Paixão e Crueldade

Escrito por Zsadist Xcor | Revisado por Natashia Kitamura

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Prólogo

  Fugiam há quase três semanas.
  Os pés estavam doloridos, não dormiam devidamente, havia escoriações na pele por esbarrarem em galhos das árvores ao se embrenharem pela mata e as olheiras roxas mostravam o cansaço físico e mental. Por estar no final do inverno, não corriam tanto risco de desidratação debaixo do Sol fraco. O problema era a noite. Evitavam de acender fogueira para se esquentarem, então se abraçavam encolhidos na tentativa de o calor corporal aumentar até adormecerem para, no dia seguinte, despertarem antes do raiar do dia e seguirem se distanciando prezando pela sobrevivência.
  Sabiam que a vida mudaria completamente quando o responsável pela compra dos dois foi empurrado violentamente pelo escravo. Batera a cabeça na quina pontuda do móvel de madeira abrindo um corte superficial cuja cicatriz simbolizaria a agressão, como lembrete da tentativa infrutífera de saciar seus doentios desejos.
  Ofegante, a magra garota trêmula no chão ajeitava as vestes as quais foram rasgadas na parte da saia pelo senhor de fazenda.
  Era desprezível. Aguardou pacientemente até a esposa sair na companhia dos filhos para atacá-la. A observava de longe como uma presa desde a chegada à sua propriedade. A media de cima abaixo quando a avistava.
  Por notar como era cobiçada, se esforçava a não se encontrarem tomando diversos cuidados visando se proteger do fazendeiro. Antes de adentrar num cômodo para exercer seu serviço, vistoriava o ambiente escondida e com os ouvidos bem atentos para detectar qualquer mero sinal de movimentação. Caso não estivesse vazio, realizava outras tarefas em aposentos distantes até o ambiente em questão estar vazio.
  Infelizmente, foi pega desprevenida pelo seu dono, quem a viu adentrando na sala.
  A arma usada para levá-la ao escritório obedientemente caíra junto ao loiro ao ser impedido de violentá-la após ela apresentar resistência a ele, então, em fúria, a criança pegou a faca a cravando na mão de quem tentava lhe abusar. Soltou um guincho animalesco de dor fitando os olhos escuros que tanto desejava avistar quando estivesse em cima dela.
  Agora, não havia terror como instantes atrás. O fitava no mais genuíno ódio.
  Não tinham tempo. A gravidade dos atos cometidos resultaria em penas tenebrosas se tivessem o azar de sobreviverem. Logo apareceria alguém ou os empregados seriam chamados aos berros. Como começava a escurecer, aproveitou a oportunidade para agarrá-la pelo pulso objetivando fugirem. Só não saberiam até quando seriam capazes de manter o ritmo frenético.
  No século XVII os Estados Unidos não era exatamente um país. Existiam alguns nomes para se referir à região, dentre eles “As 13 Colônias Britânicas”. O Norte era abolicionista. No Sul negros eram tratados como mercadoria para exploração, submetidos a inúmeras crueldades e trabalho incessante cuja carga horária diminuía a expectativa de vida em consequência. Portanto, ao empurrar o seu senhor assinara a sua sentença de morte. A outra teria provavelmente outro destino – como se isso fosse motivo para comemorações.
  Não podiam se dar ao luxo de descansarem o suficiente ou se alimentarem. Comiam o que encontravam nas árvores e tomavam água da chuva ou caso passassem por um rio. Não tiveram a oportunidade de se prepararem para a fuga.
  Pelo contrário.
  Não teve escolha. Apenas agarrou o braço da menina de onze anos ao empurrar Patrick no chão com violência para livrá-la das mãos do dono da fazenda ao se deparar com a imagem dele a apalpando entre as pernas enquanto a forçava a beijá-lo.
  Se fossem pegos teriam o destino pior que a morte. Provavelmente implorariam pelo assassinato a cada segundo. O pedido não seria acatado pelos algozes caso fossem capturados. Lhes causariam dor, os fazendo enxergar a pior face da humanidade por meio de torturas, privações e outros atos hediondos.
  O destino da garota seria pior que o seu, é claro. Para as mulheres sozinhas e de cor era sempre pior. A vulnerabilidade a transformava numa presa fácil, inclusive por ser apenas uma criança cuja mãe morrera após a esposa descobrir que era o irmão o genitor da menina escrava de pele mais clara.
  Pelo menos essa era a história contada pela senhora. Colaborou para a morte da figura materna por não querer o seu sangue correndo nas veias da bebê. Em sua concepção perversa, não havia melhor vingança além de deixá-la órfã, já que a bebê era uma bastarda fruto do estupro realizado pelo outro a sua falecida mãe.
  Quinze dias depois ao final da tarde, às cinco horas, ouviam os cachorros se aproximarem e as vozes dos homens os quais seguiam seus rastros incansavelmente.
  No meio da mata, Biancca tropeçou nos próprios pés soltando um grito de exaustão. O mais velho voltou apavorado para buscá-la.
  - Anda, levante-se.
  A segurou pelo pulso, mas a garota não conseguiria andar porque torcera o tornozelo.
  - Não dá. – chorava pelo medo, se arrastando nas folhagens na tentativa de fugir – Não vou conseguir correr.
  A lembrança das mãos de Patrick sobre si lhe gerava ânsia.
  Temendo pelo destino terrível, a face jovial pareceu envelhecer pelo terror.
  - O que vamos fazer? – olhou para atrás assustada pelos latidos estarem mais próximos – Por favor, não me deixa aqui. – choramingou.
  - Um dia ainda serei morto por ser decente. – resmungou agachando de costas para a menina subir.
  Não fez outra coisa por quinze minutos além de correr clamando aos seus Deuses africanos para não serem alcançados.
  
  Damon Smith cavalgava ao lado de seu amigo, quem retornara de viagem quando saiu a notícia de dois escravos fugitivos. Como não tiveram a oportunidade de conversarem, decidiram subir nos cavalos para passear pela região. Pediu para alguns de seus escravos os acompanhassem para qualquer intercorrência. Portanto, ali estavam eles, rindo de uma situação engraçada contada pelo médico onde se escondeu para não ser pego pelo esposo de sua amante – claro, invertera os papéis porque, apesar da amizade de anos, não confidenciava sobre essa parte da sua vida para o ruivo.
  As feições se tornaram sérias ao avistarem um grupo comandado por Patrick atravessando as plantações. Agarrava uma menina pelos cabelos a arrastando para acompanhá-lo a passos apressados. No outro fora amarrada uma grossa corda ao redor do pescoço a qual era puxada por um dos seus capangas.
  Por estar cercado por outros trabalhadores armados e pelo seu amigo, Dean Brown, sinalizou para o seguirem correndo. Apesar do contexto desfavorável estavam seguros entre os trabalhadores – e não porque os escravos foram comprados. Tomaram a frente em seus cavalos após a rápida troca de olhares. Os animais alcançaram os invasores em questão de minutos com os demais em seu encalço.
  - Deu agora de invadir minhas terras, Patrick? – severo, parou na frente do loiro.
  - Não tive escolha. Precisei buscar esses fugitivos.
  A face do ruivo endureceu ao vê-lo puxar a menina para si a agarrando pela garganta. Havia algo de errado na maneira como pressionava as digitais nela e a olhava. Era profano, denunciando as segundas intenções quando percorria as írises nela. O choro silencioso denunciava o desespero da pequena, quem agarrava o vestido simples no ombro por estar rasgado.
  - Ainda assim não é cordial da sua parte. – retrucou Dean ainda sobre o cavalo – Até porque não deveria se orgulhar da sua conduta com crianças negras e nem crianças brancas.
  - Minha conduta é avaliada perante Deus. Não preciso de julgamentos mundanos. – retrucou em tom grosseiro e cuspiu na grama ao finalizar a última frase.
  - Foi isso que disse para Deus quando enterrou a sua filha? A pobre coitada não tinha como se curar da doença que o próprio pai passou para ela por ser tão nova. Era pra você estar naquele caixão ao invés da coitada. – rebateu Smith com asco.
  Patrick puxou uma arma de fogo das vestes a apontando para o oponente, quem não moveu um músculo sequer e manteve o ar de orgulho e superioridade intactos ao longo do confronto.
  - Nunca foi encontrada nenhuma prova contra mim. Não deveria desenterrar assuntos passados, doutorzinho. – torceu o nariz como se o título fosse uma imprecação – E quanto aos escravos... Foi necessário eu vir sem convite. Tenho muito interesse neles, principalmente nessa daqui. – apontou pra ela com o queixo, petrificada na tentativa de não chamar atenção e afastar os olhares de seu corpo.
  Os outros homens de Damon chegaram apressados, cercando o grupo desconhecido.
  Caso não fosse cauteloso, as coisas sairiam do controle. Não queria começar uma luta armada, nem prejudicar os menos favorecidos. Então, engoliu o orgulho para conduzir o assunto para outro caminho.
  - Por que não entramos para discutir os valores para eu efetuar a compra deles? – perguntou Damon indiferente.
  Caso o observassem atentamente, veriam como se agarrou com mais firmeza às rédeas ao avaliar o estado petrificado da menina.
  - Como?
  - Eu os compro. São mercadorias, certo? Não há motivo para ter tanto apego a produtos de venda, principalmente quando se lida com séria dívida de jogo. Isso, é claro, se os rumores de alguns amigos meus estiverem corretos. E geralmente estão. Pode ser um meio de se beneficiar onde todos sairiam ganhando. Podemos discutir os trâmites agora ou, por sermos cavalheiros, na minha casa. O que escolhe?
  
  Na sala da mansão, Damon arregalou as pálpebras ao ouvir o valor por cada um. Era o quádruplo do que valiam.
  - Ou é isso ou retorno com eles pra minha fazenda agora mesmo. – esclareceu Patrick para não restar dúvidas.
  Irritado, avisou para Dean e os demais.
  - Se eles se moverem enquanto eu estiver fora desse cômodo, têm a minha permissão de atirar para matar.
  As pessoas a quem dirigiu a ordem sabiam que se referia a Patrick e seus capangas exclusivamente.
  Retornou trinta segundos depois com o maço de dinheiro em mãos.
  - Tome. – entregou a contragosto sem se importar em demonstrar a irritação – E some da minha frente.
  Quando os desconhecidos foram embora, escoltados pelos homens do dono da propriedade, se dirigiu ao amigo.
  - Dean, fique. Daqui a pouco vou precisar das suas habilidades. – apontou para eles – Os dois. Venham comigo. Não sou desumano. Quando conversarmos, podem puxar uma cadeira para se acomodarem melhor.
  Tomando à frente, os levou até seu escritório enquanto o médico se acomodava no sofá. Para caminhar devidamente, o outro estendeu o braço para auxiliar a criança por ela apresentar ainda os sinais do medo, embora tenham sido atenuados na saída de Patrick. Assim que adentraram, a garota deu um nó mais forte no tecido marrom para esconder o ombro e não correr o risco de ficar desnuda. Não queria chamar mais atenção ao deixar aquela discreta parte do corpo à mostra.
  Por hábito e norma de conduta estipulada na relação entre negros e brancos, acataram ao pedido calados.
  Se surpreenderam com o que viram quando Damon fechou a porta do escritório para passarem. Apesar de se manter de costas, notaram a mudança no rapaz de vinte e cinco anos. Aquela energia imponente anterior se dissipou ao ponto de percebê-lo desinflar. Jogou a cabeça para trás de olhos fechados puxando o ar pelas narinas e o soltando devagar antes de iniciar o diálogo.
  - Sabem. – se virou atravessando o cômodo – Agradeçam por quem quer que acreditem de terem parado nas minhas terras. Se fosse qualquer outra pessoa além de mim, nunca iria tentar ajudá-los. – encostou o quadril na mesa onde costumava analisar os papéis de rendimento das plantações de modo a mirá-los – Agora, preciso de algumas respostas. O que, infernos, aconteceu para fugirem?
  Encolhida na cadeira, soluçou agarrada ao adulto ao seu lado incapaz de conter o pranto.
  Pela primeira vez o escravo se deparou com um branco quem sentia compaixão por pessoas de pele negra. Perplexo, decifrou a faísca de empatia e preocupação incomuns. O queixo caiu porque o desvelo não foi passageiro. Enquanto estivessem ali, estaria estampado no belo rosto de traços delicados.
  Smith estendeu a mão em direção a face feminina para avaliar melhor as feridas, mas a viu se afastar num tremor discreto. Ao observar melhor as vestes – a barra rasgada mostrando as pernas e o nó desajeitado do tecido, agora em farrapos – torceu para ela não ter sofrido o que suspeitava.
  - Bianca. Bianca! – gritou em repulsa juntando as peças em sua mente.
  A governanta chegou apressada adentrando no recinto e fechando a porta.
  - Qual o seu nome, menina? – pediu gentilmente.
  - Biancca, senhor. – balbuciou baixinho.
  - Tudo bem chamá-la de Bia para não confundir com a Bianca aqui? – apontou para a mulher mais velha de semblante maternal.
  Como não estava acostumada a lhe dirigirem um tom de voz tão respeitoso e afável, o encarou de esguelha assentindo.
  - Bianca, a leve até o Dean para examiná-la. Só há um detalhe crucial. A única quem irá tocá-la será você para os exames acontecerem devidamente. Depois me entregue a receita caso passe alguma medicação. Lhe dê banho, roupas limpas e comida o quanto antes. Deve estar cansada e faminta depois dessa fuga, então também precisa descansar. Separe dois quartos para eles. Se encarregarão da casa para te ajudar. – completou se dirigindo a menina – Vá. Não precisa mais ter medo.
  A governanta estendeu a mão para ela. Ainda desconfiada, fitou primeiro quem se tornaria sua figura paterna, como se o perguntasse se era seguro. Houve apenas um aceno a incentivando a prosseguir. Como não havia escolha, aceitou ser levada pela mulher de face doce.
  - Qual o seu nome? – se dirigiu ao homem assim que a porta foi batida.
  - Sebastian.
  - Sou Damon Smith. Olá. Por favor, me perdoe por me referir a vocês como mercadoria. Era o único jeito de evitar serem levados. Pode me explicar o que aconteceu para fugirem?
  Os joelhos falharam e o mais velho não saberia dizer se pelo cansaço de tantos dias correndo ou se pelo assombro da fala de quem o comprara. Jamais pensou ser tratado como gente ao invés de objeto descartável por uma pessoa de classe superior ou de cor de pele distinta.
  - Éramos escravos do desg... – se interrompeu.
  Não era prudente insultar Patrick Wilkins na frente de outro branco.
  - Pode xingá-lo o quanto quiser. – incentivou o ruivo – Nunca me deu motivos para gostar dele. Apenas suporto a presença. Nada mais.
  - Bem... – arrastou a palavra incerto se prosseguia com o relato ou não – O encontrei há uns dias tentando se aproveitar da Bia. Não conseguiu porque ela não ficou dolorida ou sangrou. A fiz passar as mãos nas pernas e me mostrar para ter certeza. Também não apresentou nenhuma dor para caminhar, então cheguei a tempo de evitar a desgraça. Não há sinais de machucados além dos que obtivemos por meio da fuga. Acabei intervindo o jogando no chão.
  - Por isso a testa estava machucada?
  - Sim. A agarrei e fugimos.
  - Adorei ouvir isso. – deu um pequeno sorriso em aprovação, a fisionomia relaxando brevemente – A cada dia tenho menos motivos para gostar do bastardo. – resmungou mais para si – A sua conduta foi correta. Não há razão para sofrer repreendas. Permita-me deixar uma coisa bem clara. Enquanto estiver aqui, vai perceber que não sou um dono de fazenda comum. É de extrema importância não revelar em hipótese nenhuma como conduzo meus negócios. Pode fazer isso?
  - Claro.
  Queria parabenizá-lo pela coragem em proteger Bia. Talvez loucura fosse a palavra mais adequada pelo lugar e a sociedade onde estavam inseridos, mas preferiria definir como bravura.
  Gostaria bastante de ser tão destemido. Talvez a sua vida tomasse outro rumo caso não afogasse seus reais desejos para se encaixar naquele lugar onde nasceu. Talvez estivesse mais satisfeito na solteirice ao invés de se casar com Kassandra por obrigação. Talvez não fosse necessário... Bem, havia motivos fortes para abafar sua voz e conter a sua essência mais sensível a qual certamente seria julgada perante a sociedade, transformada em razão de piada em boca miúda ou comentários maldosos por onde passasse. Não poderia se dar ao luxo de perder a sua credibilidade.
   Se calar e lutar arduamente dia pós dia por mais de vinte anos contra quem era para se encaixar no modo como a sociedade se organizava era cansativo. Demais.
  - É tudo, Sebastian. Elas devem estar com o Dean na sala. Peça para ser examinado também. Pode ir. Avise para a governanta para lhe dar jantar, roupas para se trocar, preparar um banho e mostrar seus aposentos na casa. Você e Bia precisam descansar. Nos vemos amanhã. – apontou para a porta.
  O semblante exausto lhe despertou curiosidade, mas não tanto quanto o tratamento respeitoso, gentil e empático. Permaneceu cinco segundos estagnado de tão perplexo pelo discurso e em como fora respeitado por aquele homem.
  Mais tarde, quando estivesse alimentado, banhado, trajando vestes limpas e deitado em sua cama, ficaria cada vez mais curioso ao se recordar da situação, principalmente por não encontrar indícios de falsidade, desprezo ou indiferença nele. Era apenas... Um homem se dirigindo a outro e sendo gentil com uma menina quem quase fora vítima de terrível violência.
  Firmou os pés no chão ao caminhar cheio de questionamentos internos.
  Ambos não sabiam, porém as percepções elaboradas um pelo outro os moveriam a se aproximarem ao longo dos anos, iniciando uma série de consequências irreversíveis para eles e quem os cercavam ao ponto de atravessarem os séculos em encarnações diferentes até, finalmente, as almas gêmeas se encontrassem para interpretar famosos personagens do teatro devido à química entre aos atores cujas almas se reencontrariam no século XXI.

Capítulo 1

  Sebastian demorou para reconhecer onde estava. Na verdade, se perguntou o motivo de estar tão confortável. Se acostumara a dormir no chão das senzalas na companhia dos demais escravos, então sequer se recordava se, algum dia, adormecera num local propício. A maciez foi extremamente confortável, o tecido limpo da roupa de cama era cheiroso e... Bem, só o fato de não saber o horário o tranquilizava.
  - Já estava achando que tinha desmaiado ao invés de dormido.
  Sentou-se na cama assustado pela voz infantil.
  Confuso, se deparou com Bia trajada em roupas mais adequadas. Não se assemelhava exatamente aos trajes de uma escrava, mas sim de uma governanta. Terminava de comer biscoitos dados pela responsável da arrumação e organização da mansão. Havia se acomodado na ponta da cama, ponderando se era adequado acordá-lo ou não.
  - Deixei três pra você. – entregou-os para Sebastian, quem logo tratou de comê-los.
  - Por que está aqui?
  - A Bianca pediu pra trazer pra você. – apontou para a cadeira, onde as roupas de mordomo estavam devidamente passadas e estendidas – Pediu também pra avisar que a gente vai trabalhar dentro da casa.
  - O senhor Smith não tentou...
  - Não. – a menina balançou a cabeça entendendo a insinuação – Bianca me assegurou que nada de ruim aconteceria comigo e nem contigo enquanto estivéssemos sob a proteção do senhor. Até me entregou a chave do meu quarto pra trancar do lado de dentro e também trancar a minha janela caso eu duvidasse. O que tanto trataram depois que saí?
  - Quis saber os motivos de termos fugido.
  A tristeza perpassou o semblante da pequena.
  - Me desculpa.
  A frase não podia deixá-lo mais abismado.
  - Eu deveria ter me escondido melhor. Sabia o que ele queria comigo, mas foi burra por não o despistar. Quase morremos...
  - Não, não, não. – a interrompeu sem crer na própria capacidade auditiva – Você não tem culpa de nada. É uma criança. O desgraçado é quem deveria respeitá-la.
  - Mas chegamos muito perto da morte por minha causa.
  - Chegamos perto de morrer porque eu interferi. Não me arrependo agora e nem quando fomos capturados. Se as circunstâncias fossem outras ou a visse com outro homem em cima de você, minha atitude seria a mesma. Não se culpe por um crime cujo algoz não foi você. Vítimas são inocentes e você não é a exceção.
  Pela primeira vez em bastante tempo a garota sorriu timidamente.
  - Mais alguma informação relevante sobre esse lugar?
  - O senhor Smith é casado. A esposa se chama Kassandra.
  - E como ela é? – notou a expressão de desgosto ao mencionar o nome.
  - Horrível. Não é tão simpática ou gentil quanto o marido, não. A Bianca precisou me dar os biscoitos escondida pra dona da casa não ver. Eu vou descer pra avisá-la que acordou. Aí vou te esperar pra almoçarmos juntos.
  - Almoço? – arregalou os olhos franzindo o cenho
  - É quase meio-dia.
  - Tudo isso?!
  - Sim. Me disseram para não o despertar porque precisava descansar. Também acordei tarde. Levantei-me tem menos de duas horas.
  Ao vê-la dando pulinhos para se locomover, indagou:
  - Como está o seu pé?
  - Está bom. – se virou usando o armário de apoio – O médico avisou que, enquanto doer, não poderei pisar no chão. Consegui uma muleta com o senhor Smith porque ele me entregou, mas eu estava perto da saída da cozinha e ela do lado de Kassandra. Preferi vir pulando, mesmo. Segundo as palavras dela, não deveria gastar dinheiro em bobagens para nós. Há assuntos mais importantes para pensar. – acenou se despedindo antes de sair – Vou te aguardar na cozinha. O cheiro da comida está maravilhoso, então não demora. Estou faminta.
  Pôs o último biscoito de baunilha na boca segurando o riso pela imagem da menina pulando em um só pé.

  Minutos mais tarde avaliava a sua imagem no espelho do armário. Certamente, caso não fosse a cor da pele, seria tratado como Lorde ou Senhor pela população sulista. Seria o mordomo da casa, então os farrapos anteriores não seriam adequados para exercer a sua nova função.
  Como o quarto se localizava no primeiro andar nos fundos da casa, não demoraria para chegar à cozinha. É claro, caso não fosse interrompido por uma mulher de vestido escuro, loiro cabelo preso em penteado elegante e traços com certo toque de amargura facilmente confundido com arrogância.
  - Então é você o novo brinquedinho da casa? – Kassandra soou superior indo de encontro ao desconhecido.
  - Suponho que sim, senhora. – abaixou a cabeça respeitosamente quando ela parou em sua frente.
  - Mantenha aquela menina longe de mim. O agradeceria caso realizasse essa tarefa extra, mas não há razões para tratá-lo com tamanha educação. Não suporto crianças. – finalizou enérgica.
  - Sim, senhora.
  Avistou o marido descendo as escadas, então aproveitou para avisá-lo:
  - Da próxima vez me avise quando adquirir um novo escravo. Me recuso a receber as notícias dessa casa pela boca da governanta quando a dona sou eu.
  - Isso não vai se repetir, Cassie. – a passos firmes se posicionou ao lado dela.
  - Por qual motivo os comprou?
  - Foi decisão de última hora. Bianca precisa de pessoas para ajudá-la nos serviços domésticos e a oportunidade surgiu. Seria desperdício de minha parte ignorar os dois. Todos sairiam ganhando, afinal.
  - Você tem assuntos mais relevantes para tratar ao invés de pensar na empregada. – bufou impaciente se referindo em puro desprezo a mais velha.
  - Foi ela quem me criou. Se você tem uma boa vida comparada às demais mulheres da região é por responsabilidade dela. Lembre-se disso antes de insultá-la ou tratá-la com superioridade. – por detrás da frieza, havia um quê de descontentamento nas feições.
  Rolou os olhos gesticulando como se o assunto fosse insignificante.
  - Vou almoçar. Você vem?
  - Sim. Apenas preciso trocar algumas palavras sobre como funcionam as coisas aqui. Daqui a pouco a encontro na sala de jantar.
  A aguardou até desaparecer de suas vistas para analisar Sebastian atentamente, quem se manteve calado e de cabeça baixa durante o diálogo.
  - O seu aspecto está bem mais bem comparado a ontem. É bom. Sinal que descansou como deveria. – comentou.
  Ao fitá-lo, se deparou novamente com a máscara social cuidadosamente desenvolvida e aprimorada pelo mais novo ao longo dos anos. Não havia nenhum resquício da gentileza percebida no dia anterior.
  - Sim, senhor.
  - Tome.
  No bolso interno do paletó apanhou dois pequenos frascos escuros de remédio prescritos por Dean cujos líquidos eram transparentes.
  - É pra você e pra Bia. – os estendeu com a mão fechada – Vai acelerar o processo de cicatrização das feridas mais recentes. Não deixem Kassandra descobrir. Indico passarem exclusivamente nas lesões quando forem dormir e antes de saírem dos quartos pela manhã.
  A fala não foi processada pelo cérebro ironicamente ágil de Sebastian.
  - Pega isso, logo, homem! – sussurrou preocupado, vistoriando ao redor com medo de ser visto pela esposa ou algum outro empregado além da governanta e da cozinheira.
  Obedeceu por costume de acatar ordens e pelo susto graças a suspeita do que os frascos seriam.
  - O que são? – os guardou no fundo do bolso dianteiro da calça.
  - Remédios. O meu amigo indicou para vocês.
  As surpresas não paravam. Nunca conhecera um senhor de fazenda quem comprasse remédios para seus escravos – principalmente para cortes tão leves.
  - Sejam discretos. Kassandra não compartilha os meus ideais, então não pode descobrir algumas coisas em nenhuma hipótese. – explicou baixinho porque a informação era crucial.
  - Quais ideais?
  A expressão vacilou, mas a máscara retornou ao seu lugar.
  - Pela minha conduta para me dirigir a você e a menina pensei que estava implícito quais eram. Não se preocupe. Não demora a descobrir.
  O assunto pareceu se encerrar ali. Entretanto, como Damon não disse mais nada e nem o pediu para se retirar, permaneceram parados por mais alguns segundos.
  Sebastian tinha a impressão dele desejar falar algo mais por vê-lo puxar o ar para prosseguir. Nas três vezes em que isso aconteceu, desistia desviando o olhar e remexendo o canto dos lábios.
  - Mais alguma coisa, senhor Smith?
  Não saberiam dizer nem futuramente como Damon, pela primeira vez, em mais de dez anos, deixaria aquela barreira criada cuidadosamente enfraquecer. O tom paciente? A calmaria transmitida? As percepções anteriores? A admiração velada? Não descobriram a resposta.
  O olhar de Damon foi tomado de incertezas ao cruzar com o de Sebastian por menos de um segundo. Engoliu em seco encarando o chão.
  - Foi muito corajoso da sua parte livrar a Bia das mãos do Patrick. Parabéns. – o tom era tão tênue que mal fora escutado.
  Foi graças aquele momento que o escravo notou que o novo patrão era diferente. A voz era macia, o rosto foi tomado por uma doçura que o sensibilizou independente da diferença racial e o sorriso era pequeno. Se perguntou se, algum dia, o veria sorrindo novamente daquela maneira.
  A transformação durou meros instantes. Quase como se recordasse da sua posição social, a face endureceu ao fitá-lo, agora acompanhada por um toque de auto repreenda.
  - Esquece o que eu disse.
  Foi embora sem sequer o encarar.
  Ali foi plantada a semente da curiosidade em Sebastian por vislumbrar algo tão destoante da máscara que Damon se esforçava em apresentar.
  Na cozinha, a governanta e a menina o aguardavam.
  - Por que demorou tanto? Estou cheia de fome. – reclamou Bia indo apanhar dois pratos.
  - Estava falando com os senhores da casa. – segurou o que foi entregue pela menina se dirigindo ao fogão – Em qual dessas panelas está a nossa comida, Bianca?
  A mulher de cinquenta anos vistoriou para se certificar que Cassandra não estava presente.
  - Não se preocupe. A nossa comida é a mesma de vocês. Esqueci de mencionar. Kassandra e Damon estão na sala de jantar?
  - Sim.
  - Graças a Deus. – se tranquilizou colocando a mão no peito – Sejam rápidos. Ela costuma demorar para comer, mas é sempre bom sermos precavidos.
  Trocaram um olhar inquisitivo e perplexo antes de se servirem. Em nenhuma casa sulista os escravos se alimentavam da mesma comida dos seus patrões. As refeições cujas qualidades nutritivas distintas eram sempre preparadas a parte – e a disponibilidade de alimentos dependia sempre da vontade dos senhores, ao ponto de, por vezes, precisarem se contentar com uma alimentação escassa de baixo teor calórico e pouco nutritivo.
  - As coisas por aqui funcionam de maneira bem incomuns, né? – por não saber manusear talheres, não se importou em juntar a comida nos dedos e levá-la na boca sentado numa pequena mesa quadrada junto às duas.
  Ao contrário dele, por ser mais nova e espontânea, Bia não escondeu o seu contentamento com os sabores da rica refeição devidamente preparada com temperos e material de qualidade, então quase dava pulinhos de felicidade durante o almoço, também comendo com as mãos.
  - Sim. Por motivos de força maior o senhor Smith, eu e a cozinheira não gostamos desse sistema escravocrata implementado no Sul.
  - Se isso é verdade, então por que ele tem uma fazenda com escravos? – foi impossível Sebastian não soar rude.
  - Porque não se escolhe a família que vai nascer ou por quem vai se apaixonar. – a mulher replicou no mesmo tom, lhe lançando um sorriso duro como indicativo do descontentamento pelo questionamento.
  - O senhor Smith parece ser bonzinho. Quando vim pra cá depois de acordar o peguei pedindo pra Bianca pra me entregar os biscoitos. Nem lembro qual foi a última vez que comi um doce. – a morena comentou sorrindo. Colocou a mão na boca enquanto falava por estar mastigando, hábito reforçado ao ser corrigida carinhosamente pelas escravas com quem cresceu.
  - Ele é, sim.
  O afeto contido na voz e no sorriso não foi ignorado por Sebastian.
  - Por acaso contaria o porquê de serem contra? – arriscou-se tomando um gole de água.
  - De jeito nenhum. – retrucou contendo a risada.
  Não lhe tiraria a razão. Chegaram há menos de vinte e quatro horas. Não saberia até que ponto seriam confiáveis.
  - Quando terminarem tenho algumas explicações para lhes dar sobre o funcionamento da mansão. Há bastante trabalho e somos poucos. Agilidade é imprescindível para darmos conta de tudo.

  A governanta não estava errada.
  A casa era grande. Acordavam cedo para conseguirem tomar as decisões sobre a limpeza e a organização de maneira a serem mais ágeis sem desperdiçar os preciosos minutos e se recolhiam para seus aposentos às oito da noite. A partir desse horário não seriam mais convocados, então poderiam descansar ou se divertir caminhando tranquilamente pela propriedade.
  Com o passar do tempo descobriu que o tratamento humano se estendia aos outros escravos os quais dormiam na senzala. Ao contrário de Sebastian e Bia, pelo trabalho nas plantações ser mais árduo, retornavam no crepúsculo. Ao observá-los, notou que a saúde não era afetada por não trabalharem excessivamente e não havia escoriações ou lesões oriundas de punições como o açoite – Damon jamais permitiria castigos físicos neles ou privações alimentares.
  Costumava caminhar pela propriedade durante a noite. Geralmente a Lua iluminava o caminho, então não tinha como se perder. Aproveitava o frescor do vento e, de vez em quando, Bia o acompanhava.
  A menina estava mais feliz e tranquila. Não precisava lidar com o medo constante de ser violentada. Desde que ficasse longe de Kassandra, não havia problemas. Sem a criança saber, Damon a ajudava a se manter fora das vistas da esposa. Apenas uma vez isso ficou claro porque a escondera debaixo da mesa rapidamente enquanto a mulher adentrava na sala de estar em companhia de Celie, sua amiga.
  Demorou quase uma hora para ser seguro sair dali. Em consequência, durante três dias espirrava com frequência surpreendente.
  No final da tarde a entregou escondido um remédio prescrito por Dean, então em menos de quarenta e oito horas estava melhor.
  Entretanto, não era apenas porque apreciava a solidão que caminhava pela fazenda – ou melhor, sempre no mesmo trecho da propriedade.
  Percebia que era observado por alguém através da janela. A figura de Damon passaria desapercebida caso a lareira não iluminasse a cabeleira ruiva.
  Inicialmente não demonstrava saber. Caminhava sentindo o olhar do patrão sobre si. Poucas foram as vezes que se encontraram, mas a figura envolta em áurea delicada destoava de quem mostrava ser em público. Um homem rígido dificilmente entregaria biscoitos de baunilha para Bia e nem se dirigiria a ele com tamanha sensibilidade como quando o parabenizou por evitar de Patrick tirar vantagem dela. Eram pontos destoantes os quais o intrigavam por não o compreender.
  Na sétima noite arriscou se virar para fitá-lo com curiosidade. Pela leve agitação era visível o desconforto por ser pego. Pestanejava, mordia o lábio inferior e engolia em seco. Trocava o peso nas pernas tencionando se retirar. Buscando tranquilizá-lo, o semblante de Sebastian suavizou graças ao pequeno sorriso sem mostrar os dentes. Incerto por alguns instantes se seria prudente, retribuiu o gesto – não necessariamente pela cortesia, mas sim porque achou adorável a forma como o moreno se dirigiu a ele. Nunca havia sido olhado daquela maneira casual, como se o escravo realmente gostasse de vê-lo – e era o caso.
  Os meses se passaram daquela maneira. Durante o dia se mantinham distantes, cada um em seus afazeres. À noite, a partir do horário estipulado para encerrar seus deveres, Damon o aguardava com uma ansiedade incomum na janela do escritório. Sebastian se pegava apreciando o sorriso retribuído pelo mais novo. Não o via sorrir tão naturalmente no dia a dia. Era uma pena, já que o ato iluminava o belo rosto.
  Futuramente, quando as coisas evoluíssem o suficiente para adentrar furtivamente no quarto do patrão, lhe confidenciaria com o corpo do amado sobre o seu, ambos deitados na cama:
  - Eu adoro olhar pra você. Seu sorriso é lindo.
  - É por isso que ia para aquela parte da mansão em frente ao meu escritório todas as vezes? – com Sebastian poderia usar o seu tom de voz sem disfarçar. Não era grave como se monitorava constantemente para reproduzir. Era macio e melodioso.
  - Sim. – roçou os lábios nas ondas ruivas, o apertando gentilmente contra si.
  Adoravam a sensação dos corpos nus se tocando, então era um alívio poderem desfrutar daquelas horas juntos trancados nos aposentos luxuosos do homem quem se acostumaria a chamar de amor, bebê ou meu pequeno quando estivessem sozinhos.
  Apoiou o queixo no peitoral moreno, ambos se encarando em devoção. O sorriso meigo só se desfez porque voltou a beijar os seus lábios preferidos.

  Sábado a casa estava cheia ao final da tarde.
  Como existia a possibilidade de Patrick comparecer, Bianca pediu para a menina ficar em seu quarto com a porta trancada cuja chave ficaria com a pequena.
  - Eu não queria isso porque bailes são divertidos, mas a sua integridade física é mais importante. – avisou a governanta uma hora antes dos convidados chegarem.
  - Quando terminar trago um prato com as comidas pra você provar. – Sebastian, quem aos poucos se tornava sua figura paterna, lhe assegurava acariciando os cabelos longos.
  De fato, a promessa foi cumprida. Na saída do último convidado, correu para a cozinha. Com a ajuda da cozinheira, separou num prato diversos alimentos para levar até ela.
  Kassandra organizara um baile para as famílias da região. Apenas escondeu as suas reais intenções de todos.
  Era a figura perfeita perante a sociedade. Foi criada para o matrimônio, então exercia o papel primorosamente. Ninguém imaginaria que, por debaixo da imagem educada, carregando o orgulho da sua posição como característica marcante e as vestes sempre arrumadas e passadas, era amarga porque, no íntimo, não desejava aquilo para si – ou melhor, não desejava viver aquilo sendo esposa de um homem.
  Assim como o marido, vestia uma máscara para agir de acordo com o que esperavam dela. Em função disso, se obrigava a trajar os melhores vestidos por anos sem desejar ter tantas características femininas neles. Ao se inspecionar no espelho para averiguar se a imagem estava de acordo com a moda atual, não se reconhecia. Seu verdadeiro desejo era não usar peças tão volumosas e nem com elementos tão femininos. O cabelo poderia ser mais curto e talvez, caso pudesse ousar a tal ponto, calças e blusões com coletes combinariam mais com quem era.
  Cresceu apagando a sua essência e a sua voz. A única alegria era quando estava na companhia de sua melhor amiga, Celie, por quem nutria forte sentimento o qual demorou anos a desvendar e nomeá-lo como amor. Logo, na primeira oportunidade, se afastou do marido para desfrutar da presença dela, quem era casada com Anthony.
  Suportava a presença de Anthony em respeito a mulher de longos cabelos pretos. No íntimo, torcia para ele se distanciar, então teria a ilusão de estar mais próxima, quase como se fosse sua esposa.
  Em seu escritório, o ruivo estava esparramado no chão com seu único grupo de verdadeiros amigos: Marie, Simon e Dean.
  As famílias eram amigas, então não foi surpresa a nova geração ser inclinada a desenvolver a bela amizade. Ao contrário dos demais, inconscientemente, derrubava as barreiras de proteção construídas ao redor. Usava seu tom de voz natural, ria, relaxava os músculos ao invés de sempre se manter tenso. Não era criticado pelo trio. Ao contrário. Na presença deles e da governanta, eram as únicas pessoas que se sentia seguro para ser quem era. Não imaginava que, futuramente, isso iria se estender a Bia e Sebastian.
  - E como anda a vida, Marie? – indagava comendo um quitute de chocolate.
  - Terrivelmente enfadonha. – se queixou cruzando as pernas sem se importar se elas apareciam. Na companhia do trio, não haveria nenhum perigo para desentendimentos ou comportamentos indesejáveis por parte dos amigos – Pra melhorar, a moda sempre demora pra chegar por aqui. Duvido que as mulheres estejam usando esses trajes lá fora.
  - Não pensa em se casar, não? – Simon bebericava vinho.
  - E sofrer nas mãos dos maridos assim como a grande parte das mulheres espalhadas pela casa? Deus me livre! Prefiro a minha solteirice ou me tornar amante de um homem gentil. No máximo ousaria pensar em me casar com Damon, mas seria um verdadeiro incesto por sermos irmãos de alma.
  - Seria capaz de ser amante, amiga? – Dean se assombrou pela fala, não pela ideia.
  - É claro! Melhor do que tomar na cara. – respondeu sem rodeios – Meu rosto é bem bonitinho pra ter qualquer hematoma acidental. Pelo menos a Cassie não precisa se preocupar com isso.
  - O ruivinho é decente demais para agir covardemente. – Simon lhe deu uma piscadela marota – E como anda o casamento? Bebê à vista?
  O três eram os únicos a chamarem-no pelo apelido – é claro, usado unicamente quando estavam sozinhos e jamais em público para não causar desconforto.
  - Não há como saber. Não consigo entendê-la. Ela está casada comigo, é bonita, a trato bem, sou cordial... Não sei por que sou incapaz de amá-la. – ao pronunciar as palavras pôde tirar esse peso das costas em anos.
  - Está enfiando no lugar certo, ruivinho?
  A frase da jovem arrancou risadas deles.
  - Como é despudorada essa menina. – o loiro apanhou a pequena almofada macia entre as pernas para jogar nela.
  - Mas é um ponto importante, gente! – a apanhou no ar antes de atingir o rosto.
  O único ali quem não sabia sobre como Simon e Dean eram homens incomuns por escondidos, não seguirem as regras sociais era o dono da casa. Era sempre rígido demais para tratar das situações. Apesar de desconfiarem de o rapaz ser um igual, temiam levantar o assunto por repreendas ou até se distanciar deles, consequência do processo de negação e rejeição de sua natureza.
  A amiga engatinhou até se colocar em suas costas, lhe abraçando fraternalmente.
  - Talvez vocês simplesmente não se amem. Isso acontece com as pessoas. Não significa que sejam ruins. Apenas incompatíveis emocionalmente. – sussurrou lhe beijando a bochecha.
  - Nem todo mundo pode se casar com quem realmente ama. – Dean soou pesaroso por se lembrar dos momentos desfrutados na companhia do único homem quem realmente amara na vida.
  Hoje eram amantes e quase não se viam. Só sabia como o sentimento era forte devido aos encontros furtivos e as cartas trocadas em datas específicas para não levantarem suspeitas ou serem descobertos.
  - Talvez esse dia chegue. Até lá... – Simon se solidarizou – Temos esse quarteto maravilhoso de amigos.

  Sebastian foi solicitado por Bianca no segundo andar perto do escritório de Damon. Ao passar em frente a porta a qual fora trancada para dar a devida privacidade para o rapaz e seus amigos, paralisou graças ao som ouvido.
  Dentre as demais, a gargalhada do ruivo se sobressaía. Era espontânea, alta e contagiante. Lhe arrancou um sorrisinho discreto, nada além de diminuto repuxar nos cantos dos lábios. Parou por meros segundos para apreciar as risadas, aproveitando a oportunidade por não haver mais ninguém ali. Pensou se, um dia, seria capaz de ouvi-la sem o bloqueio de uma porta de madeira.
  - Olha quem encontrei.
  Entrou em estado de alerta ao ouvir a frase porque conhecia bem a voz.
  Patrick pisava o último degrau da escada se encaminhando para o escravo. Discretamente, o moreno se pôs de costas bem perto da porta. De propósito, tamborilou os dedos na madeira tentando chamar atenção do dono da fazenda.
  - Acho que pode me tirar uma dúvida. Onde está aquela menina?
  Odiou não poder fazer nada contra o homem por não terem o mesmo tom de pele. Do contrário, as chances de o desgraçado continuar vivo eram mínimas porque Bia fora a única quem escapou.
  - A pergunta deve ser dirigida ao senhor Smith. Mais ninguém além do senhor Damon Smith deve lhe responder qualquer questionamento.
  Ao proferir o nome do ruivo, aumentava o volume propositalmente.
  Talvez Patrick fosse movido pela resistência das vítimas porque Sebastian captou o olhar repleto de interesse, o mesmo que costumava lançar em quem o atraía. Por estarem sozinhos no corredor, poderia se afastar. Entretanto, temia pela segurança da criança pelo homem ser sorrateiro. Logo, não seria possível baixar a guarda quando o assunto fosse a segurança dela.
  Se manteve no lugar embora quisesse se afastar em virtude da proteção de Bia.
  A expressão do moreno endureceu à medida que Patrick dava passos em sua direção, parando perto demais.
  - Vamos, não seja mal-educado. Caso seja gentil comigo, sei retribuir como ninguém, meu caro.
  O impediu de tocá-lo o agarrando pelo pulso.
  - Sou apenas um escravo. Os assuntos da casa dizem respeito ao senhor Smith. Não a mim.
  - Pena. – o avaliou de cima abaixo desejoso se aproximando mais – Poderíamos nos dar muito bem, não acha?
  Virou o rosto para o lado em repulsa. O sentiu tocar a sua pele na lateral do pescoço, descendo os dedos vagarosamente.
  - Talvez...
  Como no interior Damon ouviu tanto o seu nome quanto o tamborilar, vestiu sua máscara ao abrir a porta do escritório. Por ser pego de surpresa, o loiro se afastou de súbito.
  - Posso saber o que está acontecendo?
  - O senhor Taylor está procurando pela menina. – respondeu prontamente sem deixar transparecer o alívio pela aparição – O avisei que não sou eu o responsável por lhe entregar a informação, mas não serviu de nada porque insistiu em saber o paradeiro da garota.
  - Mentiroso! O que ganha tentando me prejudicar? Apenas queria saber se ela estava bem. A coitada é tão frágil. Só um completo desumano não se preocuparia com o estado de saúde dela. Nada mais.
  Geralmente soava convincente em suas mentiras. Dessa vez não seria diferente – caso Damon não o conhecesse.
  - Não subestime minha inteligência. É um insulto a mim sequer cogitar que eu acreditaria nas suas palavras. Se contente a ideia de nunca mais vê-la, Patrick. Vá embora. A festa acontece lá embaixo. Não aqui.
  Caso insistisse correria o risco de se prejudicar. Sem melhores opções, acenou em educação protocolar para descer as escadas.
  O aguardou perdê-lo de vista para se assegurar:
  - Certeza de que a Bia trancou a porta do quarto?
  - Sim. Não vai abrir para ninguém além de mim, o senhor ou a Bianca.
  - Ótimo. Me demorei demais nesse escritório. Vou descer para evitar quaisquer intercorrências com Taylor. Por favor, vigie-o. Ao menor sinal estranho, me chame imediatamente para eu interferir.
  No andar debaixo, até o final do baile, Sebastian se perguntou o motivo de não o ouvir rir antes de maneira tão espontânea na presença dos convidados.
  Era uma e meia da manhã quando a governanta e a cozinheira levaram ele e Bia para o exterior da mansão. Com exceção dos Smith, os escravos da fazenda estavam acordados. Se enfileiraram na porta dos fundos carregando suas respectivas tigelas e canecas. Alguns ajudaram a carregar as grandes panelas e tigelas repletas de comida o mais silenciosamente possível. Em seguida, distribuíam para cada pessoa dali. Nem os poucos adoentados foram excluídos. Sebastian se encarregou de levar os alimentos para a senzala, os entregando para quem ainda não se recuperara completamente de gripes ou outras doenças mais leves.
  A taxa de mortalidade dos escravos da fazenda Smith era bem baixa, resultado de Damon, escondido, chamar Dean para examinar os adoentados no período noturno quando a esposa estivesse adormecida ou no período diurno, quando ela não estivesse em casa. Em seguida, em menos de 48 horas, entregava os remédios prescritos pelo médico de maneira justa, sem pedir nada em troca ou descontar do valor que costumava conceder para cada em datas consideradas como importantes para a sociedade da época – tudo de maneira discreta e escondida, sem Kassandra ou qualquer outra pessoa além dos envolvidos tomarem ciência.

  Na manhã seguinte, avaliava alguns papéis dispostos em sua mesa organizadamente. Os usava como distração para não pensar na razão de Sebastian não aparecer para as caminhadas noturnas.
  Não era como se devesse sair apenas para o dono admirá-lo. Apenas sentia-se vazio sem os encontros costumeiros, quase como se faltasse uma peça relevante para o seu dia ser completo ou satisfatório.
  Ao ir para o corredor já farto dos próprios pensamentos inquietantes, esbarrou com o escravo acidentalmente. Foi completamente inesperado, resultando no escorregão do maior, quem caiu no chão com um baque abafado.
  - Desculpa. – o ruivo se lamentou tampando a boca com a mão direita – Está tudo bem?
  - Não é como se isso nunca tivesse me acontecido. – bem-humorado, o encarou apoiando as mãos no chão.
  Ao notar as feições tranquilas de Sebastian, foi impossível não dar uma risadinha tímida mordendo o lábio inferior.
  - Vem. Eu te ajudo. – estendeu a mão.
  Acharam intrigante apreciarem a textura das palmas unidas quando o mais velho a segurou com certa delicadeza, mas não comentariam nada a respeito.
  - Se machucou, não, né? Preciso chamar o... – Damon o avaliava atentamente.
  - Não se preocupe. Pela primeira vez vejo vantagem nessas roupas. Amaciaram a minha queda, acredite. – acalmou mexendo os ombros para aliviar a dor.
  - Elas combinam contigo.
  Demorou três segundos para compreender o que havia dito. O moreno achou adorável a transformação nele ao notar o teor da frase, entretanto duvidava que houvesse percebido também como continha certa apreciação ou admiração no tom de voz. Arregalara as pálpebras, o sorriso ganhou um toque discreto de desespero e a face se avermelhou.
  - Concordo plenamente. Combinam comigo, sim. – falou para dissipar o constrangimento nele pelo elogio inesperado.
  Por vislumbrar a faísca de algo que encheu seu coração de um calor inusitado, soltou o ar preso nos pulmões.
  Só então notou que estavam de mãos dadas. Damon recolheu a sua de súbito. Mais tarde se repreenderia por ter sido tão imprudente enquanto, tocando a palma inconscientemente com os dedos, se perguntava o motivo de querer repetir o gesto ou prolongá-lo naquele momento.
  - Desculpa. – repetiu com uma pontada de culpa.
  Nem sabia por que se desculpava: se pela queda ou pelas destras unidas.
  Encolheu os ombros quando Sebastian estendeu os longos dedos na sua direção como se buscasse pelo toque.
  Novamente enxergou indícios da verdadeira personalidade de Damon, aquela a qual buscava esconder. Os olhos se encheram de um contido temor do desconhecido. De ombros retraídos, pestanejando incerto e os lábios entreabertos a imagem demonstrava certa fragilidade.
  - Hey. – ousou roçar o indicador levemente no pulso por cima das vestes – Está tudo bem. Não precisa ter medo de mim.
  Era notável como travava uma luta interna por não entender como gostava dos simples gestos. Simultaneamente, queria sair correndo porque, graças a sua criação, aquilo fugia da construção de homem cuja sociedade esperava dele exercer o papel.
  A percepção lhe causou certa empatia e solidariedade. Diferente das histórias contadas por sua mãe quem fora trazida do Continente Africano, as terras das Colônias Britânicas tratavam certos assuntos como tabus ou proibidos. A mulher contava para o filho sobre como a sociedade de onde fora criada funcionava, assim como as crenças e a forma de se pensar para o menino não se desgarrar de suas origens ou esquecer quem era. Portanto, suas concepções eram naturalmente mais livres, sem tantos erros, dogmas, regras ou pecados. Em virtude disso, para o mordomo, alguns temas eram banais, assim como demonstrações de afeto entre as pessoas eram consideradas normais para si. E era também a causa da imagem do patrão se fazer cada vez mais presente em seus pensamentos – parecia existir afeto reprimido o qual jamais poderia externalizar por detrás da aparente indiferença constante.
  Abriu a boca algumas vezes prestes a perguntar algo. Como lhe faltava coragem, a fechava de imediato antes das palavras serem proferidas. Por fim, na quinta tentativa desistiu. Engoliu em seco cruzando os braços e encarando o assoalho.
  - Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor? – soou gentil, a voz não passando de um murmúrio detectando o esforço do outro em se expressar.
  - Por que... Por que não... – se encolheu ainda mais, como se sentisse dificuldade para questioná-lo pelo corpo tentar impedi-lo já que por não era prudente – Por que não apareceu ontem?
  Como o olhar estava baixo, não o viu fitá-lo com um sorriso meigo, como se descobrisse o resultado de uma complicada equação a qual o rapaz ainda não foi capaz de solucionar por não ter sido apresentado ao conhecido devido para a sua compreensão.
  - Eu estava ajudando Bianca na distribuição de comida para os escravos na senzala.
  - Verdade. Eu tinha esquecido.
  Não era desatento. Entretanto, o anseio por vê-lo sobrepujou sua memória.
  Se não fosse pelo vislumbre de quem o rapaz realmente era, jamais ousaria dar prosseguimento a ideia perpassada em sua mente.
  - Nos vemos mais tarde, então?
  - Claro.
  Ponderou se seria sábio de sua parte arriscar-se em tocá-lo de novo. Na dúvida, esticou a mão sutilmente. O notou prender a respiração e ser tomado pela insegurança e pelo medo – talvez até medo de si.
  Pela reação apreensiva e arredia achou melhor não. Era importante respeitar o seu limite. Não deveria ser apressado para não o assustar.
  - Até o anoitecer, senhor Smith.
  Antes de descer as escadas o fitou de esguelha por sentir o olhar repleto de expectativa e curiosidade beirando a inocência do ruivo sobre si.

  Quando Kassandra já havia ido se recolher, Damon se encaminhou para o escritório. Após acender a lareira, franziu o cenho ao detectar algo diferente em sua mesa. Era um pequeno recipiente cujo conteúdo era uma porção de doce de leite – sua sobremesa favorita. Ao lado a colher foi depositada junto a um bilhete.
  Espero que possa degustar junto a mim daqui a pouco.
  Desconfiado da sua mente o levar longe demais, foi para a janela com o presente nas mãos.
  Para a sua surpresa, Sebastian o aguardava sentado no gramado. Ao contrário das demais vezes, se sentara casualmente posicionado em direção para o escritório de Damon, bem em frente. Demorou dez segundos para notar a chegada por observar distraído os vaga-lumes. Interessado na figura ao direcionar a atenção para a janela do escritório onde o outro resolvia questões financeiras e burocráticas, apanhou um recipiente mais simples comparado ao que deixou no escritório, onde também tinha doce de leite.
  Novamente a palma coçou para sentir a textura da derme de Sebastian na sua, assim como sentiu as desconhecidas borboletas na barriga surgindo pela primeira vez trazendo a leve adrenalina de quem, a despeito da incompreensão, começava a nutrir os sinais claros do interesse romântico.
  O escravo viu a transformação na face. Outrora rígida, tornou-se cativante, principalmente ao abrir o fascinante sorriso com a capacidade de lhe iluminar o rosto.
  Se contemplando, passaram mais de sessenta minutos assim enquanto comiam as respectivas sobremesas. De vez em quando sinalizavam para a Lua ou se comunicavam por meio de sinais em expressões contentes.
  Instintivamente tocou no vidro da janela para se despedir lhe lançando um olhar cheio de curiosidade e contentamento.
  A janela era o único bloqueio físico entre eles até então – não por muito mais tempo.

CONTINUA...



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