei-me com cuidado para não fazer barulho e andei cautelosamente até a porta que ficava em frente a maca onde eu estava deitada. Coloquei o ouvido encostado na porta fria de metal e não ouvi nada, peguei na maçaneta e abri lentamente. Com apenas uma fresta aberta eu vi um corredor longo e extenso, busquei na minha mente se eu já havia estado nesse lugar antes e a resposta era não. Nunca havia colocado os meus pés ali. Estava prestes a abrir a porta e explorar mais o lugar quando ouvi vozes pelo que pareceu ser o início do corredor, fechei a porta rapidamente e corri de volta para a maca.
   Alguns segundos depois a porta foi escancarada. Fingi que estava contando quantas manchas de mofo tinha no teto, então não vi quem havia entrado.
   - Senhorita Anderson. – Uma voz que não era a da enfermeira me chamou. Abaixei o olhar e vi uma mulher, por volta dos seus cinquenta ou sessenta anos de idade, me encarado rigidamente. Ela vestia uma camisa branca de mangas compridas e uma saia longa que ia até os seus pés. No pescoço ela tinha um crucifixo e do lado direito de sua blusa tinha bordado o mesmo brasão do jaleco da enfermeira, novamente não o reconheci. – Sou a irmã Judith, diretora dessa instituição. Como você está se sentindo?
   - O que eu estou fazendo aqui?
   Ignorei sua pergunta. Já estava ficando desesperada para saber onde eu estava. Eu já havia acordado algumas vezes sem saber onde me encontrava, mas sempre tinha noção do que eu estava fazendo naquele momento. Mas ali, sentada naquela maca, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
   - Heather Anderson. Dezessete anos, órfã da mãe, pai desconhecido, mora com a avó materna, única parente viva, eu suponho, não terminou os estudos e tem uma ficha criminal maior que o meu braço. – Ela falava enquanto andava pela sala. Meu coração batia acelerado dentro de mim e eu temia que ele pudesse sair a qualquer momento.
   - O que eu estou fazendo aqui? – Repeti. Dessa vez mais amedrontada do que nunca.
   - Sua avó te mandou para um internato, senhorita Anderson. Nós vamos cuidar de você agora.
   Ela parou na minha frente com as mãos cruzadas em frente ao corpo. Ela esperava que eu dissesse algo, mas eu estava em choque. Então ela havia conseguido. Anna finalmente, depois de dez anos, conseguiu se livrar de mim. Eu não deveria ficar tão surpresa, ela sempre ameaçou fazer isso, mas como nas outras vezes eu achava que eram apenas ameaças.
   Devo ter ficado muito tempo paralisada, pois a irmã Judith parou ao meu lado colocando uma mão em meu ombro.
   - Descanse um pouco. – Ela pediu.
   - Estou bem. – Eu menti.
   - A enfermeira Elise falou que você tem que ter pelo menos mais duas horas de repouso. Descanse e mais tarde conversamos.
   Acenei com a cabeça. Não havia nada que eu pudesse fazer, a surpresa e a decepção correndo em minhas veias.
   - Poderei ver minha avó? – Perguntei antes que ela saísse completamente da sala. Irmã Judith estava com a mão na maçaneta prestes a abrir a porta, ela parou e virou para mim.
   - Não.
   Sua resposta foi a confirmação que eu temia. Eu estava sozinha no mundo.

   ††††

   No fim da tarde a enfermeira, que agora eu sabia que se chamava Elise, apareceu novamente na sala. Ela me deu água e me ofereceu uma sopa de aparência duvidosa, recusei a comida e tomei toda a água. Mais tarde, uma freira gigante apareceu na enfermaria. Olhei assustada para a enorme figura a minha frente.
   - A irmã Judith quer falar com ela. – A mulher não olhou para mim uma só vez. A enfermeira Elise balançou a cabeça e eu me levantei da maca. - Siga-me.
   E eu a segui. Aquilo era considerado um recorde para mim, em poucas horas eu já havia obedecido mais ordens do que eu já obedeci a minha vida inteira.
   Finalmente matei minha curiosidade em saber o que me esperava naquele corredor. No entanto, naquele espaço só havia a enfermaria. Andamos mais, a freira sempre na frente e eu mais atrás observando tudo. No fim do corredor havia uma escada com uns seis degraus. Subimos e demos de cara com outro corredor. As paredes eram escuras e a tinta era antiga, aquilo deveria ter sido construído há décadas. No fim desse corredor havia três portas, consegui ler “PROFESSORAS” numa delas. Paramos em frente à terceira porta e a freira bateu na madeira grossa.
   Ouvi a voz da irmã Judith me chamando para entrar, abri a porta e entrei.
   - Feche a porta. – Fechei e fiquei parada olhando para ela. - Sente-se.
   Aquilo já estava me irritando. Eu não era mais uma garota, era um daqueles robôs que se vê nos filmes de hoje em dia que faz tudo o que os outros mandam. De um jeito ou de outro, fiz o que me foi mandado mais uma vez e me sentei na cadeira em frente à uma gigante mesa de madeira, irmã Judith estava sentada do outro lado e eu me pus a observar o local. Era uma grande sala, a pintura era de cor escura o que fazia a sala ficar com um ar sufocante e nada aconchegante, havia uma enorme estante repleta de livros na parede do lado esquerdo e atrás da diretora havia uma enorme janela com um gramado à vista. Tentei ver além, mas ela chamou minha atenção para si.
   - Acredito que ainda esteja se perguntando que lugar é esse. – Confirmei com a cabeça. – Sua avó não mandou você para cá atoa. Ela não quer apenas se livrar de você, senhorita Anderson, sua avó espera que você mude, que se torne outra pessoa. E é para isso que estamos aqui.
   - Vão me fazer uma lavagem cerebral? – Falei com um tom de brincadeira, mas o modo como a irmã Judith olhou para mim me fez estremecer de medo.
   - Não utilizamos desse método aqui. – Fiquei calma. – O que fazemos nessa instituição é bem mais fácil e bem mais promissor. Se você cooperar conosco, claro.
   Eu não sabia o que esperar daquele lugar. Tinha usado a lógica para tirar minhas próprias conclusões, mas aquele instituto poderia ser qualquer outra coisa
   - Recebemos apenas garotas aqui, a maioria como você.
   Ela pegou uma xícara de café que repousava na mesa e bebericou o líquido.
   - Como eu?
   - Encrenqueiras. – Conti um revirar de olhos, a irmã Judith era muito parecida com Anna. – Mas todas elas saem daqui como mulheres respeitáveis, verdadeiras donas de casa prontas para viver em sociedade. Algumas, a maioria, se quer saber, vão até mesmo para o convento.
   Agradeci a quem tivesse lá em cima por não ter tomado aquela sopa nojenta. Certamente ela voltaria agora pela minha garganta com força total. De tantos internatos, de tantos reformatórios nos Estados Unidos, a minha amada avó decidiu me colocar justamente em um internato de freiras.
   - Você não será muito diferente, senhorita Anderson. As mais difíceis são as que mais mudam por aqui.
   - Você não me conhece. – Retruquei já farta de todos ali acharem que podiam me dá ordens.
   - Ah, não se engane! Eu trabalho nessa instituição há mais de trinta anos. O que eu mais vejo por aqui são garotas do seu tipo. – Ela soltou uma risada debochada e levou a xícara aos lábios mais uma vez.
   - Do meu tipo? – Foi minha vez de rir. – Eu já disse, você não me conhece.
   - Deixe-me ver – Ela pôs a xícara de volta na mesa. – Uma rebelde sem causa. Nunca conheceu o pai, a mãe morreu quando tinha seis anos de idade e foi criada pela avó, cuja criação foi negligente o suficiente para deixá-la fazer o que quisesse. Cresceu tentando mostrar ao mundo que não é igual a ninguém e que não faz nada que alguém espere que você faça. – O sorriso irônico em seu rosto me deu vontade de bater a cabeça dela na mesa. – No fim das contas você não é nem um pouco diferente das garotas daqui você é só mais clichê inevitável, senhorita Anderson.
   - Se você acha que eu vou entrar nesse seu joguinho e da Anna e vou concordar com essa merda toda você está muito enganada! – Gritei e me levantei da cadeira. Estava prestes a sair daquela maldita sala e ir em busca da saída quando olhei para a irmã Judith e ela estava rindo de mim. – Do que está rindo?
   Perguntei furiosa. Ela cessou a risada e olhou para mim sorrindo como se eu fosse uma criança fazendo palhaçada.
   - Você não vai sair desse lugar, minha querida, você vai permanecer aqui até não sobrar mais nada de quem você é.
   Ela levantou da cadeira e apoiou as mãos na mesa. Senti alguém segurando fortemente meus braços para trás, me imobilizando.
   – Seja bem vinda ao St. Heaven Institute.

Capítulo 2

  St. Heaven Institute, setembro 1987.
  Fui jogada num banheiro pela mesma freira que me acompanhou até a sala de irmã Judith. Ela me entregou uma toalha, roupas, um vidro de shampoo e um sabonete usado.
  - Fique limpa. – Então saiu do banheiro me deixando sozinha.
  Levantei do chão frio e apanhei as coisas que estavam jogadas. Coloquei tudo sobre uma pia e tirei minhas próprias roupas, meu jeans velho e rasgado, minha camiseta preta e fedida do Queen e meu all star sujo. Joguei tudo de qualquer jeito e entrei na ducha mal lavada e apertada.
  Quando a água atingiu o meu corpo eu também a senti saindo de dentro dele em forma de lágrimas. Não lembrava da última vez que eu havia chorado, mas sabia que fazia muito tempo. Minha mãe costumava falar que a pior fraqueza do ser humano era chorar, por isso ela nunca o fazia. Se ela estivesse me vendo nesse momento riria da minha fraqueza.
  Um barulho do lado de fora despertou-me fazendo com que eu terminasse logo com o banho. Peguei a toalha minúscula que mal dava para eu me enxugar direito e andei até a pia onde deixei as roupas que a freira me entregou. Era o uniforme da escola.
  Uma blusa branca com mangas compridas, que iam até os pulsos, de botões e com uma gola que me deixava sufocada. No lado direito do peito ficava o brasão, um escudo azul com uma cruz dentro dele e o nome St. Heaven Institute bordado de cor dourada ao redor. A outra peça era uma saia preta longa, idêntica à que irmã Judith usava, mas ia até o meio das canelas e não até os pés. Havia também uma meia três quatro de algodão branca e um par de sapatos parecidos com os que Anna usava: pretos, baixos e terríveis.
  Agradeci internamente o fato de que não havia nenhum espelho por ali, eu não suportaria me ver com aquele uniforme. Meu cabelo longo e cacheado estava molhado e todo embaraçado, não me deram nenhuma escova então provavelmente eu ficaria com uma juba até a próxima lavagem.
  A porta foi aberta bruscamente pela freira gigantesca e mau humorada e ela me analisou de cima a baixo.
  - Ponha a camisa dentro da saia. – Falou autoritária. Arqueei uma sobrancelha e a ignorei começando a andar para sair logo daquele banheiro fedido. Ela me barrou quando cheguei próxima a porta.
  - Quer me deixar passar? – Falei com uma calma exagerada.
  - Ponha a camisa dentro da saia. – Ela repetiu e tampou a porta com seu corpo enorme.
  - Não.
  Tentei passar mais uma vez e levei um tapa forte no braço esquerdo. Arregalei os olhos e fui em frente tentando mais uma vez sair dali. Acabei tomando outro tapa.
  - O que está fazendo, sua maluca? – Berrei e dessa vez tomei um forte tapa na cara. Minha bochecha ardeu no mesmo instante, lágrimas ameaçaram surgir nos meus olhos, mas as engoli. Virei meu rosto para encará-la e ela dobrou seu corpo para me olhar mais de perto.
  - Ponha a camisa dentro da saia. – A freira falou pausadamente, seu hálito bateu no meu rosto e eu engoli em seco.
  Coloquei a maldita camisa dentro da saia e nós finalmente saímos daquele lugar.
  O local onde ela havia me batido estava formigando e constantemente meus olhos marejavam. Eu não podia chorar, não ali, não na frente dela.
  Saímos do prédio onde ficava o banheiro, a enfermaria e a sala da irmã Judith. Passamos por um pátio aberto e eu me deixei abrir a boca. Aquele lugar era enorme. À minha direita existia um vasto gramado com flores, bancos e lá no final um poço. Existiam também mais dois prédios iguais ao que eu havia acabado de sair, com placas indicando o número um e três. Entre eles havia um prédio maior que todos os outros e era indicado na placa com o número dois. Do outro lado do jardim ficava um menor com uma enorme porta dupla na frente.
  - Ali é o refeitório. – A freira gigante apontou para o prédio de porta dupla. Observei de longe algumas garotas, de roupas iguais as minhas, entrarem e saírem de lá. – O café da manhã é servido às sete, o almoço ao meio-dia e o jantar às seis.
  Acenei com a cabeça.
  - Ali ficam os dormitórios. – Ela apontou para os prédios um e três. – O prédio um é onde ficam as meninas de oito anos até os quinze. No prédio três ficam as garotas de dezesseis aos dezoito. É nele que você vai ficar.
  Ela virou para mim e eu estremeci. Fomos em direção ao prédio do dormitório onde eu ficaria e eu agradeci mentalmente por isso. Não estava com a mínima vontade de ir socializar com uma daquelas garotas e já era tarde então provavelmente o jantar estava sendo servido. Passamos em frente ao refeitório e eu dei uma rápida olhada lá dentro, estava lotado, com garotas de todos os tipos. Fomos adiante e paramos em frente ao enorme prédio que ficava entre os dois dormitórios.
  - Aqui ficam as salas de aula. Você passará a maior parte do tempo aqui, fazendo atividades e estudando. – Enquanto observava a enorme fachada do prédio dois com o enorme brasão da Instituição estampado, fiquei pensando em que tipo de atividade eu faria. Engoli em seco e segui a freira, que já havia voltado a andar. Ela parou no hall de entrada do dormitório três.
  - Seu quarto é o de número duzentos e seis, no segundo andar. Na sua cama tem a lista de atividades e os seus horários, não toleramos atrasos aqui. – Ela me olhou firmemente e eu assenti, sem vontade alguma de trocar palavras com aquela mulher. Eu estava prestes a entrar no prédio quando ela me chamou. – Não faça nenhuma besteira, senhorita Anderson, as coisas podem piorar para você.
  Então ela virou e foi embora pisando firme na grama. Eu olhei em volta e vi algumas garotas se aproximando, me apressei e entrei de uma vez no prédio. O primeiro cômodo parecia uma sala de estar, havia alguns sofás, uma lareira enorme e uma prateleira cheia de livros. Encontrei as escadas ao lado da lareira e fui em frente subindo os degraus.
  O segundo andar era um corredor gigante repleto de quartos, ouvi vozes em alguns deles, mas ignorei e continuei procurando a porta duzentos e seis. Era o último no lado esquerdo, a porta estava fechada e eu me perguntei se deveria bater, mas afinal de contas o quarto também era meu, então abri a porta com tudo e entrei. Apenas para constatar que o local estava vazio.
  O quarto era dividido em três partes, em cada parte existia uma cama, uma escrivaninha e uma cômoda. A parte do meio e a do lado direito estavam repletas de coisas, havia livros e roupas jogados pelas camas. Apenas um lado, o lado esquerdo, estava vazio. Então presumi que aquele era o meu lugar do quarto. Andei até lá e me assustei ao ver a antiga mala de Anna ao lado da cama. É claro que ela própria arrumaria minhas tralhas e mandaria para cá, tudo para me ver longe. Sentei-me na cama de colchão duro e olhei em volta me perguntando como iria ser dali para frente.
  Dizem que é mais difícil a vida de um passarinho que passou a sua existência inteira livre e depois foi preso, do que um que ficou preso a vida inteira.
  Naquele momento eu era um passarinho que havia sido livre a vida inteira e agora estava enjaulado à sete chaves. Minha liberdade havia sido roubada e eu não pude fazer nada a respeito. O que era pior do que aquilo?
  Escutei risadas vindas pelo corredor e respirei fundo. Peguei a mala, que um dia já fora de Anna, e a coloquei sobre a cama. Dentro dela havia apenas algumas peças de roupa, as únicas que eram consideradas “decentes”. Nada de livros que eu gostava, ou cd's que eu escutava, ou a agenda onde eu costumava escrever algumas coisas, ou até mesmo uma foto para lá de velha que eu tinha com a mamãe, a única que eu tinha. Nada disso, apenas roupas. Minha raiva por Anna aumentou, eu teria jogado sua maldita mala janela afora se não fosse o fato de eu não estar mais sozinha no quarto.
  Dois pares de olhos me observavam atentamente no meio do cômodo. Eu as cumprimentaria, se eu soubesse como fazer. Não fui educada para ser gentil com alguém, na verdade eu não fui educada para nada.
  - Você deve ser a Heather. – Uma delas falou. Ela tinha os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, seu rosto era bem afinado e ela exalava uma simpatia acima do normal. Infelizmente, eu não confiava em ninguém que era simpático com um estranho.
  - Sim.
  - É um prazer conhecê-la, a irmã Paula falou de você hoje pela manhã. – Ela se aproximou de mim quase sorrindo pelas orelhas e eu me perguntava como alguém poderia parecer tão feliz em um lugar como aquele. – Eu sou Faith Wright, essa é minha melhor amiga e colega de quarto, Mary Elizabeth.
  Ela apontou para a garota atrás dela e eu a observei pela primeira vez. Ela tinha os cabelos cacheados bem curtos na altura das orelhas, um corte um tanto quanto moderno e ousado para um internato de freiras, pensei. Seu rosto era redondo e ela aparentava ter mais de vinte anos, quando eu sabia que tinha menos. Caso o contrário ela não estaria ali. Diferente de sua amiga, Mary Elizabeth não sorria para mim, me cumprimentou apenas com um aceno de cabeça, o qual eu correspondi.
  - Quem é irmã Paula? – Lembrei que Faith havia citado esse nome e quis saber.
  Mary Elizabeth riu e andou até a cama do lado direito, provavelmente a sua, e se sentou.
  - Ah, com certeza você já teve o desprazer de conhecê-la, boneca. – Ela falou comigo pela primeira vez e eu já a odiava pelo tom de voz que ela usou.
  - É uma freira que tem uns dois metros de altura. – Ah, a gigante. Claro. Então esse era o nome dela?
  - Conheço bem. – Falei enquanto retirava as roupas de dentro da mala e fui até a cômoda para colocá-las lá. Em cima da cômoda havia um papel dobrado, peguei-o e lembrei da lista de atividades que a irmã Paula havia me falado.
  - São seus horários? – Faith perguntou. Fiz que sim com a cabeça e ela se aproximou. – Posso ver?
  Entreguei o papel e ela começou a ler.
  - Temos a maioria das aulas juntas, que ótimo! – Ela sorriu para mim e eu tentei corresponder, deve ter parecido com uma careta mais do que qualquer outra coisa. – Sua primeira aula será de ética, com a irmã Gemima. Recomendo que não se atrase, ela é... Difícil.
  Balancei a cabeça confirmando. Já havia recebido esse conselho antes.
  Faith me entregou o papel de volta e olhou para mim, pela primeira vez, sem sorrir.
  - Sabemos o quanto é difícil no começo, mas com um tempo você se acostuma. – Me segurei para não revirar os olhos. Eu nunca iria me acostumar com aquele lugar.
  - Obrigada, mas não vou ficar aqui por muito tempo.
  Joguei minhas coisas dentro da cômoda e vi quando as duas garotas trocaram olhares.
  - Não tem como sair daqui, boneca. Se seus responsáveis não forem cheios da grana você vai ficar aqui até completar vinte e um. – Mary Elizabeth falou.
  Parei o que estava fazendo e me virei para ela.
  - Vinte e um? Mas achei que quando completam dezoito as garotas são dispensadas.
  Faith me olhou com pena e Mary Elizabeth gargalhou. Eu estava mais confusa do que antes.
  - Você ainda não entendeu, não é mesmo? Nós nunca seremos livres novamente, nunca seremos dispensadas. – Ela se levantou da cama e veio em minha direção.
  - Como assim?
  Sussurrei.
  - Beth... – Faith segurou em seu ombro.
  - O quê? Ela precisa saber Faith! Isso aqui não é uma colônia de férias ou um simples internato, é um reformatório. E quando você entra aqui, elas nunca mais te deixarão em paz.
  Meus olhos se arregalaram e eu descompassei. Isso não aconteceria comigo, eu daria um jeito de escapar dali. Só precisava de tempo.
  Pigarreei.
  - Não importa, eu irei sair daqui de qualquer jeito o mais rápido possível.
  Dei as costas e fui até a cama sentando-me nela e tirando aqueles sapatos horrorosos.
  - Você não ouviu nada do que eu acabei de falar? Não tem como fugir.
  - Ela está certa, Heather. Não tem como sair daqui por conta própria. – Faith veio em minha direção e segurou minhas mãos, eu as puxei de volta.
  - Valeu pelo conselho, mas darei o meu jeito.
  Mary Elizabeth bufou inconformada e voltou para a sua própria cama, Faith ainda me olhava com tristeza quando sua amiga falou:
  - Vá em frente! Eu realmente não me importo.
  Então nos deitamos cada uma em nossas camas. Faith apagou a luz e eu me cobri com o lençol que pinicava os meus pés descalços. Não estava com um pingo de sono, mas era melhor ficar deitada na cama pensando na merda que era a minha vida do que ficar falando com aquelas pessoas.
  Naquela noite chorei em silêncio até meus olhos ficarem pesados e eu caí em um sono profundo esquecendo-me de tudo ao redor.
  ††††
  Acordei na manhã seguinte com algo batendo em minha testa. Abri os olhos lentamente e vi Faith em pé ao lado da minha cama.
  - Vai se atrasar para o seu primeiro dia de aula. – Ela sorriu para mim e eu me perguntei se ela lembrava da conversa na noite anterior. Eu tinha deixado bem claro que não estava a fim de fazer novas amizades, ela claramente não leu as entrelinhas. – Na porta em frente às escadas fica o banheiro. Temos um por andar então são dez garotas dividindo um único banheiro.
  Sentei-me na cama e minha cabeça começou a latejar. Isso é o que acontece quando se fica a noite inteira chorando.
  Faith continuava me olhando ao lado da cama esperando que eu me levantasse, assim o fiz. Ainda estava com o uniforme do instituto, havia dormido com ele o deixando todo amarrotado.
  - Não se preocupe, elas sempre dão uniformes extras, deve ter um na sua gaveta.
  Fui até a cômoda e peguei lá no fundo da gaveta um uniforme cuidadosamente dobrado.
  - Vamos logo ou vamos perder o café da manhã.
  Saímos do quarto e dei de cara com um amontoado de garotas. Muitas delas vinham dos outros andares acima de nós, outras saíam apressadas de seus quartos e outras iam em direção à porta em frente à escada, o banheiro. Faith e eu andamos até lá esbarrando sem querer em algumas delas, umas me olhavam com cara feia e outras me ignoravam completamente.
  Preferia ser a pessoa invisível que sempre fui a minha vida inteira.

  - Quantas garotas existem aqui? – Perguntei a Faith assim que saímos do dormitório já prontas e de banho tomado.
  Estávamos cruzando o jardim e indo para o refeitório tomar café da manhã, algumas crianças corriam para lá e para cá enquanto as freiras gritavam com elas. Não tive a melhor infância do mundo, mas ao olhar para aquelas meninas com menos de dez anos de idade foi inevitável não sentir pena.
  - No nosso dormitório duzentas, e no outro cem. – Ela me respondeu no exato momento em que chegamos na porta do refeitório.
  Trezentas. Trezentas garotas eram presas naquele lugar.
  Respirei fundo e entrei logo atrás de Faith. Por mais que desde a minha chegada eu havia desejado ficar sozinha a maior parte do tempo, eu admitia que naquele momento eu precisava daquela garota.
  O refeitório era enorme, assim como todos os lugares daquele instituto. Vários bancos e mesas de madeira eram espalhados pelo lugar. Na parede da frente havia uma imagem de Jesus e ao lado a pintura de uma freira, possivelmente uma das fundadoras do St. Heaven.
  - E nenhuma dessas trezentas garotas nunca tentou fugir daqui? – Entramos na fila para fazer nossos pratos e eu abaixei a voz, mesmo o lugar estando uma verdadeira bagunça.
  - Todas elas.
  Arregalei os olhos e Faith virou a cabeça para me olhar.
  - E quantas conseguiram?
  - Nenhuma.
  Fiquei em choque. A fila andou e eu peguei uma bandeja.
  - Tá vendo aquela coisa marrom ali? – Faith me perguntou e eu assenti. – É pão. Se você comer, amanhã vai acordar com uma dor de barriga enorme.
  Fiz careta de nojo e ela riu de mim. Depois de termos pegado nossas comidas, eu com uma maçã, uns biscoitos e um suco de laranja, fomos nos sentar em uma mesa com várias pessoas já acomodadas, eu hesitei no meio do caminho, mas Faith disse que estava tudo bem, então eu fui. Havia seis meninas sentadas à mesa, dentre elas estava Mary Elizabeth, que nem olhou para mim quando eu me sentei à sua frente. Aliás, nenhuma daquelas garotas me olhou, estava feliz por isso.
  Peguei minha maçã e dei uma mordida, só então percebi o quanto estava faminta. As garotas tagarelavam ao meu lado enquanto eu estava focada em devorar os biscoitos que eu havia pegado, até que senti alguém me observando. Não é como se tivessem me cutucado e falado que alguém estava me olhando, mas eu tive a sensação de que estavam.
  Olhei em volta disfarçadamente, mas não troquei olhares com ninguém, quando estava voltando minha atenção de novo para os biscoitos eu a vi. Sentada numa mesa mais à frente que a minha estava uma garota bem alta, de olhos claros e com o cabelo amarrado em um coque elegante me observando atentamente. Eu notei que ela prestava atenção em todos os meus movimentos, já estava ficando irritada com aquilo, quando olhei para ela com uma sobrancelha arqueada ela devolveu o olhar cheio de ódio para mim. Não entendi nada, e nem deu tempo de tentar entender, alguns segundos depois um sino extremamente alto começou a tocar. Imediatamente todas as garotas se levantaram e foram em direção à saída.
  - O que está acontecendo? – Perguntei para Faith quando ela também se levantou.
  - O primeiro sinal. Todas temos que estar em nossas devidas salas de aula antes que o segundo sinal toque.
  - E quando ele toca?
  - Daqui a três minutos.
  Larguei rapidamente o biscoito sobre a mesa e fui andando apressada atrás de Faith, antes de sair olhei para trás em direção à mesa onde a garota que me encarava antes estava, mas não havia mais ninguém ali. Dei de ombros e continuei seguindo o meu caminho.
  - Onde fica a sala da irmã...?
  - Gemima. Décima porta do lado esquerdo, fica no terceiro andar, por isso você precisa correr.
  Balancei a cabeça e comecei a andar rápido, se essa tal de irmã Gemima fosse igual ou pior que as outras irmãs que eu conheci não seria uma boa ideia chegar atrasada. Quando entrei no prédio gigante ele estava lotado, cheio de garotas correndo para lá e para cá, me desesperei, eu nunca chegaria no terceiro andar em apenas dois minutos.
  Comecei a subir as escadas, mas era impossível ir mais rápido. Por sorte, quando cheguei no segundo andar, o fluxo de pessoas era menor, mesmo assim só me restava um minuto para chegar ao terceiro andar e achar a décima sala do lado esquerdo.
  Respirei fundo e comecei a correr para valer, quando finalmente cheguei, ofegante, faltava apenas segundos para o segundo sinal tocar. Fui contando as portas do lado esquerdo e quando cheguei na quatro eu a vi. A garota que estava me encarando no refeitório.
  Ela me encarava novamente, dessa vez sorrindo. Ignorei e continuei a seguir o meu caminho, no entanto, ela me parou.
  - Você é a Heather Anderson, não é? A novata? – Arregalei os olhos e me perguntei se ela sabia que eu estava prestes a me ferrar inteira.
  - Sou, mas eu preciso...
  Tentei continuar, mas ela me segurou pelos ombros.
  - Seja bem vinda, Heather Anderson.
  Sua voz era doce, mas seu rosto estampava as más intenções que ela tinha. Quando o segundo sinal tocou eu percebi que sim, ela sabia que eu estava prestes a me ferrar inteira.
  Tirei suas mãos do meu ombro de uma forma violenta e corri até a porta dez. Ainda pude ouvir a risada dela antes que eu abrisse a porta da sala da irmã Gemima bruscamente. Só depois foi que eu percebi a merda que tinha feito.
  Todas as garotas estavam em pé ao lado de suas respectivas cadeiras com as mãos juntas em frente ao corpo. Todas elas levantaram a cabeça para me olhar, no fundo da sala eu vi uma senhora com seus setenta anos, ou mais, andando em direção à porta, onde eu ainda estava parada.
  - Quem é você?
  Ela gritou do meio da sala.
  - S-sou Heather Anderson, eu sou nova aqui e...
  - E quem você pensa que é, senhorita Anderson?
  Franzi o cenho. Como responder aquela pergunta?
  - Eu sou nov...
  - Você já disse isso. Vamos, quem você pensa que é?
  Ela se aproximou de mim. Irmã Gemima era uns dez centímetros mais baixa do que eu, mas me deixava mais amedrontada do que a irmã Paula.
  - Desculpe-me – Era a primeira vez em tempos que eu usava aquela palavra. – Não deveria ter entrado assim.
  Ela tinha uma régua de madeira nas mãos e eu suava frio. Olhei para as garotas na sala e algumas retribuíam o olhar com pena, enquanto outras, a maioria delas, sorriam debochadas para mim.
  - Não tente dar uma de educada, senhorita Anderson. Isso aqui é uma aula de ética, você não entraria desse jeito se fosse educada. – Ela deu uma volta ao redor do meu corpo. – Agora me diga, senhorita Anderson! – Ela gritou atrás de mim. Me encolhi inteira, pude ouvir algumas risadas à minha frente. – Quem você pensa que é?
  Ela falou pausadamente, batendo a régua na mão a cada palavra dita. Eu sabia qual era o eu joguinho, infelizmente eu já havia jogado antes.
  - Ninguém. – Sussurrei.
  - O que disse? Fale mais alto.
  - Eu não sou ninguém.
  Falei mais alto com a cabeça levantada, olhei para a irmã Gemima com ódio e ela sorriu para mim. Eu péssima naquele jogo.
  - Exato. Agora sente-se no seu lugar e aprenda como ser educada.
  Andei rapidamente, quase correndo, para o fundo da sala, onde vi uma cadeira vazia. Quando a irmã Gemima mandou todas sentarem e finalmente deu início à aula um papel foi arremessado na minha mesa.
  Olhei ao redor para saber quem havia jogado e vi o olhar de Mary Elizabeth à minha direita, ela me olhava séria e fez um gesto discreto para que eu abrisse o papel.
  “Mandou mal, boneca.”  Era o que estava escrito em uma caligrafia tremida. Rasguei o papel e coloquei os pedacinhos dentro da minha meia.
  Se eu havia mandado mal ou não, eu não me importava. Eu não ficaria no St. Heaven Institute por muito mais tempo.

Capítulo 3

  Três dias haviam se passado desde a minha chegada ao St. Heaven Institute e a cada hora, a cada minuto eu desejava ir embora dali. Passei os dias inteiros conhecendo o lugar, vendo pontos de fuga e montando vários planos de como sair dali. Infelizmente, não estava sendo nada fácil. O instituto era rodeado por um muro com mais de quinze metros de altura, impossível de escalar. Além disso as freiras faziam ronda a cada cinco minutos em toda a parte do pátio, jardim e dormitório a noite inteira. Irmã Paula também passava todas as noites nos quartos para verificar se estavam todas dentro deles.
  Todos os planos que eu tinha formado em minha mente foram por água abaixo, ainda mais quando lembrava do que Faith havia me dito sobre todas as garotas terem tentado fugir e nenhuma ter conseguido. O que me fazia pensar que ela também já tinha tentado fugir. Eu teria perguntando, mas não estávamos nos falando muito ultimamente. Ela finalmente havia percebido que eu preferia ficar sozinha e só falava o necessário comigo, ainda comíamos na mesma mesa e nos falávamos nas aulas que tínhamos juntas, mas ela não me dava mais nenhum conselho e nem tentava se aproximar de mim. Mary Elizabeth também havia me deixado em paz, não me mandou mais bilhetes e só falava comigo quando estávamos sozinhas no quarto, dando apenas um “oi”.
  E quanto a garota misteriosa que ficava me encarando e que me metia em encrenca, bom... Faith e eu tivemos uma conversa sobre ela antes de nos afastarmos.
  Era quarta feira, estávamos no quarto apenas nós duas e eu resolvi lhe contar sobre a tal garota e descobrir, de uma vez por todas, quem era ela.
  Faith estava sentada na minha cama de frente para mim e eu lhe contei sobre o refeitório e o que ela fez comigo no corredor das salas de aula.
  Ela balançou a cabeça negando e fez um barulho com a boca.
  - Você a conhece? – Perguntei curiosa.
  - Infelizmente, sim.
  - E quem é ela?
  - Gina. A líder das Sisters Insane.
  - Sisters Insane?
  O que raios era aquilo? A cada minuto que passava aquele lugar ficava mais misterioso.
  - É tipo uma irmandade. Apenas garotas do último nível são membros.
  - Como assim último nível?
  - Não é regra do internato, foi só uma coisa que as internas bem antes de nós criaram. Basicamente, quando você entra aqui você é nível zero. Por isso ela fez aquilo com você, elas costumam fazer “brincadeiras” com as novatas.
  Ri indignada. Como se já não bastasse as freiras e a diretora daquele lugar me humilhando agora vinha um bando de idiotas “brincar” comigo.
  - E como alguém sobe de nível?
  - Bom, isso depende da pessoa. Elas vão fazer sacanagens com você até ver qual o seu limite, se você aguentar você sobe de nível, e se não aguentar...
  - E se eu não aguentar? – Insisti.
  - Elas vão fazer da sua vida um inferno, é para isso que elas estão aqui. Algumas delas já tem vinte e um anos, mas continuam aqui por causa dessa irmandade.
  - Isso é ridículo! Por que ninguém as denuncia?
  - Denunciar a quem? A Judith? As freiras? Elas não se importam nem um pouco, na verdade elas até meio que apoiam. “Isso deixará vocês mais fortes” é o que elas dizem.
  Eu odiava aquele lugar cada vez mais. Faith ficou em silêncio olhando para as próprias mãos.
  - E você?
  - Eu o quê?
  Ela parecia confusa.
  - Em que nível você está?
  Faith não me respondeu, já era noite e Mary Elizabeth entrou no quarto afobada porque irmã Paula iria fazer a vistoria dali em alguns minutos.
  No dia seguinte Faith mal falou comigo, assim como no resto da semana. Já era sexta feira e eu ainda não sabia qual o nível dela, talvez nunca saberia.

††††

  Quando voltei da minha aula de inglês, a última aula da sexta feira, fui à biblioteca que ficava no térreo do prédio dois. Entrei na sala enorme e repleta de livros e suspirei aliviada ao notar que não havia quase ninguém. Fui à uma das várias prateleiras que havia ali e peguei um livro de um padre falando a respeito da Segunda Guerra Mundial, fui até a mesa mais afastada e comecei a leitura.
  Estava focada nas palavras do padre fazia alguns minutos quando um grupo de garotas entrou na biblioteca. Elas eram barulhentas fazendo com que eu me desconcentrasse na leitura e prestasse atenção na conversa delas.
  - Vocês souberam que mudaram a hora da reunião das S.I de hoje à noite?
  Uma ruiva de cabelos cacheados falou.
  S.I? Me perguntei se elas estavam falando das Sisters Insane. Continuei atenta. Elas se sentaram a duas mesas de distância de onde eu estava.
  - Não. A que horas vai ser?
  Uma delas perguntou. Fingi que estava focada na leitura.
  - Às três. Parece que uma delas foi manchada, daí tiveram que adiar.
  - Essas idiotas! Vivem se encrencando por nada. Gina deveria fazer uma reforma de membros.
  Ouve um coro de concordância entre elas.
  - É, mas para isso precisam entrar níveis zero competentes nesse internato. Faz tempo que não temos uma novata de vergonha por aqui.
  - Até entraram, mas a Gina é exigente, vocês sabem. – A ruiva falou novamente. A essa altura eu não sabia mais nem quem era Hitler, minha atenção estava toda voltada para a conversa delas.
  - Tão exigente que está transformando as S.I numa merda completa!
  - Ei, vocês! – Uma freira gritou da porta. – Vão conversar em outro lugar!
  O grupo saiu deixando o local novamente em silêncio.
  Uma dúvida pairando em minha cabeça. Estariam as S.I recrutando níveis zero?
  Não que eu estivesse a fim que participar daquela irmandade idiota que tinha como objetivo ferrar as outras. Mas se eu entrasse, talvez elas me ajudassem a fugir. Se elas achassem que eu fosse uma delas elas me ajudariam, não era assim que uma irmandade funcionava?
  Sai da biblioteca com aquilo na cabeça. Um plano insano se formando em minha mente.
  Mas para isso eu precisava de ajuda.

††††

  - O que você sabe tanto sobre as Sisters Insane?
  Perguntei a Faith quando saímos do refeitório depois do jantar. Estávamos nós três no quarto e eu não me importei nem um pouco com a presença de Mary Elizabeth. Ambas olharam para mim assustadas.
  - Como assim?
  - Como você sabe sobre as S.I? – Era a primeira vez em dias que a Mary Elizabeth falava comigo.
  Contei a ela sobre Gina.
  - E o que você quer saber mais? Já não é o suficiente o que a Faith te contou?
  - Ouvi hoje na biblioteca que elas estão recrutando níveis zero.
  Elizabeth gargalhou e Faith arregalou os olhos.
  - E você está pensando em se candidatar? – Ela perguntou gritando.
  - Qual o problema? Eu sempre fui barra pesada mesmo. – Tentei brincar, mas as duas olhavam para mim com a boca escancarada.
  - Heather, é impossível entrar nas S.I. Como eu disse, elas escolhem os membros depois de testá-las ao limite.
  Franzi o cenho.
  - Então por que elas me deixaram em paz?
  - Vai ver elas já te puseram no seu limite – Mary Elizabeth deu de ombros. – Aquela cena na sala da irmã Gemima foi vergonhosa.
  Engoli a seco. Aquela memória ainda mexia comigo.
  - Você as deixou ver o quanto você é fraca, boneca.
  Por mais que eu odiasse admitir, ela tinha razão. Mas como provar a elas que eu não era fraca? Como provar as S.I e, principalmente a Gina, que eu ainda não havia mostrado quem eu era de verdade?
  - Não sei por que você está triste com isso. Eu ficaria imensamente feliz em saber que elas me deixariam em paz. – Faith falou sentada em sua cama. Olhei para ela e uma ideia surgiu.
  - Você sabe onde elas se reúnem?
  Perguntei tentando ao máximo parecer inocente.
  - Para que você quer saber?
  - Por nada. Só fiquei curiosa, pelo o que sei é impossível sair dos quartos depois da vistoria de irmã Paula.
  - É impossível para nós. – Falou Mary Elizabeth. – Mas quem é membro da irmandade tem certas vantagens.
  - Que vantagens? – Eu estava morrendo de curiosidade, queria arrancar tudo o que Mary Elizabeth sabia sobre aquelas garotas.
  - Elas tentam parecer discretas, mas qualquer idiota saca quem é membro das S.I e quem não é, não são tão inteligentes assim no final das contas. Por exemplo: quando uma delas chega atrasada na aula não são punidas como as outras, quando são pegas deixando o quarto depois da ronda também não são punidas. Ou seja, quem é Sister Insane têm vantagem.
  - Irmã Judith as apoia?
  Eu estava chocada. Tudo bem, minha vontade de fazer parte daquela irmandade foi de zero a cinco, mas eu ainda estava com um pé atrás.
  - Você sabe que esse grupo não existe há pouco tempo, não é? – Confirmei com a cabeça. – Pois é, dizem que antes da irmã Judith se tornar diretora, quando ela era apenas uma interna, ela era a líder das S.I.
  - Ouvi dizer que ela foi a fundadora. – Faith falou.
  - Não me admiraria. Mas então, vocês sabem onde elas se reúnem?
  Perguntei novamente. Mary Elizabeth cerrou os olhos para mim.
  - Olha, boneca, eu sei onde elas se reúnem, mas se você tentar fazer alguma merda e me ferrar por isso eu...
  - Não vou fazer merda, e nem vou te ferrar. Só quero saber onde é, já disse. – Tentei parecer o mais inocente possível, pareceu funcionar, pois ela suspirou derrotada e me contou.
  - Atrás do refeitório tem uma capela antiga, as missas de domingo costumavam ser lá, mas como está caindo aos pedaços agora elas ocorrem no pátio. Enfim, nessa capela há uma porta nos fundos e lá dentro tem uma abertura no chão. É tipo uma passagem secreta que leva a um túnel, no final dele é onde fica a sede.
  Faith e eu estávamos impressionadas.
  - Como você sabe disso tudo? – Faith perguntou e sua amiga deu de ombros.
  - Você já esteve lá? – Eu perguntei e novamente fui interrompida, dessa vez pela vistoria de irmã Paula.
  Ela revistou o quarto e nos mandou ir dormir. Quando a freira gigantesca foi embora olhei para Mary Elizabeth, mas ela apenas balançou a cabeça e deitou-se em sua cama.
  Dei de ombros e Faith apagou a luz. A única coisa que fiz foi esperar.

††††

  Ficar acordada até as três da madrugada foi fácil, difícil era fingir que estava dormindo quando eu estava mais inquieta do que nunca. Em cima da minha cômoda havia um relógio, quando tive certeza de que tanto Faith quanto Mary Elizabeth estavam dormindo eu estiquei a mão e o peguei para ver as horas. Três horas e dez minutos. Nem pontual nem atrasada demais.
  Ainda não havia pensado no que dizer quando eu chegasse na sede. Mas eu imaginava que conseguir chegar lá sem ser vista por ninguém e ainda ter descoberto o local, seria um motivo para verem o quanto eu era esperta.
  De qualquer forma eu estava determinada a ir.
  Fui até a janela que ficava ao lado da cama de Faith em completo silêncio e afastei um pouco a cortina para observar o jardim. Não vi nenhuma freira passando, fiquei mais alguns minutos observando e vi duas garotas correndo, prestei atenção no percurso delas, elas se escondiam pelos bancos e arbustos, eram um pouco desengonçadas, o que me dava mais esperança.
  Já havia me escondido da polícia diversas vezes, já havia até invadido uma casa certa vez com Jimmy.
  Jimmy. Ao pensar no babaca meu coração encheu de saudade. Teria ele me procurado depois de ter fugido dos trogloditas? Anna teria dito a ele que havia me mandado para um internato?
  Balancei a cabeça tentando afastar as lembranças. Pensar neles só me desconcentraria, e naquele momento era a última coisa que eu precisava.
  Andei até a porta e encostei o ouvido nela. Não ouvi nenhum barulho. Tomei coragem e abri a porta o mais devagar possível. O corredor estava escuro e vazio, andei lentamente em direção às escadas que rangiam a cada passo que eu dava, fazendo meu coração bater tanto ao ponto de eu senti-lo sob a blusa. Desci para o primeiro andar em seguida para o térreo, foi então que o desespero me atacou.
  A porta de entrada do dormitório estava fechada. Já estava preparada para voltar para o meu quarto e chorar até amanhecer quando resolvi me aproximar. Quase chorei, mas de alegria, ao constatar que a porta estava apenas escorada.
  Vantagem de ser Sister Insane? Totalmente.
  Abri a porta o mais devagar possível. Examinei o lado de fora e não tinha ninguém por perto, corri até o primeiro banco que vi. Me agachei e olhei em volta, estava tudo vazio. Onde estavam as freiras que vigiavam o jardim e o pátio durante a noite?
  Não tive tempo para responder, corri até chegar aos fundos do prédio dois. Ele era enorme, mesmo assim eu tinha que ir até o seu final para poder cruzar o jardim e ir até o refeitório.
  Quando cheguei no final do prédio eu vi a primeira freira fazendo sua vigia. Ela usava uma lanterna e tinha um apito pendurado por um cordão em seu pescoço. Esperei até que ela estivesse distante para ir até a lateral do prédio, quando o fiz me escondi atrás de um arbusto. Pouco tempo depois a freira voltou e eu me encolhi atrás das folhas. Ela foi para o pátio e desapareceu por lá. Essa era a minha chance de cruzar o jardim.
  Respirei fundo e fui. Olhando para os lados a todo instante, corri como nunca até chegar ao refeitório. Cheguei em segurança e fui até os fundos do prédio. Lá fora havia a capela abandonada. Não tinha ninguém por ali, no entanto fui me esquivando o caminho inteiro.
  Quando finalmente cheguei à porta me perguntei se não havia ninguém do lado de dentro. Tomei coragem e abri a grande porta de madeira, suspirei aliviada ao perceber que não havia ninguém ali. Fui até o altar e vi, ao lado do órgão, a porta da qual Mary Elizabeth havia falado.
  Andei me sentindo confiante em direção à porta. Abri e lá estava a tal entrada para o túnel, quase ri com a facilidade que foi chegar até ali.
  Anna sempre dizia que não se deve comemorar antes do tempo, não sei por que nunca a ouvi.
  Antes que eu pudesse levantar a tábua que tampava a entrada do túnel ouvi uma voz atrás de mim dizer:
  - Você foi aconselhada a não fazer nenhuma besteira, Heather. Por que não deu ouvidos?
  Quando me virei levei um soco direto na cara e desmaiei.

Capítulo 4

  - Cala a boca!
  - O que vamos fazer com ela?
  - Como ela conseguiu chegar aqui?
  - Eu já mandei calar a merda da boca!
  Eu ouvia todas essas vozes enquanto era arrastada para um lugar que eu não fazia a menor ideia de onde ficava, uma venda cobria os meus olhos e meu corpo estava amolecido.
  - O que está acontecendo? – Perguntei com a voz fraca.
  - Você já irá descobrir. – Alguém me respondeu.
  Eu só queria que tudo aquilo acabasse. Meus braços doíam de tanto elas me puxarem e eu estava sentindo cheiro de sangue, com certeza o murro que eu recebera havia cortado algo em meu rosto.
  De repente elas pararam. Soltaram meus braços e eu caí de cara no chão. Urrei de dor arrancando risadas à minha volta. Alguém tirou a venda dos meus olhos e me puxou pelos cabelos fazendo com que eu me sentasse no chão.
  Olhei ao redor tentando saber onde estava, mas tudo era escuro, a pouca luz do local vinha de uma lamparina acessa no teto. Eu deveria estar na sede das Sisters Insane. Alguns minutos atrás aquele era o lugar exato onde eu queria estar, agora eu só pensava em sair dali. Olhei para as garotas que faziam um círculo ao meu redor, elas usavam máscaras de gás me impedindo de ver seus rostos o que só deixava aquilo cada vez mais assustador.
  - Está feliz, Heather? – Uma delas se aproximou de mim segurando o meu queixo e levantando minha cabeça. – Era o que esperava de nós?
  Não respondi, fiquei apenas encarando aquela máscara macabra.
  - Sua vadia imunda! – Ela deu uma cabeçada em mim fazendo com que eu me deitasse no chão tonta. Elas riram novamente e eu estava prestes a chorar, mas, caso o fizesse, seria mais um motivo para elas rirem de mim. Então segurei o choro e me sentei novamente.
  De repente elas começaram a abrir caminho, de modo que se formou duas filas, uma a minha direita e outra a minha esquerda.
  Vi uma silhueta caminhando em minha direção, quando ela se aproximou e se agachou à minha frente eu a reconheci imediatamente.
  - Olá, Heather. – Gina falou daquele jeito doce e suave que ela havia falado comigo no primeiro dia de aula. Continuei calada. Ela se endireitou e começou a andar ao meu redor. – Sabe, quando eu soube que entraria uma novata aqui eu me animei, não tínhamos uma nível zero no instituo há meses, eu já estava ficando entediada. Quando eu soube que você era uma garota difícil me animei mais ainda. Fala sério! Você respondeu a irmã Paula no primeiro dia, e ainda levou um tapa na cara! – Como ela sabia daquilo?
  Gina riu arrancando risadas das outras garotas também.
  - Eu fiquei realmente impressionada, mas aí eu te vi no refeitório e você estava com as perdedoras. – Ela fez um barulho com a boca, como se estivesse decepcionada. E ela de fato aparentava estar, só não entendi o porquê. – Eu senti tanta raiva de você, Heather. Uma garota difícil como você não deveria se juntar àquelas merdas ambulantes. Então eu decidi te testar, ver como você reagiria ao ouvir os xingamentos da irmã Gemima, mas o que você fez?
  Ela parou na minha frente olhando para mim, retribui o olhar e continuei calada. Gina agachou-se novamente e segurou meu rosto.
  - O que você fez, Heather? – Ela sussurrou.
  - Eu falhei. – Respondi sentindo toda a humilhação voltar com força total. Gina balançou a cabeça e ficou de pé novamente.
  - Exatamente. Você abaixou a cabeça e foi fraca. E eu fiquei tão decepcionada que não consegui nem pensar em nada para me vingar de você. Eu tive medo de fazer qualquer coisa e você surtar. – As garotas riram. – Eu já tinha desistido de você, até que você me surpreende, surpreende a todas nós, e aparece aqui na sede.
  Sua voz não estava mais doce e suave, estava rouca e grave. Ela olhava para mim com o mesmo olhar do refeitório, com ódio.
  - Então eu te pergunto, Heather Anderson. O que você veio fazer aqui?
  Eu olhei ao redor, olhei para todas aquelas garotas de máscaras e imaginei se elas não se colocavam no meu lugar nem por um instante. Talvez algumas delas já tenha passado pelo o mesmo que eu, por que continuavam sendo tão cruéis?
  Por fim, olhei para Gina. A intocável líder das Sisters Insane. Que horror ela teria passado para agir daquele jeito? Não fazia sentido ela agir daquela forma só porque queria. Tinha que ter algo a mais.
  Respirei fundo tentando lembrar do plano que me levara até ali. Nada ocorreu como o esperado, mas eu não desistiria. Eu nunca desistiria de tentar sair dali, se isso implicasse em fazer coisas erradas, eu faria. Faria de tudo.
  - Não quero ser uma nível zero. – Falei decidida arrancando um sorriso debochado de Gina.
  - E o que você quer?
  - Ser uma Sister Insane. – Eu me pus de pé ficando frente a frente com ela.
  A sede virou uma bagunça. Algumas riram, outras me xingaram indignadas e outras gritavam para Gina acabar comigo. Continuei firme olhando fundo nos olhos da líder até que ela levantou a mão fazendo com que todas ficassem em silêncio absoluto.
  - Você quer se tornar uma Sister Insane? – Ela me perguntou com a voz doce e suave de antes.
  - Sim.
  Confirmei.
  - Pois bem – Arregalei os olhos e a bagunça na sede voltou com força total.
  - Calem as bocas! – Uma delas gritou e novamente todas se calaram.
  - Eu admiro sua coragem, Heather. Aposto que nenhuma dessas vadias teriam feito metade das coisas que você fez hoje.
  Ela sorriu para mim e eu continuava com os olhos arregalados sem entender nada.
  - Desculpa, Gina – A garota que mandou todas calarem a boca falou. – Mas ela não passou no seu primeiro teste. Todas as níveis zero que não passam no primeiro teste, ou são manchadas, não têm segunda chance.
  A sede inteira concordou.
  - Tem razão, sister. – Gina tomou a atenção de todos. Ela saiu da minha frente e foi para o meio do local. As garotas formaram um círculo novamente deixando apenas nós duas dentro dele. – Nenhuma nível zero depois de fracassar nos testes jamais teve uma segunda chance. Mas nenhuma delas nunca tentou nos convencer de que valiam a pena. Nenhuma delas saiu de seu dormitório de madrugada, sem que ninguém mandasse, e passou pelas freiras vindo direto para a nossa sede. Nenhuma delas nos provou que tinha coragem.
  Ela se virou para mim e eu comecei a suar frio. A dor física não me incomodava mais, eu só prestava atenção em Gina.
  - Mas Heather Anderson sim. Ela fez tudo isso e quando já estava decidido que eu iria acabar com ela – Ela aproximou-se de mim ficando tão perto que eu sentia seu hálito batendo em meu rosto. – Ela me convenceu do contrário. Então sim, eu acho que ela merece ter uma segunda chance.
  Àquela altura eu já havia considerado Gina uma maluca total. Hora quer acabar comigo, hora quer me dar uma segunda chance. Eu estava tão confusa quanto o resto das garotas.
  - Convoco uma reunião do conselho para analisar o caso.
  Todas concordaram.
  - Heather, você será mandada de volta para o seu dormitório e, assim que tivermos uma resposta, você será avisada. – Gina fez um sinal para duas garotas me levarem e eu balancei a cabeça.
  - Obrigada. – Agradeci sem saber o porquê de ter feito. Colocaram novamente uma venda em meus olhos e saíram me arrastando para qualquer lugar.
  Meu plano estava dando certo e, pela primeira vez desde que eu havia chegado ao St. Heaven Institute, senti esperança dentro de mim.

††††

  Nas terças e quintas eu tinha aula de música no último andar do prédio dois. Eu vinha fugido dessa aula nos últimos dias e como eu não havia arrumado nenhum problema com isso, resolvi que iria continuar fugindo. Estava saindo da minha aula de costura na terça feira – o St. Heaven achava obrigatório todas as garotas dali aprenderem a costurar, eu achava uma ridícula perda de tempo, quando desci as escadas do segundo andar e estava prestes a sair do prédio, alguém me chamou.
  - Senhorita Anderson – Irmã Paula veio até mim. Engoli a seco com medo do que iria me acontecer. – Aonde você está indo?
  - E-eu estava indo ao meu dormit...
  - Onde estão seus horários? – Ela me pediu e eu percebi que estava mais do que ferrada. Abri meu caderno e entreguei a ela a folha onde estavam os meus horários. – Você ainda tem uma aula.
  - É mesmo? Devo ter esquecido. 
  - Siga-me.
  Quase bufei indignada, mas temi levar outro tapa. O corredor estava cheio e eu tinha medo de ter alguma S.I por ali. Já haviam se passado três dias e elas não me mandaram nenhum sinal. A única coisa que eu podia fazer era manter a pose de “garota difícil”. Então, segui irmã Paula até o último andar em silêncio.
  Quando chegamos em frente a sala, que tinha escrito “AULA DE MÚSICA” na porta, irmã Paula olhou firmemente para mim.
  - Se tentar matar aula novamente, senhorita Anderson, você será punida. Entendeu? – Balancei a cabeça confirmando. – Agora entre.
  Eu entrei e suspirei aliviada ao perceber que a professora ainda não havia chegado. Na sala de música não havia cadeiras nem mesas, apenas um pequeno palanque no fim da sala e alguns instrumentos musicais. Notei Faith sentada na beirada do pequeno palco e andei lá.
  - Que novidade você vir para a aula de música! – Ela exclamou surpresa assim que me sentei ao seu lado.
  - Fui pega pela gigante tentando fugir do prédio. – Dei de ombros fazendo-a ri. – Como é a professora? É pior que a irmã Gemima?
  Faith sorriu misteriosamente para mim.
  - Por que não espera para ver? – Ela respondeu no exato momento em que uma mulher entrou na sala afobada.
  Arqueei uma sobrancelha sem entender nada. Ela andava com vários papéis nas mãos além de um violão nas costas. A mulher não se vestia como a irmã Judith tampouco como as freiras, ela era diferente. Seu cabelo ruivo comprido e arrepiado, seus óculos fundo de garrafa e suas roupas exóticas provavam isso.
  - Desculpem-me meninas! Perdi a hora e ainda levei sermão da irmã Paula no corredor. Me perdoem. – Ela falava rápido enquanto tentava segurar tudo que estava trazendo. – Kim, me ajuda aqui, por favor?
  - Qual é a dessa professora? – Sussurrei no ouvido de Faith que segurou o riso.
  - Professora Collins, temos uma aluna nova! – Faith gritou e eu arregalei os olhos para ela. O que aquela garota estava fazendo? Ela me olhou sorrindo como quem diz “presta atenção no que vai acontecer”.
  A sala inteira se calou e olhou para mim. Estava prestes a estrangular minha colega de quarto quando a professora Collins soltou um gritinho. Olhei para ela assustada e ela veio até mim derrubando tudo em seu caminho.
  - Meu Deus! Você deve ser a Heather. Heather Anderson! É um prazer tê-la aqui! – Ela me abraçou apertado e eu só bati minhas mãos nas suas costas. – Nunca temos novatas nessa turma, fiquei tão feliz quando soube que você seria minha aluna! Mas por que você não apareceu nas outras aulas?
  Ela me perguntou quase ofendida. Fiquei sem saber o que fazer. O que eu diria? Que eu estava fugindo das aulas dela porque eu não dou a mínima para aula de música? Seria muito cruel. Olhei para Faith e ela percebeu o quão perdida eu estava, a culpa era toda dela.
  - Ela comeu o pão do refeitório. E todo mundo sabe o que acontece quando se come aquela coisa... – Faith respondeu por mim arrancando risadas da turma inteira. Menos da professora Collins, ela me olhou com pena e mandou todas fazerem silêncio.
  - Sinto muito, espero que esteja melhor.
  - Estou, obrigada.
  - Ótimo! Vamos começar.
  Ela se afastou e eu lancei um olhar mortífero para Faith.
  - De nada. – Ela sussurrou e eu quis arrancar o sorrisinho convencido do seu rosto, mas deixei para lá e me foquei na professora Collins.
  Ela sentou-se no chão e todo mundo fez o mesmo, formando um círculo no meio da sala de música.
  - Já que temos uma novata aqui hoje, nada mais justo do que começar a aula conhecendo-a. – A professora sorriu para mim e eu engoli a seco nervosa. Odiava falar em público, e odiava mais ainda falar sobre mim mesma. Eu sempre acabava passando a imagem de coitadinha desprezada por mais que essa nunca fosse a minha intenção. Collins notou o meu nervosismo e abanou as mãos. - Não se preocupe, apenas sobre música. Nos fale do que você gosta.
  Pigarreei. Certo. Apenas música.
  Eu amava música, quando estava em casa sozinha no meu quarto ficava horas ouvindo os meus vinis e fitas. Eu gostava de todo tipo de música, mas o rock me encantava mais. Às vezes eu até arriscava cantar, fazendo Jimmy enlouquecer falando que eu deveria ser uma cantora de rock. Mas eu não contaria aquilo a professora Collins, muito menos a sala inteira. Então pensei bastante na minha resposta.
  - Eu não conheço muito de música, na verdade. – Aquilo era verdade. – Não conheço nenhum cantor ou banda atual, prefiro ler livros. – Aquilo era mentira.
  - Certo. E você sabe tocar algum instrumento? – A professora me perguntou, vi um pouco de decepção no olhar dela.
  - Um pouco de violão. – Aquilo também era mentira. Eu sabia tocar violão muito bem, modéstia à parte.
  - Então toque um pouco para nós. – Ela me estendeu seu violão e eu arregalei os olhos.
  - O que? Mas eu não sei tocar muito bem eu...
  Um coro de “toca, toca, toca” se iniciou e eu me dei por vencida. Peguei o violão das mãos da professora Collins e o posicionei em meu colo. Tentei pensar em uma música, mas nada me vinha a cabeça. Quando falei aquilo em voz alta Faith respondeu ao meu lado:
  - Toque uma música que a lembre os bons tempos.
  Bons tempos. A única coisa que eu lembrava era de quando minha mãe era viva e morávamos apenas nós duas.
  Como um estalo, uma música apareceu na minha cabeça.
  - Minha mãe costumava cantar isso para mim. – Falei tentando deixar a voz firme.
  As cifras deI Never Cry do Alice Cooper apareceram na minha cabeça como se tivessem estado ali o tempo todo. Fechei os olhos enquanto dedilhava aquelas notas que já significaram o mundo para mim.
  Toquei apenas metade da música, cantarolando baixinho, e tentando a todo momento fazer soar como se fosse uma pessoa que não sabe tocar muito bem. Quando acabei, todas as vinte garotas presentes olhavam para mim chocadas. Faith soltou um “uau” ao meu lado e eu jurei ter visto lágrimas nos olhos da professora Collins quando lhe entreguei o violão.
  - Muito bom, Heather. Excelente escolha de música. Agora vamos começar a aula. Como você é novata, senhorita Anderson, vou lhe explicar como funciona e você irá apenas observar hoje. – Balancei a cabeça e todo mundo se levantou. As garotas foram para cima do palanque, incluindo Faith, e eu fiquei onde estava ao lado da professora.
  Ela me explicou que a turma de música fazia parte do coral da instituição. E que, em alguns domingos durante a missa elas se apresentavam. Mas elas não ensaiavam apenas para o coral, professora Collins me contou que foi muito difícil no começo convencer irmã Judith a deixar as garotas terem outro tipo de aula de música além do coral. Com muito esforço ela havia conseguido um acordo com a diretora do St. Heaven. Nas terças as garotas tinham aulas para aprenderem a tocar os instrumentos que quisessem e nas quintas eram os ensaios para o coral. Com aula de canto e aquela baboseira toda.
  Algumas garotas pegaram os instrumentos e outras formaram três filas, uma atrás da outra. Faith foi para a bateria e eu arregalei os olhos surpresa.
  - Ela é a melhor. – Professora Collins falou para mim.
  Faith bateu com as baquetas três vezes e todas entraram em ação. Fiquei instantaneamente impressionada, as garotas que não estavam tocando algo cantavam. Diferentes tipos de vozes e instrumentos entrando em sintonia, era incrível. Em um estranho momento eu quis muito fazer parte daquilo. Professora Collins me olhou e, como se tivesse lido minha mente, falou:
  - Você fará parte disso, Heather – Ela apertou meu ombro. – Estou muito feliz por isso.
  Pela primeira vez, desde que eu havia entrado no St. Heaven Institute, sorri verdadeiramente.

  A aula de música tinha acabado, me despedi da professora Collins, depois das garotas, que se mostraram muito simpáticas, e segui o caminho até o dormitório ao lado de Faith.
  Eu a enchi de perguntas. Sobre desde quando ela sabia tocar bateria, quais as músicas preferidas dela, sobre a professora Collins e mais um milhão de coisas. Descobri que tínhamos mais em comum do que eu havia imaginado. Estávamos nos aproximando de novo e, diferente de antes, eu estava feliz com aquilo. Não queria mais me afastar dela.
  Entramos no nosso quarto rindo e falando extremamente alto sobre as peripécias da professora Collins, que na verdade se chamava Belinda. Eu estava me sentindo leve e despreocupada como há muito eu não sentia. No entanto, não durou por muito tempo.
  - É sério, Heather! Juro que ela chegou uma vez com o sutiã por cima da blusa – Eu ria muito quando me sentei na minha cama até que senti um papel sob o lençol.
  Coloquei minha mão por baixo e tirei de lá um envelope, estava escrito S.I. Meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar.
  Elas haviam, finalmente, me dado uma resposta.

Capítulo 5

  “Reunião amanhã (quarta-feira) na sede das S.I às 02hs00min. Não conte a ninguém, percorra o caminho discretamente e não seja pega. Se não cumprir nenhuma dessas coisas, irá se arrepender.
  Sisters Insane.”
  Era o que dizia o bilhete, com o brasão do St. Heaven Institute pintado de vermelho e preto no final da folha.
  Guardei o envelope dentro do meu caderno, notei Faith me observando do outro lado do quarto e tentei parecer o menos suspeita possível.
  Ela e Mary Elizabeth passaram o dia seguinte ao que eu fui até a sede das S.I me enchendo de perguntas. Eu não havia contado nada a elas, por mais que eu quisesse, tinha sido ameaçada para não abrir o bico. Então tive que fingir que o meu olho roxo, causado pelo murro que levei, havia sido uma batida na porta quando me levantei de madrugada para ir fazer xixi. Nenhuma das duas acreditaram, claro, mas me deixaram em paz quando lhes assegurei de que aquilo não tinha nada a ver com as Sisters Insane.
  - O que você leu aí? – Faith me perguntou.
  Comecei a ficar nervosa. Acalme-se Heather, todos percebem quando você está mentindo.
  - Eram os meus horários. Devo ter deixado cair e a irmã Paula trouxe para cá. – Ótimo. Por que a irmã Paula colocaria os meus horários em um envelope e traria para o meu dormitório? Torci para que Faith não chegasse a mesma conclusão que eu e respirei aliviada quando Mary Elizabeth entrou no quarto de repente tomando o foco para si.
  Meus olhos estavam na minha colega de quarto de cabelos curtos que nos contava uma fofoca qualquer, mas minha mente continuava no bilhete das Sisters Insane. O que será que me aguardava na sede delas no dia seguinte? Eu mal podia esperar.

††††

  Na quarta feira não consegui me concentrar em nenhuma aula, minha cabeça estava bem longe do que a irmã Abigail, professora de inglês, falava. Quando o sino tocou indicando a última aula do dia eu respirei aliviada. Fechei meu caderno e fui até a saída.
  Quando sai do prédio dois e estava indo em direção ao dormitório vi Gina caminhando até mim. Parei imediatamente de andar.
  - Você recebeu?
  Ela perguntou baixo com sua voz doce e suave de sempre.
  - Sim. – Respondi deduzindo que ela falava do bilhete.
  - Não é obrigatório ir, caso você tenha desistido de nós.
  - Eu irei. – Falei decidida.
  - Ótimo, agora vá. Suas amigas estão vindo aí. – Olhei para trás e vi Faith e Mary Elizabeth se aproximando, quando me virei para Gina novamente ela já havia saído do meu caminho.
  Àquela altura eu não fazia mais ideia de quem aquela garota era. No entanto, eu não me preocupava com os motivos do seu repentino interesse em me ter na irmandade.
  Foi o meu primeiro erro.

  À noite esperei novamente as garotas irem dormir para poder ir até à sede. Quando deu duas da madrugada fiquei de pé, troquei de roupa e fui até a janela ao lado da cama de Faith. Novamente, o jardim estava vazio. Fui até a porta do quarto e a abri minimamente para checar se havia alguém por ali, estava escuro, mas eu saberia se tivesse uma pessoa ali. Respirei fundo e sai o mais silenciosa possível.
  Desci as escadas do segundo andar tranquilamente, cheguei ao primeiro andar e estava vazio assim como o outro. Estava prestes a descer as escadas e ir para o térreo quando vi uma luz na sala de estar vindo em minha direção.
  Meu coração estava prestes a sair pela boca, deveria ser alguma freira fazendo sua ronda. Corri até o banheiro do primeiro andar tentando não fazer barulho. Se aquela freira me encontrasse eu estaria bem ferrada. Corri até uma das cabines dentro do banheiro, quase escorregando no piso molhado, e me sentei na privada levantando os pés.
  No mesmo segundo a porta do banheiro se abriu. Me sobressaltei e tapei a boca com a mão, para que minha respiração não fizesse barulho. Ela dava passos pelo local e eu tinha certeza de que seria descoberta pelo som do meu coração batendo. Eu estava na última cabine, no final do banheiro, quando vi a luz da lanterna passando por baixo da porta. Parei de respirar no mesmo instante, mas surpreendentemente a sorte estava ao meu favor.
  Tão rápido quanto a freira entrou, ela saiu. Quando ouvi a porta do banheiro batendo novamente soltei a respiração aliviada. Foi por pouco.
  Fiquei mais algum tempo dentro da cabine até ter certeza de que era seguro sair. Quando finalmente o fiz a freira não estava mais por ali. Desci as escadas do primeiro andar rapidamente e corri até o hall de entrada. A porta estava apenas escorada, como sempre.
  Sai do dormitório e fui direto ao prédio dois, o das salas de aula. O jardim e o pátio estavam vazios, aquilo me deixava cada vez mais confusa e intrigada. Todas as outras vezes que eu tentei sair do dormitório havia no mínimo cinco freiras vigiando o local, mas quando consegui fugir e fui até a sede das Sisters Insane não havia nenhuma.
  Talvez fosse mais uma vantagem da irmandade, eu esperava descobrir logo. Fui até o início do prédio e fiz a mesma coisa da outra vez, me escondi nos arbustos e esperei um instante. Ouvi vozes mais a frente e me abaixei totalmente atrás das folhas.
  - Você tem certeza?
  Era a voz de irmã Judith. Estremeci deitada no chão.
  - Tenho. Eu vi metade dos seus cabelos. – Outra voz respondeu.
  Eu tinha certeza de que ninguém havia me visto, elas não poderiam estar falando de mim, mesmo assim fiquei atenta.
  - Olhe seu quarto, se ela não estiver lá procure por todos os lugares daqui.
  Arregalei os olhos, mesmo que elas não estivessem falando de mim, se forem procurar por todos os cantos eu iria acabar sendo descoberta. Ouvi os passos na grama se afastando, levantei a cabeça para ver se as duas já haviam saído e quando o fiz dei de cara com o corpo alto e magro de irmã Judith virado de costas para mim. Abaixei rapidamente fazendo com que as folhas balançassem. Meu coração batia tão forte que eu sentia o chão estremecer, os pés de irmã Judith viraram em minha direção e eu já estava rendida. Tudo havia acabado.
  - Irmã Judith! – Alguém a chamou. Ela hesitou ainda parada olhando em direção ao arbusto que eu estava, mas desistiu e foi até a voz que a chamava.
  Suspirei aliviada. Quando vi a diretora do St. Heaven entrar no dormitório onde eu ficava, me levantei rapidamente e corri até o refeitório cruzando o jardim vazio. Fui até os fundos do prédio e não parei de correr. Cheguei na capela abandonada ofegante e assim que entrei no local alguém colocou um saco em minha cabeça cobrindo minha visão.
  - Finalmente, princesinha!
  Fui guiada até à sede das Sisters Insane em absoluto silêncio. Diferente da outra vez, elas não me puxavam com agressividade nem me xingavam, o que me dava um pouquinho mais de confiança.
  Quando cheguei ao local tiraram o saco de minha cabeça e, mais uma vez, eu não conseguia enxergar muito além, havia apenas uma luz no teto que não iluminava muito. Mas ainda pude notar cadeiras organizadas em fileiras ao meu redor e três lado a lado na minha frente.
  Todas sentaram e eu continuei em pé no centro. Três garotas sem máscaras se sentaram nas cadeiras à minha frente. Uma de cabelo curto, mais curto que o de Mary Elizabeth, sentada na ponta direita, outra de cabelo loiro e olhos grandes assustadores na ponta esquerda. E no meio estava Gina.
  Todas elas me encaravam e eu me senti uma presa diante de seus predadores. Pensando bem, era exatamente aquilo que eu era. Restava saber se elas iriam ou não me devorar.
  - Sisters, estamos aqui hoje porque essa nível zero invadiu nossa sede na semana passada. – A garota de cabelo curto falou. Todas sabiam que ela falava de mim, porém mesmo assim ela apontava. – Com o argumento de “eu quero ser uma Sister Insane” ela veio até nós sorrateiramente, passando despercebida pelos olhares atentos das freiras. Surpreendendo à todas nós.
  Eu tinha certeza de que ela estava sendo irônica. Não foi nada difícil chegar até a sede na primeira vez, mas claro, evitei dizer aquilo.
  - De fato isso nunca havia acontecido antes, mas não era lá um motivo para deixar uma nível zero fazer parte disso aqui. – Ouvi sussurros de concordância ao meu redor e murchei no meu lugar, a esperança se esvaindo. – Até que nossa líder, Gina, sugeriu que revessemos o caso dela antes de descartarmos a nível zero. – Ela apontou para a líder ao seu lado, que não tirava seus olhos de mim. – Passamos três dias inteiros discutindo sobre o que iríamos fazer até chegarmos à uma conclusão.
  As três levantaram e as garotas ao meu redor também fizeram o mesmo. Minhas mãos suavam frio e o medo surgia rapidamente dentro de mim. Na verdade ele esteve ali o tempo todo, mas a adrenalina e a excitação não deixavam que eu notasse.
  - Você será uma Sister Insane, Heather. – Gina falou se aproximando de mim. Paralisei no mesmo instante.
  - Com algumas condições, claro – A loira de olhos assustadores também se aproximou. – Não achou que seria assim tão fácil, não é?
  De repente todas as garotas começaram a bater os pés no chão de forma sincronizada. Elas formaram um círculo ao meu redor, Gina também entrou no meio com um tipo de cajado na mão. Ela batia com ele no chão acompanhando as pisadas.
  - Você terá de provar que é uma de nós, Heather. – Ela andava ao meu redor, o barulho fazia meu ouvido zunir e eu respirava fundo a cada batida no chão. – Não apenas convencer às Sisters, mas principalmente, mostrar que eu não estava errada.
  As pisadas mudaram para palmas e elas agora gritavam “S.I”.
  - Você terá uma semana para realizar algumas tarefas que separamos com muito carinho para você. – Mais gritos. – Se não conseguir realizá-las não terá mais chances e voltará a ser nível zero. E creio que já te falaram o que fazemos com as níveis zero por aqui.
  Balancei a cabeça, afirmando.
  “Elas fazem da sua vida um inferno.” A voz de Faith ecoou em meus ouvidos.
  - Boa sorte, Heather. E não seja pega.
  Meus olhos foram novamente vendados e eu fui arrastada para fora dali.
  Eu cumpriria qualquer tarefa que me mandassem. Se isso me ajudasse a sair daquele inferno.

††††

  Acordei na quinta feira com as vozes das minhas colegas de quarto ecoando pelo lugar. Abri os olhos lentamente, as poucas horas de sono dormidas eram mesmo que nada já que o colchão da cama era duro feito uma pedra. Eu estava exausta e dolorida como nunca fiquei. Nem mesmo quando passava a noite na cadeia.
  - Anda logo boneca, vai se atrasar! E ouvi dizer que as irmãs estão com a corda toda hoje. – Mary Elizabeth deu o seu característico bom dia. Ela sempre sabia de tudo o que rolava no instituto, o que me deixava mais intrigada ainda. Sentei-me na cama e vi suas expressões preocupadas – mais da parte de Faith.
  - O que houve?
  - Outra garota foi manchada. – De novo aquela expressão. Eu já havia ouvido antes e quando estava prestes a perguntar o significado Faith continuou. – E nós sabemos que você anda saindo do dormitório durante a madrugada.
  Engasguei.
  - Do que está falando?
  - Fala sério, Heather! – Era a primeira vez que Elizabeth me chamava pelo nome. – Você acha que somos idiotas? Ontem aconteceu a maior confusão no corredor e quando acordamos de madrugada você não estava na sua cama.
  - Onde você foi? – Faith me perguntou parecendo decepcionada.
  - E-eu não posso... – Comecei minha desculpa esfarrapada quando Mary Elizabeth me interrompeu.
  - Esquece. Só toma cuidado, você não vai querer ser manchada também. – Ela saiu do quarto batendo a porta com força. Olhei para Faith que estava sentada na beirada de sua cama, ela olhava para mim com os olhos tristes e eu percebi que havia estragado toda a conexão que criamos durante os últimos dias.
  - Faith, eu sinto muito.
  - Está tudo bem, não quero me meter na sua vida. Só escute o que a Mary Elizabeth falou.
  Ela estava prestes a sair do quarto quando eu a chamei.
  - O que significa ficar manchada?
  Ela olhou para mim por alguns segundos sem expressão alguma.
  - Você vai se atrasar, é melhor ir logo.
  - Mas...
  - Até mais, Heather.
  Então ela também se foi batendo a porta atrás de si.
  Joguei meu corpo no colchão novamente. Provavelmente iriamos nos afastar de novo e nunca teríamos aquela conversa.
  O barulho no corredor me despertou e eu percebi que estava mesmo prestes a me atrasar. Levantei-me rapidamente e fui até minha cômoda para pegar meu uniforme limpo, quando a abri encontrei mais um envelope lá dentro.
  Abri com pressa quase rasgando o papel quando vi o símbolo das S.I, o brasão do St. Heaven pintado de preto e vermelho, no final da folha. Respirei fundo antes de ler.
  “Heather Anderson, como já foi anunciado na noite anterior, você fará parte das Sisters Insane, contanto que cumpra todas as tarefas listadas abaixo.
  Tarefas essas que nos mostrarão o quão determinada e preparada você está para nossa irmandade. Sem questionamentos e sem métodos diferentes para realizá-las, você terá uma semana para cumpri-las.
  No final, se tiver êxito em todas as seis tarefas, você irá passar pelo ritual de inicialização e fará parte da irmandade.
  Tarefa 1: Sabemos como é difícil a saída do dormitório durante a noite após o toque de recolher. Sua primeira tarefa será furtar algo de qualquer quarto no dormitório do prédio um. Não importa o que seja, tem que vir do dormitório um.
  Tarefa 2: Chegue atrasada na sala da irmã Gemima novamente e, dessa vez, insulte-a.
  Tarefa 3: Rasgue uma página da Bíblia Sagrada que fica no pátio após a missa do domingo.
  Tarefa 4: As provas de algumas matérias escolares estão chegando. A maioria não tem tempo para estudar. Roube um dos gabaritos de qualquer prova na sala das professoras.
  Tarefa 5: Os livros da biblioteca são os mesmos há anos, roube um livro novo na biblioteca da sala de irmã Judith.
  Tarefa 6: Dedure alguém para a direção.
  Você será observada o tempo todo, não tente nos enganar.
  Boa sorte.
  Sisters Insane”
  Então era isso. Eu teria que roubar, dedurar pessoas e insultá-las para poder entrar naquela irmandade idiota. Sentei-me na cama novamente e pensei se era aquilo que eu realmente queria.
  Eu quero sair daqui, mais do que tudo no mundo! Uma parte de mim falou.
  Mas será que esse é o jeito certo de fazê-lo?, outra parte perguntou.
  É a única que há. Eu nunca conseguirei sair daqui sem ajuda de alguém. A outra parte, a menos racional e mais impulsiva respondeu.
  Com isso na cabeça deixei meu quarto e fui para o banheiro ficar pronta, tinha aulas para assistir e uma lista de seis tarefas para cumprir.
  Esperava que a sorte estivesse ao meu favor.

††††

  Na hora do almoço fui para o refeitório, não havia tomado café naquela manhã então eu estava faminta. Entrei na fila e peguei a bandeja para me servir daquela comida nojenta que era especialidade do internato. Quando peguei tudo e estava indo em direção à mesa em que sempre me sentava, todas as garotas, que já estavam acomodadas lá, saíram. Incluindo Mary Elizabeth e Faith, a última ainda me lançou um olhar piedoso antes de ser arrastada refeitório a fora.
  Continuei parada no meio do caminho feito uma idiota até alguém esbarrar em mim e derramar metade do conteúdo da bandeja.
  - Sai do caminho, novata! – Ouvi risadas ao meu redor e ignorei sentindo a raiva me consumir inteira. Continuei o caminho até a mesa e me sentei sozinha.
  - Esquisita.
  Ouvi uma delas dizer quando passou por mim.
  - Não liga para essas idiotas. – Me sobressaltei quando ouvi a voz de Gina à minha frente. Ela sentou e colocou sua bandeja na frente da minha.
  - O que está fazendo? – Perguntei alarmada. Gina nunca falava comigo na frente de ninguém fora da sede das Sisters Insane.
  - Estou te fazendo companhia. Parece que suas amiguinhas te abandonaram. – Abaixei a cabeça para o meu almoço e brinquei com o garfo, sem vontade alguma de comer aquilo.
  Eu não estava chateada com minhas colegas de quarto. Eu mesma escolhi aquilo. Ignorei seus conselhos e menti para as duas, que tipo de pessoa seria amiga de alguém como eu? Principalmente Faith, que havia sido tão gentil comigo desde o primeiro dia. Mas se eu quisesse sair dali, teria que ser assim.
  - Ah, vai me dizer que gostava delas? – Gina perguntou quando percebeu minha cara de merda.
  - Elas me impediam de ficar sozinha. – Dei de ombros tentando fingir indiferença.
  - Não precisa mais delas, agora você tem a mim. – Levantei a cabeça e olhei fundo em seus olhos.
  - Por quê? – Finalmente perguntei.
  - Por que o quê? – Ela parecia confusa.
  - Por que não quer que eu fique sozinha e por que me ajudou a entrar para a irmandade? – Abaixei o tom. Gina não pareceu surpresa como eu achei que ficaria.
  Ela deu de ombros e tomou um gole do seu suco.
  - Você e eu somos iguais, Heather.
  A observei bem e tentei encontrar algo em que fossemos parecidas. Eu não a conhecia bem, mas pelo o que ela já havia me mostrado dela mesma minha conclusão era que não tínhamos nada de iguais. Gina era cruel e não parecia ter afeto por ninguém, ao mesmo tempo em que conseguia ser misericordiosa e compreensiva. Ela era duas em uma, o bem e o mal. Eu era muito diferente daquilo. No entanto, permaneci em silêncio.
  - E as tarefas? – Ela me perguntou depois de um tempo.
  - Vou cumprir a primeira hoje.
  Ela sorriu abertamente para mim.
  - É assim que se fala! Eu espero muito que você entre, Heather. – Ela segurou minha mão por cima da mesa e a apertou. – Eu vejo muito potencial em você.
  De novo tive a sensação de não saber com quem eu estava lidando. Gina era uma jogadora, e eu precisava entrar no jogo se quisesse conhecê-la. Outra pessoa não daria a mínima, mas eu era Heather Anderson e meu maior defeito era ser uma filha da puta curiosa.
  - Eu também espero. – Dei um sorriso e me pareceu que Gina percebeu que ele era falso. Porém ela continuou calada.
  O sinal indicando o segundo turno tocou e nós nos dirigimos ao prédio dois. Fui até lá com a líder das Sisters Insane ao meu lado zombando de algumas garotas.
  Ela me falava seus apelidos e eu fingia achar graça. Quem quer que fosse aquela garota, nós não tínhamos nada em comum.

Capítulo 6

  Minha última aula na quinta feira era a aula de música com a professora Collins, como eu não a faltava mais me arrastei até o último andar do prédio das salas de aula e entrei na quinta sala à direita, onde estava escrito AULA DE MÚSICA na porta.
  Entrei e, como de costume, a professora desastrada ainda não havia chegado. Olhei ao redor e vi Faith conversando com algumas garotas, ela me olhou sem expressão alguma e voltou a conversa de antes.
  Eu já havia entendido, não passávamos de apenas colegas de quarto. Um pouco chateada andei até o pequeno palco que ficava no final da sala e me sentei lá sozinha. Alguns minutos depois a professora Collins entrou na sala, afobada como sempre, chamando a atenção de todas para si. Nos reunimos no centro da sala e a professora tomou a voz.
  - Irmã Judith me avisou que quer o coral na missa desse domingo – Houve murmúrios de insatisfação na sala inteira, eu fiquei apenas quieta na minha. – Eu sei, eu sei... Não temos ensaiado coisas novas ultimamente e um membro importante do nosso coro está... Impossibilitada de participar. – Todas ficaram momentaneamente caladas e com expressões ressentidas, fiquei sem entender nada até a professora Collins se pronunciar quebrando o silêncio. – Mas, por sorte, temos uma aluna nova e veremos em que posição ela se encaixa.
  Todas olharam para mim e eu arregalei os olhos assustada.
  - E-eu? Mas eu não sei cantar.
  Professora Collins me ignorou abanando as mãos.
  - A maioria aqui também não sabia, você vai se sair bem, não se preocupe. Agora, todas no palco! – Ela bateu palmas e todas, incluindo eu mesma, subimos no pequeno palco. Eu não sabia bem onde ficar então levei alguns empurrões até parar na ponta esquerda da segunda fila.
  Professora Collins nos entregou partituras com a letra da música e se posicionou no piano.
  - Heather, essa fila é onde ficam as vozes contralto, tente acompanhar as meninas dessa fileira nas notas e vamos ver se esse é mesmo o seu lugar. – Balancei a cabeça. – Escolhi In Christ Alone, vocês conhecem muito bem.
  Eu também a conhecia. Quando eu tinha dez anos Anna me obrigava a ir todos os domingos para a igreja, o coral sempre cantava aquela música, e querendo ou não eu aprendi letra por letra.
  A professora Collins começou a tocar e eu respirei fundo tentando me concentrar nas notas que saíam das bocas de minhas colegas. Suas vozes eram altas e grossas, enquanto a minha era mais arranhada e baixa, eu estava perdida não conseguindo acompanhá-las. Tinha certeza de que todas estavam percebendo o meu erro, foi então que a professora parou de tocar e todas se calaram olhando diretamente para mim.
  - Tudo bem, Heather. Você não está conseguindo acompanhar? – Balancei a cabeça afirmando. – Sem problemas querida. Cante para nós e vamos ver onde você tem que ficar.
  Eu olhei para ela alarmada.
  - Está tudo bem. Ninguém aqui vai zombar de você ou algo do tipo. Vamos lá, só um trecho!
  Respirei fundo e a professora Collins voltou a tocar. Fechei os olhos tentando esquecer de todas ao redor e me foquei apenas no som que o piano emitia. Comecei a cantar, com a voz que eu tinha, sem tentar acompanhar a de ninguém mais. A voz com a qual eu cantava minhas músicas preferidas para Jimmy, o único que já havia me ouvido.
  Por mais que não fosse religiosa e detestasse com todas as minhas forças aqueles fanáticos que me obrigavam a acreditar num Deus, que eu nunca havia sentido ou visto, aquela música era linda. Me lembrava um tempo distante, um tempo feliz, que nunca mais voltaria. Terminei a primeira estrofe e abri os olhos parando de cantar.
  A professora olhava para mim com os olhos arregalados por debaixo de seus óculos fundo de garrafa e eu sorri sem graça para ela.
  - Isso foi... Nossa! – As garotas me aplaudiram e eu quis me enfiar em um buraco. – Sua voz é linda, Heather! Não acredito que tentou escondê-la de nós.
  Levei alguns tapinhas carinhosos no ombro e alguns sorrisos simpáticos.
  - Hum... Obrigada.
  - Acho que já sei onde você vai ficar. – Ela saiu de trás do piano e me levou para a primeira fila me encaixando no meio. – No centro.

  Ensaiamos o resto da tarde inteira. Professora Collins estava me ensinando a controlar as notas, por mais que eu tivesse um timbre bonito, não era o suficiente se não conseguisse controlá-lo. Me senti confortável e incluída no meio das garotas, elas eram gentis e simpáticas, a única que não ligava mais para mim era Faith. Aquilo me deixava extremamente triste, porém eu não a culpava. Eu merecia tudo isso.
  Quando a aula acabou todas as garotas saíram da sala, mas eu fiquei para ajudar a professora com os papéis que estavam espalhados pelo chão.
  - Os últimos. – Entreguei para ela o último bolo de papel.
  - Obrigada, Heather. – Ela apertou meu ombro e eu retribuí com um aceno de cabeça. Quando estava prestes a sair da sala lembrei-me de algo e voltei para onde a professora estava. – Sim? – Ela perguntou quando eu me aproximei.
  - Posso perguntar uma coisa?
  - Claro!
  - O que houve com a garota que fazia parte do coral? – Ela pareceu surpresa. – A senhora disse que ela estava impossibilitada, posso saber o que aconteceu?
  Mordi o lábio incerta. Aquela era uma dúvida que havia ficado em minha cabeça durante toda a aula.
  - Ah... Ela... Teve alguns problemas com a direção e... – A professora parecia bem nervosa, como se estivesse escondendo de mim a verdade. – Ela está de castigo, isso! De castigo por um tempo.
  Cerrei os olhos para ela. Não acredito que ela achava que eu cairia nessa.
  - E o que ela fez para ser castigada? – Tentei parecer o menos pretenciosa possível.
  - E-eu... Me desculpe, Heather. São assuntos da direção, não posso respondê-los. – Ela pegou seus papéis, sua pasta e o estojo do violão e saiu porta afora numa pressa incomum.
  Tudo bem se ela não podia me contar. Havia quem pudesse.

††††

  Eu já estava no meio do caminho para o prédio um, onde ficava os dormitórios das garotas menores. Eram três da madrugada e o pátio exterior, junto com o jardim, estavam vazios. Já haviam passado uma freira ou duas, mas nada que me preocupasse. A preocupação veio somente quando eu tentei entrar no prédio e constatei que a porta estava trancada. Diferente do prédio três, meu dormitório, em que a porta ficava apenas escorada. Me desesperei, mas aí lembrei que havia as escadas de emergência no fundo dos prédios. Era arriscado, mas era minha única opção.
  Então dei a volta no prédio e, quando cheguei aos fundos, me segurei nas escadas. O que eu faria quando subisse? Provavelmente as janelas estariam todas trancadas, mas não me custava nada tentar. Aliás me custava tudo, porém eu não estava lá num momento de se pensar nas consequências.
  Subi as escadas e fiquei na altura do primeiro andar, todas as janelas daquele lado estavam fechadas. Subi mais um pouco, no segundo estavam do mesmo jeito. Só quando cheguei na altura do terceiro andar foi que encontrei uma das janelas entreaberta. Fui para o lado, para a outra escada, tentando a todo momento não olhar para baixo.
  Me segurei no parapeito da janela e impulsionei meu corpo para cima. Sentei-me com uma perna dentro e outra fora, havia três camas no quarto, exatamente como no meu, e todas as três garotas estavam dormindo. Observei seus corpos e pelo tamanho elas não tinham mais do que onze anos de idade. Entrei no quarto tentando a todo custo não fazer o menor dos barulhos, olhei em volta procurando algo que eu pudesse levar e que não fizesse muita falta para nenhuma daquelas garotas. Fui até a cama do meio e encontrei na cabeceira uma fita de cabelo vermelha, era feita de cetim e tinha um laço no meio. Peguei imaginando que a dona teria outras daquela e tratei de sair dali.
  Deixei a janela exatamente do jeito que estava antes, escorada, e desci as escadas de emergência devagar, com a fita de cetim amarrada no meu pulso. Dos fundos do prédio um corri para o dois e do dois para o três, direto para o meu dormitório, novamente não havia ninguém por ali.
  Entrei no prédio com um sorriso no rosto, havia sido mais fácil do que tinha imaginado.
  Fui até as escadas que me levariam ao primeiro andar olhando para o chão tentando não tropeçar, estava escuro então não vi que havia alguém ali. Foi só quando meu corpo se chocou contra outro que eu percebi que, mais uma vez, eu havia comemorado cedo demais.
  Me desequilibrei e quase cai escada abaixo, tanto pelo susto quanto pelo impacto. Uma mão segurou meu braço e outra tapou minha boca.
  - Shhhh!!!! – Ela pediu. Meus olhos piscaram rapidamente tentando reconhecer quem era, mas estava um breu. Eu me tremia inteira, a garota percebeu meu nervosismo e deu uma risada baixa. – Sou eu, relaxa.
  A voz doce e suave de Gina preencheu meus ouvidos num sussurro baixo. Respirei audivelmente aliviada e ela tirou sua mão da minha boca. Pôs um dedo em seus próprios lábios pedindo silêncio e foi até a lareira apagada que ficava na sala de estar do térreo. Eu observava tudo com os olhos cerrados tentando enxergar direito, vi quando ela pegou algo entre as pedras que constituíam a lareira.
  - Vem comigo.
  Eu a segui sem saber para onde íamos. Ela subiu as escadas do segundo andar, do terceiro, do quarto e foi seguindo até chegarmos ao último. Quando não havia mais lances de escada segurei seu braço.
  - Para onde está me levando? – Sussurrei.
  Mesmo no escuro eu consegui identificar seu sorriso, seus cabelos negros estavam soltos pela primeira vez e eram escorridos pelos seus ombros batendo em sua cintura.
  - Confia em mim, Anderson. Você quer ou não ser uma Sister Insane? – Ela me perguntou no mesmo tom.
  Meu silêncio deve ter respondido sua pergunta, pois logo depois ela voltou a andar. No final do corredor do último andar havia uma porta escrita SAÍDA DE EMERGÊNCIA, a qual dava para enxergar mesmo estando escuro. Gina tirou magicamente uma chave do seu bolso e abriu a porta devagar, lá dentro havia mais escadas, ela fez um sinal para que eu entrasse e assim eu fiz. Gina fechou a porta e tudo ficou escuro.
  - Calma. – Ela pediu e de repente uma pequena chama se acendeu. Ela tinha em mãos um isqueiro. – Vem.
  A líder das Sisters Insane foi subindo as escadas e eu logo atrás. No final havia outra porta, mas esta estava apenas escorada. Gina a empurrou e revelou um terraço.
  - Eu adoro vir aqui. – Ela me contou logo depois de escorar a porta com um tijolo que havia ali em cima. Nos sentamos na beirada do prédio três lado a lado. – Não tem ninguém para me incomodar, só meus cigarros e eu.
  Ela tirou um maço de cigarros do bolso, deveria ter sido a coisa que ela pegou na lareira. Tirou um e me ofereceu outro, de todas as drogas que eu usava o cigarro era o que eu menos gostava. Não me trazia a sensação entorpecente da maconha, ou a vibração da cocaína, mas mesmo assim o aceitei e Gina o acendeu com seu isqueiro.
  - Presumo que estava fazendo uma de suas tarefas. – Falou depois de uma longa tragada.
  - Sim. – Lhe mostrei a fita de cetim vermelha ainda amarrada em meu pulso. Ela sorriu e deu mais uma tragada.
  - Bom trabalho.
  Ficamos um tempão em silêncio, apenas fumando e sentindo o vento em nossos cabelos. À nossa frente estava o enorme muro que cobria o St. Heaven Institute, eu desejava que ele fosse pelo menos menor que o prédio, para que eu pudesse ver além, ao invés disso a única coisa que eu enxergava era o musgo que crescia pela parede do impotente instituto. Terminei meu primeiro cigarro enquanto Gina já estava no segundo.
  - Eu sei o que está pensando. – Ela falou de repente. A olhei sem entender. – Como seria bom sair daqui. Como seria bom ser livre novamente. – Sua voz estava amarga como o cigarro que eu havia acabado de fumar. – Mas depois de um tempo você percebe que esse é o melhor lugar em que deveria estar.
  Ela me olhou profundamente como se soubesse quem eu era, como se soubesse o que eu sentia. Quando na verdade eu sabia que era mentira, ela não sabia como eu me sentia, uma pessoa que fazia um inferno na vida de outras, como ela fazia, não sabe o que ninguém sente.
  Desviei meus olhos do dela e continuei fitando o muro à nossa frente. Eu queria encerrar todos os assuntos, queria não trocar mais uma palavra com ela naquela noite. Mas eu tinha dúvidas, e precisava saná-las.
  - Você sabe o que aconteceu com uma das garotas do coral? – Eu perguntei mesmo tendo certeza de que ela sabia.
  - Lyanna. – Afirmei mesmo sem saber se era aquele o seu nome. Gina continuou fumando seu cigarro por um bom tempo até me responder. – Ela foi manchada.
  Dessa vez eu descobriria. Só estávamos nós duas ali, ninguém chegaria e nos interromperia.
  - O que isso significa? É algum tipo de código que as novatas não podem saber?
  Falei tentando soar como uma brincadeira.
  - Sim.
  - O quê? Mas por quê? – Soei quase desesperada.
  - Você não pode saber o que é até ser manchada.
  Eu estava decepcionada e furiosa. Eu passei tempos querendo saber o que aquilo significava e quando estava prestes a descobrir falam que eu não posso. Não me convenci, eu queria arrancar mais coisas de Gina.
  - E você já foi?
  Ela apagou seu cigarro na sola do sapato horroroso do instituto.
  - A maioria de nós.
  - E é muito ruim?
  Ela riu pelo nariz e me olhou como se eu fosse uma criança curiosa, não deveria estar muito diferente daquilo
  - Não são muitas as coisas boas que acontecem por aqui, não é?
  Não era a resposta que eu esperava, mas era o suficiente para entender que era ruim. Era muito ruim ser manchada.
  - Precisamos ir.
  Ela levantou e bateu a poeira de sua saia, fiz o mesmo na minha e saímos do terraço. Descemos todas as escadas em silêncio e quando chegamos no segundo andar, o do meu quarto, ela parou de frente para mim.
  - Espero que não tenha ficado chateada, mas essa é uma das poucas regras do internato que eu cumpro. – Ela segurou meu braço e foi descendo sua mão até chegar em meu pulso, onde estava a fita. Ela a desatou e pegou para si. – Vou avisar as Sisters que você cumpriu a primeira tarefa.
  - Obrigada.
  Gina balançou a cabeça e seguiu seu caminho até o térreo para devolver os cigarros. Fiquei observando sua silhueta até ela desaparecer por completo.
  Eu lembraria daquela noite por um longo tempo.

††††

  Minha primeira aula na sexta feira era de ética com a irmã Gemima. Era a oportunidade perfeita para cumprir a segunda tarefa. Se eu soubesse como fazê-la. Eu ainda tinha trauma da irmã Gemima, mal olhava em seu rosto quando estava nas suas aulas, como eu poderia insultá-la?
  Quando o primeiro sinal tocou indicando o início das aulas naquele dia, eu não me apressei. Andei lentamente até o prédio dois, o plano se formando em minha cabeça conforme eu andava.
  Subi as escadas mais devagar ainda, estava com medo do que irmã Gemima faria comigo, mas eu havia acordado estranhamente corajosa naquela manhã. Talvez tenha sido a conversa com Gina na noite anterior, ou o jeito que minhas colegas de quarto me olharam quando passei por elas, me fazendo perceber que eu precisava urgentemente mudar minha situação.
  Quando cheguei ao terceiro andar pareceu que eu estava tendo um déjà vu. O segundo sinal tocou antes que eu chegasse à sala e lá no corredor estava Gina. Exatamente do mesmo jeito que antes. Mas dessa vez eu não estava com pressa, andei até ela.
  - Dessa vez, insulte-a. – Ela piscou para mim e eu acenei, continuando meu caminho até a sala de irmã Gemima, quando cheguei à sala dez parei e olhei para trás. Estava sozinha.
  Respirei fundo, reuni toda a coragem que havia dentro de mim e abri a porta com tudo. Era hora de dar a volta por cima.
  - O que pensa que está fazendo, senhorita Anderson? – Ela estava em pé no meio da sala, com sua cara rechonchuda e mau humorada de sempre, me olhando com fúria.
  - Entrando na sala. – Dei o meu sorriso mais sarcástico e usei o mesmo tom que costumava usar com Anna. A sala inteira me olhava boquiaberta.
  - Vejo que não aprendeu a lição desde a última vez, está querendo a segunda rodada, senhorita Anderson? – Ela se aproximou de mim com sua habitual régua de madeira na mão e eu não hesitei.
  - Eu não tenho medo de você, se é o que pensa. – Falei com tanta segurança que quase me convenci de que era verdade.
  - Ah, não? E quem foi que correu feito um coelhinho assustado depois de ter deixado bem claro que não era nada? Você não é ninguém, senhorita Anderson. Lembre-se disso. Agora pare com essa estupidez toda e sente-se em seu devido lugar.
  - Não. – Minha voz saiu grave como um rugido de leão.
  - Não? – Ela bateu com a régua em suas próprias mãos enquanto se aproximava mais de mim. A sala inteira assistia em silêncio e de bocas abertas.
  - Você que não é nada. Você e todas as suas colegas! Precisam bater, humilhar e amedrontar garotas indefesas para se sentirem melhor, para se sentirem importantes. Você está enganada, irmã Gemima – Fiquei cara a cara com ela, sentia seu ódio transbordando de seu corpo e vindo diretamente para mim. – Você não é ninguém.
  Aquilo foi a gota d'agua para ela. Irmã Gemima levantou a mão com a régua para me bater, mas eu fui mais rápida e segurei seu pulso antes que a madeira atingisse o meu rosto.
  Ela me olhava com fúria quando a sala inteira começou a gritar. As garotas me aplaudiam e gritavam meu nome deixando ambas, irmã Gemima e eu, desconcertadas.
  Irmã Gemima berrava para as garotas se calarem até que a freira gigante, irmã Paula, entrou na sala para saber o que estava acontecendo.
  - Leve-a até irmã Judith para que aprenda o que é ter educação. – Ela pontou para mim e irmã Paula agarrou meus braços me arrastando porta a fora. No corredor todas as turmas tinham parado suas aulas para verem o que estava acontecendo. Vi Gina enquanto eu era arrastada e ela sorriu orgulhosa para mim.
  Eu havia cumprido a tarefa número dois.

  Quando cheguei na sala de irmã Judith fui jogada lá de qualquer jeito pela freira gigante. A diretora do St. Heaven Institute estava sentada em sua cadeira, atrás da mesa de madeira que ficava no meio de sua sala. Ela bebericava em uma xícara enquanto lia a Bíblia Sagrada. Não havia levantado os olhos para mim uma vez se quer.
  - Por que acha que Jesus morreu por nós, senhorita Anderson? – Eu estava sentada de frente para ela observando suas feições. A cada vez que eu a via sentia mais raiva dela.
  - Para pagar pelos nossos pecados. – Respondi seca.
  - Sim. E porque Jesus achava que nos tornaríamos pessoas melhores. – Ela fechou a bíblia e olhou para mim com aquele olhar irritante de quem me conhecia a vida inteira. – Agora me responda, senhorita Anderson. Você acha que mudamos? Nos tornamos pessoas melhores?
  Irmã Judith impulsionou seu corpo para frente, ficando mais próxima de mim. Olhei fundo em seus olhos antes de responder.
  - Irmã Judith, existem lugares onde pessoas cruéis, que se dizem servas de Deus, prendem e maltratam garotas inocentes. Está me perguntando se mudamos porque Jesus morreu por nós? Bom, eu acho que a resposta está óbvia, não?
  Diferente de irmã Gemima, que me olhou furiosa quando critiquei os métodos do St. Heaven, irmã Judith apenas me sorriu calmamente.
  - Entendo seu ponto de vista, mas sinto em informar que você está errada.
  - Estou mesmo? A senhora acha que Jesus fica feliz ao ver que morreu por nós e vem gente como vocês e nos fazem passar por um inferno? É essa a mudança que Jesus esperava, irmã Judith?
  Eu já estava farta daquela conversa. Queria que ela me punisse logo, de qualquer modo, contanto que parássemos aquela conversa naquele exato minuto.
  - Nós não punimos em nome de Deus, senhorita Anderson. Ensinamos vocês as coisas certas, coisas que estão na bíblia, mas infelizmente não é sempre que vocês obedecem, não é? – Ela pegou sua xícara e deu mais um gole. – O que acha que devemos fazer com garotas difíceis como você? Conversar? Ah, poupe-me! Vocês já estão bem grandinhas para isso.
  - Então é assim? – Falei depois de um tempo. Irmã Judith me olhou confusa. – É assim que esse lugar funciona?
  - E como ele deveria funcionar, na sua opinião?
  Ela me desafiou com o olhar e a coragem que me submeteu antes de entrar na sala de irmã Gemima voltou com força total.
  - Ele não deveria nem existir, já que quer saber. Como melhorar pessoas maltratando-as e as humilhando?
  Irmã Judith ficou em silêncio e por um momento achei que a tivesse vencido. Até que ela soltou uma risada baixa e balançou a cabeça.
  - Você ainda vai entender, eu sei que vai. Mas agora, seu tratamento inadequado na aula de irmã Gemima não passará batido, porém vou ser misericordiosa com você, para que comece a entender como as coisas realmente funcionam por aqui. – Evitei um riso irônico. Como se qualquer coisa fosse capaz de me fazer ter menos raiva dela. – Ficará com a limpeza dos banheiros do prédio três até a próxima semana, de amanhã até domingo. A senhora Frey a orientará, caso não cumpra seu dever será mandada para cá novamente e, dessa vez, não serei tão compreensiva assim.
  Dito isso ela chamou a irmã Paula que me levou novamente ao prédio dois. Felizmente a aula da irmã Gemima havia acabado, então fui levada à minha aula de inglês.
  Na sala todas as garotas cochichavam e olhavam diretamente para mim, algumas com admiração e outras com desprezo. Eu era a mais nova fofoca no St. Heaven Institute, ótimo. Era o tipo de atenção que eu precisava.
  Ignorei a todas e me perdi em meus próprios pensamentos. As ações de irmã Judith me intrigavam cada vez mais. Aliás, tudo naquele instituto me intrigava e eu não via a hora de descobrir cada segredo que habitava entre aquelas paredes.

Capítulo 7

  St. Heaven Institute, 19 de setembro de 1987

  - Senhorita Anderson! – Ouvi a voz de irmã Paula me chamando assim que cruzei o jardim.
  Era sábado e eu estava indo em direção ao refeitório para o almoço. Havia passado a manhã inteira na biblioteca tentando evitar as pessoas, mas me rendi quando meu estômago vazio protestou.
  Me virei de má vontade e olhei para cima para enxergar o rosto da freira gigante.
  - O que foi?
  - Esqueceu de sua punição? – Perguntou. – Irmã Judith lhe deixou encarregada da limpeza dos banheiros no prédio três.
  Aquela maldita punição. Eu estava tão ocupada que havia me esquecido daquela droga.
  - Agora? Mas eu estava indo almoçar.
  - Não me importo, agora ande antes que eu dobre seus dias de punição.
  Ela me puxou pelo braço e eu me desvencilhei de suas mãos rapidamente. Eu sabia o caminho, não havia necessidade de me carregar. No caminho até o prédio três passei por algumas garotas que não paravam de me observar. Desde o dia anterior depois da cena na aula de ética, por onde eu passava as garotas sussurravam e me olhavam de um jeito estranho. Umas torciam a boca e outras me sorriam. Eu ignorava cada uma delas.
  Chegamos ao primeiro andar e entramos no banheiro onde uma senhora baixinha de cabelos curtos e ruivos vestida com um macacão azul, a cor do brasão do instituto, estava nos esperando.
  - Essa é a senhora Frey. – Irmã Paula me disse. – Ela cuida da limpeza geral do internato, vai orientá-la no seu serviço e a cada dez minutos eu venho conferir.
  A freira gigante me deu uma olhada firme antes de sair do local. Olhei para a senhora à minha frente esperando suas instruções.
  - As garotas desse prédio deixam os banheiros uma zona. Até as menores de sete anos são mais limpas do que essas porcas adolescentes. Você se deu mal, florzinha. – Fiz uma careta. – Primeiro você tem que jogar água por todo o banheiro, por mais que esteja sempre molhado, as lamas dos sapatos deixam tudo uma bagunça. Segundo jogue o sabão e espalhe com o esfregão, depois que essa parte estiver limpa, vá para as cabines. Escove os azulejos com essa escova – Ela pegou uma escova menor que a minha mão de dentro do carrinho com o material de limpeza. – E com essa lave as privadas. – Ela me mostra uma escova com um cabo um pouco maior que a primeira. – Por último, passe apenas um pano molhado nas pias. E só.
  Só? Me perguntei inconscientemente. Eu teria de fazer aquilo com mais seis banheiros, levaria o dia inteiro. Minha barriga roncou quando a senhora Frey me deixou sozinha no local. Amaldiçoei irmã Judith com todas as pragas existentes. Peguei um balde com água e derramei no chão imundo, me convencendo a todo instante de que se eu queria entrar nas Sisters Isane aquele era um dos preços que eu tinha de pagar.
  Joguei o sabão e comecei a espalhar com o esfregão, do jeito que a senhora Frey falou. Quando eu morava com Anna ela sempre me obrigava a limpar a casa, e a parte que eu mais detestava era lavar o banheiro, estava quase convencida de que irmã Judith sabia mesmo tudo sobre mim.
  Comecei a cantarolar uma música qualquer e me distraí com pensamentos aleatórios. Quando me dei conta já havia lavado metade do banheiro, faltavam apenas as cabines e as pias. Irmã Paula apareceu de súbito me assustando, respirei fundo colocando a mão no peito.
  - Você me assustou.
  - Volte ao trabalho. – Revirei os olhos tomando cuidado para que ela não percebesse e voltei para o que estava fazendo.
  Meia hora depois o banheiro do primeiro andar estava brilhando. Irmã Paula apareceu e observou o local atentamente, olhando dentro de todas as cabines, para ter certeza de que eu havia acabado.
  - Ótimo. Agora faltam apenas cinco. – Notei em sua expressão que ela queria sorrir. Aquilo só me fez sentir mais raiva.
  Fomos para o segundo andar, o qual ficava o meu quarto, e eu fui sofrendo empurrando o carrinho de limpeza pelas escadas. Irmã Paula não moveu um dedo para me ajudar, pelo contrário, me apressou para subir logo. Quando chegamos ao banheiro não segurei um suspiro de cansaço, o banheiro do segundo andar estava pior que o primeiro.
  - Eu nunca havia notado que esse banheiro é tão sujo. – Deixei escapar em voz alta.
  - Agora pense melhor antes de agir como uma selvagem. Ao trabalho. – Ela fechou a porta e eu mostrei o dedo do meio para a madeira à minha frente.
  Tirei as coisas do carrinho e voltei a fazer a mesma coisa que fiz no banheiro do primeiro andar. Água, sabão, esfregão, escova, pano molhado. E assim se seguiu pela tarde inteira.

  Era final de tarde quando eu finalmente cheguei ao último banheiro, no sexto andar. Minhas mãos estavam enrugadas e eu tinha certeza de que do prédio ao lado as pessoas podiam ouvir minha barriga roncando.
  Eu já havia limpado o banheiro inteiro incluindo as cabines, faltavam apenas as pias, então peguei o pano molhado e comecei a limpá-las. Estava pensando em qual porcaria eu iria comer no refeitório quando um grupo de cinco garotas entraram rindo e falando alto no banheiro. Me virei para olhá-las e reconheci uma delas, a garota que havia esbarrado comigo no refeitório e que havia me chamado de esquisita.
  Ela me deu um sorriso maldoso e eu me virei novamente para continuar o meu trabalho, naquele dia eu estava sem paciência para aturar aquela gente.
  - Então foi essa a punição que a novata recebeu por enfrentar a irmã Gemima? – Ela perguntou e logo depois deu uma risada sarcástica. A ignorei como eu vinha fazendo com todas as outras nos últimos tempos e continuei a limpar as pias. – Não me admira que a queridinha da Gina tenha se safado assim.
  Queridinha da Gina? Não contive uma risada.
  - Acha graça novata? – Outra delas me perguntou. Me virei para olhá-la, ela tinha o rosto magro e comprido. Eu me lembrava dela, Gina tinha me dito que o seu apelido era “Lauren Cara de Cavalo”. Na hora eu havia achado ofensivo e extremamente infantil.
  - Acho, para falar a verdade. – Cruzei os braços em frente ao peito.
  - Você se acha a esperta, não é mesmo novata?
  - Mais esperta do que você, eu garanto. – Não a afetei como achei que afetaria. A que tinha esbarrado em mim riu novamente.
  - Você esperta? Vejamos... Quem está lavando os banheiros e limpando toda a merda das garotas do prédio três? Quem acha que ninguém sabe que você está tentando entrar para as S.I? E o melhor... – Ela se aproximou de mim com um olhar feroz. – Quem está caindo direto nas garras da Gina?
  Continuei encarando-a em silêncio.
  - É você, novata. Você não passa de uma idiota. Não esqueça de me contar quando quebrar a cara com a sua nova amiguinha, eu adoro rir da desgraça alheia.
  Dito isso elas saíram aos risos do banheiro. Encarei a porta pensando no que ela havia falado.
  Era estranho o modo como todos falavam de Gina e das Sisters Insane, Faith, Mary Elizabeth e agora essas garotas. Citavam Gina como um monstro, e as Sisters Insane, como de fato, insanas. Porém eu não havia notado nada daquilo, elas eram estranhas, eram um pouco cruéis sim, e eu não conhecia Gina muito bem para dizer quem ela era de verdade. Mas tanto ela quanto a irmandade eram muito diferentes do que todas me falaram. Talvez estivessem exagerando, ou talvez estivessem falando a verdade a qual eu não enxergava. De um jeito ou de outro eu só descobriria a verdade continuando com o meu plano maluco.
  - Ainda não acabou? Limpe já essa sujeira! – Irmã Paula me tirou dos meus devaneios. Estava prestes a lhe dizer que só faltavam as pias para serem limpas quando notei que o chão estava novamente sujo. As garotas deveriam ter feito aquilo com seus sapatos. Suspirei tentando conter a raiva e fui novamente limpar o chão do banheiro no sexto andar.
  Minha barriga vazia roncava e minha cabeça cheia de pensamentos doía.

††††

  Na hora do jantar me sentei na mesa mais afastada de todas, mal tirava os olhos da bandeja à minha frente. Não havia comido nada desde o café da manhã, estava quase desmaiando de fome. Estava tão focada na minha comida que nem havia notado quando alguém se sentou na mesma mesa que eu.
  - A comida não vai fugir daí, Anderson. – A voz doce e suave de Gina preencheu meus ouvidos.
  Eu ainda não tinha me acostumado com a sua constante presença.
  - Estou morta de fome. Fiquei a tarde inteira lavando banheiros.
  Ela riu e era a primeira vez que eu escutava sua risada verdadeira. Era melodiosa como sua voz e eu me perguntei como ela conseguia ser assim.
  - Vai por mim, essa é a melhor punição que você poderia levar. – Olhei profundamente em seus olhos.
  - Você tem algo a ver com isso?
  Gina não se abalou.
  - Por que eu teria? – Perguntou enquanto dava uma mordida em seu bife.
  - Sei lá – Dei de ombros e tomei um gole do meu suco de laranja. – Você não é a protegida da irmã Judith ou algo assim?
  Soube no instante em que Gina deixou seu garfo cair no prato que eu havia falado besteira. Seus olhos se cerraram em minha direção e eu engoli em seco.
  - Nunca mais repita isso. – Sua voz não estava mais doce e suave, estava grossa e rouca como um trovão.
  Balancei a cabeça e passamos o resto do jantar comendo em silêncio. Eu já havia entendido que falar de irmã Judith para Gina era um assunto proibido, só não entendia por quê. A garota que zombou de mim no banheiro e que havia esbarrado em mim no outro dia me olhava do outro lado do refeitório. Seu olhar era duro e cheio de desprezo.
  - Quem é aquela garota? – Perguntei e abaixei a cabeça para que ela não percebesse o que eu estava falando.
  - Quem? – Gina olhou em volta e notou o olhar da garota sobre nós. – Aquela que está ao lado de Lauren Cara de Cavalo?
  - Sim.
  - Alana Mason.
  - E por que ela me odeia?
  - Ela não te odeia. Só tem inveja porque você vai fazer parte das S.I e ela não. – Olhei novamente para a garota, que agora eu sabia que se chamava Alana, e ela continuava me encarando.
  - Por que não? – De novo minha curiosidade falando por mim, mas Gina não se importava que eu fizesse perguntas e, diferente de todas as outras pessoas naquele internato, ela me dava respostas.
  - Ela não passou no teste. – Ela deu um gole em seu suco. – E depois ficou tão irritada com isso que foi nos denunciar para a direção.
  Gina riu mais uma vez.
  - E o que aconteceu? – Eu havia me esquecido de sentir fome, a comida já esfriava no meu prato.
  - Nós fizemos com ela uma das maiores sacanagens que o St. Heaven Institute já viu. - Falou toda orgulhosa.
  Eu não sabia qual havia sido a sacanagem, mas sabia que tinha sido horrível. Me senti estranhamente mal depois daquilo, tão mal que nem quis saber o que havia acontecido. Naquele momento eu preferi ficar de boca fechada e de olhos bem abertos para ter mais certeza de com quem eu estava lidando.
  Alana Mason podia não ser flor que se cheirasse, mas poderia estar certa a respeito da líder das Sisters Insane.

††††

  St. Heaven Institute, 20 de setembro de 1987
  No domingo, fui dispensada da minha punição graças ao coral do St. Heaven. Como iríamos nos apresentar na missa daquele dia, professora Collins pediu a autorização de irmã Judith para que eu fosse liberada e passasse o dia inteiro ensaiando com as outras garotas. Ela relutou, mas depois concordou que eu precisava de ensaios já que eu era novata.
  Então, depois do almoço me dirigi até o prédio dois e fui até o último andar, para a sala de música.
  - Ótimo! A Heather chegou – Professora Collins veio ao meu encontro e me puxou pela mão até o pequeno palco no final da sala. – O que acha de ficar com o solo?
  Arregalei meus olhos e quase me engasguei com a própria saliva.
  - O que? Solo?
  - Seria uma honra se você aceitasse – Ela me olhou ansiosa segurando meus ombros. – Lyanna é quem tem o solo, mas sua voz está substituindo a dela muito bem.
  - E-eu não sei... – Agora que eu sabia o que tinha acontecendo com a tal da Lyanna me senti mal em ter que substitui-la.
  - Vamos lá, Heather! Sua voz é linda! – Uma das garotas falou para mim. Olhei ao redor e vi que todas me observavam esperando uma resposta.
  - Você tem um enorme talento, Heather – Professora Collins acariciou meus cabelos. – Não deixe que tirem isso de você.
  Então eu cedi. Faria aquele maldito solo. As garotas e a senhora Collins comemoraram, mas quando olhei para Faith ela retribuiu com um olhar duro, o qual eu nunca havia visto antes.
  - Temos muito trabalho a fazer!
  E como tivemos. Ensaiamos a tarde inteira, minha garganta coçava quando finalmente acabamos. Recebi elogios e um abraço orgulhoso da professora Collins, eu estranhava todo aquele afeto, mas tentei ao máximo retribuir.
  Com as partituras em mãos e a voz da professora Collins na minha cabeça dizendo “Você tem um enorme talento, Heather. Não deixe que tirem isso de você.”, voltei para o meu dormitório refletindo tudo aquilo. Quando subi as escadas do segundo andar e cheguei ao quarto de duzentos e seis, o meu próprio quarto, ouvi barulhos suspeitos vindos de dentro dele.
  Encostei-me mais à porta para ouvir melhor e consegui identificar a voz de Mary Elizabeth. Minha colega de quarto falava algo e ria, ela claramente estava com alguém lá dentro. No mesmo instante fiquei desconfiada, não poderia ser Faith pois eu vi a mesma entrando na biblioteca quando eu estava a caminho do prédio três, e era improvável ser uma das amigas de Mary Elizabeth, já que ela odiava trazê-las ao nosso quarto.
  Continuei parada em frente à porta tentando reconhecer a voz até que ela se abriu de repente. Dei um pulo para trás com susto.
  - O que você estava fazendo? – Mary Elizabeth perguntou irritada. Ela parecia sempre irritada na verdade, mas naquela vez ela estava realmente com raiva. Seu rosto estava vermelho e eu via uma fina camada de suor em sua testa. Pela primeira vez notei que ela não estava sozinha, uma garota fina e baixinha estava ao lado dela me olhando com uma expressão admirada. Cerrei os olhos para ela tentando conhecê-la, mas sem sucesso.
  - Eu... – A voz havia me abandonado. – Eu estava entrando no quarto.
  Mary Elizabeth me olhou desconfiada por alguns segundos até que a garota ao seu lado a puxou para fora.
  - Vamos Beth. Até mais, Heather. – Ela me cumprimentou com um aceno de cabeça quando passou ao meu lado.
  Fiquei me perguntando por um bom tempo quem era aquela garota e como ela sabia o meu nome. A cada minuto aparecia uma pessoa diferente que sabia quem eu era, enquanto eu não conhecia nenhuma delas.
  As vozes no corredor me despertaram, entrei de uma vez no quarto e fui procurar na minha gaveta o uniforme do coral. Professora Collins havia providenciado para mim alguns dias atrás. O encontrei dobrado entre as minhas roupas. O uniforme do coral era diferente do uniforme normal do St. Heaven, que era uma camisa branca com uma saia preta, já o do coral era uma camisa também de mangas compridas e de botões, mas sua cor era azul como o brasão do instituto combinado com uma saia esvoaçante branca e para finalizar uma horrível gravata borboleta preta. Os sapatos eram os mesmos de sempre.
  Agradeci mentalmente a qualquer um que estivesse lá em cima por não haver nenhum espelho no quarto nem no banheiro, eu não suportaria me ver daquele jeito.

††††

  Às seis e quarenta todas nós nos reunimos no pátio, era a primeira missa do instituto em que eu estava participando. Na minha primeira semana eu dei um jeito de ficar escondida em meu quarto sem que ninguém me perturbasse, mas infelizmente naquele dia não tinha escapatória. Eu estava sentada nas primeiras cadeiras com todas as meninas do coral quando senti alguém cutucar minhas costas, olhei rapidamente para trás.
  - Nervosa? – Gina me perguntou falando baixo para que só eu ouvisse. A observei discretamente. Seu cabelo estava, como sempre, amarrado em um coque, mas a diferença era que as pontas do cabelo estavam soltas, formando um penteado bonito. Estava realmente muito bonita.
  - Não. – Ela sorriu para mim mostrando seus dentes brancos perfeitamente alinhados.
  - Não quero te pressionar nem nada, mas hoje seria uma ótima oportunidade para cumprir a tarefa três.
  Rasgue uma página da Bíblia Sagrada.
  - Tem razão. – Eu havia esquecido daquela tarefa, fiquei feliz por Gina ter me lembrado.
  Todo o pátio, que antes estava barulhento, num instante se calou.
  - Boa sorte. – A líder das Sisters Insane sussurrou para mim.
  Virei-me para frente e vi quando irmã Judith, acompanhada de todas as freiras do St. Heaven, chegaram. Elas subiram em um palco improvisado e sentaram-se nas cadeiras que lá estavam disponíveis. Pouco tempo depois um senhor para lá de gordo vestido com uma bata apareceu. Ele usava a mesma vestimenta que era obrigatória aos padres e trazia uma enorme bíblia nas mãos. Fiquei de olho nela o tempo todo, o padre gordo a colocou no suporte para o grande livro e foi cumprimentar as freiras que estavam atrás dele. Quando as formalidades cessaram o homem gordo se posicionou no pequeno palco, com um pedestal e um microfone à sua frente. Olhei de relance para trás dele e captei o olhar de irmã Judith sobre mim, ela me deu um sorriso que passou longe de ser reconfortante, me contive para não lhe mandar um sinal feio e desviei do olhar dela.
  A missa começou e a cada minuto que se passava eu percebia que não eram apenas as freiras daquele internato que me assustavam, aquele padre me causava um enorme arrepio. Toda vez que seus olhos passavam por mim meus pelos se arrepiavam e eu ficava enojada, o nervosismo que minutos antes parecia ter me abandonado agora havia voltado com força total. Minhas mãos suavam e minha garganta fechava toda vez que eu tentava engolir a saliva.
  Depois de meia hora de missa o padre pediu para que o coral se apresentasse. As garotas ao meu redor se levantaram e quando eu fiz o mesmo quase me sentei novamente, minhas pernas estavam bambas.
  - Você está bem? – Uma garota ao meu lado perguntou. Balancei a cabeça e respirei fundo, quando tive certeza de que minhas pernas não falhariam, dei o primeiro passo, fui firme seguindo em direção ao palco onde já estavam todas em seu devido lugar.
  Fiquei no meio, assim como tinha feito nos ensaios e alguém depositou o microfone em minhas mãos. Respirei fundo mais uma vez. Gostaria de ter falado com a professora Collins antes de ir para lá, ela teria me reconfortado como ninguém faria. Mas era tarde demais, ela já estava atrás do piano prestes a tocar as notas de In Christ Alone. Olhei para as garotas à minha frente e agradeci de novo a quem estivesse lá em cima por estar olhando para as internas e não para as freiras e o padre. Não aguentaria ter de encarar irmã Judith ou aquele velho sinistro enquanto eu cantava.
  As notas entoaram pelo pátio inteiro enquanto eu tentava não esquecer da letra e fazer um vexame na frente de todos. Fechei os olhos e comecei a cantar, era mais seguro daquele jeito. Assim eu poderia me imaginar sozinha no meu quarto cantando para mim mesma. Sem ninguém prestando atenção em mim, sem ninguém para rir e apontar meus erros.
  Quando cheguei no refrão todas as outras vozes me acompanharam, me forcei a abrir os olhos. Eu não estava sozinha.

††††

  Quando a missa acabou, às dez horas, eu estava exausta. Depois de In Christ Alone nós ainda cantamos mais três músicas que havíamos ensaiado naquela tarde. Minha garganta estava seca e eu precisava urgentemente de um copo de água, mas me mantive no mesmo lugar. As garotas já começavam a se dispensar e eu estava ficando sem saber o que fazer, não havia pensado em nenhum plano para cumprir a tarefa três.
  - Você foi ótima. – Ouvi alguém dizer atrás de mim. Me virei e encontrei a garota que estava no quarto com Mary Elizabeth mais cedo sorrindo timidamente para mim. Ela era estranhamente simpática, não do jeito que Faith havia sido comigo quando cheguei no internato, ela era simpática de um jeito assustador.
  - Obrigada... – Esperei ela me dizer seu nome.
  - Joana. – Ela estendeu a mão e eu apertei. Ela me puxou para mais perto e sua timidez sumiu de repente. – Quer uma dica?
  Estávamos à centímetros uma da outra.
  - Sim, eu acho. – Respondi achando aquilo tudo muito estranho.
  - Quando todas saem o padre vai até a sala de irmã Judith – Estava prestes a perguntar o significado daquilo até que Joana continuou. – Ele deixa a Bíblia Sagrada aqui. Você tem alguns minutos para cumprir a tarefa.
  Então ela saiu me deixando de boca escancarada. Como ela sabia das tarefas? A resposta era óbvia: Ela era uma Sister Insane.
  Resolvi confiar em seu conselho.
  Quando todas as garotas foram embora fui sorrateiramente para trás da mureta que rodeava todo o pátio, estava escuro então ninguém conseguiria me ver. Algumas freiras ainda estavam por lá conversando e eu podia ver a grande bíblia há alguns metros de mim. Quando finalmente elas deixaram o lugar para irem fazer a ronda noturna eu saltei para dentro do pátio e corri até onde a bíblia estava. Eu deveria ser rápida o suficiente para não ser pega e o bastante para conseguir entrar no prédio três sem que ninguém notasse a minha falta.
  Abri o grande livro e fui folheando as páginas. Escutei passos vindo em minha direção e arranquei uma folha qualquer, coloquei o pedaço de papel por baixo da saia, sendo segurado pela minha meia, e pulei de volta a pequena mureta.
  - Isso não irá se repetir, tem a minha palavra. – Era irmã Judith. Estremeci no lugar em que eu estava, temendo que fosse descoberta.
  - Assim espero, irmã Judith. Por mais que eu goste do que fazemos, nós sabemos as consequências disso. – A voz do padre me causou calafrios. Tentei prestar mais atenção na conversa dos dois, mas o medo e o mal-estar me deixavam desconcertada. – E a nossa garota?
  - Nossa garota? – Irmã Judith perguntou. Meu coração estava prestes a sair pela boca.
  - A pequena Foster.
  - Ah... Ela.
  - Alguma novidade? – Escutei alguns barulhos como se ele estivesse arrumando suas coisas. Mas era tudo ignorado por mim, a única coisa que passava pela minha cabeça era “ela”.
  - Fugiu mais uma vez. – Irmã Judith parecia sem graça. Essa eu pagaria para ver, mas estava tão petrificada no meu canto que deixei passar.
  - Como sempre, não é? – Ouvi um barulho alto, de algo forte caindo no chão. – Escuta aqui, Judith, nós temos um mês para pegar essa garota, depois disso estamos perdidos.
  A voz do padre era grossa e alta, eu teria sorrido satisfeita por a irmã Judith estar levando uma bronca, se eu não estivesse também tão assustada.
  - Eu sei. Não irei desistir enquanto aquela garota não estiver em nossas mãos.
  Houve um silêncio.
  - Vou tentar fazer algo também. Até mais.
  - Até.
  Ouvi os passos arrastados do padre gordo pelo pátio até que ele se foi de vez, esperei mais alguns segundos para ter a certeza de que era seguro seguir o meu caminho. Até que mais passos vieram.
  - Irmã Judith! – Uma voz desesperada chamou.
  - O que foi? – Me assustei ao ouvir a voz cortante da diretora do St. Heaven Institute ainda no pátio.
  - A novata...
  - O que tem ela?
  - Sumiu.
  Aquilo me deixou mais assustada do que qualquer outra coisa.

Capítulo 8

  - Como assim sumiu? – Sua voz estridente ecoou pelo lugar.
  - Não está no quarto dela e em nenhum lugar do prédio três.
  - Procurem-na! – Irmã Judith falou histérica. – Não podemos manchar mais alguém... Não agora.
  Os passos se foram e eu continuei parada no mesmo lugar. A palavra manchar rodando em minha cabeça.
  “Você não pode saber o que é até ser manchada.”
  “E é muito ruim?”
  “Não são muitas as coisas boas que acontecem por aqui, não é?”
  O desespero tomou conta de mim. Aquilo não poderia estar acontecendo, não comigo.
  Levantei a cabeça devagar e vi o pátio vazio à minha frente. As freiras andavam para lá e para cá no jardim, seria impossível sair sem ser vista. Fechei os olhos tentando pensar em uma alternativa quando senti alguém segurar meu ombro.
  Acabou. Eu estava perdida.
  - Heather? O que você está fazendo aqui? – A voz da professora Collins preencheu meus ouvidos quase me fazendo chorar.
  - Eu... Eu... – Estava desesperada demais para inventar alguma desculpa, mas professora Collins era uma pessoa altamente inteligente e logo percebeu meu problema.
  - Elas vão te punir se te encontrarem aqui. – Balancei a cabeça confirmando. Por que ela achava que eu estava tão desesperada? – Vem comigo, eu tenho um plano!
  Ela me pegou pelo braço e eu arregalei os olhos.
  - Não, por favor...
  Professora Collins me arrastou até o jardim discretamente, não entendi o plano maluco dela até alguém nos notar.
  - Ali está ela! – As freiras vieram até nós. De longe pude ver irmã Judith e irmã Paula quase correndo para onde estávamos.
  - Fique calada. – Professora Collins sussurrou para mim.
  - O que está fazendo com ela, Collins? – A freira gigante ficou em nossa frente com irmã Judith ao seu lado.
  - Calma irmãs. Heather estava comigo no refeitório.
  - No refeitório? Mas você sabe que no final da missa as internas devem ir imediatamente para seus dormitórios. – Irmã Judith estava vermelha de raiva, eu esperava não ser a pessoa em quem ela iria descontar sua ira.
  - Eu sei, mas a senhorita Anderson não estava se sentindo bem, então a levei para tomar uma água. – Todas olharam para mim e eu tive que fazer a minha melhor cara de doente.
  - Por que não a levou para a enfermaria já que ela estava se sentindo mal? – Irmã Paula adorava estragar as coisas.
  - Heather estava apenas nervosa com a apresentação, um copo de água resolveria tudo.
  - Mesmo assim você quebrou as regras, sugiro que...
  - Eu sou a diretora aqui, irmã Paula – Irmã Judith tomou a voz. – Eu decido o que fazer.
  - Perdão, só queria ajudar. 
  - Não tenho dúvidas disso, irmã. – Professora Collins falou e eu devo ter sido a única pessoa que notou seu tom sarcástico. Quis abraçá-la naquele instante. – Mas não seria justo puni-la por algo que não foi culpa dela. Eu desobedeci às regras, Heather é inocente nessa história.
  Meu queixo caiu. Eu não estava acreditando que alguém havia se sacrificado por mim. Nunca ninguém havia feito coisa parecida comigo. Irmã Judith ficou calada, mas ainda assim pude ver as veias de seu pescoço saltarem.
  - Então ela deverá sair impune?
  - Ela não tem culpa de nada!
  - Professora, isso é impossí...
  - Pode aumentar minhas horas de serviço se quiser. – Foi a primeira vez que abri a boca.
  - Serviço? – A professora me olhou como se eu fosse maluca.
  - Estou responsável pela limpeza do prédio três. – Dei de ombros tentando parecer menos suspeita naquela história toda.
  Todas ficaram em silêncio esperando a resposta de irmã Judith até que ela se pronunciou.
  - Pois bem. Está acrescentado mais uma semana no seu serviço – Respirei aliviada, professora Collins também estava mais tranquila quando a senti soltar meu braço. – Além disso, também ficará com a limpeza dos banheiros do prédio um.
  Os risinhos maldosos que as freiras soltaram não me incomodaram, qualquer coisa era melhor do que finalmente saber o que a expressão manchada significava.
  - Irmã Paula, acompanhe a senhorita Anderson até o quarto dela e tenha certeza de que ela ficará lá. A professora Collins e eu temos algumas coisas para conversar.
  A freira gigante me arrastou em direção ao prédio três antes que eu pudesse mandar um olhar de agradecimento para a professora. Eu devia muito a ela.
  Quando cheguei no segundo andar do prédio três irmã Paula me jogou lá dentro com tanta força que eu fui de encontro ao chão em segundos.
  - Não tente mais nenhuma gracinha, está entendendo?
  - Estou. – Respondi mau humorada. A gigante fechou a porta com força e eu pude finalmente respirar.
  Faith e Mary Elizabeth estavam em pé no meio do quarto me olhando como se eu fosse alguma espécie desconhecida de animal.
  - Você perdeu de vez o juízo? – Mary Elizabeth foi a primeira a falar, aos gritos.
  - Quando eu não quis te contar o que significava ficar manchada não achei que você iria tentar fazer isso! – Fiquei surpresa quando Faith falou comigo.
  - O quê? – Perguntei debilmente. Aquela confusão toda havia me dado dor de cabeça e os gritos das duas não me ajudava em nada.
  - Sua idiota! O que você acha que é a punição por se esconder? Elas acham que você quer fugir!
  - Por que se importam, afinal? Achei que me odiassem! – Dessa vez era eu quem gritava.
  - Ser manchada não é uma coisa que desejamos para alguém. – Faith abaixou o tom e foi se sentar em sua cama. Pela primeira vez notei seus olhos vermelhos e inchados. Ela havia... Chorado? 
  – E porque somos idiotas. – Mary Elizabeth também parecia exausta.
  - Eu... Eu não estava tentando fugir. – Também me sentei em minha cama. Eu só queria tirar aquela roupa horrível e ir dormir.
  - E onde estava? – Faith não queria colaborar comigo.
  - Eu estava passando mal, então a professora Collins me levou até o refeitório para tomar uma água.
  Mary Elizabeth deu sua risada debochada de sempre.
  - E irmã Judith caiu nessa?
  - Caiu. Mas me deu mais uma semana de serviço.
  As duas se entreolharam e ficaram em silêncio. Levantei-me da minha cama e fui até minha cômoda, retirei de lá a camisola e comecei a me despir. Senti a folha dentro da minha meia e só então lembrei que foi por causa daquilo que tudo havia começado.
  - Que vantagem, hein? – Ouvi Mary Elizabeth dizer atrás de mim. Eu sabia o que aquilo significava.
  Guardei o uniforme do coral dentro da gaveta com a página rasgada da bíblia sagrada dentro dele e vesti minha roupa de dormir.
  - Não faço parte das Sisters Insane se é isso o que está querendo dizer. – Respondi e logo depois me deitei na cama me enrolando dos pés à cabeça. Algum tempo depois a luz foi apagada e o silêncio pairou no quarto. – Não ainda. 
  Respondi para mim mesma antes de me entregar ao sono

††††

  - Que nojo! – Resmunguei enquanto limpava uma das cabines no banheiro do prédio três, já estava no último banheiro mas parecia que eu ainda teria mais horas de serviço, o local estava imundo.
  Ouvi a porta bater e imaginei que fosse Irmã Paula, já que ela aparecia de quinze em quinze minutos.
  - Ainda não acabei, se é o quer saber! – Gritei para que ela ouvisse. Escutei os passos se aproximando enquanto eu continuava agachada limpando a privada.
  Tomei um susto quando alguém me puxou pelos cabelos fazendo-me ficar de pé. Foi tão rápido que eu nem vi quem havia feito aquilo, até que me jogaram contra a parede e apertaram o meu pescoço.
  - O que você pensa que está fazendo? – Ela não tinha mais a voz doce e suave que penetrava meus ouvidos como se fossem flores. Sua voz agora arranhava como espinhos.
  Gina apertava meu pescoço com força me impedindo de respirar. Eu me debatia tentando escapar, mas ela era uns dez centímetros mais alta do que eu, e muito mais forte também. Eu procurava no seu rosto alguma resposta para o que ela estava fazendo, mas ela parecia transtornada. Nunca havia a visto daquele jeito. Quando ela finalmente me soltou eu caí no chão, desesperada em busca de ar.
  - Me responde! – Ela chutou minhas pernas.
  - Do que você está falando? Eu não fiz nada! – Gritei quando consegui me recuperar.
  Gina me puxou pelos cabelos novamente.
  - Por que você tentou fugir? – Ela falou pausadamente. Seu rosto quase encostando no meu.
  - Eu não estava tentando fugir! 
  Onde estava irmã Paula quando se precisava dela? 
  - E o que aconteceu ontem? – Seus olhos piscavam rapidamente e eu notei que suas mãos tremiam. Gina estava visivelmente fora de si.
  - Estava cumprindo a tarefa três, lembra? Rasgar uma página da bíblia. – Falei calmamente. Ela me olhou por alguns instantes até que o puxão em meus cabelos aumentou.
  - Não minta para mim, Heather! Você não tem noção do que eu sou capaz de fazer!
  - Eu não estou mentindo, Gina! Eu juro! Quero ser uma Sister Insane. Eu não vou fugir. – Temi que ela percebesse a mentira em meus olhos. Mas por sorte ouvimos passos se aproximando da porta, Gina me soltou imediatamente.
  - O que estão fazendo? – Nunca fiquei tão feliz por ver irmã Paula. – Senhorita Anderson volte já ao trabalho.
  Gina me lançou um último olhar perturbado antes de me dar as costas e sumir. Meu pescoço havia ficado dolorido e eu não parava de pensar no comportamento descontrolado da líder das Sisters Insane. 
  Claramente havia algo de errado acontecendo, e eu pretendia descobrir o que era.

  Quando eu finalmente acabei o meu serviço daquele dia irmã Paula me dispensou. Já era noite e provavelmente o jantar já estava sendo servido, mas eu não poderia ir sem antes tomar um banho. Desci as escadas correndo e passei em meu quarto apenas para pegar uma roupa limpa. Fui direto para o banheiro que, graças as forças superiores, estava vazio.
  Tomei um banho demorado, feliz por não ter mais tarefas naquele dia. A não ser as tarefas das Sisters Insane. Naquele dia eu faria uma das mais difíceis: Entrar na sala das professoras e roubar um dos gabaritos. Eu não tinha a menor ideia de como faria aquilo, mas meu tempo estava acabando e eu não poderia vacilar.
  Terminei o banho demorado e me enxuguei, logo em seguida vesti minhas roupas. Quando sai de dentro da cabine dei de cara com Joana, a amiga misteriosa de Mary Elizabeth que me ajudou no outro dia. Levei um enorme susto, não esperava ver alguém por ali.
  - Foi mal. – Ela riu sem graça ao perceber minha cara de espanto. – Não queria te assustar.
  - Está tudo bem. – Respirei fundo e observei bem o rosto de Joana. Ela parecia inquieta, como se quisesse me contar algo. – O que houve?
  A garota olhou ao redor depois se virou para mim e segurou em meus ombros com as duas mãos.
  - Olha, eu realmente não deveria fazer isso, se ela descobrir não queira nem saber o que vai fazer comigo. – Joana sussurrava com os olhos vidrados nos meus.
  - Ela quem? Judith? – Perguntei confusa.
  - Não. Gina.
  Senti um arrepio estranho na minha espinha.
  Só de lembrar da cena que aconteceu algumas horas atrás me causava mal estar. Meu pescoço ainda estava dolorido graças aos dedos de Gina e involuntariamente eu toquei a região ao ouvir a menção do nome dela.
  - O que tem ela? – É claro que eu sabia que havia algo de errado acontecendo com a líder das Sisters Insane, mas eu tinha que fingir que nada daquilo acontecera.
  - Você viu o estado dela, não viu? – Joana estava com um tom triste na voz. Balancei a cabeça concordando. – Gina sofre de um transtorno muito sério de esquizofrenia.
  Arregalei os olhos. Estava na cara que aquela garota não era nada saudável, mesmo assim fiquei surpresa ao ouvir aquilo.
  - E ela sempre bate nas pessoas assim?
  - Só quando está em crise. Ela tem andado muito agitada ultimamente, ninguém sabe o porquê. Algumas garotas têm te culpado por isso, então é melhor você tomar cuidado. Não confie em ninguém, principalmente na nossa líder.
  Joana olhou em volta mais uma vez e eu dei um passo para trás, absorvendo tudo o que ela havia me falado.
  - E por que eu deveria confiar em você?
  Ela me olhou incrédula e soltou uma risada amarga.
  - Porque eu estou arriscando o meu pescoço para te ajudar, pela segunda vez se eu bem me lembro.
  Respirei fundo me sentindo constrangida.
  - Tem razão. Me desculpe.
  - Tudo bem. É melhor eu ir, ninguém pode saber que conversamos.
  Joana estava prestes a sair do banheiro quando eu a chamei de volta.
  - Como vou lidar com Gina? Ela me atacou, me acusou de tentar fugir daqui, está uma fera comigo.
  - Tenha calma. Os pensamentos dela mudam rapidamente, uma hora ou outra ela vai vir falar com você, só... Aja normalmente, não dê motivos para ela achar que você quer fugir daqui.
  - Mas e se eu quiser fugir?
  - Apenas finja que não quer. 
  Então ela saiu e me deixou sozinha novamente no banheiro.
  Parecia que naquele lugar todos tinham um segredo. Comecei a pensar que talvez fossem os segredos que sustentassem os muros do St. Heaven.

Capítulo 9

  Era tarde da noite e eu havia decidido que iria cumprir a quarta tarefa no mesmo esquema em que eu sempre fazia: Esperando todo mundo dormir e ir me escondendo através dos arbustos. É claro que dessa vez as coisas iriam ser milhões de vezes mais difíceis, pois eu entraria no verdadeiro covil. A chance de tudo correr bem era muito pequena, mas preferi não ficar pensando no que me aconteceria caso eu fracassasse. O plano já estava todo formado em minha mente, eu havia passado o dia anterior inteiro pensando, agora só precisava esperar minhas colegas de quarto dormirem.
  Esperei tanto que acabei adormecendo, meu plano foi quase por água abaixo até que senti uma mão tapando minha boca com força. Pulei de susto até que vi quem era.
  Gina pôs um dedo nos lábios pedindo silêncio e eu não sabia se me sentia ameaçada ou não. A lembrança da líder das Sisters Insane apertando meu pescoço no dia anterior ainda me deixava amedrontada. Mas olhei em seus olhos sob a luz da lua que invadia nosso quarto e percebi que a Gina de antes havia voltado.
  Ela fez um sinal apontando para a porta e eu me levantei da cama para segui-la. Gina tinha esse efeito sobre mim, ela fazia com que eu a obedecesse sem nem saber o motivo e sem pensar duas vezes. Saímos do meu quarto e descemos as escadas até a sala de estar no térreo. Segurei seu braço com firmeza.
  - O que estamos fazendo? – Sussurrei. Gina pôs as mãos na cintura e abaixou a cabeça por um instante.
  - Eu sinto muito pelo o que aconteceu ontem no banheiro.
  Meu coração acelerou, eu não esperava ouvir aquilo.
  - Tudo bem, você teve os seus motivos e...
  Ela me interrompeu.
  - Não, Heather. Você não entende. – Gina suspirou e olhou para mim. Pela primeira vez eu vi a líder das Sisters Insane baixar a guarda. – Você não sabe como é não ter controle sobre o seu próprio corpo, sobre a sua própria mente.
  Eu abaixei a cabeça sem saber o que falar.
  - Então me explique. – Pedi segurando sua mão. Ela deu uma risada fraca.
  - Não posso. – Eu vi a agonia em seus olhos e senti compaixão, por um instante esqueci quem ela era e quase quis abraçá-la. Olhei para nossas mãos que ainda estavam juntas e a soltei.
  - Okay. O que estamos fazendo aqui? – Olhei em volta como se as paredes fossem me dar alguma resposta.
  - Eu achei que seria uma boa maneira de me desculpar te ajudando nas suas tarefas.
  Fiquei surpresa.
  - Você está falando sério? Mas isso não é contra as regras?
  Ela abanou as mãos.
  - Eu sou a líder. E aliás, ninguém precisa saber. – Ela piscou para mim e eu deixei um sorriso bobo escapar.
  Com um cuidado impressionante Gina e eu saímos do prédio três. Nos escondemos atrás do prédio dois e ela me disse aonde estávamos indo.
  - Vamos até capela abandonada.
  - A sede?
  - Não exatamente. – Ela deu um sorriso esperto.
  Fizemos o mesmo percurso em que eu fazia toda vez, nos escondemos nos arbustos quando uma freira passava e quando o caminho estava livre corríamos feito loucas. Cruzamos o jardim e fomos até os fundos do refeitório. Vi de longe a capela abandonada, me perguntava para onde iríamos se não era a sede da irmandade. Andamos até lá em silêncio. A capela abandonada continuava do mesmo jeito de antes, fomos até o altar onde havia uma porta e lá dentro uma tábua que cobria a entrada do túnel. Só então me dei conta de que nunca havia visto aquele caminho. Nas duas únicas vezes em que estive ali eu estava vendada.
  - Só Sisters Insane podem ver esse caminho. – Gina falou assim que pulamos dentro do túnel. Era abafado e escuro, ela tirou seu isqueiro do bolso e iluminou o local.
  - Você está quebrando muitas regras. – Não era uma advertência, eu amava quebrar regras. Sorrimos uma para a outra até que ela começou a andar.
  - Por acaso já te contaram a história do St. Heaven Institute? – Ela virou para mim iluminando meu rosto com a pequena chama do isqueiro.
  - Não.
  - Bom, estamos em Salém. – Continuamos seguindo em frente com Gina iluminando o lugar com seu pequeno isqueiro. Salém. Então era ali que o St. Heaven ficava? Não era tão longe assim de Portland, mas eu nunca havia visitado a cidade. – A fundadora desse lugar foi Heaven Bridget.
  - Me parece britânica. – Comentei.
  - Sim, ela era. Vivia em um orfanato de freiras em Londres, onde cresceu e se tornou irmã Heaven. – Ela se virou novamente para mim.
  - Interessante. – Na verdade eu não estava achando nada interessante, só queria saber aonde aquilo tudo iria dar.
  - Veio para os Estados Unidos em algum tipo de missão religiosa e acabou ficando por aqui. – O túnel se dividiu em três partes, Gina foi em direção ao terceiro. – Alguns séculos atrás, na Europa, aconteceu a Caça às Bruxas. Já ouviu falar?
  - Devo ter visto algo do tipo quando ia a escola.
  Gina soltou uma risada.
  - É, foi uma perseguição religiosa que aconteceu lá pelo século dezoito.
  - E o que isso tem a ver com a história do instituto? – Perguntei olhando para o chão tentando enxergar alguma coisa e com medo de cair em algum buraco até esbarrar em Gina, ela havia parado de andar.
  - Irmã Heaven era obcecada por isso, dizem que ela se lamentava por não ter nascido naquela época. Até ela chegar aqui e alegar ter visto bruxas no local. – Ela estava de frente para mim com a chama abaixo do queixo fazendo com que seu rosto ficasse com uma sombra assustadora. – Aqui foi uma das cidades mais famosas na época da caça às bruxas, dezenas de pessoas foram queimadas aqui. Então, quando a irmã Heaven insinuou que ainda existiam bruxas aqui as pessoas ficaram furiosas, porque era meio que um tabu falar sobre isso por aqui. – Eu ouvia tudo atenciosamente. –  Antes do St. Heaven, aqui era um antigo hospital militar que estava abandonado, e a irmã falava que toda noite via bruxas aqui.
  - Que bizarro. – Soltei uma risada fraca tentando não parecer assustada.
  - E eu nem cheguei na pior parte. Alguns dias depois da irmã Heaven ter alegado essas coisas, algumas crianças ao redor começaram a desaparecer, do nada, e ninguém acreditava nas histórias dela sobre bruxas. Depois os vizinhos escutavam choros e as vezes risadas durante a madrugada e foi quando uma mulher teve seu bebê roubado que as pessoas foram atrás da irmã Heaven pedir ajuda. Ela reuniu um grupo de outras irmãs que vieram com ela de Londres e resolveram investigar esse lugar.
  - E então? – Eu sabia que era só uma história e que, por mais que tivesse a chance de ser verdadeira, havia acontecido há muito tempo, porém mesmo assim eu ainda me sentia assustada e queria que Gina terminasse logo com aquilo.
  - Nos fundos desse mesmo lugar elas encontraram um túnel. – Ela passou a mão pela parede coberta de poeira e me olhou com um olhar de psicopata. Só então me dei conta de que eu estava no subsolo sozinha com uma garota que já havia tentado me enforcar uma vez. Meu coração começou a disparar e minhas mãos suavam frio. – Elas não encontraram nenhuma bruxa, para a sorte ou azar delas. Mas encontraram os corpos de todas as crianças que haviam desaparecido, estavam todas mortas e jogadas bem aqui. – Ela olhou para os seus pés.
  - Nossa, que horror!
  - Pois é. No final das contas não foram bruxas que sequestraram as crianças, e sim um maníaco. Derrubaram o antigo hospital e depois de um tempo as irmãs, junto com a população, construíram o internato e deram o nome da irmã Heaven, porque foi por causa dela que descobriram os corpos.
  A história era tão bizarra quanto eu tinha imaginado. Continuamos a andar e à medida que seguíamos em frente o túnel ia ficando mais baixo.
  - Dizem que ela nunca parou de acreditar que havia bruxas por aqui. Esse foi um dos motivos pelo qual o internato só recebe meninas, caso alguma delas fosse uma bruxa ela queimaria por estar em um lugar sagrado.
  Chegamos literalmente ao fim do túnel. Estávamos agachadas uma de frente para a outra.
  - E agora? – Perguntei.
  Ela levantou o isqueiro acima de nossas cabeças e eu pude ver uma pequena porta de madeira no teto. Gina tirou uma chave do bolso e abriu a porta a empurrando para cima. Ela tirou a cabeça do túnel e olhou em volta, depois tomou impulso e subiu. Um segundo depois esticou sua mão para mim.
  - Cuidado com a cabeça.
  Finalmente sai de dentro daquele local claustrofóbico. Olhei em volta e notei que estávamos de baixo de uma grande mesa de madeira. Gina fechou a porta do túnel e foi engatinhando até o final da mesa. Eu a segui.
  - Onde estamos? – Perguntei assim que ficamos de pé.
  - Na sala das professoras. – Eu me deixei abrir a boca de surpresa. Realmente aquele foi um caminho muito mais seguro do que o que eu percorreria sem a ajuda de Gina.
  - Você conhece todas as entradas daqui? – Perguntei incrédula.
  - A maioria. – Ela deu de ombros. – Acho bom se apressar se não quiser ser pega.
  Ela jogou o isqueiro para mim e se sentou na grande mesa de madeira posta estrategicamente, suponho, acima da entrada do túnel. Então percebi que teria de fazer aquilo sozinha, Gina havia sido apenas meu guia. Comecei a andar pela sala gigante que era repleta de arquivos de metal. Me aproximei com a pequena chama do isqueiro e notei uma placa indicando cada arquivo. Achei uma com o nome “Acadêmico” e abri a gaveta que surpreendentemente estava aberta. Dentro havia diversas pastas com fichas das internas, relatórios das professoras e outras coisas. Continuei procurando até achar uma pasta bem grossa com o nome “PROVAS” escrito. Procurei entre os papéis até achar um gabarito. Senti a respiração de Gina no meu pescoço e me sobressaltei.
  - Não quero te influenciar nem nada – Ela falou. – Mas minha nota está realmente ruim em inglês.
  Revirei os olhos de costas para ela e voltei a procurar até encontrar o gabarito da prova de inglês.
  Entreguei a ela.
  - Podemos ir? – Perguntei.
  - Ainda não. Vamos cumprir a tarefa cinco.
  Roubar um livro da biblioteca de irmã Judith.
  - Gina, e se ela estiver lá? Estamos ferradas! – Eu tinha dúvidas se irmã Judith faria algo com Gina se a pegasse, mas ela com certeza acabaria comigo se eu fosse pega.
  - Relaxa, Judith nunca fica até essa hora da noite na sala dela.
  Ela falou com tanta certeza que eu me permiti acreditar. Gina pegou o isqueiro das minhas mãos e o colocou no bolso.
  - Só precisamos ter cuidado com as freiras.
  Andamos em silêncio até a porta, a qual Gina abriu com uma lentidão cirúrgica. Ela olhou em volta do corredor e não havia ninguém. Então se voltou para mim sorrindo.
  - Temos sorte da sala de Judith ser em frente a das professoras.
  Deixamos a sala das professoras e atravessamos o corredor, em frente à sala da diretora do instituto. Gina colou o ouvido na porta para ver se escutava algum barulho lá dentro, mas pelo visto a sala estava vazia. Ela girou a maçaneta e forçou a porta, estava trancada.
  - Merda! – Ela exclamou baixinho. Eu já havia aceitado a derrota quando Gina olhou para mim sorrindo e tirou de seu bolso um molho de chaves. – Uma pena que eu tenha uma cópia comigo.
  Revirei os olhos enquanto sorria para ela. Achei que levaria uma eternidade até que encontrássemos a chave certa, mas Gina já sabia qual era, então não levou mais de um minuto para abrirmos a sala de irmã Judith e entrarmos.
  Aquela sala sempre me causava arrepios desde a primeira vez que pus meus pés ali.
  - O que foi? – Gina me perguntou.
  - Nada. – Balancei a cabeça e fui até a enorme estante de livros que cobria uma parede inteira.
  Passei meus dedos pelas capas duras e empoeiradas em busca de um título que me chamasse a atenção. Senti Gina me observando do outro lado da sala. Olhei para ela com a sobrancelha arqueada. A líder das Sisters Insane andou até mim.
  - Você sabe qual será sua tarefa depois dessa, não sabe?
  Desviei meus olhos dos dela e voltei a olhar os livros.
  - Sei.
  Ela também começou a observar os livros.
  - Você já fez isso antes?
  - Roubar livro?
  - Dedurar alguém.
  Eu vinha evitando pensar naquela tarefa desde que comecei com aquilo tudo.
  - Não. – Respirei fundo. – Eu tenho um amigo, fora daqui, que sempre me mete em encrencas.
  Ela olhou para mim com o olhar interessado, esperando que eu continuasse.
  - Ele me fez largar a escola e começar a usar drogas. Todas as vezes em que eu fui presa foi por causa dele. – Fechei os olhos me lembrando de Jimmy, mas à medida que o tempo passava sua imagem ia desaparecendo e eu já não me lembrava mais como era sua risada, ou o seu cheiro, ou até mesmo a cor dos seus olhos. – Mas todas as vezes...
  Minha voz falhou e meus olhos se encheram de lágrimas. Gina segurou minha mão me fazendo encará-la. Respirei fundo e continuei.
  - Todas as vezes que eu fui presa por causa dele, eu nunca o dedurei. Nunca.
  - Eu sei que isso vai ser difícil para você, mas se você quiser ser uma de nós você precisa fazer isso.
  Soltei minha mão da dela.
  - É isso que eu não entendo. Por quê? Por que preciso ferrar alguém para poder entrar na irmandade? – Quase gritei, mas lembrei que estávamos escondidas.
  - Heather, todas nós já fomos deduradas por alguém. Todas. E em algum momento alguém também vai fazer isso com você, querendo ou não. E nós como uma irmandade vamos estar lá para você, para não deixar sair impune. Essa tarefa existe para sabermos se podemos contar com você para estar lá por nós. Entende?
  Balancei a cabeça. Eu entendia. Mas não concordava. Só não valia a pena discutir com Gina, eu precisaria fazer aquilo de um jeito ou de outro. Eu havia prometido a mim mesma que tentaria sair dali mesmo que impusesse fazer coisas erradas.
  Gina se aproximou de mim e como se lesse meus pensamentos falou:
  - Você sempre fez coisas erradas mesmo. Por que vai se importar agora?
  Ficamos nos encarando por um instante até que ela me puxou pela nuca e me beijou. Me espantei e nenhuma de nós se mexeu, ficamos paradas por um momento até ela fazer carinho no meu pescoço e eu ceder. Eu tentava não pensar no que estava acontecendo enquanto sentia seu gosto tomar conta da minha boca.
  O beijo não duraria muito tempo nem se quiséssemos, logo ouvimos passos pelo corredor. Empurrei Gina rapidamente e estava prestes a entrar em pânico quando ela sussurrou “Se esconde”.
  E eu o fiz segundos antes da porta ser aberta.

Capítulo 10

  Foi tudo tão rápido que quando a porta foi aberta a primeira coisa que eu pensei foi “Gina está ferrada”. Mas quando afastei a cortina devagar para olhar para sala não havia ninguém além de uma freira. Ela olhou em volta e chegou perto da janela, onde eu estava escondida. Prendi a respiração e fechei os olhos como se aquilo fosse fazer com que eu desaparecesse. Mas acabou que deu certo, a freira pegou alguma coisa e saiu da sala, quando ouvi o barulho da porta sendo trancada por fora eu soltei todo o ar dos meus pulmões. Quando os passos se foram pelo corredor afora eu saí de trás da cortina. Olhei em volta à procura de Gina e não achei. Estava começando a suspeitar que ela tinha super poderes quando algo tocou meu tornozelo.
  Dei um pulo e olhei para baixo onde Gina estava escondida debaixo da mesa sorrindo para mim. Respirei aliviada e ela se pôs de pé.
  - Precisamos sair daqui.
  Balancei a cabeça e fui até a grande estante pegando um livro qualquer e segui Gina até a porta. Ela pegou seu molho de chaves e abriu a porta rapidamente, olhou em volta do corredor e voltamos até a sala das professoras, onde entramos no túnel e voltamos até a capela abandonada. Fizemos todo o percurso em silêncio até chegarmos novamente à sala de estar do prédio três.
  - Que livro você pegou? – Entreguei a ela o livro o qual eu mal havia olhado. Gina pegou novamente seu isqueiro iluminando a capa do livro. Ela o leu em voz alta. - Wicca, a feitiçaria moderna.
  Olhamos uma para outra e começamos a rir. Foi a minha primeira risada verdadeira em muito tempo. Quando paramos as risadas nos encaramos por um momento e eu lembrei do beijo de alguns minutos atrás. Me senti constrangida e desviei o olhar.
  - Até amanhã, Heather. – Ela se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha, então subiu as escadas correndo indo para o seu próprio quarto.
  Fiquei parada no meio da sala de estar feito uma estátua até vir um bocejo e eu notar o quanto estava cansada. Subi até o terceiro andar e decidi não pensar mais sobre o que havia acontecido.
  Naquela noite, sonhei que Gina e eu estávamos em um hospital militar abandonando. Estávamos nos beijando até que uma senhora com um crucifixo no pescoço e uma tocha com fogo acesso nas mãos gritou “bruxas”. Fomos queimadas vivas.

††††

  Na manhã seguinte acordei tarde demais. Quando levantei da cama notei o quarto vazio. Olhei para o relógio em minha cômoda e ele mostrava que eram oito horas, as aulas começavam as sete e meia. Eu estava ferrada. Peguei minhas coisas e me dirigi ao banheiro que estava vazio àquela hora, claro, todas com exceção de mim estavam nas salas de aula. Fui até a última cabine e me despi, logo em seguida ligando o chuveiro. Quando a água gelada atingiu meu corpo eu finalmente despertei.
  Esse era o último dia para que eu cumprisse a tarefa seis das Sisters Insane. Eu não tinha a menor ideia do que fazer. Como eu poderia dedurar alguém sem saber de nada sobre aquelas garotas do internato? As únicas que eu conhecia eram minhas colegas de quarto e Gina. As únicas pessoas que estavam fora de cogitação. Respirei fundo e desliguei o chuveiro. Comecei a me enxugar e a vestir o uniforme quando ouvi passos no banheiro. Fiquei quieta com medo de que fosse irmã Paula. Se ela descobrisse que eu havia perdido aula eu estava ferrada. E eu tinha certeza de que a irmã Judith não me daria apenas horas extras de serviço dessa vez.
  Os passos pararam perto de onde a pia ficava, logo ouvi o barulho da água caindo da torneira. Respirei aliviada, deveria ser alguma aluna que, como eu, estava atrasada. Terminei de vestir a roupa e sem querer bati a mão na porta da cabine causando um estrondo. Imediatamente o barulho de água parou.
  - Tem alguém aí? – Uma voz fina e trêmula perguntou.
  Saí de dentro da cabine e a encarei. A garota estava um caco. Seu lábio estava cortado e ela tinha uma marca roxa ao redor dos olhos, que me fitavam assustados.
  - Desculpe, não quis te assustar.
  Me aproximei devagar para ver se a reconhecia, mas eu nunca tinha visto aquela garota antes.
  - O que houve com você? – Deixei escapar sem nem perceber. A garota deu uma risada forçada e virou-se para a pia enxugando suas mãos.
  - Achei que todas soubessem o que aconteceu.
  - Eu sou nova aqui, não conheço muita gente.
  - Que bom para você. – Ela continuava sem me olhar. Estava claro que aquela garota não queria conversar comigo, mas eu não conseguia parar de olhar para os seus machucados. Como um estalo, eu juntei todas as peças.
  - Seu nome por acaso seria Lyanna? – Perguntei com cautela.
  - Parece que você já está aqui tempo suficiente.
  Então era ela. Lyanna, a garota que fazia parte do coral, mas que por algum motivo havia sido manchada. Por mais que eu não soubesse o significado daquilo. Mas olhando para o rosto machucado dela eu só imaginava o pior. Abri a boca para lhe perguntar mais coisas, mas ela foi mais rápida.
  - Eu preciso ir. É melhor você se apressar também.
  Ela saiu porta afora me deixando sozinha no banheiro.
  Fui ao meu quarto pegar meu caderno e livros e entrei furtivamente no prédio dois. A segunda aula estava prestes a começar.
  Quando a aula de Ensino Religioso começou eu abri meu caderno, lá dentro havia um pedaço pequeno de papel amassado. Não lembrava de ter visto aquilo antes então o abri.
  “Lauren Cara de Cavalo esconde drogas debaixo do colchão dela. Judith adoraria saber disso.”
  Era o que estava escrito em uma caligrafia estranha. Olhei em volta, mas ninguém estava prestando atenção em mim. Vi um pouco mais à frente Lauren, ela jogava pedaços de papel no cabelo da garota à sua frente, parecia estar se divertindo muito com aquilo. Antes de tomar qualquer atitude eu tinha que descobrir quem havia me mandado o bilhete.

††††

  - Onde você se meteu? Não te vi a manhã inteira. – Gina falou assim que se sentou na minha frente com sua bandeja e seu almoço em cima.
  - Acordei tarde e perdi a primeira aula, fiquei a manhã inteira fazendo atividades. – Respondi brincando com a comida, já fazia quase um mês que eu estava no internato e mesmo assim ainda não tinha me acostumado com aquela gororoba.
  - Hoje é o último dia, você sabe, não é? – Seus olhos brilhavam de empolgação.
  - Por falar nisso – Tirei o bilhete do bolso e entreguei a ela. – Foi você quem me mandou?
  Ela leu e depois me devolveu.
  - Não.
  - Não? – Perguntei incrédula.
  - Eu não sou a única que quer você na irmandade, Heather. – Ela falou calmamente enquanto mastigava sua comida. A encarei por um instante. Então além de Gina outras pessoas também me queriam nas Sisters Insane? Gina viu minha expressão de surpresa e riu. – Essa é sua chance.
  - O quê? – Ofeguei. – Eu não posso... E se for mentira? – E se for verdade? Completei internamente. O que aconteceria com Lauren se eu a dedurasse? O mesmo que aconteceu com Lyanna? Eu não podia fazer aquilo.
  - Todo mundo sabe que é verdade. Além do mais são só cigarros que ela guarda debaixo da cama. Judith vai apenas dar umas horas de serviço, nada demais.
  - E se ela descobrir que fui eu quem a dedurou? – Olhei para Lauren e seu grupinho e definitivamente elas não eram do tipo que levavam numa boa.
  - Relaxa, elas não vão se meter com uma Sister Insane. – Gina piscou para mim e depois sorriu me acalmando. Senti vontade de beijá-la novamente, mas me repreendi assim que a vontade surgiu.
  Estava decidido, depois do almoço eu teria uma conversa com a diretora do St. Heaven e, logo depois, eu seria finalmente uma Sister Insane.

††††

  Eu andava sobre a grama com passos decididos, o sol batia nos meus olhos claros fazendo com que eu os espremesse. Entrei no pátio do St. Heaven e segui até o corredor onde daria direto até a sala de irmã Judith. Antes que eu pudesse passar da porta esbarrei em algo.
  - Onde pensa que está indo, senhorita Anderson? – Levantei a cabeça e olhei para a freira gigante.
  - Preciso falar com irmã Judith.
  - Ela está ocupada, e se me lembro bem você ainda não foi dispensada dos seus serviços. – Eu estava tão ansiosa para falar com irmã Judith que nem me senti intimidada pela irmã Paula.
  - Eu realmente preciso falar com irmã Judith, é importante. – A encarei profundamente até que ela se rendeu.
  - Está bem, mas não pense que irá se livrar de suas atividades.
  A freira gigante me acompanhou até a sala da diretora onde bateu e esperou até que ela respondesse. Irmã Paula entrou e me mandou esperar do lado de fora.
  - Mande-a entrar. – Ouvi a voz de irmã Judith dentro da sala.
  Irmã Paula saiu e eu entrei no aposento em que estivera algumas horas atrás.
  - Que surpresa a ter aqui, senhorita Anderson. – Ela estava de pé perto da janela e me encarava com uma expressão estranha, quase alegre. – Sente-se e me conte o que veio fazer.
  Respirei fundo e olhei em volta da sala. Observei a enorme estante repleta de livros e vi o lugar exato em que Gina e eu nos beijamos. Eu tentava me convencer de que aquilo não havia sido nada demais, mas simplesmente não parava de pensar naquela cena.
  - Estão aí desde que o St. Heaven foi fundado. – Tomei um susto ao ouvir a voz de Judith e resolvi me focar no que eu tinha que fazer.
  - Irmã Judith, preciso contar algo.
  Eu havia ensaiado com Gina o que falar.
  Uma das colegas de quarto de Lauren era uma Sister Insane. Então eu diria que ela tinha vindo até mim me contar que se sentia incomodada com o cheiro do cigarro de Lauren, então eu pensei que seria uma boa ideia contar a diretora o que estava acontecendo. Caso a garota que era colega de quarto de Lauren fosse interrogada, ela confirmaria tudo, pois saberia que era uma das tarefas da irmandade. O plano era perfeito, e Gina me assegurou de que Judith não iria dizer que eu quem tinha dedurado Lauren, o que me fez ficar mais segura.
  Porém, quando contei tudo a irmã Judith ela olhava para mim sem expressão alguma. Não ficou surpresa ou alegre como achei que ficaria.
  - O que espera ganhar com isso, senhorita Anderson? – Comecei a ficar nervosa, por mais que Judith soubesse da irmandade, Gina me alertara de não mencionar nada para ela.
  - Nada, só estou querendo ajudar uma pessoa. – Tentei falar calmamente. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu já havia sido interrogada pela polícia diversas vezes e nunca entreguei o que eles queriam de mim. Mas com Judith era diferente, o olhar dela parecia atravessar minha alma e ter acesso a todos os meus segredos.
  - E quanto a Lauren? Você sabe que ela não vai se dar bem depois do que você me contou.
  - Bem, ela está quebrando regras, não está? Então acho que ela merece. – Só depois de ter falado foi que notei o quão parecida com Gina eu havia ficado. Me assustei com aquilo, mas logo me convenci de que eu estava apenas interpretando um papel.
  Irmã Judith me encarou por um longo tempo até que sorriu. Era um sorriso assustador, mas mesmo assim um sorriso.
  - Parece que você finalmente entendeu como as coisas aqui funcionam, senhorita Anderson. Fico feliz.
  - Sim, entendi. – Balancei a cabeça e sorri tentando parecer o mais simpática possível. – Então, o que irá fazer a respeito de Lauren?
  Irmã Judith deu a volta na mesa e parou ao meu lado colocando a mão no meu ombro. Senti imediatamente um arrepio.
  - Iremos checar, mas sabendo da reputação que a senhorita Adams tem, creio que sua acusação seja verdade. – Respirei um pouco aliviada, minha tarefa estava cumprida. Lauren se ferrando ou não eu havia a dedurado. – Está liberada dos seus serviços.
  Franzi a testa.
  - Como assim? – Liberada? Eu estava completamente confusa.
  Irmã Judith soltou uma risada.
  - Creio que ainda não soube do nosso sistema.
  - Que sistema?
  Ela me olhou profundamente, houve batidas na porta e logo ouvi a voz de irmã Paula.
  - Não sou eu quem irá explicar. – Irmã Judith falou e depois se voltou para a freira gigante. – Acompanhe a senhorita Anderson até o quarto dela, ela foi dispensada de seus serviços.
  Irmã Paula me levou para fora e eu andei em silêncio tentando entender o que havia acontecido.
  Quando cheguei ao meu quarto Mary Elizabeth e Joana estavam lá. Ambas ficaram em silêncio quando eu entrei, fui até a minha cômoda e fingi procurar algo.
  - Achei que estava encarregada de lavar os banheiros por mais uma semana. – Mary Elizabeth falou com o sarcasmo de sempre. Fazia tempo que ela não dirigia a palavra a mim.
  - Fui dispensada. – Respondi ainda de costas.
  - Dispensada? – Ela riu. – Uau! Quem você dedurou?
  Fiquei tensa. Então esse era o sistema? Você dedura alguém e é dispensada das suas horas de serviço. Me virei para elas e minha expressão deve ter respondido sua pergunta. Joana sabia do que se tratava então apenas balançou a cabeça para mim.
  - Então dedurou mesmo alguém? – Não respondi. – Parabéns, agora você é uma delas.
  Ela bateu palmas e eu engoli em seco. Sai rapidamente do quarto antes que ela dissesse mais alguma coisa.
  Eu ia descendo as escadas repetindo para mim mesma “Eu não me tornei uma delas. Eu só quero sair daqui.” Mas a medida em que a frase se repetia ela se tornava menos verdade. Quando sai do prédio três percebi que talvez fosse tarde demais.
  Mary Elizabeth talvez tivesse razão. Eu havia me tornado uma delas.

Capítulo 11

Confira a nota da autora no fim do capítulo.
Para quem gosta de ler ouvindo música, recomendo dar play em Oh My God – The Pretty Reckless nessa primeira parte do capítulo.
Boa leitura!

  “Heather Anderson, todas as provas foram coletadas. Você conseguiu cumprir, no prazo, todas as seis tarefas. É com imensa satisfação que lhe damos as boas-vindas as Sisters Insane. Vá até a capela abandonada às duas da madrugada para darmos início à cerimônia de iniciação.
  Atenciosamente,
  Sisters Insane.”

  Mais uma vez eu atravessava o vasto jardim do St. Heaven Institute, estava no horário marcado. Como de costume não havia nenhuma freira por ali o que facilitava meu caminho. Entrei na capela abandonada e tomei um susto ao ver todas as Sisters Insane sentadas nos bancos que havia ali. Todas com suas máscaras de gás macabras, no altar estava Gina. Com uma capa que lhe cobria todo o corpo, deixando apenas seu rosto amostra.
  - Aproxime-se Heather Anderson. – Ela pediu e eu andei com o coração prestes a sair pela boca até o altar onde ela estava. – Hoje você será uma de nós.
  Uma das garotas andou até mim e colocou uma capa igual a de Gina sobre meus ombros.
  - Siga-me.
  Todas levantaram e Gina foi até a porta onde ficava a entrada do túnel. Todas nós entramos. A líder ia na frente com mais duas garotas segurando uma lamparina e eu atrás, o resto do grupo depois de mim. Finalmente chegamos à sede. A única luz era a que Gina segurava. Ela foi até uma lata de metal grande, não vi o que tinha dentro dela.
  Gina quebrou a lamparina e tudo ficou escuro e silencioso, mas eu jurava que podiam ouvir as batidas do meu coração. Uma pequena chama se acendeu, Gina segurava seu familiar isqueiro, ela o aproximou dentro da grande lata de metal e logo o fogo surgiu. Outras latas ao redor também tiveram um fogo acesso pelas garotas.
  Um círculo foi formado a minha volta. Logo éramos só Gina e eu dentro dele.
  - As Sisters Insane é uma irmandade que existe há muitos anos antes de nós – Gina falou alto fazendo com que sua voz ecoasse pelo local. – Vem passando de geração a geração e agora o poder de fazer história está com a gente.
  Uma garota veio até nós trazendo um pequeno objeto brilhante o qual não vi o que era.
  - Estenda sua mão, Heather. – Estendi e ela a segurou com minha palma para cima. – Repita conosco.
  - Eu juro, deste dia em diante, lutar e honrar minhas irmãs do passado e minhas irmãs do futuro.
  - Eu juro, deste dia em diante, lutar e honrar minhas irmãs do passado e minhas irmãs do futuro...
  Enquanto pronunciava o enorme juramento da irmandade me peguei pensando no dia em que cheguei ao internato. Absolutamente esse não era o ponto ao qual eu pretendia chegar. Comecei a me perguntar se isso ainda fazia parte do meu plano de fuga. Olhei profundamente nos olhos de Gina enquanto fazia o juramento e percebi que ela tinha razão quando me falou que talvez esse fosse o melhor lugar para se estar. Eu não estava totalmente certa a respeito disso, mas a verdade era que eu nunca tinha feito parte de algo como eu estava prestes a fazer agora. E isso mudava toda a minha visão sobre aquele lugar.
  - ...Ajudarei e protegerei minhas irmãs quando estas precisarem de mim.
  - Ajudarei e protegerei minhas irmãs quando estas precisarem de mim.
  Gina levantou na altura dos olhos o objeto brilhante que tinha em mãos. Era um canivete. Ela fez um corte em sua mão e pingou o sangue em uma taça de metal, em seguida também cortou minha mão. Eu estava tão inebriada pelo momento que não senti dor alguma. Meu sangue também pingou no cálice.
  - Beba.
  Virei a taça e deixei as pequenas gotas de sangue, meu e de Gina, escorrerem pela minha boca. O gosto metálico tomou conta de todo o meu paladar, quando acabei, a líder das Sisters Insane me olhava com os olhos brilhando. Limpei os lábios com o dedo.
  - Irmãs, de sangue e de alma, de hoje até o fim. – Ela retirou minha capa e me entregou uma máscara igual a das outras garotas. – Seja bem vinda, sister.

  O que antes era uma cerimônia de iniciação virou uma verdadeira festa. Algumas garotas trouxeram bebidas e até mesmo drogas. Um pequeno som tocava algumas músicas baixas e todo mundo se divertia. Todas elas tiraram as máscaras e eu pude, finalmente, ver os seus rostos. Uns meramente conhecidos, mas a maioria eu nunca havia visto. Algumas garotas se aproximavam de mim e me abraçavam dizendo que estavam felizes por eu ter conseguido, outras me olhavam feio e não me dirigiam a palavra uma só vez. Vi Joana de longe e ela me cumprimentou com um discreto aceno de cabeça. Era a primeira vez que eu a via como uma Sister Insane de fato, o tempo todo ela me pareceu mais como uma espiã.
  Estava conversando com uma garota de cabelos ruivos quando notei Gina me observando do fundo. Ela ainda não tinha vindo falar comigo, então depois que a garota saiu eu decidi ir falar com ela.
  - Se divertindo? – Perguntei quando me aproximei.
  - Muito. – Ela me estendeu seu copo.
  - Tem sangue aqui dentro?
  Ela riu balançando seus cabelos que por um milagre estavam soltos.
  - Como está sua mão? – Antes que eu pudesse responder ela a segurou e chupou o pouco de sangue que havia.
  - Está bem, eu acho. – Respondi como se fosse normal alguém chupar o sangue da minha mão.
  Bebi o líquido que estava no copo e um segundo depois comecei a tossir.
  - Vodka? Como vocês conseguem isso? – Aquela era uma dúvida que eu tinha fazia muito tempo.
  - Temos contatos. – Franzi a testa e tomei mais um gole. – Digamos que nem todas as freiras daqui são totalmente santas.
  - Você está falando sério? – Aquilo era inacreditável.
  - Sim, fazemos alguns favores e em troca recebemos isso.
  Eu estava realmente impressionada. Agora eu entendia o que Mary Elizabeth dizia com “vantagens de ser Sister Insane”.
  A festa durou um bom tempo, no entanto por mais que a irmandade tivesse suas vantagens, elas não podiam abusar. Logo, pouco a pouco cada uma foi para o seu quarto até que só ficamos Gina e eu no meio da sala de estar do prédio três.
  - Eu estou realmente feliz por você ter entrado. – Ela sussurrou.
  - Eu também. – E era verdade.
  - Você é uma pessoa muito especial. – Gina se aproximou de mim e por um momento eu achei fôssemos nos beijar novamente, quis muito aquilo. Mas ela apenas me abraçou com força. Nunca tínhamos nos abraçado antes, a sensação era ótima. – Até amanhã, Heather.
  - Até.
  Ela se afastou e foi embora. Antes que eu pudesse dizer que ela também era especial.

††††

  No dia seguinte eu estava acabada, mas me sentindo estranhamente bem. Era ótimo saber que não havia mais tarefas e nem serviços para fazer, tudo ocorrera bem. Bem até demais.
  No entanto, no refeitório na hora do almoço tive a sensação de todo mundo estar me observando.
  - Deve ser porque você está com uma cara horrível. – Uma das garotas que estava sentada na mesa comigo respondeu quando falei. Eu estava acostumada a sentar na mesa sozinha ou apenas com a presença de Gina, agora estava rodeada de umas dez pessoas. Todas Sisters Insane.
  - A cara dela não está horrível, Cindy. Cala a boca. – Gina falou e piscou para mim, mesmo aquilo não foi suficiente para me fazer sentir menos desconfortável com todas aquelas pessoas me olhando. – Deve ser porque você está sentada com a gente, só isso.
  Não era só isso, eu sentia que não.

  Quando as aulas do dia acabaram eu me dirigi até o banheiro do meu andar, precisava tomar banho. Quando entrei Lauren estava lá, com o já conhecido carrinho de limpeza da senhora Frey. Quis imediatamente dar meia volta e ir para o meu quarto, mas o banheiro estava cheio e todas as garotas me observavam. Andei em silêncio até a última cabine segurando minha toalha com força.
  Quando estiquei o braço para abrir a porta da cabine alguém foi mais rápida do que eu e a fechou.
  - Não tão rápido, novata. – Os olhos de Lauren estavam em chamas. Todas nos observavam e o grupinho dela estava bem atrás de nós. – Ouvi dizer que você foi fazer uma visitinha na sala da diretora recentemente.
  Tentei não me abalar.
  - Sim, eu tinha uns assuntos para discutir com ela.
  - Que assuntos?
  Soltei uma risada.
  - Eu acho que não é da sua conta os assuntos que eu tinha para falar com a diretora. – Lauren se aproximou de mim fazendo com que eu desse passos para trás e batesse as costas na parede.
  - Pois eu acho que é da minha conta sim.
  - E por que seria? – Eu e minha boca grande.
  - Eu fui dedurada e você foi liberada dos seus serviços. Coincidência, não?
  - Irmã Judith achou que eu não precisava mais cumprir serviços, só isso. – Foi uma meia verdade.
  - Sua vadia mentirosa! – Ela gritou e deu um soco na parede bem ao lado da minha cabeça. – Quem te contou? Foi a cretina da Gina, não foi?
  - Eu não faço a menor ideia do que você está falando. – A empurrei para que ela saísse da minha frente. – Quer me deixar passar? Eu preciso tomar banho.
  Ela me pegou pelo braço e me jogou no chão molhado. Um segundo depois ela estava sentada em cima de mim me estapeando, foi então que eu percebi que precisava revidar. Dei uma joelhada em suas costas fazendo-a gritar de dor e me virei para ficar em cima dela. Antes que eu pudesse dar um tapa sequer na cara dela duas garotas me pegaram pelo braço e me prenderam.
  - Você já sabe o método que o St. Heaven usa para quem dedura as pessoas – Lauren ficou de pé na minha frente. – Agora eu vou te ensinar o que nós fazemos com quem dedura.
  Ela me deu um soco na barriga me fazendo tossir com dor. As outras garotas gritavam para ela acabar comigo e eu tentava me manter firme, sem chorar. Vi quando uma garota que eu conheci na noite anterior na sede correu para fora do banheiro. Eu estava sozinha, afinal. Levei mais alguns socos na barriga até ela começar a me bater no rosto, eu me debatia para poder revidar, mas as garotas que me seguravam eram muito mais fortes do que eu.
  Foi quando a porta do banheiro abriu com força que eu me senti salva. Pensei que veria o rosto de irmã Paula ou de irmã Judith, mas era Gina. Ela empurrou Lauren com força fazendo com que ela batesse a cabeça na porta da cabine. As outras garotas que vieram com Gina também empurraram as que me seguravam e eu fui libertada.
  Quando olhei para o lado Gina distribuía socos em Lauren. A cara de cavalo dela estava toda vermelha e eu tive medo de Gina ser capaz de matá-la, então segurei seus braços.
  - Gina, para! Por favor – Ela não me ouvia. Se livrou facilmente de mim e continuou a bater em Lauren.
  Lauren cuspiu sangue e Gina finalmente parou. Ela ficou de pé olhando para a outra.
  - Se encostar um dedo nela outra vez eu acabo com você. – Ela disse no exato momento em que a porta foi aberta novamente.
  - Senhorita Adams, Anderson e Gina me acompanhem agora mesmo. – Irmã Judith parecia tão brava quanto qualquer uma ali. Fomos escoltadas por três freiras até a diretoria. Quando cruzávamos o jardim me deparei com Faith. Ela me olhou desesperada e eu balancei a cabeça. Ouvi um bufar atrás de mim, era Gina.
  - Me solta! Eu sei andar sozinha. – Irmã Paula soltou seu braço com violência e ela veio até mim. – Você está bem?
  Meu rosto inteiro latejava e eu não conseguia respirar direito sem sentir uma dor infernal no abdômen.
  - Não. – Respondi. – Estamos ferradas.
  Ela tocou meu braço devagar.
  - Relaxa, não vou deixar que nada te aconteça. Você só precisa ficar calada.
  - Gina! – Irmã Judith gritou à nossa frente. – Se afaste agora mesmo.
  Irmã Paula voltou a puxar seu braço até sermos empurradas dentro da diretoria. Judith sentou-se atrás de sua mesa e nós três: Gina, Lauren e eu, permanecemos em pé com a freira gigante bem atrás de nós.
  - O que vocês pensam que estavam fazendo? – Irmã Judith não poupou sua voz e gritou à plenos pulmões.
  - Elas me atacaram! – Lauren foi a primeira a responder, afobada e com a cara suja de seu próprio sangue.
  - Ah, pelo amor de Deus! – Gina olhou para ela revirando os olhos. – Você vai mesmo se fazer de vítima?
  - Silêncio! Não existe nenhuma vítima aqui, Gina. Todas as três são culpadas.
  - Não, Judith. Você não sabe de nada. – Me assustei ao ouvi-la falar com irmã Judith daquele jeito. – Heather é sim uma vítima.
  A diretora riu.
  - Vítima? Não é o que me contaram. – Ela olhou para mim e eu tive que me segurar para não começar a tremer as pernas. Eu realmente não queria saber o que irmã Judith faria comigo. – Você também bateu na senhorita Adams, não foi?
  Gina segurou minha mão discretamente e a apertou.
  - Ela fez o que pôde para se defender. Lauren a atacou primeiro.
  Lauren olhava para o chão e tentava limpar seu nariz sangrento.
  - Você por acaso é a advogada dela? Me responda, Anderson. Por que você bateu em Lauren Adams?
  - Ela me bateu primeiro. – Minha voz estava trêmula e rouca.
  - E por que ela fez isso?
  - Porque ela descobriu que eu a dedurei. – Olhei fundo nos olhos da diretora e eles brilhavam. Parecia que ela estava feliz por eu ter apanhado.
  - Irmã Paula, acompanhe a senhorita Anderson até a enfermaria e depois para o dormitório dela.
  - O quê? Você só pode estar brincando! – Lauren gritou. – Não vai acontecer nada com ela?
  - Você já teve sua vingança sobre ela, senhorita Adams. Agora precisamos saber o que fazer com vocês duas.
  Antes de ser retirada da sala vi os olhos cheios de pavor de Lauren e lancei um olhar preocupado para Gina, mas ela deu de ombros e não parecia nem um pouco abalada. Irmã Paula me levou até a enfermaria a qual eu já havia estado e falou para a enfermeira Elise me fazer curativos.
  Quando a freira gigante nos deixou sozinhas a enfermeira me perguntou:
  - O que houve com você? – Ela limpava meu rosto com algodão umedecido por álcool.
  - Lauren Adams. – Respondi e fiz uma careta quando ela passou o algodão por um corte no meu lábio inferior.
  - Entendi. E ela está melhor ou pior do que você? – Elise começou com os curativos.
  Dei uma risada lembrando do estado em que a Cara de Cavalo estava.
  - Muito pior. Mas não fui eu quem a deixou daquele jeito, foi Gina.
  Ela parou de fazer o curativo e se afastou um pouco me olhando nos olhos. Não entendi sua reação.
  - Ah, Gina? Elas estão na diretoria agora? – Balancei a cabeça e ela voltou ao que estava fazendo.
  - Se não fosse por ela eu estaria numa situação bem pior agora. – Deixei um sorriso escapar.
  - Você gosta dela? – Me assustei ao ouvir aquilo, senti minhas bochechas queimarem e eu tinha certeza de que não tinha nada a ver com os murros que eu levei.
  - O quê? Não! Quero dizer... Ela é legal, eu gosto dela como amiga, mas...
  - Eu entendi, Heather. – Ela me interrompeu. – Bom, de qualquer modo acho que você não deveria se preocupar com ela. Ela sempre escapa dos castigos.
  - Como assim?
  Ela finalizou meus curativos e estava prestes a me responder quando irmã Paula entrou na sala.
  - Acabou? – Olhei para a enfermeira Elise esperando ela dizer que não e me explicar tudo. Mas ela apenas confirmou com a cabeça e eu fui arrastada mais uma vez pela freira gigante.
  Quando passamos reto pela diretoria ouvi os gritos de irmã Judith, logo depois os de Gina.
  - O que aconteceu? – Perguntei a freira, mas ela continuou me empurrando em direção a saída.
  - Não interessa a você.
  Ela me levou ao meu dormitório onde me joguei na minha cama, agradecendo por estar sozinha. Meu corpo inteiro doía, mas eu não ligava. Eu só pensava em Gina e torcia para que ela estivesse bem. Havia algumas coisas que eu precisava dizer para ela. Coisas que já estavam me deixando sufocada. Fechei os olhos e tentei confiar no que a enfermeira Elise havia me dito sobre ela sempre escapar dos castigos.
  Eu precisava, de uma vez por todas, saber quem Gina era além da líder das Sisters Insane.

Capítulo 12

  No dia seguinte, me dirigi até a sala de música, como de costume todas as quintas eu era obrigada a ir ensaiar para aquele coral estúpido. Eu ainda estava toda dolorida por conta da surra que havia levado no dia anterior, agora parecia que doía mil vezes mais. Professora Collins, vendo o meu estado, falou que não pegaria tão pesado assim comigo e eu respirei aliviada. Aparentemente, algumas das garotas do coral eram amigas de Lauren e todas elas me olhavam com ódio. Quis mandar o dedo do meio para todas elas, mas no momento eu estava tentando evitar confusão. Só para variar.
  Ficamos o resto da tarde inteira ensaiando e quando, finalmente, acabamos senti o alívio dominar meu corpo machucado. Estava indo em direção a porta quando a professora me chamou.
  - Pode ficar um instante? – Estava prestes a inventar alguma desculpa quando ela me olhou com aqueles olhos gigantes, graças aos óculos fundo de garrafa, e insistiu – Por favor.
  Balancei a cabeça e esperei todo mundo sair da sala. Faith passou por mim sem me olhar. Na noite anterior, quando ela e Mary Elizabeth entraram no nosso quarto, eu esperava que elas fossem gritar comigo e dizerem o quanto eu sou desprezível e idiota, mas nenhuma das duas me falaram nada.
  Aliás, elas não eram as únicas que estavam evitando falar comigo, Gina também estava. Havia passado o dia inteiro sem vê-la, achei que a encontraria no refeitório na hora do almoço, mas ela não apareceu.
  - Desculpe te fazer ficar mais um pouco. – A professora se desculpou enquanto organizava seus infinitos papéis espalhados pela sala. Fui ajudá-la. – Você deve estar cansada e certamente dolorida.
  Concordei e continuei juntando seus papéis, até que finalmente terminamos.
  - E então? – Esperei ela começar a falar o que queria de mim.
  - Você provavelmente já sabe o que aconteceu com Lyanna, não sabe?
  - Sei.
  - Isso aconteceu porque ela desobedeceu às regras. Ela já vinha fazendo isso há um bom tempo, então irmã Judith não aguentou mais e, bem...
  - Ela foi manchada. – Professora Collins me olhou alarmada. – Não, eu não sei o que isso significa. Mas o que quer me falando tudo isso?
  Fui direto ao ponto. Ela coçou seus olhos debaixo dos óculos e respirou fundo.
  - Eu quero que você a tome como um exemplo. Você está desafiando demais a direção, Heather. Se continuar assim, vai acabar acontecendo com você o mesmo que aconteceu com Lyanna.
  - E o que você ganha com isso? – Eu sabia que estava sendo ingrata com a professora Collins, já que ela só queria me ajudar. Mas eu não conseguia evitar a raiva que eu estava sentindo por todos quererem me dar ordens. Eu não sabia exatamente o que Lyanna havia feito, mas eu tinha certeza de que eu não seria tão idiota como ela.
  - Você é uma ótima garota, Heather. – Ela falou ressentida. – Não merece passar por isso.
  Balancei a cabeça.
  - Posso ir agora?
  - Só mais uma coisa. – Respirei fundo. – Gina.
  - O que tem ela?
  - Você confia nela de verdade?
  Parei um instante para pensar. Se fosse um tempo atrás minha resposta com certeza seria “não”. Mas depois do que ela fez por mim, tudo o que eu pensava sobre ela havia mudado.
  - Sim. – Respondi, mesmo sem ter tanta certeza.
  - Cuidado, Heather. Gina não é uma boa pessoa como você, ela adora ferir os outros.
  Eu já estava começando a me irritar. Parecia que todo mundo fazia parte de uma conspiração contra Gina, e eu ainda não entendia o motivo. Era ridículo.
  - O que você sabe sobre ela?
  Ela pareceu desconcertada.
  - Não muito. – A professora passou sua mão pelo cabelo. – Eu sei que ela está aqui desde criança e eu nunca vi ela ser gentil ou ter afeto por ninguém. Eu te aconselho a não confiar muito porque nunca se sabe...
  - Está bem, professora. Eu posso ir? – Ela me olhou com tristeza e balançou a cabeça. Sai rapidamente da sala antes que pudesse ser impedida novamente.
  Não era gentil e não demonstrava afeto por ninguém? Desde quando isso fazia de alguém uma pessoa ruim?
  Desci as escadas rapidamente olhando para baixo, sabia que não era uma boa ideia fazer aquilo, até que esbarrei com alguém. Estremeci de dor. Meu abdômen, que estava roxo devido aos socos que eu havia levado, agora estava queimando por dentro.
  - Me desculpa, eu não vi você. – Sua voz doce e suave foi como um analgésico para a minha dor.
  - Onde você estava? Não te vi o dia inteiro. – Eu estava quase ofendida por ela não ter me procurado.
  - Peguei algumas horas de serviço na biblioteca. – Ela revirou os olhos. – Mas eu sabia que você tinha aula de música hoje e estava indo lá te ver.
  Meu estômago deu voltas e não era por causa dos machucados.
  Cuidado, Heather. A voz da professora Collins ecoou na minha mente.
  - Ah. – Foi a única coisa que saiu da minha boca. – Eu já estava indo para o dormitório.
  - Quer me fazer companhia na biblioteca? Ela está vazia e eu ainda tenho uma hora para cumprir.
  Ela esperou que eu respondesse, como se houvesse qualquer chance de eu dizer não.
  - Vamos.
  Quando chegamos, a biblioteca ela estava de fato vazia. Havia uma pilha enorme de livros na mesa mais afastada.
  - O que você tem que fazer aqui? – Perguntei quando chegamos na mesa em que os livros estavam.
  - Tenho que pôr tudo em ordem e limpar a poeira.
  Olhei em volta, havia mais de cinquenta prateleiras naquele lugar. Levaria uma eternidade para organizar tudo aquilo.
  - Foi o melhor que poderia ter acontecido. – Falei enquanto ela colocava os livros no lugar.
  - Na verdade, não. – Gina falou de costas para mim. – Eu poderia ter saído ilesa se a Cara de Cavalo não tivesse enchido o saco de Judith.
  - Você sempre sai ilesa? – Como sempre minha curiosidade falando por mim.
  - Quase sempre. – Ela respondeu sem se abalar.
  - Por quê?
  Gina parou com os livros e olhou para mim. Tive medo de sua reação, sabia que falar sobre esses assuntos com ela era como andar em um campo minado, mas eu não podia evitar.
  - Está bem. – Ela se aproximou de mim e olhou em volta. Tentei não ficar apavorada por estarmos sozinhas. – Lembra quando me perguntou se eu era protegida de Judith?
  - Lembro. – Parecia que havia sido há uma eternidade, mas fazia apenas alguns dias.
  - É quase isso. Eu estou aqui desde que eu tinha cinco anos. – Fiquei surpresa mesmo que a professora Collins tivesse me dito isso alguns minutos atrás. – Judith vêm cuidando de mim desde então. Eu também já fui punida para valer como as outras, mas nem sempre algo me acontece. Eu sei que ela é uma megera, mas é o mais próximo de família que eu tenho.
  - Eu entendo. – E era verdade. Eu entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Comigo e Anna era do mesmo jeito. Depois que minha mãe havia falecido a única família que eu tinha era ela. Por mais que eu a odiasse, eu tinha que admitir aquilo.
  - Eu sei que entende.
  Gina se aproximou mais e finalmente aconteceu de novo. O beijo que eu tanto ansiava estava acontecendo. Ela me pressionava contra a mesa e apertava minha cintura com força. Levei minhas mãos até seus cabelos sedosos e os soltei do coque em que eles sempre estavam. Ela mordeu meu lábio que estava machucado e eu gemi de dor. Nos separamos sem fôlego.
  Cuidado, Heather.
  - O que estamos fazendo? – Perguntei com medo de estragar o momento.
  - Não vai me dizer que você tem preconceito ou algo do tipo. – Ela limpou meu lábio que sangrava um pouco com seus dedos.
  - Não é isso.
  - Então o que é?
  Olhei para seu rosto que estava metade coberto pelos seus cabelos e tentei formular uma resposta.
  - É só que... Nós fazemos parte da irmandade, somos irmãs. Isso é certo?
  Ela riu afastando os cabelos.
  - Não é como se nenhuma delas também nunca tenha feito isso. Além disso, não é errado se ninguém souber. - Ela me roubou um selinho e se afastou. – Eu preciso terminar isso aqui. Respirei fundo, completamente intoxicada pela sua presença.
  - O que aconteceu com Lauren? – Tentei pensar em outra coisa. Mas era verdade que ninguém havia me falado o que tinha acontecido com ela.
  - Como Judith não pegou tão pesado comigo, ela achou que não seria bom se não punisse Lauren da mesma forma, então deu a ela mais horas no banheiro e agora no refeitório.
  - Vai ser uma vingança e tanto ver a Lauren com aquele uniforme das cozinheiras. – Eu mal podia esperar para ver a cena.
  - Esquece isso, Heather. – Me assustei com o tom de voz dela. – Essa não vai ser a nossa vingança.
  - C-como assim?
  - Lauren teve a ousadia de te bater. – Ela veio novamente até mim e acariciou o corte em minha bochecha. – E além do mais, alguém te dedurou para ela. Precisamos descobrir quem foi.
  - Mas achei que já estava tudo resolvido. Lauren já levou bronca e você acabou com ela. – Eu não estava entendendo toda essa obsessão de Gina.
  - Você vai aprender que não é assim que as Sisters Insane fazem.
  Cuidado, Heather.

††††

  No jantar o assunto do momento era a nova ajudante das cozinheiras, Lauren Adams. Gina e as outras meninas na nossa mesa não paravam de soltar piadinhas para ela. No começo eu achei engraçado, afinal de contas Lauren merecia, mas depois as piadas foram ficando mais pesadas.
  - Cuidado para não deixar os pelos caírem dentro da sopa!
  - Boa garota, merece ganhar um cubo de açúcar!
  Gina quase se engasgava de tanto rir, eu já estava prestes a me retirar da mesa quando uma freira pediu para elas pararem. Senti o olhar fulminante de Alana Mason sobre nós.
  - Alana nem disfarça que é apaixonadinha pela Cara de Cavalo. Só falta nos matar com o poder da mente. – Uma das garotas sentada com a gente comentou. Gina e eu trocamos olhares rápidos.
  - Aposto que as perdedoras estão tramando alguma vingança para gente. – A ruiva, mais ou menos simpática falou. – Ei, Heather. Você dorme no mesmo quarto que duas delas, não é?
  Por mais que não quisesse concordar que Faith e Mary Elizabeth eram perdedoras, respondi mesmo assim.
  - Sim.
  - Aposto que foram elas que te deduraram. – Engoli a seco. Gina olhou para mim com os olhos cerrados, estávamos uma de frente para a outra.
  - Verdade. Não tinha pensado nisso. – Ela falou. – Você conversa com elas?
  - Ahn... Não. Elas fingem que eu não existo. – Tomei um gole do meu suco.
  - Tem certeza? Você pode ter deixado escapar. – Gina não parecia convencida.
  - Tenho. Não comentei nada com elas, nem com ninguém. Não foram elas que me deduraram. – Torci para que não ficasse claro que eu estava querendo protegê-las. A verdade era que eu já havia pensado nisso antes. Mary Elizabeth e Faith sabiam que havia sido eu quem tinha dedurado Lauren, mas eu não achava, ou melhor, eu não queria achar que elas tinham ido me dedurar.
  - Pode ter sido qualquer pessoa. – A ruiva comentou e Gina concordou. Relaxei minhas costas que estavam tensas.
  Quando o jantar acabou, todas nós fomos mandadas para os nossos quartos.
  - Reunião. Hoje. Às duas. – Gina falou antes de subir as escadas e ir para o seu quarto.
  Entrei no meu quarto e minhas colegas já estavam lá. Eu brigava comigo mesma enquanto trocava de roupa para que não dissesse uma palavra, mas foi quando as duas começaram a falar de Lauren entre si que eu não aguentei mais.
  - Foram vocês que contaram a Lauren? – Elas me olharam surpresas. Eu estava parada no meio do quarto.
  - Contar o quê? – Mary Elizabeth já sabia do que eu estava falando, ela só queria me ouvir dizer.
  - Que eu a dedurei para irmã Judith.
  Faith arregalou os olhos e pôs a mão na boca.
  - Então foi você?
  - Ah, para de ser ingênua, Faith! É claro que foi ela. Heather não é a santa que você pensa que ela é. – Mary Elizabeth se levantou de sua cama e veio até mim. – Não. Não fui eu quem a dedurou. Eu tenho uma coisa chamada “vergonha na cara”, diferente de você.
  - Eu precisava fazer aquilo! Não é culpa minha se ela tinha drogas no quarto. – Gritei mesmo sabendo que irmã Paula apareceria a qualquer momento para fazer a vistoria.
  - Não, não precisava. Sabe por quê? Porque não é da sua conta o que alguém tem no quarto. Para de fingir que você fez isso para ajudar outra pessoa além de você mesma.
  Mary Elizabeth sempre tinha razão. A verdade doía.
  - Você não entende...
  - O quê? Fazer tudo isso para ser parte de uma irmandade estúpida? Para ter o respeito da idiota da Gina? Realmente, não entendo.
  - Não a chame de idiota. – Eu estava com tanta raiva que nem mesmo sabia o porquê.
  Mary Elizabeth riu.
  - Oh, céus! Você realmente gosta dela? Acredita em tudo o que ela diz? Eu tenho um recadinho para você, boneca... – Ela ficou muito perto de mim. – Ela vai foder com você. E não é do jeito que você quer. Ela vai arruinar sua vida.
  Pisquei rapidamente tentando afastar as lágrimas que ameaçavam surgir em meus olhos.
  - Minha vida já está arruinada mesmo...
  Ela riu novamente e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando a freira gigante entrou no quarto.
  - Vão para suas camas. – Ela revistou o quarto e fechou a porta.
  Me enfiei debaixo do cobertor áspero e esperei a madrugada chegar. Mary Elizabeth poderia estar certa sobre todo o resto, mas estava errada sobre Gina. Ela não iria me machucar e nem arruinar minha vida, pelo contrário, ela foi a melhor coisa que já me aconteceu naquele internato.
  Cuidado, Heather.

††††

  Quando cheguei a sede metade das garotas já estavam lá, uma delas me chamou para se sentar ao seu lado e quando fui ela me entregou minha máscara.
  - Obrigada. – Quando a coloquei finalmente me senti uma Sister Insane.
  Pouco tempo depois todas já haviam chegado, Gina foi a última. Ela foi até a frente e ficou em cima de uma caixa de madeira.
  - Estão todas aqui? – Depois de confirmar que não faltava ninguém ela começou. – Como todas sabem, houve recentemente uma confusão entre Lauren Cara de Cavalo e uma de nós.
  Graças a máscara eu não me senti desconfortável quando ela falou de mim para todo mundo.
  - Por mais que a direção já tenha “resolvido” as coisas – Ela fez aspas com os dedos. – Nós não resolvemos. O nosso jeito não foi feito.
  Todas as garotas gritaram concordando e aplaudindo Gina, era a primeira vez que eu a enxergava como a líder respeitada que ela era.
  - E se as perdedoras acham que vão bater em uma de nós e dedurá-la como bem entenderem elas estão muito enganadas. Nós revidaremos, sisters!
  A reunião se seguiu a madrugada quase toda. Depois de muitas ideias descartadas sobre como seria nossa vingança, Gina decidiu que deveríamos esperar elas fazerem alguma coisa primeiro. Uma das garotas, que era colega de quarto de uma das “perdedoras” assegurou de que elas iriam sim fazer alguma coisa, e eu era o alvo. Eu sabia que o que Gina mais queria era agir e se vingar de uma vez, mas estava sendo cautelosa. Ela não queria mais problemas com a direção e eu agradeci profundamente por aquilo.
  Quando a reunião acabou deixei a máscara na sede e segui meu caminho até o dormitório. Gina estava conversando com algumas garotas, então não quis incomodá-la. Além do mais, o dia havia sido cheio e eu estava realmente cansada. Cheguei ao prédio três e fui direto para o meu quarto. Me joguei na cama e fiquei um tempo apenas olhando para o teto.
  Como Mary Elizabeth poderia dizer aquelas coisas sobre Gina enquanto ela estava se esforçando tanto para se vingar por mim? Tudo bem que não era a melhor prova de sua humanidade, mas para mim deixava claro que no fundo ela tinha, sim, algum sentimento. Parecia que o ódio da minha colega de quarto por Gina ia além dela ser líder das Sisters Insane.
  Fui até minha cômoda e tirei a roupa que vestia, peguei uma mais leve para dormir e, antes que pudesse vesti-la, ouvi a porta ser aberta devagar. Me virei abruptamente e encontrei Gina parada me olhando.
  - Uau. – Ela sussurrou e eu segui seu olhar até os meus seios cobertos apenas pelo sutiã. Revirei os olhos e me vesti rapidamente.
  - O que está fazendo? – Movimentei os lábios sem deixar minha voz sair.
  Ela fez um movimento com a cabeça em direção a porta e eu a segui. Quando chegamos no corredor ela finalmente falou.
  - Vamos para o terraço. Preciso te contar umas coisas sobre sua colega de quarto.
  A segui sem pensar duas vezes. Enquanto subia as escadas atrás de Gina, tentava ignorar as vozes na minha cabeça.
  Ela vai arruinar sua vida.
  Cuidado, Heather.
  Mesmo sem saber o que Gina tinha pare me contar eu sabia, ela jamais iria me fazer mal algum.

Continua...



Comentários da autora

  NOTA DA AUTORA: Olá, pessoal! Primeiramente gostaria de me desculpar pelo atraso dessa att, eu tento atualizar uma vez por mês, mas os últimos dois meses foram bem puxados no trabalho e na faculdade, então acabou que não tive muito tempo para mandar o capítulo, espero que vocês ainda tenham vontade de acompanhar a história. E, segundo, gostaria de agradecer pelas leituras, no momento já são quase 700 visualizações e eu não poderia estar mais feliz!!! Já ficamos em destaque no site pelo menos umas 3 vezes e eu ainda não tinha agradecido vocês, então aqui está: meu MUITOOOOO obrigada a todo mundo que tá lendo e curtindo a história tanto quanto eu curto escrevê-la. Por fim, gostaria de pedir para deixarem um comentário com a opinião de vocês, é muito importante para mim saber o que vocês estão achando.