
O Purgatório de Snape
Escrito por Julia Fernandes | Editado por Natashia Kitamura
Primeira parte — Confusão
Give your heart and soul to charity
‘Cause the rest of you
The best of you
Honey, belongs to me
NFWMB, Hozier.
"Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho." (Cantares de Salomão 1:2).
Ele ainda se lembrava nitidamente da primeira missa que celebrou depois de... Era difícil dizer — Céus, era difícil aceitar! — o que havia feito. Lembrava-se de estacionar quatro metros antes da igreja, de fazer o sinal da cruz quando pisou debaixo do teto sagrado, de manter os olhos baixos, incapaz de olhar na direção do altar e, principalmente, do Jesus crucificado.
Padre Flitwick — que celebrava as missas na parte da manhã — o cumprimentou e Snape o respondeu com um grunhido. O senhorzinho franziu o cenho, mas, por fim, decidiu ignorar, já que Padre Snape era conhecido por às vezes ter dias ruins. A maior bênção de Snape foi não ter cruzado, a princípio, com Madre Minerva. Não poderia olhá-la nos olhos, não... Não seria capaz sem que se sentisse o homem mais sujo da face da Terra.
Trancou-se na sacristia e lá permaneceu até que não pudesse mais adiar. Estava, pelo menos, sete minutos atrasado para a missa das 17h. Demorou porque perdera a noção do tempo enquanto rezava todas rezas que sabia, lia e relia os salmos que costumavam acalmá-lo e agarrava-se ao terço que deveria lhe trazer acalento. Além disso, precisou de coragem para vestir a batina, a estola, e quando o pingente de cruz do cordão caiu sobre seu peito, ele chorou.
Apesar disso, secou as lágrimas com raiva e respirou fundo. Quando deixou a sacristia, ele estava vestido com sua melhor máscara de amabilidade indiferente. Cumprimentou os fiéis já conhecidos, as beatas assíduas, Minerva, Neville e Luna. Felizmente, não estava lá.
No microfone, sua voz permanecia inalterada, suas homilias continuaram sucintas e claras. Sentiu-se em paz pela primeira vez desde o desastre em sua cama. Aliás, o efeito do analgésico estava passando, e a dor nas suas costas começava a ressurgir: não era capaz de dormir na própria cama após o ato horrendo que cometera. O sofá estava sendo seu leito nos últimos dias.
Mas foi ali, pregando, vendo os rostos emocionados e devotos daquelas pessoas, toda a força da fé ao seu redor, as vestimentas no seu corpo, que pela primeira vez em dias ele se sentiu em paz. As palavras de Dumbledore jamais saíram de sua mente, e o que mais martelava dentro de si era: “Deus é bom, meu filho. Mas cabe a você decidir”.
Não era uma decisão fácil. Não porque queria largar tudo e viver ao lado de . Não, não era isso. Mas, porque, sua vida toda era o sacerdócio, ele não tinha mais nada além disso. E ao mesmo tempo que não sabia se poderia ainda viver como padre sabendo da profanidade que cometera, também tinha medo de renunciar a batina e, ainda assim, viver em sofrimento e arrependimento. De qualquer forma, Snape sabia que aquilo jamais o abandonaria. Sendo assim, optou por continuar na paz do Senhor do que se entregar totalmente ao pecado.
Não deixaria vencer. Não deixaria o Diabo triunfar sobre si.
. . .
Os dois primeiros meses foram de total medo e pacificidade para Snape. Ainda era difícil, ainda se sentia intimidado sempre que chegava à igreja — como se as imagens dos santos os julgassem, como se seus fiéis soubessem o que tinha feito — e ainda se deslocava para Hackbridge para se confessar com Monsenhor Dumbledore. Entretanto, conseguira voltar a dormir na própria cama, conseguia vestir a batina sem se sentir imundo, conseguia — graças a Deus — não sonhar com ela e com o que fizeram, e, principalmente, conseguira se livrar daquele pedaço maldito de papel que continha o poema. Seu maior acalento, sem dúvidas, era o fato de não tê-la mais visto.
Sabia que continuava indo até a igreja duas vezes por semana para administrar o grupo de leitura. Neville algumas vezes comentava que ela ficava para as aulas de música também; os pais das crianças também às vezes o procuravam para elogiar a professora. Não havia dubiedade de que era uma professora maravilhosa e que as crianças a adoravam, sem falar no trabalho belíssimo que vinha fazendo na formação daqueles jovens. Porém, qualquer menção do nome dela o desestabilizava e todo aquele temor e desejo quase o tomavam por inteiro novamente. Quase.
Mas o final de julho chegou e, com ele, o aniversário de Neville. Ele, Minerva e Filio estiveram organizando uma singela festa — que estava mais para uma simples reunião com bolo e balões — para depois do fim da missa das 20h. E Snape sabia que estaria, é claro. Foi por isso que seu tormento começou cedo, logo quando a missa das 18h30 se iniciou. O grupo de leitura costumava acabar naquele horário, mas era seguido pelas aulas de Neville. ficaria — ele constatou — na sala com o rapaz e as crianças até o encontro acabar às 19h45. Depois, os dois provavelmente assistiriam à missa, e ali jazia o seu maior medo — e o perigo.
A última missa do dia era a que mais atraía fiéis, geralmente. Era o horário em que os trabalhadores já estavam de volta para casa, as donas de casa já tinham concluído suas tarefas diárias, os mais jovens estavam livres do grupo de leitura e das aulas de música. Por isso, Padre Snape não notou nos bancos mais afastados da igreja quando subiu ao altar. Neville estava ao alcance de seus olhos, no segundo banco que sempre ocupava na missa das 20h. Acreditou que não estivesse ali — permitiu-se, então, respirar fundo. Talvez a mulher realmente tivesse se arrependido também.
Mas isso não era verdade.
Trepar com Padre Snape apenas deixou ainda mais insaciável. Ela pensou que levá-lo à cama acabaria com seu desejo irracional, que poria fim aos seus sonhos eróticos, aos vários poemas que escreveu tentando refrear suas vontades, mas não. Confessava que Severo Snape era sua mais nova e divertida obsessão.
Contudo, reconhecia que o que acontecera tinha um peso gigante para o homem. E, apesar de tudo, era uma mulher muito paciente. Deu tempo a ele. Talvez Snape estivesse pensando que estava arrependida, que estava envergonhada e que por isso sumira — embora não estivesse sumida, todas as segundas e quartas-feiras estava ali com seu amado grupo de leitura —, mas tudo isso era uma mentira que permitiu que Snape contasse a si mesmo. A verdade era que, mesmo de longe, esteve o manipulando. Permitiu que ele se acalmasse, que encontrasse paz, quem sabe até que tivesse a esquecido, para, assim, quando o encontrasse novamente, pudesse arruinar mais uma vez sua santidade.
E ela não precisou muito para conseguir isso. Snape estava completamente em suas mãos.
Aos poucos, as pessoas começaram a se levantar para se unir em fila para a comunhão. tinha feito a catequese — após a insistência da mãe —, mas alguns anos depois havia deixado a religião de lado. Não conseguia recordar a última vez que recebera a hóstia, e não achava que seria adequado se juntar aos outros na fila. Aliás, na poucas missas que assistira, também não havia participado da Eucaristia. Porém, ela pensou com divertimento, poderia ser um bom momento para lembrar Snape de sua existência.
Então se levantou. Sentiu suas mãos suarem e uma sensação engraçada em sua barriga. Era por essa adrenalina que gostava de viver sua vida — pelo menos na maioria das vezes. Lentamente as quinze pessoas à sua frente foram se dispersando. não lembrava de muita coisa dos ensinamentos cristãos, mas estava quase certa de que havia alguma exigência sobre estar em estado de graça e não guardar pecado mortal para receber a comunhão. Em seus pensamentos, ela deu de ombros.
Snape, como o bom padre que era, estava muito ciente de todas essas exigências — e talvez de outras. Talvez tenha sido por isso que ele engoliu em seco quando a visualizou na fila. Ou, também, era por não esperar vê-la ali, tão perto. Havia uma distância não tão considerável entre eles, e ele estava muito consciente do perfume que emanava dela. O mesmo perfume que ficou preso nos lençóis da sua cama e no seu corpo.
A hóstia foi mergulhada no vinho antes dos olhos de Snape se prenderem nos dela após tanto tempo. A contragosto, ele ergueu a mão na direção de . Ele parecia intensamente preocupado com a situação, principalmente porque sabia que ela não estava apta a receber a comunhão.
— O Corpo de Cristo — disse ele.
— Amém.
Diferente de alguns outros fiéis que preferiam receber a hóstia nas mãos, abriu a boca para receber o Corpo de Cristo diretamente das mãos de Padre Snape. Havia uma quantidade considerável de pessoas ao redor dos dois, por isso se ateve a apenas se certificar de que a ponta de sua língua roçasse os dedos de Severo. Ela não se recordava de alguma outra vez ter se sentido tão excitada.
Snape, por outro lado, sentiu-se ficar tonto com a sensação molhada em seus dedos. Lembrou-se de quando... Engoliu em seco mais uma vez. Lembrou-se de quando chupou seus dedos enquanto a fodia numa tarde nublada de meses atrás. A visão da língua para fora, aguardando pela hóstia, também não o ajudou a reprimir demais pensamentos, como a lembrança do seu sêmen derramado sobre as papilas de após ela ter o levado à loucura com apenas sua boca.
A mão do homem se afastou como se levasse um choque, e ela apenas respondeu com um piscar discreto. Retornou ao seu lugar e, imitando os demais, ajoelhou-se sobre o genuflexório para orar. Mas não orou. Apenas apoiou a testa sobre as mãos, escondendo o rosto, para mastigar a hóstia e sorrir com travessura.
. . .
A pequena reunião do aniversário de Neville correu de maneira comum. preferiu ficar mais afastada, conversando com Luna — que finalmente conhecera após tanto tempo — e trocando um assunto ou outro com Padre Flitwick. Snape permaneceu longe de todos, sentado com um singelo copo descartável com o líquido escuro do refrigerante e um prato com bolo apoiado em suas pernas. Os olhos pretos em momento nenhum se ergueram para ela.
O celular de marcava um pouco mais de 22h18. Neville se preparava para levar Luna para casa, e ela decidiu que já estava na hora de ir embora. Enquanto descansava a alça da bolsa sobre seu ombro, Madre Minerva perguntou:
— Querida, Neville vai levá-la para casa?
— Não, não — respondeu. — Ele já vai levar a Luna. Seria muito contramão para ele. Vou pegar um ônibus.
— Mas já está tarde. — Preocupou-se a senhora.
— Está tudo b-
— Eu vou levá-la. — A voz de trovão de Snape foi ouvida pela primeira vez ali.
— Não precisa, é sério. — Havia algo no tom dele que a deixou temerosa, e então já não parecia tão corajosa.
— Está tarde, Minerva tem razão. Vou levá-la.
Ele se despediu do grupo com um murmúrio e um aceno de mão. Caminhou para fora sem esperar que ela terminasse de falar com os demais. tampouco se apressou. Despediu-se de cada pessoa com atenção e carinho. De longe, Snape a observava com raiva. A jovem professora que admirou tanto um dia, hoje se mostrava uma mulher totalmente ardilosa.
Quando, enfim, se dirigiu para fora, Snape voltou a caminhar até seu carro. Entrou no automóvel ainda sem fingir que ela ao menos estava ali. O perfume sufocante dela o atingiu em cheio quando ocupou o banco do carona poucos segundos mais tarde.
Durante o trajeto até Kingston, ninguém disse nada. O rádio permaneceu desligado, a atenção de Snape se fixou na estrada e os olhos de , então, se prenderam em seu celular. Contudo, o destino decidiu traí-la e a carga do seu aparelho não durou por muito tempo. Obrigou-se a guardar o celular e tentou se distrair de alguma forma. Mas essa era uma tarefa árdua tendo um homem como Snape ao seu lado.
Ele ficava ainda mais sexy enquanto dirigia. Em algum momento naquela noite de verão, ele erguera as mangas da camisa até os cotovelos. A clérgima ainda estava lá, os cabelos caíam um pouco sobre os seus olhos. A mão esquerda segurava o volante enquanto o braço direito estava sobre o apoio da porta; o queixo descansava sobre os dedos longos.
Durante aqueles meses trabalhando com o grupo de leitura, ouvira muitas opiniões sobre o Padre Snape. A maioria concordava que ele era um homem de Deus, muito íntegro e caridoso. Entretanto, todos admitiam que Snape tinha dias ruins e podia ser muito rabugento às vezes. Não havia presenciado esse cenário, pelo menos até aquele dia. A fisionomia dele mudava drasticamente com a expressão fechada, as linhas na testa e a frieza. Sentiu-se intimidada por ele pela primeira vez desde que o conhecera. E, incrivelmente, isto também a deixou mais interessada nele.
— Qual é o caminho? — perguntou ele, repentinamente.
se sobressaltou em seu lugar. Notou que já estavam nos arredores do campus, e respondeu com as coordenadas da república onde morava. Em poucos minutos o carro adentrou a rua, porém, Snape estacionou pelo menos cinco metros antes da casa.
— É mais à frente...
— O que você fez hoje foi... — suspirou. — Foi horrível! De todas as coisas, , eu não esperava que fizesse isso.
Os mais de vinte minutos da viagem de Mitcham até Kingston fizeram a raiva de Snape se dissipar e dar lugar à incredulidade e decepção. Ela não gostou daquilo. Sentiu-se verdadeiramente mal e culpada; não eram sentimentos que gostava de sentir. Apenas quis se divertir, deixá-lo nervoso, mas agora estava sendo confrontada, e isso a irritou.
— Ninguém viu. — Tentou tranquilizá-lo.
— Não estou falando disso. — Ele finalmente se virou para ela. pensou que o que o perturbara tinha sido sua audácia de quase chupar os dedos dele na frente de toda igreja. — Recebeu o Corpo de Cristo mesmo não devendo, e pior, com a mais inadequada motivação possível. Eu nunca imaginei tanta aberração diante ao altar.
— Ai, Severo... — Revirou os olhos. — Me poupe!
— Te poupar? Talvez eu o faça se você me poupar primeiro. — As palavras arranharam a garganta dele. Jamais o vira tão transtornado.
— O quê? — não pôde evitar rir.
— Por que não pode me libertar? Por que essa necessidade irracional de me arruinar? O que eu fiz para você, ? Céus, o que eu fiz para Deus?
— Você realmente tá jogando a culpa pra cima de mim? — Seu tom aumentou. — Se permite que eu refresque sua memória, padre — cuspiu a palavra —, em momento nenhum eu o obriguei a nada. Nós dois trepamos porque somos dois adultos com vontades. Nem tudo é sobre Deus ou religião. Somos humanos!
soltou o cinto de segurança com agressividade, fazendo com que ele batesse forte ao retornar ao lugar de praxe. A porta, contudo, não se abriu quando alcançou a maçaneta.
— Abra a porta.
— Se permite que eu refresque sua memória — ele não deu ouvidos a ela —, me recordo de estar muito bem na minha paz até você chegar com seus pecados. Me lembro de toda dor após o erro que cometi e o perdão que encontrei na minha crença, até você voltar e fazer aquela cena que fez hoje durante a Eucaristia.
— Abra a porta. — repetiu sem paciência.
— Não. — As palavras dele eram duras. — Não até colocarmos nossa situação em pratos limpos.
— “Nossa situação”? — Repetiu com incredulidade. — Caralho, você é muito emocionado! Olha, Severo, foi uma ótima foda, ok?!
— Pare de falar assim.
— Assim como?
— Com... — suspirou. — Com esse linguajar.
— Mas a gente fodeu, não fodeu? Que outro termo quer que eu use? — Observou enquanto ele apoiava a cabeça nas mãos, transtornado e perturbado demais para argumentar mais uma vez. continuou: — E foi ótimo! Você foi muito bem para sua primeira vez. Agora, a gente realmente precisa transformar isso em algo maior?
— Transformar? — A fala dele soou trêmula. — Isso já é algo maior, ! Quer dizer, para você não, pelo visto. Porém, caso não esteja lembrada, eu sou um padre. Para mim, foi algo maior, para mim, foi... — Snape olhou pela janela à procura de algo que o acalmasse, mas o cheiro dela continuava ali. — Pra mim, é algo muito difícil.
— Pois bem, eu sinto muito por isso. Não vai acontecer de novo. — Não existia arrependimento genuíno em suas palavras. — Agora pode abrir a porra da porta?
— Eu não entendo por que está agindo assim...
— Se você não abrir, eu vou gritar — ameaçou.
— Não, não vai. — rebateu. — Você não é escandalosa.
— Eu não duvidaria de mim se fosse você.
— Não duvido de mais nada vindo de você. — Havia desprezo na voz e na postura de Snape. Aquilo a irritou ainda mais, e mais do que nunca desejou destruí-lo. — Mas se fosse para gritar e pedir ajuda, você já teria feito.
obrigou-se a se sentar corretamente no banco. Descansou as costas contra o couro e pôde sentir uma leve dor na lombar. Respirou muito fundo, permitiu que o silêncio os engolisse.
Tudo voltava a Snape como uma avalanche. A culpa, o arrependimento, o desespero, o desejo e agora a decepção. Após seu crime, tinha tentado convencer a si mesmo de que fora guiado unicamente pela luxúria. Essa mentira o ajudou a seguir em frente ao forçar-se a acreditar que fora alvo de um sentimento comum aos homens, e que isso não o fazia menos humano. Agora, entretanto, entendia que havia mais naquela situação, que havia sido impulsionado por mais questões do que imaginou a princípio.
Além do desejo sexual, reconhecia que havia um desejo transgressor de querer se enxergar como um homem comum pela primeira vez após tantos anos como padre, um desejo de querer se ver livre da batina e das pendências que vinham com ela. Havia também um cansaço pela vida mórbida, sempre a mesma; havia curiosidade e um ímpeto audacioso que nunca combinou com ele, mas que estava lá.
E havia .
A beleza dela foi o que primeiro chamou a atenção dele. Depois, a inteligência e paixão pelo que fazia. A admiração se mesclou com o interesse, e por diversas vezes se questionou se não estava confundindo apreço com paixão. Então vieram os sonhos, a obsessão criada pela sua mente que só conseguia pensar nela o tempo inteiro. Os olhos brilhantes, a decência que a deixava ainda mais encantadora. E, por fim, a quebra de tudo isso, que se iniciou com aquele poema.
Tinha ficado tão surpreso que chegou a duvidar da autoria. Não conseguia assimilar que — a “tia ” para aquelas crianças para quem ela lecionava —, tão comportada, tão respeitosa, era a mesma que escrevera aquelas linhas. A mesma que confessou através daqueles versos desejá-lo tanto quanto ele a queria, que até mesmo se equiparou à serpente que levou Eva à perdição. Snape era Eva nesse Gênesis contemporâneo, era a cobra que conseguira o que almejava.
E além de tudo isso, havia também mais alguns sentimentos ainda muito confusos para o pobre homem. Havia paixão — ou amor. Se ainda recordava como era se sentir apaixonado, então poderia afirmar que o estava. Ansiava por ela o tempo inteiro, e não falava apenas sobre sexo. Desejava-a ao seu lado, para abraçá-la, beijá-la, para cuidar dela. Seu coração acelerava à menção do nome da mulher, ao menor traço que seu perfume deixava no ar.
Contudo, havia espanto e decepção também. O poema já tinha sido surpresa o bastante, então veio todo o ato em sua casa. A conversa, a dança, sua resistência e sua fraqueza perante as palavras venenosas de . O assombro diante do sumiço daquela candura e o surgimento de uma diaba que o levou à loucura. A surpresa e decepção ao descobrir que sua era uma farsa, que a verdadeira era aquela que o arrastou até o Inferno e o abandonou à própria sorte. Era aquela que desapareceu, dando tempo e espaço para que ele se regenerasse de seus pecados, para depois bagunçá-lo novamente, desta vez na frente dos outros, diante do altar, maculando a comunhão.
— Severo — disse ela. Ali ele ouvia a delicada, pudica, e então ela tinha toda sua atenção. — Me perdoe.
— Eu a perdoo, o problema não é esse — murmurou, encorajando-se a olhar para ela. — Eu só preciso entender.
— Não é tão complicado. Eu o quero — respondeu o óbvio de maneira delicada. — Sei que não deveria, mas cá estou.
— Então somos dois — sussurrou ele.
uniu seus lábios aos dele, tão repentinamente que Snape não teve tempo — ou forças — para recusar. As mãos dele a seguraram pelo rosto, como se fosse uma pedra preciosa extremamente frágil. Suas línguas se chocaram em algum momento, levando aquele calor pelo seus corpos. Não era humanamente possível que uma pessoa pudesse ser tão doce, tão inebriante e viciante quanto .
Porém, Snape não percebera que o corpo inclinado sobre o seu possuía outros planos. Não notou que os olhos de se abriram e que sua mão caçava um botão específico do painel do carro.
Foi o som das portas sendo destravadas que o trouxe de volta à realidade. Ele a fitou com confusão e, mais uma vez, desapontamento. se afastou segurando a bolsa com força e alcançou a maçaneta sem nenhuma cerimônia.
— Boa noite, padre. Obrigada pela carona — disse sem fitá-lo uma única vez antes de bater a porta com força e seguir para casa sem olhar para trás.
Segunda parte — Penitência
“Quem é esta que aparece alva como o dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?”
(Cantares de Salomão 6:10).
Naquela noite, Snape voltou a dormir no sofá. Não só apenas pelas lembranças que sua cama trazia para atormentá-lo, mas, também, como uma forma de punição. Além disso, recusou-se a se medicar quando a dor de cabeça veio fortíssima, pungente, do lado direito de sua testa, fazendo com que estremesse; também se obrigou a jejuar.
Caíra em tentação mais uma vez. Deixou-se levar pelo veneno angelical de de novo.
Durante o — falso — pedido de desculpas dela e, principalmente, durante o beijo, ele quase se permitiu se decidir sobre algumas coisas. Acreditou, naqueles preciosos segundos, que ela poderia sentir o mesmo, que poderia o querer da mesma forma que ele a queria, isto é, além do prazer carnal. Por isso cogitou se entregar de vez, ponderou se valia a pena largar o sacerdócio — largar tudo por ela. E ele estava errado mais uma vez. Quantas vezes era permitido um homem errar num curto espaço de tempo?
Quantas vezes Deus permitiria que ele errasse por pecado?
E agora, novamente, ele não sabia como agir. Na melhor das hipóteses — ou na menos pior —, Deus poderia perdoá-lo dessa vez; afinal, não acreditava que um beijo pudesse ter o mesmo peso do coito.
Foda, trepa, transa, quase pôde escutar a voz de em sua cabeça tirando sarro dele por ter medo, receio, de usar palavras mais simples, mais… Mais verdadeiras.
Então, conseguiria ele seguir em frente após mais um beijo? Seria capaz de se perdoar de novo, de vestir a batida, a estola, o terço sem se sentir o pior dos piores monstros da Terra? Poderia olhar nos olhos de madre Minerva sem se sentir acuado, fugir das confissões com Padre Flitwick e, principalmente, encarar Monsenhor Dumbledore outra vez? Mas a mais importante de todas as indagações era: ele, Padre Snape, conseguiria resistir à algum dia?
. . .
Outro mês se seguiu sem grandes acontecimentos. Snape, estritamente, chegava à igreja cedo o suficiente para não se atrasar para a primeira missa que administrava, mas tarde o bastante para não correr o menor risco de cruzar, possivelmente, com . Na curta pausa durante uma liturgia e outra, trancava-se na sacristia. Uma vez encerrada a última cerimônia, voltava à sacristia apenas para remover suas vestes e corria para seu carro o mais rápido possível.
Seu novo comportamento — sempre ansioso, sobrecarregado, como se vivesse ao limite o tempo inteiro — chamou a atenção de Flitwick e Minerva, até mesmo de Neville. Por mais que eles conhecessem Snape anos o bastante para o considerarem um amigo, também estavam cientes das maneiras do padre. Ele poderia, e tendia a ser, bastante escorregadio e desconfiado; perguntar o que estava acontecendo jamais adiantaria.
Foi por isso que sem o conhecimento dos outros, Minerva telefonou para Dumbledore. Antes de se tornar monsenhor, o senhor fora o pároco da igreja em Mitcham. Ele que acolheu Severo e sua mãe, também era o maior responsável pelo desejo que o jovem rapaz de cabelos negros nutria pela vida religiosa. Anos mais tarde, Dumbledore se tornou monsenhor e foi transferido para Hackbridge, Flitwick tornou-se o responsável pela paróquia e Snape ingressou à igreja.
A voz mansa do seu velho amigo a alcançou. Eles conversaram amenidades, a princípio, como o clima, as novidades, família e se estava tudo bem. Quando o pouco assunto foi se encerrando, a madre soube que era hora de questionar.
— Alvo, sabe se aconteceu algo a Severo? Ele anda estranho há alguns meses.
— Estranho como? — Havia curiosidade no tom de Dumbledore, embora seu cenho estivesse franzido em preocupação. Minerva, do outro lado da linha, não sabia disso.
— Não sei muito bem… — suspirou. — Ele anda tão calado, mais do que o normal! Mal conversa mais conosco, não fica para as confraternizações, e muito menos nos dá abertura para questionar qualquer coisa. Você sabe como ele é — insinuou já procurando arrancar alguma informação do homem — e ele confia demais em você, então pensei que talvez soubesse de algo, Alvo.
— Minerva — ele foi evasivo —, o que um fiel confessa ao padre é do mais absoluto segredo.
— Então ele confessou algo a você? Entendo que tudo é sigiloso, e é claro que respeito isso. Mas estou preocupada com ele. Apenas me diga se é algo grave demais, ou se, pelo menos, isso vai passar.
— Minerva, minha querida — respondeu em despedida —, só Severo poderá decidir se isso passará ou não.
. . .
O “tempo de inércia” — carinhosamente assim nomeado por — foi de muita utilidade. Usou-o para focar em seus estudos, principalmente em sua dissertação; também planejou algumas novas propostas para o grupo de leitura, além de ter se permitido mais tempo de lazer. Fez as unhas, foi às compras, passou noites divertidas nos pubs da cidade com alguns colegas da universidade, até mesmo se concedeu um ou outro envolvimento mais casual com outras pessoas.
Foi legal. Sentiu-se bem. Entretanto, ainda sentia falta de algo, e estava ciente que esse algo era o Padre Snape. Mais precisamente o gosto do proibido que ele lhe oferecia e, é claro — pensou com maldade —, o entretenimento quase inadequado que era divertir-se à custa do pobre homem. Que de coitado não tinha nada, ela lembrou. A discussão no carro ainda a deixava irritada toda vez que recordava.
Tudo bem, ela confessava que talvez passara um pouquinho do ponto, e também concordava que ele se sentisse mal e enganado. Porém, nada — absolutamente nada — dava razão para acusá-la de destruir a vida dele; pois Snape até poderia não ter utilizado literalmente essas palavras, mas foi exatamente isso que quisera dizer, ela sabia.
Talvez fosse algo que devesse investigar mais a fundo, com ajuda psicológica, mas sempre tivera certa dificuldade de aceitar algumas verdades quando eram ditas a ela — não que pensasse que o que Snape dissera era verdade. Também percebia que quando queria algo, ia até o fim, ou quase isso, para conseguir. Foi esse hábito terrível, mas que tendia a gostar, que havia a levado a perturbar Snape, e ela ainda não estava satisfeita.
Houve um momento — um breve momento — em que pensou estar cansada daquela brincadeira, que já estava na hora de seguir para uma nova obsessão. Contudo, além de ter sentido falta da imoralidade, as acusações durante o evento no carro despertaram em um novo impulso, que, desta vez, era gerado por raiva e vingança.
Esse fora o motivo do seu novo afastamento. A tática de dar espaço a Snape para depois voltar e incomodá-lo havia dado certo da primeira vez, e a poria em prática novamente. Agora tinha uma ou outra nova ideia, e conforme as planejava, ficava ainda mais ansiosa.
Apesar da sua perversidade metódica, ainda gostava de gozar de certa dose de espontaneidade. E ficou radiante quando, em um dia aleatório, encontrou a brecha perfeita — a brecha que precisava.
Tinha sido liberada mais cedo da universidade naquela tarde. Retornou à república para tomar um banho rápido antes de seguir para Mitcham. Tinha dois objetivos ao ir tão cedo para a igreja: a) organizar a sala para a reunião daquele dia, já que proporia aos jovens as suas novas ideias, e b) queria tentar encontrar Snape assim que ele chegasse para a missa das 17h. E tamanha foi sua surpresa quando o avistou ainda muito cedo na igreja naquele fatídico dia.
Assim que adentrou as portas, conseguiu ver um vislumbre das costas largas e os cabelos negros antes que ele adentrasse o confessionário. Ela não se apressou, aliás, havia alguns fiéis aguardando para se confessarem antes da missa. Então seguiu para a sala, arrumou algumas coisas, deixou seus pertences e depois procurou Minerva nos fundos do edifício.
As duas mulheres conversaram por algum tempo. A madre, assim como Flitwick, Neville e um Snape de meses atrás, caíra no jeitinho dissimulado de . Assim, a senhora sempre ofertava elogios e mais elogios sobre a jovem — o que frequentemente perturbava ainda mais um certo homem —, e naquela tarde lhe oferecera um lanche delicioso.
— Madre — começou enquanto terminava de beber o suco em seu copo —, acabei vendo o Padre Snape quando cheguei. Pensei que Padre Flitwick ficasse aqui nesse horário.
— E fica, querida. Mas Filio teve um contratempo. — Empurrou mais um pedaço de bolo para enquanto falava. — Ele está com um problema no banheiro dele e o encanador iria hoje até lá. Então pediu que Severo viesse para dar assistência nesse período da tarde, sabe? Não temos missas agora, mas é o horário em que algumas pessoas vêm para se confessarem, ou para se informar sobre algumas coisas.
A expressão de era totalmente neutra enquanto devorava mais uma fatia do bolo de chocolate, mas por dentro estava prestes a explodir de entusiasmo. Então Padre Snape estaria pelas próximas horas se encarregando das confissões? Isso, definitivamente, era interessante.
Talvez estivesse na hora de confessar seus pecados.
. . .
Como se tudo estivesse ao seu favor — e ela se considerava uma pessoa geralmente sortuda —, uma senhorinha havia acabado de deixar o confessionário quando chegou à nave da igreja e não havia mais nenhuma outra pessoa aguardando. Respirou fundo enquanto encerrava os metros que a levariam até a cabine de madeira escura. O som da cortina quando a fechou soou muito alto aos seus ouvidos; ela umedeceu os lábios ao se sentar.
— Perdoe-me, padre, pois eu pequei.
Snape quase se engasgou ao respirar. Não era a mesma voz arrogante e diabólica da última discussão, mas aquela doce e inocente de muitos meses antes. O nervosismo fez com que se sentisse tonto, a princípio, e até mesmo apoiou uma mão na parede do confessionário, procurando se segurar mesmo que estivesse sentado.
Ele vinha enfrentando dias muito complicados. No dia anterior, particularmente, mal conseguira comer. Naquela manhã, a única coisa que foi capaz de ingerir foi uma xícara de café e um único biscoito de gengibre. Não sentia fome, mas, naquele momento, a falta de alimentação veio para cobrá-lo pela sua negligência, e o nervosismo provocou um mal-estar quase imediato.
— Qual foi a última vez que se confessou? — perguntou, seguindo o procedimento.
— Uns… — pensou. — Não faço ideia, pra ser sincera. Mas sei que faz muitos anos.
, então, verdadeiramente — ou quase — começou a se confessar. Falou sobre uma vez em sua infância em que pôs pó de giz no café do seu professor de Geografia, quando dava língua aos seus pais sempre que eles lhe davam as costas após brigarem com ela e uma vez que mentiu para a avó sobre não saber quem havia quebrado o frasco do seu perfume favorito.
Conforme revelava seus pecados mais recentes, piores eles ficavam. Contou sobre ter furtado uma barra de chocolate de uma loja uma vez, ter participado de um ménage à trois com outras duas colegas, ter seduzido um professor de Fonologia para que pegasse mais leve nas correções de suas avaliações — embora não tivesse se envolvido com ele. “Ele era muito baixo”, alegou.
— Mas nada disso se compara ao meu pecado mais recente, senhor. — O tratamento ressoou muito indecente na sua falsa voz cândida.
— E qual seria ele, senhorita? — Correu o risco de perguntar. Já sabia que aquela conversa não terminaria bem de nenhuma forma que pudesse imaginar.
— Eu me envolvi com um homem com o qual não deveria — sussurrou. — Um padre, senhor.
— Isso é grave, criança. — Não pôde disfarçar o tom afetado na sua fala.
— Eu sei… Mas eu nunca senti nada parecido antes, entende? Fiquei assustada. Ainda estou um pouco assustada, na verdade. — Pela primeira vez, Snape conseguiu identificar sinceridade em .
— O que sente por mi… — Pigarreou. — O que sente por esse homem?
— Desejo. Um desejo como nunca senti antes. Assumo que estou um tanto viciada… É isso: vício.
Padre Snape sentiu a boca ficar seca. As palavras que saíram dos lábios sedosos de poderiam ser as suas. Ele também se sentia viciado — ainda que estivesse consciente que os sentimentos da mulher do outro lado do confessionário não eram tão afetuosos quanto os dele.
Além do vinho que se permitia tomar de vez em quando, Snape jamais foi um homem que apreciasse drogas, fossem lícitas ou ilícitas. Uma infância marcada por um pai dependente químico, que despejava sua agressividade sobre a esposa e o único filho, foi o bastante para mantê-lo longe dos entorpecentes. Porém, era sua droga favorita. Deixava-o dormente, leve, pesado, num estado de plenitude tão surreal que pensava jamais ser possível descer desse apogeu, mas que provocava uma abstinência impiedosa, que fazia com que sentisse que jamais poderia ser feliz de novo.
— Eu o tive uma única vez, até agora. — Ela continuou, soando quase como uma ameaça. — E não estou satisfeita. Eu quero mais! Transei com uns três caras desde então, mas nenhum chegou perto de fazer com que eu me sentisse igual quando… Quando o cavalguei.
Ele não podia vê-la, porém, não era preciso para perceber a gradual mudança na postura dela. soava cada vez mais desinibida, e aquela maldade em sua voz começava a ressurgir.
— E a expressão dele, padre! Ninguém nunca me olhou daquele jeito. Nunca!
Conforme ficava mais entusiasmada, mais o tom da sua voz diminuía. Àquela altura, Snape já se encontrava colado à parede para ouvi-la melhor. Dentro da calça, seu pau latejava.
— E toda noite eu me toco pensando nele-
— Como?! — Snape estava rouco. sorriu com triunfo.
— Imagino que é ele, sabe? Eu me deito, nua; a luz é parca, pequena, ilumina apenas o essencial. As pontas dos meus dedos percorrem minhas coxas, meu corpo se arrepia, e eu quase posso jurar que o escuto suspirar.
Tão inebriado pelo relato, Snape não notou a mudança no dialeto de . Era mais um indício da astúcia daquela mulher. Ela usava, agora, um linguajar mais poético, levando-o até à lembrança do poema, dos versos escritos por ela.
— Meus mamilos ficam duros pelo vento frio da noite, mas isso não é capaz de aplacar o calor que sobe pelo meu ser. Então minha mão alcança meu nervo, e eu estou tão molhada — gemeu. — Consegue imaginar, padre?
Sim, ele conseguia. Em algum momento, Snape se perdeu para a vontade de fechar os olhos e pensar na cena descrita por ela. Era fácil de visualizar: era perfeita com as palavras e ele já vira o suficiente do corpo dela para saber o que imaginar. Sua mão se fechou em punho, segurando-se. Entretanto, abriu-se logo depois e descansou sobre a ereção para a apertar com força.
Ele não notou o breve silêncio interrompido pela abertura da cortina — da cortina do seu lado do confessionário. apreciou rapidamente a imagem à sua frente. Aquela roupa toda preta, que o deixava ainda mais delicioso, a clérgima apertada em volta do pescoço, que respirava rápido demais. A mão grande — que ficaria ótima batendo na bunda dela — esfregando o pau por cima do tecido grosso da calça… Era perfeito.
Snape só abriu os olhos quando sentiu duas mãos sobre seus joelhos. Pulou sobre o assento devido ao susto de vê-la ajoelhada aos seus pés. Tentou se afastar, levantar, colocá-la para longe, mas se mostrou mais forte e resistente do que pensava, e as mãos dela o empurraram para que voltasse a se sentar.
— , tenha misericórdia. Pelo amor de Deus… — rogou.
— Estou tendo, querido — murmurou enquanto abria o cinto dele. Já não havia resistência alguma no homem. Céus, como ele era fraco! — Você precisa de ajuda e eu estou aqui para te ajudar.
O polegar dela — com a unha pintada de preto — capturou uma gota de pré-gozo quando conseguiu o pôr para fora da cueca. Sob sua palma, podia sentir as veias pulsarem enquanto o massageava.
— … — O nome se tornou um gemido quando ela o colocou na boca.
A glande roçou no seu céu da boca; do palato duro para o mole. Seus dedos desceram para acariciar os testículos; a cabeça dele caiu para trás, apoiando-se na parede. Tirou-o da sua boca, com um som molhado, e o masturbou enquanto trocava o toque dos dedos nos testículos pela sua língua. As mãos de Snape, que seguravam a ponta do banco até os nós dos seus dedos ficarem brancos, se precipitaram para agarrá-la pelo cabelo. gemeu em agrado.
Seus lábios retornaram ao membro. Desta vez, entretanto, ela não precisou nem mesmo mexer a cabeça. O aperto de Snape em seus fios era firme, e ele passou a mexer os quadris na direção dela, fodendo aquela boca perversa como se fosse a boceta quente que ele sabia que ela possuía.
Ela apertou a coxa dele quando a cabeça inchada bateu na sua garganta e a fez engasgar. Mas ele não parou. Os olhos dela lacrimejaram, as lágrimas salgadas escorriam pela face ruborizada. Ela deu dois tapas fracos na perna dele, pedindo um tempo para respirar. Ele, novamente, não parou.
Estava com raiva. Aquela ira de outrora retornava, e, agora, mais forte do que nunca. E ele estava tendo sua vingança — ou assim ele pensava. Ele não parou. Através das tosses, das lágrimas, das unhas cravadas em suas pernas — embora, apesar de tudo isso, ele vislumbrasse prazer nas pupilas dilatadas dela —, ele não parou até seu pau pulsar sobre a língua de e sua porra se derramar garganta abaixo.
À semelhança daquela tarde em que transaram, o torpor do orgasmo se dissipava ao mesmo tempo que a pouca razão que lhe restava retornava. Soltou o cabelo dela e rapidamente arrumou-se, colocando seu membro novamente dentro da calça. Escondeu o rosto entre as mãos e tentou desesperadamente recuperar sua respiração e entender o que acabara de fazer dentro do templo sagrado, podendo ser pego a qualquer momento por qualquer pessoa.
também procurava encontrar ar. Sua garganta ardia, sua mandíbula estava dolorida e ela estava surpresa. Conseguira despertar uma nova faceta de Snape, que — pela surpresa que agora via nele — o próprio não conhecia. Havia um homem dominador ali dentro, cheio de raiva em busca unicamente do seu prazer. Ela gostou daquilo.
— Obrigada pelo seu tempo, senhor — declarou enquanto se levantava para sair. — Tenha uma boa tarde.
. . .
passou as próximas horas saboreando o gosto de Snape em sua boca. Mascou um chiclete de morango para tentar disfarçar qualquer odor em seu hálito que pudesse a denunciar, e assim seguiu com o grupo de leitura no início da noite. Depois, conseguiu pegar o primeiro ônibus para Kingston que passou assim que chegou ao ponto, e antes das 21h já estava em casa.
Hannah e Lolla, as duas outras garotas com quem dividia a casa, haviam saído há alguns minutos para uma festa em Wimbledon e — se as conhecia bem o bastante — sabia que só voltariam no dia seguinte.
Então se encontrava à mesa de jantar, com o notebook aberto, uma pequena pilha de livros e suas anotações. O prato sujo no qual comera peixe com fritas — um clássico inglês que ela adorava — ainda estava sobre a mesa, afastado para não sujar seus papéis. Lia o que algum estudioso comentava sobre uma das obras de Austen enquanto o cursor intermitente piscava no branco do Word, aguardando que continuasse sua dissertação.
Alguém bateu à porta. A princípio, pensou que fosse impressão sua, por isso ergueu os olhos do livro e aguardou em silêncio. Mais uma vez escutou o som dos ossos dos dedos contra a madeira. Franziu o cenho e olhou para a hora marcada no notebook. 23h16.
Não era possível que as garotas tivessem desistido da festa — era mais provável que abrissem mão da universidade do que de uma farra — e não haveria por que baterem, já que cada uma possuía uma cópia da chave. Também não conseguia pensar em nenhuma outra pessoa que iria até ali àquela hora.
Quem quer que fosse, continuava a bater.
Ela calçou os chinelos antes de se levantar. Caminhou a contragosto até a janela e afastou a cortina discretamente para descobrir que a figura do lado de fora era inesperada. A cortina balançou minimamente quando a soltou de susto.
— O que diabos você tá fazendo aqui? — confrontou Snape assim que abriu a porta.
Ele não a respondeu. Havia distúrbio na imagem dele. Notou que ainda vestia a camisa e calças pretas, mas a clérgima não estava em nenhum lugar à vista. Na verdade, os primeiros botões da camisa estavam abertos e tortos; toda a figura, que uma vez fora impecável e ordenada, estava uma bagunça. Severo Snape gritava abandono.
Snape, então, deu passos largos e duros na direção de . Esbarrou no ombro dela quando forçou sua entrada casa adentro. Ele cheirava a vinho puro. Quantas taças — meu Deus, quantas garrafas? — ele havia consumido?
ainda segurava a porta entreaberta enquanto observava Snape, desorientado, fitar a casa. Ela suspirou com apreensão. Pela primeira vez, estava temerosa em relação a ele.
— Você — encontrou sua voz — pode fazer o favor de sair da minha casa?
— Está sozinha? — As palavras soaram um pouco emboladas.
Aquele questionamento realmente a pôs em alerta. Continuou a manter a porta aberta, garantindo uma rota de fuga. Procurou com os olhos qualquer objeto próximo que poderia virar uma arma de proteção, e encontrou um guarda-chuva grande e pontudo.
— Por que quer saber?
Snape, mais uma vez, não a respondeu. Pelo menos, não com palavras. Espreitou-se na direção de ; seus passos eram curtos e terrivelmente lentos. Ele parecia um predador.
A mão dele forçou a porta na direção contrária que mantinha, trancando-os dentro da sala mal iluminada. Ela não mostrou nenhuma resistência. A respiração presa, um pouco descompassada, e os olhos arregalados, sem saber pelo que esperar.
Quando ele se curvou para beijá-la, foi diferente de tudo. Definitivamente não havia o Padre Snape, virginal, medroso, inseguro. Havia apenas o mesmo homem raivoso daquela tarde no confessionário. Ele com certeza estivera bebendo recentemente, pois tudo que podia provar nos lábios dele era o gosto amargo e forte de algum vinho tinto.
Os dedos longos do homem se agarraram aos seus cabelos para mantê-la presa ali, embora isso não fosse necessário. não iria a lugar nenhum.
Ela gemeu quando a língua dele circulou a dela. Snape deu mais um único passo para frente, levando para trás e a prendendo contra a parede. Podia sentir o pau duro contra sua barriga e isso fez com que ela movesse os quadris para intensificar o atrito. A boca dele a libertou para que pudesse descer pelo corpo dela, e fez questão de pintar a pele do pescoço de roxo quantas vezes fosse possível.
Snape se ajoelhou e levou junto o short do pijama que ela trajava — rosnou quando constatou que não usava calcinha. Ele não estava disposto a longas sessões de provocações. Fora até ali com um único objetivo: ter mais uma vez, e da maneira que ele desejasse.
Mais cedo naquele dia, depois que ela o deixou à própria sorte — de novo —, ficou escondido dentro do confessionário por muito tempo. Tinha medo que, ao sair, quem quer que o encontrasse pudesse dizer o que havia acontecido apenas ao olhar para ele. Temia, também, a ira da Igreja, do templo. Não sabia se poderia sair dali para se deparar com o altar, a imagem de Jesus e dos santos.
Saiu de cabeça baixa. Fechou-se na sacristia, trancando-a com chave e tudo. Ele hiperventilava. A clérgima foi arrancada, os botões foram abertos; ainda assim, o ar parecia não chegar aos seus pulmões. Poucos minutos depois, ele se encontrou curvado sobre o vaso sanitário e colocou para fora o pouco que havia conseguido comer.
Então ele estava faminto e com raiva demais para prolongar qualquer outra coisa que não fosse o que desejasse. Por isso, colocou as duas pernas de sobre seus ombros — após deixar a marca dos seus dentes na coxa macia — e a surpreendeu ao se levantar, deixando-a no alto.
A língua dele vagou diretamente para o clitóris e estremeceu. Não havia onde se segurar, exceto no homem com o rosto enterrado em sua boceta. Apertou os fios negros entre seus dedos, tanto para se equilibrar quanto para mantê-lo ali. Com as mãos em suas pernas, ele fez com que se inclinasse para trás, e a boca de Snape, então, tocou seu ânus. Os olhos de se reviraram e ela gemeu entregue.
Mas logo ela estava novamente no chão. Antes que pudesse pensar em protestar, Snape a segurou com muita força pelo braço e a arrastou até o sofá. Desafivelou o cinto e soltou o botão da calça, abaixou as vestes apenas o suficiente para pôr o membro para fora. não precisou ser mandada ou posicionada para se sentar sobre ele.
Diferente da outra vez, ele não deixou com que esperasse os primeiros segundos após a penetração, que naquela posição sempre parecia ser mais funda. Segurou-a pela bunda para, então, começar a movimentar si mesmo contra ela. gemeu alto, procurando se apoiar nele ou no sofá. Ela ergueu a blusa larga que usava apenas o suficiente para deixar seus seios à mostra, e Snape a agradeceu ao fechar os lábios sobre os mamilos.
afundou suas unhas nas costas do homem e curvou-se para sussurrar ao ouvido dele:
— Sabia que não iria resistir… Você é fraco.
Snape a afastou para fora do seu colo, e novamente a puxou pelo braço. Desta vez, ele a deitou — ou empurrou — sobre o braço do sofá, com a bunda empinada para ele.
— Eu odeio você — disse antes de abaixar a palma com força sobre uma das nádegas.
— Eu — ela gemeu quando ele voltou a penetrá-la — tenho certeza disso.
O sofá se movia conforme ele a fodia impiedosamente. Outra vez, ele a pegou pelos cabelos, forçando levemente seu tronco para cima, e pôs o polegar dentro da boca de . Sem se interromper, Snape, imitando-a, colocou os lábios próximos à orelha dela para proferir:
— E eu odeio principalmente amar você.
não pôde absorver muito bem aquelas palavras. Com a mão que ainda segurava seus cabelos, como se fossem rédeas, a empurrou ao encontro do sofá, e o polegar que agora estava úmido adentrou seu ânus.
Os gemidos de há muito já haviam se tornado quase gritos — e ela muito rapidamente se questionou se seus vizinhos poderiam escutá-la. A cabeça do pau de Snape a alcançou mais cinco vezes contra aquele ponto dentro de si antes que ela chegasse ao orgasmo. Seu corpo convulsionou de forma violenta contra o sofá, nem mesmo percebeu que ele também gozara.
As pernas dela fraquejaram e caiu ao chão quando ele se afastou. Primeiramente, não ligou muito para isso. Estava ainda muito inebriada e tentava levar oxigênio para seu corpo. Abriu os olhos quando escutou o som do cinto. Ele terminava de se arrumar, sem olhar para ela uma única vez.
— Vai me dizer por que caralhos veio até aqui de repente?
Ele não a respondeu, nem mesmo se deu o trabalho de olhar para ela. conseguiu se levantar ao mesmo tempo que Snape seguiu na direção da porta, como se nada tivesse acontecido.
— Ei! Espera aí! — Ela pediu enquanto corria para o short esquecido no chão.
Vestiu-se rapidamente — talvez o short até estivesse do avesso — antes de sair para a rua fria. Ele caminhava rapidamente mais à frente, em direção ao carro.
— Snape — tentou não gritá-lo, mas, no silêncio do lado de fora, sua voz soou muito alta. — Severo!
Ele parou. assistiu as costas dele se enrijecerem antes que se virasse para ela. Parecia, agora, que o sexo levara parte da embriaguez embora e Severo aparentava estar mais ciente sobre si, o ambiente e sobre ela.
— O quê?
O tom da voz de barítono quase a fez querer correr de volta para casa. Conseguia ver que ainda havia o pobre padre perdido e pecador ali, em algum lugar, mas estava camuflado — sufocado — pela cólera.
— Você acha normal aparecer na minha casa dessa forma e simplesmente ir embora? — questionou com raiva e confusão. Agora, as palavras ditas por ele começavam a clarear na mente dela, e, por incrível que parecesse, ela se sentiu mal. — O que você pensa que eu sou? Uma prostituta que você usa e depois vai embora?
A expressão no rosto dele não se alterou em momento nenhum. Ele se moveu para pegar algo do bolso traseiro da calça. Snape caminhou, um pouco bambo, até ela enquanto mexia na carteira. De lá, tirou duas notas de 5 libras esterlinas e as jogou no rosto de .
— Boa noite. — Foi tudo que ele disse antes de entrar no carro e dirigir para longe dali.
Na rua solitária, em que a única alma viva era , ela permaneceu parada, incrédula, com o dinheiro no chão à sua frente. Mal acreditou quando sentiu seu nariz arder e as lágrimas caírem de seus olhos. Jamais havia se sentindo tão humilhada em toda sua vida.
Ela pisoteou as £10 antes de retornar para dentro. Não podia acreditar que ele a tirara como uma puta — ainda mais uma tão barata.
. . .
Na manhã de segunda-feira, se encontrava na escola que estagiava. Seu celular já havia tocado quatro vezes com mensagens de Neville pedindo que fosse à igreja quanto antes. Tentou uma desculpa com o orientador sobre não estar se sentindo muito bem. Felizmente, o professor de Literatura era extremamente bondoso e ele não pensou duas vezes antes de liberá-la e se oferecer para a levar até em casa, ou ao hospital, o que foi declinado por ela.
Quando chegou, Neville a esperava na nave da igreja. Parecia nervoso, assustado, perdido. Ela se perguntou se acontecera algo a Luna. Sem dizer nada, ele a encaminhou à sacristia.
— O que aconteceu?
No mesmo momento, ele abriu a porta para ela e os dois adentraram o cômodo. Minerva chorava com desespero enquanto Flitwick tentava acalmá-la, embora parecesse tão desolado quanto.
— E-eu sabia que havia algo errado. — A madre soluçou. — Mas eu nunca… Nunca imaginei que ele faria isso, Filio.
— O quê-
— Snape não apareceu para as missas de sábado — explicou Neville — nem para as de domingo. E hoje, quando Flitwick chegou, isto estava sobre a mesa.
Ele pegou a folha que estivera próximo de Minerva. Antes de aceitar a carta em suas mãos, observou a madre mais uma vez e fitou Neville com confusão. Seus dedos estavam trêmulos quando tocaram o papel e sua respiração, pesada.
“Caros,
Há muito que não sabem e que, tampouco, irei dizer a vocês. Está além de mim. São coisas que só pude confiar a Deus, porque só Ele é capaz de compreender e, talvez, perdoar — ou assim eu espero.
Quando encontrarem esta carta, minha solicitação de desvinculação já estará sendo encaminhada ao Tribunal Eclesiástico. Sim, é exatamente isso. Estou deixando o sacerdócio. Não é uma decisão repentina; muito pelo contrário. Essa ideia vinha rondando minha mente nos últimos meses, apenas me faltava coragem.
Não posso, nem acho que devo, compartilhar meus motivos. Tudo que posso dizer é que cometi erros demais, pecados que nenhum homem de Deus — principalmente um padre — deveria cometer.
Não, não voltarei atrás. Não posso! Vocês também não conseguirão me encontrar. Estarei tirando — digamos assim — férias. Preciso me ausentar, me desconectar de tudo, porque por mais que eu esteja muito certo da minha decisão, ela ainda me assombra.
Eu voltarei, um dia. Por ora, peço para que não se preocupem comigo e que deixem o Vaticano cuidar da minha situação.
Que Deus abençoe vocês,
Severo Snape.”
. . .
Mais cedo naquela mesma manhã, antes de deixar a carta na igreja, Snape se sentou no chão da sala. Fitou as malas próximas à porta, aguardando para serem depositadas no porta-malas do carro e irem para longe dali. A carta parecia pesar em seu bolso. Sobre a mesa de centro, estava uma pequena caixa onde guardara suas vestes de sacerdote. Deixá-las-ia na igreja com a carta.
Houve um único item, no entanto, que ele ainda manteve em suas mãos. A clérgima passou pelos seus dedos, arrepiando-o, como se carregasse o peso de todos os seus erros e acertos.
— Confesso a Deus Todo-Poderoso, à bem-aventurada sempre Virgem Maria — murmurou enquanto ainda segurava o colarinho branco —, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, e a todos os santos, que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e ações, por… — Engoliu em seco e refreou o pranto que ameaçou vir. — Por minha culpa, minha máxima culpa.
A clérgima foi jogada ao fogo da lareira, e ele a observou queimar pelo o que pareceu incontáveis segundos.
— Por isso — continuou — peço à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado João Batista, aos santos Apóstolos Pedro e Paulo, e a todos os santos, que oreis por mim a Deus, Nosso Senhor.
Fitou as chamas alaranjadas do fogo engolirem totalmente aquela peça que tanto representou os últimos quase vinte anos da sua vida. Desejou, por um insensato momento, que também pudesse ser consumido pelas chamas; talvez, assim, sua dor acabasse. Apenas pôde, então, pedir por misericórdia para ele e, principalmente, para .
— Amém.
Final Alternativo — Paz
(Este capítulo é um final alternativo).
“O meu amado é para mim um ramalhete de mirra, passará a noite entre meus seios.”
(Cantares de Salomão 1:13).
“[...] Poderia olhar nos olhos de Madre Minerva sem se sentir acuado, fugir das confissões com Padre Flitwick e, principalmente, encarar Monsenhor Dumbledore outra vez? Mas a mais importante de todas as indagações era: ele, Padre Snape, conseguiria resistir à algum dia?”
. . .
— Tô sentindo na sua voz que algo não tá certo. — A mãe de declarou pela ligação.
Era fim de tarde na Inglaterra. O céu ganhava um tom rosado conforme o Sol se punha para dar lugar à Lua. No Brasil, sabia que já era noite, e, no fundo da chamada com a mãe, podia escutar os sons abafados do telejornal.
— Mãe… — suspirou. — Você sempre sabe de tudo, não é?
— Sim, eu sei. Agora pode ir falando.
— Eu me envolvi com alguém que não deveria — revelou.
— , você tá se metendo com homem casado? Pelo amor de Deus, você quer arrumar uma encrenca?
— Não, mãe! Ele não é casado. — não pôde deixar de pensar que, talvez, se Snape fosse um homem comprometido, a situação seria muito mais simples. — E também não é nenhum professor, antes que pergunte.
— Então por que não deveria-
— Isso não vem ao caso — interrompeu-a. — O que é importante saber é que nós dois não deveríamos ter nos envolvido, mas aconteceu. E agora tá uma situação super estranha entre a gente.
— , … — Sua mãe murmurou em tom de repreensão. — Você gosta desse cara?
— Eu… — Hesitou. — Eu não sei. Sinceramente, no começo, meu único interesse nele era físico. Mas eu não sei mais de nada.
A conversa entre as duas se encerrou com a mãe de se lamentando pela filha sempre se meter em situações complicadas, e não deu nenhum conselho ou alternativa.
tocou o botão vermelho que encerrou a ligação e jogou o celular do outro lado do colchão. Enfiou o rosto contra o travesseiro e desejou gritar. A discussão com Snape não saía de sua mente.
O que o padre dissera-lhe naquela noite mudou tudo. Estivera se divertindo até então, brincando com ele, pressionando-o ao limite. Entretanto, em momento algum se pôs no lugar dele, não cogitou pensar em como tudo estava sendo encarado por ele. A verdade era que aquela briga havia a destruído por completo.
genuinamente pensava que Snape não faria do envolvimento entre eles algo maior. Sabia que ele era virgem — até aquele dia —, mas não pensava que ele era pudico, intenso e, principalmente, tão temente a Deus. Pensava que ele próprio já deveria ter visto outros padres pecarem, se envolverem com mulheres e homens, e que conseguiria seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Então tudo se sucedeu com surpresa para ela.
Não havia percebido, até aquela noite, quão mal Snape estava — quão mal ela havia o deixado. Sua ignorância e insensibilidade ao lidar com ele, beijando-o para conseguir sair do carro, não passara de mais uma personagem para mascarar a dor que a atingiu ao vê-lo tão frágil, tão perdido. Não podia aguentar vê-lo daquela forma.
Ela chorou a noite inteira assim que encontrou sua cama. Pensou seriamente em se desvincular do grupo de leitura, porque a mínima ideia de continuar a vê-lo, de continuar o machucando, a feria profundamente. Pegou-se até mesmo rezando, e pediu perdão pelos seus erros e por ter magoado tanto um homem tão bom.
Confessava, agora, que Padre Snape era muito mais do que um passatempo. Ela, que tanto desejou ser a serpente para rastejar pelo corpo dele, agora via-se enrolada no próprio corpo, pega pela própria armadilha. Snape significava muito mais para ela do que seria capaz de admitir.
. . .
Pelo seu próprio bem — mas principalmente pelo dele —, não tentou nenhuma aproximação até saber qual seria a melhor maneira de o abordar. Tampouco sabia o que falar. Pediria desculpas? Perdão? Seria o bastante? Ele poderia perdoá-la?
De longe, ela o observou pelo mês que se seguiu. Ele estava cabisbaixo, calado, abatido, magro. Olheiras profundas faziam os olhos dele parecerem ainda mais negros, a batina branca parecia engoli-lo, ele parecia… arruinado.
Até que uma tarde em particular, ela se viu livre das aulas mais cedo que o habitual. Seguiu para a igreja em Mitcham pois desejava ter com Padre Flitwick. Antes de qualquer outra coisa, caminhou até a sala onde administrava os encontros. Arrumou-a para tentar se acalmar. Estava prestes a fazer algo que não fazia desde muito nova.
Quando chegou à nave da igreja, uma senhora acabava de deixar o confessionário e assumiu o lado da cabine. Esperava que Flitwick não adivinhasse quem ela era, embora soubesse que o sigilo da confissão era absoluto.
— Padre — começou, insegura —, perdoe-me, pois eu pequei.
— Quando foi a última vez que se confessou?
Ela sentiu o ar se esvair dos seus pulmões quando aquela voz — a voz dele — a atingiu. Snape parecia tão nervoso quanto ela, pôde notar que o timbre grave soara trêmulo. respirou fundo antes de continuar:
— Quando fiz a catequese. Eu… Eu me envolvi com alguém que não deveria, e agora estou me sentindo perdida.
Ela apoiou os cotovelos sobre as pernas e a cabeça nas mãos. Estava realmente disposta a revelar seus sentimentos para Snape dentro do confessionário?
— Tudo começou por um capricho meu. Eu o desejei e fui até o fim por isso; utilizei métodos inadequados. Só não esperava, senhor, que eu o machucaria tanto. Estava tão cega pela minha luxúria, tão tomada pelo meu egoísmo, que esqueci que a outra pessoa era um ser humano, e um muito bondoso. E a ideia de que ele está sofrendo por atitudes minhas tem tirado meu sono.
— Isso… — Pigarreou. — É bom que esteja arrependida. Isso mostra que é boa de coração, embora suas atitudes possam ter sido controversas.
— Eu queria que ele pudesse me perdoar. A ideia de viver com o desprezo dele é terrível. — Secou uma lágrima que ousou cair. — Eu queria que ele soubesse que significa muito pra mim. Muito mais do que ele possa imaginar.
O silêncio veio. preocupou-se. De repente, a sua cortina se abriu para dar lugar a um Snape surpreso e — ela se espantou — sorridente.
— Severo-
— Eu a perdoo! — disse sobre ela. — Mas é claro que eu a perdoo!
— Nós precisamos conversar.
— Sim… — Pareceu se lembrar de onde estavam. — Precisa ir embora cedo hoje?
— Não. — Ergueu-se do banco.
— Então fique para a última missa, tudo bem? — Ela apenas pôde assentir.
. . .
Ao fim da missa, ele ofereceu-se para levá-la para casa. Contudo, logo notou que o caminho que faziam não era para Kingston, mas, sim, para a casa dele.
Os dois adentraram a casa de maneira envergonhada, como se fossem dois estranhos. Snape a convidou até a cozinha. Lá, assistiu-o preparar um jantar rápido para os dois. Comeram em total silêncio.
— Severo — disse quando ele retornou da cozinha após lavar a louça. — Me desculpa, de verdade.
— Eu já disse que está tudo bem. — Sentou-se ao lado dela no sofá. — Cometemos erros, todos nós.
— É que… — Desviou os olhos. — Esse tempo longe que passamos sem nos ver, sem nos falar, me fez perceber muitas coisas. A primeira é que minha rotina se torna muito chata sem nossas conversas.
O canto da boca de Snape se curvou. A mão dele tocou a dela, o que a fez deitar os olhos sobre ele.
— E qual é a segunda? — perguntou ele.
— Eu realmente gosto de você. — , então, mudou de assunto bruscamente, pois tinha medo da resposta dele. — Por que se tornou padre?
Ele pareceu perdido por um momento, sem saber se deveria se ater ao que ela dissera ou se respondia à pergunta.
— Meu pai era dependente químico — contou. — Ele era naturalmente agressivo, a bebida e cocaína o deixavam pior. Ele quase matou minha mãe uma vez. Ninguém parecia ligar. Os vizinhos diziam que eu, uma criança, deveria estar exagerando, ou que não deveriam se intrometer na vida de um casal. Outros tinham medo de intervir porque meu pai era um policial reformado. Também era por isso que a polícia não dava importância aos nossos pedidos de socorro.
Os olhos de marejaram. Havia muita dor no relato de Severo, ainda que não houvesse rancor pelo pai.
— Quem nos ajudou foi o Monsenhor Dumbledore. Acho que já ouviu falar dele. — Ela disse que sim, então ele continuou: — Na época, ele era pároco da nossa igreja, e acolheu a mim e à minha mãe. Dumbledore sempre foi um mestre para mim, por isso quis tanto ser como ele, ser padre. Mas eu quase desisti.
— Por quê?
— Eu me apaixonei. — Confessou, ganhando o olhar surpreso de . — O nome dela era Lilian. A mãe dela frequentava a igreja todos os dias, e ela sempre estava lá. Nos tornamos amigos, crescemos… E eu me apaixonei, mas ela não sentia o mesmo. Até que Dumbledore me aconselhou a tentar.
— Como assim?
— Ele disse que, ao mesmo tempo que eu poderia estar abrindo mão da vocação por um amor, eu poderia também estar abrindo mão do amor da minha vida pela Igreja. Então ele me aconselhou a arriscar. Mas, como pode constatar, não deu certo. Ela já estava noiva. Alguns anos depois ela e o marido sofreram um acidente e vieram a falecer. Eu que celebrei o velório dela.
— Eu sinto muito! — Apertou a mão dele entre as dela.
— Está tudo bem. Foi há muito tempo já.
Eles se calaram. Apesar do tema triste do fim do diálogo, não havia nenhum clima estranho ou sepulcral entre eles. As mãos permaneciam unidas, como se sempre estivessem destinadas a isso. O indicador da outra mão de Snape alcançou o queixo de e, delicadamente, ergueu-o, fazendo com que ela olhasse nos olhos escuros dele.
Ele se aproximou para beijá-la no exato momento em que ela pôs a mão sobre o peito dele, afastando-o. Snape arqueou a sobrancelha, confuso, e suspirou.
— Não quero te magoar de novo. Não quero que faça algo que colocará sua posição em risco.
— — disse, e ela saboreou como seu nome soava naquela voz de veludo —, eu estou disposto a tentar.
— O que quer dizer com isso?
— Estou querendo dizer que Dumbledore estava certo. Eu posso estar abrindo mão da minha vocação ou estar perdendo o amor da minha vida. — A palma quente dele tocou sua bochecha. — E eu quero tentar.
Enfim, os lábios se tocaram. Era muito diferente das outras vezes. Era delicado, doce, mas forte, intenso e apaixonante. As mãos, que estiveram coladas até aquele momento, se soltaram para trilharem outros caminhos. A de descansou sobre o ombro de Snape enquanto a dele a segurou pela cintura. As unhas dela arranharam a nuca dele quando o homem a puxou para mais perto, unindo seus corpos.
— — disse ofegante entre os beijos —, faça amor comigo.
Ela o respondeu se levantando com as mãos dele entre as suas. Caminharam em absoluta quietude até ao quarto. Uma vez no cômodo, Snape se adiantou para ligar apenas os abajures e jogou uma camisa perdida sobre a imagem de Nossa Senhora. não pôde evitar rir da situação. Felizmente, Severo também pareceu achar divertido.
Na luz amarelada, ele parecia ainda mais pálido com todas aquelas camadas de roupas pretas. Os botões foram abertos um por um, além do cinto, calça, cueca, sapatos e meias. O vestido de caiu ao chão assim que Snape afastou as duas alças que ainda o mantinham no corpo dela.
Com a mão sobre o abdômen dele, ela o empurrou para a cama, num vislumbre semelhante à longínqua dominação que demonstrara uma vez. Colocou-se sobre o colo dele assim que Snape caiu sentado sobre o colchão. se precipitou para beijá-lo, mas a boca dele avançou para seu pescoço e seios — minutos depois, uma mancha arroxeada apareceria próximo ao seu mamilo direito.
Ele a segurou firmemente pelas pernas antes de virá-la para a deitar. se ajeitou na cama, procurando o travesseiro, ao passo que Snape se ergueu para alcançá-la e permitiu-se observá-la por alguns segundos. suspirou alto com a sensação das íris obscuras sobre ela; era injusto que aquele homem pudesse ser tão sensual sem nem mesmo ter noção disso.
Ele beijou os primeiros centímetros de pele que se estendiam após os seios dela e continuou assim até encontrar a renda preta da calcinha. Snape segurou o tecido frágil entre seus dentes e o puxou pelas pernas maravilhosas que ela tinha.
Não fez muitas cerimônias antes de unir sua boca aos lábios íntimos dela. O corpo de arqueou enquanto sua cabeça afundava no travesseiro. Ele era muito bom naquilo. Introduziu dois dedos dentro dela quando sugou seu clítoris, levando a um estágio de desorientação.
Snape continuou por vários minutos, com paciência e aumentando o ritmo de maneira gradativa. Ele manteve as pálpebras fechadas pela maior parte do tempo e gemia junto a ela, divinamente inebriado com toda aquela composição: o sabor, o cheiro, os sons que ela emitia, o modo como o corpo dela se contorcia debaixo do seu toque. foi capaz, então, de reunir forças para apoiar-se sobre os cotovelos, e Snape abriu os olhos no momento exato em que ela o fitou. Algo no olhar dele, naquelas pupilas dilatadas, terminou de levá-la ao ápice.
Seu corpo ainda estava trêmulo quando ele pôs as pernas dela sobre os ombros e penetrou lentamente. Ele rogou num murmúrio para que olhasse para ele, e atendeu à sua súplica quase imediatamente. Seus quadris passaram a se mover ao encontro dos dele espontaneamente.
Nada realmente parecia importar, exceto eles dois e o que sentiam. Não havia obrigações, compromissos, imoralidade, sacerdócio ou o que mais fosse. Não havia o rancor de dias atrás, a culpa de outrora, a santa coberta na cômoda nem o terço pendurado na cabeceira da cama, que balançava conforme o móvel se mexia com a força dos movimentos de Snape.
Ele se retirou de cima dela apenas para se deitar ao seu lado. Automaticamente, virou-se de costas, encostando-se ao peito dele, e logo o sentiu penetrá-la novamente. Ele depositou um beijo em seu ombro e envolveu um de seus seios com a palma da mão.
— Você é linda… — sussurrou para ela.
— Severo! — Foi tudo que ela pôde dizer em retorno.
As pernas de se fecharam com força quando atingiu o orgasmo mais uma vez e Snape arfou fundo enquanto gozava dentro dela. Permaneceram daquela forma até serem capazes de se moverem. Ele se deitou de costas, com os olhos fechados e respirando muito rápido. Não se lembrava qual fora a última vez — ou se ao menos alguma vez — que se sentiu daquela forma: leve, completo e em paz.
Um movimento do seu lado fez com que suas pálpebras abrissem rapidamente, e ele tocou o braço de carinhosamente enquanto ela se levantava. Ela o olhou e encontrou medo e insegurança. Sorriu.
— Eu só vou ao banheiro. Já volto.
não percebeu ele respirar aliviado. Logo depois retornou ao quarto e tomou posse do seu lugar ao lado dele. Snape tornou-se para a mulher que o destruiu e o construiu novamente e deitou a cabeça entre os seios dela, inalando seu perfume e seu amor.
. . .
Quando abriu a porta da sacristia na manhã de terça-feira, Snape encontrou Padre Flitwick e Monsenhor Dumbledore aguardando por ele. Filio, franzino e baixo, o fitava como se fosse um alienígena, como se não o reconhecesse mais. Alvo, em contrapartida, o olhou uma única vez — sem surpresas, sem julgamentos.
— Eu não achei que falava sério na ligação que me fez — disse Flitwick. — Mas você nunca foi um homem de piadas ou brincadeiras.
— Sim, eu falei sério.
— Por isso tomei a liberdade de chamar Alvo até aqui. Sei que vocês dois são como pai e filho, então pensei que ele talvez soubesse o que estava acontecendo. Ou que, talvez, pudesse fazer você desistir dessa ideia… louca.
— Alvo não sabia sobre minha decisão — garantiu.
Ele se adiantou pelo recinto e descansou uma caixa sobre a mesa. Flitwick a puxou até si apenas para confirmar que se tratava das vestes sacerdotais de Snape. Fechou a caixa e a empurrou ligeiramente para o lado.
— Alvo? — disse, ainda muito confuso.
— O que posso dizer? — O mais velho deu de ombros e finalmente voltou seus olhos azuis para Snape. — Por acaso, há como voltar atrás?
— A essa hora, o Tribunal Eclesiástico já deve estar analisando meu pedido de desvinculação. Logo meu caso estará nas mãos do Vaticano.
— E você quer voltar atrás, filho?
— Não, senhor — respondeu com emoção.
Dumbledore, espantando Flitwick, sorriu para Snape. Não era necessário dizer nada, pois Snape entendeu tudo o que seu mestre queria dizer apenas com aquele sorriso. Pelo visto, Alvo Dumbledore mantinha sua opinião sobre correr riscos: nunca se saberia se estava perdendo ou não a mulher da sua vida.
— Desejamos que seja feliz na sua decisão, Severo — declarou sob o escrutínio reprovador de Flitwick. Alguém ainda achava aquela situação absurda. — A Igreja sempre estará aqui para recebê-lo se quiser voltar.
— Obrigado.
Ele deu as costas para sair dali, para voltar para a mulher que o esperava em casa, quando Flitwick indagou:
— E o que digo à Madre Minerva?
Snape parou. Ele fez algo, então, que raramente — ou nunca — fazia: ele mordiscou os lábios em nervosismo. Minerva era uma figura muito importante em sua vida, e a opinião dela sobre sua decisão teria um peso inegável. Por isso não desejava estar presente quando a senhora soubesse, principalmente não desejava ter que contar-lhe ele mesmo.
— Diga… — Hesitou. — Diga a ela que estou indo ser feliz.
Ele não se virou para ver as reações, apenas se encaminhou para fora. Na sacristia, Flitwick agora observava Dumbledore com assombro, até dizer:
— Tem mulher envolvida nisso, não tem?
— Eu temo que sim, Filio.
— Eu sabia… — O padre murmurou.

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