R U Mine

Escrito por Helen B | Revisado por Larissa Martins

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  Entardecia e era possível ver pequenas partículas de poeira passando pelas brechas da persiana, juntamente com feixes de luz. Naquele dia eu estava jogado em minha cama, escutando aquela música em meus headphones em um volume alto o suficiente para não ouvir nem mesmo minha respiração, que estava em demasiado acelerada. Eu havia acabado de ficar com novamente, e a lembrança de suas bochechas coradas após nosso beijo não saía de minha cabeça.
  Apenas era capaz de me deixar perturbado após um simples beijo. Eu costumava culpar minha obsessão por ela, mas, ao passar dos dias, eu percebi que ela era a real culpada. Sempre habitando meus sonhos e me fazendo escutar a mesma música todos os dias, fazendo-me ficar viciado em seu perfume e ansiando por vê-la.
  E então vieram os outros caras. namorou alguns, mas depois que teve uma decepção amorosa, decidiu que seria o seu novo amor - o que me rendia várias ligações e mensagens durante a madrugada, claro. No dia seguinte, ela nunca se lembrava de nada.
  Quando ela disse que passaria alguns meses fora, eu me segurei para não dar na cara que estava pirando. Apenas acreditei quando a vi partindo, já que eu meio que esperava que ela ficasse. Tudo bem que pode parecer loucura, mas eu gostava de imaginar que ela sentia algo por mim além de amor de amigo. O que, claro, não era verdade. Durante meses eu tentei me apaixonar por outras garotas, mas era a única que eu me permitia amar.
  Depois de nove meses – sim, eu contei -, ela voltou, mas, desta vez, trazia junto um cara alto e com sotaque forte, cujo nome era Sebastian, seu namorado. Eu procurava estar sempre por perto, cercando-a com a desculpa de que estava com saudades da minha velha amiga, o que, claro, não descia pela garganta de Sebastian.
  Soaria egoísta eu dizer que fiquei feliz quando e Sebastian romperam dois meses depois? E, para melhorar tudo, o motivo havia sido eu – novamente. Dizem as boas línguas que ele queria que nossa amizade acabasse, alegando que eu estava atrapalhando o relacionamento deles, e que deveria escolher entre nós e o que ela e Sebastian tinham. Eu venci, obviamente.
  Apenas nesse meio tempo, eu já havia escrito cinco músicas, todas dedicadas a ela, cada uma para uma fase diferente de minha obsessão. A primeira, no caso Do I Wanna Now, foi para quando eu aprendi o que aquela coisa por ela significava, Snap Out Of It foi para quando ela trouxe Sebastian à tira colo da Alemanha, Why’d You Only Call Me When You’re High foi para a fase friendzone alcoólico-chapada, I Wanna Be Yours foi para quando ela e Sebastian romperam e voltamos a nos aproximar, e a mais atual, R U Mine, foi pra quando eu desisti de ser apenas um amigo e resolvi que a teria para mim, ou seja, o que aconteceria no show desta noite.
  “Você tem mesmo certeza de que quer fazer isso, não tem?” - me perguntara, e, pela terceira vez consecutiva, eu respondera que sim.
  “Ela está sozinha essa noite. Disse que teve que fazer uma viagem de última hora e não pôde acompanhá-la” – apontou para um ponto atrás de si e eu limitei-me a assentir, respirando fundo.
  A primeira música que tocaríamos seria Do I Wanna Now, e eu toquei e cantei de olhos abertos, até o refrão, quando encontrei seus olhos e cantei olhando no fundo deles. Fora assim com Why’d You Only Call Me When You’re High, Snap Out Of It e I Wanna Be Yours, mas, quando fora a vez de R U Mine, cantei olhando apenas para ela, esperando que ela entendesse o que estava tentando lhe dizer há anos.
  Quando o show enfim acabou, agradecemos ao público e fomos até o nosso camarim, onde me joguei no sofá ao lado de , percebendo-a mais confusa do que o normal, ainda assim, deitei-me e coloquei minha cabeça em suas coxas enquanto recuperava o fôlego e subia a manga do blazer.
  - Sim, foi pra você. Todas foram, na verdade. – Murmurei, percebendo que todos pararam e entreolharam-se, começando a dar desculpas esfarrapadas e saírem do cômodo.
  - Tudo o que você me disse ali é verdade? – Assenti lentamente e ela me imitou. – O que faremos agora? – Diferente do tom que essa pergunta exige, não me parecia nem um pouco assustada ou preocupada.
  - O que você quiser está bom. – Sentei-me ao seu lado. - Se decidir que vamos continuar sendo amigos, por mim está tudo bem.
  - Eu quero saber o que você quer, . Chega de me deixar decidir tudo, é por minha causa que você nunca se deixou amar por outra pessoa, por causa da minha idiotice. – Segurei sua mão e tentei não demonstrar minha surpresa.
  - Não quero te obrigar a nada, , se eu te amo tanto quanto digo, mesmo que não fiquemos juntos, eu estarei feliz. – Abracei-a e ela sentou em meu colo.
  - Que graça a vida teria se não tentássemos? – Seus dedos enrolavam meus fios negros e havia um sorriso diferente em seu rosto.
  - Você está me dando uma chance?
  - Aproveite-a bem, , ou eu vou correr pros braços de algum californiano bom de cama. – Bati continência e beijei aqueles lábios rosados, que ainda continham o mesmo gosto de morango de anos atrás.
  - Vou me certificar que o único bom de cama para quem você vai correr seja eu. – Seus braços enlaçaram meu pescoço e beijei seu pescoço demoradamente, ouvindo-a arfar.
  - Que tal começar agora? – Refleti seu sorriso sacana e ataquei seu único ponto fraco descoberto, mais conhecido como pescoço.
  Nossa noite não acabou ali, ainda usufruímos muito das superfícies planas – e nem tão planas – espelhadas por todo o camarim, saindo dali apenas algumas horas mais tarde, encontrando nossos amigos dormindo em pé ou sentados em seus carros, mas, ainda assim, felizes por meu plano ter dado certo.
  - Sabe, , até que você se saiu bem pra quem tá chegando aos trinta.
  - Obrigado pela parte que me toca, , agradeço muito. – Bati em seu ombro e gargalhamos todos.
  - O que acha de ver a nova planta que estou desenhando? – Entendi como um “vamos pro meu escritório” e adentrei seu carro, após me despedir dos caras.
  - Acredito que você deve ter dando tudo de si nela. – Pousei minha mão em sua coxa quando paramos em um sinal e ela sorriu de lado.
  - Pode acreditar que sim.
  Talvez não durássemos nem até o próximo verão, mas, assim como toda história, a nossa teria um começo, meio e fim. Fim esse que eu tardaria ao máximo a chegada. Poderia não ser agora, nem daqui a dez anos, mas um dia ele chegaria, disso tenho certeza. Mas, enquanto isso, eu tenho uma promessa ainda a cumprir com certa amante de californianos bons de cama.

FIM



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