Shadow, my Shadow

Escrito por Ilane CS | Editado por Natashia Kitamura

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Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
  E disse da alegria radiante,
  O seu primeiro amor como quem sente.
  (ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia.)

Prólogo
Qual o nome da minha luz?

  — Por hoje é só. Sugiro que dediquem uma atenção especial ao capítulo sobre Prática Jurídica e nos vemos semana que vem. — o doutor Atkinson encerrou a aula, recolhendo os livros e procurando por mim e Wonwoo entre os alunos. — Senhor Kim, senhor Jeon, um minuto, por favor.
  Descemos os degraus do auditório principal, provavelmente o local em que passávamos a maior parte do tempo. Aluno de Direito no último ano, a faculdade me tomava quase o dia inteiro e aquilo me impedia de arrumar um emprego em horários “normais” enquanto não terminava o curso. E eu tinha que trabalhar, porque o pouco dinheiro que minha família conseguia me mandar de Anyang mal dava para os livros e para manter meu carrinho modesto. Sem poder advogar ainda, só me restava pegar alguns trabalhos aqui e ali como manobrista, monitor de aulas particulares e até segurança de meio período. Wonwoo, meu melhor amigo de infância, tinha uma situação financeira mais confortável que a minha, mas felizmente essa diferença nunca se interpôs na nossa amizade e realizamos nosso sonho de criança: estudar na mesma universidade, a estadunidense Saint Peter, para a qual, graças a muito esforço, eu tinha uma bolsa integral.
  Minha mãe não lidou muito bem quando eu, na época um moleque de 18 anos, resolvi aceitar a proposta de intercâmbio da Saint Peter e trocar a doçura do meu lar e do kyungdan dela por um dormitório e uma vaga para preencher cota. Uma aflição perfeitamente justificável, afinal de contas, apesar do meu histórico escolar impecável e das minhas habilidades extracurriculares com esportes, costura e cozinha, eu estava me mandando para o outro lado do mundo apenas com o básico do idioma e meu melhor amigo (cuja proficiência na língua era tão mediana quanto a minha). E independente da quantidade de barba na sua cara, isso é igual em todo o mundo: coração de mãe é um pouco como as ilhas Caraíbas. É um lugar de tumultos naturais, tempestades, ventos, e foi preciso mais de uma semana para acalmá-la e para explicar que, como a universidade oferecia um intensivo de dois anos de inglês, eu não ia parar nas ruas dos EUA como um indigente.
  Alguns anos se passaram, meu inglês avançou (apesar do meu sotaque carregado e da minha língua presa) e eu podia dizer que estávamos indo bem. Não era fácil estudar de dia e trabalhar à noite, não ter tempo para um sono de qualidade ou qualquer vida social, mas o fato de o doutor James Atkinson nos tutelar era a maior prova de que eu estava no caminho certo.
  — Cavalheiros. — o professor nos cumprimentou, estendendo dois envelopes endereçados ao Cravath, Swaine & Moore, o maior escritório de Nova York, a cidade em que morávamos. — Aqui estão suas cartas de recomendação de estágio. Vocês dois são meus melhores alunos, a grade curricular de vocês fala por si só. Tenho certeza de que vocês serão admitidos e efetivados.
  — Obrigado, doutor Atkinson. — agradeci, enquanto Wonwoo se curvava rapidamente.
  Apertei o envelope e me arrependi, porque quase amassei o documento mais importante do meu futuro. Troquei um olhar cúmplice com Wonwoo, procurando fingir calma enquanto eu era invadido por sentimentos conflitantes, uma mistura de euforia pela indicação e de medo da rejeição por conta da nacionalidade coreana. O estágio na CS&M poderia me lançar num mercado sólido ou no fracasso iminente, era tudo importante demais, grande demais, fazendo minhas palmas suarem demais, e eu…
  Eu só queria o kyungdan da minha mãe agora.
  — Mingyu! — Wonwoo me olhou espantado quando o professor se retirou e ficamos a sós. — Você sabe o peso dessa carta?
  — Alguns gramas? — arrisquei, balançando o envelope.
  — Você entendeu! — ele deslizou o dedo pela cartilagem, arrumando o par de óculos imaginário. — Com uma recomendação de James Atkinson - PHD, nós temos mais chances de entrar!
  — Você acha?
  — Você não? — ele rebateu e eu soube que ele estava com a mesma mistura de sentimentos que eu.
  — Bom, eu espero que sim. Preciso muito desse emprego. — suspirei, esperançoso. Depois de várias tentativas recusadas, aquele escritório era nossa maior aposta para conseguir fazer carreira e continuar nos Estados Unidos. Observei meu amigo apertar os olhos e tentar focar a vista, não obtendo sucesso e buscando na bolsa a armação em estado deplorável de rachaduras e fita adesiva para colocar na cara. — Como vai a desastrada que fez isso aí no seu óculos? — mudei o rumo da conversa para me distrair da frustração e da ansiedade.
  — A Marie Bee? — ele deixou um sorriso escapar quando pronunciou o nome da garota que havia lhe imprensado acidentalmente entre as prateleiras da biblioteca, causando perda total no óculos. — Ela é mesmo uma desastrada, não é? Mas é tão pequena e fofa. Acho que cabe no meu bolso.
  — Nossa. — soprei, revirando os olhos nas órbitas. — Por que eu fui perguntar? E por que você não aceita logo que ela te compre um par novo? Afinal de contas, foi ela que quebrou. E ela é rica.
  — Se eu aceitar, ela não vai ter mais motivo nenhum pra me procurar. — ele disse sem jeito, puxando as mangas do suéter. — Ela só está falando comigo porque se sente culpada de ter quebrado o óculos do cara pobre, é só isso.
  — Ei, hyung! — passei o braço pelos ombros dele, esfregando o couro cabeludo com as juntas, meio carinho e meio agressão. — Aposto que ela está mesmo interessada em você. Você é um quatro olhos, mas é um gostoso. Dividimos o dormitório, eu já vi você só de cuequinha.
  — Guarda a sua solidariedade masculina, por favor. — ele se afastou com o cabelo igual a um ninho de passarinho. — Você sabe muito bem por que eu evito me meter com as garotas daqui.
  — Porque nós somos dois intercambistas que não combinam com essa universidade frequentada 80% por gente rica e 20% por nós, que precisamos estudar e trabalhar ao mesmo tempo?
  — Bingo. — ele tocou a ponta do próprio nariz, sinalizando que eu tinha acertado. — Aliás, falando em trabalho, você ainda está procurando? A Marie tem uma amiga que pode te arrumar alguma coisa.
  — Jura? — respondi, animado com a possibilidade. — Que tipo de trabalho?
  — É que ela precisa de uma companhia masculina. — Wonwoo continuou e eu senti meu rosto em chamas.
  — Jeon Wonwoo! — acertei um soco no braço dele. — Eu preciso de um emprego, mas eu não vou me prostituir! No máximo eu arriscaria um onlyfans, mas nem pra isso eu tenho coragem. — falei alto, quase gritando, e as pessoas ao redor do campus imediatamente começaram a nos encarar.
  — Em primeiro lugar, obrigado por isso. — Wonwoo diminuiu com os olhares recebidos. — Em segundo lugar, não é esse tipo de companhia, seu pervertido! É segurança particular. Ela sai muito durante a noite e não dirige, o avô dela só quer alguém que a leve nos lugares que ela quer ir e fique de olho nela.
  — Oh. — abri a boca. — Então é só acompanhar a riquinha na balada pra cima e pra baixo?
  — Basicamente é isso. O pai da Marie Bee tem uma empresa de segurança, e como você já trabalhou com isso e esse é um emprego noturno, eu meio que dei certeza de você topar. — Wonwoo explicou enquanto caminhávamos.
  — E durante o dia? — peguei um copo de café quando chegamos ao refeitório. — A madame não faz nada?
  — Marie disse que ela cursa Literatura aqui. E que você não precisaria tomar conta dela no campus, só à noite. Quando ela estiver virando bicho pelas festas de Manhattan. — ele fechou os punhos e simulou uma dança de boate.
  Tomei um gole grande e amargo, sentindo o corpo cansado despertar ao contato com a cafeína. Parecia até fácil ficar de vigia da garota em troca de um salário, além do mais, não atrapalharia os meus estudos.
  — Ok. — assenti. — Acho que eu posso brincar de sombra. Qual o nome da minha luz que eu vou ter que seguir por aí?
  — É .

Capítulo 1
A sobrevivente tatuada

  Meu pescoço pinicava de tanto ajeitar o nó da gravata. O sol nem tinha nascido direito e eu já tinha comido e me enfiado num terno. Não era muito diferente de qualquer dia da minha vida, sendo um futuro advogado, estava acostumado a andar empacotado por aí, o que não significava que eu gostasse do figurino. Ainda mais num sábado. Às seis da manhã.
  Deixei o dormitório bocejando, passando por um campo minado de alunos nas escadas, cada um num estado pior que o outro. Pelo cheiro de álcool e nicotina que impregnou os corredores, aquela galera tinha acabado de chegar de uma puta festa. Passei pelos sobreviventes e abri o celular na página de notícias da Saint Peter, administrada pelo estudante de Jornalismo Boo Seungkwan, para conferir o resumo da noite enquanto esperava o meu ônibus. Ser um nerd não significava que eu não gostava de saber das fofocas de gente que eu nem conhecia, e eu me dava, sim, ao prazer de uma leitura “fútil” entre um artigo de jurisdição civil norte-americana e outro. A matéria estava recheada de fotos que não deixavam dúvidas sobre o porte do evento, que contou com participações de DJs famosos e até um patrocínio da Chevalier Industries, a maior metalúrgica dos EUA.
  Avistei meu ônibus de longe, vaguinho. Escolhi um lugar perto da janela e decidi continuar lendo no trajeto até o metrô. A festa era da fraternidade dos jogadores de futebol, uns caras que passavam por mim como quem passava por nada. Todos os intercambistas eram meio que “ninguém”, mas eu estava velho demais para fazer disso um drama, além do que, não me faltavam amigos no dormitório da Saint Peter para bater bola, tomar umas cervejas e falar sobre a temporada que os Jets estavam fazendo. O tempo anestesiou a indiferença e os olhares de soslaio da elite americana da universidade, e saber que o que eu buscava ali era muito maior que ser aceito por um grupo era algo bem forte na minha mente. Eu queria me qualificar para advogar no melhor escritório do país, nem que para isso eu tivesse que sacrificar meu descanso e bancar a babá no processo.
  O caminho do meu novo emprego era no lado sul (e rico) da cidade. Eu precisava passar na empresa dos Bee antes para fazer ficha cadastral, acertar horários, salário e toda a parte administrativa da coisa. Só o prédio chique foi impacto suficiente para o meu cérebro ainda dormindo, a recepção toda em piso caro e com duas loiras de nariz em pé me fizeram perceber que aquele trabalho ia me jogar numa realidade oposta à minha. Quando me encaminharam até o castelo encantado da princesa por quem agora eu era responsável, tudo o que eu conseguia imaginar era em que caralhos o Wonwoo tinha me metido. Achava que eu só tinha que brincar de sombra, mas depois que eu cheguei à área externa da mansão gigantesca e ostensiva, quem me recebeu foi um cara de ponto no ouvido e um aparato que parecia ter saído de um filme de espionagem, apresentando-se como chefe da segurança:
  — Kim Mingyu? — ele perguntou, ríspido, e eu confirmei. — Documento, rapaz.
  Fui surpreendido por um flash fotográfico e uma espécie de crachá provisório enquanto o homenzarrão analisava minha identidade. O crachá dizia "Segurança Particular - Chevalier".
  Chevalier?
  Puta que pariu.
  Engoli em seco e pensei em palavras que não podiam ser ditas em voz alta quando recebi o nome completo e juntei as peças. A moça da empresa dos Bee só se referiu à pelo primeiro nome ou como “a amiga da Marie”. E como a Marie só era vista na biblioteca, eu suspeitei por alguns segundos que “a amiga” poderia ser uma enciclopédia de Neuropsicologia. Mas não. Era uma garota. A garota mais famosinha da Saint Peter, anfitriã da festa sobre a qual eu vinha lendo horas atrás.
  Como eu não me liguei disso? Como o Wonwoo me deu a volta daquele jeito?
  — Pode entrar. — o chefe me liberou. — Boa sorte. Vai precisar. — ele murmurou a última parte.
  Caminhei pelo jardim imenso, que deveria demandar pelo menos uns três jardineiros para cuidar e manter a grama rente e verdinha daquele jeito, o que me fez pensar que eu devia ter me candidatado a essa vaga. Daria muito menos trabalho que dar conta da mimada. O jardim não acabava de tão grande e me deu tempo de realizar uma rápida e furiosa ligação para o meu "amigo":
  — Chevalier, Wonwoo? — despejei assim que ele atendeu.
  — Eu te dei o nome e você não perguntou o resto. — ele respondeu, e eu sabia que estava rindo. — A culpa é sua.
  — A culpa é sua que fica todo mole quando uma mulher sorri pra você! Você quis agradar a Marie e agora eu tô de chaveirinho da garota problema!
  E eu estava convicto disso, de que eu seria tratado, sei lá, como se eu fosse a bolsa dela. Chevalier era totalmente diferente de mim: rica e superpopular. Era conhecida por ser neta de um dos magnatas da cidade, dono de um grande conglomerado industrial, e por dar as maiores e melhores festas, para as quais eu, obviamente, jamais fui convidado. O mais perto que eu chegava dela era quando eu lia o periódico do Seungkwan, que era meio fissurado na , uma espécie de celebridade de quem todos queriam notícias, boatos, qualquer coisa. Nunca trocamos palavras, mas eu sempre a via pelo campus rodeada de muita gente, inclusive do capitão do time de futebol, Dokyeom, que eu achava ser namorado dela ou coisa parecida.
  — Você dá conta. não é tão ruim assim, ela só gosta de uma noitada. — Wonwoo tentou me consolar.
  — Gosta tanto que só agora chegou em casa. — disse, quando avistei um carro se aproximando da entrada da mansão e descendo com os saltos na mão. — Eu tenho que ir. Mas você me paga. — avisei Wonwoo, desligando o telefone.
  Depois que ela se enfiou casa a dentro meio trôpega, esperei cinco minutos e bati na porta grande e branca. Fui recebido pela governanta da casa, que me olhou de cima a baixo, procurando algum defeito e não encontrando, a julgar pelo sorriso que ela abriu:
  — Você é tão bonito! — a simpática senhora me elogiou. — Eu sou Dorota, mas pode me chamar de Dory. Você toma café? — ela lançou em sequência, mal me dando tempo para responder, e eu fiz gestos de aquiescência com a cabeça. — Como que você gosta?
  — Preto. E bem quente. — sorri mais relaxado com a ideia de um café, além do mais, a governanta era bem mais amigável que o chefe da segurança. Era reconfortante saber que havia uma pessoa naquele casarão que me deixava à vontade.
  — Igualzinho à ! — ela juntou as mãos no peito. — Entra, o avô dela quer falar com você.
  Seguimos até o escritório todo mobiliado em madeira cara e adornado de livros. Alfred Chevalier estava sentado analisando papéis e tomando chá quando percebeu a nossa entrada e, sem tirar os olhos da sua mesa, perguntou para Dory:
  — E a ?
  — Acabou de chegar. Está na cozinha comendo alguma coisa.
  — Outra vez passando a noite em farra... — ele balançou  a cabeça em reprovação e levantou os olhos para mim. — Bom dia, senhor Kim. Por favor, sente-se.
  — É um prazer conhecê-lo, senhor Chevalier. — aceitei o convite.
  — Alfred está bom. — ele sorriu curto. — Eu recebi boas recomendações sobre você. Pupila de James Atkinson, certo? Eu o conheço. Qualquer um que seja bom para o James, é bom para mim também. — ele abriu o sorriso, soando mais receptivo.
  — Fico lisonjeado, senhor. — respondi, apertando os joelhos de nervosismo.
  — Olha, garoto... — ele pôs os óculos em cima da papelada. — Minha neta é a pessoa mais importante do mundo para mim. Ela é tudo o que eu tenho desde que... Bom, você sabe. Todos nessa cidade sabem. Céus, saiu em todos os jornais.
  Baixei a cabeça em condolência. A perda do senhor Chevalier era tão devastadora que sequer tinha nome. era órfã, mas ele havia perdido um filho. Que nome se dava a um pai que perdia o filho? O acidente fatal que ceifou as vidas de Henry e Cassie Chevalier, os pais de , repercutiu nacionalmente tanto pela gravidade do acontecido quanto pelo milagre que foi , na época ainda criança, ter sobrevivido.
  De repente, o peso da minha responsabilidade triplicou e uma chave mental virou pesadamente. Eu pensei que tinha apenas que vigiar uma garotinha esnobe, mas aquela garotinha era a neta de alguém. Era o “tudo que eu tenho” de alguém.
  — Então essa aí é minha sombra? — despertei com o som de uma suculenta maçã sendo mordida e a dita garotinha (que já era uma mulher)  surgindo à porta do escritório.
  — Esse é o seu segurança. — Alfred corrigiu, levantando-se. — Ele vai acompanhar você durante  a noite.
  — Ué. — espiou pela janela grande e apontou o sol. — Está de noite agora?
  — Engraçadinha. — Alfred deu um beijo na testa da neta, que aceitou casta e graciosamente. — O senhor Kim concordou em vir hoje para se familiarizar com você e sua rotina maluca.
  — E o senhor Kim fala ou alguém comeu a língua dele? — os pés descalços de vieram andando em minha direção e eu não tive outra reação a não ser levantar na presença dela.
  A moça diminuiu na minha frente, ficando à altura do meu peito. A diferença gritante de tamanho não a intimidou e ela sustentou um olhar incisivo, me lendo e me decifrando. Eu já tinha visto diversas vezes, mas sempre longe, ao ponto de eu não conseguir distinguir os desenhos e as letras das tatuagens, que agora estavam perfeitamente legíveis no corpo coberto por um mínimo tubinho preto. Eram pedaços de poemas, rosas, borboletas, números e textos espalhados pelos braços, mãos e dedos, com alguns grandes espaços em branco entre a coxa e a panturrilha, sendo a perna esquerda o único local visível livre. era toda flor e verbos, e mesmo com a pele limpa de uma maquiagem que não resistiu à noite intensa, ela era bonita. Muito bonita.
  — Min... — ela tentou ler meu crachá.
  — Mingyu. — falei finalmente, com a voz falha. — Kim Mingyu.
  — Você é alto e forte assim mesmo ou eu ainda estou vendo dobrado?
  Ela me apalpou o peitoral sem cerimônia alguma e eu segurei o ar nos pulmões quando ela desceu pelos meus braços, apertando-os. Os olhos subiram um pouco, se perderam na minha boca por um momento e de repente aumentaram. Grandes, redondos e castanhos.
  — Espera aí. — apertou meu rosto com uma mão doce do suco da maçã, virando meu perfil para ambos os lados. — Eu conheço você! Você é o nerd coreano!
  Espremi os olhos e segurei a língua na boca, forçando um sorriso. Eu era, de fato, um nerd, mas ela fazia soar como um insulto. E eu também era, de fato, coreano, mas essa parte não foi carregada num tom de desprezo, ela devia curtir asiáticos, até porque vivia com o tal Dokyeom a tiracolo — e ainda não tinha tirado a mão livre do meu peito.
  — Vovô! — reclamou. — Precisava ser alguém lá da universidade? O senhor não podia ter arranjado alguém velho e sem... — ela enfim percebeu que ainda estava tateando meus músculos e recolheu a mão, cochichando como se eu não pudesse mais ouvi-la. — Sem esse porte físico e essa... virilidade?
  — Pra você vencer pelo cansaço e ele acabar cochilando em vez de proteger você? Você é ardilosa e escorregadia, Chevalier. Preciso de alguém vivo e inteligente no seu encalço. — o avô dela contra-argumentou. 
  — E o que eu faço com esse guarda-roupa grudado em mim? — voltou a bater no meu peitoral e eu tentei não reclamar.
  — O guarda-roupa... — Alfred limpou a garganta. — O senhor Kim vai me deixar mais tranquilo. Não aguento mais virar as noites me perguntando se algo de ruim te aconteceu, . Não aguento mais receber trotes dizendo que pegaram você. Enquanto você está bebendo e se acabando em festas, eu fico aqui arrancando os cabelos que já quase não tenho. Saber que tem alguém tomando conta de você vai me devolver o sono.
  — Nonno! — apelou, confirmando a origem italiana do sobrenome.
  — Ele fica, piccolina. Ponto. — Alfred encerrou altivo, encaixando a mão na bochecha da neta, e deixou a sala. — Boa sorte, senhor Kim! — ouvi pela segunda vez no dia. 
   parou por um momento, avaliando a situação enquanto a maçã desaparecia na boca carnuda. Ela não parecia o tipo de mulher que se dobrava facilmente, tinha uma tenacidade própria de quem atravessou uma dor devastadora. No entanto, alguma brandura resistia, porque os olhos miraram Alfred diferente quando foi chamada pelo apelido na língua-mãe, analisando o semblante de preocupação dele e dando sinais de que cederia um tanto de sua liberdade para conceder paz ao avô.
  — Ok, sombra. — ela assentiu para mim. — Eu vou tomar um banho e dormir um pouco. Não foi um convite, tá? — ela bateu na minha cabeça, leve e repetidamente. — Você pode ficar sentado e bonzinho aqui fora até eu acordar.
  Meu orgulho espatifou quando me afagou como um cachorrinho de estimação. O fato de ela ter aceitado a minha proteção não era um cessar-fogo, as armas dela continuavam carregadas: ela só ajustou a mira. E o alvo era eu.
  Por pior que aquele emprego já prometia ser, era temporário e era a essa cláusula que eu me prendia. Só até o final do semestre. Só até eu me formar e viver cercado de processos, escondido atrás de papéis e imerso nos meus casos. E aí nada mais de Chevalier e eu nunca mais pisaria ali — exceto pelo café da Dorota,  que me parecia um ótimo pretexto para visitas ocasionais. Aquele era dos bons, fresco e forte, exatamente o que eu precisava para não cair de sono, vencido pelo enfado depois de perambular pela casa imensa procurando o que fazer. Sentei num dos bancos do jardim e puxei o celular do bolso, abrindo o bloco de documentos: ao menos o cochilo real da princesa me renderia tempo para rascunhar alguma coisa dos trabalhos da faculdade. Não muito depois, a voz da se fez ouvir novamente e eu percebi que estava bem embaixo da varanda dela.
  Aquela garota não dormia?
  — Você me arrumou uma babá, Marie Bee? — ouvi dizer claramente, concluindo que eu era o assunto.
  — Seu avô pediu um segurança para o meu pai, eu tive que intervir. Era isso ou um dos brutamontes da empresa dele. — outra voz soou, pelo visto, da Marie. — Ele e o Wonwoo são amigos de infância, sabia?
  Éramos. Aquele traidor.
  — O pobre coitado que você quase esmagou e cegou? — perguntou referindo-se ao incidente das prateleiras na biblioteca, quando Marie quase matou Wonwoo imprensado.
  — Foi um acidente, tá? — Marie se defendeu. — E eu estou ajudando ele a conseguir outro óculos.
  — Eu sei bem o que você queria conseguir... — insinuou.
  — Tá bom, tá bom. Eu queria pegar o telefone do Wonwoo e usei a situação como desculpa. — Marie confessou. — Você não ficou chateada comigo, né?
  — Por você me usar descaradamente pra se aproximar desse míope que te deixou toda balançada? Não. Por você ter me acordado pra pedir opinião na roupa que vai usar para almoçar com ele? Sim. — reclamou com a amiga. Era mesmo uma abusadinha.
  — Não quero ir muito simples. Mas também não quero ir too much, sabe? — Marie disse. — O que você vai fazer sobre o Mingyu?
  — Vou levá-lo pra fazer compras comigo e ser bem insuportável. Eu faço ele desistir de mim em dois tempos.
  Ri irônico.
   não me conhecia o suficiente para saber o efeito que aquelas palavras me surtiram. Não conseguia afirmar categoricamente qualquer coisa sobre mim mesmo, a não ser que eu era resoluto. Saí de Anyang com um firme propósito, ralei para um caralho para me manter enquanto sustentava minhas notas acima da média, perdi sono, relacionamentos, abri mão de meio mundo… não seria um mero capricho dela que me derrotaria. Se havia algum sentimento de desistência em mim, ele sumiu tão rápido quanto o café da minha xícara quando dei o último gole.
  Ok, Chevalier. Agora virou um desafio pessoal.


  Nota: Oi, meu bem! Obrigada pela leitura! Já deu pra ver que essa pp está disposta a infernizar o nosso segurança, né? Então fica por aqui pra acompanhar esses dois, porque eles ainda têm muito o que render!
  PS: Se você é leitor de Sight, my Sight, da autora M-Hobi, já percebeu que os pps de Shadow fazem parte do mesmo universo, né? E se você não é, embarque imediatamente nesse surto! Um beijo e eu volto já!

Capítulo 2
A Sombra

  A vendedora estava mais cansada do que eu. conseguiu a proeza de provar todos os sapatos da loja e não gostar de nenhum. Nem me atrevi a olhar as plaquinhas com os preços, porque quando me aventurei na primeira espiada, dei um soluço e quase soltei um palavrão. Não sabia que um par de sapatos podia custar mais de mil dólares. Não sabia que Jimmy Choo fazia sapatos. E também não sabia quem era Jimmy Choo.
  — Afivela pra mim? — me estendeu o pé e um sorriso falso, ao contrário dos cristais do salto, que pareciam bem legítimos.
  — Sim, sua alteza — resmunguei em coreano e ajoelhei, puxando a tira e afivelando no primeiro furinho.
  — Muito apertado, sombra — ela ralhou, manhosa, e empurrou o pé no meu peito. — E se for reclamar de mim, eu prefiro que seja em inglês.
  — Como sabe que eu estava reclamando? — Segurei o tornozelo dela, colocando o pé de volta no chão.
  — Não sabia. — Ela se levantou e me empurrou levemente com o joelho. — Você que acabou de me dizer.
  Conforme o plano de me fazer desistir dela, me fez andar a Bleecker Street inteira carregando sacolas de todas as lojas em que ela entrou, empenhando-se o máximo possível no papel de riquinha fútil para me atormentar e me afugentar. Teria dado certo se eu não estivesse tão obstinado a escoltá-la. Não perdi um passo sequer dela, onde quer que ela pisasse, era seguida por mim logo atrás. Até enquanto ela se olhava no espelho enorme e dourado, eu estava lá fazendo sombra, e o rosto dela se torcendo não mentia: eu estava começando a irritá-la, só não tanto quanto descobrir que eu tinha invertido o joguinho dela.
  — Espaço, por favor. — Ela suspirou quando recuou e me encontrou como parede mais uma vez. — Aliás, por que você não espera lá fora, hein?
  — Não posso — rebati. — E se alguma coisa acontecer com você?
  — O máximo que pode acontecer é eu ser presa por te acertar esse salto agulha na testa. — descalçou um dos pés, apoiando-se nos meus ombros, e chamou a vendedora. — Eu quero esse. Em todas as cores que você tiver.
  Esbarramos mais uma vez e , já vermelha de raiva de mim, descontava o estresse num cartão de crédito black que eu só conhecia pela televisão na propaganda do banco. Perdi as contas das viagens que fiz até o carro para guardar as compras dela, e mesmo o porta-malas gigantesco da SUV (o singelo carrinho da empresa) estava ficando sem espaço para tanta coisa. Entramos em mais uma loja e eu nem me importava mais de ler os nomes ou saber o que vendiam, entre bolsas, roupas e joias, eu não fazia ideia do que mais poderia comprar, até que ficou bem difícil de ignorar o teor dos produtos ofertados no local da vez:
  — O que você acha, sombra? — estendeu a menor calcinha que eu já tinha visto na minha vida bem na minha frente.
  Ok.
  Lá estava eu, um homem de 1,87m, paralisado no meio da loja da Victoria’s Secret.
  O único homem no meio da loja da Victoria’s Secret.
  — Hã... Olha... Não acho que seja apropriado eu estar aqui — respondi, me dando conta de que todas as mulheres da loja estavam me olhando e dando um passo para trás pela primeira vez no dia. — Posso esperar você lá fora.
  — E se alguma coisa acontecer comigo, hein? — Ela devolveu, sarcástica, e balançou a calcinha minúscula na minha cara. — Aliás, segura essa pra mim, eu gostei.
  Àquela altura, já sabia que tinha virado o placar do nosso jogo velado e meu estado de pânico aparente me denunciou vencido. Cada vendedora que nos abordava aumentava o meu desconforto e fazia questão de dizer que “não precisa de sacola, moça, o sombra segura”. Ela sorria triunfante enquanto me usava como cabide para empilhar peças de renda e de tule cada vez menores e mais... complexas? O último sutiã que ela pendurou no meu ombro tinha tantas tiras que eu fiquei me perguntando como ela vestiria aquilo. Ou como alguém tiraria dela...
  Eu provavelmente acabaria rasgando.
  Me repreendi mentalmente. Estar numa loja de lingerie estava fazendo meu cérebro entediado visualizar dentro de todas aquelas roupas. E fora delas também. Evitei as tangas fio dental, as cintas-ligas, as discretas caixas pretas de gel de massagem (que eu disse a mim mesmo que eram apenas de perfume) e meus olhos estavam desesperados por um alvo mais seguro, até que chegamos a uma das alas da loja cheia de flores e peças cor-de-rosa. Não tinham nada a ver com as que tinha escolhido, eram mais delicadas, com um estilo mais…
  — Romântico. Que gracinha, sombra. Achei que você fosse um cara tipo vermelho e de oncinha. — disparou quando percebeu que um conjunto rosa claro e bem bonito me chamou atenção.
  — E eu achei que você conhecesse outras cores além de preto… — Ergui meu antebraço cheio de calcinhas.
  — Não curto muito rosa, mas esse até que está bonitinho. — pegou o sutiã que eu estava olhando, analisando-o. — Você deveria levar para a sua namorada.
  — Eu não tenho namorada — respondi imediatamente. Por algum motivo, queria muito que soubesse disso.
  — Desculpe. Namorado. — Ela piscou. — Mas se for o cara dos óculos, acho que não vai ficar muito bem nele...
  — Seu avô tem razão, você é uma engraçadinha. Mas não vai funcionar, ok?
  — O quê?
  — Esse seu planinho maléfico de me irritar.
  — Sem graça. É por isso que você não tem namorada. — provocou, ainda segurando o sutiã rosa. Ela testou a transparência contra a pele e eu quis desviar o olhar. Não consegui. O contorno das tatuagens contrastou com o tecido claro e fino e minha mente alçou vôo na hora.
  — Oi! — Mais uma vendedora nos encontrou e eu aterrissei. — Fiquem à vontade, muitas moças vêm aqui e trazem os namorados para ajudar nas escolhas.
  — Ele não é meu namorado. Ele é só meu acompanhante. — arqueou uma sobrancelha.
  — Oh. A senhorita quer dizer acompanhante, acompanhante? Do tipo… — A moça baixou a voz.
  — Você sabe de que tipo, olha só pra ele. — apontou para mim, que fiquei sem entender. — Aluguei numa agência. Os asiáticos estão fazendo o maior sucesso, sabia?
  O quê?!
  — Perfeitamente, senhorita Chevalier. — A vendedora riu e me mediu de cima a baixo. — Não se preocupe, a privacidade dos nossos clientes é muito importante para nós da Victoria’s Secret. Aliás, nós temos um cômodo mais ao fundo só com produtos eróticos, posso levá-los até lá… — Ela me olhou mais uma vez e com menos discrição.
  — Eh... eu... ah... — Minha língua presa travou por completo. Fui pego tão de surpresa que sequer consegui articular uma defesa, apenas assisti congelado de medo me exibir como garoto de programa.
  — Ele não fala inglês. — sussurrou. — Mas com um corpão desses, quem se importa com o que ele diga, não é?
  Queria encolher dentro do terno e sumir quando alisou meu abdômen travado de nervosismo. Suei frio, a vendedora não parava de morder o lábio e eu juro que ela tentou pegar na minha bunda enquanto andávamos pelos expositores. A gota d’água foi quando ela me perguntou baixinho quanto eu cobrava por noite. gargalhou, me assistindo derreter feito um sorvete embaixo do sol da Califórnia, e ao se recuperar da risada, resolveu me libertar:
  — Você pode esperar lá fora, bonitão. Se continuar aqui, vai acabar sendo comido vivo — cochichou no meu ouvido. Ela tinha um cheiro bom de gente rica. Estava impregnado na minha roupa por causa dos nossos tropeços acidentais e, agora, na pele do meu pescoço por causa daquela aproximação intencional.
  Deixei a loja e busquei um pouco de ar longe do tumulto de mulheres, do trauma recente e de todas as imagens que minha cabeça me sugeriu ali, fazendo a única coisa que eu conseguia fazer quando tinha alguns minutos livre: tentar escrever meus trabalhos. Achei um café mais cara de classe média, com uma placa dizendo que aceitavam vale-refeição, e pedi um expresso. Não surtiu tanto efeito, o cansaço acumulado embaralhou as letras no teclado do celular, não conseguia me concentrar e, entre uma frase e outra, uma visão insistente da provando tudo o que ela tinha escolhido me pegava no susto e me arrancava suspiros. Talvez eu devesse voltar a ser segurança de um bar ou de uma academia. De qualquer lugar que me deixasse responsável por um corpo menos tentador.
  — Que textão, hein? — Outro susto. surgiu com mais sacolas. — Você está digitando um monte. Quem vai receber a declaração de amor?
  — James Atkinson. — Larguei o celular com o documento aberto sobre o colo, esfregando os olhos. — Estou escrevendo uma tese super-romântica sobre Direito Constitucional pra ele.
  — Tutores são exigentes. Também tenho um relacionamento sério com a minha. — sentou-se ao meu lado e pediu uma água com gás.
  — O que você estuda? — Tentei encobrir um bocejo e me ajeitei na cadeira a fim de despertar.
  — Gêneros literários e preparação de texto. É o que eu quero fazer quando eu crescer, trabalhar como editora. — espreguiçou-se e relaxou o tronco na poltrona.
  — Eu bem que preciso de um editor agora. — Voltei a afundar no assento, espelhando o movimento dela sem querer. — Não sei como resolver esse parágrafo.
  — Posso ver? — pediu, me deixando notoriamente confuso. — É, essa é a parte que não publicam sobre a Chevalier. Eu também sou meio nerdola. Agora me dá aqui. — Ela pegou o celular que eu empurrei na direção dela.
  Confesso que fiquei surpreso. E meio chateado comigo por ter feito um juízo tão raso da . Claro que havia muito mais sobre ela do que as postagens de Boo Seungkwan, e agora que ela tinha tocado no assunto, eu lembrei de ter lido uma resenha que ela escreveu para um livro que eu estava afim de ler. E que eu fiquei muito mais afim de ler depois da crítica dela.Acontece que me aporrinhar e ser resistente ao álcool não eram os únicos talentos de Chevalier.
  — Você precisa transformar esse período em dois. — Foi o feedback do primeiro parágrafo. — Está muito extenso e as ideias não se ligam. E é melhor conceituar essa ementa antes de exemplificá-la.
  — Você entende de Direito? — perguntei, impressionado.
  — Não. Mas eu entendo de textualidade. O que me permite meter meu nariz em qualquer coisa. — O indicador dela deslizou a tela e ela seguiu com a leitura. — Isso está bom, é substancial. Mas digitar pelo telefone em intervalos de minutos enquanto faz outra coisa não é muito bom para o fluxo de escrita.
  — Bom, eu não tenho outra escolha a não ser fazer assim. — Mirei analítica com a nuca recostada no encosto. Os lábios dela se moviam discretamente durante a leitura silenciosa e as sobrancelhas franziam algumas vezes. Aproveitei o rosto dela de pertinho como uma recompensa individual.
  — Você precisa de um tempo para se dedicar somente a isso, Mingyu. — mantinha os olhos no visor e eu quis ignorar o quanto gostei de ouvir meu nome da boca dela pela primeira vez. O rosto dela iluminou-se e os olhos voltaram a aumentar quando ela se virou para mim, me olhando maliciosa. — Eu te ajudo se você parar de me seguir, meu avô nem precisa ficar sabendo. Você garante o seu salário e, de quebra, tempo para escrever. Que tal?
  Piada.
  — O quê? Não. — Neguei com a boca e com a cabeça, para ser mais enfático. — Não posso receber por um trabalho que não estou fazendo. Além disso, seu avô confiou em mim para cuidar do bem mais precioso dele. — sorriu pequeno para essa parte, tímida. — Não importa o que você faça, eu vou continuar bem aqui atrás de você.
  E aí ela me mostrou a língua. Revirou os olhos e me devolveu o celular.
  — Claro que de todos os seguranças do mundo meu avô contratou justamente um aluno do Direito, cheio de ética. Você tem caráter demais para ser corruptível. — Ela deu um gole na garrafa de vidro. — Mas, olha só, eu fiquei sozinha por uma hora e estou inteirinha. Dá pra me dar um pouquinho só mais de espaço, então?
  Ela apoiou os braços na mesa, sorrindo sincero, e eu entendi a dimensão do pedido. Querendo ou não, eu era um estranho na cola dela. Era assustador, no entanto, como me fazia entregar os pontos facilmente. Era o primeiro dia. Primeiro dia e eu já estava disposto a abdicar alguns metros.
  — Acho que eu posso ficar de olho em você um pouco mais de longe. — Juntei o indicador e o polegar. — Só um pouquinho.
   tomou minha mão e ampliou o espaço entre os meus dedos, rindo. Por mais que ela tivesse me apertado o peito, os braços e a barriga, foi só naquele momento que eu me senti tocado por ela. Verdadeiramente tocado por ela.
  — Assim. Obrigada, sombra.
  O apelidinho, no entanto, ainda me irritava um pouco. não conseguia decidir entre “sombra” e “babá”, parecendo ter uma predileção pelo primeiro. Quando deixei a boneca em casa sã e salva, voltei para o dormitório depois de um dia exigente, sentindo as fibras das coxas latejarem por andar tanto e os músculos dos braços reclamarem do peso das sacolas. Como se não bastasse o meu cansaço físico, eu ainda tinha que lidar com um Wonwoo estúpido que, pelo sorriso idiota que não se apagou quando eu entrei no dormitório reclamando feito um velho, tinha saído com a Marie Bee mais uma vez.
  — Ô seu puto! — vociferei um palavrão em coreano, atirando uma almofada na cara dele junto com o grito. — Eu tô há uns 5 minutos te perguntando o que tem pra jantar!
  Wonwoo apertou a almofada contra o corpo descamisado com uma cara ainda mais ridícula. Estava aéreo e não parava de mostrar os dentes. Aquela felicidade toda estava sendo construída às custas do meu martírio e eu quis matá-lo por estar todo contente enquanto eu estava exausto.
  — Ah… É que eu não escuto bem sem meus óculos. — Ele ensaiou responder. — O que foi mesmo que você falou?
  — Seu arrombad-!
  Esqueci de completar o xingamento porque apanhei outra almofada e corri pelo quarto perseguindo meu amigo como se fôssemos cão e gato. Só sentiria aquela relação em perfeito equilíbrio depois que eu o sufocasse até ele desbotar e ver a luz branca.
  — Tem ideia do que eu estava fazendo até essa hora? — bradei quando alcancei Wonwoo e ele ergueu as mãos à altura do rosto, pedindo clemência. — Eu passei o dia de bobo da corte da rainha ! Andei igual a um camelo, fui confundido com um garoto de programa e ela ainda tentou me subornar!
  — E deu certo? Ai! — Ele se encolheu quando acertei um soco no braço venoso. — Ok, ok, olha, se está tão ruim, não vá mais. Eu explico pra Marie e você arruma outra coisa, você sempre arruma!
  — Como é? Não! Não mesmo! Quer dizer… não… não é pra tanto. — Busquei argumentos, mas a naquela lingerie rosa apareceu e empurrou todos. E o perfume dela, que subiu de repente numa memória olfativa, me bagunçou as ideias na cabeça.
  — Hm… Entendi. — Wonwoo me analisou. — Que cor é a coleira que a colocou em você, hein? — ele perguntou, batendo nas pernas. — Vem, garoto! Dá a patinha! Ou você só faz truques pra sua nova dona?
  Fervi de raiva. Como se um homem feito eu, do meu tamanho, fosse se dobrar todo às vontades da riscadinha. Nem pensar.
  — Eu vou consertar essa tua miopia no tapa! — ameacei Wonwoo e tornamos a correr em círculos em volta do quarto.


Nota: Eu preciso confessar que a relação Tom & Jerry do Mingyu com o Wonwoo é uma das minhas coisas favoritas desse universinho! E vão perdoando aí as judiações da Laura com a sombra dela, já já ela melhora, hahaha! Até mais

Capítulo 3
A Luz

  Depois de um mês de trabalho, a constatação fatal era de que seguir Chevalier não era uma tarefa fácil: a menina tinha um pique inexplicável e uma admirável tolerância ao álcool. De todos os lugares que eu era forçado a frequentar por causa dela, os clubes noturnos eram, de longe, os meus menos favoritos. A música era sempre alta e pulsava num ritmo insuportável que me deixava zonzo, e eu não podia fazer outra coisa se não assisti-la virar copos e mais copos e dançar a noite inteira perto do Dokyeom. Sempre muito perto do Dokyeom.
  E essa parte do trabalho, eu odiava admitir, era a que mais incomodava. O famoso capitão DK, com seu sorriso incansável, sua BMW do ano, seu império farmacêutico como herança e sua… ?
  Não. A ele ainda não tinha. Pelo menos eu gostava de acreditar que não, só porque era satisfatório achar que ele não tinha tudo.
  É óbvio que eu não sabia muita coisa sobre o status de relacionamento da . Com a agenda social agitada da minha protegida, não tinha havido tempo ou abertura para uma conversa sobre parceiros românticos. Sendo apenas a sombra dela, nossas interações se resumiam a trivialidades da Saint Peter, à ajuda que ela me ofereceu com o meu artigo e ao empenho dela em implicar comigo. E, naquela noite em particular, a um pequeno barraco de família: Alfred queria que deixasse a monitoria dela na universidade para se juntar a ele na Chevalier Industries, mas estava bem claro que não era isso que ela queria fazer.
  Foi quando decidiu sair e descontar tudo na pista de dança, nas batidas de vodca e em mim. Ela sumiu da minha vista de propósito mais de uma vez, convenceu as amigas a me distrair dela e fez questão de interromper quando eu tentei trocar uma ou duas palavras com Dokyeom, pendurando-se no pescoço dele — o cara, obviamente, preferia ela a um marmanjo do meu tamanho amarrado num terno. Eu me sentia desconfortável quando ele estava por perto. E meio que inútil. Por que ela precisava de mim se tinha um atacante imenso grudado nela?
  Porque sim, ele andava grudado nela. Eu tentando fazer meu trabalho era irritante, uma sombra, mas o DK roçando o maldito nariz perfeitamente afilado na nuca da não a incomodava nem um pouco.
  — Algo doce para alguém doce. — Dokyeom encheu uma taça para assim que o espumante rosé que ele pediu chegou na mesa do camarote, beijando os dedos dela ao passar o vidro. — Servido, Kim? — ele me ofereceu em seguida.
  — A sombra não bebe enquanto trabalha. — respondeu por mim. — Eu tenho um segurança incorruptível, Seo.
  Seo? Ela chamava o DK de Seo?
  —Então somos dois. Eu também não estou bebendo hoje. — Dokyeom avisou, tentando novamente conversar comigo.
  — Promessa pro time ganhar? — arrisquei.
  — Não preciso disso. — ele riu, alisando o joelho da . — Só estou de motorista, tenho que buscar uma encomenda no aeroporto logo mais.
  — Verdade! — bebeu da taça. — Seus pais estão chegando da Coreia hoje, não é? Faz tanto tempo que eu não os vejo, Seo!
  Respirei fundo, impaciente com o “nhe nhe nhe”. Seo pra cá, Seo pra lá… Que chatice.
  — Eles vão adorar te ver. — DK passou o braço pelo encosto do estofado, puxando para mais perto. — Você pode vir comigo se quiser, aposto que o Mingyu está louco pra se livrar da gente e ir pra casa. — ele levantou os olhos para mim. — Não é, Mingyu?
  Passei a língua pelos dentes, sem entender ao certo porque aquela sugestão tinha me irritado tanto. É claro que eu queria ir para casa, mas a ideia de deixar os dois sozinhos era incômoda. E suspeita. A história toda de ir buscar os pais poderia ser um pretexto para me dar a volta, me fazer chegar à mansão dos Chevalier sem a e ser demitido.
  — O Mingyu está exausto, mas seus pais também devem estar depois de tantas horas de vôo. Eu vou visitá-los assim que eles se acomodarem de volta. — a própria dispensou a oferta, levantou-se e estendeu a mão para Dokyeom. — Dança a última comigo?
  O dono do maldito nariz afilado atendeu prontamente, sendo guiado pela para fora do camarote e indo para o meio da pista de dança. Eu até que gostava daquela música, mas como o convite não foi para mim, me conformei com mais um suspiro e com meu dever de vigiá-la na área em que ela me delimitou, ali mesmo, da parte de cima da boate. A visão panorâmica facilitava, dava para ver o pontinho tatuado que a era no meio da pequena aglomeração, atraindo para si vários olhares, inclusive o de um cara estranho que a rondava desde que chegamos e só não tinha a abordado ainda por causa do atacante bloqueando o caminho. Ao menos para alguma coisa o DK servia, mas meu sexto sentido me avisou que deveria marcar a fisionomia do sujeito, só para garantir.
  A música acabou e Dokyeom checou o relógio enorme, lamentando-se por ter que ir embora. apenas abriu os braços, pedindo por um abraço, e eu senti um calor estranho e a garganta fechar quando os lábios deles se tocaram minimamente no beijinho de despedida. O sortudo sorriu largo com o selinho acidental. Ele era todo sorrisos para ela, sempre.
  Mas aquilo não era problema meu, certo?
  Meu problema era garantir a integridade física da , independente das bocas que ela poderia ou não estar beijando. Eu tinha que mantê-la em segurança e levá-la de volta inteirinha, ainda que adormecida no banco de trás, o que acontecia quase todas as vezes. Já tinha até uma almofada e um cobertor guardados embaixo do banco da SUV, embora o cobertor fosse muito mais para mim do que para ela. Acontece que eu precisava embrulhar a igual a um bolinho de arroz antes de carregá-la nos braços por causa de um decote revelador demais ou de uma saia de um palmo de comprimento, coisas que ela gostava de usar e que dificultavam o meu trabalho, porque vários idiotas não sabiam diferenciar roupas curtas de consentimento.
  Era o caso daquele idiota em particular que não parava de olhar para ela. Eu não podia impedir que olhassem para uma mulher bonita, mas eu podia (e devia) impedir que a importunassem. Travei a mandíbula, tenso, e resolvi descer do camarote para monitorar melhor a situação. estava um pouco mais distante do seu grupo de amigos, com o corpo quente remexendo dentro do jeans ao som de uma batida alucinante. Nas mãos, agora, um copo translúcido e suado de gelo e álcool, que ela bebia despreocupadamente e abandonava de vez em quando em cima do balcão do bar.
  — Primeira regra, . — murmurei para mim mesmo, apertando os olhos por causa das luzes piscando e chegando mais perto. — Nunca tire os olhos do seu copo.
  Parecia meio neurótico repetir e levar tão a sério o conselho que minha mãe me dava quando eu, na minha fase rebelde dos 15 anos, comecei a andar pelas festas de Itaewon, mas minha intuição estava certa. O babaca se esgueirou pelo balcão e despejou alguma coisa dentro do copo da , fazendo o líquido borbulhar por um instante e rapidamente voltar ao normal.
   sequer se deu conta da efervescência da bebida porque ele não perdeu tempo em enrolá-la num papo mole. Meu sangue gelou quando a vi procurar pelo copo, fazendo menção de levá-lo à boca, e eu simplesmente arranquei, empurrando as pessoas para tirá-las do meu caminho. Evitei o gole bruscamente quando a alcancei, tomando o vidro das mãos dela e derramando mais da metade do conteúdo, movido puramente pelo instinto de defendê-la. O que quer que estivesse no copo, agora, cobria a camiseta decotada, que grudou no corpo dela.
  — Mingyu! — me repreendeu, atônita e molhada.
  — Que que é isso, cara? — o tarado teve a ousadia de se interpor entre nós, pegando pelo braço.
  — Larga ela. — ordenei entre dentes, avançando um passo.
  — Ou então o que, seu China? — ele olhou meu terno e deduziu que eu era o segurança dela. — Você vai me prender, é?
  — Não. Mas se você encostar mais um dedo nela, eu é que vou preso por matar você. — ameacei, firme, enquanto os olhos da ficavam enormes. — Agora larga. — repeti, sentindo uma veia me saltar no pescoço.
  O tarado colocou as mãos para cima e se retirou resmungando, disparando outras ofensas para as quais eu não dei ouvidos. Segui ele com o olhar até o guichê do caixa, onde ele pagou a comanda com pressa e cheio de desconfiança. Todas as páginas que eu estudei sobre réu primário me pularam à cabeça e eu julguei que era uma boa causa perdê-lo caso eu socasse aquele covarde até fazê-lo implorar pela mamãe, mas deixar uma dura denúncia com a segurança da boate, com riqueza de detalhes da cara do filho da puta, teria que ser suficiente.
  — Que raios te deu, hein, sombra? Eu nunca te vi desse jeito! — reclamou meu acesso de raiva, apontando o tecido encharcado. — Isso tudo porque um cara me cantou?
  — Isso tudo porque essa “cantada” poderia ter te custado uma noite no hospital. — cheirei o copo, tentando discernir alguma substância. — Ou coisa muito pior, se eu não estivesse aqui.
  — Do que você está falando?
  — Que aquele imbecil adulterou a sua bebida. — atirei o que sobrou para longe. — Quando você deixou seu copo no balcão, lembra?
   engoliu em seco, olhando trepidante ao redor. Quis sustentar a pose de mulher indefensável,  mas logo se deu conta da gravidade da situação, e não só se deu conta, como também pressionou as mãos trêmulas contra o estômago, nauseada e assustada. Os olhos castanhos se encheram de água, quase choraram, e naquele momento eu percebi que ver a derramar uma lágrima sequer poderia ser a minha maior fraqueza.
  — Eu… Eu nem notei. Eu não notei nada! — ela confessou com a voz embargando. — Meu Deus, Mingyu! Se você não estivesse aqui…
  — Mas eu tô. — cortei, sem deixar que a imaginação dela sugerisse alguma atrocidade, e apertei os ombros dela. — Eu tô aqui e eu não vou deixar nada de ruim acontecer com você.
  Minha resposta foi um abraço. Forte, grato e sincero. agarrou minha cintura e levou uns bons minutos para me soltar do enlace que eu desejava que tivesse acontecido em outro contexto. Segurei a cabeça dela contra meu peito, resistindo ao impulso de beijar o topo (o topo cheirava a xampu de baunilha), e recorri a uma técnica infantil para acalmá-la:
  — O que foi isso? — ela perguntou, mais calma e com vontade de rir quando eu comecei a deslizar o dedo mindinho pelo nariz dela.
  — Minha mãe fazia isso comigo e com a minha irmã quando éramos bebês. — expliquei, aliviado por vê-la voltando a ter cor. — Ela dizia que curava o dodói. E que dava sono.
  — Eu não sou um bebê. — protestou, me socando de leve.
  — Mas funcionou, não funcionou? — encerramos o abraço. — Você quer ir pra casa agora?
  — Não. — ela respirou fundo, encostando-se no bar para pedir uma garrafa de água e a conta. — Ainda não, por favor. Meu avô está chateado, eu não quero lidar com isso agora.
  Havia muitas maneiras de gerir um conflito: enfrentamento, negação, mediação… gerenciava os dela com distrações e fuga. Analisando mais de perto, era fácil entender que as festas e todo o barulho dos quais ela se cercava eram um meio de silenciar a perda dos pais e os desencontros com o avô, que ainda resistia à escolha de carreira dela. Acontece que gente rica também tinha lá seus problemas e eu sentia uma certa empatia por esse ato de coragem que foi impor sua vontade a Alfred, afinal de contas, eu também precisei contrariar minha família para seguir meu sonho profissional.
  Escoltar a num after party, no entanto, não fazia bem parte desse meu sonho profissional e eu arfei, implorando internamente por uma intervenção divina que fizesse o dia clarear o mais rápido possível. Mas se nem o susto da quase dopagem foi suficiente para fazê-la encerrar a noite, minhas preces certamente também não seriam.
  — Você não quer voltar pra casa, ok. — aceitei a derrota. — Mas você não pode ficar assim, . Sabe-se lá o que aquele cara colocou no seu copo. — desgrudei a camiseta úmida da barriga dela e descobri mais uma tatuagem revelada pelo efeito do líquido. — Seja o que for, não deve ser bom que esteja em contato com a sua pele.
  — Sendo bom ou não, eu não tenho outra roupa. — esfregou as têmporas e pegou alguns guardanapos para amenizar o estrago, sem sucesso.
  — Eu tenho uma camisa no carro. — sugeri, lembrando da muda de roupa na minha mochila. — Sou bem mais alto que você, mas deve servir.
  — Ótimo. — sorriu, já pronta para o próximo destino. — Minha última lembrança de hoje não vai ser esse incidente. Vamos.
  Ela deixou várias notas altas dentro da carta da conta, sem conferir o preço ou esperar por troco, e começou a caminhar na frente. Segui os passos dela, cansado e, ao mesmo tempo, certo de que eu estava onde deveria estar. Era, de fato, a minha agridoce missão. me desafiava o tempo todo, mas estar com ela era estimulante. Me mantinha alerta e não me dava descanso aos olhos, tampouco aos outros sentidos. Ela era teimosa, atrevida, tinha uma resposta ácida para tudo que eu dizia e eu podia jurar que não aguentaria nem uma semana naquela furada em que Wonwoo tinha me metido, mas mesmo diante das constantes tentativas dela de fazer da minha vida um inferno, algo me impedia ficar longe dela. Ela estava certa, afinal. Eu era uma sombra.
  Chegamos ao estacionamento e eu abri a mala do carro, já revirando minha mochila, aflito com a possibilidade de puxar a peça errada na muda de roupas socada lá dentro e acabar vendo as minhas cuecas. Por sorte, logo abaixo da necessaire com meu perfume e uma escova de dentes, lá estava uma camiseta de futebol limpinha e pronta para uso.
  — Aqui, sua alteza. — joguei a camisa que pegou com uma careta.
  — Você quer que eu passe o resto da noite numa camisa dos Giants? — ela me jogou a camisa de volta com desprezo.
  — E que diferença isso faz? — apanhei a camisa no ar.
  — Que diferença isso faz? — ela bufou indignada. — Eu torço pelos Jets! Eu e meu avô acompanhamos praticamente desde que eu nasci!
  — Então você já viveu 22 anos e não deu tempo de perceber que os Jets são péssimos? — rebati um tanto surpreso. Achava que os únicos interesses da , além da literatura, eram farrear e me tirar do sério, agora com mais um item para a lista: torcer para o time rival.
  — Você tem algum outro argumento além de "os Jets só têm um único título"? — ela respondeu com tédio na voz.
  — Hã... sim, que tal eu começar com aquela linha de defesa patética? Até você conseguiria furar o bloqueio do seu time.
  — Não se atreva! — me apontou o dedo na cara e o rosto começou a mudar de cor. Era divertido.— Vai pensando em outra coisa, porque eu prefiro ficar doce de vodca com limão a colocar isso no meu corpo.
  Ok. Aquela era uma combinação de encher a boca: vodca, açúcar e... .
  Levei um tempo para dissipar o pensamento intruso que crescia na minha mente e convencer meu cérebro — e minha língua formigando — que não iríamos prensar Chevalier no capô do carro e lambê-la de cima a baixo ali mesmo. O máximo que teríamos era o perfume dela impresso na camisa social de botões que eu estava usando e cogitando ceder para ela.
  — Tá. — deixei vencer de novo. — Eu visto a dos Giants e você fica com essa aqui.
  Comecei a tirar o paletó, aliviado por me livrar daquele excesso de pano, e esperei a reação de , que permaneceu imóvel. Quando ela enfim entendeu que eu não me trocaria na frente dela, ela perguntou, incrédula:
  — Sério? Você quer que eu vire de costas?
  — Claro, ué. — guardei o paletó no porta-malas. — Ou você prefere me ver pelado?
  — Pelado. — ela repetiu com deboche. — É só uma camisa. Tira logo.
  — Nossa, quanta pressa. — provoquei. — Ficou curiosa? — abri os dois primeiros botões e o sorriso, enquanto os olhos de vidraram e ela ganhava um rubor.
  Dois botões e quase dava para ouvir o coração dela batendo de onde eu estava. Interessante.
  — Eu tô esperando. — girei o indicador no ar, demonstrando o movimento.
  — Você é tão tímido. É a sua primeira vez? — desdenhou e virou-se de costas.
  — Só tô tentando não te deixar constrangida. — tirei os botões das casas habilmente e livrei meus braços da peça.
  — Não se preocupe, já me explicaram que o corpo dos meninos é diferente do das meninas. — zombou e eu me aproximei dela, estendendo a camisa ainda morna de mim. — Não tem nada aí que eu já não tenha vis-
  A frase ficou incompleta no ar porque não fez questão alguma de disfarçar o queixo caído quando se virou. Sustentei a distância mínima entre nós, admitindo vaidade ao vê-la atiçada pelo meu corpo seminu diante dela, mesmo sem encostá-la. Para alguém que estava sempre carregada com alfinetadas prontas, ela demorou a encontrar munição daquela vez, e eu dei uma pequena amaciada no meu ego ao me permitir ser admirado. Ao me permitir  ser o motivo da confusão dela. Do atraso que ela deu na respiração. Da mordida sutil que ela deu no lábio inferior.
  “Nada que eu já não tenha visto”, não é?
  — Se você continuar me secando assim, eu vou te denunciar por assédio sexual. — cocei o peito para testar se ela acompanhava. E ela acompanhou.
  — Por que você não tira uma folga, hein? — ela se sacudiu, acordando.
  Ri fraco para a réplica abusada de costume e, tão rápido quanto as respostas malcriadas dela, meu coração veio parar na garganta quando simplesmente enganchou os dedos na barra da própria blusa e puxou tudo para cima sem qualquer pudor ou aviso.
  E veio a constatação do inevitável: eu me sentia fatalmente atraído por ela.
  — Ficou bom, não foi? — ela arrumou a alça de um familiar sutiã rosa e ajeitou o busto farto. — Lembra dele? Acabei comprando. Você tem ótimo gosto.
  Cerrei os olhos com força, esperando que sumisse. Eu só podia estar sonhando. Sonhando ou enlouquecendo, porque aquilo tinha me concedido a ousadia de pensar que, se ela vestiu uma peça que sabia que eu tinha gostado, é porque queria que eu visse. Porque queria que eu soubesse. Ela não iria tão longe por uma mera provocação. Iria?
  — Por Deus, . — virei de costas, me abraçando e apertando o ombro, apreensivo. Na calça social que eu estava vestido, não ia ter como esconder se meu amigo acordasse e resolvesse espreitar também. Aí era demissão por justa causa.
  — Você quer parar de fazer um grande caso disso? — procurou a camisa na minha mão e eu me fechei num casulo. Qualquer toque seria perigoso demais. — Faz de conta que é um biquíni, puritano. Ou vai me dizer que você nunca viu as partes especiais de uma mulher antes? — sussurrou no meu ouvido num tom dramático, caçoando de mim e arranhando levemente as minhas costas expostas.
  Pulei para frente e me enfiei na blusa dos Giants, tentando visualizar todos os jogadores grosseiros, cheios de hematomas horríveis e sujos de terra para impedir meu corpo de reagir àquele ataque afiado e gostoso. Passei o cabelo para trás repetidamente, ouvindo a risada de ecoar:
  — Ah, Kim Mingyu. Você só tem tamanho. Pode descongelar agora, tá? Estou decente. — ela avisou enquanto dobrava os punhos da camisa no antebraço.
  — Pra onde agora? — perguntei, aturdido.
  — Você quem sabe. Qualquer lugar menos a minha casa. — ela suspirou.
  — Você tá com fome? — uma ideia remexeu na minha cabeça. — Conheço um lugar aqui perto, não é cheio de frescuras como os locais que você frequenta, mas...
  — Ah, claro. — me interrompeu. — Eu que sou cheia de frescuras. Disse o molenga que desmontou com um arranhão.
  — Você entendeu. — minha espinha eriçou novamente só com a lembrança.
  — Eu não ligo pra isso, palhaço. E só por causa desse seu comentário, eu vou te fazer pagar a conta. — ela resmungou, entrando no carro.
  Não foi uma boa ideia deixar devorar um hambúrguer enorme, meter a mão nas minhas fritas e tomar o milk-shake gelado rápido demais, causando uma dor de cabeça de sorvete. Depois de comer, ela estava 100% recarregada e com uma injeção especial de ânimo por termos assistido acidentalmente a um jogo dos Giants na lanchonete em que estávamos. E os Giants terem perdido.
  — Vamos dar uma caminhada no parque. — sugeri, deixando o dinheiro em cima da mesa. — Preciso cansar você pra ver se você dorme no carro e me dá um pouco de sossego.
  — Infelizmente pra você, eu não estou com sono. Diferente do zagueiro do seu time, que dormiu em todas as defesas.
  — Só vai andando que eu tô bem atrás de você, tá? — rebati, divertido.
  No entanto, andamos lado a lado daquela vez, de forma que empurrava o corpo pequeno e riscado contra mim toda vez que eu falava algo que a irritava, mas me chamando pelo nome em vez de babá ou sombra. Mingyu. Ficava bonito da boca dela. Tudo ficava bonito da boca dela, até a risada por causa da minha língua presa. A noite caía amena e não teríamos notado as horas passando se o sol não desse os primeiros sinais de que nasceria, deitando um pouco de ouro no horizonte. quis parar para observar, sentando-se no chão e me convidando a fazer o mesmo. Obedeci, enquanto ela repousava a cabeça nos joelhos e batia os cílios devagarinho, ansiosa para a primeira brisa da manhã beijá-la.
  — Aurora… — ela balbuciou e eu franzi as sobrancelhas. — Aurora é a primeira manifestação de qualquer coisa. O nascer do sol é uma aurora. É minha hora favorita do dia.
  Recebi a confissão dela em silêncio, cuidando em guardar aquela informação como uma flor dentro de um livro, como um segredo num diário, tão íntima e especial foi a maneira como ela fez soar. Porém, minha resignação solene foi forçada a acabar grosseiramente quando um toque de chamada de vídeo ecoou.
  — Desculpa. — pedi. — É a omma. Eu tenho que atender se não ela vem nadando até aqui. — riu e juntou o cenho, preguiçosa demais para perguntar da palavra em coreano. — Omma é como nós chamamos mãe. — expliquei e sorriu doce.
  — Gyu! Você não me deu notícia ontem. — omma sequer esperou que eu ligasse a câmera quando atendi. — Tá tudo preto. Por que tá preto? Onde é que você tá?
   riu para dentro, subindo os ombros e absorta em pensamentos. Arrumei o cabelo e tentei parecer menos sonolento antes de habilitar o vídeo.
  — Annyeong, omma! — cumprimentei.
  — Aí está você, meu docinho de mel! — os olhos da omma se apertaram atrás dos óculos grossos e eu lamentei que ela seguisse falando em inglês. Era ótimo que ela estivesse estudando e praticando, mas… Alguma chance de a não ter ouvido aquilo?
  Nenhuma. A gargalhada veio em alto e bom — muito bom — som.
  — Quem está aí com você? — omma quis saber, sempre curiosa.
  — Olá, senhora Kim! — saltou por cima dos meus ombros e meteu-se no meio da câmera. O rosto da minha mãe brilhou e eu pedi a todos os nossos ancestrais que ela não dissesse nada constrangedor.
  — Que moça mais linda! — omma soltou, radiante. — É a sua namoradinha?
  Porra, mãe!
  — Omma, eu estou trabalhando. Falo com a senhora depois, tá?
  — Quando é que você vem aqui, hein? — omma ignorou, dirigindo-se à .
  — Assim que o docinho de mel me convidar. — respondeu e omma riu ao ver que estava agarrada no meu braço. A sensação era... boa.
  — Omma, eu te ligo mais tarde! — implorei e nos despedimos. não me soltou e ainda usou a mão livre para me apertar a bochecha.
  — Docinho de mel?
  — Kyungdan. — expliquei. — É um doce coreano recheado de mel ou açúcar. A omma faz com mel porque é da cor da minha pele. É adorável. Não me enche. — me adiantei, prevendo a zoação.
  — De fato, é mesmo. — concordou e desviou os olhos para longe, num meio sorriso de nostalgia.
  Não era difícil saber para onde o coração dela tinha ido. Era óbvio que ela sentia uma saudade que não passava, uma falta que não se preenchia. O luto não acaba, ele só vira uma companhia suportável, mas sempre persistente. A memória constante do vazio informe. era de uma força que não cabia nela e, por mais que certos assuntos fossem tão doloridos a ponto de serem evitados, era pior não falar nada e fingir que a dor dela não estava ali.
  — Sinto muito pelos seus pais. — sussurrei, sentido.
  — Eu ouço muito isso. — ela confessou, exausta. — Eu só queria lembrar mais deles. Não sei te dizer o gosto de algum doce que a minha mãe fazia. Ou se fazia algum. Meu avô me conta as histórias, mas não importa o quanto eu force, quase tudo que eu tenho deles se resume àquela noite, um grande borrão, com o estrondo dos trovões e das sirenes…
  — Quantos anos você tinha? — tentei perguntar tão naturalmente quanto era possível. precisava falar. Era tangível, quase tátil, o quanto.
  — 4, quase 5… Não sei dizer. Eu morri um pouco ali também.
   levantou um lábio, descontente e sem vontade do sorriso, mas de guarda baixa. Estava lânguida e um tanto quanto confortável em compartilhar falas não filtradas. Embora tudo indicasse que aquela seria a nossa primeira conversa mais pessoal e mais profunda, senti um desconforto com o rumo que o assunto tomava, pressentindo que falaria algo que eu não queria ouvir.
  — Pra dizer a verdade… — ela continuou, confirmando minha intuição. — Às vezes eu acho que seria melhor se eu também tivesse morrid-
  Puxei pelo queixo e pressionei os lábios dela com o polegar, encaixando a palma da mão no rosto pequeno e delicado. Ela aumentou os olhos, surpreendida pelo meu toque e meu semblante de repreensão. A ideia de um mundo em que a não existisse me embrulhava as vísceras e eu rejeitava aquele pensamento a ponto de interrompê-la, literalmente, calando-lhe a boca. Era verdade que ela não existia para mim até bem pouco tempo, mas agora ela era uma realidade tão clara quanto um dia.
  — Nunca. Mais. Repita. Isso. — enunciei pausadamente. — Você não faz ideia do valor da sua vida, . Você é uma luz.
  Não sei exatamente o efeito que minhas palavras surtiram nela, mas gostei de pensar que serviram de alento, já que, mais uma vez, a resposta de foi apoiar a cabeça no meu ombro e descansar enquanto eu a abraçava. Um abraço confortável, de proteção e zelo, que me fez perceber que eu, que horas atrás estava rogando aos céus para que a noite acabasse, me via agora pedindo para que ela durasse mais um pouco.
  Os céus me atenderam e a penumbra antes do amanhecer se prolongou. A falta de apoio nas costas já não importava tanto, porque tinha razão: sentar na grama era o melhor jeito de esperar pela aurora. Mas ela não sabia que eu conspirava para que a aurora se atrasasse e o sono começou a tomar conta dela.
  — Se você arrastar o mindinho no meu nariz como a sua mãe fazia com você, eu vou acabar dormindo? — ela me perguntou depois de um tempo.
  — Como um bebê. — garanti. — Você quer tentar?
   balançou a cabeça afirmativamente e eu me vi novamente fazendo um carinho na cartilagem arrebitada, geladinha do frio da madrugada. Ela adormeceu pesado, e eu inspirei e expirei mais pesado ainda, aguardando o dia começar para o mundo (ou apenas para nós dois, já que parecia que éramos os únicos esperando). Peguei nos meus braços com facilidade e a levei até a SUV não muito longe dali, deitando-a no banco de trás e cobrindo-a. Ao chegar à mansão, Dorota me esperava em seu roupão e chinelos, sussurrando para não perturbar em nada a Bela Adormecida, e eu a carreguei escada acima para deixá-la na sua cama real.
  — Mingyu… — ela me chamou sonolenta quando eu a arrumei no colchão enorme. — Você acha mesmo que eu sou uma luz?
  Quente e brilhante, sim.
  — Eu estou aqui seguindo você, não estou? — respondi.
   sorriu. E finalmente o céu abriu todo e o sol saiu de trás das nuvens.


  NOTA DA AUTORA: Eu fico toda amolecida com o fato de o Mingyu ver luz na pp, uma pessoa tão, não ironicamente, cheia de sombras de um passado dolorido. Amo essa dualidade! E você, fica comigo, hein! Volto já!

Capítulo 4
O pisca-pisca com defeito e os biscoitos de gengibre

  O inverno avançou e o frio desencorajou a sair de casa com a mesma intensidade. As provas finais também estavam se aproximando e, por mais que ela tirasse sarro de mim, Wonwoo e Marie Bee por sermos o que ela chamava de “a tropa dos nerds”, enfiava a cara nos livros tanto quanto nós. A diferença é que ela era sociável e toque físico demais para se relacionar apenas com seus papéis e artigos acadêmicos. Ela gostava de gente, de contato, de pele. Eu entendia. Depois de passar o ano letivo inteiro longe da minha família em Anyang, como fazia desde que comecei o curso, estava carente do cafuné da minha mãe, do cheiro de loção pós-barba do meu pai, do barulho das tias na cozinha e das intromissões da minha irmã, Minseo.
  No entanto, sempre que abria minha caixa de e-mails e via a passagem para a Coreia nas mensagens fixadas, meu coração abrandava um tanto. Iria vê-los em breve, a nossa viagem de férias para casa estava há algumas semanas de distância e eu e Wonwoo já tínhamos arrumado quase tudo. Fora da minha mala estavam apenas alguns itens de higiene, algumas roupas e o presente de Natal da , que eu pretendia entregar pessoalmente.
  Dezembro embranqueceu as ruas com a neve e iluminou as janelas com as decorações de Natal que, aos pouquinhos, iam tomando de conta das casas e até mesmo do nosso dormitório de intercambistas. Wonwoo, que sempre reagia com preguiça à minha ideia de enfeitar o quarto, estava tão amolecido pelo romance que vinha engatando com Marie que sequer protestou, do contrário, se ofereceu para me ajudar. Não era muita coisa além de umas luzes pelas paredes, meias com nossos nomes e minhas fôrmas de biscoitos natalinos, mas serviu para me fazer entrar no clima.
  — Tá torto. — Wonwoo denunciou, olhando o pisca-pisca que eu pendurei.
  — Torto é você. — desci da escada e ajeitei a cabeça inclinada dele. — E agora?
  — Não sei. — ele analisou novamente. — Vamos deixar o toc da Marie Bee decidir.
  — Ela tem vindo muito aqui, não é? — dobrei a escada e guardei atrás da porta.
  — É, mas não precisa se esconder dentro do armário toda vez que ela vier. — Wonwoo riu fraco. — Ela sabe que você é meu amante.
  Fiz uma careta, mostrando a língua. Eu não tinha nada contra Marie, o pontinho loiro que resolveu se abrigar na cama do meu colega de quarto e que, indiretamente, me obrigava a dormir dentro do carro quando isso acontecia. Mas “isso” acontecia com tanta frequência que já não encontrava mais a amiga dela com a facilidade de antes, porque agora ela estava sempre com o meu amigo. E embora ela se mostrasse feliz por essa novidade que era a sua irmã de alma tímida e inacessível estar finalmente se abrindo, era óbvio que ela sentia saudades de quando eram apenas as duas contra o mundo.
  — Eu me preocupo com a , é isso. — suspirei. — Ela sente falta da melhor amiga.
  — Ah, claro. A . — Wonwoo sorriu em “v”, gracejando. — Eu já estava até estranhando você ter falado tantas palavras e nenhuma ser o nome dela.
  Eu não falava muito da , eu reclamava muitoda . Era bem diferente.
  — Idiota. — joguei o controle remoto na mão dele. — Faça as honras.
  Wonwoo pressionou o botão e gargalhou. Só uma dúzia de luzes acendeu.
  — O que vale é a intenção. — ri, derrotado, procurando pelo meu casaco.
  — Vai sair? — ele perguntou casualmente.
  — Vou ver a . — e o nome dela, mais uma vez, desenrolou feito caramelo derretido na minha boca.
  Wonwoo sequer fingiu surpresa, apenas me encarou como se tivesse acabado de provar um teorema.
  — Pensei que ela tivesse te dispensado esse final de semana. — ele me lembrou.
  — E dispensou. — fui até a pia da nossa copa e lavei as mãos. O cômodo era pequeno e conjugado, então Wonwoo não me perdeu de vista. — Mas eu já comprei o presente dela e quero entregar logo. Antes que eu fique sem tempo por causa das coisas da viagem.
  — Você vai mesmo se deslocar até a casa dela nesse frio? — Wonwoo arrumou a cama, desconfiado.
  — Eu nem sei se ela está realmente em casa. Se não estiver, eu deixo lá mesmo assim. — pensei alto e a lembrança de DK veio junto com o pensamento. tinha me dito que precisava estudar, mas quem poderia garantir? Certamente eu não. Balancei a cabeça, peguei o embrulho dela e uma caixa de papelão, forrando-a com papel manteiga. — Além disso, eu fiz uma fornada boa de biscoitos. — comecei a guardá-los cuidadosamente na caixa forrada. — Quero que a Dorota prove.
  — É verdade, dessa vez você se superou.
  — Wonwoo! — censurei meu amigo, observando os espaços vazios na bandeja que eu tinha deixado esfriando. — Não eram pra você, seu quatro olhos! 
  Ele estranhou o apelido, mas não tanto quanto eu. Wonwoo não sabia, mas era assim que se referia a ele. Acontece que de tanto ouvi-la resmungar, acabei assimilando.
  — Não tenho problema nenhum em ser míope. — ele rebateu, orgulhoso, acomodando-se no travesseiro e se cobrindo. — Vê se não faz barulho quando chegar, tá?
  As cobertas quentinhas em que ele se meteu pareciam uma ideia bem melhor do que o metrô gélido em que eu estava prestes a me enfiar, fato. Mas aquele meu passeio noturno e solitário até o Upper East Side também poderia ser bem proveitoso. Planejei um itinerário mental: ir até a casa dos Chevalier e depois passar na churrascaria brasileira da Avenida Leste para uma boa carne na brasa. Era sexta-feira e Seungcheol, nosso colega intercambista, tocava lá porque, assim como nós, precisava de um trabalho paralelo aos estudos. A parte boa era que ele nos conseguia um desconto nos pratos e às vezes até um jantar de graça.
  A viagem durou menos que a minha playlist de andar de metrô, na qual eu vinha trabalhando há um tempo. Estava cheia de músicas melosas e fazia eu me sentir num videoclipe triste. Talvez a época do ano me deixasse melancólico, não sei. O que eu sabia era que, pela primeira vez, um mês inteiro fora de Nova York parecia tempo demais. Meu corpo, ao contrário da minha cabeça, implorava por esse descanso e bastou o longo trajeto até a mansão para me convencer que não seria tão difícil assim aproveitar os trinta dias da minha mãe me mimando e fazendo tudo por mim.
  O que me lembrava que eu precisava apresentá-la a Dorota numa chamada de vídeo, eventualmente. As duas tinham a mesma mania de me agasalhar feito um explorador ártico.
  — Menino! — Dorota me repreendeu assim que eu cheguei, arrumando meu cachecol e cobrindo minhas orelhas escapando do gorro. — Como que você me sai de casa nesse frio? Atravessar a cidade toda nesse gelo! Ah, não, você vai tomar um chocolate quente!
  — Dory, não se preocupa… — pedi educadamente, aceitando o convite para entrar. — A está aí? — ergui o presente, cheio de adesivos de bengalinhas de açúcar que eu usei para tapar as partes que eu rasguei sem querer. — Eu queria entregar isso pra ela.
  — Então entrega logo! — foi quem respondeu, surgindo no topo da escada, usando um blusão de lã bem leve, escolha permitida pela temperatura agradável do aquecedor central da mansão.
  Um sorriso involuntário se formou nos meus lábios. Nenhum sinal do Seo.
  — O que é? — pulou alguns degraus até a escada acabar e parou na minha frente, saltitante feito uma criança, tentando pegar o embrulho que eu escondia atrás de mim.
  — Uma coisa que você me falou que queria muito.
  — O Kevin do Backstreet Boys? — ela pôs a mão na boca. — Como você fez ele caber aí?
  Estendi o pacote que foi rasgado com facilidade, já vinha quase abrindo no metrô, e o estado da embalagem me deixou receoso, assim como o valor do presente em si. não se importou com nada disso, apenas abriu um sorriso que foi se agigantando, tomando conta do rosto e diminuindo os olhos castanhos, que viraram dois risquinhos lindos. Ela abriu cuidadosamente o plástico transparente, olhando as informações da capa, passou o dedo pelo miolo e, por fim, folheou as páginas. Abraçou o volume contra o peito e ficou na pontinha dos pés:
  — Um livro de poesias coreanas! — ela exclamou e deu mais alguns pulinhos de alegria. Não esperava que um livro que custou menos de vinte dólares fosse deixá-la tão feliz.
  — Kim Chun Sun é um poeta muito famoso lá na Coreia. — expliquei. — Lembrei que você falou que queria ler, então procurei uma edição traduzida. É bem fiel ao original, eu acho que você vai gostar.
  — Eu já gostei! — ela me surpreendeu com um abraço, alisando meus ombros, e eu congelei por um momento. Um momento ínfimo, porque logo eu retribuí, passando os braços pela cintura pequena.  — Eu também tenho uma coisa pra você.
  Tinha? me considerava parte da vida dela a ponto de colocar algo com meu nome embaixo da árvore de natal dos Chevalier?
  Recebi dela uma caixinha pequena, ao contrário do meu presente, muito bem embalada, com direito a um laço brilhoso e uma etiqueta que dizia “para a minha sombra”. Manuscrito. A letra da era bonita igual a ela.
  — Abre. — ela sugeriu, eufórica.
  — Se isso aqui for um vale-presente, eu vou ficar muito chateado. — avisei com um beicinho que se formou sozinho quando balancei a caixa e percebi pelo barulho e gramatura que o conteúdo era de papel-cartão.
  — É pra você passar na loja e comprar um senso de humor. — brincou. — Desmancha esse bico e abre logo.
  Desfiz o laço e encontrei dois cartões foscos, impressos em azul, vermelho e branco em altíssima qualidade, com um emblema poroso do New York Giants acima do código de barras e da data do último jogo da temporada, que, por sorte, aconteceria antes da viagem.
  — Ingressos pros Giants?! — exclamei, enchendo as bochechas de ar e enganchado na minha língua presa. — No setor com a melhor vista! ! Isso aqui custa uma fortun-
  — Não começa. Você me paga me levando ao jogo. — ela me cortou, lembrando que eram dois tickets ali. — Faço questão de torcer contra.
  O contraste no preço dos presentes perdeu um pouco da importância quando ela revelou que iria comigo. Se ela também estaria lá na área mais cara do estádio, eu poderia aceitar o presente sem tanto remorso. E pagar por todas as porcarias que ela quisesse comer durante o jogo para tentar compensar.
  — … obrigado. — envolvi a cintura dela novamente, já acostumado ao encaixe perfeito dos nossos corpos tão diferentes em tamanho e massa.
  — Feliz Natal, sombra. — ela sussurrou.
  — Feliz Natal, luz. — devolvi.
  — E aquela caixa? — notou o que eu tinha esquecido na mesa de centro.
  — É pra Dory.
  — Pra mim?! — Dorota exclamou, emocionada, trazendo o chocolate quente. — Ah, querido, não precisava!
  — Então eu fico. — ameaçou pegar a caixa e Dorota apressou a reação, correndo para abri-la.
  A recepção dos meus dotes culinários não poderia ter sido mais positiva. Dorota me intimou a passar a receita e não me deixou sair enquanto eu não anotei precisamente todos os ingredientes e o modo de preparo. , já entretida com o livro, também provou os biscoitos e elegeu seu favorito — o amanteigado com gotas de chocolate e gengibre —, e eu voltei da mansão satisfeito. Passei na churrascaria, ouvindo de longe o violão de Seungcheol, e acenei discretamente para ele ao entrar. Enquanto me sentava numa das mesas para esperar meu amigo (e os suculentos pedaços de carne que viriam com ele), admirei mais uma vez os ingressos, descobrindo um bilhetinho da dobrado no fundo da caixa.

“Sombra, minha sombra,
Agora eu sei que você também sou eu.”

  Nota da autora: A pp fã de Backstreet Boys pode ter sido o meu maior self insert nessa história, haha. Espero que você esteja gostando! Até logo!

Capítulo 5
O saleiro, o pimenteiro e a maldição do Mercúcio

  Apliquei mais uma camada de pomada no cabelo, em vão. Os fios de trás não baixavam de jeito nenhum e eu parecia uma plantinha. Maldita estática.
  — Que fofo! — Wonwoo disparou ao me ver brigando com o espelho. — Alguém vai ao seu primeiro encontro!
  — Não é um encontro. — dei o toque final com duas gotas de perfume atrás das orelhas. — Eu só vou ver o jogo.
  — Então por que você está tão preocupado com o seu cabelo?
  — Se chama pentear, você deveria tentar qualquer dia desses. — passei por ele, assanhando o que já estava assanhado, e peguei meu boné.
  — Olha lá, hein, Mingyu. Temos que estar no aeroporto de manhã bem cedo. — ele me advertiu.
  — Não se preocupe, eu volto antes das nove, papai. — vesti o casaco, guardei a carteira no bolso e apanhei as chaves do meu Honda. Não era muita coisa, mas me levava aos lugares e estava limpinho, porque eu tinha mandado lavar e colocado aquelas essências penduradas no retrovisor, tudo pensando na pessoa que eu estava prestes a buscar.
   me confirmou que estava pronta por mensagem e eu fui até o carro, sendo abordado no meio do caminho por uma moça sorridente que acenou para mim, simpática demais. O nome dela tinha escapado, eu só sabia que era alguma coisa como Vivian ou Violet, e que ela estava bloqueando meu carro.
  — Desculpa, bonitão. — ela pediu quando me viu. — Eu já vou sair do seu caminho, só vim buscar uma amiga.
  — Sem problemas. — sorri por causa do “bonitão”. — Festa da fraternidade?
  — Dia de garotas, na verdade. — ela corrigiu a programação. — E você, Mingyu?
  — Giants vs Patriots. — apontei o emblema na minha camisa, culpado por não lembrar o nome dela.
  — Tô descendo, Vic! — a tal amiga gritou de uma das janelas do prédio estudantil e refrescou minha memória.
  Victoria! Victoria Evans, da Psicologia. O nêmesis da Marie Bee.
  — Bom, essa é minha deixa. — ela balançou as chaves e abriu a porta, de saída. — Divirta-se, bonitão!
  Victoria me liberou e eu entrei no carro checando meu reflexo no retrovisor, cheio de vaidade pelo elogio duplo. Girei a chave na ignição e dei a partida sem prestar muita atenção no que eu estava fazendo, porque depois de repeti-lo com tanta frequência, o caminho para a mansão dos Chevalier na Madison Avenue se tornou automático. Não ter que pensar no trajeto, no entanto, abria espaço para pensar em outras coisas nas quais eu não pensava há algum tempo, por exemplo: Vic Evans parecia ótima e já faziam uns bons meses desde a última vez que eu tinha ficado com alguém. Se ela bloqueasse meu carro de novo, quem sabe, eu pudesse chamá-la para tomar um sorvete.
  Só que eu não gostava tanto assim de sorvete. E também não gostava tanto assim da Vic.
  Na verdade, eu não podia gostar tanto assim de ninguém. Não era o meu foco no momento. Se eu quisesse advogar num país estrangeiro, eu precisava ser extraordinário, acima da média, me esforçar o triplo a mais que qualquer outro para compensar o fato de ser sul-coreano. E eu queria muito aquilo. Tanto que não sobrava nenhum pedacinho de mim para dedicar a mais nada.
  Exceto à .
  Puxei o freio de mão ao parar no portão principal e, antes que eu ligasse para avisar da minha chegada, a avistei no meio do caminho. Precisei de alguns minutos quando ela surgiu, sem um vestido de tirar o fôlego, sem o salto e sem o batom vinho bem forte que ela gostava bastante. A ocasião não pedia uma superprodução, apenas uma calça boyfriend, um top branco que mostrava um pouquinho da barriga, uma jaqueta por cima de tudo e o seu bom e velho Converse Chuck Taylor 70s nos pés. Deve ter sido a vez em que eu vi a mais bonita, não pelas roupas em si, mas pelo que elas implicavam. Ela aparecer mais despojada me deu a impressão de uma camada a mais de intimidade, como se ela ficasse confortável comigo, como se estivesse à vontade ao meu lado…
  E por mais que fosse coisa da minha cabeça, aquilo me valeu muito.
  — Qual é a dessa presa aparecendo? — ela enfiou a cabeça pelo vidro aberto, apoiando a língua no canino numa tentativa de imitar meu sorriso pontiagudo. — Você tá bem feliz pra alguém cujo time vai levar uma surra.
  — Você tá bem confiante pra alguém cujo time nem está na final. — quis descer do carro para abrir a porta, mas me lembrei que não era um encontro e apenas desbloqueei a trava.
  — Eu aposto o que você quiser na derrota dos Giants. — entrou no carro e o perfume dela entrou junto. — Estou até disposta a te pagar um jantar de consolação.
  — Já tenho planos para o jantar. — manobrei para arrancar novamente, passando a mão atrás do banco do passageiro para dar a ré.
  — Comer no aeroporto? — olhou meu braço de canto de olho.
  — Meu voo é só amanhã, você não vai se livrar de mim tão fácil. — ri. — Dá tempo de ir num lugar perto do estádio que dizem ter a melhor bolonhesa da cidade. — continuei dirigindo com uma única mão no volante. — Conhece alguma italiana esfomeada que eu possa levar lá e comprovar essa informação?
  — A Dorota. — ela rebateu. — Mas ela está ocupada, então eu aceito.
  — É uma pena, ela era minha primeira escolha. — dei um meio sorriso.
   me xingou de sombra estúpida e chegamos ao entorno da arena, tomado pelas cores dos times, pelos torcedores e pelos vendedores ambulantes, uma atmosfera incrível de se respirar. Achamos uma vaga um pouco mais distante da entrada e, assim que nos misturamos à multidão, meu impulso foi pegar pela mão para não perdê-la de vista. Ela riu gostoso e aceitou minha escolta, apontando o caminho do nosso setor, onde eu nunca tinha estado, e eu me peguei tentando recordar qual foi a última vez em que eu tinha me dado ao luxo de me divertir de verdade.
  O sol da tarde foi gentil, aquecendo sem incomodar, e finalmente encontramos nossos lugares privilegiados: as cadeiras ficavam quase dentro do campo, com a elevação perfeita para uma vista bem ampla da grama marcada por listras brancas. Os jogadores saíram pelo tubo praticamente do nosso lado e eu soltei grunhidos involuntários de empolgação quando Daniel Jones, o quaterback, passou por mim e fez um joinha.
  — Olha só você a ponto de invadir o vestiário para conseguir um autógrafo. — tirou meu boné e arrumou meu cabelo. — Alguém tem um crush. — ela colocou o boné em si mesma.
  — Esse é o cara que vai trazer o título. — dobrei levemente os joelhos e deixei arrumar minha franja. Eu gostava quando ela me tocava.
  O jogo começou com os Giants dominando totalmente o placar nos primeiros dois quartos, levando embora a minha voz e a torcida contrária de , que não conseguiu disfarçar a comemoração pelo touchdown, um dos melhores lances da partida. No intervalo, a câmera do beijo começou a passear pelos espectadores, parando num adorável casal de velhinhos, e se derreteu toda no meu ombro quando os dois trocaram um beijo fofo.
  — Tá, esse foi uma graça, mas no geral eu acho isso de beijo no telão bem brega. — ela confessou.
  O monitor gigante seguiu projetando a plateia enquanto o narrador animava o público na busca por mais um beijo. Os rostos foram ficando familiares e eu fui tomado por um frio na espinha ao perceber que a câmera tinha focado numa moça tatuada e num cara bem maior que ela.
  A câmera tinha focado em mim e na .
  — Vamos, garoto, nos dê um pouco de açúcar! — o narrador pediu no alto-falante. — Beije a moça!
   sobressaltou e eu retribuí com uma cara de susto. Toda a agitação do estádio ficou pequena perto do terremoto que estava acontecendo dentro de mim. Foi como se tudo ficasse em silêncio e eu só pudesse ouvir as batidas violentas do meu coração, pulsando fora de controle e me pedindo para aproveitar aquela chance de ouro. E eu aproveitaria, não fosse a confissão dela de que achava aquilo brega. O que ela não imaginava (e eu também não, porque estava acabando de descobrir) era que eu a beijaria diante de todos os telões, de todos os olhares, de todas as pessoas do mundo inteiro.
  Mas, naquele momento, eu não sabia o que fazer. continuava paralisada e a pressão aumentava, então eu levantei um pouco a aba do meu boné na cabeça dela, segurando-a pelo queixo, e deslizei timidamente o nariz pela bochecha para deixar um beijo carimbado no rosto vermelho.
  — Parece que alguém cortou os doces da dieta! — o narrador concluiu, desanimado. — Vamos continuar, estamos procurando por um beijo de verdade aqui!
   suspirou forte perto do meu ouvido e eu me afastei, achando-a um pouco desapontada. Não pude ter certeza, porque ela logo desviou o olhar e baixou o boné novamente, escondendo qualquer expressão.
  — Você está bem? — perguntei quando a câmera nos abandonou.
  — Estou. — ela sorriu curto e se pôs de pé. —Eu vou pegar uma cerveja. Você quer?
  Assenti e foi breve, alheia ao que tinha acabado de acontecer, voltando com duas garrafas trincando (nosso setor não só permitia, como vendia as long necks artesanais da casa). Ela me estendeu uma e teve dificuldade para abrir a outra, pedindo em silêncio por ajuda.
  — Qual é a palavrinha mágica? — provoquei, cruzando os braços.
  — Abre ou eu quebro na sua cabeça? — ela tentou.
  — Você vai ficar com sede. — dei um gole na minha garrafa.
  — Por favor, minha sombrinha querida. — pediu, sarcástica.
  Removi a tampa num movimento rápido, devolvendo a garrafa junto com uma piscadinha que arrancou dela uma risada contida e relaxada. A partida recomeçou e os jogadores voltaram a se digladiar por mais trinta minutos, confirmando o resultado parcial e culminando na vitória dos Giants, que aceitou a contragosto.
  Eu, por outro lado, me permiti vibrar. Não só pelo título ou pela emoção dos cantos entoados pela torcida, mas por uma alegria singela de um dia que simplesmente foi bom. Por não ser, por uma tarde que fosse, o Mingyu hiperfocado no seu objetivo, ferrado nos estudos e preocupado com as contas do final do mês. Ali eu era apenas um cara levando a garota mais bonita do mundo ao jogo. E para jantar.
  O tumulto da saída ficou concentrado nos portões oeste, felizmente, no lado oposto à saída do nosso setor, e mesmo sem o mar de gente que enfrentamos na entrada, eu naturalmente tomei a mão da entre as minhas mais uma vez enquanto andávamos. Não encontrei resistência, em vez disso, ela agarrou meu braço e esfregou o meu casaco, e só aí eu notei a queda da temperatura que veio com o anoitecer. Meu corpo estava quente demais para notar o frio, tomado pelo calor interno familiar que acontecia sempre que eu estava perto dela.
  — Deu uma esfriada. — preenchi o silêncio da caminhada até o carro.
  — Contanto que não chova, por mim, tudo bem. — deu de ombros.
  — Você não gosta de chuva? — dessa vez, eu abri a porta para ela e dei a volta para entrar.
  — Não me traz lembranças muito boas. — ela continuou quando eu sentei, sem querer aprofundar o assunto. — Esse rádio funciona?
  — Só quando ele quer. Fique à vontade para tentar.
  O rádio me desmentiu, porque conectou-se ao bluetooth do celular da na primeira tentativa e ela rapidamente selecionou as músicas do trajeto até o restaurante. Deu tempo de ouvir as três primeiras do novo álbum do Fall Out Boy, vício mais recente dela, e chegamos à cantina com mesas cobertas por toalhinhas quadriculadas nas cores da bandeira italiana e flores com água.
  O garçom sugeriu um pão focaccia para começar e ia pedir a cartela de vinhos, mas desistiu ao lembrar que eu não poderia me juntar a ela por estar dirigindo (o efeito da cerveja no estádio já tinha passado). Ficamos ambos com uma soda italiana para acompanhar o prato bem servido de massa à bolonhesa, que veio pelando e sumiu em questão de minutos.
  — Eu não sei você, mas eu vou abrir o botão da minha calça. — avisou discretamente depois que matamos o prato e eu gargalhei.
  — Não acredito! Chevalier? Você faz isso nos restaurantes finos que frequenta?
  — Não, porque as porções são desse tamanhinho. — ela juntou as mãos na frente do guardanapo. — Aí eu chego em casa e como a comida da Dorota.
  — Fico feliz de ter acertado. Achei que ia ser clichê te trazer aqui. — apoiei o rosto nas mãos.
  — Claro que não. — deu o último gole na soda. — É senso comum que os italianos gostam de macarrão, de uvas e de Romeu e Julieta.
  — Então você chora com romances trágicos? — inclinei o rosto e comecei a piscar devagarinho, como sempre fazia quando estava interessado. E eu estava interessado em qualquer coisa que tinha para dizer.
  — O casal não me comoveu tanto. — ela cruzou as mãos embaixo do queixo. — Eu me compadeço muito mais por uma outra tragédia nessa história.
  — Mais trágico que dois amantes morrendo juntos? — tropecei na minha língua presa. — Quem teve um final pior do que esse?
  — Mercúcio, que morreu sozinho.
  Fiz uma cara que perguntou: “quem raios é Mercúcio?”
  — Olha. — alinhou o saleiro e o pimenteiro na frente do prato sujo de molho. — Essa é casa dos Capuleto e essa é a casa dos Montéquio. — ela ilustrou com os utensílios e buscou um terceiro, um palito de dente sozinho numa embalagem de papel. — Mercúcio era amigo de Romeu. — ela aproximou o palitinho do pimenteiro. — Mas também era primo do príncipe. — agora, o palitinho foi parar do lado do saleiro. — Assim, ele era o único personagem da história que podia transitar entre as duas famílias em guerra.
  Fiquei hipnotizado pelo movimento dos dedos tatuados da , as unhas compridas riscando a explicação na mesa. Ela recebeu a atenção que eu estava investindo e continuou.
  — Mercúcio era uma espécie de mensageiro de Romeu e Julieta, ele ajudava o casal a se encontrar e a se corresponder. Mas quando o romance proibido veio à tona, ele acabou sendo covardemente morto. — quebrou o palitinho no meio. —Teobaldo Capuleto apunhalou Mercúcio com um golpe fatal. — a voz dela assumiu um tom dramático, me envolvendo na contação da história feito uma criança de jardim de infância. — “Malditas sejam as duas famílias!”, foram as últimas palavras dele ao perceber a própria desgraça. E que desgraça! — ela se lamentou, atirando o palitinho partido na mesa. — O cara morreu pela briga dos outros, coadjuvante até do próprio fim. Isso passa um ensinamento importante.
  — Que seria? — quis saber, encantado.
  — Não se meta nos assuntos alheios, ou você pode acabar levando uma facada. — ela arqueou uma sobrancelha. — É a maldição do Mercúcio.
  — Uau. — soprei, processando a explicação. — Você é boa.
  — Por que o tom de surpresa? — ela riu, convencida.
  — Não estou surpreso, estou admirado. — encostei as costas na cadeira. — Você foi feita para trabalhar com literatura.
  — Eu sei. — cruzou os braços, satisfeita. — Por falar em trabalhar, não pense que eu esqueci do seu artigo, tá? Como está indo?
  — Muito bem, na verdade. — constatei com alívio. — O Dr. James está gostando bastante, acho que vou submetê-lo à apresentação no simpósio do ano que vem.
  — Mingyu, isso é ótimo! — apertou meu punho fechado sobre a mesa e uma corrente deliciosa passou por mim em resposta ao toque. — Você vai terminar a tempo?
  — Sim, falta pouca coisa. — evitei me mexer. — Aquela última observação que você fez ajudou bastante.
  — Sendo assim, aqui vai mais uma observação. — me soltou e apontou o indicador em riste. — Você está de férias, então não mexa nesse artigo. Não abra o documento, não releia, nem mesmo pense nele. Aproveite a sua família, seus amigos e, quando você voltar, nós finalizamos juntos.
  — Por que você fica me dando ordens, hein? — ralhei, mas com um sorriso.
  — Porque sombras obedecem. — ela bateu na mesa. — Agora me deixa em casa. Você tem que estar do outro lado do mundo em algumas horas.
   deveria ter poderes telecinéticos ou coisa parecida, porque, surpreendentemente, no caminho de volta, o rádio também funcionou. Ela engatou mais um monólogo shakesperiano e, depois de várias metáforas e análises que eu ouvi sem reclamar, chegamos à casa dela. Ao descer do carro para acompanhá-la até a porta, eu recebi o abraço que eu só sentiria de novo dali a um mês.
  — Boa viagem, Mingyu. — ela me deu um beijo demorado no rosto, depois deu outro nas minhas mãos. — Guarda esse pra sua mãe, tá?
   sumiu casa adentro e eu fiz meu caminho de volta, me preparando para estar, como ela mesma disse, do outro lado do mundo em algumas horas.
  Mas o outro lado do mundo era muito, muito longe. Então eu guardei o beijo para mim enquanto ele estava quentinho.


  Nota da autora: Eu sei que você também quis dar um peteleco na testa do Mingyu por causa da câmera do beijo, mas, paciência. A gente vai chegar lá!

Capítulo 6
A ligação intercontinental

  Arrastei a tela para baixo pela milésima vez em busca de uma novidade, mas a última foto postada ainda era a mesma. Suspirei, dando a mim mesmo um atestado de ridículo. Bancar o stalker não era o meu estilo, por que eu estava sendo tão idiota?
  — Tatuagens legais. — Minseo surgiu atrás de mim no sofá, me abraçando. — Ela é bonita demais pra você, como você tá dando conta?
  — Eu não tô. — bloqueei a tela do celular. — Quer dizer, eu tô dando conta do meu trabalho, que é vigiá-la.
  — Até daqui de Anyang? — minha irmã tomou o aparelho das minhas mãos e digitou minha senha. A tela abriu direto no perfil do Instagram que eu estava monitorando a cada cinco minutos.
  O perfil da .
  Faltavam algumas horas para a entrada do ano novo e tanto o Instagram dela como a conta que funcionava como periódico de fofocas do Seungkwan estavam recebendo várias atualizações da maior festa de virada de Nova York, onde ela estava naquela noite. E onde eu achava que também deveria estar. Minha família estava cuidando das suas coisas, movimentando a casa com suas conversas e seus afazeres, ocupando-se do cotidiano doméstico que eu tanto sentia falta quando estava lá no meu pequeno dormitório na Saint Peter, mas tudo o que eu conseguia fazer era ficar atualizando o maldito feed. Havia alguns rostos conhecidos: Marie Bee, Hoshi (com quem eu e Wonwoo batíamos bola de vez em quando) e uma amiga da que eu não lembrava o nome, mas parecia estar suprindo a “ausência” de Marie ultimamente.
  E é claro, ela. Metida num vestido prata minúsculo, com uma fenda drapeada nas costas e o infeliz do Dokyeom de acessório.
  — Uau! — Minseo assobiou. — Esse cara tem o perfil mais lindo e afiado que eu já vi na vida, acho até que cortei meu dedo.
  Não respondi. Apenas senti um oco dolorido no peito e a feição se repuxar sozinha.
  — Dane-se. Eu aposto que ele é um otário. — ela complementou ao perceber minha careta involuntária.
  — Eu queria que ele fosse, seria mais fácil odiá-lo. — ri sem graça. — Mas, infelizmente, ele é um cara bem legal.
  — Você também é, Gyu. — Minseo bagunçou meu cabelo. — Por que não fala com ela em vez de ficar aí com essa cara de cachorro sem dono?
  — Porque ela com certeza não está pensando em mim agora.
  — Vamos descobrir. — ela clicou no ícone do bate-papo e começou a digitar uma mensagem para . — “Querida , eu estou maluquinho por você…”
  — MINSEO! — tentei tomar o celular de volta.
  — “Por favor, vamos dar uns beijos quando eu voltar para Nova York…” — ela prosseguiu e eu tinha um pequeno derrame a cada som que o teclado fazia.
  — Omma! — apelei para a suprema corte. — Faz a Minseo parar!
  — Eu não enviei, chorão! — ela se defendeu.
  Minha irmã devolveu o celular rindo da minha cara e, depois que os pontinhos pretos se dissiparam da minha vista, eu vi que a conversa com a estava exatamente no ponto em que eu tinha deixado: uma mensagem perguntando sobre o livro que eu dei a ela no Natal. Foi um presente estratégico, eu contava com a curiosidade literária dela para me perguntar sobre alguma palavra ou termo coreano, na esperança de que ela usasse o livro como desculpa para manter contato durante as férias, no entanto, quase um dia inteiro depois, ela ainda não tinha me respondido.
  — Já se resolveram ou eu vou ter que deixar os dois sem sobremesa? — minha mãe se aproximou.
  — Achei que só tinha kyungdan pro Mingyu. — Minseo reclamou, com ciúme.
  — Seu irmão mora em outro país, querida, enquanto ele estiver nos visitando, é sempre a vez dele. — ela decretou e Minseo me mostrou a língua.
  Minha mãe sentou-se ao meu lado e a vontade de subir para o meu quarto e ficar a sós com meu humor destemperado sumiu quando ela passou o bracinho por mim, me abraçando pequeno e imenso ao mesmo tempo. Havia alguma coisa sobre mães, sobre a fibra da qual elas eram feitas. A minha parecia feita de algodão, era quentinha e confortável, e sabia como ninguém o que se passava na minha cabeça.
  E no meu coração.
  — O nome disso é saudade. — omma afagou meu cabelo. — É um sentimento bem amargo, por isso eu fiz a sobremesa com mel só pra você.
  Sorri, consolado pelo tom reconfortante e macio. Depois de tanto tempo cuidando da , eu cheguei a esquecer que também precisava ser protegido e acalentado, e descansar naquele amparo materno era o refúgio do qual eu necessitava.
  — Sou muito grande pra deitar no seu colo? — perguntei, já recolhendo os pés do chão e me arrumando no sofá.
  — Aish!omma exasperou. — Você sempre vai ser o meu bebê.
  — Omma… — repousei a cabeça nas pernas dela. — Como eu sei que alguém gosta de mim?
  — Convide-a para ver cerejeiras. — ela fez um carinho nas minhas costas. — Deu certo para o seu pai.
  Eu nem sabia se tinham cerejeiras em Nova York, nem se seriam tão lindas quanto as do parque de Anyang, muito menos se saberia o significado de um convite para vê-las, já que aquele era o típico encontro romântico e clichê dos casais coreanos. O que eu sabia era que já tinha várias rosas e borboletas em si mesma e, mais do que quaisquer outras, aquelas eram as flores que eu queria ver.
  — Ela é um jardim inteirinho, omma. — assenti, sonolento, pensando no corpo que eu tinha deixado há um oceano de distância.

***

  Remexi na cama algumas horas depois, meio em jet lag, sem saber onde tinha acordado. Lembrava de ter desejado “feliz ano novo” para todo mundo, ido para a cama e vestido o pijama, mas não me lembrava de ter me cobrido com o edredom, o que provavelmente foi ação da minha mãe e sua obsessão em me manter aquecido. A barriga cheia, o aconchego familiar de casa e as roupas de cama cheirando a amaciante poderiam embalar meu sono por mais algumas horas, mas por algum motivo, eu acordei.
  O motivo era o toque do meu celular. Busquei o aparelho entre os lençóis já nervoso, porque o som vedado por um dos cobertores me entregou quem era antes que eu olhasse o display: tinha escolhido uma música chamada Shadow para ser o toque dela.
  — , eu estou oficialmente de férias, viu? — atendi, fingindo estar incomodado, mas ansioso por ouvi-la.
  — Quantas sílabas tem a palavra “flor” em coreano? — a voz dela colada ao meu ouvido me esquentou mais que o cobertor. Pus o celular entre o travesseiro e meu rosto e me aninhei na cama enquanto ela continuava sem pausa. — O livro que você me deu tem os caracteres coreanos abaixo da tradução em inglês, mas eu não sei quantas sílabas tem “flor”. Nem qual deles é a “flor”.
  — Bom, flor não tem sílaba, flor só tem um símbolo. — respondi de olhos fechados, sorrindo involuntariamente. Quem além de Chevalier me ligaria àquela hora com uma pergunta sobre o hangul, o alfabeto coreano?
  — Me mostra. Eu vou te ligar por vídeo.
  — Agora? — arregalei os olhos e não vi muita diferença, uma vez que o meu quarto estava todo escuro. — Mas eu estou deitado. — e num pijama de desenho animado, mas ela não precisava saber.
  — Você dorme pelado por acaso? — ela zombou. — Eu só queria ver a sua cara.
  Houve um breve silêncio. “Eu só queria ver a sua cara” era o jeito dela de dizer que estava com saudade?
  — Estou curiosa sobre o processo de rimas que esse autor usa, por isso eu preciso saber a quantidade de sílabas das palavras. emendou, preenchendo o mudo. — Me ajuda, meu cérebro está com coceirinha.
  — Seu cérebro não sabe que aqui na Coreia são quatro da manhã?
  — Não, esse fuso de vocês não me entra na cabeça. E para de fazer charme, você sempre faz tudo que eu quero, estou mal acostumada.
  Me virei e apoiei o celular no peito depois de acender a luz do abajur e me certificar de que a coberta esconderia minha camiseta de mascote infantil. A tela expandiu e apareceu pelo visor usando um óculos, um suéter bege que cobria as mãos e deixava apenas as pontinhas das unhas à mostra, brancas, decisão temática para o réveillon. Ela tagarelou sobre a leitura e eu, hipnotizado pelo pingente de pérola que, ora ela colocava na boca, ora ela arrastava de um lado para o outro na corrente, esqueci de prestar atenção. O sono também não estava ajudando, meu corpo inteiro estava afundando na cama, não com dormência ou peso, mas com uma leveza que eu atribuí ao simples fato de olhar para sendo ela mesma e, de alguma forma, me mantendo por perto. Cerrei os olhos por um instante, demorando para tornar a abri-los, e parecia que ela tinha feito uma pergunta. Fui salvo por Dorota, que surgiu na tela acenando energicamente e despejando um monte de informações que eu também não entendi.
  — Desliga, ! — Dory exclamou. — O coitado já está piscando devagarinho de tanto sono.
  — , não! — chamei, despertando num espasmo que não durou muito tempo. — Não desliga agora.
  — O que foi? — ela perguntou e eu notei que Dorota tinha sumido.
  — Eu gosto de te ouvir falar… — confessei embolado. — Lê pra mim?
   sorriu fino e apoiou o celular lateralmente em alguma coisa, ampliando meu campo de visão e confirmando que ela estava no quarto dela, sentada na cama com as pernas cobertas por uma calça de malha justa e meias de bolinhas. Ela pôs o livro no colo e eu fiquei olhando o blusão se mover conforme ela respirava, o perfil mostrando os piercings na orelha, que segurava o cabelo na altura do ombro, e a boca esboçando sorrisos a cada verso.
  — “Antes de eu chamar pelo seu nome, ela não era nada além de um gesto.” — declamou baixinho, só pra mim. — “Quando eu chamei pelo seu nome, ela veio até mim, e em uma flor se transformou…”
  A voz de enunciando aquelas estrofes me amoleceu completamente, misturando-se à observação que minha mãe fez mais cedo, uma palavra específica que pulsava por todo lugar da minha mente adormecida.
  Saudade.
  Eu acho vou sonhar com você,


  Nota da autora: Que bom que você tá aqui!

Capítulo 7
O primeiro em tudo e o que dizem sobre os caras altos

  De volta a Nova York, o verão dava os primeiros sinais de que chegaria: os dias esticaram, as noites foram ficando mais curtas e esquentou o suficiente para eu desenterrar as bermudas e as camisas mais leves do armário embutido do dormitório. Era um pequeno apartamento bem dividido, havia um quarto, um banheiro e uma saleta, já a copa para realizarmos as refeições ficava alguns andares abaixo. Não era tão espaçoso quanto uma casa de verdade, mas servia bem para mim, Wonwoo e, mais recentemente, Marie Bee, que gostava de passar tempo lá com o seu neném. Por causa das provas do último período, da preparação para o estágio e da monitoria que recebíamos do dr. Atinkson, meu melhor amigo e Marie não encontravam tanto tempo livre quanto gostariam para curtir o namoro recente, então eu tentava ajudá-los deixando-os sozinhos no quarto compartilhado sempre que possível. Depois de tirar muito sarro da cara de Wonwoo por ser chamado de neném, é claro. E de fazer com que ele lavasse a minha roupa.
   Dormir no meu Honda feito uma sardinha numa lata, no entanto, era um sacrifício que merecia um pagamento maior do que fazer Wonwoo frequentar a lavanderia mais vezes. Mesmo depois de improvisar uma cama no banco traseiro, esconder as fivelas dos cintos de segurança e me ajeitar num travesseiro e num cobertor que eu arrastei do dormitório, meu pescoço amanheceu travado. Eu certamente pensaria em como vingar a noite maldormida assim que meu espírito retornasse ao meu corpo depois de uma ducha, uma troca de roupa e um bom café da manhã.
  Estalei as costas ao sair do carro para me espreguiçar, fez mais barulho que meu pescoço rígido irradiando dor quando tentei movê-lo. Entrei no prédio e abri a porta do apartamento cuidadosamente, tentando fazer o mínimo de ruído para não acordar o casal que ainda dormia o sono dos apaixonados. Sentia uma pontinha de inveja branca, era preciso admitir. Alguma coisa mudou desde que eu tinha voltado de Anyang e, depois de muito tempo sem sequer cogitar isso, eu voltei a querer acordar com alguém. Alguém que coubesse certinho no meu abraço, que se empolgasse falando de literatura, mesmo que eu não entendesse quase nada. Alguém para ser a minha primeira visão do dia, para curtir aqueles momentos matutinos bobos de “briga” por mais cinco minutinhos que virariam chamego antes de levantar e morning sex. Alguém que era louca por doce e para quem eu faria as melhores panquecas de chocolate do mundo.
  Suspirei longo.
  Você quer muita coisa, Mingyu.
  E, no momento, tudo o que eu tinha era um banho gelado e rápido e meu reflexo cansado no espelho ao escovar os dentes. Suspirei outra vez, nocauteado pela realidade. Vesti roupas leves e um pouco de perfume e abandonei o quarto com o mesmo passo sorrateiro que usei para entrar. Fui até a cozinha e, por ser absurdamente cedo, não encontrei ninguém, o fogão e os utensílios estavam livres para mim e meu estômago cantante, que, saudoso do gosto coreano, pediu sopa (vantagens de estar sozinho, não ter que encarar outros estudantes apavorados com o fato de comermos macarrão e carne na primeira refeição do dia) e as panquecas que pensei antes. Depois de comer, coloquei a assadeira para esquentar enquanto preparava a massa em quantidade maior que o normal. Queria fazer um agrado para , afinal, era um sábado de manhã e ela estava se dispondo a vir para a universidade me ajudar com a minha tese.
  Já fazia algum tempo que ela vinha me dedicando uma espécie de consultoria particular e nos encontrávamos sempre que possível em janelas entre as aulas para trabalhar no meu texto. Como pagamento, eu oferecia copos de café acompanhados de algum doce que eu preparava para ela — o que me lembrava de pesquisar uma receita de um mil folhas possível para minha cozinha limitada. Talvez Dorota pudesse me ajudar. A governanta dos Chevalier tinha um carinho maternal pela , uma mão cheia e um faro aguçado. Ela sacou bem antes de mim que, dados o tempo e a convivência, não era mais só a necessidade de um salário que me mantinha perto da .
  Ela sacou bem antes de mim que a era o meu alguém.
  Despejei a massa ainda meio preso em devaneio, esperando tomar forma e encorpar o necessário para virar. As primeiras saíram queimadas: seriam do Wonwoo. Analisei as mais redondas e fofinhas, guardando-as para num pote de vidro, depois piquei uma barra de chocolate e derreti em banho maria, adicionando leite aos pouquinhos para deixar a cobertura com a textura perfeita. A calda esfriou e eu ainda fiquei com o saldo de uma hora para matar antes que chegasse. Na falta de um lugar para ir, desci novamente até o carro, estacionado na sombra do carvalho frondoso bem na frente do prédio estudantil, e deitei novamente no projeto de cama. Apesar do meu sofrido pescoço padecendo, meus olhos quiseram fechar e eu cochilei de boca aberta, ainda mais torto e atravessado dessa vez.
   — Você se mudou, foi? — acordei assustado com a batendo no vidro, juntando as mãos no rosto escurecido pelo fumê. — Não sabia que você estava desabrigado.
   
  — Não sabia que você andava por esse lado do campus. — respondi arrastado, ainda meio dormente. O parque onde estudávamos ficava do sentido oposto ao dos dormitórios dos intercambistas, na outra ponta da universidade. — O que você está fazendo aqui no núcleo pobre?
   
  — Minha melhor amiga não atende as minhas ligações e eu sei que o seu míope tem tudo a ver com isso. — abri a porta e encostou-se no tronco da árvore.
   
  — É uma acusação grave, Chevalier. — brinquei e agradeci internamente pela temperatura elevada que fez prender o cabelo bem alto e deixar a tatuagem de coração atrás da orelha à mostra. — Você tem provas ou testemunhas?
  — A Veronica bem ali. — apontou o carro branco de Marie Bee parado há alguns metros do meu, cheio de enfeites cor de rosa e com direito a nome de mulher.
  — Hum… Então foi por isso que você veio aqui? Para espionar sua melhor amiga? — coloquei as pernas para fora do carro e reparou no meu short. — Sabia que o código criminal abrange a perseguição agora? Inciso número dois mil trezent-
  — Nem começa, advogado do diabo. — meteu metade do corpo no carro, grudando o joelho na minha coxa exposta e na sobra estreita do banco, me obrigando a recuar. — Quem faz as perguntas aqui sou eu e eu vou perguntar só uma vez: desde quando a Marie Bee e o Wonwoo dormem juntos?
  — Eu sei lá! — afastei o pensamento nauseante de Wonwoo praticando um ato sexual. — Eu tô fodendo com meu pescoço pra evitar saber qualquer coisa sobre isso!
  — Mingyu… — agarrou minha camisa, impaciente, o olhar me penetrando. — Responde ou eu faço essa tua língua presa cantar.
  — , não é grande coisa, eles dois estão juntos agora. — tentei mudar o foco da conversa para não ter que me concentrar no decote dela.
  — É uma grande coisa. É a maior coisa de todas! A Marie nunca teve segredos comigo! — franziu o cenho, se indignando e se lamentando ao mesmo tempo.
  — Sério? Ela nunca te escondeu nada?
   meneou a cabeça.
  — Eu conheço a Marie Bee desde que a senhorita Abbott sorteou nossos nomes na jarra e nós tivemos que fazer o projeto de ciências juntas. Isso foi na quarta série. Quarta série, Mingyu! — se inclinou feito uma fera antes do ataque e puxou meu colarinho, descobrindo mais pele. Ela estava zangada com a situação e, por falta de opção, canalizando a raiva em mim. — Nenhuma vez durante esse tempo todo eu vi a Marie Bee se interessar remotamente por outro ser humano e, quando finalmente acontece, ela me deixa de fora? Por quê?
  — Acho que não era pra mim que você deveria perguntar isso. Conversa com ela. — sugeri, assustado, e fui cortado por vias físicas. — Ai! — ela afundou o dedo no meu peito.
  — “Conversa com ela”. — ela me imitou, torcendo a boca. — Não é assim que funciona com a Marie Bee. Ela é um livro fechado. Ela nunca deixou ninguém passar da página 10 e de repente o seu amigo quatro olhos aí está ganhando um capítulo inteirinho só pra ele. — se enfiou ainda mais dentro do carro, segurou meu queixo e sussurrou. — Eu preciso saber detalhes desses dois, Kim Mingyu, e você vai usar sua vantagem de colega de quarto para me contar tudo.
  — … — chamei apesar do bico que ela me obrigou a fazer, sendo apertado com mais força — Eu sei que você tá preocupada com a sua amiga, mas você se importa em parar de amassar a minha cara?
  — Não muda de assunto, sombra. — sacudiu meu rosto e o pescoço travado latejou. — Desembucha.
  De repente, antes que eu pudesse responder ou reclamar mais, testas e narizes colados. me empurrou deitado no banco traseiro e eu bati a cabeça na alça da porta, pronto para soltar um gemido que foi suprimido por dois dedos gentis carimbando meus lábios e um corpinho pequeno se jogando em cima do meu. A manobra me obrigou a fazer uma careta e tirou a mão da minha boca, usando as duas para deslizar pelo meu rosto e pelas laterais da minha nuca numa tentativa de suavizar minha expressão de dor.
  — Me desculpa. — ela pediu baixinho, ofegando quente e gostoso no meu rosto com o hálito cheirando a pasta de dente de menta. — Acabei de ver o casal feliz saindo do dormitório. Não quero que a Marie me flagre.
  — E a maldição do Mercúcio, hein? — sussurrei vitorioso  para a debruçada em mim. — Lembra o que aconteceu com ele por se meter na vida dos outros? Não tem medo de ser apunhalada por um Teobaldo?
  — Mentira! — ela sorriu, os dentes feito pérolas. — Você citando Shakespeare!
  — Ao contrário do que você pensa, eu presto atenção no que você diz. — respirei bem fundo o cheiro dela, torcendo para que ficasse na minha roupa. — Você fica bonita falando das coisas que gosta.
  — Se você presta tanta atenção em mim, saberia que eu tenho uma coisa que o Mercúcio não tinha. — cutucou o sinal no meu nariz.
  — O quê?
  — Você, sombra. — ela beijou minha bochecha, bem perto da boca. Uma ondinha de eletricidade boa quando nossas linhas se encostaram me fez sentir envolvido por uma chama morna.
  — Eu não levaria um facada por você, não está no meu contrato. — ri baixinho, entorpecido, e me acompanhou.
  — Cala a boca, eu quero tentar ver alguma coisa.
  Fui praticamente mergulhado nos seios da quando ela semiergueu o tronco, colocando cada vez mais a cabeça acima do vidro e arriscando se revelar. Puxei-a de volta, passando os braços pela cintura nua, resultado da bagunça que éramos e que fez a camisa fina dela subir, e a guardei no meu peito.
  — Assim eles vão te pegar. — censurei no ouvido dela. — Você é muito enxerida!
  — E você é um péssimo fofoqueiro! — ela devolveu no mesmo lugar e mudou de assunto. — Que doce você trouxe pra mim hoje?
  — Panquecas de chocolate. Estão em cima do painel. — mantive o tom abaixado, aproveitando aquela proximidade.
    soltou ar quente ao sorrir, agitando-se um pouco. Ela recebia meus pratos com uma empolgação adorável, pulinhos e palminhas, mas como estávamos espremidos um contra o outro num espaço confinado, tudo que ela conseguiu foi se mexer abruptamente contra uma área que Deus fez para ser tratada com carinho. Eu a impulsionei para cima ao tentar salvar meus futuros filhos de serem esmagados, e arranquei dela um gritinho agudo de susto que fez ambos darem risada.
  — Tem noção do quão errado isso vai parecer se alguém pegar a gente assim? — perguntei, risonho.
  — É verdade. Me deixa sair daqui antes que você fique feliz demais. — brincou e me avançou um selar melado de protetor labial de morango na pontinha do nariz, que ela apertou em seguida para tirar a marca rosada.
  — Ora, ora, ora.
  Uma voz atravessou a janela e eu reconheci o timbre debochado de Boo Seungkwan. torceu os lábios num sorriso forçado e levantou-se, ainda com uma das pernas à minha volta, quase escorregando. Segurei a cintura dela para evitar a queda, sem perceber que aquilo comprometia ainda mais o cenário e deixava nossa posição consideravelmente mais sugestiva para nosso atento observador, o mais curioso estudante de Jornalismo da Saint Peter. Seungkwan assinava a coluna no jornal interno que foi, durante muito tempo, minha única e distante fonte de notícias sobre a . A mesma que tinha escolhido não usar sutiã naquela manhã e que agora estava montada bem em cima do meu estômago.
  — O que temos aqui, Chevalier? — Seungkwan disparou com ironia. — Será que eu devo chamar o segurança do campus? Oh, espera. Já tem um bem embaixo de você.
  — Bom dia, jornaleiro! — semicerrou os olhos. — Alguma coisa interessante na sua vida além de mim?
  — Não é jornaleiro, é jornalista. — ele corrigiu. — Você gosta mesmo de um intercâmbio cultural, hã? Primeiro Dokyeom, agora Kim Mingyu… Versátil. Do jogador de futebol popular ao nerd do Direito.
   irritou-se com o comentário e ajeitou-se no meu abdômen, indo perigosamente para trás.
  — Ai, ! Cuidado! — apertei a cintura com mais força. — Tem uma carga preciosa aí atrás.
  — Você não tem outra pessoa para atazanar? — me ignorou e continuou sua troca de farpas com Seungkwan. — Marie Bee acabou de sair daqui. Acompanhada. Vai lá saber por quem.
  — Eu já sei. Essa notícia está desatualizada. — Seungkwan revelou com prepotência. — Tem pessoas torcendo pelo casal Jeon-Bee, já até batizaram de MariWoo. Está lá no meu periódico.
  — Desculpe a minha alienação, é que eu não leio a sua coluna. — rolou os olhos, completamente esquecida da confusão dos nossos corpos tentando caber no carro apertado.
  — Nesse caso, eu te aconselho a não perder a próxima edição. Vai ser tudo sobre você. — Seungkwan deu a cartada final com uma nota inofensiva de arrogância.
  — E quando não é? Agora faz alguma coisa realmente útil e me ajuda a sair daqui. — bateu a cabeça no teto do carro e Seungkwan estendeu a mão para ela. Desci em seguida, arrumando minha roupa e meio aturdido.
  — Parabéns, senhor Kim. — Seungkwan me cumprimentou. — Está prestes a sair do anonimato. Vejo vocês em Long Island.
  — Desculpa por isso. — pediu novamente quando Seungkwan sumiu da nossa vista. — Andar comigo atrai uma atenção que você provavelmente não quer, não é?
  — Eu posso lidar com os seus holofotes. Eu não posso é com você se jogando em mim daquele jeito. — rebati.
  — Eu aposto que você pode. — ela piscou e eu peguei meu material de estudo, caminhando em busca de uma mesa no parque da universidade.
  Era difícil saber até que ponto flertava comigo para se divertir ou se ela realmente me olhava e me queria de outra forma. O que havia de segurança nela, faltava em mim. Irônico, eu sei. O segurança inseguro. Mas eu tinha minhas razões: além da óbvia diferença social entre nós, eu era um cara quieto, discreto no jeito e nas falas, e era solar, pura luminescência. Ela era a única razão para eu ser lembrado nos programas sem fins acadêmicos da Saint Peter, como a ida à praia de Long Island na manhã seguinte, planejada por um grupo com alunos de vários cursos, amigos em comum. E o convite veio a calhar, considerando o nível de estresse que o artigo me causou, eu precisava de um bom banho de mar e um dia inteiro batendo bola.
  — É isso? — olhei para o notebook, salvando as últimas alterações. — Eu terminei o artigo?
  — Você? quase engasgou com a panqueca que ela devorava enquanto eu lia as últimas linhas. — Você terminou o artigo?
  — Nós. — corrigi, feliz com a ideia de conjunto. — Nós terminamos o artigo. — rodei os ombros e apoiei os cotovelos na mesa, puxando o ar entre os dentes.
   — Ainda está doendo, não é? — perguntou, observando meu movimento.
  — Eu me viraria para olhar pra você, mas meu pescoço travou. — ri da minha desgraça e afundei o rosto nas mãos, sentindo a junção do início das costas reclamar. — Céus. Eu estou tão exausto que esse torcicolo é o menor dos meus problemas. — falei e bocejei.
  — E qual seria o seu maior problema? — limpou as mãos num guardanapo e colocou-se de pé atrás de mim, que continuei sentado e praticamente imóvel.
  — Você. Bem no topo da lista. — brinquei e ela me beliscou, colando a barriga nas minhas costas.
  — Você não merece nada do que eu faço por você, Kim Mingyu. Deita a cabeça pra trás e relaxa, tá? — ela deslizou pelos meus ombros e braços expostos pela camisa preta de manga curta.
  — … tudo bem. — resisti ao carinho com medo de amolecer demais na frente dela. Eu tinha que manter a pose de forte, afinal.
  — Re-la-xa. — ela ordenou, espalmando a minha testa e me empurrando para trás para apoiar minha cabeça no seu estômago. — Eu não vou te morder, ok?
  Que pena.
  Sem descolar de mim, mexeu na bolsa, achando um frasco pequeno de um hidratante chique. Colocou um pingo no dorso da mão, usando o local como tela para umedecer os dedos e começou a aplicar uma leve e gostosa pressão nas laterais do meu pescoço, deslizando pelos ombros, um pouco por baixo da camisa, com a pequena quantidade de loção na ponta dos dígitos.
  — Assim está bom? — ela perguntou.
  — Hmmmm. — gemi, rendido.
  — Vou entender como um sim. — ela disse e me conduziu a inclinar a cabeça bem devagar para a esquerda, depois para a direita. Empurrou um pouco para frente e massageou a minha nuca, quase me reiniciando.
  — Você é boa nisso. — balbuciei.
  — E você está travado feito uma rocha, sombra. — ela respondeu com um tom preocupado e seguiu me alongando. — Você é bem grande, mas não é dois, viu? Precisa parar um pouco.
  — Não tenho tempo para parar. — suspirei.
  — E se eu arrumar pra você? — ela maneirou a força das mãos e começou a circular as vértebras com a falange dos dedos. — Esse final de semana eu vou ficar quietinha em casa e você vai poder fazer uma coisa bem legal na sua folga. Se chama dormir.
  — Considerando que eu tenha onde fazer isso, seria ótimo. Ah! — gemi outra vez quando ela apertou a tensão do meu trapézio. — Mas não precisa.
  — Precisa sim. Ou você prefere me assistir fazendo nada em casa a ter seu merecido sono da beleza? — ela fez um cafuné no meu cabelo e eu quase ronronei.
  A verdade era que eu preferia qualquer coisa que me deixasse perto da , mas quando o celular dela vibrou em cima da mesa, eu percebi que ela poderia estar me dispensando por outro motivo. Um motivo bem desagradável: a notificação explícita que surgiu mostrava em miniatura um tanquinho de marmanjo enviado por um contato salvo com “D” e um emoji de coração.
   Minha boca secou. Dokyeom estava (ânsia de vômito) mandando nudes para ?
   — Uau! — exclamou e abriu a mensagem. — Se a entrada é boa assim, imagina a festa…— ela se inclinou um pouco sobre mim, meio que me abraçando, pinçou o celular e deu zoom nos gomos.
   — , eu com certeza não tô afim de ver o abs do Dokyeom. — rangi os dentes e trinquei a mandíbula.
   — Eu já vi. São ótimos. — me provocou com a bochecha colada na minha e os braços em minha volta. — Mas esses aqui não são os do Seo.
  — Seo? — repeti com desgosto.
   — Lee Seokmin. O nome do DK na verdade é-
  — Eu sei. — interrompi. — É só que eu não vejo mais ninguém chamando ele assim.
  — Ele não aceita muito bem se não vier de mim. — recebeu mais fotos, abrindo todas na minha frente.
  — O que é isso, hein, ? — fechei os olhos, ainda preso no abraço. — Você assina o only fans desse cara aí ou quê?
  — Eu assinaria, mas felizmente não preciso. Minha amiga Denise está numa praia na Tailândia e me manda essas belas fotos de graça.
   Denise. Isso explicava o D e o coração. Desde que Marie Bee se isolou no “nenémverso”, era Denise quem estava mais próxima de , provando, pela quantidade de fotos e vídeos que, além do gosto para festas, as duas tinham o mesmo gosto para homens. Um tailandês aleatório era menos desconfortável que o capitão do time fazendo um ensaio sensual para , fato, mas pensar nas situações em que ela teve a oportunidade de ver o DK pelado me deixou amargo. E curioso.
   — Sabe o que o Seungkwan disse mais cedo? Sobre o Seo-... Dokyeom…
   — O que tem? — me soltou e bloqueou a tela, sentando-se e voltando sua atenção em morder a última fatia de panqueca esquecida na vasilha.
   — Ele é tipo seu namorado? Ficante? Esquema? — soltei, despudorado.
   — Ele é meu amigo. Por que a pergunta? — ela respondeu com o canto da boca melado de açúcar de confeiteiro. — Você tá afim dele?
   A gracinha teria me deixado emburrado se eu não estivesse tão estranhamente alegre em saber que se referia a ele apenas como amigo. Não que eu fosse fazer alguma coisa além de esticar o dedo e limpar a boca dela (quando queria fazê-lo usando a minha), mas saber que não havia uma relação oficial ali me aliviou um pouco o ciúme.
   — Eu só queria saber. — fiz um bico. — E ele não faz o meu tipo, ok?
   — Ele faz o tipo de todo mundo, Mingyu. — debruçou-se sobre a mesa sorrindo, esticando os braços e deitando em cima deles. — Seokmin foi meu primeiro beijo. Aliás, ele foi meu… primeiro. Em tudo. — ela remexeu no banco, largando um riso tímido. — No último ano da escola, no baile, éramos os únicos que não tinham feito aquilo ainda. Queríamos que fosse com alguém especial. Foi bem fofo.
   — Desde então, vocês… — disse, sem coragem de terminar a frase. Era melhor que eu não soubesse.
   — Vááárias vezes, mas sem compromisso. — deu de ombros e eu fiquei carrancudo por causa do “várias vezes” que ela prolongou demais. — Somos amigos com benefícios, eu acho. — ela batucou os dedos na madeira.
  — Você acha? — senti uma pontada de queimação no estômago.
  — É que faz tempo desde que… — ela se pausou com embaraço. — Quer saber? Eu já falei demais. Agora é a parte em que você me conta de você.
   — Eu? — aumentei o bico. — O que tem eu?
  — Oh, não. — empertigou-se, fazendo uma cara de susto sarcástica. — Você ainda é virgem?
  — Eu tinha 16 anos, tá? — cortei, escutando a risada dela ecoar. — Foi bem desajeitado. Mas acho que a primeira vez é assim pra todo mundo.
   — A felizarda sobreviveu? Quer dizer, olha só o seu tamanho, coitada… — apertou meu bíceps. — Sabe o que dizem sobre caras altos, né?
  — Vai ter um dia que eu vou parar de falar com você, Chevalier. — ameacei e segurei a mão dela, exibindo as unhas compridas e pintadas de preto. — Isso aqui é uma arma branca, sabia? Você arranha que é uma beleza.
   — Você ainda não viu nada, gatinho. — ela se levantou, apanhando a bolsa. — E não esquece de ir me buscar amanhã para irmos à Long Island.
   Como se eu conseguisse, . Como se eu conseguisse esquecer você.

CONTINUA...



Comentários da autora


  Nota da autora: Que bom que você tá aqui!