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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

One More Night

Escrita porLiv
Revisada por Lelen

Capítulo único

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

  O som do vidro quebrando já fazia parte da sinfonia do espetáculo, que começava com nós dois iniciando uma conversa casual após nossos trabalhos, e, após longos trinta minutos, o palco era tomado por uma discussão em que aumentávamos o tom de voz a ponto dos vizinhos de cima escutarem tudo — mas, a essa altura, eles deviam pensar “mais uma briga”, e voltavam para os seus afazeres. Os moradores do apartamento de baixo também estavam acostumados com nossos passos sincronizados, visto que, como se fosse ensaiado, seguíamos um ao outro pelos cômodos descontando nossas frustrações e lamentando nossos sonhos que foram deixados de lado por termos saído de casa cedo demais.
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  Quase todos os dias apresentávamos nossa peça sem tirar nem pôr, atuando perfeitamente como se fosse a primeira vez: vidros quebrados, lágrimas depois dos gritos e, por fim, encontrando aquela mísera migalha de conforto nos braços um do outro, prometendo que essa seria a última apresentação.
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  Que, quando as luzes apagassem e apenas a lua estivesse no céu, um de nós iria embora. Como sempre juramos.
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  Eu e Cora nos conhecemos no primeiro ano do ensino médio, no grupo de apoio da biblioteca. Entre olhares curiosos e silêncios cheios de palavras, nos aproximamos e criamos uma amizade baseada em gostos comuns e famílias disfuncionais. Encontramos um no outro o refúgio que sempre procuramos durante todos esses anos, e, quando nos formamos, mudamos para uma kitnet, fugindo do nosso passado e dando um passo em direção ao futuro que sonhávamos. No entanto, a realidade bateu na nossa porta cedo demais, e tudo aquilo que fantasiávamos foi se despedaçando conforme os dias passavam.
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  Cora trabalhava na loja de conveniência e o pai de um amigo me chamou para ajudá-lo na sua oficina, o que nos sustentou por um bom tempo, até que conseguimos fazer alguns cursos para nos dar oportunidade para migrarmos para outras áreas e nos mudarmos para um espaço um pouco maior. A vida parecia melhorar e finalmente podíamos vislumbrar aquele futuro que sonhávamos. Mesmo não sendo do jeito que queríamos, ainda era melhor do que o nosso passado, e nós dois tentávamos o possível e o impossível para darmos o nosso máximo, contudo, quando tudo parecia se acertar, uma notícia fez o nosso mundo desmoronar, e a partir desse dia nos afundamos em trabalhar para pagar uma dívida que nem era nossa, mas que foi feita em nossos nomes. Por mais que os empregos que tínhamos fossem bons, infelizmente eles não eram suficientes para cobrir todos os gastos, e a maioria dos locais não queriam empregar pessoas sem faculdade, o que fez com que, em uma noite chuvosa, eu aceitasse o convite de um amigo que tinha uma academia de luta: participar de lutas ilegais.
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  Era simples: eu treinaria de graça e lutaria representando todos aqueles que patrocinavam o local contra os seus rivais. Mas, tinha um porém: eram lutas livres. E só saía do ringue quem conseguisse sobreviver. Eu cogitei antes de aceitar, mas ao encarar a nossa realidade e ver o quão sobrecarregada Cora estava por ter três turnos de trabalho, percebi que, apesar de não ser uma boa escolha, era a única que eu tinha no momento. E assim, após passar o mês inteiro treinando, eu terminava os dias vitorioso e com uma boa quantia no bolso.
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  E com um olho roxo e o supercilio aberto.
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  Cora nunca foi a favor desse trabalho, inclusive, nossas brigas começaram por essa questão. Por mais cansada que estivesse, ela dizia que daria conta, e eu rebatia dizendo que mesmo eu tendo dois empregos e os bicos durante os finais de semana, o valor que fazíamos mal dava para pagar o aluguel e a parcela da dívida. No início, terminávamos as discussões sem maiores problemas, prometendo que era a última vez que brigaríamos. Entretanto, conforme o cansaço ia nos consumindo e os fantasmas do passado iam reaparecendo, descontávamos todas as nossas frustrações um no outro, nos culpando por erros que nem eram nossos.
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  Todas as madrugadas que eu chegava da academia, ela dizia “só mais uma noite” depois do nosso espetáculo, deixando claro que só aguentaria aquilo por pouco tempo. Eu também jurava que seria só por mais uma noite e, na manhã seguinte, iria embora, a libertando daquele relacionamento em que éramos dependentes, mas, assim como eu, ela se agarrava ao sentimento de conforto que a nossa relação, apesar dos pesares, proporcionava, e, quando percebíamos, nossas bocas estavam coladas e nossos corpos se movimentavam em uma sincronia perfeita, fazendo ser difícil a despedida.
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  Eu sabia que Cora também sentia a culpa ao acordar e ver que continuávamos na mesma página, incapazes de darmos um passo a frente. Era como se a nossa dependência emocional estivesse grudada em nossas peles como uma tatuagem, gravada tão profundamente que esquecíamos daquelas promessas feitas quando jovens, que nunca seríamos como nossos pais e que quebraríamos aquele ciclo violento em que crescemos.
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  Mas, a verdade é que estamos tão imersos em nossas frustrações que não temos forças para tentar sair delas, sendo mais fácil descontar em nós mesmos do que irmos embora.
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  Então, depois de recolhermos os cacos de vidros espalhados pelo chão da sala, encontramos conforto nos braços um do outro, terminando a nossa peça com a promessa de que seria só mais uma noite, e, quando amanhecer, um de nós sairia pela porta sem olhar para trás.
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