My New Year’s Gift
Escrito por Valentine Dellacour | Revisado por Natashia Kitamura
Levar um fora é sempre chato. Levar um fora na noite de Natal, seu feriado preferido, é dez vezes pior. Quem eu sou? Muito prazer, , 25 anos, nascida e criada em Brighton – Inglaterra e a um período de ser graduada em engenharia civil. Bem vindo a minha trágica vida.
Muitos diriam que sou uma garota de sorte: Bonita, inteligente, responsável, com uma família bem estruturada e amigos sinceros. Eles até podem ter razão, mas de nada adianta ser certinha e perfeitinha os olhos dos outros, quando não tenho a menor sorte em relacionamentos. Tá que essa não é uma parte essencial na vida de uma jovem de vinte e cinco anos, mas como eu quero um dia me casar e formar uma família se tenho o chamado “dedo podre” para relacionamentos? O maior exemplo disso é o meu ex-namorado, o responsável pelo fora no inicio da história.
Lucas Scott, mais conhecido como Luke. Neozelandês de Auckland, vinte e sete anos, moreno de olhos castanhos, pele bronzeada e corpo escultural, muito bem distribuído ao longo dos seus um metro e oitenta e oito de altura. Estudante de Engenharia Nuclear e frequentador de academias nas horas vagas, era o genro dos sonhos da minha mãe. Além de lindo, era gentil, carinhoso, engraçado, prestativo, estudioso, inteligente, puxava o saco da sogra e fazia de tudo pra agradá-la. Tudo fachada. Se ele fosse realmente o cara perfeito, não teria feito o que fez. O filho da mãe, depois de cinco anos comigo, decidiu por um ponto final na nossa relação bem na noite de Natal. Vê se pode? Não tinha outra data menos festiva não? Tinha que ser justo no meu feriado preferido?
Flashback
Era véspera de Natal e eu estava atolada ajudando a minha mãe a preparar a ceia, quando meu celular tocou.
- Tia Vicky, mexe o creme do pavê pra mim, por favor? Meu celular está tocando e eu preciso atender – pedi, e minha tia logo tomava o meu posto no fogão, enquanto eu corria para atender a inesperada ligação daquele que eu chamava de namorado e era idolatrado por todas as mulheres da família.
- Alô – disse, assim que peguei o Samsung Galaxy S III.
- ? – a voz que tanto conhecia e adorava perguntou.
- Oi amor. Tudo bem?
- Sim. Como estão as coisas na sua casa?
- Uma verdadeira correria. Minha mãe, tia Vicky e a Brittany estão a todo vapor na cozinha, terminando de preparar a ceia, enquanto vovô Neil, papai, vovô Paul e tio Carl assistem a reprise de um jogo do Barcelona na TV a cabo, junto com o Robert. Ah, e as crianças estão terminando de arrumar a decoração junto com a vovó Elisa – disse, não escondendo o entusiasmo.
- E você, o que está fazendo?
- Ajudando as mulheres na cozinha. Estava mexendo o creme do pavê antes de você ligar.
- Hum. Tem como você escapar um pouquinho? Preciso falar contigo.
- Claro. Onde você está?
- Na pracinha do condomínio.
- Sério? Por que não vem aqui em casa?
- Não quero atrapalhar os preparativos para a festa.
- Tá – estranhei o fato de ele não querer ir até a minha casa, mas fui ao encontro dele na pracinha. Ao chegar ao local indicado, encontrei Luke com uma cara séria e aparência cansada. – Oi amor.
- Oi – ele disse, me olhando sério.
- Que surpresa boa te ver – disse, sorrindo e tentando beijá-lo, mas ele virou o rosto.
- Se fosse você, não pensaria dessa forma.
- Por quê? O que aconteceu? – perguntei, preocupada.
- Eu quero terminar – disse, sem rodeios.
- Hã? Como assim? Que brincadeira de péssimo gosto é essa, Lucas? – perguntei, incrédula.
- Não é brincadeira , eu quero terminar.
- Por quê? O que foi que eu fiz?
- Você não fez nada. O problema sou eu.
- Ah, qual é Luke? Não tinha outra desculpa menos esfarrapada não? “O problema sou eu.” – disse, sentindo a raiva tomar conta de mim. – Quando dizem que o problema é com vocês, pode apostar que não é, portanto, pode me dizer o que te levou a querer terminar comigo.
- Eu não quero terminar contigo, eu vou fazer isso.
- Que seja, Scott. Só quero saber o motivo – disse, irritada.
- Eu estou voltando para a casa dos meus pais na Nova Zelândia e pretendo terminar o curso de Medicina lá.
- Tá, isso eu já sei. Nós conversamos a respeito desse assunto e decidimos que depois da minha formatura eu me mudaria pra lá. Enquanto isso, levaríamos um namoro à distância.
- Não , você decidiu isso, não eu. Além do mais, eu não suporto garotas irritantemente independentes, que mal ligam para os namorados e não demonstram seus sentimentos.
- Engraçado, se não me falha a memória, você aturou uma garota irritantemente independente, que mal liga para o namorado e não demonstra os sentimentos por cinco anos. Decidiu mudar de ideia, foi? – perguntei, irônica.
- Exatamente – ele disse indiferente.
- Ótimo, porque eu acabei de mudar de ideia sobre namorados adorados pelas mães, que na verdade não passam de idiotas. Quer saber Luke, para o inferno você e esse seu curso na Nova Zelândia. E nunca mais volte aqui. Se não eu mando o Robert te dar uma surra que você nunca vai esquecer – disse, e saí correndo, sem olhar pra trás, enquanto lágrimas teimavam em querer escorrer pelo meu rosto, mas eu não ia me permitir chorar por um filho da mãe que se achava o máximo por ser neozelandês e só usava samba-canção de seda com o escudo do Real Madrid. Não, eu poderia ser burra, mas nem tanto.
Ao chegar em casa, voltei pra cozinha e terminei de preparar a ceia, dando um descanso às três que estavam no fogão. Terminei minha tarefa por volta de 23h30 e fui me arrumar, me juntando ao restante da família que havia acabado de chegar. Para minha sorte, ninguém sequer percebeu a ausência daquele idiota, tamanha empolgação com a comida e os presentes.
Quando o relógio badalou doze vezes indicando que era meia-noite, nos reunimos em volta da enorme mesa de jantar, fizemos nossa oração costumeira, agradecendo a Deus por mais um ano e pela fartura de alimentos que nos foi proporcionada, nos abraçamos e fomos comer. Num determinado momento, minha mãe perguntou pelo Luke e eu dei uma desculpa qualquer, para não estragar a minha noite nem me transformar na coitadinha que foi chutada em pleno Natal. Dessa forma, o feriado passou.
Fim do Flashback
Dois dias depois, decidi me livrar de tudo o que me lembrasse daquele maldito. Sendo assim, peguei tudo o que ele me deu e juntei numa pilha no quintal de casa, juntamente com as nossas fotos e a aliança de compromisso que usava. Meu pai, quando viu aquilo, adorou, já que o Lucas estava longe de ser o genro preferido. Depois foi só pegar a cama em que eu e ele dormimos muitas vezes, anexar à pilha e tacar fogo – medida extrema e talvez desnecessária, mas já fazia algum tempo que pretendia trocar a minha cama e essa era a desculpa perfeita. Quando já estava quase acendendo o isqueiro, ouvi alguém chamando no portão de entrada e fui ver quem era.
Flashback
- Oi – o garoto disse, quando me viu chegar ao jardim. Na hora eu o reconheci como , o cara dos meus sonhos durante todo o ensino médio.
- Oi – disse, sorrindo.
- Você poderia me dizer onde fica a universidade? – perguntou.
- Universidade? Eu sei onde fica, mas você não acha que não tem ninguém lá? Hoje são vinte e sete de dezembro, os alunos estão em recesso – disse, e em seguida me senti uma ridícula. O cara só tava me pedindo uma informação e eu tinha que me intrometer onde não era chamada.
- Eu sei, é que a minha irmã estuda lá, e como eu não venho muito pra cá, decidi conhecer o lugar – ele disse, sorrindo.
- Ah, claro. Desculpe a intromissão, é que...
- Tudo bem, você não foi a única a achar estranho eu estar procurando a universidade nessa época do ano. Muitas pessoas me acharam um louco quando eu perguntei onde ficava.
- Ah, tá – disse, forçando um riso.
- Então, pode me levar até lá ou...
- Claro – disse, abrindo o portão e me juntando a ele.
- A propósito, .
- , e eu conheço você.
- Conhece?
- Aham. Nós estudamos juntos no ensino médio.
- Sério? Como eu não me lembro de você?
- Ah, eu não era das mais populares. Na verdade, eu era a garota que sentava atrás de você e te ajudava a se achar nos exercícios de química – disse, envergonhada.
- Claro! Agora eu me lembro – disse, depois de algum tempo, e fomos caminhando em direção ao campus da universidade. Por se tratar da semana do Natal, os portões estavam fechados e nós só pudemos observar do lado de fora.
Conforme íamos caminhando, eu ia mostrando ao o que era cada um dos prédios visíveis. Acabei por descobrir que ele chegou a cursar um período de engenharia de som, mas desistiu do curso para se dedicar à música e montou uma banda de rock com os amigos, chamada You, Me, At Six, que estava começando a fazer sucesso.
Enfim, andamos por uns dez minutos, mais ou menos, até o meu celular tocar. Era a minha mãe, furiosa ao ver a pequena pilha que havia se formado no meio do quintal. Com isso, fui obrigada a voltar para casa e veio junto comigo. Ao chegar, não só a minha mãe, mas toda a família se encontrava em volta da fogueira.
- , o que significa isso? – minha mãe perguntou, irada.
- São os presentes que o Luke me deu. Decidi me livrar de todos eles.
- E eu posso saber o motivo? Vocês ainda vão voltar e ser muito felizes.
- Sinto te desapontar, mãe, mas o seu genro dos sonhos não passa de um idiota, filhinho de papai e eu não quero vê-lo nem pintado de ouro. Se algum dia ele ousar aparecer aqui, vai levar uma surra tão violenta do Robert, que vai se arrepender de ter nascido.
- Ei, me tira dessa. O namorado é seu, você se entenda com ele. Por mais que aquele filho da puta mereça, não vou sujar minhas mãos com ele – Robert, meu irmão sarado e bombado, disse. Legal, desmoralizada na frente da família e do meu paquera de adolescência.
- Que se dane, Robert. O que interessa é que eu não vou ficar com nada que me lembre o Scott. E ai de quem me impedir de queimar tudo – disse, decidida. assistia a tudo calado, sem entender nada.
- Taá, e quem é esse aí ao seu lado? Por acaso é seu novo peguete? – tia Vicky perguntou, não escondendo a raiva. Ela e a minha mãe eram as maiores fãs do Lucas, o viam como o garoto perfeito, tanto na aparência como na personalidade.
- Não mãe, esse é – Brittany, a prima ruiva de nariz empinado, se apressou em dizer.
- E daí?
- E daí que ele era meu ficante – disse, sorrindo maliciosamente na direção do garoto, que se limitou a ignorá-la. Bem feito!
- O fato de vocês terem se pegado não diz nada sobre ele e a , Brittany.
- Eu e a somos só colegas, senhora – disse, acanhado.
- E se eu tivesse ficando com ele? Qual o problema? Eu sou uma garota livre e desimpedida, fico com quem eu quiser – disse irritada.
- , olha como fala com a sua tia! – minha mãe me repreendeu.
- Desculpa mãe, mas ela está agindo como se eu tivesse cometido um crime. Eu e o estudamos juntos no ensino médio, não nos víamos desde aquela época e a tia Vicky está olhando pra ele como ele fosse o responsável pelo fim do meu namoro com o Lucas, quando na verdade quem terminou foi o próprio.
- Mas...
- Sem mas nem meio mas. Chega! Isso aqui está parecendo um daqueles dramalhões mexicanos de quinta categoria. Rose e Victoria, aceitem que a não está mais com o Lucas e a deixem fazer o que quiser com essas coisas – meu pai disse, fazendo com que as duas parassem com o drama e me deixassem em paz. – E você, , seja bem vindo à nossa casa. Amigo da é nosso amigo também.
- Obrigado, senhor – disse, envergonhado.
- Sem essa de senhor, rapaz. Pode me chamar de Albert, ou Bert, que está tudo certo.
- Bert? Como o cara do The Used? – ele perguntou, empolgado.
- Não exatamente, mas já que você falou... Também curte The Used? Eu sou fã da banda – meu pai disse e os dois entraram em casa trocando ideia como se fossem dois adolescentes. As duas drama-queens fizeram o mesmo, assim como o restante da família; apenas eu, a vovó Elisa e a nojenta da Brittany ficamos onde estávamos.
- Caramba, que situação constrangedora – vovó comentou.
- Nem me fale, vovó. Estou morrendo de vergonha até agora – disse.
- E tudo porque a bonitinha resolveu fazer uma ceninha e queimar as coisas que o Luke te deu. Fala a verdade , você queria chamar a atenção – Brittany destilou o seu veneno. Era só o que me faltava, ter que ouvir piadinha da minha prima insuportável.
- Brittany! – vovó disse a repreendendo.
- O que foi? Falei alguma mentira, por acaso? A só queria voltar os holofotes para ela, como sempre.
- Isso não é verdade. Eu só fiz isso porque não queria ficar com nada.
- Não era mais fácil ter devolvido tudo pra ele?
- Ah, claro. Você queria que eu fosse até a Nova Zelândia entregar todos os livros, bichos de pelúcia, CDs e DVDs que o Lucas me deu? – perguntei, quase perdendo a paciência.
- Brittany, faça um favor para todas nós e vá lá dentro chamar o . Ele é seu amigo e essa é uma boa oportunidade de vocês colocarem o papo em dia, não acha? – vovó sugeriu e a aprendiz de Tereza Cristina saiu rebolando, se achando o máximo. Coitada.
- Obrigada, vó. Nos livrou de uma companhia desagradável.
- Olha como fala da sua prima.
- Desculpa, mas a senhora sabe que ela é uma idiota e não vai com a minha cara.
- Mesmo assim. Vocês são primas, deveriam ser amigas.
- Impossível ser amiga dela, mas enfim. A senhora acha que foi uma boa fazer o que eu fiz? Quero dizer, essa coisa de fogueira e tal.
- Sim. Se um cara quebrou o seu coração, não tem porque continuar com as lembranças dele. Além do mais, podemos aproveitar e fazer uma faxina. Seus pais têm muito entulho guardado naquele porão, precisamos nos livrar daquela bagunça – disse e nós entramos, chamando a todos para ajudar na limpeza. A ideia foi bem aceita pela maioria das pessoas, exceto por mamãe, tia Vicky, papai, vô Neil e as crianças. , para minha total surpresa, se ofereceu para nos dar uma força e foi bem aceito na equipe. Sendo assim, os trabalhos começaram.
Ao final do dia, após exaustivas horas de trabalho intenso, reunindo pilhas e mais pilhas de entulho, uma fogueira brilhava no quintal, aquecendo a todos e queimando algumas das lembranças de um namoro feliz, cujo final seria cômico se não fosse trágico. Durante as horas em que passamos juntos, eu e conversamos bastante e procuramos nos conhecer, o que não foi possível na época em que estudamos juntos. Nessa conversa, descobrimos vários pontos em comum e nos divertimos. Quem não gostou nada foi a minha prima, que tentava a todo instante chamar a atenção do garoto e era ignorada. Na hora de ir embora, trocamos telefones e eu agradeci pela ajuda, recebendo em troca um beijo no rosto e um sorriso daqueles capazes de tirar o fôlego de qualquer pobre mortal. Combinamos de não perder o contato e assim fizemos, trocando torpedos SMS até de madrugada, quando o cansaço nos consumiu.
No dia seguinte, minha primeira ação depois do café-da-manhã foi comprar uma cama nova, afinal, a minha tinha ido pra doação – minha mãe não deixou que eu a queimasse e deu a um vizinho. No meio do caminho meu celular tocou e, para minha total surpresa, era , um grande amigo que não via há alguns bons meses.
- ?
- Oi ! Que surpresa boa! Como você está?
- Bem, e você?
- Bem também. Que bom que me ligou, estava morrendo de saudade.
- Eu também. Escuta, tem planos para o réveillon?
- Não, pelo menos por enquanto.
- O que acha de ir pra Grécia comigo e mais uma galera?
- Grécia? Assim, de uma hora pra outra?
- Não é bem de uma hora para outra, é de um dia para o outro, já que o avião sai amanhã.
- Tá, mas qual é o esquema? Quanto eu vou ter que desembolsar nessa viagem de ultima hora?
- Por enquanto nada. É que eu e um grupo de amigos íamos fazer essa viagem, mas uma das meninas desistiu de ultima hora e se ela não for, ninguém vai. Aí eu lembrei que você é louca para conhecer a Grécia e decidi te ligar. O que acha?
- Bem, se é assim, eu aceito. Só quero saber como vai ficar essa garota, já que ela vai perder uma grana.
- Não esquenta, você paga para ela aos poucos depois. Mas então, me passa os seus dados pessoais pra eu enviá-los ao pessoal da agência de viagens. O voo sai amanhã de manhã, às 10h15. Decidimos ir cedo para chegar a Atenas no meio da tarde e pegar um barco pra Santorini. Até lá são cinco horas de viagem e a gente deve chegar à noite.
- Ok, tem papel e caneta aí? – perguntei e ele concordou. Assim que pegou meus dados, desliguei o telefone, fui até a loja em que iria comprar a cama, fiz a compra o mais rápido possível e voltei pra casa, a fim de arrumar as malas e me preparar pra viagem inesperada, mas que veio em boa hora. À noite, mandei uma mensagem ao contando a novidade.
“Ei , tudo bem?”
“Ei . Tudo bem, e você? Comprou a cama nova?”
“Aham, mas só chega depois do ano novo.”
“Ah, tá. O que me conta de novo?”
“Vou pra Grécia amanhã de manhã!!!”
“Como assim?”
“Um amigo meu dos tempos do colégio, o , me chamou para ir com ele e mais uma galera passar o réveillon em Santorini. Não é o máximo?”
“Por acaso esse seu amigo se chama ?”
“Sim. Você o conhece?”
“É meu companheiro de banda.”
“Sério? Que legal!”
“Isso significa que a gente vai viajar junto.”
“Vai?”
“Sim. Nós estamos planejando essa viagem há vários meses, desde quando entramos em turnê. Só que ontem a minha irmã desistiu de ir por causa do namorado e eu falei para o te chamar.”
“Nossa, muito obrigada por ter se lembrado de mim. Essa viagem vai ser o máximo!”
“Também acho.” – depois disso, nos despedimos e fomos dormir. O dia seguinte seria longo e cansativo.
No dia seguinte, já com as malas prontas, corri para o aeroporto internacional. Antes disso, me despedi dos meus familiares – minha mãe, tia Vicky e Brittany viram essa viagem com péssimos olhos, já que na cabeça delas o Luke ia se arrepender e voltar correndo para mim. Minha prima, inclusive, morreu de inveja e inventou defeitos a torto e a direito, mas eu não tava nem aí. Só de estar indo pra Grécia já era tudo de bom.
Enfim, peguei as malas e fui para o aeroporto. Ao chegar lá, encontrei , e mais um grupo composto por sete pessoas. Eram eles , , , e . Havia também duas garotas, mas essas eram estranhas pra mim. Assim que me viu, veio me abraçar e fez a maior festa. Quando nos separamos, fui cumprimentar o restante do grupo. e eram minhas amigas de longa data e, assim como o , não nos víamos havia muito tempo. Já as outras duas foram apresentadas como sendo e , namoradas do e do , respectivamente. Já dos meninos, o único com quem eu falava era o , além do , é claro. , e eram conhecidos do colégio, mas nós nunca chegamos a conversar, de fato.
Por volta de 10h o voo para Atenas foi anunciado e nós fomos conduzidos até a sala de embarque. Cerca de vinte minutos depois decolamos, chegando a Atenas por volta de 15h30, hora local. De lá até Santorini foram cinco tortuosas horas de barco, balançando com a marola, o que quase me fez passar mal, não fosse a me distrair relembrando as histórias que vivemos na época do colégio.
Chegamos à ilha por volta de 21h e fomos pro hotel, onde deixamos nossas malas nos quartos – que eram quatro, dois para os casais e dois para os solteiros – e descemos para jantar, já que passamos o dia a base de lanches gordurosos e biscoitos de chocolate. Mais tarde, sentamos na varanda do hotel para apreciar um pouco a paisagem e fomos descansar, devido ao cansaço do dia.
Na manhã seguinte, assim que todos acordaram, logo após o café-da-manhã, fomos dar uma volta pela ilha, a fim de conhecê-la. Era um lugar lindo, exatamente como eu vi nos filmes Quatro amigas e um jeans viajante. Em seguida, pegamos um barco e fomos mergulhar. Dessa forma, entre passeios e muita diversão, o dia passou.
Dois dias mais tarde, após passeios e uma noitada em Atenas, com direito a um porre e ressaca no dia seguinte, o réveillon chegou. Por ainda estarmos nos recuperando da balada de Atenas, preferimos assistir à queima de fogos da ilha mesmo, que o pessoal do hotel disse ser tão bonita quanto da capital do país.
Como de costume, em todo dia trinta e um de dezembro eu me isolo ou me afasto um pouco das pessoas, com o intuito de avaliar o que fiz ou deixei de fazer ao longo do ano, o que aconteceu de bom ou ruim, enfim, fazer um balanço do que foi o ano pra mim; naquele ano não seria diferente e o lugar escolhido foi a sacada do meu quarto. Foi aí que me bateu uma tristeza.
Por estar com a cabeça ocupada e tomada pela raiva, não tinha parado para pensar no que significava o fim de um namoro de cinco anos. Até então eu não tinha me dado conta de que todos os planos que eu tinha feito de me formar, me mudar pra Nova Zelândia e formar uma família com o Luke estavam desfeitos. Pior, a culpa era toda minha. Sim, por causa dessa minha mania idiota de querer ser independente e focar nos estudos, eu acabei deixando de lado a família, os amigos e o namorado. Agora ele estava se mudando e eu tava ali, na ilha mais romântica da Grécia, a sete minutos do início de um novo ano e sozinha. Ao pensar nisso, uma lagrima escorreu pelo meu rosto e depois dela vieram muitas, o que eu não consegui controlar e deixei rolar. Desde que o namoro terminou, eu não tinha me permitido extravasar as emoções.
- ? – disse, me tirando dos meus pensamentos ao se aproximar.
- Oi . – disse, tentando disfarçar que havia chorado.
- Está tudo bem? – perguntou. – O pessoal ta te procurado para irmos ao terraço. Parece que de lá a vista dos fogos é melhor.
- Estou indo. – disse, forçando um sorriso.
- O que aconteceu?
- Nada. Por que a pergunta?
- Pela sua cara você estava chorando.
- É impressão sua.
- Ok, me engana que eu gosto. Enfim, seja lá o que tiver te feito chorar, não dê importância. Você é muito especial para ficar assim.
- Eu não teria tanta certeza.
- Por quê?
- Se eu fosse especial, não teria deixado o amor da minha vida escapar por causa da minha mania de querer bancar a independente.
- Está se referindo ao Lucas?
- Aham.
- Achei que tivesse queimado as coisas dele porque estava com raiva.
- Eu estava, mas agora que passou, eu vi o quanto fui burra. Várias vezes eu deixei de dar atenção ao Luke para estudar para as provas da universidade ou resolver problemas da empresa, e não percebi que fazendo isso só o estava afastando de mim – disse, limpando as lágrimas que escorreram.
- Se eu fosse você, não pensava dessa maneira.
- Por quê?
- Se o Lucas gostasse mesmo de você, se fosse o amor da sua vida, não teria se importado com esses detalhes. Vocês provavelmente se conheceram antes da universidade e ele acompanhou tudo de perto, sabia que chegaria o momento em que você deixaria de fazer algumas coisas em prol desse objetivo, e isso incluía não sair aos sábados à noite, viajar nos feriados ou acompanhá-lo ao aniversário de casamento dos pais.
- Mesmo assim, . Eu tinha que ter feito alguma coisa, tinha que ter percebido que estava agindo de maneira errada. Se tivesse feito isso, talvez ele estivesse aqui comigo.
- Pois eu acho que você está enganada. Se tem algo que eu aprendi nessa vida é que quando a gente quer muito uma coisa, tem que abrir mão de outras, nem que seja temporariamente. E que, se a pessoa que está ao nosso lado é incapaz de aceitar e entender isso, é porque ela não é a pessoa certa pra gente.
- Nossa, do jeito que você fala, até parece que passou pelo mesmo que eu.
- Não exatamente. Na verdade, quem passou por uma situação semelhante foi a minha prima. Ela se apaixonou perdidamente por um artista plástico enquanto cursava medicina. No início o namoro deu super certo, era um mar de rosas, mas depois, quando ela começou a residência, o cara pulou fora alegando que ela não tinha tempo pra ele e blá blá blá, exatamente como o Lucas fez contigo.
- Sério? E qual o final dessa história?
- Ela hoje está casada com um arquiteto que entende a profissão dela e não se importa se ela deixa de comemorar o aniversário de casamento no dia porque tem um plantão no hospital.
- Poxa, que legal – disse, já um pouco mais animada.
- Aham. Então, não fica triste achando que o Lucas era o cara da sua vida, porque não era. Se fosse, não teria deixado uma garota tão especial e divertida escapar.
- Ah, eu não sou tudo isso, .
- É sim, e muito mais – ele disse, se aproximando lentamente e passando as mãos delicadamente pelo meu rosto.
- O que... O que você está fazendo? – perguntei, confusa.
- Eu sei que pode parecer estranho, mas eu venho te observando há algum tempo e queria muito ter uma chance com você. Queria ter a oportunidade de ser o cara que aceita e entende o seu jeito independente, a sua vontade de ter uma carreira, de crescer na vida e formar uma família. A verdade, , é que desde aquele dia na sua casa eu não consigo te tirar da cabeça.
- Mas isso é impossível. Nós nos conhecemos há uma semana, você não pode querer uma coisa dessas.
- Na verdade, , nós nos conhecemos oficialmente há uma semana, mas eu venho te observando há muitos meses. Aquele dia em que eu apareci na sua casa perguntando sobre a faculdade, era só um pretexto para me aproximar de você. No dia de Natal eu ouvi a sua conversa com o Lucas por acaso e quando percebi o que estava acontecendo, vi que talvez tivesse a minha chance, que talvez tivesse chegado a minha vez de ter você.
- Eu só não entendo o que eu tenho de tão especial pra você, um cara lindo, adorável, engraçado, com um corpo perfeito e sorriso bobo capaz de tirar o fôlego de qualquer garota, querer alguma coisa comigo. Eu sou chata, fresca, quero ser independente, quase não tenho tempo para me dedicar a relacionamentos e tenho uma dificuldade extrema em demonstrar sentimentos.
- Tudo bem, eu não me importo, afinal, tenho muitos defeitos também.
- Ah, é? E quais seriam? – perguntei, sorrindo.
- Bem, eu sou chato, implicante, pego no pé das minhas namoradas, também não tenho tempo para relacionamentos e sou muito enjoado com relação à comida. Acha que consegue aguentar um cara assim?
- Acho que sim – disse, rindo e me aproximando dele. Ao fundo, o que ouvíamos era a contagem regressiva para o novo ano. Findamos o pouco espaço entre nós com um beijo, enquanto ouvíamos a queima de fogos ao longe.
Para quem teve um Natal traumático, aquele ano novo foi realmente divertido e eu ganhei um presente já nos primeiros minutos do novo ano que se iniciava. Mas não parou por aí. Sete anos se passaram, eu me formei, passei a trabalhar definitivamente na construtora e me casei com . Nós estamos a um mês casados e eu ainda estou me acostumando com a vida de dona de casa, mas tem sido o máximo. é o oposto do que eu imaginava que seria o meu marido, mas consegue me fazer a pessoa mais feliz desse mundo. Ele me aceita com todas as manias e entende o meu trabalho, sem se importar se eu passo um fim de semana enfiada em casa trabalhando num projeto enquanto ele viaja pelo mundo com a sua banda. E quanto ao Lucas, nós nunca mais nos falamos, mas eu só tenho a agradecer a ele por ter me deixado no meu feriado preferido. Se não fosse por ele, hoje eu não estaria tão feliz e realizada como estou.
FIM

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