
O brilho eterno de um coração quebrado
Escrito por Victoria Fideles | Revisado por Lelen
“Afinal, de quantas maneiras um coração pode ser destroçado e ainda continuar batendo?” — Lua Nova.
Prólogo
A noite de 02 de agosto de 1932 estava fria e escura como o pequeno e frágil coração de Marissa.
Sentada na ponta da cama, tentava não olhar para frente, na direção de seu marido. Noites atrás, enquanto preparava-lhe um delicioso jantar, Albert se castigava por ter feito o que prometera jamais fazer ao desposar-lhe. Marissa percebeu o quanto o marido estava distante e pensou que talvez um jantar pudesse fazê-los esquecer da pior briga que já tiveram em anos. Albert, ao ver o esforço de sua mulher, sabia que deveria lhe contar tudo o que fez, o quanto era culpado e o quanto estava arrependido. Decidiu que contaria após o jantar, mas ver Marissa cuidando de seu recém-nascido bebê, fruto do amor que cultivavam há anos, fazia seu coração doer ainda mais por saber que isso a machucaria. Mas sua inexpressividade mostrou à Marissa que ele não estava feliz.
— Albie, está tudo bem? — Tocou-lhe o rosto. — Nosso bebê está aqui! Não consegue ficar feliz por isso? — O colar de Albert mudara de cor. Num instante, estava negro. Recheado de culpa e medo.
— Precisamos conversar, Marissa. — Segurou as mãos da esposa e, com lágrimas nos olhos enquanto olhava o pequeno, lhe disse: — Eu me deitei com outra mulher.
A revelação de Albert trouxe grande mágoa e sofrimento para a mulher. Ela não o olhava, nem lhe falava há dias. Nem a mesma cama eles dividiam mais. Sentia nojo e repulsa do pai de seu pequenino bebê. Tudo o que sonhara para um futuro ao lado do pequeno e seu amado se desfez pouco a pouco com os dias. Não conseguiu colocá-lo para fora, mas sabia que perdoá-lo não era uma opção. Decidiu então — após a vigésima tentativa de um perdão — sair do quarto, seria melhor para os dois.
Mas... E se ele viesse atrás dela? Não conseguiria negá-lo e não queria ter que olhar para ele. Não agora, não depois de ouvir a péssima explicação do homem que amava. Trancou o quarto com Albert a gritar por ela, esbravejar e pedir, incontáveis vezes, perdão. Bateu, socou e chutou a porta muitas vezes, até perceber que não conseguiria desse jeito. Então, sem pensar duas vezes, arrombou a porta. Marissa reclamaria, mas ele logo colocaria outra ao amanhecer. Duas tentativas, rápidas e precisas, e logo Albert conseguiu derrubá-la. Escorada no corrimão, ao alto da escada, Marissa sobressaltou-se e, pelo susto e desequilíbrio, rolou escada abaixo, parando ao fim dela, desacordada e ensanguentada. Albert viu seu mundo paralisar e sua vida ao lado de Marissa passar como filme a seus olhos. Correu até seu corpo, pequeno e frágil, segurando suas mãos, constatando que toda a vida dela esvaiu pelo sangue que insistia em fugir de seu corpo e ao ver seu pequeno coração, quebrado, espatifado e sem cor, sentiu profunda dor.
Percebeu, ao ver sua esposa morta ao fim dos degraus, que a amava com todo o coração e que traí-la foi o pior erro cometido em toda a sua vida. Desejava ele que nada tivesse acontecido e que sua mulher pudesse voltar, mesmo que ele tivesse que ser levado em seu lugar. Pensando nisso, Albert pegou seu coração e entregou à sua amada, na esperança de que ela voltasse. O que, por dois segundos, parecia ser a melhor ideia de sua vida, Albert viu-se acabado. Sua esposa não abriu os olhos novamente e Albert viu seu coração partir-se ao meio e perder a cor. Poucos segundos depois, perdeu suas forças e também se foi.
Somente o perdão é capaz de reconstruir. Marissa se foi antes de perdoar o erro de Albert, que sentiu a mais profunda dor em seu coração agora negro. Negro de medo, de arrependimento, de culpa. Sabia que a morte de sua esposa era culpa exclusivamente sua e que nada no mundo seria capaz de fazê-lo morrer tanto quanto isso.
O amor é uma via de mão dupla. Você ama e será amado de volta. Mas se você trai e escurece o coração dessa pessoa, o amor puro e genuíno deixa de existir. Resta ali, naquele coração, apenas um amor ressentido e luxurioso. E um coração traidor jamais consegue doar-se a alguém, pois ele é egoísta, frio e mentiroso. Marissa morreu duas vezes. A traição foi sua primeira morte, porque seu amor por Albert era toda a sua vida.
Capítulo 1
13 de julho de 2013 — Beryllus Civitas.
— Este é um teste de pureza. Vocês estão aqui porque atingiram quatorze anos, e consequentemente, precisam saber quem irão se tornar.
A garotinha, pequena e frágil estava inquieta. Tentava se concentrar na neve, porque era esperta e sabia que não estava vendo-a por nada, sabia que ela significava alguma coisa, mas o macacão branco que a Concentração a obrigou a usar estava coçando o seu corpo e ela tentava desesperadamente não pensar nisso. O macacão parecia ser de plástico, grudava e fazia alguns sons bizarros, enquanto ela tentava ignorar tudo isso e focalizar a neve.
— Em nome de toda a Concentração, eu os acompanharei até o final dos testes.
A voz feminina, doce e calma falava com os adolescentes que iriam fazer o teste enquanto eles caminhavam sobre a neve. não estava nervosa porque apesar de não conseguir ver mais ninguém ali, ela sabia onde eles estavam. Entravam cinco pessoas de cada vez para realizar os testes de pureza, todos com três minutos para passar por cada uma das estações que representavam as etapas do teste e, enfim, ganhar um colar com um cristal de coração, o qual representava o íntimo de cada um deles, quem eles eram de verdade, a cor de sua essência.
— Ao final do teste, se você conseguir um coração, é um beryllus por direito. Caso contrário, se junta aos heartless no CEEH.
CEEH é a sigla para Centro Especializado em Heartless. O lugar parece um hospital, com uma sala cinza escura e com pouca iluminação, onde as pessoas que não conseguiram o seu coração ou que acabaram com ele quebrado por algum motivo dormem profundamente deitada em macas geladas, enquanto os especialistas trabalham em seu corpo e cérebro, tentando encontrar uma maneira de te trazer de volta à vida, mesmo sem um coração. Em 200 anos ninguém ainda foi capaz.
— Vocês precisam seguir as pegadas, esquecer que estão em uma simulação. Olhem a neve, enxerguem as pegadas e sigam em frente.
— Não vejo neve nenhuma! — gritou ao longe, bagunçando a visão da irmã sobre a neve por alguns segundos.
— Você tem que visualizar a neve, . Você precisa — a voz suave tornou a dizer.
Os olhos de lacrimejavam com o vento intenso que parecia querer apagar as pegadas que ela enxergava. Ela as seguiu, passo por passo, chegando a uma floresta verde, com um sol quente que brilhava no céu. A garota se assustou ao olhar para trás e perceber que seu irmão não estava ali como ela achou que estaria.
— ?! — chamou alto, dando um passo de volta para a neve e o frio, porém um choque atingiu-a em cheio, jogando-a para trás. Ela deu um grito de pânico e dor, desesperada por não conseguir ir ao encontro do irmão.
— Você precisa continuar, . Siga em frente, só faltam duas estações. Visualize-as — a mulher insistiu.
— Eu não posso! Eu tenho que voltar! — gritou apavorada.
— Você não tem permissão para retroceder a estação. Siga em frente, seu irmão sairá do inverno assim que visualizar a neve. Ele ainda tem dois minutos. Concentre-se em seu teste.
Com o peito apertado, deixou que as lágrimas que ela segurava caíssem. Ela não podia continuar sem seu irmão, nem sequer queria, e ficar na agonia de ter que esperar ele chegar deixava-a ainda mais aflita. sempre foi uma menina impulsiva, ficar parada fazia com que uma inquietação de outro mundo tomasse conta de seu coração então, no calor do momento, ela decidiu que correr seria a solução perfeita. Quanto mais rápido esse teste acabasse, mais rápido estaria de volta para perto de seu irmão.
Ela correu o mais rápido que podia por entre os galhos da floresta densa, parando hesitante frente a um precipício. Olhou para baixo, avistando um riacho, e beirando todo esse riacho havia flores dos mais variados tipos, então soube que a primavera chegaria. Pulou rápido o suficiente para que quando abrisse os olhos estivesse dentro do riacho, mas ela sequer se molhou. Olhando a sua volta, descobriu estar no meio de um campo cheio de flores brancas, onde não parecia ter mais nada além disso. respirou fundo e continuou a correr, mas parecia que estava sempre voltando ao centro, ao mesmo lugar. Tentando não entrar em pânico, ela olhou para cima. De início só havia o céu, depois seus olhos enxergaram uma linha acima de sua cabeça que cortava todo o campo em que ela estava, de ponta a ponta. respirou fundo antes de escolher para qual lado seguiria, usando a lógica em vez de sua intuição.
Ela foi em direção ao lado esquerdo, onde as flores pareciam mais vivas e brilhantes, como se tomassem sol, enquanto as do lado oposto pareciam abatidas e secas, exatamente como ficam no outono. segurou a linha com as duas mãos, com cuidado o suficiente para não forçar e eventualmente arrebentá-la, andando rapidamente em frente, enquanto observava as paisagens mudarem bem em frente aos seus olhos. Estava descalça e sentiu os pés tocarem uma areia fina e quente, usava um vestido branco que balançava com o vento. Não havia nada além de areia em parte alguma e se não fosse pelo barulho do mar, juraria estar no meio de um deserto.
Por um momento a garota cogitou a possibilidade de estar na paisagem errada, talvez a tivessem esquecido em algum lugar no fundo de sua própria mente. Antes que entrasse em desespero, ela fechou os olhos, pensando com força no colar que estava ali para conseguir, então, sentiu água tocando seus pés e quando abriu os olhos ela já estava dentro do mar. Primeiro ela entrou em pânico e afundou, não sabia nadar. Em um segundo momento ela lembrou-se que aquilo era um teste, e ela estava no meio de uma simulação e nada era real, logo ela poderia ditar as regras e fazer o que quisesse. Era como um sonho, certo? Errado. Quanto mais a menina fingia saber nadar, mais a correnteza a afastava da praia. Seus braços doíam a cada braçada que ela tentava dar, sua cabeça latejava enquanto visualizava saídas rápidas em sua mente, como um barco ou uma prancha, mas nada deu certo e então ela afundou outra vez. Foi direto para baixo como se algo a estivesse puxando e cansada demais para se debater, ela se deixou ser levada. Foi então que ela viu, no fundo do mar, um colar perdido. Ele brilhava para ela, uma luz branca, como quando você olha para o sol. Num passe de mágica, aprendeu a nadar e foi buscar seu colar, retornando à superfície logo em seguida apesar de antes parecer que ela tinha descido pelo menos uns vinte mil metros. Estava tão cansada que poderia dormir, então decidiu boiar e deixar que as ondas a levassem de volta à praia e se isso não ocorresse, elas a levariam a algum lugar.
Então acordou.
Estava novamente na sala em que começara o teste, só duas pessoas que entraram com ela estavam ali também, uma tão cansada quanto ela e a outra simplesmente sem expressão alguma. Em suas mãos, estavam seus colares, um deles possuía o coração de cristal verde médio, parecia a grama de jardins luxuosos que você só vê em filmes. O outro era cinza claro, uma cor tão suave e inexpressiva quanto seu rosto.
— Bem-vindos de volta, beryllus! Parabéns, vocês obtiveram sucesso e agora estão capacitados a fazerem suas próprias escolhas dentro de nossa sociedade. Lembrem-se, cuidem de seus corações como cuidariam de sua alma, afinal é a coisa mais bela que vocês possuem. — A dona da voz finalmente apareceu para e os outros, sanando de vez sua curiosidade, ela era loira e pálida e o colar em seu pescoço tinha um cristal transparente, assim como o de , ela notou. — As regras são simples, e provavelmente seus pais já as ensinaram a vocês, mas para que não reste dúvida alguma, se vocês perderem seus corações ou alguém os roubar de vocês, terão apenas quatorze dias para encontrá-lo e trazê-lo de volta, caso contrário se tornarão pessoas de má fé, movidas a ambição, desgraça e ódio, perdendo totalmente a capacidade de amar e sua essência própria. Se seu coração se quebrar, eu sinto muito. Você terá alguns minutos antes de ser encaminhado ao CEEH. As cor-
— Me desculpe — a interrompeu.
— Sim, senhorita Benson? — Virou-se na direção da menina.
— Onde está meu irmão? — perguntou apavorada. não estava mais na sala e isso era um sinal muito ruim.
— Eu sinto muito, querida, mas seu irmão não conseguiu concluir o teste.
— O quê? Como assim? Por que não? — Levantou-se com olhos arregalados.
— Todos nós sabemos a resposta. Ele não era puro. — Respirou fundo, dando a resposta mais óbvia de todas.
— Não tem como, nós somos gêmeos! — disse ela, inconformada. — Se eu consegui o colar, ele devia conseguir também. Não tem como sermos filhos de pais diferentes! — Alguma coisa parecia muito errada.
estava quase gritando tamanho era seu desespero. Perder seu irmão significava que ela também estava perdida, significava o seu fracasso para si mesmo. Houve um engano, ela também deveria ser uma heartless, pensou. Atordoada, ela começou a gritar que os testes estavam errados, gritou por na tentativa de trazê-lo de volta. A mulher loira tinha um semblante preocupado, quase como se estivesse sentindo a mesma dor que sentia. Ela lhe pediu calma uma, duas, três vezes, mas a garota não ouvia nada além de seu próprio choro de angústia. simplesmente queria partir a cara de alguém e se a mulher loira lhe pedisse calma mais uma vez, ela seria o alvo.
— Me deixa vê-lo, quero ver o meu irmão! Cadê ele?! — Segurou com força os pulsos da mulher.
— Eu creio que isto não será possível, ele já foi encaminhado ao CEEH e os seus pais já foram avisados do ocorrido. — Puxou os braços de volta para si e segurou a menina pelos ombros.
— Não... — sussurrou ela, caindo de joelhos no chão frio daquela sala.
— Eu sinto muito — a garota de cabelos escuros e longos disse, afagando de leve as costas de enquanto ela chorava jogada no chão. Seu coração — verde como a grama — tornou-se marrom escuro por uma fração de segundo, enquanto ela se sentia pesarosa pela garota que chorava, quando na verdade deveria estar radiante por ter conseguido seu coração. — Vem comigo, vamos encontrar seus pais lá fora. Meu nome é Emma.
Emma sorriu fraco para e não se chateou quando a garota não conseguiu sorrir de volta, apenas a puxou pela mão, entrando no corredor que dava até a porta da sala. Enquanto saíam, olhou para trás, para a instrutora loira de voz suave e a viu fitando-a. Seu olhar era tão perdido quanto o de .
Capítulo 2
24 de Janeiro de 2017 — Ópes Civitas.
— Por favor, Emma, por favor, por favor, por favor. Nós já viemos até aqui! — Ela encarava com sofrimento os olhos da melhor amiga, as mãos juntas em súplica e os lábios formando um biquinho birrento de uma garota de cinco anos.
— Isso é arriscado demais! Se alguém te pega lá dentro… — Emma meneou a cabeça.
— Ninguém vai me pegar, eu vou tomar cuidado, poxa. — Pôs as mãos na cintura em obviedade. — Você é minha melhor amiga, sabe que eu preciso fazer isso. É importante.
— … — Tentou uma última vez que a amiga mudasse de ideia.
— Você sabe que se não me ajudar, eu vou entrar lá sozinha, não sabe? — No momento em que disse a frase, o coração transparente e genuíno de assumiu uma tonalidade roxa escura, fazendo Emma soltar uma risada.
— A arte da manipulação, não é, ? — Emma sorriu com as sobrancelhas arqueadas. — É claro que eu vou te ajudar, sua idiota! Mas se alguém pegar a gente, eu corro e te deixo sozinha. — Apontou o indicador para ela em sinal de aviso.
— Isso! Você é melhor, Emma Hart, a melhor! — Os corações pendurados em seus pescoços ficaram amarelos por um segundo antes de voltarem a sua coloração de costume, enquanto as duas amigas abraçavam-se.
As duas esconderam seus colares dentro de suas blusas de frio e sorriram. Emma, por adorar um desafio e , por finalmente sentir que poderia ficar inteira novamente. O vento gélido batendo no rosto de ambas fez com que tremessem um pouco e dar o primeiro passo fosse mais difícil do que imaginavam, afinal, nenhum beryllus estava autorizado a entrar na base da Concentração onde o prédio do CEEH se localizava a não ser pais, cônjuges, tutores legais dos heartless, médicos especialistas e os membros da coordenação.
respirou fundo e avançou na frente, pela lateral do prédio, como quem não queria nada. Emma andou em frente, os passos desajeitados e nervosos de propósito, os olhos começando a lacrimejar. Agradeceu mentalmente por estar um vento forte, que deixava seu rosto, geralmente pálido, avermelhado e abatido.
— O senhor poderia me ajudar? — ela perguntou, sua voz totalmente decepcionada, como se sua garganta estivesse fechada. espiou de dedos cruzados, precisava dar certo.
— Claro que sim, o que houve, querida? — O homem se aproximou de Emma.
— Eu perdi o meu colar, já o procurei por toda a província, ninguém quer me ajudar a encontrar, ninguém se importa! — gritou afinando a voz.
— Acalme-se, vou chamar um de meus colegas para ajudar você. — O homem levou suas mãos ao rádio transmissor no cinto da calça.
— Não! Eu não tenho tempo, o perdi há dias. Eu estava aqui com meus pais quando perdi, não tenho mais tempo, eu estou sentindo que vou me tornar uma... eu estou tendo tantos pensamentos ruins. — E então Emma começou a chorar. — Se eu pudesse, eu mataria uma pessoa e tiraria seu colar para poder usar. — Sua voz soou tão mórbida que se não fosse o fato de estar quase vomitando de nervoso, ela iria cair na gargalhada. O choro era o sinal que precisava para correr. Ela entrou tão rápido pela porta que antes o segurança estava vigiando que quase a bateu, porém, segurou a fechadura com força para encostar a porta. Havia notado há algum tempo que essa era uma das únicas portas na fachada lateral do prédio que ninguém precisava de um cartão de acesso para poder entrar, todos que passavam por ali eram liberados apenas pelo segurança que Emma distraiu, e somente encarregados do transporte de cargas e materiais para o prédio passavam por ali.
No momento exato em que passou pela porta, o celular de Emma soou alto uma música tradicional da província de Beryllus, que ela mesma agendou para começar a tocar. A garota fingiu atender e então deu um grito de empolgação, abraçou o segurança e disse que sua amiga havia encontrado seu cristal.
— Garota maluca — disse ele, voltando para frente de sua porta.
Lá dentro, se encontrou no meio de um lugar que parecia ser um depósito escuro, cheio de caixas velhas e poeira. A porta estava trancada quando ela checou.
— Merda — falou baixo, tentando enxergar através da luz da tela de seu celular. Ela tinha que encontrar uma saída, não poderia simplesmente voltar por onde entrou e se deixar ser pega pelo segurança. A garota era inteligente e já havia sacado que essa gente tinha muitas coisas a esconder, então começou a procurar por outra porta ou passagem, coisas do tipo que você lê em livros ou vê em filmes. Mas, para seu azar — ou sorte —, aquela era sua vida real e o que não podia acontecer, aconteceu. se assustou ao escutar o barulho do cartão de acesso da porta, e se abaixou instintivamente, enquanto uma mulher de jaleco branco entrava no depósito com uma lanterna. Aparentemente não havia luz no lugar. A mulher abriu uma gaveta, pegou um prontuário e saiu pela porta sem nem ao menos suspeitar da presença de alguém ali dentro. viu a oportunidade nascer, pegou o celular e colocou deitado entre a porta antes que ela batesse e respirou aliviada por não ter feito barulho. Ela se levantou, e espiou pela porta. Era um corredor com o piso de mármore e as paredes brancas, a luz era forte e fazia a vista de arder. Para onde, para onde? Ela pensava, sem ter certeza de onde diabos ficavam os corpos.
A garota seguiu pelo lado esquerdo, virando em outro corredor, um pouco menos iluminado que o anterior, onde havia várias salas com portas de aço. ficou sem entender por que havia portas de aço ali, quem eles queriam manter fora? Ou pior ainda, dentro? Seus passos rápidos a levaram até o fim do corredor, ela contou cinquenta e cinco salas, apenas do lado esquerdo por onde optara ir. Encontrou uma escada e desceu, sempre iluminando com a tela de seu celular, com medo de ligar a lanterna. O lugar era um pouco mais frio do que o corredor de cima. A menina chegou a uma sala, e logo encontrou um interruptor, batendo sua mão nele e iluminando todo o lugar. Ela visualizou várias macas, todas vazias. Completamente vazias. Onde ficavam os corpos, afinal? A garota bufou irritada por ter errado o caminho e xingou mentalmente ter escolhido o lado esquerdo do corredor, que a levou, literalmente, a lugar nenhum. Ao se virar para sair, engoliu em seco.
— Quem é você e o que está fazendo aqui? — Deu de cara com a mulher que viu mais cedo na sala de arquivos.
— Droga — disse frustrada.
foi escoltada por dois seguranças durante um percurso de cinco minutos até um elevador, onde o décimo terceiro andar foi apertado. Quando a porta do elevador se abriu, havia um rapaz parado em sua frente, sorrindo intrigantemente para ela. tremeu. Ele não aparentava ser muito mais velho do que ela, mas algo em seu olhar o deixava ameaçador. Ela não sentiu medo, foi mais curiosidade, queria saber o que alguém tão jovem fazia naquele antro de robôs.
— Vocês esperem aqui — ele disse com clareza para os dois seguranças, depois olhou para . — Você vem comigo. — Virou de costas para os três e caminhou até uma porta que ficava na frente do elevador.
Mais um corredor. Outra porta aberta, essa — diferente das anteriores — era de vidro e tinha uma placa que dizia “Coordenação”. Ele usou seu cartão de acesso para destrancá-la, deixando-o em cima da mesa ao se sentar e sinalizar para que ela fizesse o mesmo.
— Qual seu nome? — disse, cruzando as mãos no colo.
não disse nada.
— Por que está aqui? — Tentou outra vez uma comunicação com a garota.
Silêncio outra vez. Semicerrou os olhos diante do silêncio da garota e usou outra estratégia.
— Me mostre o seu coração. — Perguntar pelo colar das pessoas sempre lhe trazia o efeito esperado. Elas sorriam e os exibiam como se fosse o mais lindo e valioso troféu. E, naquela cidade, ele realmente era.
sentiu um calafrio percorrer todo seu corpo. Respirou fundo tentando controlar suas emoções. Um misto de raiva, rancor e pânico se alastrava em seu coração e, se ela o mostrasse estaria acabada. Então, algo lhe ocorreu. Por que ele queria ver seu coração? O que isto diria sobre ela além de sua personalidade? Ele deveria pedir para checar sua identidade e não seu coração.
— Para que você precisa ver meu coração? — indagou com arrogância aproximando o corpo da mesa à sua frente.
— Para saber se você tem um. — Devolveu com deboche.
— Se não tivesse seria uma heartless morta, correto? — Arqueou uma das sobrancelhas para o homem.
— Adormecida — corrigiu-a sorrindo de lado. A garota era um pouco abusada, em sua opinião.
revirou os olhos.
— Eu tenho um coração, está bem? — Bufou, jogando o corpo contra as costas da cadeira.
— Então mostre-me e você poderá sair logo daqui, sem mais problemas — disse suave. Ser rude logo de cara não tinha funcionado, ele tentaria outra abordagem.
— E se eu não quiser? — disse emburrada.
— Bem… Se não me mostrar, eu terei que enviá-la a outro setor. — Recostou-se na cadeira e sorriu para ela, tentando parecer amigável.
— Que setor? — Sua curiosidade se mostrou assim que fora atiçada por ele, atingindo exatamente o que ele queria.
— Um setor menos amigável que a coordenação. — Ficou sério, deixando no ar que ele estava sendo o bom moço ali.
se fez de desentendida e tirou seu coração para fora da blusa, sorrindo para o rapaz. Quando ele viu o coração de cristal transparente, sua expressão suave endureceu. Por que aquela garota tinha um dos corações mais fortes? Ele pensou que isso não ocorresse há muito tempo.
— Meu nome é , eu estou escrevendo um trabalho para a escola sobre a Sustentabilidade da Província de Ópes e não existe lugar mais Sustentável e correto em Ópes do que esse lugar. Eu disse isso lá embaixo e o segurança me deixou passar, então eu achei que poderia andar livremente por aqui e escrever sobre o que eu quisesse. — Sorriu ao terminar de se explicar para o rapaz.
— E onde estão as suas anotações? Caderno? Caneta? — Dedos novamente cruzados, agora de raiva, odiando a explicação totalmente plausível da garota. — E por que o segurança deixaria você entrar se todos eles sabem que ninguém entra sem autorização da Coordenação.
sorriu uma risada e levantou seu celular, indicando que suas anotações eram feitas no aparelho digital.
— Talvez eu tenha prometido dar algum crédito a ele quando terminasse o trabalho.
O rapaz lhe devolveu o sorriso e se levantou, virando para a janela e telefonando para alguém. A garota vagou os olhos pela sala, imaginando se sua mentira fora convincente ou não. Foi esperta e rápida o suficiente para inventar uma desculpa e não gaguejar ao falar, mas não sabia se isso seria suficiente para livrá-la de uma possível confusão.
Focalizou no cartão de acesso na mesa e não pensou duas vezes antes de pegá-lo e guardar entre sua calça jeans e sua cintura. O homem ainda estava em silêncio, o que indicava que a pessoa que recebia a chamada não estava disponível para atendê-lo.
— Ei… — ela disse pigarreando em seguida. — Eu tenho um compromisso em vinte e cinco minutos no centro de Pines… — Ele se virou com o cenho franzido. — Será que você poderia me liberar?
O homem estava confuso. Ela estava ali para fazer uma pesquisa e agora precisava ir embora desesperadamente por causa de um compromisso. Ele soube exatamente o que fazer a seguir, por isso encerrou a chamada e sorriu para a moça.
— Tudo bem, … — Seguiu até sua cadeira e sentou-se na ponta da mesa, de frente para ela. — Mas antes, você vai me dizer o que, de verdade, veio fazer aqui? — Cruzou os braços esperando a resposta.
—Eu já disse, um trabalho — disse simplesmente.
— Bom, … — Virou-se para trás pegando um pedaço qualquer de papel e sua caneta. — Me diz onde eu posso encontrá-la para ver o resultado final de seu trabalho.
estava assustada. Não imaginava que a reação do homem seria boa e ela desconfiou. Poderia dizer onde encontrá-la, mas ela não tinha trabalho nenhum e não sabia o que aconteceria com ela se ele pegasse sua mentira.
— Eu não consegui todas as informações, então acho que vou mudar meu foco de sustentabilidade. — Deu de ombros tentando parecer relaxada. Respire, , respire, disse a si mesma.
— Não seja por isso. — Largou o papel e caneta sobre a mesa e se pôs de pé, pegando um cartão na caixinha ao lado do computador. — Aqui está o meu telefone. Hoje você está ocupada, mas pode me ligar amanhã e eu mesmo terei o prazer de acompanhá-la pelo CEEH e te fornecer todas as informações para o seu trabalho. — Estendeu o cartão para ela e lhe sorriu com simpatia. Se a moça estivesse mentindo — e ele suspeitava que sim —, ele descobriria o porquê e sua punição viria.
percebeu a confusão que se metera e sabia que só poderia escapar se aceitasse a ajuda do rapaz e isso significava que ela teria mesmo que fazer um maldito trabalho inútil sobre Sustentabilidade, apenas para não se dar mal pela invasão ao centro. Estendeu a mão esquerda e pegou o cartão, guardando-o no bolso da calça.
— Obrigada, vai ser muito útil. — Sorriu, tentando não parecer nervosa. — Posso ir? — perguntou esfregando as mãos nas coxas.
— Pode — respondeu lhe dando espaço para que se levantasse. — Mas devolva meu cartão, por favor.
O homem sorriu debochado à reação da menina. Furtou o cartão dele e agora ele estava deixando claro que sabia o que ela tinha feito. estava envergonhada, não por ter pegado o cartão, mas por ter sido descoberta. Levantou a blusa e puxou o bendito, entregando na mão do homem. Pegou o cartão e suas mãos tocaram a dela, causando um choque no interior de seu corpo, também sentido por ela.
se recompôs e, com um sorriso, virou de costas para o homem e saiu da sala. Precisava sair dali o mais rápido possível ou Emma chamaria a polícia e contaria a história que inventaram para que ela fosse resgatada do CEEH. Encontrou os seguranças na porta do elevador esperando por ela, com ordens expressas do homem da sala com portas de vidro para levá-la à saída e se certificarem de que ela não pegaria mais nada.
Chegou à saída no mesmo instante em que viu Emma pegar o celular e discar o número da emergência. Quando levou o aparelho ao ouvido, viu gesticular com a cabeça e ela encerrou a chamada quando uma mulher respondeu: CE Província de Ópes.
Um dos seguranças as acompanhou até o fim da rua e elas seguiram em silêncio até a casa da menina. Precisava de uma saída rápida para enganar o tal homem do cartão. Pescou-o no bolso da calça e leu as informações douradas no cartão preto.
Mason Scott
Coordenador de Cadastros Heartless
(+324) 555 6428
Então Mason era responsável pelo cadastro de todos que se tornavam heartless depois do teste. Isso facilitaria muito sua vida pois ela poderia se aproveitar do homem para descobrir o que precisava.
Capítulo 3
Mason estava curioso, não imaginava que a menina fosse ligar para ele. Ela parecia querer sair de perto dele desesperadamente, por isso foi uma surpresa quando ela ligou e disse que teria um tempo livre para a ajuda que o homem oferecera. A voz de , apesar de um pouco hesitante no início da chamada, havia ganhado uma falsa confiança ao agendar o encontro para a tarde do dia seguinte.
Mason sabia que ela não estava interessada em sustentabilidade. A maneira como ela havia furtado seu cartão, a curiosidade em seus olhos ao falar do CEEH, e a forma como seu coração transparente havia brilhado de forma incomum quando ela mentiu — tudo indicava que Benson era mais do que uma adolescente curiosa. E aquele "choque" que sentiu quando suas mãos se tocaram… ele não conseguia esquecer. Era uma sensação estranha, quase como um reconhecimento.
No dia seguinte, chegou à recepção da Concentração pontualmente. Emma, que a acompanhou até a esquina, piscou um olho em sinal de boa sorte. A confiança de era uma máscara bem treinada. Seu coração, sob a blusa, pulsava um tom de roxo suave — um sinal de sua determinação e da leve manipulação que ela sabia que precisaria usar.
Mason a esperava na recepção, um sorriso enigmático nos lábios. Ele estava impecável em seu uniforme da Concentração, os cabelos bem penteados, e seus olhos claros fixos nela, como se pudesse ver através de sua fachada.
— Senhorita Benson. Pontual. — Ele a cumprimentou, sem estender a mão desta vez. — Pronta para sua pesquisa sobre sustentabilidade?
forçou um sorriso.
— Prontíssima, Senhor Scott. Eu estava realmente animada para aprender com o melhor. — Ela tentou soar o mais inocente possível, mas sentia o escrutínio em cada palavra dele.
— Ótimo. Por aqui. — Ele fez um gesto, conduzindo-a por um corredor que não tinha notado antes. Era mais estreito e menos movimentado do que os principais, com portas numeradas que não eram de aço, mas de madeira escura e sólida. O ar ali era mais seco, com um cheiro sutil de desinfetante e algo que ela não conseguia identificar — talvez papel antigo, ou eletricidade.
— Este setor é o de logística interna — Mason explicou, sua voz calma, mas com um tom que não admitia interrupções. — Aqui, gerenciamos o fluxo de materiais e informações entre as diferentes seções do CEEH. É o coração administrativo da operação.
assentiu, absorvendo cada detalhe. O "coração administrativo" — era ali que as informações podiam estar. Ela precisava ser discreta. A cada porta que passavam, tentava espiar, mas todas pareciam fechadas hermeticamente, sem qualquer som vindo de dentro.
— Então, o que exatamente faz um Coordenador de Cadastros Heartless? — ela perguntou casualmente, enquanto Mason abria uma porta com seu cartão. O "clic" da fechadura eletrônica ecoou no corredor silencioso.
Ele se virou, com aquele sorriso de canto de boca.
— Eu garanto que cada heartless seja devidamente registrado e que seu histórico seja mantido em ordem. Um trabalho de zeladoria, diria. Não é tão excitante quanto parece. — Havia um brilho de divertimento em seus olhos, como se soubesse que ela não acreditaria em uma palavra.
A resposta evasiva irritou , mas ela não demonstrou. Eles entraram em uma sala ampla, com várias telas de computador piscando com códigos e gráficos complexos, e armários de metal cheios de pastas numeradas. Era uma sala de dados, não de corpos. A decepção esmagou por um segundo, mas ela rapidamente se recompôs. As informações que ela precisava estariam ali, em alguma daquelas pastas ou arquivos digitais.
— Para seu trabalho de sustentabilidade, imagino que queira ver como gerenciamos o uso de energia, certo? — Mason prosseguiu, sentando-se à mesa e indicando uma cadeira para ela. — Temos sistemas muito eficientes. Ou talvez a reciclagem de materiais, que é exemplaríssima aqui. Quer uma cópia do nosso relatório anual? Posso imprimi-lo para você.
percebeu o jogo dele. Ele estava testando-a, cercando-a com tópicos genéricos que não a levariam a lugar nenhum. Ele queria ver até onde ela iria, até onde ela insistiria em sua farsa. Ela precisava de um ponto de entrada, algo que o fizesse baixar a guarda ou, pelo menos, que o forçasse a revelar algo.
— Na verdade, Senhor Scott — ela começou, um brilho de astúcia em seus olhos que rivalizava com o dele —, eu estava pensando mais na sustentabilidade humana. Afinal, a província de Ópes se orgulha de manter sua população em harmonia, com a pureza e a saúde de seus corações. O CEEH, nesse sentido, representa o… o descarte de corações impuros. Como vocês lidam com a sustentabilidade das almas? Há algum projeto de "reaproveitamento" para aqueles que… não se encaixam mais?
Mason parou de digitar. Seus dedos congelaram sobre o teclado e seu sorriso se desfez, substituído por uma expressão séria. Ele se virou para encará-la, seus olhos claros fixos nos dela, sua postura rígida. A questão de "reaproveitamento" e "sustentabilidade das almas" havia atingido um nervo.
— Sua pesquisa é mais… profunda do que eu imaginava, senhorita Benson — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Sustentabilidade das almas, você diz? Isso é algo que não discutimos abertamente aqui.
Ele se levantou e caminhou até a janela, que oferecia uma vista parcial para um pátio interno, cercado por mais paredes cinzentas. Ele parecia estar escolhendo as palavras com cuidado. podia sentir a tensão no ar, quase palpável. Ela havia encontrado uma rachadura em sua armadura.
— Não precisa me dar detalhes. Apenas o conceito geral já seria… sustentável para o meu trabalho. — Ela provocou, usando a própria palavra dele, mantendo o olhar firme.
Mason se virou novamente, um novo tipo de brilho em seus olhos. Não era mais deboche ou tédio, mas algo mais complexo. Reconhecimento, talvez. Ou uma curiosidade que rivalizava com a dela, misturada com um lampejo de cautela.
— Bem, senhorita Benson. Já que sua curiosidade é tão… particular — ele disse, voltando para a mesa e abrindo uma das pastas físicas, sem desviar o olhar dela. A pasta estava cheia de papéis, gráficos e o que pareciam ser fichas de pessoas. — Eu diria que a sustentabilidade, aqui, reside em manter o equilíbrio. Nem tudo que entra aqui é descartado. Algumas coisas são… estudadas. E algumas, bem… são guardadas.
Ele fechou a pasta com um som seco, pousando as mãos sobre ela.
— O que você realmente quer saber, ? E por que você se importa tanto com os heartless? Há algo mais em jogo aqui, não é? Algo que você não está me contando.
O jogo havia mudado drasticamente. Mason não estava mais apenas brincando. Ele estava investigando, e sabia que precisaria jogar com cautela. A informação estava ali, à beira da revelação, mas o preço poderia ser alto. Ela sentiu seu coração transparente pulsar mais forte sob sua blusa, a intensidade daquele momento era palpável. Ele a via, ela sabia. E ele sabia que ela tinha um motivo maior para estar ali.

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