O que Julia não disse

Escrito por Maraíza Santos | Revisado por Mariana (Até Capítulo 11) & Lelen

« Anterior
Tamanho da fonte: |


I. Do cabelo

  Inglaterra, outubro de 1851.

  Julia Lewis não disse às irmãs que cortou o cabelo. Ela sentira-se muito melhor quando, em um ato impulsivo, deixara-o na altura do ombro. Imaginara como seria o choque das irmãs com novo corte: Lilian arregalaria os olhos e Millie perguntaria “você cortou o cabelo?” e ela responderia “sim, cortei”.
  Não foi o que acontecera. Ninguém comentou do cabelo curto de Julia; na verdade, elas não perceberam que o penteado simples tinha ficado menor. Era um tanto patético a sensação de ser ignorada; o desinteresse das irmãs, no entanto, era a nova realidade da primogênita dos Lewis.
  Olhando o reflexo do espelho, Srta. Lewis arrumou o penteado simples na cabeça. Havia dispensado a dama de companhia mais uma vez, pois odiava que tocassem em seu cabelo. Claro, isso a fazia demorar mais do que o aceitável para arrumar-se, mas ela sempre dava conta. Caprichou bastante no pó branco no rosto, disfarçando as olheiras de quem dormira apenas duas horas na última noite. O vestido cinza era um dos que Millie comprara quando ainda estavam em Berkshire Hall.
  Suspirou como quem não respirava normalmente nos últimos minutos. Viu o reflexo de si mesma subir e descer devagar. A imagem era quem todos conheciam; e que novas pessoas conheceriam. Era o grande dia. Iria para o teatro como pianista pela primeira vez. Mal podia esperar.
  Estava nas nuvens quando saiu do quarto. Se não fosse tão cedo, gritaria pelos corredores de animação. Rodopiaria sem medo de cair nos degraus, abraçaria o mordomo e elogiaria a cozinheira em demasia.
  Na sala de jantar estava apenas Lorde Byron, o cunhado dela, lendo o jornal enquanto bebia chá preto. Incapaz de encará-lo, os olhos da mulher fitaram a mesa posta.
  ― Bom dia, Logan.
  O nome dele soou muito intimista. Sentia que desde o último incidente não tinha mais o direito de chamá-lo daquele jeito, ainda que voltar às formalidades era tão estranho quanto.
  ― Bom dia, Julia ― disse antes de levar a xícara até os lábios mais uma vez.
  O silêncio que seguiu-se incomodou. Ela tentou sentar-se e comer, mas a quietude a desconcertou.
  ― Millie já acordou? O chá fez efeito? ― perguntou de repente.
  ― Sim, sim. O enjôo passou ― replicou ele enquanto passava as páginas. ― Hoje é o dia em que você irá para o teatro, não é? Seu primeiro dia?
  Julia sorriu e assentiu com a cabeça.
  ― Boa sorte.
  ― Obrigada, Logan.
  E voltaram a comer em silêncio.
  Lorde Byron dobrou o jornal com cuidado. Buscou um pouco de pão pela mesa e analisou a cunhada. Estava pálida ou era exagero da maquiagem? Emagreceu ou era impressão dele?
  ― Quando irá dizer a ela?
  Julia ficou tensa. Pela primeira vez depois de muito tempo ousou olhar para Byron.
  ― Do que está falando? Você não disse a Millie, disse?
  ― Eu prometi que não diria ― disse ele ―, mas não guardarei o segredo por muito tempo.
  A Srta. Lewis deu um longo suspiro. A voz possuía um tom falsamente forte quando ela disse:
  ― O que aconteceu diz respeito só a mim.
  ― Claro que não é…
  Sentindo que estava perto de vacilar, a mulher levantou-se em solavanco. Engoliu o seco imaginando se iria perder as estribeiras mais uma vez.
  ― Preciso ir.

  O teatro da Companhia Selene era um prédio de esquina na Shelton Street. De arquitetura singela e simples, o lugar possuía paredes brancas e quarenta e cinco pequenas janelas. O formato de trapézio da estrutura pré anunciava o que se esperava no salão principal; por outro lado, também escondia a sofisticação para apenas os que pagavam o ingresso. Destacava-se pelas sete portas de vidro que nunca estavam igualmente abertas e arrancavam uma pequena olhadela de quem passeava pela esquina de West End. Não era, de qualquer maneira, a primeira escolha dos mais nobres ― o que não diminuía na qualidade de suas apresentações.
  A Selene não foi o primeiro grupo a quem Julia buscou a oportunidade de emprego; ouviu muitos nãos e risos de deboche de outras companhias na semana em que fugiu de casa. Mas, então, havia naquela construção alguém que deu-lhe uma chance e escutou-a tocar.
  Julia deu um longo suspiro antes de entrar pela porta escondida de lado da entrada principal. Quando indagada pelo bilheteiro para onde estava indo, explicou que era a nova musicista da casa. Com desconfiança, o homem permitiu-a entrar.
  O frio na barriga aumentou conforme andou pelo pequeno corredor que entrara a um mês atrás. Ainda lembrava da sorte de encontrar o maestro de frente ao teatro enquanto ele fumava. Entrou à caminho da sala de ensaio, o mesmo lugar que antes fizera seu teste para o trabalho.
  Os corredores estavam bastante movimentados. Os músicos andavam em passos ligeiros e gritavam uns aos outros que o maestro havia chegado. Eram em grande maioria homens e estavam tão eufóricos que a presença da nova pianista era só mais um elemento ignorado pelo cenário.
  De ponta de pés, a Srta. Lewis ergueu-se para encontrar o maestro Michael Howells; na multidão de rostos, ela procurava um homem de cabelos cinza e olhar severo. Ainda lembrava do tom grave e rígido da voz dele ao dizer “mostre-me o que sabe, então”.
  Era tudo que Julia precisava ouvir.
  A orquestra parecia ter comparecido em peso ― havia desde instrumentos de cordas à de percussão. Os músicos entravam em uma porta onde havia um jovem baixinho que segurava as cópias das partituras; ele, por sua vez, recebia pequenos sacolejos de cada um deles; às vezes pareciam amigáveis, às vezes maldosos. Ele, porém, sorria com submissão e simpatia.
  Juntou-se ao grupo de músicos sem ser percebida e caminhou até o salão de ensaio do teatro. Ele era menor que o palco, mas não o suficiente para ser sufocante ― o papel de parede de tom pastel estava repleto dos retratos de antigos e respeitados donos da companhia, também dispunha de espelhos cobertos por lençóis e uma grande janela no sentido poente. As cadeiras estavam acomodadas em um meio-círculo onde os diferentes artistas sentavam; os tímpanos e os bongos, a harpa e os outros instrumentos de corda seguravam as duas pontas. No canto direito estava um piano vertical de cor escura, aquele que Julia tocou As Quatro Estações de Vivaldi como prova de que poderia somar à orquestra. Os olhos ambiciosos, porém, pousaram no bonito piano de cauda que ficava no centro da meia-lua.
  A Srta. Lewis, sendo uma mulher interiorana e impressionável, ficou deveras animada ao observar as pessoas encaixando-se em suas posições como de quem fazia aquilo rotineiramente. Imaginou que em breve também faria os mesmo movimentos com naturalidade.
  ― Ei, senhorita ― chamou um violinista cutucando-a. ― Está perdida?
  ― Estou procurando o Sr. Howells ― replicou.
  O músico tinha uma barba mal cuidada e olhos de quem não queria ter levantado da cama. Respondeu a mulher com um sorriso amarelado e malicioso, o tipo errado de sorriso.
  ― Ah, sei… Não acha melhor esperar acabar o ensaio? Aqui não é o…
  ― Raphael, vamos! ― exclamou outro homem, empurrando-o para a frente.
  Julia cruzou os braços e afastou-se sem despedir-se daquele homem grosseiro. Com o olhar buscou mais uma vez o maestro. Deveria ter chegado mais cedo do que imaginara? A data estava correta? Será que deveria atravessar o pequeno caos e sentar-se perto do piano?
  O barulho das conversas misturavam-se com os sons de diferentes pessoas afinando seus instrumentos. Caótico, era verdade, mas capaz de dar um conforto que Julia não sentia há bastante tempo.
  Quando viu o maestro Howells suspirou aliviada. Ensaiou ir em direção a ele, quando observou-o bater a batuta contra uma cadeira.
  ― Que barulho é esse?! Estão no Borough Market por acaso?
  O silêncio foi quase instantâneo: os músicos calaram-se e largaram as mãos de seus instrumentos como se eles pegassem fogo. Julia engoliu o seco, ficando presa no lugar que estava em pé.
  ― Espero que tenham aproveitado os dias de folga ― disse o maestro, embora seu rosto dissesse justamente o contrário. ― Nossa próxima ópera será um clássico como podem ver: Dido e Aeneas. Já performamos algumas vezes, então não acredito que será um problema...
  Um murmúrio de insatisfação correu pelo salão, mas ninguém foi corajoso o suficiente para dizer alguma coisa em voz alta. Julia fitou-os curiosa; não conhecia a peça. Na verdade, nunca tinha visto ópera ao vivo.
  ― Também quero apresentá-los a pessoa que ficará no lugar do antigo pianista.
  A Stra. Lewis tremeu dos pés até a cabeça: êxtase e pânico misturavam-se como um veneno fatal para seus nervos. Não imaginava que em meio a tantos rostos o Sr. Howells havia a visto; agora, estava ele muito perto de apresentá-la para aquelas pessoas desconhecidas e talentosas sem que ela tivesse qualquer preparo.
  Aquele era o grande momento, o ápice do dia. Seria reconhecida como uma pianista ― não a mulher que tocava de vez em quando em casas de senhoras ricas, não uma simples professora de piano ― nem mesmo a cunhada fujona de um lorde ou a única filha do Sr. Lewis que foi para escola.
  Ela seria uma pianista de ópera. Uma pianista de verdade. Falaria com o público através da música, embora poucos conhecessem seu rosto. Teria o nome listado em um pequeno folheto esquecido, mas ainda assim seria o nome dela.
  Julia Lewis, a pianista.
  ― Recebam Liam Woodhouse, o pianista.
  Tudo ficou muito frio de repente. Um zunido sobrepôs a salva de palmas que varreu o ambiente, os pequenos cochichos sufocando a garganta.
  Um grande dia, realmente.



Comentários da autora