
Pecados Mortais - Inveja
Escrito por Fe Camilo | Revisado por Natashia Kitamura
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“Envy blinds men and makes it impossible for them to think clearly”.
- Malcolm X
Me desculpe, Pai, eu pequei. Eu sou , e essa é a minha confissão. Mas vou começar pelo início.
Você já parou para pensar que a nossa vida pode mudar drasticamente da noite para o dia? Que pequenas e simples rotas que por vezes decidimos tomar podem nos levar aos lugares mais inimagináveis e desencadear situações surpreendentes? Você já teve a sensação de estar preso em algum lugar sem conseguir se mover e mudar de posição simplesmente porque tem alguém logo à sua frente bloqueando completamente o caminho? Eu já.
Eu nasci em uma família com boas condições, o que me permitiu ter uma vida sem grandes desafios. Mas não nasci sozinho, tendo como companhia meu irmão gêmeo . Nós crescemos unidos e tínhamos basicamente os mesmos gostos, fosse para esportes, comidas ou até mesmo garotas. Ainda assim, sempre éramos separados por um muro invisível no qual ele estava sempre no topo e eu assistia lá de baixo, aguardando pela minha vez.
é o que a maioria das pessoas descreveria como o cara perfeito: bonito, com um corpo malhado, sorriso leve e fácil, além de uma personalidade marcante e humor contagiante. Somos gêmeos idênticos, então é claro que eu tenho as mesmas características físicas dele, mas o que nos separa é o fato de que, embora eu não seja um desses párias antissociais, me custava ter a mesma desenvoltura e charme de , a menos que me forçasse a isso.
Sendo assim, ele sempre estava à frente. Era o líder do time de futebol americano no colégio, conseguiu destaque para bolsa de estudos na faculdade em primeiro lugar – eu tive de me contentar com o segundo – e sempre podia escolher qualquer garota com quem quisesse ficar a dedo, não tendo qualquer problema em conquistar quem quisesse. E, é claro, havia meus pais que, apesar de afirmarem veemente amar ambos igualmente, claramente têm seu favorito. Spoiler alert: não sou eu.
Passei tantos anos da minha vida à sombra do meu irmão que, apesar de estar acostumado e calejado com a situação, cheguei à conclusão de que sua função no mundo era impedir que eu conseguisse tudo que eu queria. Por mais que me esforçasse e conquistasse meus objetivos ele sempre ou era o primeiro a fazê-lo ou o fazia muito melhor do que eu. Às vezes me pegava imaginando como seria minha vida se ele nunca tivesse nascido e eu fosse filho único; certamente tudo que agora pertencia a ele seria meu.
O problema da imaginação é que ela pode te consumir como uma erva daninha, e te fazer desejar que ela pudesse se tornar realidade. E quando percebi que essa vontade de ter a vida que pertencia ao meu irmão se tornou quase uma obsessão, decidi me afastar, pedindo transferência no meu emprego para outro país. Três anos se passaram e eu havia enterrado aquele desejo bizarro no fundo do meu ser, jamais sendo capaz de revelá-lo para alguém. Estava me acostumando com a síndrome de impostor que eu sabia me acompanharia pelo resto da vida, vivia uma vida que não parecia ser a minha, e havia me resignado a isso. Ou ao menos era o que eu achava.
Após três anos mantendo apenas contato mínimo com minha família e tentando evitar a todo custo estar por dentro do que acontecia na vida do meu irmão, recebi o convite para sua festa de noivado. A primeira reação que tive foi uma irritação súbita por me dar conta de que – novamente – ele alcançava um outro patamar na vida enquanto eu sequer tinha uma namorada. Em seguida, pensei que deveria recusar o convite e me manter afastado. Porém uma voz insistente no fundo da minha cabeça insistia em fazer questionamentos como “e se ela nem for tão bonita assim?”, “e se ela for completamente chata e irritante?”, e eu me pegava pensando se isso aliviaria a dor de estar sempre atrás na corrida. Talvez eu precisasse ver que ele não estava tão bem quanto eu imaginava, e isso poderia me trazer a paz de espírito que procurava desde que me entendia por gente.
Consegui coincidir as férias do meu trabalho com a festa de noivado e – com a esperança de pela primeira vez na vida não me sentir mal por ser eu e não ele – peguei o avião de volta para casa. Meus pais me receberam com todo o carinho de quem não via um filho há anos, e foi bom ser tratado como uma vez na vida, com mimos e palavras doces da minha mãe, além daquelas de encorajamento do meu pai. É claro que, como tudo que é bom dura pouco, não demorou para que meu irmão chegasse e eu fosse imediatamente esquecido, afinal, aquela semana era toda sobre ele e sua amada.
Eu estava ansioso para conhecê-la, principalmente depois dos elogios que havia ouvido de minha mãe, a qual sempre foi ciumenta em relação às garotas que meu irmão namorava. Seu nome é e, segundo os relatos do meu irmão, ela era linda, inteligente e uma neurocirurgiã promissora. Nem preciso dizer que minha esperança de que ela não fosse a imagem da perfeição foi se dissolvendo mais a cada minuto. Mas ainda que meu irmão não parasse de falar sobre como era o homem mais sortudo do mundo e meus pais aproveitassem cada momento para reafirmar suas palavras, nada poderia ter me preparado para o impacto que tive quando a vi.
era literalmente a mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. E para piorar, tinha um daqueles sorrisos sinceros e aconchegantes que fazem você se sentir confortável e acolhido. Eu tive vontade de agarrá-la naquele mesmo instante e implorar para que ela esquecesse meu irmão e se casasse comigo, mas bastava um olhar e era evidente o amor que tinham, os olhos dela brilhavam todas as vezes que ela o via e seu sorriso se tornava ainda mais bonito, se é que isso é possível. Naquele momento, esqueci qualquer outra coisa que meu irmão tenha conseguido e que tenha me feito sentir inveja, nada superava o sentimento que apertava meu peito naquele instante.
Eu nunca havia desejado tanto ser ele. O sentimento era tão sufocante que precisei sair de casa, pegar meu carro e dirigir atordoado pela cidade sem saber para onde. Passei por todos os lugares que dividimos na infância e me lembrei de todas as vezes que ele havia me superado, todos os momentos que desejei com todas as minhas forças poder trocar de lugar com ele como se por mágica. Dirigi tão sem destino que quando notei já estava na divisa da cidade, e parei por ali mesmo, estacionando para colocar meus pensamentos em ordem.
Avistei um bar velho de beira de estrada e adentrei sem pensar duas vezes, pedindo pelo que tinham de mais forte. Desejava engolir toda a mágoa e ressentimento que sentia na bebida, quem sabe assim lavava também a amargura de ser alguém que não queria. Ouvi as ligações insistentes dos meus pais e irmão no meu celular, mas preferi ignorá-las enquanto continuava bebendo como se não houvesse amanhã. Talvez não houvesse. Quem sabe estar ali era um lembrete de como minha vida era inútil e vazia, e tudo que eu precisava era fazer um favor a mim mesmo e deixar de existir.
Quando mal aguentava levantar um copo o garçom atendeu o celular por mim e deu o endereço de onde estava. Devo ter cochilado na mesa do bar, pois somente voltei a ter consciência de onde estava quando senti as mãos do meu irmão me levantando com dificuldade e me arrastando para o carro. Ele parecia bravo e preocupado ao mesmo tempo, e falava coisas que deveriam ser alguma lição de moral, mas não conseguia registrar suas palavras. Olhei para ele por baixo dos olhos embaçados e avermelhados, observando a mesma feição que via todos os dias no espelho. Ainda assim, não éramos iguais. Ele era feliz, e essa felicidade refletia em seu olhar e o deixava ainda mais bonito, eu era como seu reflexo vazio e barato.
Desviei o olhar para frente me deparando com a luz forte de um caminhão vindo na direção contrária, e em um ato de impulso levei a mão ao volante, o forçando para o lado esquerdo e fazendo com que o carro colidisse com o caminhão e capotasse para fora da estrada, caindo barranco abaixo até o lago que havia lá embaixo. Olhei para o lado que estava desacordado e sangue escorria por sua testa.
Eu deveria ter sentido pânico ou prestado atenção se havia alguma parte do meu corpo que estivesse machucada, mas a verdade é que eu não conseguia sentir absolutamente nada: física ou mentalmente. Assim que notei o carro começando a afundar pelo lago me debrucei sobre meu irmão e retirei o cinto que o segurava, o puxando comigo para fora do carro e nadando com dificuldade até a margem. Primeiro o empurrei borda acima, me certificando de que ele estava seguro antes de me esforçar para acompanhá-lo.
Ficamos ali por algum tempo enquanto eu recuperava meu fôlego e minha energia, a bebida parecendo subitamente ter desaparecido do meu organismo, muito provavelmente pela adrenalina da situação. Tomando coragem me debrucei novamente sobre o corpo do meu irmão, verificando sua pulsação: não havia nenhuma. Senti as lágrimas caírem por meus olhos e meu coração pulsar mais forte no peito, por um segundo pensei ser a dor da perda, mas logo compreendi que a sensação era de alívio.
Franzi a testa olhando o corpo do meu irmão morto e procurei em meu âmago a tristeza que certamente deveria sentir, mas ao invés disso um desejo alarmante ocupava meu coração. Rapidamente comecei a retirar a roupa que ele vestia e em seguida fiz o mesmo com as minhas próprias, o vestindo com as minhas e colocando as dele. Em seguida, um sorriso se apossou dos meus lábios ao encontrar o anel de noivado em sua mão e rapidamente o peguei e coloquei confiante na minha mão direita.
Ouvi as sirenes se aproximando e me joguei sobre o chão novamente, pegando um pedaço grande de pedra que havia por perto e batendo com força em minha testa sentindo uma vertigem instantânea. Me deitei ao lado do meu irmão e deixei que o sono me consumisse enquanto tentava controlar o sorriso feliz que forçava caminho para meus lábios: eu finalmente conseguira! Eu teria a vida que sempre sonhara, mas nunca pude ter.

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