Paramour

Escrito por Bruna Avelino | Revisado por Natashia Kitamura

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“É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.”

  - Mana, que bom que você chegou! – exclamou Hayley assim que abriu a porta, encontrando uma moça alta atrapalhada pela quantidade de malas que carregava. Pelo que pode contar, brevemente, eram quatro: uma mochila vermelha nos ombros, uma mala rosa de rodinha enorme, uma mini mala em cima da malona rosa e uma nécessaire preta no pulso. Oh, sim, e a bolsa branca que ela carregava num dos ombros, sob a mochila.
   Willians tinha créditos quanto à quantidade de malas que carregava. Afinal, estava voltando de uma viagem longa, muito longa. Duração, seis anos. Finalmente estava voltando do Canadá, onde fizera os cursos da faculdade de línguas e francês, para sua cidade, Franklin, Tennessee (EUA). Não era sua cidade natal, mas toda sua vida estava lá. Era lá que vivera desde a adolescência, considerados os melhores anos de sua vida. Onde tinha seus amigos e toda sua família.
  - Que saudade! – respondeu a moça, largando as malas na porta da casa dos pais e jogando-se nos braços da irmã mais nova.
  Ficaram abraçadas durante um tempo, só matando a saudade. Depois, Hayley ajudou a irmã a entrar na casa com as malas. Despejaram tudo ao lado do sofá da sala e sentaram-se lado a lado no móvel. Conversaram durante muitos minutos. Besteiras, coisas que faziam quando crianças, lembranças, as mudanças ocorridas desde a saída de , enfim, tudo.
  - Uma banda? – desconheceu a informação – Por que você não me contou antes? – inquiriu um pouquinho magoada, .
  - Foi só uma jogada de sorte – Hay deu de ombros – Amigos de faculdade desocupados que se juntam para fazer música e ver no que dará. – justificou, sorrindo – Desculpe não te contar, fiquei com medo de mamãe descobrir. E, além disso, nem tem tanto tempo. – deu de ombros novamente.
  Louise Willians, mãe das duas jovens sentadas no sofá, não gostava nada de músicos. Aliás, não eram só os músicos que tinham o privilégio de ser repelidos pela senhora, mas sim todos os trabalhos considerados por elas de “pessoas desocupadas”. Músicos, pintores, escritores, atrizes, modelos eram considerados por ela trabalhos sem futuro e sem renda fixa. Ou seja, não poderiam ser de nenhuma forma adotados pelas filhas dela. Para Louise só medicina, advocacia e engenharia eram considerados empregos.
  Uma filha cantora, então, seria um padecimento para ela. deu um sorriso triste para a irmã. Hayley cantava tão bem! Desde pequenina pegava a escova de cabelo e cantarolava tão alto nos banhos que todos da casa escutavam e sorriam. A voz dela era tão linda, um tremendo desperdício de talento.
  - Tudo bem – sorriu – Eu quero vê-los tocar, quero ver se seus companheiros são tão bons no que fazem quanto ti! – a irmã riu – Não ligue para mamãe, ok? Se cantar for seu sonho, corra atrás, eu estarei aqui para tudo que precisar – aconselhou, acariciando o braço da irmã e em seguida lhe dando um abraço. ainda não havia desistido de um pequeno sonho também.

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  Hayley tocou a campainha impaciente, pela quarta vez. Bufou, no mínimo os garotos estariam escutando música tão alto que nem ouviam a campainha. Olhou para a irmã com um rosto entediado, já pegando o celular no bolso da calça jeans skinny.
  Havia decidido trazer a irmã para conhecer os meninos somente porque havia insistido muito. Hayley havia ficado maravilhada com a irmã, ela estava tão linda! Os cabelos loiros estavam caindo em cachos pelo rosto e pelas costas da garota. O rosto, que havia saído seis anos atrás cheio de cravos e espinhas, estava lindo, sem nenhuma marca. Claro que havia maquiagem, mas, ainda sim, estava lindo. Alta, o corpo no lugar, sem uma gordurinha sequer a mais. O vestido floral tomara-que-caia até a metade das coxas deixava toda sua beleza ainda mais acentuada. Hayley se perguntava se ela não sentia frio com a falta de pano.
  Digitou os números já conhecidos de e esperou a chamada ser completada. Assim que a mesma foi atendida, ela exclamou “Estou aqui embaixo, venha abrir” Quarenta segundos depois a porta estava sendo aberta.
  - Entra Hay. – falou , sem se dar conta de que a amiga tinha uma acompanhante. Estava somente de calça, com metade da cueca branca aparecendo. Cumprimentou Hayley, com um abraço de urso.
  - Oi, - disse, se soltando dele com dificuldade – Essa aqui é a , minha irmã. – apresentou a irmã, que deu um tchauzinho com a mão, um tanto tímida.
  - Olá, tudo bem? – perguntou ele, recebendo um sim com a cabeça – Prazer – exclamou, cumprimentando-a com dois beijos na bochecha.
  Sem dúvidas ele era bem bonito. O abdômen definido, o cabelo desarrumado, os olhos brilhantes. sorriu, havia gostado do garoto. Eles ficaram se encarando, um analisando o outro, escondendo os sorrisos que queriam brotar nos lábios.
  - Bom, vamos subir? – Hayley pediu, não esperando uma resposta e puxando a irmã escada acima. Consequentemente, quebrou o contato visual dos dois. só as acompanhou subindo as escadas, olhando descaradamente para a bunda e as pernas de . O que? Era um momento crucial, ele tinha que aproveitar!
  - CHEGUEI! – gritou Hayley, não deixando sua chegada a casa despercebida. Foi recebida com um grande abraço de , a levantando do chão. Esse estava mais arrumadinho, com uma calça jeans e uma blusa preta.
  - Me larga, , você sabe que eu não gosto disso – protestou ela, batendo nos braços do amigo. Fingiu estar irritada, mas acabou não segurando a risada. Ele obedeceu, a soltando e dando-lhe um beijo molhado na bochecha.
  - Er, que nojo! – Hayley reclamou, limpando a baba do garoto com as costas da mão.
  Depois da pequena ceninha dos dois, todos andaram até um dos quartos, onde se encontrava Davis, o único da banda que ainda não havia aparecido e que, constataram, teclava no notebook concentradamente. Todos se cumprimentaram e as devidas apresentações a foram feitas.
  - , dá para parar de mexer nesse computador, seu viciado? - reclamou com o amigo, que ignorava a conversa do resto do pessoal e só ficava no notebook.
  - Não enche o saco, Farro, eu estou desenrolando uma gata aqui. – informou com um sorrisinho malicioso no rosto.
  Hayley bufou, às vezes odiava ser a única garota do grupo. Era horrível escutar todo o dia eles falando de garotas, e quanto elas eram gostosas ou boas de foder. Dessa forma grossa e direta mesmo. Eles a tratavam como um garoto. Talvez, porque já conviviam com ela há dois anos e tinham muita intimidade, como a de irmãos. Ou, porventura, ela não fosse suficiente bonita e gostosa como as garotas que os companheiros de banda pegavam. Uns dias ela acreditava isso ser bom, outros, não.
  - Você não sente frio não? – perguntou Davis, finalmente saindo do computador e olhando para . Todos ali estavam com calça jeans, pelo menos, e ela estava com um vestido bem verão.
  - Eu acabei de chegar do Canadá. Na cidade onde eu morava, o verão era mais frio que o inverno daqui! – informou. Eles a olharam assustados. Em pleno inverno, devia estar fazendo 15, 16° graus ali. No Quebec, onde morou, as temperaturas mais quentes que pegou foram 20° graus. – Fazia tanto tempo que não vestia vestidos. – sorriu. Eles sorriram juntos.
  Um silêncio de voz se apoderou no quarto. Hayley acertou quando havia dito que uma música alta devia estar sendo escutada e, naquele momento, era o único som que se instalava no quarto. Wonderwall, dos Oasis, emanou dos autofalantes do notebook.
  - Ei, eu adoro essa música! – avisou , empolgada.
  - Clássica!
  - Minha preferida! – diversas opiniões começaram a surgir.
  - Eu ainda prefiro as nossas – falou de brincadeira. Era claro que era fã de Oasis. Quem não era afinal? Era só uma deixa para fazer todos rirem. Não foi diferente, todos riram. – Falando sério agora, vamos ensaiar? – inquiriu, levantando da cama onde estava sentado e puxando Hayley, que estava ao seu lado.
  - Vamos – concordaram. Levantaram um a um, ficando só e no quarto. Encararam-se tímidos e sorriram. Estavam meio embaraçados.
  - Está gostando de ter voltado? – começou um diálogo, com a primeira pergunta que havia vindo à sua cabeça. Era difícil formular uma pergunta complexa enquanto encarava aqueles olhos e aquele corpo, ok?
  - Sim, estou matando saudade de todo mundo – sorriu. Realmente era muito bom voltar para casa, rever todo mundo. Ele sorriu para ela.
  Desde o momento em que ela havia entrado em seu campo de visão, ele havia ficado extasiado com sua beleza. Era como um feitiço que o fazia olhá-la e sorrir para ela a cada mísero segundo que havia passado desde então. Era tão educada, gentil, simpática e incrivelmente bonita. Deus, linda, muito linda!
   só podia ser irmã de Hay. Realmente, as duas se pareciam, ambas lindas! Claro, o cabelo de Hayley estava vermelho e o de loiro, mas as feições eram parecidas, os traços do rosto. O corpo também, tudo na medida certa. A única diferença, além do cabelo, era o estilo de cada uma. Hay era mais rocker, sempre com uma calça apertada e uma T-shirt de banda. era mais romântica, com salto alto e um vestido. Também, só a conhecia havia minutos, não sabia como ela realmente era.
  - Er... Você quer, hm, sair hoje? – perguntou embaraçado. – Abriu uma boate aqui perto.
  - Ah, claro! Claro que eu gostaria – contrariou os músculos faciais num sorriso.
  - Ótimo, te pego às oito. – avisou feliz – Bom, vamos para o ensaio? – perguntou. assentiu e eles seguiram para o estúdio ali mesmo, na casa de .

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   ficou pasma com a banda. Paramore, era assim que eles se autodenominavam. A voz incrível de sua irmã, ela já conhecia, mas ainda estava um pouco melhor! Mais afinada, mas bem trabalhada. E os companheiros de banda tocavam muito! Davis arrasava no baixo; Farro fazia movimentos invejáveis na guitarra; e York também impressionava no mesmo instrumento. Todos aos níveis da irmã. O repertório também era muito bom. As músicas com letras muito bonitas e significativas. As batidas eram muito boas, dançantes. Um rock alternativo bem animado.
  O ensaio acabou duas horas depois. Hayley resolveu ir embora logo depois, pois tinha um “compromisso", e a irmã se despediu de todos junto. Com uma piscadela de olho, reafirmou a que iria se encontrar com ele.
  O convite a havia pegado de surpresa. Uma surpresa muito boa, diga-se por sinal. Prontamente aceitou e não conseguia tirar aquilo da cabeça. Estava bastante ansiosa, sendo difícil simplesmente não contar tudo para a irmã durante o caminho de volta para a casa. Não achava que era o momento certo de contar a paquera dos dois, afinal, eles tinham acabado de se conhecer e ele era muito amigo de Hayley.
  Dado o horário de se arrumar, ela mentiu para a irmã, falando que iria sair para a balada com umas amigas antigas. Sabia que Hay estava muito ocupada discutindo a relação com o paquera para acompanhá-la.
   separou a roupa e os acessórios com a ajuda da irmã e tomou um banho relaxante antes de vestir o traje, um vestido preto sete oitavos com lantejoulas no busto e nos braços e que acabava um palmo antes do joelho. Um sapato alto prateado fechado. A maquiagem leve, um brinco grande na orelha e estava de arrasar!
  Escutou duas buzinadas fora de casa e desceu correndo, dando dois beijos na irmã e gritando um “VOU SAIR” pra mãe, que estava na cozinha. Abriu a porta e logo viu York com um Honda CRV preto na porta, esperando por ela. Sorriu. Com certeza a noite seria muito boa.

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  Chegaram à boate quarenta minutos depois. constatou que o lugar era pequeno, no entanto, bem aconchegante. Uma música alta vibrava por todo o espaço e o cheiro de bebidas imperava ali. Assim que entraram, encontraram , acompanhado de uma mulher morena com um mini e colado vestido vermelho.
  - Vamos buscar uma bebida, querem ir conosco? – perguntou os garotos. não havia gostado nada da mulher que acompanhava Davis, chamada Débora, então resolveu acompanhar os garotos. Imagina a conversa que as duas teriam sozinhas: o quanto os garotos eram gostosos ou o último babado dos famosos. Muito interessante.
  Depois de providenciadas as bebidas, eles foram para a pista dançar. Firework, música de Katy Perry, saía alto dos aparelhos do DJ e eles se contagiaram pela música, mexendo os braços para o alto e as pernas de um lado para o outro, enquanto balançavam os corpos. No refrão, eles pulavam o mais alto possível, tirando os pés do chão e gastando toda a energia do corpo.
  Músicas e músicas depois, eles resolveram descansar um pouco e pedir mais uma rodada de bebida. As mulheres sentaram nos bancos do bar lado a lado e seus companheiros ficaram de frente a elas, também um do lado do outro, em pé. encarava nitidamente os peitos de Débora, enquanto conversavam futilidades.
   observava meio constrangida, pensando ser um milagre eles ainda estarem ali conversando com ela e . Ela poderia até estar sendo um pouco preconceituosa, mas pelo que havia analisado da laia da menina, ela acreditava que nos primeiros cinco minutos eles já estariam se amassando num dos cantinhos da boate. Depois de meia hora, quando ela fosse ao banheiro, encontrasse os dois na pia transando.
  No entanto, por incrível por pareça, ela não havia visto um só beijo do casal. Abraços e uma dança agarrada foram o máximo. Deu de ombros, bebericando mais um gole da bebida forte e azul que havia lhe oferecido no começo da saída. Era muito boa, descia queimando pela garganta e provocava uma reação vibrante no corpo.
  Uma música lenta começou a tocar e eles resolveram voltar para a pista de dança. Largaram a bebida e caminharam até lá. Com a lentidão da música, obviamente, eles se abraçaram e dançaram em passos contatos, juntos. Um, dois. Um, dois.
   apoiava-se no pescoço de , enquanto ele segurava a cintura dela. Olhando para o lado de esguelha, percebeu que o casal que estavam acompanhando já estava se amassando no ritmo da música. Ela bufou internamente. Até que havia demorado tempo demais.
  Voltou-se ao homem ali a sua frente, no qual seu corpo estava apertado contra. Não era nada como borboletas no estômago ou choques elétricos a cada toque, mas havia uma magia entre os dois. Desde a primeira vez que os olhares dos dois se cruzaram, eles falavam por si só. Não precisavam de palavras para dizer o que estavam sentindo, o silêncio somado aos olhares já transmitiam tudo.
  York se aproximou mais de , se isso ainda fosse possível. Os corpos ficaram bem colados, grudados. Colocou a mão no final das costas da moça, quase em sua bunda, enquanto com a outra mão, passava levemente os dedos pelos cabelos, pescoço, braços, barriga e quadril, acariciando-os. , no entanto, só se limitava a segurar o braço musculoso de e mexer nos cabelos mal arrumados do mesmo.
  Durante Friends, Lovers or Nothing, música do John Mayer, York foi aproximando sua boca sorrateiramente da boca da mulher a sua frente. A mulher que estava grudada a ele, e a qual ele acariciava e descobria cada pedaço possível do corpo dela no momento.
   foi a primeira a fechar os olhos, enquanto esperava, parada, a boca de encontrar a sua. Aguardava ansiosamente pelo toque das duas bocas, pela explosão de sentimentos que seu corpo sentiria e jogaria para fora. fechou os olhos logo depois, aproximando centímetro a centímetro de . Aqueles momentos faziam parte do encanto dos dois.
  Vrum.Vrum. O celular de começou a vibrar no meio dos seios dela. Ela sabia que era uma coisa bem tensa colocar o telefone ali, mas fora o único jeito: ou entre os seios, ou na calcinha.
  Eles tentaram ignorar, mas o celular cismava em tremer e fazer o corpo de reagir com aquilo. Obrigados, pela quebra do clima, eles pararam. Ele abaixou a cabeça, suspirando e passando a mão pelos cabelos, derrotado.
  - Desculpa – exclamou , soltando-se do rapaz e pegando o celular rapidamente, que ainda vibrava. Com uma vontade tremenda de jogá-lo no chão, ela se controlou para simplesmente colocá-lo na orelha. – Fala – disse grossa. Afinal, ela estava bem puta com a pessoa que havia ligado e interrompido todo aquele momento mágico.
  - Foi mal te ligar irmã – escutou a voz de Hayley ao telefone. Sentiria vontade de apertar o pescoço da irmãzinha até o mesmo ficar vermelhinho, mas notou que a voz dela não era nada boa. – Olha, me perdoa, ok? Desculpe interromper o encontro com suas amigas – demorou a assimilar. Encontro da amigas? Ah, sim, a pequena mentira – mas é que eu realmente preciso de você aqui. – finalmente reparou no porque da voz estranha, meio anasalada. Choro. A irmã dela estava chorando.
  Isso a fez dar um sobressalto. A irmã dela estava chorando e ela pensando em cortar e moer os pedacinhos de Hay só porque tinha interrompido um beijo? Um beijo que poderia acontecer a qualquer hora e lugar? Besteira!
  Ela chamou . Ele estava ao seu lado ainda, mas era como se não estivesse. Seus devaneios estavam longe e ela teve que cutucá-lo algumas vezes para ele atender ao chamado. Com alguns gestos, conseguiu que ele a acompanhasse até a saída.
  - Estou indo para casa agora, não demoro! – avisou, antes de desligar o telefone, entrar no carro e começar a explicar tudo para o rapaz ao seu lado.

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  Entrou na casa assim que se despediu de com dois beijos na bochecha. Mesmo ele sendo amigo de Hayley, achou melhor deixar aquilo entre as duas, ao menos por enquanto. Ela nem sabia o que havia acontecido, só que Hay estava chorando!
  Encontrou uma tensão no ar. Louise estava de pé olhando brava para a filha mais nova enquanto a mesma se encontrava sentada no sofá com os joelhos encolhidos e a cabeça para baixo. O pouco volume do cabelo tampava seu rosto por completo. Podiam-se ouvir os soluços agudos soltados por ela.
  - O que aconteceu? – perguntou temerosa. O que havia acontecido afinal para toda aquela cena?
  - Você sabia desse sonho infantil da sua irmã de se tornar cantora? – inquiriu Louise a .
  - Não acredito, você contou isso à mamãe? – perguntou retoricamente , olhando assustada para a irmã, que levantou o rosto.
  - Você disse que eu não devia desistir de meus sonhos só por causa da mamãe! – justificou Hayley um tanto irritada.
  - Mas não era para você falar com ela! Não tão cedo, pelo menos – informou a irmã, jogando as mãos para o ar.
  - Eu não aguentava mais esconder. Eu queria chegar para a mamãe e falar que ensaio todos os dias na faculdade durante as tardes, mostrar-lhe as músicas que eu componho e como minha voz melhorou desde pequena! – revelou Hay, soluçando e chorando mais forte.
  - Você acha mesmo? Acha que eu ficaria feliz? – Louise balançou a cabeça negativamente, cruzando os braços no peito – Sabe, isso não me espanta, você sempre foi a errada, a desocupada, a que não queria nada com nada! – acusou, apontando para a filha mais nova, o que a fez chorar ainda mais. – O que me deixou chocada foi saber que você apoiou essa loucura de sua irmã!
  - É claro que eu apoio e sempre apoiarei minha irmã! Você fala disso tudo como se ela fosse uma ladra ou uma prostituta. Ela só gosta de cantar. CANTAR! SERÁ QUE ISSO É DEMAIS? – vociferou .
  - SIM, É DEMAIS SIM! – bradou em resposta a senhora – Você sabe o que penso sobre músicos.
  - Sonhos são sonhos, mãe. Se o sonho dela for ser cantora, ela merece todo o apoio! E você sabe que ela tem talento. – resmungou – Você poderia deixar pelo menos uma de suas filhas realizar um sonho de profissão. – completou baixinho, abaixando a cabeça e brincando com o celular na mão.
  - Espera, como assim? – inquiriu Hayley. Ela prestava atenção na discussão da irmã e da mãe, enquanto melhorava do choro, e ficou um tanto confusa com a confissão de .
  - CHEGA, CHEGA DESSA BRIGA INÚTIL! – gritou Louise, cortando qualquer explicação. – Hayley Willians, você está de castigo. Você só sai de casa nessas férias com sua família e suas antigas amigas. Nada de colegas de faculdade. Sem ensaios de seja lá o que você chama de banda. Seu quarto, agora! – impôs as regras.
  Hayley protestou com gritos, mas a mãe olhou arbitrária e ela se conformou, ao menos temporariamente. Limpou as lágrimas que ainda escorriam e levantou do sofá, correndo até as escadas e seguindo até o quarto. olhou para mãe com um olhar decepcionado e acompanhou a irmã, subindo as escadas lentamente.

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  - Posso entrar? – perguntou dando duas batidas na porta do quarto da irmã. Recebeu um “Claro” de Hayley.
  Ela adentrou ao quarto, encostando a porta do mesmo e andando até a cama. Encontrou a irmã deitada de bruços em seu leito, com o braço em cima da cabeça e os cabelos bagunçados. Sentou-se na ponta inversa da cama e se abaixou até os pés, retirando o sapato alto dos mesmos e os deixando ao lado da cama.
  Em seguida, mergulhou na cama, se esparramando ali. Aproximou as mãos da irmã, largando seu celular no meio do caminho, e mexendo nos cabelos ruivos de Hay com carinho.
  - Não fica assim, Hay, pense nos lados positivos. – sussurrou , embora não convencida. Fez uma careta, o que ela havia falado? Lados positivos? Não existiam lados positivos.
  - Lados positivos? – inquiriu a irmã – Quais lados positivos? – repetiu – O de não poder mais ensaiar ou o de não poder mais ver meus amigos? Ah, sim, ou o de estar de castigo nas férias? – foi irônica.
  - Sim... Quer dizer, não. – confundiu-se – Digo, alguma hora mamãe ficaria sabendo. – deu de ombros, ela não sabia o que falar para ajudar a irmã.
  - É, verdade. – murmurou despois de um tempo pensando. Passou as costas da mão no rosto para limpar as lágrimas que molhavam sua face. – Agora me diga – virou-se de lado, olhando para a irmã – que história é essa de “deixe ao menos uma filha sua realizar um sonho” – imitou a voz de .
  - Não é nada. – deu de ombros, virando o rosto para o outro lado.
  - Claro que é. – exclamou a irmã – Me conte essa história. – ordenou Hay, mais uma vez se movimentando na cama para melhor acompanhar a irmã.
  - Ok, ok. – suspirou , erguendo-se e sentando na cama. – Há uns doze anos eu tinha o sonho de ser modelo. Nunca falei para ninguém porque sabia o que mamãe pensava sobre esse tipo de profissões. – não evitou uma careta – Não contei a você porque você era pequena. Enfim, um dia eu tomei coragem e pedi a mamãe para que me levasse a uma empresa de modelos, queria ter uma chance! Ela se revoltou e me proibiu. Foi a partir daí que ela procurou um intercâmbio para eu fazer, mesmo que faltando muito ainda para a faculdade. – terminou, os olhos cheios d’ água.
  - Sinto muito – fora a vez de Hayley passar a mão nos cabelos da irmã em sinal de carinho. Algumas lágrimas escorreram e molharam o rosto de – Então você fez curso de línguas obrigada?
  - Não – negou – Na época eu não havia gostado da ideia de estudar longe na faculdade, mas fui aceitando e ficando até feliz mais tarde. Mamãe me deixou escolher entre os cursos que eles ofereciam. Eu gosto do que eu fiz. Realmente gosto. Gosto muito de línguas. – ela deu um sorriso malicioso para a irmã. Interpretem como quiser – Modelo é só um sonho, línguas é minha profissão – sorriu verdadeiramente, já sem lágrimas no rosto.
  Hayley sorriu junto, vendo que a irmã realmente gostava do que havia feito. Menos mal, apesar do sonho destruído ela trabalharia numa coisa que admirava.
  - O mais importante, entretanto, - reafirmou – é que mamãe não deixou seguir meu sonho. Tive sorte de seguir o que tenho simpatia, mas não quero que ela faça a mesma coisa com você! Você não pode desistir de cantar, você realmente tem talento!
  Elas sorriram mais uma vez e se abraçaram. Apesar de muito tempo separadas, a ligação das duas era forte, incrível. O momento não era dos melhores, mas ali, juntas, elas sabiam que podiam enfrentar todo e qualquer obstáculo que aparecesse em suas vidas. Um detalhe foi que Hayley notou que a irmã, no meio da explicação, havia se referido a modelo como um sonho com o verbo no presente, e não no passado. O sonho, afinal, ainda estava vivo em seu coração.

  Uma Semana Depois...
   já tinha perdido a conta de quantas horas havia passado naquele quarto. Desde o dia fatídico em que a irmã assumiu ter uma banda para a mãe, ela havia dormido lá todas as noites. Aliás, tirando quando ela ia para o quarto dela pegar roupas, ela estava fazendo tudo naquele quarto. Não havia saído nenhuma vez de casa, parte porque estava brigada com a mãe, parte porque achava que devia cumprir seu papel de irmã e ficar ao lado de Hay naquele momento em que ela precisava. Na verdade, todo seu esforço baseava-se em ajudar sua irmã.
  . Seria exagero se falasse que não lembrava nem como ele era mais? Seria, com certeza seria um baita exagero. Não é como se ela pudesse esquecer aquelas feições e aquele corpo... Ela sorria só de pensar! O modo gentil, fofo e cavalheiro que havia lhe tratado na primeira e única saída deles também não saía de sua cabeça. E aquele pseudo-beijo então? Aquele imagem dos dois se aproximando e se tocando de forma gentil passava e repassava por sua mente minuto a minuto.
  O fato era que não havia o visto, ao menos física e verdadeiramente, mais. Na noite da briga ele ligou tanto para quanto para Hayley, mas nenhuma das duas atendeu por acharem que aquele momento era só delas. No dia seguinte, ele ligou novamente e Hayley atendeu. Ele até falou com , mas pela irmã estar ali ao seu lado sem poder desconfiar de nada, foi uma conversa muito breve. No meio da semana, aproveitou que Hayley estava tomando banho e ligou para , conversando de verdade com ele. Desculpou-se por desaparecer, explicou a situação e prometeu que nos próximos dias conversariam igual pessoas normais.
  A relação com sua mãe não estava nada boa. Ela havia ficado bastante magoada e, mesmo a filha voltado a poucos dias de uma viagem de anos, ela só estava falando com ela coisas importantes. já não aguentava mais toda aquela palhaçada. Palhaçada sim! Afinal, qual era o problema se a irmã quisesse se tornar cantora?
  Levantou-se da cama da irmã, onde a mesma estava cochilando – é o jeito quando não se tem o que fazer nas férias -, e resolveu tomar uma atitude. Falaria com a mãe. Não teve coragem na sua época, mas agora não deixaria que a irmã também fosse prejudicada pela ignorância de sua mãe. Desceu as escadas no impulso e correu para a cozinha, sabendo que lá encontraria a mãe.
  - Mãe, preciso falar com você – delatou assim que a avistou abrindo a porta da geladeira.
  - Fale. – respondeu somente, fechando a geladeira.
  - Olhe, por favor, aceite o sonho de Hayley, ela realmente tem talento! – pediu.
  - Não, ela não vai ser cantora. Ela será uma juíza.
  - Mãe, você já perguntou a ela se ela quer isso?
  - Mas é claro que ela quer! Ela escolheu advocacia para faculdade, ela quer trabalhar com isso!
  - Ela também escolheu uma banda, escolheu ser cantora. – argumentou.
  - Isso não é trabalho! – exaltou-se, aumentando um pouco voz.
  - Olha mãe, - recomeçou com uma voz tranquila, não queria que aquela conversa tomasse rumos errados – eu tinha um sonho, um sonho que você não me permitiu alcançar. Eu era pequena, fiquei animada com a ideia do intercâmbio, acabei caindo na sua conversa e desistindo de lutar pelo que eu queria – a mãe a olhou feio – Reconheço, com linhas tortas você acabou me ajudando, eu adoro o que eu faço. Mas a questão é que você acertou uma vez e pode errar outra. Ela realmente é incrível, a banda que ela participa também é maravilhosa, você verá. – Louise abaixou a cabeça.
  - Eu quero que ela tenha um emprego, que ganhe salário todo mês, que consiga se sustentar com o trabalho. – uma lágrima pingou em sua blusa – Você sabe que mesmo ela sendo ótima, há muitas pessoas tão boas quanto elas que nunca conseguirão o que querem. – reforçou. – Eu não quero que ela se decepcione.
  - Eu sei. – concordou – Sei como é difícil, árduo. Sei que ela pode não conseguir nada. Mas eu sei que ela também sabe disso tudo, sabe que isso pode acontecer. Entenda mãe, ela precisa tentar! Precisa lutar pelo seu sonho para se sentir completa! E aí, não importa se ela conseguir ou não, mas sim se ela tentou! – respondeu admirada.
  - Por isso que você não se sente completa, né? – levantou o rosto, analisando os olhos da filha.
  - É. – uma lágrima escapou do rosto de – Eu só queria ter tentado – deu um sorriso triste.
  - Desculpe, desculpe filha! – Louise a abraçou fortemente. Ficaram assim por uns minutos – Pronto, eu deixarei Hay lutar pelos sonhos dela.
  - Sério? – perguntou animada. A mãe assentiu e ela pendurou-se no pescoço da mesma. – Ela vai ficar tão feliz. – riu.
  - Com certeza – sorriu também – Eu só quero que ela termine a faculdade, se forme. Pode ensaiar a vontade, desde que não prejudique a faculdade de advocacia. Se a banda fizer sucesso, depois de se formar ela pode se dedicar inteiramente. Se não, ela procura um emprego – murmurou os termos.
  - Sim mãe, claro que ela vai aceitar – abraçou a mãe fortemente, com um sorriso largo nos lábios – Agora vamos, vamos subir para contar tudo para ela!

  Um mês depois...
  “Uma novidade só aqui. De uma banda revelação: Paramore. Emergency!”
  - AHHHHHHHHHHHHHHHHEUNÃOACREDITO!
  Foi assim que foi acordada, com Hayley gritando incessante em seu ouvido. Entender o que a irmã dizia com toda aquela animação fora muito difícil, mas no final ela descobriu o porquê de tamanha gritaria. O primeiro vídeo do Paramore, da música Emergency, acabara de passar na MTV.
  Aquele último mês fora de muitas mudanças. A banda, aproveitando as férias da faculdade, empenhou-se ao máximo. Batalharam para arranjar uma gravadora durante semanas, mas finalmente conseguiram. Com uma música no rádio, o próximo passo, já imediato, foi gravar o clipe. Bem básico, mas ainda sim, um clipe!
  A grande amizade de Hayley e tornou-se namoro. O quase namoro entre e , se tornou amizade. Uma linda inversão de papéis. O mais novo casal de namorados estava de agarramentos e chamegos de lá para cá, num romance descomunal. Já e , em meio ao número de compromissos da banda, acabaram se afastando. É claro que eles sentiam algo um pelo outro, mas depois daquele beijo que não rolou, nada mais havia acontecido entre eles. Em meio à rotina – e a uma piranha com que namorou nesse meio tempo-, o sentimento foi reprimido e tudo virou amizade.
  Mais uma vez, lá estavam eles, ensaiando. Sempre ensaiavam na faculdade às tardes, mas sendo um sábado, eles estavam novamente na casa de . Casa essa onde Hayley dormia de tempos e tempos e onde tudo havia começado.
  - Chega por hoje, né? – Hayley perguntou – Ainda temos que ir à gravadora hoje. – Todos concordaram, arrumando as coisas.

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  Depois de todos devidamente arrumados, foram todos juntos no carro de . nunca havia ido à gravadora, mas a irmã havia insistido muito a presença dela, por isso ela estava sentada ao lado da irmã no carro, junto com , e dirigindo.
  Alguns minutos depois eles chegaram a um local, determinado por Hay como sendo a gravadora. Saíram do carro e adentraram ao lugar. Diferente do que havia imaginado, ela avistou um lugar amplo, cheio de perucas, acessórios, vestidos, calçados e uma grande passarela.
  - Ei, isso aqui não é uma gravadora – , perdida, olhou para a irmã. Todos riram.
  - Não, não é – concordou Hayley, mexendo na bolsa que carregava nos ombros – Isso aqui é um estúdio de modelos. – revelou com um sorriso, entregando um envelope para a irmã.
   a olhou surpresa. Pegou o envelope e sorriu ao ler o que estava escrito dentro dele: “Você ganhou um book na Agência ModelsArt”. Pulou nos braços da irmã, imersa a sorrisos e gritos de alegria. Depois, ela abraçou cada garoto, os fazendo pular junto com ela. Com , ocorreu uma tensão, mas nada muito aparente para terceiros.
  A felicidade era imensa, ela realizaria seu sonho, faria um book! Teria fotos como modelo! Alegria, tudo que ela sentia se descrevia em uma só palavra.
  Preparou-se para as fotos. Escolheu três trajes: um formal, vestido branco longo; um despojado, short jeans e uma bata rosa; e um de praia, biquíni florido verde. Separou, também, acessórios que combinassem com as peças e vestiu-se com cada uma, posando para várias fotos em posições diferentes. Ela se soltou, fazendo poses com o cabelo bagunçado, os pés para cima, carões, além de claro, poses mais sensuais. Ao final, depois de centenas e centenas de cliques, ela se sentia realizada, completa!

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  De volta a de sempre, eles foram selecionar as fotos que iriam para o book.
  - Olha a sua cara nessa foto – sacaneou, não segurando o riso.
  - Bler, chato! – deu língua.
  Quando acabou, eles voltaram para a casa de , com a promessa de que voltaria dali a uma semana para pegar o book. Já em casa, avisou que subiria para o quarto, levando Hayley junto e recebendo um “Não quero escutar os gemidos” do Davis.
  Dizendo que ia ao banheiro, se despediu. Somente e ficaram na sala de . Coincidentemente, na televisão passava o clipe de Wonderwall. Era como se tudo se adaptasse aquele dia.
  - Como no dia que nos conhecemos – exclamou, adivinhando os pensamentos de . Ela assentiu, sorrindo.
  - Verdade. Aconteceram tantas coisas, nem parece que tem só um mês. – refletiu.
  - Eu me lembro como se fosse hoje do nosso quase beijo. – recordou-se. – Desculpe por, hm, qualquer coisa. Acho que ocorreu tanta coisa que nós acabamos não terminando o que queríamos.
  - Tudo bem, embora, na verdade, nós nem houvéssemos começado. – argumentou. Eles sorriram.
  - Um começo, então? Nosso começo. – aproximou-se de .
  - Com certeza, nosso começo. – ajudou na aproximação, segurando a nuca de .
  Ele respondeu ao gesto apertando a cintura da mulher a sua frente e segurando o rosto dela com a outra mão. Todo aquele encanto da aproximação do pseudo-beijo de um mês atrás não foi refeito. Não, não. Aquilo não era mais necessário. O tempo era curto, eles tinham de aproveitar cada momento.
  E então, o toque de duas bocas. A explosão, a combustão de sentimentos, a ferveção de todo o calor que os dois corpos transmitiam. Era uma mistura de sentimentos, gestos, sentidos. A língua de pediu passagem e assim que liberada, as duas línguas começaram a brincar em todo o espaço possível. E logo depois, a brigar, a batalhar pela dominação. Uma sensação incrivelmente diferente, que nenhum dos dois havia sentido antes, nem nunca sentiriam com outras pessoas.
  Eram eles, só eles naquele momento e mais ninguém e nada. A casa podia estar pegando fogo, o mundo podia estar sofrendo com um terremoto, ou o papa podia bater-lhes a porta, nada os acordaria daquilo.
  Quebraram o beijo minutos depois, por falta de ar. Sorriram. Sorriram. E sorriram novamente. Felicidade. Feliz, era assim que eles se sentiam. Um momento de segredo, descomunal, incrível, inexplicável, indescritível. Para sempre amantes.

“Um beijo é o toque de duas bocas que se calam para ouvir a voz do coração.”



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