Pecados Mortais - Luxúria

Escrito por Fe Camilo | Revisado por Natashia Kitamura

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“The biggest mistake is trading love for lust.”
- Joe Cervantes

  Me desculpe, Pai, eu pequei e não há um dia que não me arrependa amargamente disso. Meu nome é Berry e essa é a minha confissão.

  Eu e Mathew nos conhecemos no jardim de infância e imediatamente viramos melhores amigos. Havia algo exclusivamente nele que combinava perfeitamente com algo unicamente meu, embora tenhamos demorado para entender exatamente o que nos causava tanta sinergia. Passamos todos os desafios da infância, exploramos todas as brincadeiras, aprendemos das palavras mais simples até as mais complexas juntos, e ensinamos um ao outro tudo que aprendíamos.
  Eu adorava dizer que ele era meu rato de laboratório preferido, pois qualquer bizarrice que eu inventasse de fazer, ele toparia e seria minha cobaia perfeita. Ele precisou sobreviver à minha fase “futura chefe de cozinha” e necessitou ter muita paz de espírito quando decidi que seria uma maquiadora profissional. Todos sempre se surpreendiam e admiravam nossa amizade, mas o que causava ainda mais choque era o fato de que não havia nenhum romance embutido a ela. Éramos simplesmente almas gêmeas.
  Me lembro claramente de quando, na pré-adolescência, decidimos acampar no jardim da minha casa. Passamos a maior parte da noite em claro, conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo, e mais queimando do que dourando os marshmallows que devorávamos. Ele me disse que havia lido um livro sobre espiritismo e coisas do tipo, e me explicou sobre essa teoria de que as pessoas que são muito significativas em nossas vidas já estiveram nela antes, e que quando há uma conexão extrema ela se perdura por muitas outras vidas, e nada pode impedir que essas almas se reencontrem. Naquele dia nós dois concordamos que só poderia ser isso: nossa amizade transcendia os séculos e a própria morte.

  É claro que tínhamos outros amigos também, principalmente quando – no Ensino Médio – ele se transferiu para uma outra escola onde poderia fazer parte de programas de arte. Eu passei a fazer parte de um novo grupo de amigos, mais populares e festeiros, enquanto ele pôde encontrar amigos que gostavam tanto de discutir poesia quanto ele. Acredito que uma das maiores tristezas da vida dele era o fato de que eu detestava ler, e apesar de ser forçada a ler um ou outro livro que ele gostava muito, simplesmente não conseguia ter o mesmo entusiasmo que ele tinha pelas palavras. Mas isso não me fazia ter menos vontade de ouvi-lo falar encantadoramente sobre todas as suas reflexões por horas a fio.

  No último ano do colégio já não conseguíamos nos ver com tanta frequência, mas isso não impedia que nos falássemos todos os dias. Algumas vezes era surpreendida por uma carta que ele deixava na caixa de correios no caminho para o curso pré-vestibular, e outras eu o surpreendia no fim das aulas para caminharmos juntos até sua casa. Esses eram nossos momentos necessários, quando sentíamos tanta falta um do outro que precisávamos encontrar alguma forma de simplesmente estar por perto.

  Foi quando tivemos de decidir para qual Universidade ir e o que fazer, que a dúvida pairou sobre nós. A melhor escolha para a carreira dele não era a melhor para minha, o que impedia que fossemos para o mesmo lugar como havíamos sonhado desde que éramos crianças. Havia o medo da distância, mas também a certeza de que nada seria tão bom se não estivéssemos vivenciando juntos. E foi assim que decidimos embarcar em nossa própria aventura: ir morar em outro país, onde poderíamos estudar na mesma Universidade e dividir o mesmo apartamento.
  Nós tínhamos plena ciência de que não seria nada fácil, porém sabíamos que daria um jeito. E como sempre fizemos com a mesma naturalidade que respiramos, ajudamos um ao outro em absolutamente cada passo do caminho, dividindo os fardos e desafios, bem como as novidades e alegrias. Alguns meses depois de estarmos adaptados a nossa rotina uma pergunta pairou no ar após a visita de nossos pais: “já estão namorando? Ou ainda estão fingindo que são só melhores amigos?”.
  A pergunta pareceu mais uma provocação por parte da mãe dele, embora fosse entusiasticamente encorajada por meus pais, porém quando meu olhar se encontrou com o dele em um misto de surpresa e confusão, ambos sentimos a sementinha se plantando em nossos corações. Algumas semanas depois fomos à uma festa de fraternidade e eu estava decidida a tirar de vez aquela pulga que havia ficado atrás da orelha, tomei a iniciativa e o beijei.
  Há algo que não dizem sobre o amor: ele é extremamente silencioso. Não faz alarde como a paixão, chutando a porta e exigindo passagem. Amor é mais como uma brisa de outono, que entra sorrateiramente pela fresta da porta e - ainda que você não perceba imediatamente – logo se encontra enredado nas sensações que ela carrega. Quando beijei Mathew, essa foi exatamente a sensação, meus pelos se arrepiaram como se uma brisa passasse por mim, e eu tremi em seus braços, ansiando por seu calor.
  Parece até engraçado que precisamos de tantos anos para nos dar conta de que o que tínhamos não precisava ser somente uma amizade, podíamos ser muito mais, aliás podíamos ser tudo um para o outro, como talvez já tivéssemos sidos predestinados a ser. Aquele beijo despertou algo que parecia estar adormecido em nós, e naquela mesma noite entregamos nossos corpos completamente um ao outro. Foi nossa primeira vez, e como de costume, ambos aprendemos e ensinamos tudo que precisávamos saber juntos.
  Nos tornamos o “casal modelo” entre nossos amigos, e todos faziam questão de falar que não aceitariam menos do que encontrar alguém com quem tivessem a mesma relação que eu e Mathew dividíamos. Terminamos nossas respectivas faculdades, mas decidimos continuar morando juntos, e somente depois de dedicarmos um tempo para nossas carreiras decidimos nos casar de fato. Falta de incentivo e indiretas constantes dos nossos pais e amigos não foi, mas não sentíamos pressa alguma em fazer algo tão protocolar quando já sabíamos exatamente o que éramos e o que tínhamos, e não precisávamos provar nada para ninguém.

  Três anos depois do casamento, nosso trigésimo aniversário foi marcado por muitas coisas: estava lançando seu segundo livro e estava conquistando as graças do público depois do primeiro ter se tornado um best seller. Eu estava prestes a finalizar a compra de metade das ações de uma agência de publicidade e tudo se encaminhava exatamente como havíamos planejado para que em breve iniciássemos a tentativa de ter nosso primeiro filho. A única coisa não prevista era que aquele ano também marcaria a sucessão de erros que destruiria todos os nossos sonhos.
  No dia em que teria meu primeiro dia oficial como sócia da agência Dreamz, estava viajando para promover seu livro em Londres, mas recebi sua mensagem carinhosa pela manhã me desejando boa sorte. Aquele foi o dia em que conheci o homem que faria minha vida virar de cabeça para baixo: . Ainda hoje, mesmo depois de conhecer seu corpo como a palma da minha mão, me faltam adjetivos para descrevê-lo.
  Assim que o vi pela primeira vez, senti algo que nunca havia sentido antes, uma sensação que ainda não sabia nomear. Tudo nele, desde seu terno caro ao sorriso pretensioso, eram como um convite para a perdição. Um magnetismo inexplicável ameaçava ultrapassar a superfície e destruir meu autocontrole, e quando ficamos sozinhos na enorme sala que dividiríamos, a tensão era evidente no ar. não fez questão de esconder sua atração por mim, aproveitando cada momento possível para procurar meu olhar e observar meus gestos quando estava longe, ou me tocar sutilmente e flertar sem restrições quando estávamos próximos.
  Ele não era particularmente inteligente ou interessante, e sua personalidade não era das mais tragáveis também, ainda assim era lindo como uma pintura. Cada traço do seu rosto e corpo pareciam milimetricamente esculpidos e – ao olhar para ele – era difícil não concluir que Deus tem seus preferidos.

  As primeiras semanas de adaptação ao ambiente foram suavizadas por sua presença constante, aproveitando todas as oportunidades para estar por perto e me fazer notá-lo constantemente. No início não foi tão difícil ignorar a vontade involuntária de passar a mão por seus cabelos ou me aproximar um pouco mais para sentir seu perfume caro intoxicando o ambiente. Mas a cada novo sorriso que ele me direcionava, e todas as vezes que ele chegava um pouco mais perto do que seria prudente, eu sentia um calor crescente dominar meu corpo.
  O primeiro indício de que eu estava perdida foi quando tive um sonho erótico com , e desde então não pude mais apagar as imagens vividas que tinha de seus toques e beijos por todo meu corpo. O segundo indício foi quando passamos a noite em um happy hour com alguns membros da equipe e flertamos a tal ponto que precisei me forçar a ir embora antes que bebesse mais e minha capacidade de controlar o impulso que me mandava agarrá-lo ali mesmo se esvaísse. Naquele dia eu e Mathew transamos como nunca, com um desespero sôfrego da minha parte que tornara o ato mais selvagem, e durante todo o tempo a imagem de não saía da minha cabeça.
  Algumas pessoas acreditam que somente de pensar em uma outra pessoa a traição já se concretiza, e o que eu daria para que aquelas ideias tivessem permanecido apenas em pensamento. Em pouco mais de dois meses já não podia resistir à vontade visceral que dominava cada partícula do meu corpo. Todas as vezes que via era como se uma chama se acendesse dentro de mim e minhas pernas imediatamente se uniam em agonia. Eu dormia pensando em como seria seu gosto, sonhava com sua língua tocando a minha parte mais íntima e acordava frustrada todas as manhãs, com uma insatisfação crescente que não se dissipava não importando o que eu fizesse.
  Quando Mathew me tocava ou quando fazíamos amor, a culpa parecia dobrar ainda mais, pois mesmo sendo tão bom como sempre havia sido, parecia que algo faltava. Meu corpo parecia clamar por algo que ele jamais poderia me dar. E foi então que eu cedi. Ali mesmo, no nosso escritório, enquanto os outros funcionários trabalhavam como se fosse mais um dia qualquer, me entreguei ao desejo que dominava meu cérebro por completo e deixei que fizesse o que quisesse comigo. E a bem da verdade, ele permitiu que eu fizesse o mesmo. Aquele ato foi o início de um caminho sem volta, o trajeto para um beco sem saída.

  Uma parte de mim precisava acreditar que era só disso que eu precisava, uma única vez para desintoxicar meu sistema e poder voltar à minha rotina pacata e sem grandes surpresas. Mas Deus, como eu estava errada! era como uma droga das mais viciantes, e um gosto era o suficiente para que eu quisesse mais, e o mais irônico era que eu parecia ter o mesmo efeito sobre ele. A princípio nosso desejo era contido por nossos encontros matinais na sala que dividíamos, porém o tempo nos fez mais gananciosos e desmedidos.
  Eu passei a frequentar seu apartamento após o trabalho com a desculpa de trabalhar algumas horas extras. De repente os finais de semana eram também dedicados ao “trabalho”, e então viagens constantes, e era como se eu e Mathew não nos víssemos mais mesmo que dividindo o mesmo teto. Eu deveria me preocupar e deixar que a culpa me consumisse até que meu cérebro acordasse para vida e percebesse a merda que estava fazendo, mas a verdade é que errar nunca foi tão bom.
  Era surreal como o corpo de se encaixava perfeitamente ao meu e como todos os nossos desejos se encontravam no meio do caminho, todas as restrições eram jogadas no lixo e nos entregávamos as nossas fantasias de corpo e alma. Algumas vezes me recordava do que Mathew havia me dito quando éramos crianças e justificava meus atos no preceito de que provavelmente fora alguém tão importante em outras vidas quanto meu marido, pois somente isso poderia explicar a chama que nos conectava tão intensamente.
  O nosso “caso” durou pouco mais de um ano até que decidiu acabar com o que tínhamos. Estava prestes a se casar e formar uma família, e gostaria de focar nessa nova fase da vida, pois segundo ele, “já havia passado da fase de pensar somente em si mesmo”. Suas palavras foram como um balde de gelo e quando ele me ofereceu a sua parte da sociedade, não tive outra opção senão aceitar. Mathew imediatamente notou a nova mudança em mim, voltando para casa muito mais cedo do que fizera nos últimos meses e me forçando a passar mais tempo com ele para tentar remendar o que tínhamos e cobrir o buraco que crescera no meu coração.
  Eu não amava , disso tinha certeza. No entanto, havia me acostumado demais com as sensações que ele causava em mim, e como uma viciada em abstinência, sua ausência me fazia sentir fria por dentro e por fora. Mathew não me questionou, e – como de costume – segurou a minha mão e me cobriu com seu carinho e amor até que a sensação de vazio que eu carregava fosse embora. Porém, quando finalmente me vi livre da vontade de ter novamente, uma nova emoção tomou conta de mim: a culpa.
  Tentei apagar da minha memória tudo que havia feito, todas as mentiras e enganações e seguir como se nada tivesse acontecido, porém, quando Mathew trouxe à tona a vontade de iniciarmos nossa família e termos um filho, não pude conter a necessidade de confessar meu erro, confidenciar a verdade ao meu melhor amigo por pior que fosse, como sempre fizera no passado. Eu sabia que não merecia seu perdão, e ainda assim desejei com todas as minhas forças que ele me abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem.
  Jamais vou esquecer a dor em seus olhos, como se eu tivesse arrancado uma parte do seu coração. Ele não quis ouvir explicações ou perguntar detalhes, simplesmente começou a arrumar suas coisas e por mais que eu tentasse conversar e pedir desculpas, ele sequer conseguia olhar na minha cara. “Mas nós somos almas gêmeas, lembra? Nos encontramos porque assim era para ser”, tentei argumentar da maneira mais tosca possível, apelando para o que um dia tivemos e destruí. Mathew me olhou como se estivesse vendo uma pessoa que não mais reconhecia, era evidente a dor e raiva que sentia, e jamais vou me esquecer das últimas palavras que ele disse antes de ir embora da minha vida: “Acho que eu entendi errado, no fim das contas. Algumas pessoas voltam para nos ensinar algo que custamos a aprender. Dessa vez acho que aprendi a lição”.

FIM



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