No Noble Blood


Escrita porMandy Poynter
Revisada por Lelen


CAPÍTULO 1 • O VAPOR E AS CICATRIZES

  O som distante de gotas d’água colidindo contra as rochas do teto nos limites dos calabouços era o ritmo que ditava as manhãs na sala de Poções. Ali, metros abaixo da superfície do Lago Negro e longe do burburinho ensurdecedor que logo tomaria os Salões Principais, o ar mantinha uma temperatura constante, fria e límpida.
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  O aroma era denso e inconfundível. Uma mistura equilibrada de raiz de asfódelo encharcada em álcool de grão, baforadas finas de fumaça de madeira de salgueiro e o vapor penetrante de óleo de eucalipto. Para qualquer visitante casual, o ambiente parecia quase intimidador; para a professora %Celeste%, era o único lugar no castelo onde a ordem imperava sem esforço.
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  Suas vestes de lã escura cortavam a penumbra sem emitir um único farfalhar. Com um movimento contido da varinha, as arandelas de ferro encrostadas na pedra rústica acenderam-se uma a uma, lançando uma luz dourada e aconchegante sobre as bancadas de carvalho escuro.
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  %Celeste% caminhou devagar entre as fileiras de mesas. Passou os dedos de forma clínica pelas superfícies, inspecionando cada caldeirão de latão polido, cada conjunto de balanças perfeitamente equilibrado ao marco zero e os conjuntos de facas de prata dispostos ao lado das tábuas de corte. Nas prateleiras que revestiam as paredes até o teto, centenas de frascos de vidro reluziam em tons de âmbar, esmeralda e rubi, guardando ingredientes que variavam de besouros secos a elixires altamente voláteis.
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  Ela parou diante do tablado principal, onde o Relatório de Chamada dos alunos do primeiro ano repousava ao lado de um tinteiro de cristal e de uma xícara de chá verde que soltava fiapos de fumaça.
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  Ajustando a gola de suas vestes, a professora permitiu-se um segundo de reflexão silenciosa ao olhar para as carteiras vazias. Ela se lembrava com clareza cristalina de quando ocupou uma daquelas mesmas cadeiras anos atrás. Lembrava-se da hesitação ao segurar a faca de prata pela primeira vez, da sensação de isolamento por ser uma bruxa nascida-trouxa em uma casa onde a pureza de sangue costumava ser um dogma, e dos olhares de dúvida que recebia por ostentar a gravata verde e prata da Sonserina.
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  Contudo, ela não havia apenas sobrevivido àquele ambiente; ela o havia conquistado. Transformara o preconceito alheio em combustível para o domínio técnico impecável, construindo uma autoridade que não dependia do terrorismo psicológico que Severo Snape exercia, mas da precisão inquestionável e do respeito absoluto pela arte do preparo de Poções.
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  A porta de madeira pesada da entrada se abriu sem ranger as dobradiças lubrificadas. Os passos firmes, ritmados e inconfundíveis da Diretora McGonagall ecoaram pelo chão de pedra até pararem diante do tablado.
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  — Imaginei que a encontraria aqui muito antes do desembarque na estação de Hogsmeade — disse Minerva, ajustando os óculos retangulares sobre a ponte do nariz e permitindo-se um breve vislumbre de um sorriso acolhedor no rosto severo. — O Expresso de Hogwarts já cruzou os limites de Londres há algumas horas. Este ano, a lista de chamada carrega nomes que farão as paredes deste castelo sussurrarem por semanas. O filho mais novo de Harry Potter está ingressando... assim como a filha de Hermione e Rony. E o garoto Malfoy.
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  A professora de Poções não ergueu os olhos de imediato. Com movimentos calmos, elegantes e precisos, organizou a pilha de pergaminhos sobre a mesa antes de pousar a pena de ganso ao lado da tinta.
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  — Nomes famosos costumam trazer expectativas velhas e desnecessárias, Diretora — respondeu %Celeste%, a voz pautada por um tom sereno, grave e aveludado, que preenchia o ambiente com uma autoridade natural. — Mas, no fundo desta sala, o vapor dos caldeirões não reconhece linhagens nem títulos de jornais. Uma gota errada de bile de besouro ou uma raiz cortada na espessura incorreta explodirá na cara do aluno com a mesma força, seja ele um Potter, um Weasley ou um Malfoy.
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  Minerva a observou em silêncio por um longo momento. Nos olhos da veterana bruxa, brilhava um respeito profundo, acumulado ao longo de anos de convivência. Ela conhecia cada detalhe da trajetória daquela jovem mulher. Sabia o peso imenso de ser uma bruxa nascida-trouxa que vestiu a gravata da Sonserina com orgulho supremo durante anos, sem jamais se curvar ao preconceito de sangue ou ao orgulho cego. Sabia que a presença dela ali era a maior prova viva de maturidade que a escola poderia oferecer.
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  — Sei que sua conduta em sala de aula será irrepreensível, como sempre foi — ponderou Minerva, o tom de voz suavizando-se ao dar um passo à frente. — Apenas... lembre-se de que alguns deles chegam este ano carregando feridas que não podem ser curadas com feitiços simples ou notas altas. O jovem Scorpius perdeu a mãe no início deste verão. A casa dos Malfoy está em luto fechado.
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  A professora fez uma pausa imperceptível. Seus olhos escuros e inteligentes fixaram-se nos de Minerva, refletindo uma compreensão silenciosa que ia muito além da empatia profissional.
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  — Nenhum aluno meu será julgado pelo passado de sua família, nem usado como peão para alimentar velhas rivalidades de casa — garantiu ela, com uma firmeza tranquila que não deixava margem para dúvidas. — Enquanto estiverem sob a minha tutela, eles encontrarão nesta sala apenas a mais estrita justiça. Segurança, exigência e respeito, para todos. Nem mais, nem menos.
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  Minerva assentiu, satisfeita, e deu meia-volta, deixando a professora a sós com o silêncio da sala, os livros de registro e a promessa inabalável de um ambiente seguro para qualquer criança que cruzasse aquela porta.
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*****

  A milhas de distância, no interior de Wiltshire, o sol da manhã mal conseguia romper a névoa fria que cobria os jardins da Mansão Malfoy. Dentro da propriedade secular, o silêncio não era como o dos calabouços de Hogwarts — era um silêncio pesado, carregado pela ausência de quem dava vida àquela casa.
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  No segundo andar, em um quarto ornamentado em tons sutis de prata e azul, Scorpius Malfoy terminava de abotoar o colarinho de sua camisa branca. Suas mãos pequenas e pálidas hesitavam em cada botão. No espelho moldado em madeira nobre, a imagem que refletia parecia frágil demais: cabelos loiro-platinados caídos sobre a testa, olhos cinzentos expressivos e ombros levemente curvados pela timidez.
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  A mesa do café da manhã no andar térreo estava posta para apenas duas pessoas. Louças de porcelana fina e talheres de prata reluziam sobre a toalha de linho, mas nem Draco nem Scorpius tocaram no alimento.
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  Draco Malfoy, vestindo um terno escuro impecável, observava o filho em silêncio enquanto tomava um gole de café preto. As marcas de luto em seu rosto eram profundas; linhas de cansaço contornavam seus olhos cinzentos, e a dor de ter perdido Astoria poucos meses antes ainda queimava como uma ferida aberta em seu peito. Astoria fora a luz que resgatou Draco das sombras de seu próprio passado, e vê-la partir tão jovem era um golpe do qual ele sabia que jamais se recuperaria por completo.
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  — Você não comeu quase nada, Scorpius — disse Draco, a voz suave e rouca quebrando o silêncio do salão.
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  — Estou sem fome, pai — murmurou o garoto, mantendo o olhar fixo no prato limpo. — O meu estômago parece... um nó.
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  Draco respirou fundo, colocando a xícara sobre o pires sem fazer barulho. Ele se levantou, caminhou até o filho e retirou do bolso interno do paletó uma pequena caixa de veludo negro.
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  — Sua mãe queria que você ficasse com isso quando fosse para Hogwarts — disse Draco, abrindo a caixa.
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  Dentro, repousava um pequeno diário de capa de couro escuro, preso por um fecho de prata em formato de folha de aveia, ornamentado com uma pequena pedra de jade.
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  — Ela começou a escrever algumas memórias sobre os anos dela na escola — explicou Draco, com a voz levemente embargada enquanto colocava a caixa nas mãos de Scorpius. — Ela disse que, quando a saudade de casa ficasse grande demais ou quando o mundo lá fora parecesse barulhento e hostil, colocar suas palavras no papel te ajudaria a encontrar clareza. É seu.
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  Scorpius tocou o couro macio do diário com a ponta dos dedos. Uma lágrima rápida escapou pelo seu rosto, mas ele a enxugou imediatamente antes que o pai percebesse. Ele abraçou o pequeno livro contra o peito, assentindo em silêncio.
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  — Obrigado, pai — sussurrou Scorpius. — Vou guardar como o meu maior tesouro.
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  — Ótimo — disse Draco, colocando a mão pálida sobre o ombro do garoto e apertando-o com afeto. — Agora pegue seu casaco. O carro nos espera. Não podemos nos atrasar para King’s Cross.
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****

  Enquanto os Malfoy cortavam as estradas em um veículo escuro e silencioso, no outro lado de Londres a atmosfera era radicalmente oposta. O carro da família Potter-Weasley avançava pelo trânsito matinal da capital trouxa com uma energia caótica e vibrante.
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  Dentro do veículo expansível adaptado, Rony dirigia enquanto cantarolava uma música antiga da rádio bruxa, interrompido constantemente pelas risadas de Lílian Luna e pelas provocações sem fim de Tiago Sírio Potter.
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  No banco de trás, Alvo Severo Potter mantinha a testa encostada contra o vidro frio da janela, observando os ônibus vermelhos de dois andares e os pedestres apressados. Sua mão segurava a alça de sua mochila com tanta força que as articulações dos dedos estavam brancas.
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  — Relaxa, Alvinho! — provocou Tiago Sírio, debruçando-se sobre o assento com um sorriso brincalhão no rosto. — É só a Seleção das Casas! Se você der azar, o Chapéu nem pensa duas vezes e grita Sonserina antes mesmo de tocar na sua cabeça! Aí você vai ter que dormir nos calabouços com as cobras e comer lesmas no café da manhã!
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  — Tiago Sírio Potter, cale essa boca agora mesmo! — repreendeu Gina Potter do banco do carona, virando-se para o filho mais velho com um olhar de pura advertência maternal. — Não fique colocando caraminholas na cabeça do seu irmão!
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  — Mas mãe, eu só estou avisando! — riu Tiago, encostando-se de volta no banco. — O Alvo tá com uma cara de quem vai desmaiar antes de chegar na plataforma!
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  Alvo engoliu em seco, sem responder. A provocação de Tiago, embora fosse apenas a típica implicância de irmão mais velho, tocava exatamente no ponto de seu maior pesadelo.
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  Ao seu lado no banco, Rose Granger-Weasley folheava pela terceira vez um exemplar dobrado de Hogwarts: Uma História. Suas vestes novas já estavam perfeitamente dobradas no colo, e ela ajeitou o cabelo cacheado com uma postura de pura determinação intelectual.
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  — Não dê ouvidos a ele, Alvo — disse Rose, com a fala rápida e decidida idêntica à da mãe. — Nós lemos todos os livros preparatórios. Se mantivermos o foco, respondermos aos professores com clareza e fizermos o que é esperado de nós, seremos selecionados para a Grifinória. É onde nossa família inteira esteve, é onde meu pai e minha mãe fizeram história, e é para lá que nós vamos. Não há outro caminho razoável.
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  Quando o carro finalmente estacionou nas imediações de King’s Cross, o grupo desembarcou em meio ao caos da estação. O contraste era cômico e tenso: bruxos tentando passar despercebidos enquanto empurravam carrinhos pesados carregados de malões de madeira reforçada, gaiolas com corujas piando agitadas e vassouras presas por tiras de couro.
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  Eles caminharam em grupo denso pelo saguão principal de tijolos vermelhos. Entre as plataformas 9 e 10, Harry Potter parou o grupo com um gesto calmo.
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  — Certo, Tiago vai primeiro com a Lílian para demonstrar — orientou Harry, com um sorriso paciente.
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  Tiago Sirius deu uma piscadela para Alvo, acelerou o carrinho e correu direto contra a barreira de tijolos sólidos que dividia as duas plataformas. Em um piscar de olhos, ele e a estrutura pareceram se dissolver no ar, desaparecendo completamente.
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  — Sua vez, Alvo — disse Harry, pousando a mão sobre o ombro do filho menor. — Juntos.
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  Alvo respirou fundo, segurando firme o metal do carrinho. Ele e o pai alinharam-se diante da parede imutável. Correram em direção ao pilar sólido. Alvo fechou os olhos por uma fração de segundo, esperando o impacto que nunca veio. O ar ao seu redor ficou momentaneamente denso e frio, o som do trânsito de Londres abafou-se de vez, e, ao abrir os olhos, ele foi inundado pela fumaça escarlate, pelo cheiro de carvão queimado e pelo apito grave da locomotiva a vapor do Expresso de Hogwarts.
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  Eles haviam chegado à Plataforma 9 ¾.
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****

  A plataforma estava repleta de famílias. O vapor vermelho do trem subia em espirais até o teto de ferro fundido, e bruxos de todas as idades conversavam ruidosamente. A família Weasley inteira parecia estar presente em algum ponto da estação, gerando um mar de cabelos ruivos e abraços efusivos.
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  Em meio ao rebuliço, Harry percebeu a tensão que ainda dominava o rosto do filho caçula. Ele fez um sinal para que Gina continuasse conversando com Hermione e Rony e chamou Alvo delicadamente para um canto mais calmo da plataforma, perto de um dos pilares de sustentação.
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  Afastando-se do barulho da multidão, Alvo olhou para o pai com os olhos arregalados, a ansiedade finalmente transbordando.
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  — Pai... e se eu for para a Sonserina? — perguntou Alvo em um sussurro aflito, a voz trêmula revelando o medo sombrio que o assombrava há meses. — Se o Chapéu me mandar para lá... o que acontece?
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  Harry Potter observou a aflição genuína no rosto do filho. Sem hesitar, ele se ajoelhou diante do garoto sobre o concreto frio da plataforma, ficando exatamente na altura dos seus olhos. Segurou os ombros de Alvo com uma firmeza calma, quente e acolhedora, fixando o olhar verde e sincero no menino.
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  — Alvo Severo — disse Harry, a voz baixa e profunda —, você tem o nome de dois diretores de Hogwarts. Um deles era da Sonserina... e ele foi provavelmente o homem mais corajoso que eu já conheci em toda a minha vida.
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  Alvo piscou, absorvendo o peso daquelas palavras, enquanto o pai continuava com um sorriso caloroso e compreensivo:
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  — Mas escute bem: se isso realmente importa para você, o Chapéu Seletor leva a sua escolha em consideração. Ele levou a minha quando eu tinha a sua idade. Mas ouça o que estou te dizendo, Alvo: não há absolutamente nada de errado em ir para a Sonserina. Seja qual for a casa que te acolher, nós teremos um orgulho imenso de você. Entendeu?
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  Alvo assentiu lentamente, sentindo um peso enorme aliviar-se em seu peito, embora a incerteza ainda pairasse no ar.
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  A poucos passos dali, Rony Weasley terminava de acomodar a mala pesada da filha no carrinho antes de dar um abraço apertado em Rose, soltando-a com uma piscadela e um sorriso orgulhoso.
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  — E veja bem, Rosie — disse Rony, baixando o tom de voz com uma brincadeira mal disfarçada de gravidade —, certifique-se de superar o filho do Malfoy em todas as matérias práticas e teóricas. E nem pense em ficar amiga dele! Seu avô Weasley nunca te perdoaria se você fizesse amizade com um puro-sangue daqueles.
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  Hermione Granger, usando vestes elegantes de trabalho do Ministério, revirou os olhos com um suspiro divertido e deu um leve tapa de repreensão no braço do marido.
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  — Rony, por favor! Não coloque essas bobagens e rivalidades velhas na cabeça da menina — disse Hermione com firmeza, antes de se virar para a filha com carinho infinito. — Concentre-se no seu aprendizado, querida. Dê o seu melhor em cada aula, leia bastante e divirta-se. É o seu momento de brilhar.
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  Rose concordou com a cabeça vigorosamente, o queixo erguido e os olhos brilhando com uma determinação afiada. As palavras brincalhonas do pai, contudo, não soaram para ela como uma piada, mas sim como um mandamento moral. Ela ajeitou as vestes ainda sem brasão e caminhou a passos rápidos até Alvo.
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  — Viu só? Nós precisamos ter certeza de manter o padrão da família desde o primeiro segundo — disse Rose ao primo, cheia de uma autoconfiança inabalável. — Meu pai está coberto de razão. Quando nós formos selecionados para a Grifinória, nosso dever é não deixar ninguém esquecer de que lado a história e a justiça sempre estiveram.
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  Enquanto Rose falava, a multidão ao redor pareceu abrir um espaço involuntário na extremidade mais afastada da plataforma, perto do último vagão do Expresso.
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  Ali, isolados do restante das pessoas como se estivessem envoltos por uma barreira invisível e espessa, estavam Draco Malfoy e seu filho, Scorpius. O silêncio que os cercava era esmagador. Mais do que os olhares desconfiados e os cochichos velados que alguns pais lançavam naquela direção, o que realmente pesava sobre os dois era a ausência devastadora de Astoria.
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  Era o primeiro dia de aula de Scorpius, e a mãe não estava lá para abraçá-lo ou alinhar o colarinho de suas roupas.
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  Draco ajoelhou-se sobre a plataforma fria, ignorando sumariamente os murmúrios ao redor. Suas mãos pálidas ajustaram com cuidado extremo a gola do sobretudo de Scorpius. O rosto do homem trazia marcas profundas de luto, e seus olhos cinzentos refletiam o desespero contido de ter que deixar o garoto — tão pequeno, tímido e recém-traumatizado pela dor — sozinho em um ambiente hostil.
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  — Escute bem o que vou te dizer, Scorpius — falou Draco, a voz embargada pela emoção contida, mantendo o tom baixo. — Lembre-se sempre de tudo o que sua mãe te ensinava em casa. Não importa o que digam nos corredores, não importa quais boatos cruéis e absurdos inventem sobre nós... você sabe exatamente quem você é. Apenas... faça o seu melhor. Seja forte.
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  Scorpius concordou com um aceno rápido, engolindo em seco. Seus olhos claros estavam marejados, e ele abraçava a caixa de veludo com o diário da mãe contra o peito.
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  Nesse instante, Harry Potter ergueu o olhar e seus olhos verdes se cruzaram com os olhos cinzentos de Draco Malfoy através da fumaça escarlate. Não houve hostilidade, nem palavras ditas. Apenas um aceno de cabeça lento, solene e silencioso entre dois homens de trinta e sete anos que haviam deixado as sombras da guerra para trás, mas que sabiam exatamente as marcas que o passado deixara em suas famílias. Draco retribuiu o aceno com uma inclinação quase imperceptível de cabeça antes de se levantar.
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  Rose olhou para Scorpius com um erguer de sobrancelhas convicto e desdenhoso.
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  — Olhe só para ele, Alvo — comentou Rose em voz baixa. — É exatamente sobre isso que meu pai falou. Um Malfoy. Quando nós formos selecionados, temos que ficar de olho bem aberto. Não podemos deixar gente como eles acharem que têm qualquer autoridade na escola.
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  Alvo encarou o garoto loiro por um momento mais longo. Embora as palavras do pai ainda ressoassem no fundo de sua mente, a fala de Rony e a empolgação cega de Rose sobre a Grifinória pesaram em seu peito. O garoto loiro à distância representava a sombra de todas as expectativas que ele temia não conseguir cumprir.
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  O apito ensurdecedor da locomotiva ecoou pela estação, anunciando que faltavam apenas dois minutos para a partida. A fumaça escarlate acumulou-se com mais densidade, e o movimento de passageiros tornou-se afobado.
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  — Vamos, crianças! Para o trem, rápido! — chamou Gina, dando um beijo carinhoso na testa de Alvo e abraçando Rose.
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  Alvo e Rose subiram os degraus de metal do vagão com seus malões. Do lado de fora, Harry, Gina, Rony e Hermione acenavam enquanto o trem dava o primeiro tranco para a frente. Draco Malfoy permaneceu imóvel na plataforma, observando a figura pequena de seu filho na janela do último vagão sumir lentamente na névoa, com o coração apertado no peito.
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  Dentro do trem, a busca por cabines era caótica. Alunos mais velhos ocupavam os compartimentos centrais, rindo e trocando histórias sobre as férias. Rose caminhava na frente pelo corredor estreito, puxando Alvo pelo armário da veste enquanto procurava um lugar "adequado" para eles se sentarem.
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  Mais ao fundo do trem, longe do barulho principal, Scorpius Malfoy encontrou um compartimento inteiramente vazio. Ele colocou sua mala com dificuldade no bagageiro superior, sentou-se junto à janela e abraçou o diário da mãe. Olhou para fora, vendo a paisagem de Londres dar lugar aos campos abertos do interior da Inglaterra, sentindo uma solidão profunda e uma sensação gigantesca de vulnerabilidade.
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  Separados apenas por alguns metros de corredor e por gerações de expectativas, Alvo, Rose e Scorpius viajavam em direção ao mesmo destino.
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  A milhas dali, nos calabouços frios e silenciosos de Hogwarts, a professora de Poções fechou o livro de registros com um baque abafado de couro. Ela caminhou até a janela de pedra que dava para as profundezas escuras e serenas do Lago Negro, onde criaturas mágicas nadavam em silêncio.
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  Ela sabia que a nova geração estava a caminho. Sabia que eles chegavam carregando os orgulhos, os preconceitos e as dores de seus pais. Mas sabia, acima de tudo, que sob a sua tutela, dentro daquela sala de aula, nenhum favoritismo cego ou preconceito mascarado de bravura teria permissão para prosperar.
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  O ano letivo estava prestes a começar.
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  NOTA DA AUTORA: Eu penso e escrevo essa história há anos e é bom que eu finalmente consegui desenvolvê-la ao ponto de querer dividir ela com todos vocês. Espero de verdade que vocês acompanhem essa aventura comigo, eu vou amar a opinião de vocês a respeito da história, espero de verdade que gostem assim como estou amando escrever cada pedacinho. Deixem seus comentários pra eu saber o que estão achando!
  Beijos!

CAPÍTULO 1
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Lelen

O Draquinho foi meu primeiro crush de HP, AGORA VOU REVIVER ESSE CRUSH.
ESTOU PRONTAAAAAA!

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