O Modo Mais Insano de Amar é Saber Esperar
Escrito por Rayanne Nayara | Revisado por Jéssica
Capítulo Um – Acordando para a realidade
Manhã de outono e as folhas caem como se dançassem sobre nós. Nesta manhã acordei no sofá, não me recordo o motivo de pernoitar-me por lá, desconfio que a razão esteja no filme tedioso que minhas pálpebras insistiram em observar. Insistiram para não pensar no episódio da noite anterior e teimaram até serem derrotadas.
De fato o cansaço, a ilusão e a sensação de não doer como gostaria trouxeram-me o alívio do sono. Sono tranquilo.
está comigo e andamos pareados indiferentes às coisas sem importância. Percebendo os mínimos detalhes da simplicidade da vida. Coisas que os outros descartam, nós juntamos e montamos um álbum. Estar com ele é estar livre, sinto-me sem rótulos ou censura.
– Como se sente hoje? – iniciou um diálogo comigo quebrando o som da brisa de outono e das folhas dançantes acima de nossos corpos.
– Feliz.
– Mesmo? Não precisa fingir que nada aconteceu. Somos amigos ainda, não? – O olhar dele não era tão surpreso como quando nos conhecíamos anos atrás, nem era curioso, nem surpreendente. Era preparado. Ele sempre sabe o que esperar de mim e nunca se assusta com o quê vê.
– Sempre seremos. Mesmo se for apenas da minha parte.
– E então? – Também nunca fora de contentar-se com meu monossilabismo. Sempre insiste até chegar à conclusão que quer, mas também sabe reconhecer quando chega o meu ponto final e respeita isso.
Sem fazê-lo insistir muito, até porque esse jogo de mistérios e atrasos entre nós já havia nos exaustado, respondi sua pergunta que ia muito além de apenas saber se ainda somos amigos:
– , eu não finjo. Apenas descobri que enfim é outono e se olhar ao seu redor, tudo mudou.
– Você é louca. Anteontem terminou um namoro de dois anos e meio, pelo motivo certo, mas mesmo assim... – Ele fez uma pausa sorrindo para mim incrédulo. – Felicidade não era o que eu esperava de você, principalmente porque você me ligou chorando.
– Chorava porque não sabia a causa de ter passado tanto tempo com ele. Eu precisava conversar com você.
– Não precisa mais? – Sempre dá um jeito de colocar uma piada ou algum comentário que penda para um lado mais descontraído em assuntos como este.
– E o que estamos fazendo ? Não há necessidade de saber mais detalhes até porque você com certeza já tem ideia das minhas razões. Não basta saber que estou bem e me sinto feliz de estar aqui?
Sorriso. Aquele sorriso largo e radiante que só o tem. E o único que sempre me fez e faz sentir cócegas no estômago.
Ele continuou a falar olhando com esse sorriso dilacerante.
– É que me preocupo com você. Ontem eu fiquei pensando em como você estaria mal com tudo isso, e eu não podia estar aqui com você por causa daquela reunião chata da empresa com o novo gerente admitido.
Eu sorri radiante. Eu sempre soube que ele se preocupa comigo e não era a primeira vez que ele dizia isso diretamente. Contudo hoje é diferente. Bons ventos trazem cheiros doces que repuxam da minha memória as sensações perdidas envoltas ao nome e a toda a nossa amizade. Sexto sentido talvez? Ou um simples presságio antigo?
Essa reunião veio bem a calhar, não que eu não quisesse tê-lo dando-me forças, mas era necessário que eu tivesse aquela noite sufocante de arrependimentos e com filmes tediosos, dos quais meu cérebro nem se preocupou em gravar algum resquício. Não há nada como a sensação de abrir os olhos e sentir-se livre e acordada. Tudo reflete como uma peça onde eu atuei sem amor.
– E foi bem ao contrário... Eu me senti aliviada de ter acabado, mas fiquei decepcionada de não ter doído tanto.
– Não entendo... Você não o amava, não é? Queria que doesse?
– Não é isso, mas não era só um namoro sabe? Era um namoro, só.
Como eu disse: desvencilhar-se de um personagem do qual eu não reconheço o motivo de tê-lo vestido. Para quê eu estava vivendo algo vazio? Quem era a plateia dessa comédia fracassada? Ou melhor! Desse romance antirromântico.
Não era só um namoro, destes onde não cogitamos o fim e nem vamos muito além. Ou ainda destes onde fazemos múltiplos planos que realizamos ou não. Simplesmente esses “só um namoro” de muitos ou poucos, mas consequentemente namoros que ensinam e são vividos. As nossas almas, generalizo mesmo, é formada de partes assim como as fases das nossas vidas. Há um pedaço diferente para cada época, momento, vivência. Há a alma de criança, de jovem, de adulto, medrosa, corajosa, tímida e assanhada e tantos outros antônimos e sinônimos que em seus pedaços formam-nos unicamente no ser.
Um “namoro só” recusa explicações. É só. A doação é única de um pedaço que pode entregar-se sem esperar retorno ou apenas entregar-se a si mesmo. Na segunda opção o retorno é automático. É como ferir seu corpo por própria vontade e receber dor e raiva de si mesmo.
No meu caso eu não entreguei tudo o quê eu poderia entregar, não por egoísmo, mas por falta de interesse. E aquilo que eu recebi não era coerente ao que eu dava, nem coerente à coisa alguma que se referisse ao que eu sou. Duas flechas perdidas, diferentes e que não se cruzam.
– Preciso fazer um curso sobre esse seu idioma para ver se te entendo.
’s POV
Eu tentei brincar, mas o fato é que eu a compreendo perfeitamente. Eu sempre a compreendo. Às vezes mais do que eu gostaria até... E ela sabe disso, talvez não nas proporções reais, mas em um vestigiozinho é evidente que sabe.
’s /POV
– Você sempre me entende e sabe disso. É uma das coisas que me encantam em você. Ninguém nunca entende o que eu digo, até me chamam de louca. Mas você não, você me compreende perfeitamente.
– É porque eu a conheço. Ninguém entende o desconhecido, certo?
– Certo, . E quer saber mais? Está um momento ótimo para um café.
– Eu pago.
– Viu como você me compreende? Adoro você cara.
– Também te amo pequena.
Capítulo Dois – Um café, conversas intuitivas e mais uns passos
“Vamos nadar no mar da sabedoria e serenidade. Melhorar.” - Hapiness, Goldfraap
Ele sempre lê meus pensamentos. Desconfio que seja alguma conexão paranormal entre nós, pois também consigo ler os olhos dele. Não com a mesma frequência que ele a mim, mas ainda assim é algo muito particular nosso. Eu adoro quando ele diz que me ama. Sinto-me honrada e especial. E só ele faz da palavra “pequena” parecer-me um elogio, ao invés de um desaforo como quando ouço por outras bocas menos gentis.
e eu nos conhecemos na lanchonete onde eu trabalho. Foi engraçado, ele passou uma vez pela loja e eu estava limpando uma mesa, e eu o vi. Ele olhou para mim, mas continuou andando apressado. Daí ele voltou e me olhou de novo, eu sorri. Ele entrou e escolheu algo para comer. Conversamos.
Não necessariamente nessa ordem, e nem tão simples e singelo assim. E aqui estamos nós. Três anos de amizade.
Renato Russo dizia, “já morei em tanta casa que nem me lembro mais, eu moro com meus pais”. Ao contrário dele, eu não moro com meus pais. Há 20 anos. Nunca morei.
não é o meu melhor amigo, mas amigo o suficiente para se tornar especial e essencial para mim. Não tenho melhores amigos.
– Sabe o que é insano nisso tudo?
– Sobre o quê? – perguntava desentendido enquanto adentrávamos no Café Com Cheiro, a lanchonete que sempre íamos.
– É muito insano eu ter vivido dois anos em um relacionamento vazio. Como se fosse obrigação, pelas aparências. Logo eu que não suporto esse tipo de atitude! – Eu falava sem levar fé em mim mesma.
– Acho que entendo tudo agora... – dizia com um sorriso enigmático no rosto. Rosto lindo. Rosto que eu adoro admirar e ficar analisando cada linha, cada marquinha na pele. – Por favor, dois cafés expressos. Vamos até aquela mesinha ali. – Ele fez o pedido e guiava-me. Os toques de na minha pele soavam como unhas em quadro-negro. Era chocante e delicioso.
– Porque o mundo se importa tanto com as aparências, com os clichês? As pessoas falam de individualidade, mas só se confortam e aceitam a comodidade. – Eu dizia já sabendo que a informação era óbvia e já sabendo qual seria a resposta de . Não era a primeira vez que entrávamos nesse assunto. Ele sempre encontrava uma brecha para isso, principalmente quando meu “namoro” estava na roda do nosso assunto. Ele já premeditava que caminho tudo aquilo levaria e, algumas vezes, jogou as pistas no meu caminho. Mas decidimos ambos pagar para ver. Eu decidi que iria levar até onde desse e ele contentou-se em assistir.
– Verdade. É engraçado isso. Ouve-se tanto “diga não ao preconceito, ser diferente é normal”, mas ninguém ou muito poucos aceitam o diferente, o exótico... Basta sair com o cabelo preso, em um penteado incomum, e pronto, você torna-se alvo de comentários e olhares furtivos. – Ele falava tranquilo. Alguma vez que não me recordo a distância de tempo, eu mesma dissera a ele esse exemplo do penteado e foi só ele colocar isso de novo e nós rimos.
– Eu me arrependo de não ter acabado tudo antes. Perdi dois anos em nada, em um compromisso furado. “Devia ter amado mais”.
– “Ter visto o sol se pôr”. Que acha de vermos o pôr do sol hoje?
– Ainda nem é meio-dia, ! Mas aceito sim a proposta. Você me faz bem, sabia?
– Não sabia não. Conte-me mais. – Sorriso vadio! Um dia eu morro com esses dentes e essa boca alargados assim. Deveria ser um crime permiti-lo sorrir desse jeito.
– Ah, cala a boca ! Vamos continuar o passeio?
– Sabe o que é mais insano do que tudo o que você disse?
– O quê? – Não sei por que, mas sinto que a brisa fraca da janela da lanchonete passando por meus cabelos sussurrou em meus ouvidos um fraco aviso. “Acalme-se”. Era o que a brisa soava. De certo ela sabe como as próximas palavras baterão em mim.
– É mais insano do que tudo isso, quando nós queremos e podemos fazer ou ter algo, mas não o fazemos por motivos que nem nós mesmos conhecemos. Tipo agora. – Olhou-me com fogo nos olhos e eu reagi com fogo no rosto.
– Tem a ver com a Mayara? – Cérebro inútil. Sempre falha nas horas importunas. Eu não poderia dizer “tipo o quê”?
– Não... O que ela tem nisso tudo? – Agora sim ele estava surpreso. Eu sou tão idiota!
– Não os vi mais juntos. O que houve? – Agora sim acertei na pergunta. Uma pergunta válida. Você não é tão inútil, querido cérebro.
– Eu não a amo. Tentamos. Quero dizer, ela tentou, eu nunca quis tentar. Você sabe disso.
As formas, como o me olha, são diversas. Eu conheço todos os olhares dele. Nesse momento ele me lançou o olhar número 3. Olhar de “não se faça de boba”. Assim como eu, ele também levou o barco com a Mayara, não por vontade dele, mas sim dela.
Várias vezes nós conversávamos sobre nossos “relacionamentos”. Sempre desabafamos um com o outro sem pudor de assunto. Até a minha primeira noite com meu, agora ex-namorado, contei a ele. Embora ele teimasse em não falar-me das noites loucas dele e Mayara, eu sempre conseguia arrancar algum comentário. Na maioria, de reprovação. E sempre, sempre mesmo, ao fim desses comentários ele dizia “Está longe de ser do jeito perfeito. Com quem eu quero”.
– Por que não disse logo para ela que não estava satisfeito? Ainda não entendo essa sua reação.
– Eu disse inúmeras vezes. Lembra-se que ela insistiu e me fez prometer que a deixaria tentar?
– Eu hein... Você é doido.
– Falou a normalíssima da cidade.
– Haha, seu bobo. É sério, poderia ficar com quem ama de verdade, ou descobrir alguém para amar, ao invés de tentar algo em vão.
– Já escutei essa história.
– Eu também, conheço bem o final dessa comédia improvisada e fracassada.
Estranho nós dois voltando a um assunto tão conhecido por nós. Juramos ambos, cada um para a própria consciência, que tentaríamos passar firmes por esses aprendizados. Julgamos ser a melhor forma de chegar onde queríamos.
Capítulo Três – Revelações de uma praça
“Algo no jeito com que ela se move me atrai como nenhum outro amor. Algo no jeito com que ela me persuade.” - Something, Beatles.
– A praça fica linda no outono, não? – dizia admirando, as folhas secas e penduradas, caindo das árvores.
– É linda. Reparou naquele senhor sentado ali no cantinho?
– O que tem ele?
– Todos primeiros e últimos dias de novas estações ele senta bem ali, pega um livro, abre-o e começa a ler. Como um ritual.
Eu reparava nesse senhor há algum tempo e nunca tinha tido a chance de compartilhar essa observação com o . É um homem ao contrário do que se poderia julgar, rodeado de pessoas que o amam. Patriarca de uma família imensa, unida e alegre, porém o próprio se esconde atrás das capas de brochura. Eu nunca conversei com ele, mas gostaria de perguntá-lo o que as rugas de seu rosto trouxeram-no de amargo para ele não notar as coisas lindas que tem à sua volta. Como o olhar fulgurante de seu netinho tentando chamar a atenção dele, e as tentativas frustrantes da mãe do menino em mostrar ao pai que atrás daquele livro, ainda que seja um livro, objeto mágico capaz de mudar todo um mundo desconhecido ou conhecido, existe uma história que ele ajudou a fundamentar.
– Ele não parece estar a fim de ler, para alguém que mantém um ritual.
– Você entendeu. Ele nunca lê com vontade. É como se ele fizesse como alguém que cumpre uma tarefa obrigatória e de rotina.
– Acho que o livro é uma desculpa, para se sentar ali e curtir a transição das estações sem ser incomodado, sem dever explicações a ninguém.
– Você falando assim faz parecer melhor a imagem que tenho desse senhor. – Nós rimos distraídos, mastigando um doce que eu sempre desconheço o nome. Favorito de e ele sempre o compra na nossa lanchonete já batida. – Olhe ali, aqueles três jovens. Essas meninas moram próximas à minha casa, esse menino sempre as acompanha na saída do colégio. A questão é que ele nunca está sorrindo ou conversando empolgadamente com elas. Ao contrário, elas sempre conversam e riem muito alegres. Ele as acompanha até a quadra da casa delas, e volta todo o caminho retornando a sua casa, cada vez mais cabisbaixo.
– É, as pessoas precisam se libertar. – E novamente os bons ventos que chegavam aos poucos iam sussurrando-me que algo grande está por vir.
Ergui meu olhar para , ele me fitava docemente. De um jeito incomum ao diário. Não me recompus, continuei ali imóvel e perplexa no olhar dele e no seu sorriso que matava cada pedacinho de mim. Outra boa brisa amiga bateu balançando nossos cabelos. Ele passou os braços pelos meus ombros, beijou minha testa e continuamos a caminhada.
– Está um clima tão gostoso de outono. Parece que enfim o sol vai esquentar. – disse sorrindo para o sol e olhando para o alto deixando-se ser guiado por meus passos.
– E o que faremos?
– E o que quer fazer, minha pequena?
Sem dúvidas ele sabe o que me causa com essas palavras, e sem dúvidas ele sabe que eu não deixo a tortura às pechinchas.
– Com você, qualquer coisa. – Vingada. Sinto o estremecer do estômago dele quando faço essas coisas.
– Que moral a minha. – Ele riu. – Vamos à floricultura.
– , eu quero te pedir uma coisa, e não aceito um não de reposta.
– Fala pequena. Vindo de ti é uma ordem. – Olhou-me vestido de travessura.
– Vamos tornar o dia mais insano à nossa maneira o possível? Quero dizer, para nós será um dia comum. “Vamos nos permitir?”.
’s POV
Ela tem esse hábito puro de cantarolar em meio as suas falas. E é muito bom. Ela é minha amiga essencial e perfeita. Ela sempre foi perfeita, na medida para mim.
’s /POV
– “Esse sorriso nos seus lábios eu me entrego todo.” – Ele disse revidando meu cantarolar.
– Bobo. Que moral a minha.
Chegamos à floricultura, e eu me senti tão pequena e feia, perto de tantas flores lindas. Até que em sua fiel, sincera, comum e surpreendente abordagem para me encantar, novamente encantou-me com uma surpresa que eu realmente não esperava.
– Para você. – Ergueu-me um buquê esplêndido.
– O quê?
– É como você. Linda, elegante, pura, rara. – Ele deve treinar essas coisas, só pode. Resta saber se as treina exclusivamente para mim.
– Nossa , eu amei. Nunca ganhei uma orquídea, tão linda e delicada. Eu até pensaria em...
– E assim como você, ela também é cara! – Interrompeu, colocando o dedo nos meus lábios e depois de lançar sua piadinha, gargalhou. – Desculpa, a piada caiu como uma luva.
– , seu idiota.
Insano, provocante, sexy, educado, simpático, sincero, sedutor, sensual, maravilhoso, romântico. Ele me partiu ao meio com todas as palavras e com aquela atitude. Foi lindo, uma das mais lindas emoções que me fez passar. Ele sempre demonstrou que via em mim, não uma bela mulher, mas uma mulher bela.
E eu sempre o admirei por isso. Toda a sua delicadeza. Tantas vezes chamado pelos “homens” que nos cercavam de louco, gay e burro por ter tido muitas chances de fazer o que quisesse comigo e não tê-lo feito. Homens, que de homens nada tinha senão a denominação da espécie. Pessoas que não sabiam o que era respeito. Diferente de todos e único, sempre me fez acreditar que eu era muito mais do que olhos humanos poderiam enxergar. Mais até do que ele mesmo enxergava. Um amigo como poucos, um homem como nenhum outro.
’s POV
Insana, provocante, meiga, sedutora, romântica, linda, responsável, admirável, elegante, inocente e todos os adjetivos de perfeição possíveis. Ela saiu correndo da floricultura como uma menina de dezesseis anos, sorrindo e gritando: “Anda , temos um dia longo!”. Às vezes tão inconsequente e sem juízo, mas ainda assim sempre responsavelmente responsável. Sabendo que eu não poderia voltar e levar o presente até a casa dela, pedi para entregarem o arranjo na portaria do prédio. Fomos à praia observar as ondas, ou “festival dançante das águas”, como descreveria. Ela tinha seu mp3 na mão e escutava I Don't Want to Miss a Thing, do Aerosmith. Dividimos os fones. Fazemos isso com frequência.
– Um pouco depressivo, não? – Achei mesmo, afinal o término do namoro não tinha deixado-a triste, como ela mesma contara, e estávamos vivendo um dia mais feliz que todos os outros.
– Libertador, apaixonante, dopante. – e essas suas definições confusas.
– Emocionante. – Sugeri. O que de fato a canção é.
Rimos. Ela me abraçou confortando seu rosto em meu peito. Provocando palpitações em meu corpo, pouco perceptíveis.
– Obrigada, por estar aqui comigo, me deixando ser tudo o que sou. Sem questionar, sem repreender-me. Sem dizer que sou insensível por não dar a mínima para o David e tudo o que houve entre nós.
– Eu quem agradeço por me ligar e me prontificar a estar com você aqui? Isso é importante.
– Eu te quero nos meus melhores momentos.
– Eu sempre estarei neles, podes crer.
E agora? Eu, ela juntos na areia, a canção da vez é Something, dos Beatles. Talvez por ela, a canção fosse Podes crer, do Cidade Negra, pelo clima da situação, mas para mim não. Ela ama os Beatles, ponto de desencontro com o ex. Quero fazer algo mais especial com ela. Quero um dia perfeito, a altura de nossa amizade. A altura do que eu sinto ou há milímetros do que ela merece, pois eu nunca conseguirei dar tudo o quê ela merece. Só sei que não desistirei de tentar.
– “I don’t know, i don’t know.” I don’t know o que faremos agora. – Ela disse cantarolando e fazendo-nos rir.
– Canta e encanta.
– Escuta ... Tem um parque na cidade! – Levantou-se dos meus braços, fazendo-me suspirar desanimado por isso. Seus olhos brilhavam e eu nunca recusaria um pedido dela. Ainda que fosse dos mais bizarros. Eu só respiro por causa dela.
– Formou? – Assenti fazendo-a alargar seu sorriso tão perfeito.
– Só se for agora.
Capítulo Quatro – Roda, Roda. O reflexo das vontades na gigante roda
“Neste mundo o coração bate devagar. Nos meus braços, vamos dividir o frio. Nos meus olhos você é tudo o que eu conheço. Querida, vamos para casa.” - Love Will Take You, Angus & Julie Stone
Lá estávamos na roda gigante, ao som de Falling in Love, do McFly, e adivinha qual ideia fantástica essa doidinha da teve?
– Hey vamos jogar nossas pipocas no povo lá em baixo?
– Por quê? Para nos espancarem, quando descermos? – Esse comentário me renderia uma boa discussão boba que a faria se irritar em nível um.
Ela tem níveis de irritação e eu conheço todos. Assim como ela tem caretas diferentes e também conheço todas. Sei cada traço dela... Quero dizer... Não todos, pois os melhores traços dela, aqueles que eu desejo conhecer desde que a vi pela primeira vez, eu ainda não conheço. Se é que me entendem.
– Nada a ver, ninguém vai saber que fomos nós, olha a altura! Qual o seu problema?
– E se alguém morrer?
– É só uma pipoca. – Provoquei a careta número 4, de “Está falando sério?”.
– Olha a altura. – Eu disse remendando a voz dela minutos atrás, isso também a irritava. – Vai que um grão de milho, atinge uma velocidade de 100 km/h e perfura o crânio de alguém?
– Eu vou enfiar essa pipoca toda na sua goela, ! – Ponto para mim. Objetivo alcançado.
– Duvido.
Eu ainda queria fazê-la avermelhar-se de irritação. Era uma das melhores miragens dela. Entretanto eu realmente não acreditava que ela faria o quê disse e desafiei-a. Ela fez. Grão em grão, ela foi me alimentando com pipoca, não de forma grosseira, mas carinhosamente. Estilo de tortura que ela domina muito bem.
– Se soubesse que era assim, teria duvidado bem mais de outras coisas antes. – Eu falei divertido, continuando com o meu jogo de provocar sensações nela.
– Pervertido! – Ele gargalhou. – Não iria o machucar.
– Você não me machuca nunca.
– Masoquista?
– Não! Talvez... Só com você.
Ela desdenhou o que eu havia dito e voltou a cantarolar. Parece proposital.
– “You are, the only exception...” – Cantava encarando-me e ainda alimentando-me como a um pombo. Eu sorria. Então parei para pensar no fim de namoro dela com David. Tinha uma dúvida que talvez ela não pudesse responder e não existia necessidade de eu perguntar, mas quando dei por mim, já havia tocado no assunto.
– Não consigo entender como David pode traí-la.
– Ele só não me amava. – Ela falou normalmente. Óbvia e sem nenhuma sombra de dificuldade de citar o ex.
– Você é incrível demais para precisar ser amada para não ser traída. Você não deveria ser traída nunca. – Tento me controlar, mas aí eu penso “Para quê?”. Por que esconder o que temos vontade de falar? Esse é o maior problema das pessoas. Esse é o motivo por nem tudo dar certo para elas. Ficar escondendo as coisas não é saudável, divertido, muito menos agregará qualquer bom valor.
– Acho que lhe subestimei ao conhecê-lo . Sabe, acho que o erro entre David e eu foi termos nos conhecido com a ânsia de ficarmos juntos. Vejo-te de modo diferente agora.
– O que quer dizer com tudo isso? – O tão incrível dom de me fazer estremecer. Por que só ela é capaz disso? O “problema” sou eu, as outras garotas ou ela?
– Dizem que amar é sofrer. Não deveria ser assim, deveria ser bom, feliz e pleno. O que muda são as circunstancias humanas de amar. Os pais amam os filhos e não sofrem por amá-los. Os amigos se amam e não sofrem por isso.
É eu já saquei que daqui vai sair alguma coisa estranha. Sinto isso. Quando ela começa assim... Sei não. Mas gosto disso.
– Não é o amor que faz as pessoas sofrerem, é o desejo da carne.
– Ai, você sempre me entende! – Ela tinha o sorriso de Alice e o olhar de Capitu. – Imagine um casal de amigos.
– Como eu e você? – Eu não sei se é exatamente o exemplo mais fiel para o que ela virá a falar, mas vejamos.
– Exato. Eles se adoram, se amam. Daí começam a namorar.
– Espera! Vou imaginar outro casal. – Eu sabia que a cópia não era tão fiel.
– Qual é , está dizendo que sou pouco para você? – Mulheres, façam um favor? Parem de distorcer as coisas que os homens dizem a vocês. Vocês gostam de se enganar tanto assim?
– Não foi isso. Mas nada a ver nós dois nessa situação. – TUDO A VER. TUDO A VER MESMO. Mas eu não poderia afirmar aquilo assim, naquele momento. Ou poderia, mas ela me deixa inseguro quanto a nós.
– Não se relacionaria de outra forma comigo? – E eu me pergunto, por que ela faz isso se sabe as respostas verdadeiras? Mulheres, não façam isso. Escutem-me, sério.
– Não é isso. Mas não tem como nós nos beijarmos. Sei lá … – Eu já estava envergonhado ao extremo, como só ela consegue me deixar, e não conseguia fugir do assunto.
– Não acho assim. – Ela parou pensativa a me encarar como se procurasse alguma coisa no fundo dos meus olhos. Eu ficava sem ar, o que é uma contradição filha da puta, já que eu estava a metros do chão em uma roda gigante. Quer mais ar do que isso?
Beijou-me. Não foi nada muito intenso. Foi um doce selo quente e molhado. E inocente. Ela não colocou malícia na sua atitude. Fiquei perplexo. Sem palavras e, quando acabou, ela só me olhou sorrindo e continuou a tese de amigos que namoram que ela constituía minutos antes.
– Viu, nos beijamos. Nada anormal. Mas, como eu dizia, o tal casal começa a namorar, você acha que eles sofreriam por se amarem? Sendo que eram amigos antes, se conheciam, eram íntimos de alguma forma? O amor real e duradouro vem de uma relação para outra. De amigos para namorados, por exemplo, de namorados para noivos e assim por diante. Não adianta querermos conhecer a pessoa e de primeira engatar um romance eterno, fiel e feliz. Não acha?
– , cala a boca, eu to meio sem noção... A roda parou. Vamos descer. – Assimilei todas as palavras dela e concordava com tudo, mas eu tenho hormônios. Não dá para usar o cérebro para respondê-la e tentar me controlar ao mesmo tempo.
– Está passando bem, ? O que houve?
Minha vontade era dizer: “Houve você sua devassa! Cadê seu juízo, sua sanidade?”. Mas ela nunca teve ambos. Eu não estava preparado para aquilo.
– Nada não, só fiquei assustado com seu beijo.
– Credo, e olha que isso nem foi um beijo! – Ela gargalhava. Aquilo não foi um beijo? Ah Deus, muito obrigada, agora eu nem vou ficar o triplo, múltiplo de agarrá-la sem pudor. Mas o que me impede de fazer isso? Tá legal, essa situação está se tornando cada vez mais difícil.
– Perdeu o juízo? – Perguntei, a fim de me distrair com outras coisas.
– Quando eu disse que o tinha?
– Verdade, eu deveria saber desde sua empreitada de aprender a surfar. – Eu disse, distraindo-me e relembrando, e acalmando a testosterona. Ela ria da memória.
– O instrutor estava lá só aquele dia e, meu, se não fosse naquele dia, não seria mais. Eu teria que pagar para aprender depois, e eu me banco, trabalho para me sustentar, sabia? Não posso esbanjar grana com qualquer capricho meu. Nem tenho tempo para isso.
– A NASA viaja sempre ao espaço procurando vida extraterrestre em outras galáxias e você aqui. Bobos.
– Está vendo? Você pode ganhar muita grana comigo. É só me patentear.
– Posso te patentear? – Muita malícia, muita malícia para pouca cabeça!
– Sou órfã, nenhum parente me reclamou até hoje, me registrei no nome que eu bem entendi. É como Renato dizia “Eu moro na rua, não tenho ninguém.” Tirando a parte do “eu moro na rua”... Acho que você pode sim.
– Você não pode dizer que não tem ninguém... Você me tem.
– Eu sei disso. Você também me tem.
’s /POV
Mais uma vez nos olhamos longamente. O beijei na mais pura inocência e falta de ética que tenho, mas a reação daquele toque foi intensa demais para o que eu esperava. O dia havia acabado, e eu não queria o fim. Muitas risadas, reflexões sobre esse mundo insano que se diz são em que vivemos. Observações às pessoas que nos acercavam, olhares sinuosos entre nós, o beijo, as palavras dele para mim, as orquídeas, a brisa com as folhas de outono, o café da manhã mais simples e sensível da minha vida, a roda gigante, novamente o ousado e simples beijo, a praia com o pôr do sol que combinamos e as canções do dia, o sorriso dele. Nem me cabe mais dizer a sonolência que seu sorriso causava em minhas pernas. Sonolência que eu fingia desconhecer. Fingia para manter as aparências sociais que eu tanto condenava. A quem eu queria enganar? Ele mexia com minhas estruturas, sempre mexeu. E eu me retratava e contentava com o pouco querer do David, com uma vida sem riscos e tensões. Não me culpo, não havia tido pais, criada sozinha pelo mundo, buscando vencer honestamente na vida, e havia conseguido. Um namoro assim. Primeiro namoro, com um belo par de orbes azuis realmente eram muito para quem nada tinha. Porém desde o dia que aqueles cabelos morenos desnorteados e passos apressados cruzaram a mim, na lanchonete, o David era pouco. Muito pouco de tudo o que eu esperava.
– No que está pensando me olhando assim? – Ele me fitava curioso. Ah se soubesse!
– No dia em que nos conhecemos. Lembra-se?
– Como esquecer? Eu estava atrasado para minha entrevista de emprego, totalmente atrasado, passei pela lanchonete e a vi no vidro, mas não a percebi. Tive que voltar para vê-la novamente. Aí sim percebi você. Você e seu sorriso de “qual é bobão? Nunca viu uma mulher limpando mesas?”.
– Eu pensei exatamente isso.
– Eu sei. Entrei e fiz meu pedido, que não foi atendido...
Flashback on
– Então senhor, o que vai pedir?
– Posso pedir você?
– Escuta aqui, ôh bonitinho! Eu não sou vadia falou? Sou garçonete, é diferente.
– Não... Você não entendeu...
– Vou te explicar como funciona por aqui: você entra, pega o cardápio, lê e diz o que vai querer comer. Mas tem que estar no cardápio! Já se decidiu?
– Er... Senhorita... ? – Ele falou lendo o crachá no uniforme da garota – Pois bem, a senhorita não me entendeu. Não quis ofendê-la, apenas entrei para falar com você. Encantei-me ao vê-la. Não estou querendo parecer abusado, mas sim, para ser sincero, eu te quero.
– Uau. Que decidido e cafajeste! Nunca vi maneira mais ridícula de propor um encontro.
– Então funcionou?
– Não. Você errou feio na finalização. Treine mais.
– Certo, então me veja um café enquanto me preparo para recomeçar, dessa vez, decentemente como eu sou.
Outra garçonete horas depois:
– , esse cliente não para de te encarar e nunca vai embora. A propósito, ele é gostoso. Se não quiser, eu quero.
– Só você mesmo Joana. Vou levar a conta dele... Com licença senhor, a sua conta.
– Mas eu não a pedi.
– Fiz o favor, parecia atrasado e quem sabe ainda se correr...
– Não, já perdi a entrevista e o emprego, logicamente.
– Bem...
– Olha me desculpe, sinceramente. Eu realmente adoraria sair com você, mas estraguei tudo não é mesmo? Acontece que ser amável quase nunca deu certo. Acho que procurei nos lugares errados.
– Como eu me sinto culpada por tê-lo feito perder a sua entrevista de emprego, eu o desculpo.
– Obrigada. Aqui está o dinheiro.
– Espera. Talvez possamos ser amigos. Meu telefone.
Flashback off
– Eu pulei muito de alegria na esquina por ter conseguido seu telefone. – Ele surpreendeu-me saudoso e sorridente.
– Nunca me disse isso... Eu gostei de você desde que o vi todo atrapalhado pela vitrine. Achei que você era um safado qualquer querendo comprar uma hora de prazer comigo logo que você abriu a boca, mas depois quando você se explicou, eu percebi que tinha gostado do seu jeito de menino virgem.
– Virgem? Eu não era virgem.
– Ahhh, qual é ? – Pra cima de mim? Pensa que me engana.
– Está bem eu era... – Não falei?! – Mas deixei de ser naquela semana mesmo.
– Então queria sair comigo e, mesmo assim, se deitou com outra para perder a virgindade?
– Eu não poderia arriscar de rolar alguma coisa entre nós e na hora eu... Você sabe... Fazer feio... Decepcioná-la.
– Sério?
– Muito sério. Pode rir da minha cara.
– Não vou rir. Foi fofo. Anormal e estranho, mas fofo.
– Bem, já estamos chegando ao ponto de táxi. Quer que eu a acompanhe até em casa?
– Não quero ir para lá. Ainda me lembro da minha personalidade vazia de antes da traição. Até o abajur da sala não tem nada a ver comigo, odeio a cor cinza e me recorda o David.
– E o que vai fazer, pequena?
– Eu... – Olhei-o sem saber se dizia ou não o que me corroia por dentro. Será que se eu o propusesse o que eu gostaria ele pensaria que eu estivesse sendo uma vadia?
– , quer dormir comigo?
– Eu pensei nessa hipótese. “Estou com medo, tive um pesadelo, posso dormir aqui, com você?”.
’s POV
Novamente ela cantarolou uma situação. Ela ter cogitado ir dormir em minha casa, pois acredito que era isso que ela havia pensado, me deixou extasiado. Eu não estou enganando a ninguém mesmo, nem a ela, e nem quis enganar... Eu a amo, por hora isso basta. Chamei o táxi e fomos.
’s /POV
– Eu prometo respeitá-la.
– Eu sei que fará isso... Desculpa incomodar, mas eu ainda estou meio sensível... Odiando a mim mesma.
– Não há por que se desculpar.
Era a desculpa mais deslavada para esconder que o amava, e que eu havia dito até então. Eu não estava sensível a nada, se não àquele dia. A ele. Chegando a casa dele, eu sabia que aquela noite eu deveria dizer, a importância que o dia vivido significava para mim, não só por ele estar ao meu lado, mas finalmente por eu aceitar o sentimento camuflado que habitava em meu coração.
– Vou pedir uma pizza, não almoçamos e estou morrendo de fome.
– Tudo bem.
– Antes, vou te levar ao meu quarto, você escolhe umas roupas minhas, toma um banho e se veste ok?
– Certo...
– Algum problema? Está tão monossilábica.
– Tanta coisa para dizer e você não diz... – Olhei-o na esperança de que ele entendesse o que eu queria ouvir. Há tanto tempo...
– Ainda não.
’s POV
Minutos após, a pizza chegou, jantamos. Ela estava bela, cabelos soltos, minha camiseta larga até seus joelhos e havia colocado um short de corrida meu por baixo.
’s /POV
Eu precisava falar, havíamos jantado, ele havia tomado banho e estava perfeito sem camisa, apenas de moletom. Lavamos a louça com assuntos aleatórios, mas o que realmente importava falar não havia sido ecoado, ele sabia que eu queria dizer algo, eu senti que ele também.
– , eu adorei nosso dia juntos. O melhor de todos esses três anos.
– Poxa, o melhor de todos os anos? Se livrar do David a fez tão bem assim?
– Fez bem, mas não é por isso. É que hoje percebi que te amo e não preciso esconder nada de ninguém, nem de mim e de você menos ainda.
– Eu também te amo pequena.
– Não . – Eu ri do automatismo dele de relevar, e por não perceber que enfim tudo havia acabado. Eu estava afirmando e aceitando os fatos que nós tanto esperamos.
– Eu o amo mesmo, e te quero. Do mesmo jeito que você me quis quando me conheceu, porém muito mais convicta disso. – Eu disse.
– Eu sempre quis ouvir isso, mas, após três anos, achei melhor me desiludir.
– E conseguiu?
– Não, nem me esforcei para isso. Eu a amo.
– Era só o que eu precisava saber.
’s POV
Ela me beijou novamente, de um jeito mais quente, mais molhado e dessa vez intenso. Entrelacei-a pela cintura com um de meus braços, a outra mão direcionou-se à sua nuca e puxei seus cabelos, de uma forma voraz, mas delicada. Ela jogava com toda sua sensualidade nos movimentos, me mordiscava os lábios e acariciava meu abdômen. Estava muito claro que ambos se desejavam. Eu precisava daquilo, deixar aquele clichê e discreto “pequena” de sempre para trás, e começar com o que realmente deveria ser: “minha, só minha pequena”.
’s /POV
Ele me enlouquecia e eu a ele. Estávamos na sintonia perfeita, como se tivéssemos sido feitos um para o outro. Subimos ao quarto e, ainda aos amassos, nos deitamos na cama.
– , te quero para sempre.
– Isso é um pedido de casamento?
– Entenda como preferir.
– Então aceito... Mas, eu quero uma festa linda, meu vestido com cauda e véu, todo branco e um buquê perfeito!
– Seu bobo, olha que eu desisto hein. Não vou me casar com uma marica. – Nós gargalhamos.
– Sabe o que é realmente insano?
– Não, o quê?
– Saber que finalmente podemos parar de culpar o mundo pelos seus erros, e admitir que seja impossível não errar na busca pela insanidade comedida.
– Em pensar que se não buscássemos isso tudo desde que nos conhecemos, não haveríamos nos amado, e eu teria sido uma Mayara para você, e você um David para mim.
Momentos surreais e quentes vieram e viriam ainda mais. Daí então, eu percebi que durante todo o dia, havíamos nos declarado, demonstrado em palavras o quanto nos amávamos, mas foi pelas canções, olhares e pensamentos que descobrimos isso. Há quem diga que o destino se encarrega de tudo. Para nós, cada um se encarrega da própria história. E mais, foi culpando a sanidade que camuflamos um amor e adiamo-lo para um futuro concreto.
E é por isso que nos veem como insanos, simplesmente por não termos vivido os momentos.
Já não me assimilava o que iria acontecer depois, eu vivi pela primeira vez em minha vida, o meu presente. E que presente! De repente percebi que não era ele, muito menos eu. Éramos nós. Nós que havíamos cogitado todo aquele encontro para o futuro. Porque eu sabia que amores duradouros e reais vêm de uma relação sólida, para uma relação imbatível e ele saberia que teria que esperar a nossa consolidação.
Fim

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