Minha "Querida" Irmã

Escrito por Larissa | Revisado por Mah

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  – Filha? Acorda, ! - perguntou minha mãe, me cutucando.
  – Ai! Que horas são, mãe? – respondi, sonolenta.
  – São oito horas da manhã.
  – O que eu fiz de errado pra você me acordar a essa hora?!
  – Botou fogo na minha planta favorita ontem a tarde, lembra-se disso ou tem amnésia?
  – Tenho amnésia. Quem é você?
  – Sou sua mãe. E se você não levantar esse seu corpo de zumbi da cama e descer em dez minutos, vou te proibir te ver o .
  – Isso é golpe baixo...
  – Não me importo. Dez minutos!
  Minha mãe saiu do quarto e fechou a porta. Tive que me levantar e me arrumar. Contra minha vontade.
   é meu namorado há um ano e meio. Minha mãe não gostava muito dele, isso era estranho, porque meu pai que não deveria gostar dele... Minha família não era nada normal.
  Desci e encontrei minha mãe conversando com minha irmã mais nova, e meu pai estava lendo o jornal, como sempre.
  – Ah! Finalmente a princesa acordou do sono de cem anos! - exclamou , minha irmã.
  – Pelo menos eu não sou uma criancinha mimada...
  – Já chega as duas! Que saco! É todo dia assim!
  Eu e minha irmã nos olhamos com raiva, mas depois nos ignoramos.
  – , sua irmã chamou algumas amigas para vir aqui em casa. Vai querer chamar alguém? - continuou minha mãe.
  – Só o ...
  – Ah não! Aquele metido, chato e retardado aqui de novo não! - gritou .   – Tudo bem, , pode chamar. E , nada de implicar com ele, tá?! Agora vou trabalhar. Se comportem!
  Minha mãe saiu, e minha irmã soltou uma risadinha maligna.
  – Pai, não vai chamar a Tereza hoje?
  – Claro que vou. Assim que eu estiver saindo eu chamo sua babá, .
  – , você é a única pessoa que eu conheço que fica feliz em ter uma babá.
  – A Tereza é legal. E como eu só tenho dez anos, preciso de uma. Já você, precisa de uma cadeira elétrica.
  – Não vou me irritar com você hoje.
  – Sei...
  – Garotas, se comportem, hein?! Vou me arrumar e ligar para Tereza.
  – Pai, não precisa ligar pra ela...Eu cuido dela e das amigas...E vai estar aqui, ele me ajuda...
  – Promete que vai cuidar delas direito e não fazer besteira?
  – Sim, pai. Prometo!
  Meu pai deu um longo suspiro, e depois concordou em me deixar cuidando delas. tentou convencê-lo a não deixá-la sozinha comigo, mas ele mandou-a parar de fazer drama.
  Quando ele saiu para ir trabalhar, liguei para .   – Alô?!
  – ? É a .
  – Oi gata. Que foi?
  – Você quer vir pra cá?
  – Quando?
  – Agora.
  – Hum... Por que eu deveria ir? – perguntou, fingindo estar em duvida.
  – Porque uma garota de dezesseis anos vai ficar sozinha com a irmã mais nova e as amigas da pirralha... Sabe, ela precisa de companhia...
  – Como vou saber que você não é uma pedófila? – disse, em tom de brincadeira.
  – Isso você vai ter que descobrir...
  – Sei... Estou indo então. – respondeu, rindo.
  Desliguei o celular, e então vi que as amigas de chegaram.
  Não via a hora de chegar. Pois isso deixava irritada.
   era alto cabelos escuros, olhos verdes maravilhosos e um corpo de estátua grega.
  Depois de uns dez minutos, ele chegou. Felizmente, estava por perto, então viu ele chegar, e ele pode ouvi-la praguejando.
  – Sua irmã é um doce de criança! - exclamou.
  – Eu sei... Mas não ligue pra ela. Logo ela e as outras duas ali somem do nosso campo de visão.
  – A babá vai vir hoje?
  – Hum... Hoje eu sou a babá. – respondi, passando meus braços em volta de seu pescoço.
   sorriu, e abraçou minha cintura.
  – Vocês são nojentos. - disse , surgindo com suas amigas.
  – Um dia você também vai ser.
  – Nunca igual a vocês!
  – Mas você vai ter que aguentar isso por muito, muito, muito tempo. Porque eu não vou largar sua irmã. Então, olá cunhadinha. - disse ,me fazendo rir.
   e as outras pestinhas foram para o quarto, eu e fomos para sala.
  Não tinha nada passando na televisão, a não ser: “ontem a noite, mulher grávida foi achada morta em beco...”, “homem mata filhos...”, “enchente mata sete em ...” e outras coisas desse tipo. E eu não gostava de ver coisas desse tipo...
  – Então, como seu pai te deixou ficar sozinha com sua irmã? - perguntou .
  – Ele... Ai, nem sei. Ele não queria deixar, mas depois deixou. Por que quer saber?
  – Porque eu jamais deixaria minhas filhas sozinhas em casa, principalmente com uma delas sendo uma pedófilia. – disse, rindo.
  – Ah, é assim, né?! Eu jamais deixaria minhas filhas sozinhas em casa com um tarado! – respondi, entrando na brincadeira.
  – Hum.. .O que aconteceria se uma pedófila e um tarado ficassem sozinhos?
   se aproximou de mim, com um sorriso maroto no rosto. Percebi quais eram suas intenções. E eu não queria fazer aquilo agora. Eu queria esperar mais um pouco até... acontecer.
  – ... – comecei, colocando minha mão no peito dele, para manter uma distância. - Eu... Não posso... Não estou pronta ainda...
  Ele me olhou, ainda sorrindo.   – Não tem problema. Ainda posso beijar você, não posso? - disse.
  Ele pegou minha mão, e continuou se aproximando. Eu estava na ponta do sofá, então não tinha como ir para trás. apoiou suas mãos no braço do sofá, atrás de mim.
  – , eu...
  Antes que eu pudesse terminar a frase, seus lábios já estavam colados nos meus. Cíi para trás, e ele ficou em cima de mim. Involuntariamente, passei meus braços em volta de seu pescoço, e os braços dele seguravam minha cintura. me trazia pra cada vez mais perto dele. O beijo foi se intensificando, e uma de suas mãos subiu por minhas costas, por dentro de minha blusa. Senti um arrepio percorrer meu corpo.
  De repente eu “acordei” e afastei . Ele me olhou, e parecia um tanto desapontado.
  – Desculpe , mas eu não posso.
  – Ah. Bem, eu...Desculpe por ter te forçado...
  Eu sorri e me levantei, fazendo com que ele fizesse o mesmo. se sentou, e olhava para a parede a nossa frente.
  – Tudo bem? - perguntei.
  – Tudo. Eu só... Tava pensando em quanta sorte eu tenho.
  – Por quê?!
  – Por ter você.
  Ele se virou para mim e sorriu.
  Ficamos conversando por um tempo.
  – Eu acho que esta tudo muito quieto lá em cima, não acha? - perguntei.
  – Acho. Quer que eu vá ver?
  – Não, pode deixar que eu vou.
  Me levantei e comecei a subir as escadas. Conforme eu subia, algo dentro de mim se agitava, e dizia para mim voltar para a sala. Parei em uns dos degraus, e tentei ouvir algum ruído vindo lá de cima. Depois de alguns segundos, ouvi alguma coisa caindo e, não sei por que, corri para ver o que era.
  Cheguei no quarto e abri a porta.
  As duas amigas de estavam caídas no chão, ambas com cortes no pescoço. estava de costas para mim.
  – ?! O que aconteceu aqui?! - perguntei.
   se virou para mim.
  – Elas não queriam brincar. - respondeu.
  – Você fez isso?
  – Sim. Foi muito divertido! Quer brincar também?
  Não sei por que, mas comecei a gritar. Bati a porta e corri para baixo.
  – O que aconteceu? - perguntou , que estava na porta da sala.
  – ... Ela... - eu não conseguia falar.
  Meu coração estava acelerado e eu mal conseguia respirar.
  – O que foi, ?
  – É a !
  – Fique aqui. Vou ver o que aconteceu, tá legal?
  Ele subiu para o quarto de .
  Ouvi a porta batendo, e desceu correndo, assim como fiz antes.
  – Onde ela está? - perguntou.
  – Como assim?! Ela esta no quarto dela!
  – Não esta mais. As únicas coisas que estão lá são as duas amigas mortas dela.
  – Meu Deus! Como ela pôde fazer isso?
  – Possessão demoníaca?
  – Isso é impossível! Não existem essas coisas!
  – Certo... Então temos que aceitar que sua irmã mais nova é uma assassina pirada?
  – O que?! Bem... Acho que sim! Não sei!
  – Temos que achá-la então...
  – Tudo bem.
  Agarrei o braço de e o segui pela casa. Nem sinal de , no andar de cima nem no de baixo.
  Nada de nas ruas ou no jardim.
  Procuramos por ela o dia todo. No final da tarde, decidimos descansar um pouco e parar para pensar. Nos trancamos em meu quarto.
  – Onde será que ela está? – perguntei, com medo, mas preocupada também.
  – Talvez não procuramos direito. Ela pode estar debaixo de alguma cama, dentro de um armário, sei lá.
  – Ai meu Deus! - gritei.
  – O que foi? – perguntou, preocupado.
  – Ela pode estar aqui dentro!
  – Tudo bem, vou olhar dentro do armário, você olha em baixo da cama.
  – Por que eu tenho que olhar em baixo da cama?
  – Qualquer coisa é só gritar! Eu estou aqui, nada vai acontecer!
   abriu o armário e procurou entre as roupas, nas prateleiras. Digamos que ele sumiu lá dentro.
  Me agachei para olhar em baixo da cama. Eu estava tremendo de medo. Olhei lá embaixo, mas não tinha ninguém lá. Graças a Deus, ela não estava dentro do quarto. olhou em todos os cantos possíveis.
  – Então estamos seguros aqui dentro? - perguntei.
  – Sim, acho que sim.
  – Nunca pensei que teria medo da ...
  – Nem eu... Achei que eu teria medo de você. – disse, rindo.
  – Você nunca para de fazer piadas, né?
  – Ah! Qual é? Estou tentando te animar.
  – Tudo bem... Desculpe. É que... Eu sei lá...
  – Não tem problema.
  Ouvimos um barulho no andar de baixo. Parecia a porta abrindo.
  – Eu vou ver o que é. Fique aqui. - disse .
  – Não! E se for ela?
  – A gente nem sabe se tudo isso é real ou se é só uma brincadeira. Eu volto logo.
  Ele saiu do quarto, e eu fiquei encolhida em minha cama.
  Ouvi falando com alguém. Depois, ouvi duas pessoas subirem as escadas, indo para o final do corredor. O quarto de . Logo depois, a porta de meu quarto abriu. entrou com meu pai. Este, estava em estado de choque.
  – Pai?! - disse.
  – ! Foi a quem...?
  – Acho que sim pai...
  – Onde ela está?
  – Não sabemos. - disse .
  Ouvimos a porta se abrir novamente lá embaixo. Em seguida, ouvimos um grito, e então corremos para ver o que era.
  Chegando lá em baixo, vi sentada na frente da porta, e mamãe estava caída na frente dela. Morta.
  – ! O que você fez?! - gritei.
   se virou para nós, seu rosto e seus braços estavam cheios de sangue. Havia sangue em seus lábios também.
  – Mamãe não comprou meu suco. - respondeu.
  Comecei a chorar. sorriu, seus dentes estavam vermelhos por causa do sangue.
  – Por que tem sangue na sua boca, ? - perguntei.
  – Estava bebendo este líquido vermelho que achei dentro da mamãe.
  – , por que não vai tomar um banho e depois vamos ver o Dr.Schemelim? - disse meu pai.
  – Eu não gosto dele! - gritou .
  Ela esticou o braço em direção ao papai, e este começou a se contorcer no chão.
  – ! Pare com isso! - gritei.
  Ela abaixou a mão, e ajudou meu pai a se levantar.
  – , vamos brincar? - perguntou.
  Eu estava tremendo, e ainda chorava.
  – Do que você quer brincar? – perguntei, com a voz trêmula.
  – Hum... Vamos brincar de salão de beleza. Eu vou deixar seu cabelo lindo!
   pegou meu braço e me puxou para a sala. veio atrás de nós, mas antes que pudesse nos alcançar, fechou a porta da sala.
  – Senta na frente do sofá, ! Vou pegar uma escova no meu quarto!
   simplesmente sumiu na minha frente. Eu corri para a pequena estante que havia em cima da televisão, onde havia uma coleção de adagas. Eram de meu pai. Peguei a mais afiada que achei, voltei para onde havia mandado eu sentar e escondi a adaga embaixo do tapete à minha frente.
  De repente, surgiu na minha frente, sorrindo e com uma escova nas mãos.
  – Seu cabelo vai ficar muito bonito, ! Depois que eu arrumar seu cabelo, podemos arrumar o da mamãe. E depois, podemos ver se o papai também gostaria de brincar com a gente. E no final, a gente dá um jeito de acabar com o . Ele nunca gostou de mim, e eu nunca gostei dele. Me ajuda a acabar com ele, ?
  – Vá pro inferno! - respondi.
  – Não fale assim comigo! - gritou, puxando meu cabelo para trás.
  Ela puxou tão forte, que gritei. Pude ouvir alguém batendo na porta, tentando abri-la.
  – Peça desculpas, ! Sabe que não deve falar assim com ninguém!
  – Desculpa, .
  – Melhor assim. Agora vamos lá dar um jeito no .
   se levantou e foi em direção à porta.
  – Ah! ! - comecei. - Tenho uma coisa pra você!
  – O que é?
  – Vem aqui.
   se aproximou de mim ,com um sorriso no rosto novamente.
  Quando ela estava bem perto de mim, peguei a adaga e enfiei no pescoço dela.
  – ...
  – Desculpe, .
  Eu comecei a chorar muito. Me levantei e fui para fora da sala. e meu pai estavam sentados do lado da porta, pareciam cansados de tentar arrombá-la.
  Eles olharam para mim, e eu apenas sentei ao lado deles.
   me abraçou, e meu pai foi ver o que havia acontecido. Ouvi algo cair no chão e fui ver.
  Meu pai estava caído de joelhos, na frente do corpo de . Sentei ao lado dele e o abracei. Fechei meus olhos, pois eles já ardiam de tanto que chorei.
  De repente, meu pai ficou pesado e tombou para o chão. Abri os olhos e vi-o morto ao meu lado. sorria e tirava a adaga da barriga dele.
  – Não se deve matar as pessoas, .
   correu em minha direção, e ela jogou a adaga no rosto dele. Ele caiu no chão, já morto também.
  – , o que você está fazendo?
  – Quem disse que sou a ?! Bobinha! Ainda não percebeu?! está morta! Eu estou apenas usando o corpo dela!
  – Como assim?
  – Simples! e suas amigas, apesar da idade, fizeram um pacto!
  – Que tipo de pacto?
  – Elas queriam ter poderes ,e eu dei a elas! Elas sabiam do que teriam que dar em troca!
  – E o que seria?
  – Suas almas, e as almas de todos que elas amavam. E foi a mais corajosa. Ela matou as amigas, e depois os pais, o namorado da irmã... Só falta você. Mas vou ser gentil com você, se você fizer um pacto qualquer, eu deixo você viver por mais...Quinze anos!
  – Nunca! Prefiro morrer!
  – Desejo realizado!
  Ela apenas estralou os dedos, e eu me vi caindo no chão. Meus olhos se fecharam lentamente, e então ouvi uma risada muito desagradável. Vi o corpo de cair ao meu lado, já morta. E então, meu coração parou de bater. O ar saiu de meu pulmão. E estava morta, junto a todos os outros que amava.



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