O Mundo Debaixo da Cama
Escrito por Emy Vasconcelos | Revisado por Larissa Martins
Todos nós podemos dizer que já perdemos algo debaixo de uma cama. Coisas simples, coisas importantes e até sem valores: brinquedos, livros, papéis, acessórios, sapatos e aquela meia fedorenta e rasgada.
Bem, menos o Cristian.
Ele não perdia apenas algo, ele perdia várias coisas e ao contrário das pobres pessoas que sofrem com o sumiço de suas coisas, Cristian sabia muito bem onde suas coisas estavam: debaixo da cama. Ele jogava tudo o que não queria ver na sua frente lá para baixo, saía chutando tudo quando estava com preguiça – e quase sempre ele estava com preguiça – de arrumar.
Cristian fazia de tudo para não dar um jeito naquela bagunça. A coitada de sua mãe estava quase careca de tanto falar para o bagunceiro menino arrumar debaixo da cama.
- Cristian, vai arrumar aquela bagunça! Você tem 10 anos, já é quase um rapazote. Mas que moleque impossível!
O garoto sempre dava um jeito de enrolar sua mãe e não arrumava.
Ah, mas tudo tem solução, certo?
Errado.
Cristian nunca arrumava. Seus amigos estavam até meio cismados de não ir ao quarto do menino, diziam ter visto baratas saindo Debaixo da Cama. Pense que horror! Mas você acha que Cristian se importava? Não, não. Na verdade ele não viu nenhuma barata, então não ligava, achava que os amigos falavam isso porque sua mãe subornou eles com bombons.
Um belo dia, o aniversário de Cristian havia chegado. Claro! Todos fazem aniversário. Mas o menino havia ganhado o presente que tanto queria: um Max Steel! Via o brinquedo todo dia passando na televisão e não cansou de pedir para sua mãe para comprar e, chegado o seu aniversário, o boneco veio junto. Cristian ficou muito feliz. Oh!, e como!
Uns dois dias depois de ter ganhado o brinquedo, ele ainda brincava e não cansava. E numa dessas brincadeiras pelo quarto, quando o boneco ia dar uma mega pirueta na mão do garoto, o MaxSteel voou longe. Bem longe.
Exatamente para debaixo da cama.
O menino, afobado pela “reação” do boneco, imediatamente se abaixou para pegar o brinquedo novo. Levantou o lençol que levemente tampava a visão da cama - propositalmente – e olhou para lá, de início estava escuro, mas quando esticou a mão para tatear o chão e pegar o brinquedo de volta, algo sobrenatural aconteceu. Ele foi puxado. Uma força estranha sugava ele pra debaixo da cama, e ao mesmo tempo em que Cristian gritava desesperado ele diminuía, tudo ao seu redor aumentava o tamanho pra 10 vezes mais! Até que ficou tudo escuro e ele não podia ver mais nada.
- O-olá? - Cristian perguntou em pânico. - Alguém aqui? Onde estou?
Ao longe no escuro ele ouviu passos, ele sentia cheiro de mofo, poeira e queijo azedo. “Mas que lugar é esse?” pensou. As passadas ficavam perto e ele estava com mais medo ainda.
- Mãe, se alguma coisa acontecer, por favor, me perdoa. - O garoto dizia cochichando pra si mesmo, pensando ser o fim.
Até que os passos pararam 1 metro de distância. Do nada uma luz acima dele se acendeu, o garoto olhou para o alto vendo que o teto do lugar não tinha fim, apenas escuridão.
- Ham ham. - Ouviu alguém coçar a garganta.
Cristian, surpreso e muito assustado, olhou para sua frente onde havia uma pessoa. Pessoa não! Um biscoito gigante do tamanho real. O menino deu um grito e a criatura imitou seu gesto.
- O que você é? - Perguntou com a voz esganiçada.
A coisa-biscoito piscou, se recompôs e respondeu calmo.
- Não se recorda de mim, senhor?
Cristian balançou a cabeça negativamente, mas duvidava de sua resposta. A figura lhe parecia familiar e vagava pela mente.
- Espere! - Falou de repente. – Acho que me lembro. Você não é aquele biscoito do Shrek que ganhei de brinde no McDonalds no ano retrasado?
- Sim, senhor! - O biscoito bateu palmas contente. - O senhor lembra!
- Mas você é um brinquedo! - Cristian protestou mais para ele próprio, tentando se convencer. - Não deveria estar vivo. Deveria?
- Senhor, nós nunca estivemos mortos. - O biscoito apontou para o garoto, suas dobras faziam barulhos. - Deverias saber disso.
- Hm, ok. Não estou entendendo mais nada. - Mas pensou cauteloso. - Eu gostaria de pedir umas coisas. Posso?
- Estou aqui para te obedecer, senhor. - O Biscoito fez uma reverência.
- Certo, obrigado. Primeiro: não me chama de “senhor”, tenho só 11 anos, me chama de “Cristian”. E segundo: como saio daqui?
- Suas ordens serão cumpridas, mestre Cristian. Meu nome é Biscoito.
- Mesmo? - Cristian riu, isso era meio que óbvio.
- Sim, foi o nome que me destes. E pra poder sair daqui, apenas me siga.
Biscoito girou na direção oposta e marchou. Cristian deu de ombros e seguiu o biscoito vivo, “vamos em frente!”.
Ele andava num lugar totalmente embreuzado, apenas iluminado pela luz estranha ambulante. O chão do lugar era muito semelhante ao piso do seu quarto, só que MUITO empoeirado e vez ou outra ele via montanhas ao longe que pareciam sapatos gigantes, imagina o chulé disso! Por fim chegaram na beira de um penhasco, lá embaixo viu um castelo colorido, Cristian chegou a achar que aqueles eram seus bloquinhos de construção que tinha quando pequeno, mas isso era impossível. Desceram o penhasco por uma escada que mais parecia uma versão aumentada 100 vezes de um palito de picolé de plástico e colorido, do que realmente uma escada.
Seguiram caminho até o castelo. Num momento Cristian pensou ter visto algo correndo atrás de si, ele se aproximou mais de Biscoito com um pouco de medo. O castelo estava bem próximo agora.
- Biscoito, onde a gente 'tá?
Biscoito parou de andar e com suas bolinhas de glacê brancas, olhou para um Cristian curioso.
- Nós estamos no mundo Debaixo da Cama, onde tudo e todos têm vida.
- Você quer dizer que... - O menino arregalou os olhos e apontou ao redor. – Isso TUDO aqui é debaixo da minha cama?
- Sim. - Biscoito sorriu e voltou a caminhar.
Cristian continuou paralisado, “não é possível, isso é loucura”, e ele ficaria assim se não tivesse ouvido uma sirene conhecida soando longe. Ele se virou e viu um carro de polícia vindo em sua direção. Se esse mundo era debaixo de sua cama, obviamente esse era o carrinho policial que sua tia havia lhe dado no natal passado. Cristian não se lembrava do carrinho parecer tão legal até tê-lo chutado para debaixo da cama.
- Caramba! - Falou admirado.
- Mestre Cristian, acho melhor correr! - Biscoito o alertou.
Cristian encarou o carro de polícia hiper maneiro e o Biscoito com botões de jujuba roxa. Foi uma decisão difícil, mas achou melhor correr em direção ao Biscoito. Foram de encontro à entrada do castelo onde um Homem-Aranha de plástico e sem o braço direito fazia a vigia sério.
No momento que o menino passou pela porta junto com Biscoito, o Homem-Aranha se curvou em reverência. Cristian achou estranho esse fato, mas continuou andando. Logo de cara quando entrou viu que o lugar era imenso, mas ele estava ocupado por dezenas de soldadinhos verdes de guerra, tinha animais de fazenda de borracha, motos de plásticos, um Batman e um Super-Homem um tiquinho maiores que os outros, uns 3 carrinhos Hot Wheels e muitos, muitos mais.
Aquela visão foi assustadoramente incrível! Cristian se deu conta de que aqueles eram seus brinquedos abandonados debaixo da cama. Antes que pudesse pensar em mais algo, o castelo de blocos coloridos sacudiu.
- Biscoito! – Chamou. – O que está acontecendo?
- Estamos sob ataque! Senhor, pegue suas armas e vamos nos defender!
Um soldadinho verde chegou na frente de Cristian, se ajoelhou oferecendo um capacete e uma espada de borracha. Cristian estava assustado demais para fazer algo, então Biscoito tomou a frente e pegou os objetos; colocou o capacete no garoto e abriu sua palma colocando a espada em suas mãos.
- Defenda o que é nosso, mestre Cristian. - Biscoito disse firme antes de sair para a muvuca de brinquedos.
O menino mal respirou e o castelo balançou novamente. Todos os presentes emitiram sons de guerra e saíram pelas portas.
Loucura total.
Cristian nem sabia quem era seu inimigo, mas se esses eram seus brinquedos o certo era cuidar e lutar por eles. Partiu para a porta confiante e gritando furioso junto com os outros. Ao chegar do lado de fora quase bateu de cara com uma barata extra grande, do tamanho de um rinoceronte. Dos lados viu ratos e mais baratas voadoras atacando os brinquedos aliados.
“Acho que descobri meus inimigos”, assobiou.
O baratão se virou e estalou as pinças da boca e avançou, Cristian pulou pra trás brandindo a espada de borracha e gritando.
- Aqui, sua bicha feiosa! 'Tá com medo?
A barata mexeu as pinças e com uma das patas peludas bateu na mão do garoto, a espada caiu pra longe.
“Certo, agora sim é o meu fim.” Cristian pensou apavorado.
De longe viu Biscoito em cima de um rato que nem um toureiro.
- IRRÁ!
Mais uma vez a barata estalou as pinças perto do rosto do menino.
Poderíamos realmente dizer que esse seria o fim de Cristian, mas um milagre aconteceu. O Max Steel apareceu correndo de algum lugar e com toda a força que tinha deu um murro na barata que caiu desacordada.
- Tudo bem, senhor? – Agachou-se e levantou o menino. Max Steel bateu continência.
- Sim. - Cristian murmurou olhando a barata caída. - Onde você estav...
O garoto foi interrompido por um bloco azul do castelo caindo na sua frente.
- Senhor, cuidado! - O boneco musculoso saiu do chão, mas foi tarde demais.
Um conjunto de 3 blocos grandes caiu em cima de Cristian. Para o garoto, tudo ficou escuro outra vez. Agora sim era o fim.
Num sobressalto, Cristian abriu os olhos e a claridade fez doer suas pupilas. Olhou ao redor e se deu conta que estava deitado na sua cama. Ele estava...
Dormindo.
Cristian pulou da cama desacreditado e se abaixou, rapidamente puxou o lençol pra cima e de cara viu seu boneco Max Steel caído no chão. Mas ele não estava só. Do lado do boneco grande, estava um biscoito de brinquedo parado e sorridente como sempre. Dessa vez Cristian sorriu abertamente.
- É, galera, acho que precisamos arrumar algumas coisas aqui Debaixo da Cama. Esse tempo todo a mamãe só estava tentando me ajudar. Chega de baratas e ratos.
FIM
É uma fic lezerinha mas que gostei de escrever!! <3 Espero que gostem amorecas! Vejo vocês por aí!
xxEmy

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