
Pecados Mortais - Preguiça
Escrito por Fe Camilo | Revisado por Natashia Kitamura
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“Laziness is nothing more than the habit of resting before you get tired”.
- Jules Renard
Me desculpe, Pai, eu pequei. Meu nome é e essa é a confissão que não pude fazer em vida.
Todo mundo tem um dia em que acorda com vontade de fazer absolutamente nada e somente relaxar o dia todo como se não houvesse nada mais importante do que estar deitada na sua cama, de preferência comendo algo gostoso e assistindo sua série favorita. Acontece que para mim essa vontade se repetia todos os dias.
Eu sempre fui assim, ou ao menos desde que me entendo por gente. Costumava ser uma criança que assistia TV o dia todo, se pudesse. Minha atividade preferida era sempre a que pudesse fazer sentada ou deitada, sem precisar me mover muito. Amigos? Não tinha energia para preservá-los. Estudos? Não me importava o suficiente com nenhum assunto que valesse à pena estudar. E, sendo bem honesta, até mesmo tomar banho e comer eram tarefas que demandavam mais força de vontade do que estava acostumada a ter.
Meus pais não se importavam, ou ao menos não o suficiente para me forçar a ser fisicamente mais ativa. Minha mãe achava que era melhor assim, pois não corria risco brincando nas ruas como minha irmã mais velha, . Meu pai, sendo bem parecido comigo, não tinha energia e vontade o suficiente para corrigir minha atitude desleixada.
Passei a adolescência no mesmo marasmo de falta de vontade para me comprometer a qualquer coisa ou pessoa. Meus amigos da escola – os quais eu via exclusivamente por lá – tentaram de todas as formas me convencer a ir em festas e participar de atividades “normais de adolescente”, mas eu duvidava que qualquer uma dessas ações seria tão divertida quanto maratonar The Big Bang Theory novamente. Por sorte, consegui finalizar o ensino médio mesmo com inúmeras faltas no currículo, e é claro que não tinha a menor vontade de dedicar meu tempo a uma faculdade.
E foi então que após o que chamei de meus dois anos sabáticos, minha mãe se cansou da minha atitude – ou falta dela – e decidiu que eu deveria ir morar com minha irmã mais velha e ajudá-la com sua Startup. Minha irmã até que era legal o suficiente para me deixar dormir até mais tarde e começar a trabalhar somente no período da tarde, e permitia que eu escolhesse entre as tarefas do dia quais me pareciam mais “interessantes”. Era um arranjo muito bom, ao menos o melhor que eu teria nessa minha vida de preguiça incessante.
Talvez você esteja se perguntando se eu me sentia mal por viver dessa maneira atípica, mas sendo bem honesta, a resposta é: não. Sempre acreditei que o livre arbítrio servia exatamente para que cada um pudesse escolher como melhor viver sua própria vida. Algumas pessoas passam a vida trabalhando como um camelo, outras gostam de beber e se drogar em festas até seu fígado pedir socorro, e eu gostava de relaxar e me entreter com coisas que me faziam bem.
O problema é que às vezes algo que parece perfeitamente natural para nós, quase como parte da nossa natureza, é completamente diferente para outras pessoas com as quais precisamos conviver, e aí a confusão começa. Como mencionei, minha irmã costumava respeitar meus hábitos e me deixar em paz para viver como eu achava melhor, somente sendo um pouco mais exigente quando precisava da minha ajuda com algo urgente.
Algo que talvez as pessoas mais ativas não saibam, é que preguiça também vem em diferentes níveis, assim como motivação e força de vontade. Alguns dias eu tinha um pouco menos de preguiça, enquanto outros eu preferia que o mundo esquecesse que eu existia para que eu pudesse exercer minha habilidade de absoluta paz e passividade sem nenhum incômodo.
Acontece que um dia, duas situações inversas se colidiram e foi aí que minha vida regada à paz de espírito e relaxamento quase absoluto teve fim. estava em um de seus dias frenéticos com diversas demandas urgentes a serem resolvidas, e acordou com a energia incessante de costume que a permitia fazer tudo e mais um pouco. Ela deve ter me acordado por volta de oito horas da manhã, algo completamente incomum, gritando no meu ouvido para que eu me levantasse e escolhesse duas tarefas para serem feitas ainda pela manhã. Minha irmã querida também quebrou outro mandamento sagrado da minha existência ao decidir por mim uma tarefa para a qual não estava preparada, principalmente às oito da manhã: retirar o bolo do forno em trinta minutos.
Concordei com suas demandas mais para fazê-la calar a boca e me deixar em paz de vez, do que porque realmente estava ouvindo e concordando com o que ela dizia. Ouvi a porta da sala batendo e soube que ela já havia saído, então voltei a fechar meus olhos e me esconder debaixo das cobertas. É claro que, para minha infelicidade, o sono gostoso em que estava já havia sido interrompido e eu precisava do clima perfeito para retornar a ele. Peguei meu celular e entrei no iFood pedindo por um croissant e um copo de chocolate quente na padaria da esquina. Em seguida, liguei a TV e coloquei em um episódio aleatória de Friends, a série perfeita para me ajudar a dormir.
Em menos de dez minutos ouvi a campainha tocar anunciando a chegada do meu café da manhã e me forcei a sair da cama para buscar o pedido rapidamente antes de voltar para meu quarto e fechar a porta, me jogando na cama e comendo felizmente meu croissant enquanto assistia. Assim que minha barriga estava cheia e o calor do chocolate quente se alastrou pelo meu corpo, eu sabia que não demoraria muito para que eu caísse no sono novamente.
Deitei-me na cama me cobrindo com a coberta até o nariz para afastar o cheiro estranho que estava sentindo, muito provavelmente vindo do apartamento do vizinho. Apenas meus olhos permaneciam visíveis e atentos à televisão, mas em poucos minutos o mundo dos sonhos me recuperara novamente.
Por volta de uma hora depois minha irmã voltaria e encontraria os bombeiros, paramédicos e carros de polícia parados em frente ao prédio, e logo descobriria que sua irmã mais nova havia morrido asfixiada pela fumaça que se apossava de toda a casa enquanto ela dormia, o bolo torrado ainda jazia no forno.
É, acredito ser evidente que minhas escolhas preguiçosas me levaram à uma morte prematura, e que muitas pessoas veriam isso como uma tragédia horrível e uma das piores formas de morrer. Mas quer saber? Eu estava deitada em minha cama, dormindo confortavelmente e de barriga cheia, embalada pelo som dos meus personagens favoritos falando na televisão. Creio que há maneiras piores de deixar o mundo. Ao menos eu me fui fazendo exatamente o que queria.

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