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#017 Temporada

Shameless
Camila Cabello



Shameless

Escrita por Gaby Pingituro | Revisada por Songfics

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  - Está folgada em alguma parte, senhorita? – Eu balancei a cabeça para os lados, entretanto, Sílvia puxou um pouco mais forte as cordinhas do corset e precisei me amparar contra os tijolos expostos da parede para não perder o equilíbrio. – Pode soltar o ar agora, está apertado o suficiente.
  Tentei relaxar com a respiração, mas aquela peça deixava meu tronco rígido e minha postura mais ereta que nunca. Sílvia buscou o vestido, me ajudando a colocá-lo sobre as outras peças de roupa, e a saia de veludo vinho com pregas largas pesou sobre minha cintura e quadril, enquanto o corpete justo de decote quadrado cobria a chemise e o corset com eficiência, deixando uma considerável parte do colo exposto, não sei se dando mais ênfase aos meus atributos ou ao colar de ouro e pedras sobre a cômoda que seria colocado em meu pescoço logo em seguida. Um presente que eu não tinha certeza se gostava.
  - A senhorita está ficando belíssima, lady Kinsey. – Vi o reflexo de Sílvia sorrir através do espelho disposto a minha frente.
  Me virei de frente para ela antes que pudesse encostar o colar em minha pele.
  - Não sou lady Kinsey ainda. – Falei. – Apenas Arabellla.
  Minha voz saiu dura, mas minha face mostrava outro sentimento. Algo muito perto do pavor. Contudo, se isso ficou visível para Sílvia, a senhora não deixou transparecer, pois suas mãos seguraram meus ombros e me viraram de frente para o móvel mais uma vez sem se importar em ser muito delicada.
  - Bobagem. – Ela resmungou enquanto fechava o colar e beliscava minhas bochechas com força para deixa-las rosadas. – Vai conhecer seu futuro marido em poucas horas, e o casamento se aproxima tão rápido quanto respiramos. Para quase todos aqui dentro você é Lady Kinsey desde o momento em que seu pai aceitou a proposta de matrimônio com o lorde inglês.
  Sim, ele havia aceitado a proposta com um sorriso no rosto e brilho nos olhos. Mas alguém havia se preocupado em perguntar o que eu achava?
  Me sentei sobre a cadeira escura de madeira maciça.
  - Me passe os grampos adornados, por favor, senhorita? – Sílvia pediu. – Preciso prender algumas madeixas suas. Fico feliz que seguiu minhas instruções e clareou os fios com alcaçuz.
  - Fiquei a manhã toda no sol, senhora.
  - Tenho certeza que lorde Kinsey ficará encantado com sua visão. – Sílvia espetou um dos grampos com força em meu couro cabeludo e observei seu rosto ficar ainda mais iluminado com alegria conforme mexia meus cabelos de um lado para o outro em um penteado adornado. – Desculpe a ousadia em perguntar, senhorita, mas está ansiosa em conhecê-lo?
  - Com certeza. – Falei, porém, as palavras não combinavam com a entonação, e no momento em que seus olhos capturaram o meu pelo reflexo, houve alguma espécie de percepção. Mas a senhora Sílvia, se quis dizer alguma coisa, não teve oportunidade, pois minha mãe abriu a porta do meu aposento com uma rapidez impressionante e a saia do seu vestido amarelo pálido esbarrou pelas paredes.
  - Querida, que divina está ficando! Digna de uma pintura. – Ela juntou as mãos e entrelaçou os dedos logo abaixo do seu maxilar e sorriu para mim. Parecia realmente feliz. – Como está se sentindo? Ansiosa?
  - Me sinto enjoada.
  - Isso é ótimo! – Se possível, o sorriso dela abriu-se ainda mais. – Os criados da cozinha já estão preparando o banquete. Será uma noite agitada, uma bela comemoração!
  Desviei os olhos de minha mãe para observar a mim mesma.
  - Sei que será. – Respondi com um sussurro, e finalmente minha mãe pareceu perceber que a alegria dela não me contagiava.
  - O que foi, ? – Ela arrastou outra cadeira para próximo de mim, sentou-se e puxou minhas mãos com as suas para descansá-las sobre suas pernas. – No que está pensando?
  Continuei encarando minha própria visão enquanto ela aguardava por uma resposta, enquanto Sílvia ainda repuxava meus cabelos e igualmente esperava ansiosa pelo que eu diria.
  Mas do que adiantaria dizer a verdade a elas? Do que adiantaria dizer em voz alta todas as certezas que eu já tinha? Que aquele não era o futuro que eu queria, que não estava pronta para me casar com um homem que sequer conhecia, e que em menos de quatro dias me levaria para outro país tão distante que colocaria terras e mares entre mim e minha família, que tiraria de mim tudo o que eu um dia conheci e que já amei?
  Porém, a verdade se enterrou dentro de mim. Eu tinha deveres. E os deveres sempre eram maiores que os desejos.
  Ou ao menos, foram com essas palavras que cresci.
  - Sabia que talvez esse objeto seja tóxico? – Eu apontei para o espelho e tanto minha mãe quanto a senhora atrás de mim franziram suas testas.
  - Do que está falando, querida?
  - O tutor me disse que a fabricação desse item em Veneza acabou por matar diversos artesãos. – Expliquei dando de ombros. – Algumas pessoas acreditam que a morte seja causada por um produto que aplicam sobre o vidro, esse qual nos permite olhar nossos reflexos.
  Minha mãe estalou a língua no céu da boca e seu rosto perfeito se contorceu em uma careta desgostosa.
  - Não fale essas coisas descabidas na presença de Lorde Kinsey. – Ela me advertiu. – Ele está vindo de Nottinghan direto para Verona, uma longa viagem, bastante cansativa. Vai chateá-lo proferindo essas bobagens e envergonhar a todos nós. Que Deus a perdoe, uma dama não conversa sobre assuntos assim, entendido?
  Puxei minhas mãos para longe das suas e concordei sem dizer uma palavra. A senhora Sílvia, ainda atrás de mim, espetou meu couro cabeludo mais uma vez, quase como uma punição, e minha mãe se debruçou sobre mim após soltar um suspiro.
  - Vamos querida, sorria. – Ela pediu colocando suas palmas ao redor do meu rosto. E assim que fiz o que ela pediu, apertou minhas bochechas com força. – Não estão rosas o suficiente.

+++

  Pela janela, eu observava os convidados chegarem aos montes. Amigos de longa data da família que vinham testemunhar o noivado oficial da filha de Leonardo com um lorde inglês de grande influência. Alguns ficariam para o matrimônio, dali dois dias. O evento da estação e a maior fofoca da província.
  Ele chegará a qualquer momento, eu repetia em minha própria cabeça. O homem que decidiu meu destino.
  A luz natural diminuía mais e mais a cada instante que passava, a brisa que adentrava o quarto ficava mais fria, e eu me afastei da abertura para me sentar sobre a cama elevada e me recostar parcialmente sobre a cabeceira de madeira maciça adornada.
  Era uma posição muito ruim, pois o vestido não permitia que eu relaxasse meu corpo de verdade, como se eu devesse permanecer em alerta durante todo o tempo, e me sentia tão nervosa que facilmente poderia desmaiar.
  Três leves batidas na porta fizeram com que eu me levantasse às pressas, e, de fato, o rápido movimento resultou em uma tontura repentina que esmaeceu meus sentidos em um borrão confuso.
  - Entre! – Eu disse após um instante piscando os olhos rápido demais.
  - Senhorita ? – adentrou o ambiente com duas velas nas mãos e eu segurei a respiração quando vi sua figura alta esperar na entrada do cômodo, cuidadoso, mas me olhando de longe com mais atenção do que todas as pessoas fizeram no dia.
  Meus pés se moveram em sua direção antes que eu pudesse raciocinar qualquer palavra para dizer a ele.
  - ! Eu não tinha certeza se viria. – Seu primeiro nome deixou meus lábios sem que eu pudesse impedir e o esboço de um sorriso se formou em sua própria boca.
  - Sabe que irei para onde quiser que eu vá. – Ele disse com os olhos nos meus, abaixando sua cabeça respeitosamente, os cabelos recaindo sobre sua testa, e meu coração bateu forte contra os tecidos das roupas que me apertavam. Seria ousadia da minha parte dizer que eu sentia minha respiração falha ecoar por todo o quarto? – A senhorita está perfeita. Saída de um sonho.
  - Obrigada. – Agradeci em um fio de voz, as bochechas coradas sem a necessidade de um ou outro apertão, e dei mais um passo em sua direção. – Em que posso ajudá-lo?
  Ele ergueu uma das velas após um instante me observando um pouco mais.
  - Seus pais pediram que eu trouxesse luz para você não ficar na escuridão. – Falou, e então riu baixinho, mas sua alegria logo esvaneceu. – Na verdade, eu me ofereci para isso, uma desculpa boba para vê-la. Entretanto, disseram-me que você estava treinando o inglês para conversar com seu lorde, não quero atrapalhar.
  - Ele não é meu lorde. – Foi o que respondi de pronto e seus olhos, que dançavam por vários espaços, de repente fixaram-se nos meus. – E seu pai me ensinou o idioma bem o suficiente para que eu não precise ficar falando sozinha enquanto espero.
   me encarou por um longo instante, sua boca se abrindo e em um instante se fechando. O que ele queria me dizer? O conhecia bem o suficiente para saber que existia algo amadurecendo em sua cabeça. Mas ele diria? Eu sempre esperava que dissesse. Sempre fora melhor com palavras do que eu jamais seria.
  - Está assustada? – Ele perguntou em seguida, porque a dedução tinha sido fácil. Se não estava treinando como havia dito para meus pais que estava, então por que decidira ficar reclusa em meus aposentos até o último momento disponível ao meu favor?
  Assenti para ele uma única vez e me virei de lado com os dedos sobre a boca, a cabeça baixa. Não queria que ele me visse chorar, mas minha visão estava já muito embaçada pelas lágrimas que se acumulavam.
  - Às vezes eu queria ter o poder da escolha. – Confessei. – Queria ser capaz de dizer o que quero e ser ouvida.
  - Eu gostaria que isso fosse possível também. – Murmurou. – Que todas as pessoas pudessem ser capazes de determinar seu próprio futuro.
  Comecei a chorar. Ouvir aquilo doía, me destruía de dentro para fora.
   apressadamente depositou as velas sobre a cômoda e se aproximou de mim mais alguns centímetros, nervoso, os lábios pressionados um no outro formando uma linha fina.
  - O que eu posso fazer para ajudá-la, senhorita?
  - Me chame pelo meu nome. – Eu pedi quando me virei de frente para ele, encontrando seus olhos sobre os meus, aquela distância de meras polegadas parecendo dezenas de metros, e a tensão que sempre nos acompanhava a cada encontro que tínhamos. – Não vou suportar que me trate como uma estranha em talvez uma das últimas conversas que teremos, .
  Suas mãos buscaram as minhas e aquela sensação formigante se espalhou desde o ponto em que seus dedos tocaram os meus até meu último fio de cabelo.
  - Sinto muitíssimo, . – Sua voz saiu mais rouca, tão baixa quanto um sussurro. – Não pretendia ofendê-la.
  - Não me ofendeu. Jamais fez isso!
  - Só não quero desrespeitá-la. – Completou. – Ainda mais no dia do seu noivado. Já estou sozinho em seu quarto sem nenhum acompanhante conosco, seria malvisto por qualquer um que passasse por nós agora se nos enxergasse assim tão perto, chamando um ao outro pelo primeiro nome.
  Era verdade. Era verdade e eu odiava admitir isso. Mas essa distância... Não era suficiente. Eu queria abraçá-lo ao menos uma vez. Queria saber se o corpo dele respondia ao menor dos meus toques como o meu fazia. Se sua pele também se arrepiava. Se seu coração batia mais rápido.
  - Por favor... – Comecei a dizer, e as palavras se perderam em minha própria boca. Havia tanto que eu gostaria de poder dizer a ele. – Não vá embora.
  Seus polegares acariciaram o dorso de minha mão. Algo tão sutil e ao mesmo tempo tão inebriante.
  - Estarei ao seu alcance a noite toda, . – Ele disse, uma promessa. Como tantas outras que ele havia feito. Como tantas outras que havia cumprido. – Mas será você quem estará partindo em algumas alvoradas.
  A tristeza em sua voz foi tão palpável que algo se comprimiu em meu peito, recíproco. Ergui meus olhos para os seus apenas para encontrá-los já sobre mim, e aquela linha tênue que sempre existiu entre nós dois começou a se afinar, tanto que eu podia senti-la prestes a arrebentar.
  E se eu desse mais um passo?
  Sua visão desceu para meus lábios.
  E se tocasse seu rosto?
  Prendi a respiração.
  E se...
  Passos altos demais no corredor nos despertaram em uníssono, e nós nos afastamos um do outro como se pudéssemos nos machucar se continuássemos tão perto.
  Sílvia corria, corada e enxugando as mãos nas saias, com um sorriso tão grande que parecia machucar seu rosto.
  - Ele chegou, senhorita! – Ela disse afobada para mim. – Seu noivo chegou e está pronto para vê-la!
   observava minha reação e me obriguei a engolir a notícia com uma alegria que não era minha. Mas seus olhos... aqueles olhos que por tanto tempo me estudaram e que me conheciam, sabiam a verdade. E ele não compartilhou o sorriso que dirigi à senhora Sílvia, mas me ofereceu seu braço, como um consolo, para me acompanhar até a sala principal.
  Eu olhei para ele, agradecida, mas ajeitei os anéis em meus dedos e o tecido das minhas saias.
  Se eu fosse fazer aquilo, tinha que fazer sozinha.

+++

  - Senhorita ! – Lorde Kinsey se curvou elegante assim que me viu adentrar o escritório de meu pai, com ele atrás da sua própria mesa e minha mãe à frente da mesma, ambos com suas visões perpassando do homem alto e bem vestido, até se colocarem em mim. Retribuí o gesto com uma mesura profunda e vi o homem inglês se colocar a minha frente. – Estou encantado em conhecê-la.
  Ele disse, o sotaque italiano carregado, e finalmente levantei meus olhos para fitá-lo de fato.
  Seu cabelo era tão claro que facilmente com muita luz poderia ser confundido com branco. Alto e esguio, seu casaco ia até os joelhos, como o costume instruía, da mesma cor escura que o colete por baixo deste. As vestes contrastavam com sua pele, realmente pálida. Será que as histórias que eu ouvia eram verdade? Que não havia sol na Grã-Bretanha e por isso ele tinha essa aparência quase doentia? Será que eu ficaria assim também quando fosse para lá?
  Apesar de ter bons anos a mais que eu, não parecia velho. Nem feio, constatei. Era, na verdade, muito agradável aos olhos, mas mesmo comprovando isso, não me senti aliviada com o pensamento. Algo nele não parecia certo.
  Só não sabia se isso era intuição ou apenas minha mente desejando que ele fosse outra pessoa, alguém que eu não poderia ter.
  - Vejo que os presentes que enviei lhe caíram muitíssimo bem. – Ele disse, ainda muito educado, e eu agradeci com um meneio da cabeça.
  - Ficamos contentes que nossa filha o agrada, Lorde Kinsey. – Minha mãe puxou o leque para se abanar, nada preocupada em esconder o sorriso por trás deste.
  - E agrada muito. – Seus olhos varreram cada parte de mim, do topo da cabeça, até as pontas dos pés, e me senti envergonhada quando seus olhos pousaram sobre meu colo, como uma vitrine para o colar adornado de pedras que ele enviara assim que os documentos foram assinados.
  Quase como um acordo de trocas.
  - Posso perguntar por que requisitaram minha presença? – Eu pousei meus olhos sobre meus pais, estranhando o encontro. – Não me entendam mal, achei que estaríamos recebendo os convidados e participando da festa.
  - E estaremos logo, . – Minha mãe disse com uma expressão que dizia que eu devia me comportar, e meu pai assentiu rapidamente às suas palavras. – Mas antes, Lorde Kinsey insistiu que conversássemos a sós.
  - De fato. – O homem fez outra mesura. – Não estou disposto a tomar muito do nosso tempo precioso. Antes, conversei com seu pai sobre nossos novos acordos comerciais, e agora, gostaria de conversar sobre a senhorita.
  - Sobre mim?
  Algo na postura dele pareceu mudar e o lorde ficou visivelmente mais sério.
  - Veja... É a primeira vez que nos vemos. E me perdoe se eu estiver sendo invasivo demais, mas gostaria de conhecer minha futura esposa antes de levá-la para casa e fazê-la atravessar meio continente.
  - Oras! – Minha mãe exclamou de trás do leque. – Pergunte o que tiver de perguntar, Lorde Kinsey. está à disposição, e nós também.
  O homem inglês estudou meus pais e então voltou-se para mim.
  - Como sabe, senhorita, graças a Deus possuo boas terras na Inglaterra e um comércio bastante promissor, assim como o do seu pai, motivo pelo qual nos conhecemos e acabamos por decidir consolidar esta união. – Eu o escutei com atenção e assenti levemente sem saber muito bem onde ele gostaria de chegar. – Sendo assim, é sabido por todos que minha fortuna não é pequena, e posso garantir que você terá uma vida confortável com tudo o que precisar para tornar seus dias mais agradáveis.
  - Sim, Lorde Kinsey. – Eu concordei no automático. – Sou grata ao senhor pelo gesto atencioso.
  Um minúsculo sorriso repuxou seus lábios e, tão logo quanto se formou, sumiu também.
  - A questão, senhorita , é que o presente me agrada, mas é o futuro que me preocupa. – Falou. – Claro que eu e seu pai já conversamos sobre isso antes de selarmos os acordos que nos trariam a esse evento hoje, e sua mãe, muito atenciosa fez o favor de confirmar, mas quero ouvir da sua boca: será capaz de me dar um herdeiro para o que estou construindo agora?
  Tentei não parecer muito chocada com sua franqueza, porém, por um segundo tudo o que pude fazer foi piscar os olhos e engolir em seco, e ele percebeu isso, assim como todos na sala, e precisei me recompor rápido o suficiente ao menos para não pensarem que eu estava hesitando.
  - Sim, Lorde Kinsey! É claro que sim. – Eu assenti com vigor, e minha mãe riu do outro lado da sala.
  - Se for da vontade de Deus isso acontecerá muito em breve!
  - Uma benção para agraciar as famílias. – Meu pai disse pela primeira vez desde que eu entrara no cômodo. – Um menino!
  Percebi que enquanto eles falavam eu apertava meus dedos contra a palma da minha mão, e escondi os punhos atrás do tecido exagerado de minha saia.
  - Tenho certeza que com a beleza de sua filha e a minha inteligência, nossos filhos realmente serão grandes bençãos para todos. – O lorde disse com uma mesura para meus pais que sorriram em resposta, e virou-se para mim mais uma vez. – Sei que esses assuntos não são os melhores para uma reunião como essa, senhorita, e prometo que depois disso dedicarei meu tempo para conhecê-la melhor, mas com uma última pergunta, prometo dar minha fala por encerrado.
  Respirei fundo.
  - E qual seria a última pergunta, Lorde Kinsey?
  Seus olhos passaram de carinhosos para afiados em um intervalo de um segundo, e me estudaram não como se eu fosse uma pessoa, mas uma mercadoria.
  - Como bem sabe, eu fui criado em um lar católico. – Falou. – E acredito que a união de um homem e uma mulher é um ato sagrado, uma união que deve ser agraciada pela bondade de Deus. Sei que compartilha desta visão, ou eu não estaria aqui neste exato momento falando com você, mas preciso ter certeza: a senhorita já esteve na companhia de outro homem? Intimamente?
  Balancei a cabeça para os lados, completamente estarrecida conforme sentia meu rosto inteiro, não só as bochechas, ficarem da mesma cor que meu vestido. Enquanto sentia o olhar de todos os presentes no cômodo perfurarem minha pele em busca da confirmação da verdade.
  Realmente uma mercadoria. E agora o lorde esperava ansioso para saber se o que estava recebendo era imaculado, se era mesmo tudo o que haviam contado para ele.
  - Fico aliviado em comprovar, senhorita . – Ele disse, parecendo verdadeiramente satisfeito. – Já ouvi histórias de outras mulheres, algumas que não resistiram à tentação, outras que resolveram tomar as rédeas da própria vida...
  - Não seja tolo, Lorde Kinsey! – Minha mãe exclamou ou passo em que se dirigiu até mim e segurou meu rosto com suas duas mãos. – Nossa filha é pura. Criada para o casamento dentro das palavras sagradas. Tenho certeza de que será uma esposa excelente e cumprirá com todos os devidos deveres. Meu marido Leonardo já afirmou isso uma vez, e nós duas confirmamos agora.
  Não sabia se devia agradecer a intervenção de minha mãe naquele instante, ou se devia ficar com mais raiva.
  Minha palavra valia tão pouco que precisava de outros para confirmá-la? 
  Tentei sorrir para o homem inglês, que nos observava agora já por tempo demais, e finalmente ele assentiu, de modo que minha mãe se separou de mim, puxou seu leque mais uma vez e voltou a se abanar conforme dava espaço para que o lorde me estudasse um pouco mais.
  - Sendo assim, agora que estamos esclarecidos, acredito que esteja na hora de fazer o anúncio formalmente.
  - Excelente, meu caro! Excelente! – Meu pai se levantou com um único movimento e seguiu para pegar a mão estendida de minha mãe, os rostos combinados em um sorriso cúmplice, e saíram na frente, deixando as portas duplas da sala abertas enquanto o lorde continuava a me olhar e finalmente se aproximava, estendendo sua mão para mim, que, sem muita escolha, aceitei em seguida.
  - Espero que não tenha ficado ofendida, . – Ele sorriu, suas palavras trocadas para o inglês rapidamente, e de imediato fiz o mesmo para acompanhá-lo. Um teste, eu imaginava. Como todos os outros.
  - De forma alguma, Lorde Kinsey.
  - Por favor, me chame pelo meu primeiro nome, como fiz com você. – Pediu. – Em poucos dias estaremos dividindo uma vida inteira, e ficarei mais satisfeito que comece a colocar algumas formalidades de lado a partir de agora.
  Eu abri e fechei minha boca.
  - Claro, Willian. – A palavra soou estranha em minha língua, mas o homem em minha frente, que segurava minha mão com a sua, pareceu gostar do que ouviu.
  - Você é encantadora. – Ele disse após um momento. – Sua beleza será invejada por muitos. Tenho certeza de que não poderia ter feito escolha melhor em tomá-la como esposa.
  Outro sorriso para mim e me obriguei a retribuir o gesto, como era esperado, como eu devia fazer. E então ele virou-se em direção à porta, plenamente satisfeito.
  - Agora, permita-me desfilá-la pelo salão. – Falou. E sem esperar por uma resposta, Lorde Kinsey me fez caminhar ao seu lado por entre todas as pessoas presentes até que não fosse mais possível distinguir um rosto do outro.

+++

  - Foi tudo tão lindo, senhorita! – A senhora Sílvia agarrou minhas mãos para me olhar nos olhos. – Todos estavam tão felizes! Admito que fiquei aliviada pela senhorita ao perceber que Lorde Kinsey não é tão velho, nem gordo e nem feio também. Inclusive notei que ele pareceu admirá-la com muita adoração. Formarão uma família belíssima quando chegar a hora! Com a bondade de Deus será logo.
  Sílvia me obrigou a sentar de frente para a superfície reflexiva mais uma vez, de um jeito muito similar ao que havia acontecido apenas algumas horas antes.
  - Obrigada, senhora. – Eu disse baixinho enquanto ela começava a procurar os grampos pelo meu cabelo e tirá-los com precisão e rapidez.
  - Sabe, eu ouvi tudo o que os convidados disseram a respeito de vocês dois, principalmente sobre seu Lorde! Terá uma vida legítima da realeza! – Ela exclamou e eu apenas a encarei em resposta. – Se ele é tão rico quanto dizem... Se é tão bom quanto se mostra ser... Não haverá quaisquer preocupações, Lady . Será tão nobre quanto sua aparência.
  Não tentei corrigi-la dessa vez. Sílvia deixou as mechas do meu cabelo caírem sobre meus ombros e retirou a joia que descansava sobre meu pescoço.
  - Foi criada com tanto carinho. – Ela continuou o monólogo. – Seus pais a educaram com extraordinária dedicação! Sabe se portar como uma dama e será uma esposa excelente para o lorde. Tenho certeza que todos apreciarão sua presença e que ele lhe respeitará imensamente! Levará graça para onde quer que o acompanhe.
  Ela direcionou suas mãos para os botões atrás do vestido, e com muita destreza, começou a abri-los.
  - Por favor, senhora, pare! – Os olhos de Sílvia me olharam arregalados através do espelho e eu me virei de frente para ela segurando o bolo que estava preso em minha garganta. – Eu consigo fazer isso sozinha.
  - Mas meu dever é ajudá-la, senhorita.
  - Já me ajudou muito para um dia. – Respondi. – Vi como correu de um lado para o outro. Me deixará mais feliz se for descansar agora e me deixar fazer isso sem ajuda.
  - Mas, senhorita...
  - Por favor. – Insisti, quase implorei, minha voz em um sussurro sôfrego que a fez ficar em silêncio por um instante e me analisar.
  - Foi um longo dia. – Ela suspirou. – Vou deixá-la sozinha agora, senhorita, como deseja. Para que descanse. Sei que tem muito o que pensar. O casamento se aproxima a cada alvorada.
  Eu sorri, mas a vontade de gritar foi o que cresceu.
  - Sim, senhora Sílvia. – Eu concordei, como sempre fazia e esperei que ela tomasse a inciativa de se afastar.
  - Tenha uma boa noite, senhorita. – Ela curvou a cabeça rapidamente, passou pela porta e a fechou atrás de si.
  Eu comecei a chorar no instante em que as quatro paredes do ambiente me isolaram de todos os outros aposentos da casa, inclusive das pessoas que passavam a noite nela.
  Era assim que seria minha vida? Era isso o que eu seria? A esposa perfeita para um homem exemplar, algo a ser apreciado, como um objeto, que só teria serventia para gerar herdeiros e administrar uma casa cheia de futilidades, tão longe da minha família que provavelmente eu jamais a veria de novo?
  Eu vi como todos no jantar se portaram com a notícia oficial do noivado e casamento. Assisti como os olhos das damas brilharam com a possibilidade de alguém ser banhada com pedras preciosas, ouro e tudo o que se sonhasse em ter, e observei como os cavalheiros pareceram invejar Lorde Kinsey pelo que dizia ter, apenas para me dirigir aquele tipo de olhar apreciativo e quase vulgar que significava o fim da busca de um prêmio. Porque, no fim, mesmo para os meus pais, era isso o que e era.
  E ... Minha respiração se acelerou apenas com a imagem do seu rosto em minha mente. Me acompanhou durante toda a noite como disse que faria, e o vi me observar do outro lado da mesa em todas as ocasiões que quis fugir. Me deu força para continuar ali mesmo quando já não aguentava mais encarar todas aquelas pessoas com um sentimento forjado.
  Se tudo fosse mais simples. Se tudo fosse diferente...
  Fui em direção à janela, escancarando a mesma e rezando para que o ar puro ajudasse a me acalmar, que me fizesse pensar com clareza, mas era como se os tijolos avermelhados da alvenaria estivessem se soltando e caindo sobre mim, me sufocando.
  Eu seria sufocada. Tudo o que um dia ousei desejar, tudo o que achava ter... estava sendo soterrado sob as paredes dessa casa.
  O vestido, de repente, parecia mais apertado que antes, o corset esmagava meus pulmões. A brisa rala não era suficiente, eu não conseguia respirar presa aqui.
  Tirei os sapatos barulhentos que ainda calçava e recolhi uma das velas em meu aposento, enquanto segurava a saia do vestido, fechava a porta do quarto e descia as escadas segurando os soluços, correndo para o pátio externo, para as árvores no limite da nossa propriedade, para um local onde eu não me sentisse ser arrancada de mim mesma aos poucos e que pudesse sofrer sem me preocupar com ouvidos alheios curiosos e repreensões grosseiras daqueles que diziam se importar comigo.
  Quando enfim me sentei sobre a grama, recostada sobre o áspero tronco da árvore, permiti que a angústia que eu segurava fazia dias, transbordasse para fora de uma vez.
  Abracei minhas pernas e chorei, tanto que achei que poderia me desmanchar em lágrimas, e no momento em que não sabia se teria forças para me levantar dali, o farfalhar e estralar de folhas pisadas me chamou a atenção e levantei meus olhos em alarme, tensa com quem poderia estar à espreita. Se descobrissem que saí sozinha...
  - ? – A voz chamou, serena, cuidadosa. A voz que eu mais desejava ouvir e a que menos parecia ser possível escutar. Seria algum tipo de alucinação? – , o que houve? Eu a vi correr para fora de casa. Está fugindo? O que está fazendo aqui sozinha?
  A silhueta de se tornou mais clara conforme ele se aproximou, e dado o estado em que eu estava ali e a tudo o que eu estava sentindo, não conseguiria sequer mentir para ele.
  - Eu não quero fazer isso. – Murmurei baixinho uma vez, então outra, até que estivesse repetindo a frase vezes e vezes seguidas. – Não posso me casar com ele, ! Não quero me casar com Lorde Kinsey!
   se abaixou ao meu lado, um tanto incerto do que fazer, de como me amparar.
  - , aquele homem, ele fez algo que...
  - Não. – Eu o interrompi, ainda chorando copiosamente. – Não fez, mas fará. Ele me tirará tudo! Minha identidade, o que tenho, o que desejo... Quando partir com ele, eu não serei mais nada!
  O homem diante de mim comprimiu seus lábios e balançou a cabeça para os lados.
  - Eu vi como ele a olhou durante toda a noite, . Ele jamais a magoará.
  - Fará muito pior que isso. – Busquei suas mãos com as minhas e as segurei com força, mas para minha surpresa, não tentou se afastar. Se possível, me olhou com ainda mais atenção. – Ele me tirará as coisas que amo. E não importa a maneira como ele me olha agora, ou como me trata, ou mesmo tratará. Lorde Kinsey apenas espera que eu gere seus filhos, que eu seja um enfeite em sua casa. Tudo o que ele quer saber sobre mim é se serei capaz de servir a seu propósito. Tudo o que diz é sobre si, sua riqueza e fortuna, como deseja que eu conheça seu lar para ver todas as relíquias que tem. Mas eu não quero ser mais um objeto na coleção dele, ! Não quero deixar este lugar, não quero deixar você!
  Fechei minha boca com força assim que as palavras escorregaram por meus lábios, e me encarou completamente embasbacado.
  Por quanto tempo eu havia guardado isso somente para mim?
  Eu havia perdido a conta de quantas manhãs havia acordado confusa com meus próprios sentimentos. Quantas vezes meus sonhos confundiram o que eu pensava, porque naquele momento em que eu dormia, a realidade não me atingia, e lá, eu fazia o que queria da minha vida. Fazia o que queria com sem me importar com as consequências.
  Não existia escolha entre o que eu desejava e o que era certo, porque ambos se resumiam a um único objetivo.
  Eu não teria outra chance de confessar isso. Eu partiria mais rápido do que qualquer um de nós sequer seria capaz de imaginar. E isso já havia sido um segredo por tempo demais.
  - Senhorita... – Ele começou, com sua boca se abrindo e fechando vezes demais antes e pronunciar qualquer coisa, e meu estômago se contraiu. – Não diga uma coisa dessas. Tenho certeza de que fará novas amizades na Inglaterra. Amizades ainda...
  - Não se faça de desentendido, , eu lhe imploro!
  A atitude que tive pegou a mim mesma desprevenida, pois enquanto ele tentava negar o que eu falava, minhas mãos seguraram seu rosto institivamente, e ele pareceu tão chocado perante o gesto quanto eu mesma fiquei.
  - , nós não podemos.
  - Não podemos ou você não quer? – Sua expressão se contorceu em uma careta, e percebi que angústia que eu carregava também se espelhava nele. Alguma vez eu o havia tocado de uma maneira tão íntima quanto essa? Alguma vez nós havíamos estado tão verdadeiros um diante do outro?
  - Eu não sou ninguém. – Ele me disse com a voz carregada de uma tristeza palpável que fez meu coração se contorcer dentro do meu peito. – Você possui nome, . Possui um propósito. Eu não sou nada mais que o filho e aprendiz de um estudioso que ganha a vida como tutor.
  - Não percebe que isso que diz não ser nada para você, é tudo para mim? – Exclamei quando mais lágrimas desceram pelo meu rosto, e lentamente os polegares de se ergueram para limpá-las da minha pele. – Não quero joias caras e vestidos de seda. Não quero as coisas que Lorde Kinsey me oferece.
  Seu pomo de Adão subiu e desceu quando engoliu em seco, mas seus olhos jamais desviaram dos meus.
  - Você e seu pai foram os únicos que me deram uma saída desse mundo que quer me engolir. – Eu confessei. – Enquanto todas as outras pessoas me ensinavam a ser uma mulher respeitada, a ser uma esposa dotada de bons costumes, vocês acreditaram que eu podia ser mais e me encheram de conhecimento que pouquíssimas pessoas achariam ser adequado para uma moça como eu receber.
  Um riso triste se formou em sua boca e seus dedos acariciaram a lateral do meu rosto, um toque tão sutil que me fez inclinar a cabeça em direção à sua mão.
  - Se alguém fosse capaz de dar o mundo a você, , ainda não seria o suficiente para o que merece ganhar.
  - Seja essa pessoa. – Eu pedi de repente e o homem diante de mim me olhou estático. – Seja essa pessoa para mim, .
  Ele prendeu a respiração e eu fiz o mesmo em seguida, porque mil coisas perpassaram por seus olhos, brilhantes em meio a toda a escuridão, brigando entre a razão e o desejo.
  - Eles terão vergonha de mim. – Eles. Minha família.
  - Mas eu não. – Falei. – Eu não tenho vergonha de você e de suas origens, nunca terei! Não tenho vergonha de quem é e não me importo com o que pensam, . Minhas emoções estão nuas agora e estão me deixando louca, porque eu estou cansada de amar alguém que não é meu.
  O silêncio pesou sobre nós dois e a proximidade, não maior que poucas polegadas, pareceu ainda mais real naquele instante que em todos os momentos anteriores a esse.
  - Você me ama, ? – Minha afirmação veio através de um aceno firme, e vi que precisou umedecer seus lábios com a ponta da língua. – Eu também amo você. Sempre amei. E fugi disso por tempo demais.
  Sua outra mão tocou meu rosto e pressionei meus lábios um contra o outro, a mesma tensão formada horas antes em meus aposentos, agora nos sobrepujando e acelerando meu coração de tal forma que eu não acreditava ser natural. O que aconteceria se eu me inclinasse? E se ele acabasse com o espaço que nos separava? Eu queria que ele cedesse. Queria que sua boca se encostasse na minha.
  - Por que não diz nada? – Ele quis saber, quando o silêncio já parecia insuportável demais. – No que está pensando?
  E a resposta veio mais fácil do que qualquer outra em toda minha vida.
  - Estou pensando que está na hora de decidir meu futuro por mim mesma.
  Fui eu quem cedi ao desejo, que acabei com a distância. Fui eu que tomei a inciativa de beijá-lo, como fazia em meus sonhos, como as histórias que escrevi de nós dois já há tanto tempo.
  Minhas mãos rodearam sua nuca e fiquei sobre meus joelhos de frente para ele enquanto suas mãos continuaram sobre meu rosto, imóveis, até que senti finalmente reagir e se retrair, querer se afastar de mim.
  - ? O quê...
  - Não fale. – Eu pedi, meus lábios ainda roçando nos seus. – Por favor, nem tente.
  - Entende o que estamos fazendo? O que isso significa? – Seus olhos suplicavam para mim. Mil coisas diferentes.
  - Você não me quer? Agora que sabe que me tem, não me quer mais? – Eu ousei perguntar, minhas mãos escorregando por seus ombros e foi a vez de ele segurar firme em minha nuca.
  - Sabe que a quero, , sabe que sim.
  - Então se diz que me ama e entende que isso é recíproco, não vai fugir e nem se esconder agora. – Falei em um fôlego. – Eu sei bem o que isso significava, . Sei o que isso pode fazer comigo e com minha reputação. Mas me deixe tomar essa decisão por mim mesma.
  Seus olhos percorreram meu rosto em uma calma torturante. Estar tão perto dele sem poder fazer o que queria era a pior das torturas.
  Então, em um gesto lento, eu aproximei minha face da sua mais uma vez, tão devagar, que, se ele quisesse, poderia ter me impedido. Ter se levantado e ido embora. Mas quando a distância novamente se reduziu a nada, ele me beijou. Forte, com desejo. Um gesto que me arrancou um suspiro surpreso e qual apreciei da maneira mais intensa que era capaz de fazer, do fundo dos meus ossos e de toda a minha alma. Porque eu estava ali, com ele, tomando as decisões por mim mesma, e ele não estava me impedindo, como alguém que acreditava que eu também tinha uma vida e uma infinidade de escolhas, e não era apenas um objeto a ser colocado em uma vitrine para a admiração.
  Suas mãos desceram por meu tronco, se alojando em minha cintura e meus próprios dedos desciam para explorar a pele exposta pelo V de sua camisa.
  Jamais em minha vida pensei que um toque pudesse ser responsável por tanto. Pois enquanto sua boca se movia contra a minha, eu sentia o ar ao nosso redor pesar, os sons sumirem, nossas respirações aumentarem. E em questão de segundos eu já não conseguia raciocinar devidamente, tudo era um borrão.
  Seus lábios se arrastaram por meu pescoço e murmurou palavras desconexas que soaram como juras escritas em minha pele que eu nunca teria o desejo de apagar.
  De repente, a grama estava pressionada às minhas costas, o rosto de sobre o meu, a lua minguante acima de nós, e sei que quando ele me olhou, esperava que eu tomasse mais uma decisão por nós dois.
  Lorde Kinsey havia me contado que ouvira história de mulheres que antes de seus casamentos arranjados fizeram coisas desrespeitáveis para com seu futuro marido. Que elas se entregaram a outra pessoa, quando, aos olhos da Igreja, deviam se entregar somente a seu prometido. Mas que tipo de promessa era essa que não envolvia as duas pessoas com tudo o que eram?
  Com minhas mãos sobre o peito de , sentindo seu coração tropeçar em suas próprias batidas conforme ele me fitava com aquele amor antes escondido agora transbordando por suas íris, me perguntava se seria assim tão ruim se eu fosse como aquelas mulheres.
  Sem mover meus olhos para longe dos seus, tirei o colete de couro que pesava sobre sua camisa branca e o som abafado da peça de roupa atingindo o solo nos despertou em uníssono, pois nós nos beijamos de novo. E de novo. E mais uma vez, até que nada estivesse entre nós. Nem mesmo a imagem que os outros queriam formar de nós mesmos, apenas quem éramos de verdade, sem qualquer tipo de vergonha.
  Agora. Nós tínhamos apenas o agora.

+++

  Mais uma manhã chegara. E tudo o que eu queria era poder parar o tempo.
  Eu encarava o vestido de casamento estendido sobre o colchão da minha cama, o brasão da família se destacando sobre as camadas de tecido, mas as cores da peça eram da casa de Kinsey. O combinado de uma união. E a proximidade dessa me fez começar a tremer. Apertei ambas as mãos contra meu estômago, sentindo-me prestes a vomitar, mas sequer havia comido para ter algo que colocar para fora.
  - Vire-se. – Senhora Sílvia pediu, em um tom mais parecido com uma ordem. – Vamos colocar esse veludo e brocado em você. Seu noivo já está a caminho da catedral e deixou mais alguns anéis para que você combinasse aos que já tem.
  Claro, pensei com um gosto amargo em minha boca. Mais anéis para simbolizar a competência de Lorde Kinsey em cuidar de mim. Mais coisas que eu não quero.
  - A grinalda que usará está sobre a cômoda, senhorita. Assim que se vestir, farei seu cabelo. Por favor, se apresse! – Sílvia abriu um sorriso imenso, que me fez acreditar realmente que ela estava feliz e emocionada e parte de mim gostaria de poder retribuir o sentimento. – Farei com que fique mais linda do que jamais esteve.
  Sem palavras, deixei que ela me colocasse naquela roupa justa no tronco e busto, folgada nas saias e nas mangas. Deixei que ela me pusesse sentada sobre a cadeira de frente para o espelho e começasse o longo processo de arrumar meu cabelo, de tentar consertar as olheiras sob meus olhos enquanto as palavras da carta de , reverberavam em minha mente.
  Eu a havia queimado, com medo de que alguém pudesse descobri-la. Mas antes de ter essa coragem, havia decorado cada uma das suas frases como se ele as tivesse dito para mim pessoalmente, seu rosto de frente para o meu.

  Minha amada ,

  Espero que me perdoe. Nunca planejei assisti-la entrar naquela catedral e ser entregue para Lorde Willian Kinsey. Não estarei presente em seu casamento com aquele homem.
  Sei que espera que eu esteja presente como minha família estará, mas o mero pensamento me destrói. Havia há muito prometido para mim mesmo que me afastaria e deixaria o destino levá-la para longe, se assim devesse ser, pois sempre acreditei que eu era aquele alguém que você jamais desejaria manter por perto, ainda que eu seja capaz de fazer qualquer coisa que queira.
  Minha promessa teria início após a celebração do seu noivado. Eu estava decidido a fazer isso. Mas quando a vi correr de sua própria casa no meio da noite, quando a vi chorar desolada e a ouvi dizer todas aquelas coisas como se não pudesse mais contê-las... Sinto que o universo me deu um presente com você noite passada. Um presente que temo jamais ter outra vez.
  Me pergunto se fui fraco.
  Deixei que tomasse as decisões de até que ponto seguir, mas agora tenho vergonha de mim mesmo por tê-la deixado ir até o fim com o desejo. Nosso, não apenas seu. Pois seria covardia da minha parte dizer que o que fizemos foi culpa sua. Eu queria aquilo tanto quanto você. Me atrevo a dizer, talvez até mais. E, portanto, uma vez que seguimos com o ato até o fim, não há mais volta, . Nem para mim e nem para você.
  Foi um erro e também não foi. Ao mesmo tempo em que admito que jamais senti tantas coisas, com tal intensidade, quanto nos momentos em que passei contigo, sinto, igualmente, que a desrespeitei, porque está prometida a outra pessoa.
  Que tipo de homem isso me torna? Tê-la por apenas uma noite quando passará sua vida com outro? E o que isso representará a você quando descobrirem o que fizemos?
  Pensar nisso me dilacera.
  Eu jamais a terei por inteiro. Não como desejo tê-la.
  Por isso, tomei a ousadia de lhe fazer uma proposta. Uma opção, para que faça tua escolha. Ao menos assim, saberei que lutei por você pelo menos uma vez, mesmo que talvez já fosse tarde demais.
  Case-se comigo. Conceda-me tua mão, e eu te concederei meu nome.
  Não tenho terras ou riquezas como o Lorde que deseja desposá-la. Meu amor, meu coração, é tudo que posso oferecer-te.
  Se for suficiente, , é tudo seu para tomar. E estarei à sua espera, se assim desejar.

  Para sempre seu,
   .

  - Lady ? – A voz de Sílvia me despertou do devaneio e eu a encarei através do espelho, apenas para receber olhos preocupados sobre mim. – Por que está chorando? Eu a machuquei?
  Confusa, fitei meu reflexo com o olhar vago e me deparei com o rosto molhado.
  Não sei em que momento as lágrimas haviam começado a cair, não as havia sentido. Mas, se fosse ser sincera comigo mesma, não importava, porque a verdade por trás delas não poderia ser dita em voz alta para ninguém.
  Seriam meu fardo para carregar.
  Meu tempo estava acabando, se esvaindo cada vez que o sol se movia um pouco mais no céu azul de Verona.
  A vida que o Lorde me prometia era cheia de regalias. Eu não teria preocupações, meu pai teria acordos e mais dinheiro, minha mãe teria o ego transbordando, tudo isso se eu assinasse o documento perante o Padre hoje. Contanto que eu me entregasse para Lorde Kinsey e desse a ele o que desejava ter, ele, em troca, me daria uma vida confortável.
  Mas eu não seria nada. Estaria sozinha.
  Se eu ficasse, por outro lado, abriria mão de tudo isso. É provável inclusive que minha família decidisse abrir mão de mim também, me deserdar, e eu não teria sequer meu nome quando o próximo dia raiasse.
  Mas teria . Teria seu amor. Teria a oportunidade de fazer minhas próprias escolhas e enfrentar suas consequências, seria capaz de forjar meu próprio futuro e poderia ser a pessoa que desejava ser, sem que um papel me dissesse isso, sem que outra pessoa exigisse isso, e teria ele em quem me apoiar. Não estaria só. Com ele, eu poderia ser alguém.
  - Senhorita? – Sílvia insistiu e eu pisquei meus olhos numa tentativa fracassada de desembaçar minha visão.
  - Está tudo bem, senhora. – Eu tentei dizer a ela, ainda que as palavras fossem forçadas. – Está tudo bem.
  - Então por que está aos prantos?
  - Não estou aos prantos, senhora. Estou apenas nervosa.
  Ela me estudou apenas por um instante antes de voltar a separar mechas e prendê-las com grampos incrustrados de pedras.
  - Está preocupada com a noite de núpcias? Sei como esse dia pode parecer assustador. – Ela murmurou preocupada e com vergonha, como se houvesse desvendado o que se passava em minha cabeça e precisei segurar para não soltar uma risada vazia para ela. Se minhas dúvidas e infelicidades se resumissem a isso... – Tenho certeza que sua mãe teve essa conversa com a senhorita, tudo vai acabar antes que se dê conta!
  Fechei os olhos com força. Ela acreditaria se eu dissesse que isso era uma das últimas coisas que me preocupava sobre hoje? Encarei as juntas dos meus dedos, pesadas pela quantidade de anéis.
  Case-se comigo. Conceda-me tua mão e eu te concederei meu nome.
  Uma opção, para que faça tua escolha
  - Senhora Sílvia?
  - Sim, senhorita?
  - Se um dia te concedessem a oportunidade de escolha, aceitaria?
  - Escolha? – Ela pairou a grinalda sobre minha cabeça enquanto me olhava com o cenho franzido.
  - Sim, escolha! – Eu falei. – Se pudesse decidir o que fazer da sua vida, por si mesma, sem que alguém tivesse que interferir por você, agarraria esse momento? Iria até o fim?
  Vi a mudança em seus olhos. O querer por trás de suas íris. Mas tão rápido quanto vi essas nuances, elas sumiram, e o metal adornado foi colocado sobre meus cabelos, tão frio quanto a expressão dela ficou.
  - Oras, Deus a perdoe por dizer algo assim! Quanta barbaridade. Eu sou uma criada. Uma mulher. Não cabe a mim escolher nada. – Ela exclamou, usando mais grampos para fixar o acessório com firmeza, minha cabeça ardeu. – E você também não. Devia ter vergonha, senhorita, de sequer pensar algo assim.
  Eu tinha medo e incerteza, tinha agonia, tinha palpitação, mas vergonha era a última coisa que possuía quando pensava sobre isso.
  Não queria minha vida resumida a ter vergonha ou não. Jamais foi o que desejei.
  Estarei à sua espera, se assim desejar.
  Tremendo, eu me coloquei de pé, segurei a saia do vestido com força suficiente para os nós dos dedos ficarem brancos, ainda que estivessem todos cobertos de adornos, e Sílvia me ajudou nas escadas, durante todo o caminho até a sala, onde plantei os pés no chão e não consegui me mexer mais.
  Se for suficiente, , é tudo seu para tomar.
  - O que houve, senhorita?
  - Preciso beber alguma coisa. – Falei. – Uma taça de vinho, por favor.
  Fiz menção de seguir em direção à cozinha, porém a senhora se interpôs entre mim e a passagem.
  - Não entre lá com essas vestes. – Ela exclamou.
  - Mas eu preciso beber alguma coisa.
  A senhora me direcionou uma careta e enfim, respirou fundo.
  - Espere aqui e eu lhe trarei a taça, senhorita.
  Eu assenti uma vez, firme, e ela curvou levemente a cabeça antes de se virar. As batidas do meu coração ecoaram em meus ouvidos no mesmo ritmo que seus passos, o ar pareceu faltar.
  Meu amor, meu coração, é tudo que posso oferecer-te.
  Não era verdade. me oferecia muito mais sem sequer se dar conta.
  E era isso o que importava.
  Assim que a senhora adentrou o outro cômodo, eu rotacionei meu corpo em direção à saída secundária, tomando a escolha que me arruinaria ou me salvaria de tudo, correndo como jamais havia feito em minha vida, a saia levantada de uma forma que todos teriam considerado indecente, mas me libertando para ir em direção ao que sonhava.
  Não haveria outro momento. Outra chance.
  Enquanto eu acelerava sobre o chão de pedras em direção àquele mesmo ponto onde havíamos perdido horas sob a lua e o céu estrelado apenas dois dias antes, onde sabia, mesmo sem ele ter mencionado, que era onde estaria, eu sentia meus pulmões arderem enquanto gritava o nome de sem me importar com quem poderia nos ouvir, sem ter vergonha de fazer o que estava fazendo naquele exato instante.
  E não era apenas porque eu precisava dele mais do que um dia ousei desejar. Porque o amava com toda a minha alma.
  Mas porque era minha decisão. Porque era o que eu queria.
  E por isso, eu jamais deveria ser perdoada.


  Nota da autora: Oooi, gente! Mil anos depois de não escrever shorts, voltei para participar de mais um desafio songfic, dessa vez com a música Shameless da Camila Cabello! E olha, meu maior desafio foi me controlar para não passar de 15 páginas (quem me conhece sabe).
  Mas vamos aqui às observações: todos os detalhes mencionados sobre maquiagem (no caso, beliscões nas bochechas), cabelo (sim, clarear os fios com alcaçuz), vestuário, acessórios diversos, mobiliários e arquitetura, foram descritos de acordo com as características históricas do período do Renascentista (do século XIV-XVI), e resolvi detalhar algumas com um pouco mais de clareza aqui, para os curiosos de plantão, como eu.

  - Fontes históricas afirmam que o espelho, ou ao menos o primeiro e mais similar com o que conhecemos hoje, surgiu em Veneza durante o século XIV, de modo que conforme o vidro era feito, eles aplicavam uma fina camada de mercúrio que promovia a visão do reflexo de quem olhasse. Entretanto, como é sabido hoje, o mercúrio é um elemento químico bastante tóxico, e, infelizmente, acabou provocando a morte de diversas pessoas que confeccionavam esses itens sem que elas sequer desconfiassem.
  - Um outro fato curioso é sobre as uniões matrimoniais, onde, o uso de muitos anéis nos dedos da mulher (todos eles) significava que a mesma possuía muito poder e ótimo status social. Quanto mais coberta sua mão estivesse por esses acessórios, mais rico o marido dela era.
  - Por fim, sim, era muito difícil que as mulheres soubessem ler ou mesmo fossem ensinadas sobre conhecimentos gerais durante o Renascimento (que é o período pós Idade Média, ou Idade das Trevas, onde o conhecimento era retido pelo clero e pelos nobres do mais alto escalão), ainda que esse seja considerado um período de importantes mudanças para o mundo inteiro, pois foi a época onde a ciência, filosofia e sociologia tiveram seus maiores desenvolvimentos (no sentido de liberdade para pensar e descobrir depois de tanto tempo regidos sobre as regras da Igreja). Mas o ponto é que: as mulheres eram criadas para o casamento. Cuidar da casa, ter filhos, gostar de roupas, joias e sapatos, e por fim, servir ao seu marido que na maioria das vezes era escolhido pela própria família sem que ela sequer pudesse conhecê-lo com antecedência. 

  E para você, que gostou do que leu, que tal aproveitar para ver minhas outras histórias?

  Beijos e até a próxima :)