Minha Musa
Escrita por Sâmela Ferpisou
Seguir em frente é muito difícil quando todas as suas memórias te atormentam, dia e noite. É muito difícil começar novamente, dar o passo inicial quando sua confiança foi abalada e seu ego está ferido. Mesmo que o tempo tenha passado rápido, mesmo que todos os outros envolvidos tenham superado, é difícil ir adiante quando o único ferido gravemente foi você.
Você procura terapeutas, expondo a eles seus problemas em busca de soluções. Eles apenas te falam o que acham que você quer ouvir, mas eles nunca ajudam realmente. Sua família? Bem... Ela não quer saber dos seus dramas. Ela apenas quer que você esqueça isso e volte para o que te feriu porque assim eles teriam seu benefício próprio. Seus amigos? Estão muito ocupados vivendo suas vidas. E você? Você não tem ninguém. Você não é ninguém. É só mais uma alma quebrada vagando pelas ruas em busca de paz. Paz? Você não tem paz. Você sofre todas as noites por aquela pessoa a quem dedicou todas as suas horas, todo o seu amor, todo seu coração, para no fim tê-lo partido em vários pedaços. Pedaços? É assim que você está. Fragmentada. Não há cola no mundo que a faça voltar a ser como era antes. Mesmo que você reze para Deus pedindo que ele cure seu coração partido, ele não fará nada por que ele está cuidando de assuntos mais importantes. Está fadada a viver toda a sua vida à sombra da dor, machucada, sozinha...
Bem, era assim que você pensava... Até ele aparecer.
Capítulo 1 – Solitária
Brooklin, Frankin Avenue – Starbucks
— Eu gostaria de um Mocha Frappuccino e cookies, por favor. — Eu digo a atendente. Ela se afasta e começa a preparar o meu pedido. Assim que está pronto, ela retorna os entregando. Eu passo o cartão na máquina e me afasto procurando uma mesa livre, caminho e me sento em uma perto da vitrine. Tiro da bolsa meu tablet e destravo a tela, buscando pelo livro que algumas horas atrás eu estava lendo. O livro fala sobre um rapaz escritor que estava sem inspiração, mas encontrou-a assim que conheceu uma garota em uma lanchonete. Meu lado crítico revirava os olhos para esse tipo de história, porque eu concordava que, tecnicamente, é muito difícil alguém apenas olhar para você e se apaixonar rapidamente. Essa merda não acontece na vida real. Porém, o meu lado emocional amava clichês literários e era por isso que ele ainda mantinha minha atenção. Eu parei na parte em que ela descobre que ele tem uma esposa, da qual ainda não é divorciado. Ótimo, mais drama para minha vida! – É tudo que penso quando continuo de onde parei.
Eu realmente não sei quanto tempo passa enquanto eu devoro e termino “My Inspirational Muse”. Só sei que ainda há dois biscoitos no pratinho, mas a bebida já foi toda. Eu olho em volta percebendo que já está anoitecendo e que o movimento na Starbucks está crescendo. E como ultimamente eu ando evitando pessoas, eu arrumo minhas coisas e saio. Quando passo pelas portas, alguém esbarra em mim muito rapidamente. Não foi aquele tipo de esbarrão que quase derruba, esse foi leve, apenas me empurrou um pouco para o lado. Você vê, agora? Essa é umas das razões de eu não gostar de multidões. As pessoas andam por aí tão lerdas e mal prestam atenção em seu caminho.
— Uh, me desculpe. Eu não vi você. — Pela voz sei que é um homem.
Ele não me viu? Eu era invisível, por acaso?
Na verdade, eu era. Fazia um bom tempo que ninguém me enxergava de verdade, talvez até eu tenha achado por um momento que estava desaparecendo lentamente. Precisava desse tipo de “encontro” para perceber que eu ainda existia.
— Tudo bem. — Minha voz sai rouca. Eu dou um passo para o lado direito e sigo o meu caminho. Hoje eu vou andando para casa e se eu der sorte, não morro de ataque cardíaco, já que tenho vinte e cinco minutos de caminhada até chegar ao meu apartamento.
Isso que dá ser sedentária! – Minha consciência adverte e eu apenas a ignoro.
Eu ando por doze quadras, observando o mundo correndo a minha volta, pessoas andando de um lado para o outro, casais se abraçando ou passeando de bicicleta, lojas fechando... Enfim, tudo muito normal e comum em uma cidade grande. Eu chego ao meu prédio e passo pelo lobby sem dar uma palavra com o porteiro. Tenho quatro lances de escada para subir.
Ao abrir a porta, a solidão me salda com todo vigor. Eu jogo minha bolsa no sofá e vou direto para o banheiro. Preciso tomar um banho porque após essa longa caminhada, eu estou pingando suor. Dez minutos depois eu deslizo em pijamas e caio na cama olhando para o teto como se ele tivesse algo atrativo. Enquanto isso, para variar, minha mente começa a vagar por lembranças doloridas. É como um ciclo vicioso... Eu nunca consigo me livrar desse hábito de deitar na cama e começar a reviver o dia em que eu fui destroçada.
Eu posso me ver como se eu tivesse em terceira pessoa, chegando naquele apartamento duas horas mais cedo do que o habitual. Roupas espalhadas pela sala me receberam. Gemidos atraíram minha atenção, e fizeram meu estômago revirar também. Curiosidade, e uma coragem que eu não deveria ter tido naquele dia me atraíram para o quarto. Eu quebrei em tantos pedaços quando os vi juntos, movendo seus corpos em sincronia. Meu coração, coitado, ficou rasgado. Meu emocional ficou tão abalado que até hoje eu não tinha superado, minha autoestima não existia e por meses eu fiquei em um estado psicológico crítico. Aprendi a sobreviver do meu jeito... Me fechei como uma concha. Saí de casa, não mantive mais contato com o grupo de amigos que antes eu adorava tanto. Eu sumi no mundo. Minha terapeuta dizia que isso era uma forma desesperada de fugir do que eu era, do que eu tinha. Ela tentava me fazer entender que o certo era voltar e resolver as questões que eu tinha deixado para trás. Mas não existia uma fodida maneira que isso fosse acontecer. Eu nunca mais voltaria. Eu não iria perdoar meu ex-namorado por sua traição do caralho. Eu não iria voltar a falar com meus pais, porque quando eles souberam da infidelidade de Alex, eles queriam por força me fazer passar uma borracha na cabeça alegando que aquilo era totalmente casual, que Alex amava somente a mim. Suas bocas disseram isso, mas na verdade elas queriam dizer: “Volte para ele porque ele tem dinheiro, sua família tem dinheiro e nós precisamos do dinheiro deles.”. Eles não se importaram sobre o quão doente eu estava por causa da traição. Eles apenas pensavam em si. Como a maioria dos meus amigos era também amigos de Alex, eu preferi me afastar deles. Saí do Canadá com a promessa de nunca mais voltar. Meu avô paterno (O único na família que não era ambicioso. Ao contrário, era doce e bondoso) me ajudou com a mudança. Ele comprou este apartamento para mim. Foi o mais barato que eu encontrei. Ele não queria que eu morasse no Brooklin porque achava que era perigoso - eu concordava com ele - porém não queria que ele gastasse uma quantia maior apenas para que eu ficasse em São Francisco. Adaptei-me aqui mesmo. Eu estava desempregada, mas recebia uma pequena quantidade de dinheiro que vinha da pensão da minha avó falecida. Não era muito, mas eu conseguia pagar as contas, e ainda dava para comprar comida. Na verdade eu poupava bastante e só gastava com o necessário. Tentei achar um emprego, mas eu nunca durava. Então eu fazia uns bicos aqui e ali. Meu negócio mesmo era escrever. Eu era apaixonada por livros, e escrevi meu primeiro romance há dois anos, antes das coisas irem para o inferno e minha vida virar de cabeça para baixo. Eu nunca tive coragem de mostrar aquele livro para um agente literário ou qualquer outra pessoa, então ele estava até hoje guardado no fundo de uma gaveta.
Às vezes eu me pego imaginando um caminho diferente para estes acontecimentos, mas então a realidade cai em mim avisando que não irá adiantar de nada sonhar com algo que nunca vai acontecer. O tempo não volta, ele apenas segue e nos obriga a ir com ele.
Saio dos meus devaneios quando escuto o toque do meu celular ecoando pela casa. Levanto da cama procurando o maldito aparelho que cada vez só toca mais alto. Encontro-o no balcão da cozinha. É meu avô.
— Olá, vovô. — Eu atendo com alegria.
— Oi, querida. Como você está? Eu liguei hoje mais cedo, mas só caía na caixa postal. — Ele conta.
— Eu estou indo, e sobre sua chamada, eu saí e acabei esquecendo o celular em casa. O que o senhor queria? — Pergunto curiosa.
— Nada em especial. Apenas saber como você está? Faz semanas que você não liga. — Sua voz adquire um tom triste.
— Eu sinto muito. Eu andei meio desligada esses dias.
Ouço seu suspiro.
— Querida, você precisa seguir em frente. Precisa encontrar alguém novo. Você está muito solitária, isso faz mal a você.
Esse papo de novo não.
— Vovô! — Eu chio em advertência. — Eu te amo e eu sei que você está preocupado comigo. Mas estar solteira é uma escolha minha. Eu sinto medo só de pensar na possibilidade de aquilo acontecer novamente. Eu ainda não estou curada, para falar a verdade ainda me sinto traumatizada para tentar me envolver com alguém. Eu não quero isso. Entenda, por favor.
— Eu sei, e eu te entendo. Mas eu acho que você não está se esforçando para se curar. Você apenas está amontoada num canto lambendo suas feridas. Eu não vejo você tentando se livrar desse luto.
Eu fecho os olhos, impaciente. Ele não vai aceitar minhas razões e eu não vou perder tempo tentando convencê-lo a isso.
— Escute. Eu preciso desligar, eu tenho que colocar a comida para o meu gato. — Eu minto na cara de pau.
— Você não me disse que tinha um gato. E por que não coloca a comida para ele enquanto conversa comigo?
Balanço a cabeça em negação, sentindo os primeiros sintomas de uma grande enxaqueca.
— Eu o tenho desde semana passada e ele gosta de ter atenção apenas para ele enquanto come. Sendo assim... Tchau, vovô.
Ele faz um som do outro lado da linha como se me reprovasse.
— Tchau. Eu te amo.
— Eu também te amo.
— Arrume um namorado. — Ele diz antes que eu possa desligar a tempo. Eu ranjo os dentes.
Eu não preciso da porra de um namorado!
Eles só servem para trair.
De qualquer forma, eu vou não vou perder minha calmaria por causa desse assunto, então eu aproveito que estou na cozinha e dou uma olhada na geladeira. Um pote de iogurte será meu jantar essa noite, então eu o devoro. Sento um pouco na sala e procuro um por algo interessante na televisão, mas por fim acabado colocando na Netflix, em The Tudors. A história do Rei Henrique VIII sempre me atraiu, e eu estou na terceira temporada. Quatro episódios mais tarde, eu me arrasto para o quarto e caio num sono profundo.
Capítulo 2 – O Estranho Inconveniente
Uma semana depois...
Frankin Avenue – Starbucks
— Um cappuccino tradicional e um muffin de blueberry, por favor. — O atendente que eu já conhecia não está trabalhando hoje. Há outro em seu lugar. Enquanto ele vai pegar meu pedido, eu tiro o cartão da bolsa e fico esperando. Assim que sou servida, pago no débito e procuro uma mesa para me sentar. Hoje o estabelecimento está cheio, mas ainda há algumas poucas mesas livres. Assim que escolho a mesma que sentei na semana passada, eu tiro meu tablet da bolsa e procuro o novo livro que comecei a ler ontem. Chama-se “A Virgem” e conta a história de uma moça que queria escrever um livro de romance erótico, mas não sabia como, já que ela tinha zero de experiência no assunto. Era um livro humorado e eu rachei o bico com os sinônimos que ela tentava usar para descrever uma cena de sexo. Coisas como “espinheiro” para se referir a genitália da mulher, ou “espada de carne” para o órgão sexual masculino. A mocinha era bem engraçada.
Eu gostava de vir na Starbucks para ler, era por isso que eu vinha um dia sim e um dia não. Eu não tinha realmente muitos lugares para ir, então aqui se tornou meu lugar favorito. Eu raramente ia ao cinema, então como eu disse, na maior parte do tempo ou eu estava em casa, ou na Starbucks. Aqui era agradável quando não tinha muita gente como hoje.
Sorvendo um pouco da minha bebida, eu bati na tela do tablet e ele se iluminou mostrando a página onde eu tinha parado. Oh sim, na parte em que ela estava meio bêbada e vomitou no pênis de seu encontro daquela noite. Oh ho, isso vai ser bom! – Eu sorri em pensamento, prosseguindo com a leitura.
...
Eu não posso controlar meu riso quando chego à parte em que ela está inventando desculpas para não transar com um cara só por que seu pênis era muito torto. Eu raramente sorria, mas este livro trouxe meu humor para a superfície. Sem sombras de dúvidas, ele entrou para a lista de livros favoritos.
— Com licença?
Uma voz chama tão perto e eu sou obrigada a levantar minha cabeça, encontrando um homem a me encarar de volta. Os cabelos negros estavam penteados para trás. Ele usava óculos que apenas evidenciavam o azul de seu olhar. O nariz afilado e o maxilar quadrado me fazia especular se ele era um modelo. Seu rosto era completamente harmonioso; E pela primeira vez em três anos eu estava achando um cara bonito.
— Será que eu posso dividir a mesa com você? Está é a única onde há dois lugares vagos.
Eu pisco, assimilando suas palavras. Olho em volta para comprovar o que ele acabou de contar e percebo mesmo que todas as mesas estão ocupadas. Sinceramente, eu queria negar sua companhia. Tudo bem que ele não sentaria comigo para conversar, mas sua presença iria me incomodar. Eu gostava de ser solitária, meus hábitos sociais haviam ficado no Canadá com meus ex amigos. No entanto, eu não poderia ser mal-educada com ele e negar, então eu apenas murmuro um:
— Fique à vontade.
Ele sorri quando puxa a cadeira de frente para a minha e sorri.
— Obrigado.
— De nada.
Ele coloca sobre a mesa um frappuccino de morango com creme e um cheesecake de frutas vermelhas, levando minha boca imediatamente a salivar. Eu rapidamente me questiono por que não fiz essa escolha hoje. Não querendo parecer um cão babão, eu movo meus olhos de volta para o tablet.
— Hummm, isso está maravilhoso. Não importa quantas vezes eu venha aqui, eu nunca vou cansar de pedir a mesma coisa. — Eu sou atraída por sua voz novamente. Ao fitá-lo percebo que está me olhando. — Você já provou esses? — Ele aponta para sua comida.
— Não. — Limito-me apenas a responder isso. Eu não quero conversar com ele e espero que ele entenda.
— Você não sabe o que está perdendo. É muito bom. — Ele parece tão feliz por estar comendo aquilo que parece que ele vai ter um orgasmo.
Eu volto meu olhar para o e-book, levando a xícara aos lábios. Assim que ela é posta sobre a mesa, novamente, o estranho se manifesta:
— O que está tomando? — Pergunta ele. Interiormente eu reviro os olhos já começando a ficar exasperada. O fato de eu permitir que ele sentasse à mesa comigo não significava que tínhamos que conversar. Se ele continuasse com isso, ele iria me irritar rapidamente.
— É um cappuccino tradicional.
— Parece gostoso. — Ele sugere. Eu aceno e abaixo a cabeça tentando mais uma vez voltar à minha leitura. — Você está lendo alguma coisa?
Senhor, dê-me paciência, por favor.
— Sim.
— Posso saber o nome do livro?
Moço, pelo amor de Deus... Pare de conversar comigo! – Imploro mentalmente.
— Chama-se “A Virgem”.
— Título chamativo.
— Pois é. — Sabe quando você usa um “pois é” em uma conversa virtual para encerrar o papo? Eu esperava que ele pegasse essa dica.
— O último livro que eu li foi aquele bizarro que virou filme, Cinquenta Tons de Cinza. Você já leu alguma vez?
Pelo andar da carruagem, ele não iria parar de fazer perguntas, então eu apenas travei meu tablet e o guardei na bolsa de volta.
— Já li toda a trilogia e a versão dele também.
— Você gostou?
Merda, eu não queria ser simpática com ele. Na verdade eu queria mandá-lo calar a boca, ou levantar-se da minha mesa e ir amolar outra pessoa, mas por uma estranha razão o meu lado bonzinho estava tomando os controles da situação, fazendo-me agir como alguém gentil, embora eu raramente fosse.
Eu comecei a responder enquanto comia o resto do meu lanche, e ele continuou conversando, às vezes sozinho como um monólogo, porque eu procurava manter minha boca cheia só para não ter o que falar. Ele falou de tanta coisa que de livros, ele passou para carros, e de quando caiu e quase quebrou o braço. Eu nunca comi tão rápido na minha vida, e nunca desejei tanto ir para casa mais cedo como estava acontecendo agora. E eu tive uma certeza... O que ele tinha de bonito, tinha de chato.
Dando um último gole no meu café, eu me levanto.
— Você já vai? — Afirmo. — Oh, eu nem me apresentei. Apenas sentei aqui e falei como um papagaio. — Ele ri, então se ergue e estende a mão para mim. — Sou .
Ah! Tinha que se apresentar como manda os velhos costumes, não é mesmo?
Eu não dava a mínima para quem ele era. Eu só queria ir embora.
— . — Aperto sua mão, sentindo a leve aspereza de alguns pontos em sua palma.
— Foi um prazer conhecer você, . Espero te ver novamente. — Ele arrulha.
? Que tipo de intimidade ele achava que eu tinha dado a ele para me chamar assim? Não, sério? Quem deu intimidade a ele?
Eu esperava do fundo do coração nunca mais encontrá-lo na vida.
— Adeus, .
— Tchau, .
De novo?
Eu me afasto tão rapidamente que parece que estou indo tirar o pai da forca.
Meia hora depois eu chego em casa irritada com um humor horrível. Este homem que eu conheci hoje estragou meu dia. Por causa dele eu não pude terminar de ler meu livro, e não vou poder começar outro. Eu jogo minha bolsa em qualquer lugar e pulo no sofá, ligando a televisão. Protestos contra candidatura de Donald Trump estão em praticamente todos os canais, e como eu não quero me estressar ainda mais com isso, eu apenas desligo a TV e vou para o banheiro. Eu tomo um banho e escovo os dentes.
— Foi um prazer conhecer você, . — Eu o imito com uma voz fina, depois debocho. — Como se eu tivesse te dado alguma intimidade pra me dar um apelido. Aliás, esse apelido é muito ruim. Fale-me se alguém iria gostar de ser chamado de “cicatriz” por aí. Idiota.
Volto para cama ainda resmungando. Puxo as cobertas sobre meu corpo e fecho os olhos, mas esse tal de aparece como um agouro.
— É melhor você não colocar ele na minha presença de novo, Deus. Ou eu vou mandar ele para a casa da mãe puta. — Eu meio que faço uma advertência a Jesus. — Foi um prazer conhecer você, . Ele vai ver o prazer que eu vou dar a ele se vê-lo de novo.
Eu não posso me conter, eu estou ranzinzando. Esse desconhecido me deixou com raiva.
Capítulo 3 – O Cheesecake de frutas vermelhas
Um dia depois...
Frankin Avenue – Starbucks
— Oh, olha se não é coincidência nos encontrarmos de novo. — Pelo amor de Deus... Essa voz não.
Eu fecho os olhos rezando para que não seja esse tal de . Ao levantar a cabeça, seu rosto me espreita com um sorriso grande.
Meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerda!
— É bom te ver novamente. — Ele mergulha em mim, deixando um beijo na minha bochecha e eu mal tenho tempo de assimilar quando ele se afasta, sentando na cadeira mais próxima a mim. Eu fico assustada com a sua ousadia. Talvez eu deva me afastar dele... Talvez ele seja um psicopata querendo me matar. — Eu vi você de longe sentada aqui. Eu trouxe isso pra você. — Ele empurra um prato e uma bebida para mim e eu reconheço ser o que ele havia comido anteontem quando nos falamos pela primeira vez. Eu abro a boca para dizer que não quero, só que ele é mais rápido: — Eu vou buscar o meu. Você deve provar... Isso é muito bom. — Ele vai embora para o balcão me deixando de boca aberta com os olhos arregalados. Eu olho para a comida e de volta para ele. Repito isso umas duas vezes sem entender nada. Quando ele chega e se senta, ele ri para mim. — Me esperou para comermos juntos? — Eu olho para ele, duas, três vezes. — O que foi?
Eu tento falar, mas nenhuma palavra aparece na minha mente. Eu olho para o cheesecake e insegura eu belisco um pedacinho com o garfo. Se isso tiver veneno, então estes serão meus últimos minutos de vida. Inexplicavelmente a ideia de morrer não é tão assustadora, então eu dou de ombros e provo o doce. Eu sinto meus olhos fechando com prazer enquanto as papilas gustativas trabalham absorvendo o delicioso sabor que aquele pedaço de bolo tem. Porra. Eu frequento este lugar há três anos e nunca provei este cheesecake... Apenas parece que eu estive perdendo uma coisa boa por muito tempo, porém agora que eu sei que ele é fodidamente gostoso, nunca mais viverei sem ele.
— Uau. Isso aqui é bom mesmo. — O meu humor melhora rapidamente. me apresentou algo tão bom hoje que eu não posso ficar com raiva dele, nem esculachá-lo como eu pretendia fazer caso ele aparecesse de novo. Hoje lhe darei uma exceção.
— Eu disse. — Ele sorri enquanto leva uma boa quantidade a sua boca. Eu faço o mesmo, comendo um pedaço maior.
— O que eu andei perdendo? Merda, isso é realmente bom.
sorri.
— Terminou de ler seu livro, aquele sobre a virgem? — Ele puxa assunto.
— Sim. O livro tem 500 páginas, ela só conseguiu perder a virgindade na página 439. — Eu digo a ele.
— Você decorou a página? — Parece surpreso.
— Sim, demorou tanto que eu tinha que ter certeza de quanto tempo ela gastou até sucumbir finalmente aos desejos da carne.
solta uma gargalhada que faz meu estômago se contorcer. Hoje ele está mais bonito que nos dias atrás. E eu me odeio por observar esse ponto.
— Eu posso fazer uma pergunta?
Eu rapidamente me fecho.
— Depende. Se for pessoal, não.
Ele ri de lado.
— Não é pessoal. Pensei que você é do tipo de mulher que ama ler, então gostaria que me indicasse um livro. Não desses de mulherzinha que se apaixona por um homem rico que quer apenas chicoteá-la.
Eu relaxo um pouco e fico surpresa quando me ouço sorrindo. Como eu disse, era raridade acontecer.
— Você leu mesmo Cinquenta Tons de Cinza, hein? — Como mais um pedaço de bolo e bebo um pouco de frappuccino.
— Sim. — Ele age como se não se sentisse orgulhoso deste feito.
— Bem, deixe-me pensar sobre algum livro que pode agradá-lo. — Minha mente começa a trabalhar em busca de um livro bom que ele possa gostar. Recordo-me de um. — Bom, tem este que eu acabei de lembrar, mas não sei se vai gostar.
— Conte-me qual.
— O menino do pijama listrado.
— Oh, eu já vi o filme, mas nunca li o livro. Se o filme por si só já é tocante, imagine o livro que é mais completo.
— Eu nunca vi o filme.
— Você deveria. É lindo.
Eu assinto.
— Será que tem na Netflix? — Eu pergunto.
— Provavelmente.
Silêncio se entende enquanto comemos, mas não é aquele do tipo ruim.
O estranho é que quando voltamos a conversar, eu já não olho mais com a raiva que eu sentia dele dois dias atrás. Ele investe no assunto “livros”, e pela primeira vez eu encontro alguém que gosta de algo que eu gosto também. Eu nunca tive um amigo para conversar sobre as leituras que eu fazia, eles geralmente apreciavam mais filmes e redes sociais. A ideia de ler livros para eles era algo descartável. E agora que estou falando com , sinto a conversa fluir naturalmente.
...
— Meu Deus. Olha só a hora. O tempo voou tão rápido, eu mal pude perceber. — Eu observo quando percebo que já são 20h00min. Eu nunca passei tanto tempo na rua, o mais tarde que eu chegava em casa era 19h00min. — Eu tenho que ir.
— Eu nem percebi também. — Comenta. Eu me ergo, guardando meu celular e o tablet na bolsa. faz o mesmo. — Posso acompanhá-la até a saída? — Questiona. Concordo.
— Pode, claro. — Nós saímos juntos, mas percebo que ele começa a me acompanhar pegando o mesmo caminho que leva para o meu apartamento. — Você disse que ia me acompanhar até a saída. — Conto. Ele ri.
— Sim. Eu estou indo para casa. Você está me seguindo? — Ele devolve me fazendo engasgar.
— Te seguindo? Não! Eu estou indo para casa também.
— Onde você mora? — Eu olho para ele. Será que devo contar? Percebendo a minha reserva, ele ri enfiando as mãos no bolso do casaco. — Eu não vou te fazer nenhum mal, nem vou roubar sua casa. Prometo.
— É bom mesmo, hein. — Eu arrulho fazendo-o rir um pouco mais. — 26 St Andrews PI, em frente à quadra playground. E você?
Ele solta uma gargalhada, e eu o olho.
— É uma coincidência feliz, . Eu moro na 1465 Fulton St. — Olha para mim sorrindo.
— São duas quadras depois da minha rua. — Eu penso em voz alta.
— Sim. — Ele concorda.
— Por que você não vai de táxi? Demora quase meia hora para chegar lá. — Eu explico.
— Gosto de caminhar e o observar a cidade.
Assim como eu.
Não é possível que sejamos tão parecidos assim.
— E você? — Rebate.
— Na maioria das vezes eu não tenho pressa em chegar em casa, então escolho ir andando e apreciando a paisagem.
— Você é daqui de Nova York mesmo? — pergunta.
— Não. Sou do Canadá. Me mudei há três anos. — Respondo, somente.
— Vancouver é legal. Pretende voltar para lá?
— Só se fosse pra cometer assassinato! — Até eu me surpreendo com tom frio que sai de mim. percebe isso, tanto é que ele assente e se cala. Agora o silêncio entre nós é ruim.
...
Após vinte e cinco minutos de caminhada, eu estou a uma quadra da minha casa. veio me acompanhando e é nessa rua que ele deve seguir para ir para o seu lugar.
— Bem, , acho que é a partir daqui que nos separamos.
Ele para em minha frente.
— Se importa se eu levá-la até sua casa? Você sabe... É noite, as ruas podem ser perigosas.
Eu olho para ele por um tempo tentando interpretar aquele olhar em seu rosto. Eu não senti maldade nenhuma irradiando dele, apesar de conhecê-lo há pouco tempo, parece ser o tipo de cara que não faria mal a uma garota.
— Mas pode ser perigoso pra você também. — Ressalto.
Ele sorri.
— Eu sei alguns golpes de karatê. Acredite em mim... Ninguém vai querer cruzar meu caminho.
Eu rio.
— Vamos, então.
Nós voltamos a caminhar em silêncio novamente.
Eu não sei por que, mas sinto uma extrema necessidade de pedir desculpas pela forma como respondi sua pergunta, afinal, ele não sabia das minhas razões para odiar tanto o Canadá.
Quando dobramos a rua, eu aponto o meu prédio.
— Eu vivo no último andar.
— Legal. Bem, você está entregue.
Eu sorrio, subindo um degrau do hall para ficar a sua altura.
— Obrigada. ... — Olho para baixo, envergonhada. — Me desculpe pelo tom que eu usei quando me perguntou sobre o Canadá. É que eu não tenho boas lembranças de lá. E eu sei que não deveria ter respondido daquela forma, porque não tinha como você saber. Eu sinto muito.
— Tudo bem. Não há problema. Foi bom ver você hoje. — Ele sorri.
— Obrigada por me apresentar àquele doce maravilhoso.
Sorrindo, ele dá dois passos para trás.
— Tchau.
Aceno para ele quando se vira e começa a andar. Eu entro e o porteiro está sentado em sua cadeira. Ele mexe o chapéu como cumprimento; em resposta movo a cabeça. Quatro lances de escada depois, eu entro em casa e pela primeira vez não sinto a tão velha sensação de isolamento. Eu me jogo no sofá e pego o laptop, procurando na Netflix o filme do Menino do Pijama Listrado, e fico feliz quando o encontro, sobretudo, deixo para assistir outra hora. Hoje eu estou cansada, cheguei tarde e quero dormir logo. Dez minutos depois eu estou na cama, e quando eu fecho os olhos, o sono me abraça com vontade.
Capitulo 4 – Amizade potencial
~ ~ Toc-Toc-Toc-Toc ~ ~
~ ~ Toc-Toc-Toc-Toc ~ ~
~ ~ Toc-Toc-Toc-Toc ~ ~
Que merda...
É tudo que penso quando desperto ao som de batidas incessantes na porta.
Um olhar para o criado-mudo me fez ver que ainda são 8h00min.
Quem seria o merda que estava batendo na merda da minha porta?
Ele simplesmente não ia embora.
Bom, ou era o porteiro querendo entregar correspondências... Mas não, ele sabia que tinha que me entregar qualquer coisa pela parte da tarde, eu o tinha avisado para nunca me chamar pela manhã. Ou então o prédio estava pegando fogo e eu precisava sair.
Com um rosnado, eu levanto com a intenção de matar quem quer que esteja na porta. Sério. Hoje eu mato alguém.
~ ~ Toc-Toc-Toc-Toc ~ ~
— Já vai. Já vai. — Eu meio que grito a caminho. Destravo as três fechaduras e tiro o trinco da porta. Assim que ela abre, é como se eu tivesse levado um soco no estômago. De todas as pessoas no mundo, eu nunca esperava encontrar tão cedo. Minha boca vai ao chão quando fito ele e... Merda... Além de sua presença, há um cachorro também.
Eu coço os olhos por que aquilo parece ser irreal, mas ao abri-los, ainda vejo e o cachorro parados na soleira da porta.
— Mas... Que diabos, ! O que você está fazendo tão cedo aqui? Merda. O que você está malditamente fazendo aqui? — Eu pergunto, exasperada. Perceba que eu não sou uma pessoa da manhã.
Vejo o cachorro mover a cabeça de um lado para o outro como se estivesse confuso. Ele é uma bola de pelos fofa, mas ele também pode ser um cão bravo matador. Eu dou um passo para trás porque não quero ter qualquer parte do meu corpo mordida.
— Eu... Eu pensei em convidá-la para um passeio. — Ele finalmente responde.
— O quê? — Eu pisco. — O que te faz pensar que eu sou o tipo de pessoa que pratica atividades físicas cedo? Olha pra mim.
Ele olha. Ele realmente olha por um tempão, então engole em seco, seu rosto ganhando um tom rosado. Eu abaixo a cabeça para ver o que o levou a ficar envergonhado, e meus olhos quase saltam quando percebo que estou em trajes íntimos na sua frente. Uma calcinha-short e uma camiseta larga do Bob Esponja. Que sensual, hein? – Minha consciência zomba.
— Puta merda. — Eu tento obter alguma dignidade puxando minha camisa na expectativa de que ela cubra minha parte inferior à mostra, mas não dá, é muito curta. Ele já viu o que tinha quer ver. Não tem porque esconder alguma coisa! – Lá está o consciente de novo. O clima é meio tenso.
— Me Desculpe. Eu não... — A fala morre enquanto ele ainda me olha. O cachorro parece querer falar alguma coisa. — O que foi, Black? — O cachorro vocaliza de novo e eu fico espantada. — Você tem sede, amigão? — O cachorro late. Que tipo de interação é essa? — , você poderia colocar um pouco de água para ele?
Eu respiro fundo quando assinto e me afasto para a cozinha. Sei que ele viu metade da polpa da minha bunda, mas tento não ficar brava ou envergonhada sobre isso. Acredito que ele já viu muitas bundas por aí, a minha não seria uma novidade para ele.
Eu pego uma vasilha de plástico e encho de água, então me aproximo de , porém fico receada se o cão vai pular em mim, por isso eu coloco-a no chão e pouco a pouco a empurro na direção do animalzinho.
— Não precisa ter medo, ele é bonzinho. — comenta. — Quer tocar nele? — Eu balanço a cabeça em negativo.
Onde está minha língua? Parece que o gato a comeu.
O cão bebe um pouco, então ele ergue a cabeça para que o acaricie. Ele tenta vir em minha direção, mas eu me afasto um pouco mais e o puxa.
— Ele só quer agradecer. — Explica.
— Certeza que ele não vai me morder? — Eu questiono. Sim, a voz está voltando.
— Absoluta. — Olhando para Black, fala. — Seja bonzinho com a moça, filhão. Ela tem medo de você. Mostre que é carinhoso.
Ele fala com o cachorro como se ele fosse seu filho? Fale-me mais sobre ser fofo.
Black vem em minha direção, farejando. Ele rodeia minhas pernas, e eu apenas fico parada. Ele se deita sobre meus pés e rola, exibindo-me seu peito. ri.
— O que foi? — O olho.
— Ele quer que você o acaricie. — Me conta.
Movo meus olhos para o cachorro.
— Você não vai me morder não, né? — Eu digo para ele que apenas revira de um lado para o outro com a língua para fora. continua sorrindo.
Bem lentamente eu me abaixo e estendo minha mão sobre sua barriga, mergulhando-a no meio dos pelos macios. Quando eu coço seu estômago, o cachorro parece ronronar de alegria.
— Você ouve esse som que ele faz? — aponta.
— Sim, me lembra um gato.
— Era exatamente isso que eu iria dizer pra você.
Black é tão dócil que tudo que eu quero fazer agora é abraçá-lo.
— Você é muito fofo, rapaz. Fofo, fofo. — Eu falo com voz de criança. O cachorro se ergue e eu aproveito e coço sua cabeça.
— Desculpe aparecer assim, no seu apartamento. Eu realmente deveria ter avisado. Mas eu me esqueci de pedir seu telefone, e eu fiquei pensando... Ah, e se eu apenas aparecesse e a convidasse para uma caminhada? Realmente, me desculpe se invadi sua privacidade. Eu não quis. — Ele se desculpa, e seus olhos, somado ao tom de voz me deixam mais leve. A raiva que eu sentia alguns minutos atrás desapareceu após eu ter contato com Black, e agora com esse pedido de desculpa sincero não vejo porque guardar rancor.
— Tudo bem. Mas dá próxima vez, avise. — Eu me ergo.
— Você aceita ir dar uma volta com a gente? — Convida.
Eu olho de para Black e vice-versa. Já estou acordada, de qualquer forma. Se eu tentar voltar a dormir, não irei conseguir... Então porque não experimentar ir a essa caminhada? Quem sabe eu possa me sentir bem depois, não é?
— Aceito. Só espere eu ir trocar de roupa. Entre e feche a porta. A vizinha da frente é curiosa e gosta de inventar algumas conversas. — Assentindo, entra totalmente e bate a porta atrás de si. Eu ando pela sala a caminho do meu quarto até o meu guarda-roupa e procuro por roupas de ginástica. Escolho uma legging preta, um top rosa e uma camiseta branca grande o suficiente para ir até a metade das minhas coxas. Tiro o meu tênis de corrida de baixo da cama, e amaldiçoo quando vejo que ele está cheio de poeira. Rapidamente o limpo, e cinco minutos depois eu já estou pronta. Vou ao banheiro para ajeitar meu cabelo, escovar os dentes e passar algum protetor solar. Estou saindo quando encontro Black no meu quarto, farejando por todos os cantos.
— Volte aqui, Black. Eu não posso entrar aí para te buscar. não vai gostar nada de vê-lo mexendo em suas coisas. — A voz vem de trás da porta meio aberta do meu quarto. O cachorro me vê e vem em minha direção, rodeando minhas pernas. Eu toco sua cabeça e aproveito para pegar a guia que deve ter soltado. Assim que abro a porta, aparece brigando com Black. — Você não pode fazer isso. — Ele diz, duro. — Se me desobedecer novamente, nunca mais o levo para passear. — Parece que o bicho entende por que ele põe o rabo entre as patas e suas orelhas abaixam. Eu caio de amores pelo cãozinho ali mesmo.
— Ele entende quando você fala com ele? — Pergunto entregando a guia de volta ao dono.
— Sim, ele é um garoto esperto. — Sorrio. — Você está pronta? — Concordo.
Nós saímos pela porta no momento em que a vizinha está chegando. Ela olha sobre os óculos para , o cachorro e depois eu.
— Olá, filha. — Ela diz.
— Oi, Senhora Harrisson.
— Quem é o belo rapaz ao seu lado? — Ela olha novamente para .
Eu fecho os olhos sabendo que a partir de hoje meu nome vai estar na boca de todo mundo que esta senhora conhece. E isso é uma merda. Não que eu realmente me importasse sobre o que as pessoas pensam de mim. Não era isso. Era sobre ter atenção voltada para mim. Eu não queria passar na rua e alguém apontar em minha direção e depois cochichar algo.
E a respeito de sua pergunta... Eu não sabia o que responde. Tecnicamente eu e não tivemos convívio o bastante para que eu o apresentasse como amigo, e nem mesmo como colega. O que eu diria então? “Oh, ele é apenas um conhecido que está me levando para um passeio.”. – Não. Eu não poderia dizer isso.
Black me salva quando começa a rosnar. Sra Harrisson olha para ele com um pouco de temor.
— , mantenha esse cachorro seguro num aperto filme. Não o quero perto dos meus gatinhos. — E sem se despedir, ela entra em seu apartamento rapidamente.
— Isso foi estranho. — comenta.
— Ela é estranha. — Eu afirmo.
Nós descemos os lances de escada e ao passar pelo porteiro, vejo desejar-lhe um bom dia. A manhã nos recebe fervorosa. A quentura não é ruim, e para mim, a temperatura parece perfeita.
O passeio se inicia. Não temos realmente uma rota, estamos apenas seguindo e andando por aí. Black para algumas vezes para se aliviar e beber água. Já eu, começo a conhecer melhor o bairro onde vivo. Como eu era sozinha, eu nunca saí para explorar e conhecer os bairros do Brooklin. Quando eu cheguei aqui, eu usei o GPS para me orientar até a Starbucks mais próxima. Depois eu decorei o caminho e fiquei apenas nisso. Quando eu queria sair para outros lugares – o que era quase nunca – o GPS era meu salva-vidas. Nós caminhamos por doze quadras, até me convidar para irmos até o Herbert Von King Park. Eu aceito mesmo não sabendo onde fica. Por incrível que pareça, este passeio está sendo agradável. Nós raramente trocamos palavras, cada um vai perdido em pensamentos. O primeiro a se manifestar é quando encontra um colega na rua. Ele nos apresenta e para o meu espanto, ele me chama de sua amiga.
Amiga? Em que tipo de mundo ele acha normal conhecer uma pessoa num dia e no outro já a considerar sua amiga? era estranho.
Eu quis guardar esse pensamento apenas para mim, só que minha boca não queria manter-se fechada. Então quando o homem se despede e vai embora, eu olho para .
— Você nos apresentou como amigos. — Eu digo.
dá de ombros.
— E? — Ele rebate.
— Humm. Nós não temos tempo o suficiente juntos para considerarmos esse grau social. — Lhe explico. Olha-me como se tivesse nascido um olho extra na minha testa.
— Bem... Você vai achar estranho, mas... Sinto como se conhecesse você há mais tempo.
Encaro seus olhos por um tempo que eu não consigo calcular. Ele não se afasta ou se fecha diante da minha inspeção. Não é estranho que ele tenha dito isso, mas suas palavras mexem com minhas entranhas que por alguma razão se contorcem dentro de mim. Eu assinto como se o entendesse, mas não é bem assim.
— Ainda falta muito para chegarmos ao parque que você mencionou? — Pergunto para mudar de assunto.
— Mais cinco minutos e estaremos lá.
Obrigada, Jesus. Eu precisava descansar um pouco.
...
— Me sinto moída. — Comento enquanto alongo meus braços. Nós chegamos há uns dez minutos no parque e para falar a verdade, eu gostei bastante desse lugar. Muito verde, vários bancos e várias árvores onde eu poderia deitar de baixo e apreciar um livro. Eu pretendia vir aqui novamente.
soltou Black e ele está correndo por aí livremente. Seu dono está sentado ao meu lado observando as pessoas.
— Deveria ter trazido minha máquina fotográfica. Hoje o movimento está bonito para eu registrar algumas paisagens.
Eu o olho.
— Você é um fotógrafo?
— Não. Eu sou um colunista que escreve textos em uma revista exclusiva. Fotografia é mais como um hobbie. Mas arrisco a dizer que sou muito melhor em fotografar do que escrever. — Ele sorri me olhando. Eu nunca tinha lido algum texto seu, porém ele tinha jeito de ser um cara inteligente, então eu imaginei que sua escrita era tão boa quanto suas fotos. — E você, faz o que?
Eu abaixo minha cabeça, constrangida.
— Nada. Estou desempregada.
— Hey. — Surpreende-me pegando meu queixo entre os dedos para erguer minha cabeça. — Não há nada para se envergonhar. Você não tem culpa que o desemprego é grande em Nova York.
Por segundos eu me perco em suas íris azuladas. Elas me tentam a mergulhar fundo lá dentro. Este homem... Eu não sei muito dele, mas a cada descoberta sobre si, mais encantada eu fico. Ele é tão doce e meigo. Um homem não pode ser isso sem parecer gay. Eu realmente não quero estereotipar os gays dizendo que eles agem de uma certa maneira porque não é assim, mas esse tipo de comportamento é mais comum neles. Um homem hétero nunca é tão suave, a menos que ele esteja lidando com uma namorada ou esposa, o que torna sua conduta “aceitável”.
Alguns dias atrás eu nunca pensei em começar uma amizade com alguém. Eu gostava e queria ser sozinha, entretanto agora eu me vejo sendo tentada pela ideia de deixar entrar. Se ele provar que não é um traidor asqueroso, ficarei muito feliz em aceitá-lo como amigo. Sem contar que isso deixaria meu avô satisfeito.
— Obrigada. Às vezes eu pego uns trabalhinhos por aí, mas não é grande coisa. No entanto, minha praia é escrever. Eu tenho um livro pronto que está guardado no meu apartamento. Eu nunca tive coragem de mostrá-lo a alguém, tenho medo que ele seja ruim. — Eu me abro um pouco. me observa.
— Você é uma escritora? — Ele se agita.
— Uma amadora. — Corrijo.
Ele assovia para Black. O cachorro para e olha em sua direção, segundos depois ele chega até nós rodando e finalmente deitando ao seu lado. liga a guia à coleira para mantê-lo perto.
— Seu livro é sobre o que?
— Não é um romance totalmente erótico como já é habitual ver por aí. Este tem um pouco de dor e drama. É sobre uma moça que perdeu seu noivo para o câncer. Após sua morte, ela ficou completamente desestruturada e não sabe como seguir em frente. Então ela descobre que seu noivo tinha um irmão... Um irmão gêmeo. Ele cai de amores por ela no segundo que a vê. Mas ela não sabe como agir perante a ele, por que tudo que ela pode enxergar é seu exterior. Então o gêmeo terá que trabalhar em mostrá-la que ele não é como seu irmão, e que a única coisa que eles partilhavam era a aparência. — Lhe explico.
— Onde posso obtê-lo? Você me deixou curioso. Eu quero lê-lo. — fala com expectativa. Eu murcho.
— Eu nunca mostrei para alguém, . Descrever como ele é, é muito mais fácil. Você pode achar minha escrita muito chata, ou sem sentido, ou evasiva, ou superficial demais.
— Eu posso ser seu leitor beta. Se realmente faltar alguma coisa, eu posso dizer a você e você pode melhorá-lo. Você nunca irá publicá-lo se continuar escondendo-o.
Eu penso a respeito.
— Bem, eu vou pensar se te deixo ler.
— Sério? — Ele sorri grande.
— Aham.
...
— Aquele ali é meu apartamento, caso você queira saber. — Ele aponta para o prédio. Nós estávamos voltando da nossa caminhada.
— Você mora em cima de uma boutique? — Eu pergunto. Ele dá de ombros.
— Não é tão ruim.
Nós começamos a andar e quando percebo que ele vai me acompanhar, eu o paro.
— Espere, . Aonde você vai? — Indago.
— Deixá-la. Se eu fui te buscar, é meu dever acompanhá-la de volta. — Responde como se aquilo fosse óbvio.
— Não precisa, realmente. Eu não vou me perder, e acredito que não irei ser assaltada. Pode ficar tranquilo.
— Mas eu queria... — Ele faz uma cara engraçada. Eu rio.
— Já disse que não precisa. A gente se vê por aí. — Começo a andar.
— Na Starbucks? — Ele pergunta.
— Provavelmente. — Eu digo de volta sem olhá-lo.
— Amanhã? — Mesmo que ele não esteja vendo, eu sorrio.
— É.
— Até lá, .
— Até.
E eu apresso o passo.
Quando chego em casa, eu estou me sentindo muito bem. Ao olhar-me no espelho, percebo que estou corada e meus olhos reluzem, o que é bem diferente da cara de morte que eu já estou acostumada a ver sempre que acordo. Eu tomo um banho longo, depois começo a preparar o almoço. Assim que ele está pronto eu me sento na sala e começo a assistir TV. Penso em e no nosso passeio. Ele é tão legal. Ele não é o tipo intrometido que quer saber muito dá minha vida, ao contrário, ele aceita as informações que lhe dou. E eu estou pensamento seriamente em aceitá-lo como amigo. Isso me deixaria feliz.
Capítulo 5 – O melhor amigo que não queria ser amigo
Três semanas depois...
Frankin Avenue – Starbucks
Eu estou rindo de uma piada que conta quando uma moça nos interrompe e pede uma cadeira emprestada da nossa mesa. Eu aceno lhe dando permissão.
— Deixa eu me enfiar naquela fila, ou nós não iremos comer hoje. — Ele diz. Eu concordo e ele se levanta indo para o balcão onde há uma pequena comoção, já que hoje é final de semana e consequentemente o movimento aqui é maior.
Eu assisto a todo instante. Nos tornamos amigos muito rápido, e eu estava alegre. Ele mudou minha rotina completamente. O que aconteceu depois daquele passeio no parque é que ele apareceu em casa mais vezes e me levou para conhecer outros lugares. Isso foi aumentando minha afeição por sua pessoa, e eu, de alguma forma, já me sentia ligada a ele, tanto é que sentia sua falta se passássemos muito tempo sem nos vermos. Quando não estávamos juntos, sempre nos falávamos pelo celular e ele me livrou bastante da solidão. Acho que já tinha me acostumado tanto a ele que eu agora não seria mais a mesma caso ele fosse embora. Todas as noites eu agradecia a Deus por ter colocado no meu caminho e pedia para mantê-lo em minha vida. Ele é importante para mim.
Ele não sabe, mas hoje vou dar a ele meu livro. Ele tem me pedido tanto para ler que finalmente eu tive coragem de tirá-lo de dentro da gaveta. Tenho-o em minha bolsa e vou entregar a ele assim que voltar para a mesa.
Alguns minutos depois aparece com nossos pedidos. Sim, cheesecake de frutas vermelhas e frappuccino de morango. Nosso preferido.
— Quase não chega minha vez. — Ele reclama.
— A espera sempre vale a pena. — Eu digo. Ele concorda.
— Eu espero que sim. Tenho esperado por algo por tanto tempo que agora que estou prestes a conseguir me sinto muito nervoso. — Seu comentário me faz levantar a cabeça e encará-lo. Ele está me olhando de um jeito diferente, seus olhos azuis claro agora adquiriram um tom mais escuro.
— Do que você está falando? — Pergunto curiosa, enquanto levo uma garfada de bolo à boca.
— Você saberá em breve. — Ele faz mistério, e assim como eu começa a comer.
Encaro-o por mais alguns minutos, mas dou de ombros e relaxo.
— Ah! — Exclamo, chamando sua atenção. Enfio a mão na bolsa e tiro o livro, estendendo-o em sua direção. me olha, paralisado. — Pegue. Ele não vai morder.
— Isso é o que eu estou achando que é? — Ele parece surpreso.
— Yep, baby. — Ele segura o livro sem capa. — Agora você tem em mãos o original “Corpo e Alma, Dor, Amor e Prazer”. — Faço um efeito na voz que leva a rir.
— Puta merda. Eu nem acredito. — Ele diz folheando-o rapidamente. — Merda, . Obrigado.
— Você age como se eu tivesse lhe dado alguma coisa de muito valor. Acalme-se. Isso não é uma barra de ouro, é só um livro. — Eu desdenho de brincadeira. sorri de modo feliz para mim. — Pela sua cara, parece que você vai ter um orgasmo agora mesmo. — Aponto. Ele ri um pouco mais.
— Eu poderia.
— Isso seria constrangedor.
Vejo tantas emoções passando por sua face, porém sou capaz de entender apenas uma. Gratidão.
— Obrigado por confiar ele a mim.
Levo minha mão até a sua e a trago para meus lábios, onde beijo os nós de seus dedos.
— Obrigada por fazer parte da minha vida. — Sorrio agradecendo também.
Nós somos assim, amigos que não tem vergonha de dizer o que sentem. Apesar de tudo, eu ainda não fui capaz de contar a ele sobre a parte triste do meu passado. Ele sabe que há algo escuro, mas ele não me força a contar. Ele espera, paciente. E eu agradeço. Sei que quando for a hora meu segredo ruim vai sair tão facilmente e vai ser espontâneo. E talvez me ajude a lidar com a traição do meu ex, a frieza dos meus pais e o esquecimento dos meus amigos.
__X__
Uma semana depois...
Peter Luger Steak House – Restaurante
Olho ansiosa de um lado para o outro. Eu ainda não sei por que, mas me trouxe em um restaurante sofisticado para me contar algo. Eu tentei perguntar a ele sobre o que era, mas ele não me disse, ele só fez mistério o tempo inteiro.
Ele não tinha um carro, mas ele alugou um. Ele pediu que eu vestisse o vestido mais bonito que eu tinha, e quando ele foi me buscar em casa, ele apareceu em trajes finos também. Uma camisa social branca, calça feita sob medida cinza, e blazer. Meu Deus. Eu nunca o tinha visto assim, tão sério. E ele estava lindo. Meu coração bateu tão forte que parecia uma maldita percussão. Eu não sabia o porquê, mas eu estava me sentindo muito nervosa ao seu lado, sem contar que o trajeto foi silencioso e cheio de tensão.
— Por que me trouxe aqui, ? — Se eu não estiver enganada, essa é a décima vez que eu pergunto isso.
Ele apenas ri.
— Calma. Você já vai saber. Vamos primeiro jantar, então depois eu conto.
— Me dá uma dica. O assunto é bom, pelo menos? — Eu tento. Fingindo pensar, ele morde os lábios. Merda... Isso é tão sensual.
— No meu ponto de vista, sim. Agora se conforme com isso e espere.
Eu choramingo, mas me comporto. Pela primeira vez desde que nos conhecemos não estamos falando tanto, hoje estamos sérios e silenciosos e por alguma razão isso me incomoda. Eu gosto de conversar com e ouvi-lo. Ele sempre tem conselhos bons, suas conversas nunca são sobre algo bobo, e suas piadas são as melhores.
Quando a nossa comida chega, pede vinho branco. O maître serve nossos copos e se afasta. Começamos a comer e o primeiro a falar é ele perguntando como o peixe está. Respondo que está delicioso e repito sua pergunta, e garante que o seu está divino.
É na hora da sobremesa que ele começa a falar. Começa dizendo que ganhou uma sala para si em seu trabalho, que Black vai ter filhotinhos porque cruzou com uma cadela de sua mesma raça, que sua mãe se curou do resfriado e que seu pai conseguiu se aposentar. Eu fico tão feliz por ele que mudo meu assento para seu lado, dessa forma posso abraçá-lo melhor.
— Estou tão feliz. — Lhe beijo no rosto.
— Eu também.
— Você merece um presente. Apenas peça e se tiver ao meu alcance, eu lhe darei. — Proponho.
É incrível como sua feição muda para uma séria. Ele me encara como se pensasse. Seus olhos nos meus descem para os meus lábios e sobem novamente.
— Posso pedir mesmo?
— Claro. Peça. — Estimulo.
Respira fundo quando segura minha mão.
— Eu quero um beijo.
Eu sorrio quando me inclino novamente e lhe beijo na bochecha direita. Estou puxando minha cabeça de volta quando sinto sua mão no meu rosto conduzindo-me para o seu. O choque me abala quando sinto meus lábios acertando o seu, e por segundos eu não sei o que fazer. Abalada, sinto sua língua sondando entrada, e eu tento dizê-lo para parar, só que ele aproveita minha boca aberta e enfia sua língua lá dentro, agora transformando aquele pequeno encostar de lábios num beijo de verdade. Deus... O que está acontecendo dentro de mim? Uma sensação de calor se apossa do meu corpo, meu coração salta batendo tão forte, e os arrepios estão fazendo meu sistema nervoso entrar em colapso. Por um momento eu deixo esse beijo rolando, eu beijo-o de volta, com vontade e eu sinto que gosta disso. Mas quando a realidade cai sobre mim, eu me afasto como se tivesse levado uma batida.
— ! — Exclamo. Ele apenas me olha com o rosto rosado. — O que foi isso?
— Um beijo. Meu beijo.
Eu engasgo diante de sua postura tão descontraída.
— Sim... Mas eu pensei que... Pensei que... merda, achei que o beijo fosse no rosto. — Eu explico.
— Eu queria na boca, por isso a puxei para mim. — Rebate.
— Isso é errado. Nós somos amigos. — Eu estou tão nervosa que sinto meu corpo todo tremendo.
— Eu não quero sua amizade, . Eu quero algo a mais. Foi por isso que eu te trouxe aqui. — Ele tenta se aproximar, mas eu me ergo da cadeira para colocar um pouco de distância entre nós.
— O quê? — Não estou entendo nada.
— , eu estou apaixonado por você. Eu guardei o sentimento para mim porque ainda não sabia como contar a você sobre isso, e eu achei que agora era o momento certo porque eu sinto que você sente por mim o mesmo que eu sinto por você.
Minha boca vai ao chão com sua declaração. Então durante esse tempo todo ele esteve forçando uma amizade que nunca existiu? Era isso que ele estava dizendo?
— Mas que porra, . Você esteve fingindo que era meu amigo esse tempo todo? Eu achei que você estava sendo sincero. — Eu não posso evitar, mas me sinto magoada.
— Eu precisava me aproximar de você de qualquer jeito e...
— E fingiu ser meu amigo esse tempo todo? — Eu completo. Vejo as pessoas nos olhando e isso me mortifica.
— Espere, não entenda errado. Eu só achei que você ia ficar feliz de saber que eu gosto de você, e também tem o seu livro...
— Mas o que diabos o meu livro tem a ver com esta conversa? — Eu não posso me controlar, estou ficando histérica.
— Eu o mostrei a um agente literário e ele o enviou para uma editora. Parece que eles estão vendo se podem comprar os direitos e publicá-lo.
— O QUÊ? — Grito. — ENTREGOU MEU LIVRO PARA UMA EDITORA? QUEM TE DEU PERMISSÃO?
Visivelmente desconfortável se levanta com os braços para cima em sinal de rendição.
— Calma, . Não é assim tão ruim. Você tem...
— Como você pode fazer isso comigo? — Eu pergunto, lágrimas tomando minha face. — Eu confiei em você, . Eu te disse sobre como me sentia a respeito daquele livro. Você passou na minha frente e não ligou pra nada do que eu disse pra você. Você me traiu... Traiu minha confiança. — Dou um passo para trás, como se sua presença me queimasse. Ele me olha com dor.
— ...
— nada. Meu nome é . Esse apelido é simplesmente horrível. Você me chama de cicatriz e acha isso legal? Eu tenho várias cicatrizes aqui dentro e você acabou de acrescentar mais uma no meu coração. Eu não sei o que você fez, mas você vai pegar meu livro de volta e dizer que eu não estou interessada em publicar merda nenhuma. Sinceramente... Eu espero nunca mais vê-lo na minha vida. Nunca mais apareça na minha casa e se me vir em qualquer lugar, finja que eu não existo e apenas siga seu caminho. Eu te odeio.
Corro tão rápido por entre as mesas que quase acabo caindo na saída do restaurante. Eu não sei onde estou, qual bairro é esse, mas eu saio pelas ruas como se conhecesse alguma parte. Ando tão rápido que ao olhar para trás eu já não vejo mais o restaurante.
Vago por aí como um fantasma, chorando. Parece que eu não aprendo. Quando vai entrar na minha cabeça que eu não devo confiar tão rapidamente numa pessoa que aparece do nada na minha vida? Estou tão decepcionada com . Eu nunca pensei que ele fosse fazer isso comigo. Depois de eu ter explicado tanto para ele os meus receios a respeito do livro... A respeito das pessoas. Ele sabia que eu odiava mentiras, odiava que escondessem coisas de mim. Merda. Isso é tão ruim.
Cansada de apenas andar, eu me sento numa parada de ônibus. Eu só quero ir para casa, então eu chamo um Uber e espero dez minutos até ele chegar. É um alivio quando eu entro no carro, e o alivio é maior ainda quando eu chego em casa. Um porta-retratos com uma foto minha e de em cima do balcão da cozinha é a primeira coisa que vejo. Com raiva jogo o objeto que bate na parede e quebra. Corro para o meu quarto, meu covil de dor e tristeza. A escuridão cobre meu corpo e o frio me açoita com vontade. Meu coração está sangrando um pouco... e a prova disso são as lágrimas que não param de cair.
Capítulo 6 – Saudades
Uma semana se passou e eu me vejo vivendo da mesma forma que vivia antes de aparecer, cheia de amargura. Meu livro apareceu na porta da minha casa três dias depois da discussão com com um pedido seco de desculpas escrito num pedaço branco de papel. E sobre ... Eu não o vi mais. Ele não tentou falar comigo por telefone e nem pessoalmente. E eu? Bem... Eu não parei de ir a Starbucks, mas sempre que chegava lá meus olhos procuravam atentos por algum de sinal de , só que nunca encontravam nada.
Na segunda semana eu estranhei seu sumiço. Eu sei que eu tinha dito a ele para desaparecer da minha vida e que nunca mais queria vê-lo, só que eu não podia evitar a saudade que eu sentia dele. Como eu disse, eu tinha me acostumado com a sua presença, e agora que ele se foi meu coração simplesmente partiu novamente.
Espere... Se eu sinto que meu coração partiu novamente, é porque antes ele estava inteiro, certo? Então isso significa que o colou? Sim, porque... Antes de conhecê-lo meu coração estava quebrado por conta de Alex e sua traição, e assim ficou por três anos até aparecer. Eu sei que parece confuso, mas preste atenção: Uma coisa só pode se quebrar se ela tiver inteira... Assim funcionava comigo.
me curou?
Eu avalio e tenho uma epifania grande.
Percebo que desde o primeiro momento que cruzei com , eu nunca mais pensei no meu passado quando eu ia dormir. Por um mês inteiro – que foi o período de nossa amizade – eu me senti feliz, viva... Eu nunca mais chorei durante o sono, ou tive pesadelos relacionados à minha vida antiga. Por um mês inteiro eu esqueci completamente de Alex, Miranda e minha vida no Canadá. Isso tudo graças a . Agora mesmo eu não sentia mais dor nenhuma quando pensava neles. A única agonia que me tomava por inteira era o desaparecimento de .
Eu precisava fazer alguma coisa a respeito. Mas o quê?
Eu olho em volta da casa em busca de algo que me dê uma luz e o celular brilha como um tipo de sinal divino. Corro até ele e procuro o nome do meu avô. Só ele para me aconselhar agora. Espero alguns segundos até que ele atende:
— Oi, minha filha.
Eu não posso evitar, eu suspiro aliviada.
— Vovô, eu preciso de ajuda. — Minha voz sai urgente.
— O que aconteceu? Pelo amor de Deus. Você está bem? — Percebo que meu tom deixou meu avô em estado de alerta, por isso eu corro para despreocupá-lo.
— Calma, calma. Estou bem. Me desculpe. Eu não queria assustá-lo.
— Não brinque com meu coração, . Você quer que seu avô morra?
— Deus o livre. — Eu guincho.
— Sim, o que precisa?
Eu respiro fundo, jogando-me no sofá.
— É uma longa história, vovô.
Ele ri do outro lado da linha.
— Eu tenho tempo, querida. Comece do início.
É o que eu faço.
...
— Deixe-me ver se eu entendi. — Vovô tosse do outro lado. — Você conheceu um rapaz numa lanchonete, você confiou nele e o deixou entrar como amigo. Vocês se tornaram uma espécie de dupla inseparável. Então ele se declarou para você dizendo que estava apaixonado e você apenas o cortou e pediu a ele para desaparecer da sua vida, é isso? — Eu confirmo com um “uh hum” triste. — Agora você está sentindo sua falta porque você se acostumou com ele. E você quer tê-lo de volta em sua vida... Correto? — Repito o mesmo som. — Mas você não sabe o que fazer, por isso me ligou para pedir um conselho?
— Na mosca. — Eu comento.
Vovô suspira.
— Bom, eu vou começar dizendo a você que estou muito feliz que você conheceu uma pessoa nova ao qual você se importa. Eu estava com medo de que eu fosse morrer e você ainda iria continuar solitária. E o que eu tenho a dizer é que parece difícil para você, mas eu acho que você tem uma saída muito fácil. Se você sente sua falta, você deve procurá-lo e lhe contar isso. Você gosta dele?
— Em que sentido? — Eu mordo os lábios.
— No sentido amoroso, não fraternal.
Meu coração começa a palpitar rápido e eu penso a respeito.
— Olha... No primeiro dia que ele pediu pra sentar na minha mesa eu o odiei porque ele falava muito e já de cara me deu um apelido como se fossemos amigos de longa data. Mas depois... Depois que ele me levou a um passeio, depois que começamos a conversar sobre a vida... Ele parecia tão especial para mim. Eu cheguei a pensar até que ele foi enviado por Deus a mim para acabar com a minha solidão. Eu não vou negar, vovô. Eu gosto tanto dele, mais do que possa imaginar. Mas eu não posso seguir em frente com esse amor, porque eu estou machucada demais com o que aconteceu entre mim e Alex... Eu tenho traumas. Minha terapeuta mesmo disse isso. Eu tenho tanto medo de que ele vá fazer o mesmo. Só o pensamento de ser traída me deixa inquieta e dolorida. É por isso que eu o quero apenas como amigo, por mais que no fundo eu queira o mais... Eu prefiro tê-lo como amigo e vê-lo com outra garota, do que tentar namorá-lo e sair quebrada novamente. Se isso acontece comigo de novo, vovô, não restará mais nada. Eu serei apenas uma sombra viva por aí.
Por minutos meu avô fica em silêncio do outro lado, como se estivesse assimilando tudo que eu falei.
— Coração, me escute. Seus traumas não vão desaparecer se não enfrentá-los. E eu digo isso com a experiência de um soldado que esteve na guerra. Eu sei como é ter medo de enfrentar aquilo que mais te machuca, e você precisa ser forte. Mas diferente do que você está pensando agora, eu não vou incentivá-la a deixar seus medos para trás. Se você quer continuar vivendo com seu trauma... Isso é problema seu. Porém se você não quer perder esse menino de ouro, você vai ter que procurá-lo e explicar a ele tudo isso que você me contou. Diga a ele e seja clara quanto as suas razões de não poder amá-lo como ele deseja. O que você fez com o rapaz ao deixá-lo sozinho naquele restaurante foi de uma infantilidade sem tamanho. Eu no lugar dele poderia muito bem não a perdoar. Mas se ele realmente está apaixonado por você, ele vai te receber na casa dele e vai te escutar, e acima de tudo, vai te entender.
— Você acha? — Eu pergunto.
— Tenho certeza. — Parece seguro.
— Espero que esteja certo, vovô. A saudade que sinto do é maior do que o meu orgulho. Vou procurar ele amanhã e esclarecer tudo.
— Estou orgulhoso da sua atitude. Estou aqui para o que você precisar.
— Obrigada. Eu te amo.
— Te amo também. Ah, antes que desligue. Eu tenho uma novidade. É sobre seus pais. — Ele alerta logo.
Pela primeira vez não me sinto tentada a cortar o assunto.
— O que têm eles?
— Seu pai está falido e sua mãe entrou com processo de divórcio.
Como se eu já não soubesse que isso fosse acontecer.
— A puta perdeu sua galinha de ovos de ouro, então? — Eu pergunto, desdenhosa.
— Pois é.
— Bem feito aos dois. Se ela quiser, ela pode ser uma milf para Alex. Assim ela pode ter suas mordomias de volta.
— Eu não me importo com eles desde que não venham me importunar. Seu pai apareceu aqui ontem para me contar a novidade.
— Esse é o mundo girando, vovô. Uma hora ou outra eles iriam ter que cair do pódio.
— Sim. Nada melhor do que o tempo para mostrar como a vida trata esse tipo de gente.
Silêncio se instala.
— Bom, vovô. Eu vou desligar. Obrigada por me ajudar com esse problema. Fique com Deus.
— Você também, amor. Boa sorte.
— Obrigada.
E a ligação se encerra.
Sentindo-me corajosa, eu começo a esquematizar como será o dia de amanhã. Irei procurar e expor a ele tudo aquilo que eu nunca o disse, e se eu tiver sorte, o terei de volta em minha vida.
__X__
Na tarde seguinte...
Estou me sentindo nervosa quando saio de casa com a intenção de ir até o apartamento de . Durante a noite enquanto eu estava na cama, eu pensei em tantas coisas que eu queria lhe dizer, mas no final eu sabia que era inútil ficar batendo cabeça imaginando como seria algo, quando na verdade todos os caminhos poderiam ser diferentes. Cansada, eu tomei um remédio para dormir. Pela manhã quando eu acordei, rezei a Deus para que tudo saísse certo.
Agora estou aqui, sentindo minhas entranhas corroendo e meu coração batendo acelerado.
Eu apresso o passo, não quero perder o pouco de coragem que está me impulsionando. Algumas pessoas passam por mim sorrindo um pouco e eu encaro isso como se estivessem me passando forças. Cinco minutos de caminhada e eu finalmente estou em frente ao prédio de . A boutique em baixo está aberta. Há uma porta no lado direito que leva ao segundo andar. Eu respiro fundo quando ando até ela e a empurro, abrindo com facilidade. Está um pouco escuro, é mal iluminado. Eu nunca estive aqui porque alegava que tanto o prédio como seu apartamento tinham condições horríveis.
Eu ignoro esse pensamento. Sei que o número de sua morada é 321, então eu subo o primeiro lance de escadas que leva ao segundo andar. A escada continua, mas há duas portas. Uma ao lado direito da escada, e a outra ao lado esquerdo. A de é do lado esquerdo. Eu paro em frente a porta e respiro fundo. Meu coração não se acalma, ele apenas continua batendo forte. Sinceramente, o pensamento de desistir e ir embora é tentador, mas eu me forço a ficar. Não quero perder e vou lutar para ter sua amizade de volta.
Puxo o ar pelo nariz e solto pela boca. Parece que estou me preparando para um luta.
— Por favor, Senhor. Me ajude agora. — Eu rezo baixinho. — Não me deixe perdê-lo. Eu sei que agi como uma idiota, mas vir aqui para consertar isso. Apenas me ajude. Por favor.
Eu aperto a campainha. Esperança brilha através de mim com força e eu abraço esse sentimento para que eu tenha coragem de enfrentar . Segundos se passam quando ouço passos, então uma voz feminina fala:
— Volte para cama. Eu resolvo isso.
A porta se abre e uma mulher loira descabelada aparece usando uma camisa. Uma camisa que eu já tinha visto usar.
— Olá. — Ela diz, seu rosto sonolento.
Toda a minha esperança se desfaz enquanto eu sinto como se levasse um soco no estômago. Meu Deus. É a mesma sensação de quando vi Alex e Miranda... Merda! É até pior.
Levo a mão ao peito, a boca se abre para tentar formular qualquer palavra, mas nada sai. O sentimento de traição é tão forte que eu sei que se eu continuar aqui, eu vou cair no choro a qualquer momento.
Não é possível.
disse que estava apaixonado por mim. Então como eu fugi, ele apenas seguiu em frente tão rápido, sem nem ao menos tentar uma segunda vez? Eu estou em pedaços novamente. Eu sei que eu disse algo sobre vê-lo com outra garota, mas eu não esperava que fosse tão cedo. Eu nem ao menos estava preparada para isso. Agora eu só quero ir embora.
— Me... Me des-desculpe. — Eu forço as palavras para fora. — E-eu... Eu...
Anda, . Apenas vá embora. Não fique se humilhando ainda mais. — Eu comando mentalmente para mim mesma através da dor.
— Você está passando mal? Parece que você vai chorar. — A mulher comenta.
Sim, eu apenas quero ir para casa onde eu vou poder chorar sem que ninguém me veja.
Sinto meu coração estilhaçado. E eu sei que dessa vez eu não vou me curar.
Eu assisto enquanto a mulher me olha de cima a baixo, então seus olhos se arregalam quando ela dá um passo para fora, em minha direção.
— Você é a ? — Ela pergunta rapidamente. Eu assinto. — Meu Deus, querida. Me desculpe. Eu sei como deve está interpretando essa cena. Não é o que parece, ok? — Sim. A velha desculpa. — Não, sério. Eu posso ver que você acha que eu estou dormindo com . Eu não estou. Eu sou sua amiga, sua melhor amiga. Ele está doente e eu estou ajudando. Não tenha qualquer ideia errada sobre nós. — Ela enfia a mãos nos cabelos. — Eu sei que parece que eu estive em sua cama porque estou descabelada e com sua camisa, mas você precisa saber que eu sou uma lésbica. Uma lésbica estrela de ouro. Você sabe o que isso significa? — Ela parece tão nervosa e apressada em se explicar.
Eu engulo o bolo na minha garganta.
— Que... Que você nunca esteve com um homem? — Eu sugiro. Meu tom saindo tão fraco.
— Sim, isso mesmo. Oh, querida. ¬— Ela lastima e vem em minha direção. Ela me pega num abraço forte, me levando consequentemente a uma choradeira incontrolável. Ela não fala nada, ela apenas me consola enquanto eu deixo sair todo aquele pranto que ficou preso. — Você deve está se sentindo traída porque pensava que eu estava com ... Mas não. Como eu já disse, nós somos apenas melhores amigos. Ele esteve doente por todos esses dias e essa é a única razão para ele não ter te procurado. Ele estava esperando ficar bom para ir atrás de você. Ele disse que não iria desistir tão facilmente assim, já que ele esperou por muito tempo.
É incrível como eu sinto o peso no peito ir sumindo lentamente. Meu coração voltou ao normal, já não o sinto mais quebrado. Eu me afasto tentando respirar pelo nariz, mas está meio difícil porque ele entupiu um pouco.
Eu fico tão aliviada que eles não estão juntos. Eu só agradeço a Deus nesse momento. Mas afirmo que isso foi um golpe certeiro no meu coração. Mais um susto como esse e eu levo o farelo. Sério mesmo.
— Você se sente melhor agora? — Pergunta, preocupada.
Eu olho para ela enquanto limpo meu rosto.
— Sim. Obrigada.
— vai ficar feliz que você veio vê-lo. — Comenta.
— Como você descobriu quem era eu? — Pergunto, realmente curiosa.
— Bem... Acho que primeiro foi a forma como você me olhou. Seu rosto é expressivo, então quando eu abri a porta eu percebi através das suas feições que você estava surpresa e ao mesmo tempo com dor. Quando percebi que ia chorar, acabei de lembrando das suas fotos que me mostrou, e foi aí que eu matei a charada. — Explica.
— Fotos? — Eu pergunto. Até onde eu sabia, nós apenas tínhamos uma, que era igual a que existia no meu apartamento.
— Isso é uma história que vai te contar. — Diz ela, e mesmo confusa eu concordo.
— Você disse que ele está doente? — Preocupação toma meu corpo.
— Sim. Catapora. Eu sou a única que está cuidando dele, e eu estou com medo de pegar porque eu nunca tive a doença na minha vida. Você quer entrar? — Eu aceno. — Fique a vontade. está de repouso no quarto. Ainda está com febre... O médico disse que ele precisa descansar.
Ela faz um sinal para que eu entre primeiro e eu faço. Black aparece na sala e quando me vê corre em minha direção. Eu abaixo e coço seu pescoço enquanto deixo um beijo em sua cabeça.
— Olá, garotão. — Eu digo a ele. — Senti sua falta. — Ergo-me e a primeira coisa que meus olhos focam é o sofá. Há um travesseiro e um cobertor claramente insinuando que alguém dormiu lá. — Você esteve dormindo na sala? — Eu pergunto à mulher que até agora eu não sei o nome.
Ela se estica, colocando as mãos sobre a lombar, sua cara é de desgosto.
— Dormir não é a palavra certa. Aposto que se eu for ao ortopedista ele vai dizer que minha coluna está desviada. Mas tudo bem. O que a gente não faz por um amigo, não é? — Eu concordo. — Quando minha namorada chegar de viagem eu peço a ela para fazer uma massagem e tudo volta ao normal. — Sorri genuinamente.
Eu tinha tudo para odiá-la, mas descubro que a enxergo como alguém agradável de ter por perto. Sua áurea é como a de ... É boa. Eu não estou enxergando maldade fitando seus olhos.
— Qual o seu nome? — Eu pergunto, interessada.
Ela bate na própria testa.
— Desculpe-me, estava com tanto medo que não acreditasse em mim que acabei esquecendo de me apresentar. Eu sou Genevieve, mas todos me chama de Gen... Exceto, Karen, minha namorada. Ela me chama de Kat porque na visão dela eu a lembro um gato. — Ela rola os olhos e eu surpreendentemente rio. — Você quer falar com agora? — Eu concordo. — Lave seu rosto para ele não perceber que você estava chorando. — Boa ideia, garota! Ela aponta a cozinha e eu vou até lá, colocando minhas mãos sobre o jato de água da pia. Jogo um pouco sobre meu rosto e Gen aparece ao meu lado com uma toalha para que eu possa enxugar-me. Agradeço. — Vamos lá, eu quero ver a cara de surpresa dele quando vê-la. — Ela começa a me conduzir por um estreito corredor, então sussurra em meu ouvido. — Ele sofreu esses dias sem você. Sentiu sua falta de todo o coração. — Engulo em seco. — Espere aqui.
Ela me deixa fora do quarto e entra.
— Quem estava lá fora? — Ouço a voz de e estremeço. Tudo que eu mais quero agora é vê-lo.
— Não te interessa. — Gen rebate. — Você devia ir tomar um banho, está fedendo. — Implica.
Eu rio.
— Você também fede como um gambá. — Rebate .
— Se eu fedo a gambá, você fede a bunda.
Eu não posso conter o riso, ele escapa por meus lábios.
— Quem está rindo? — pergunta. Vejo quando Gen faz um movimento me chamando para entrar. É nesse momento que eu tento encontrar toda a coragem de antes. Eu respiro fundo e dou dois passos, empurrando a porta mais aberta.
Assim que meus olhos batem em , meu coração começa a trabalhar em seu ritmo rápido. Vejo quando sua boca se abre em surpresa, e merda... Ele não está usando óculos, e seu cabelo está despenteado e isso o deixa simplesmente mais atraente. O lençol só está cobrindo até metade de sua barriga e eu não posso evitar... eu babo sobre sua aparência. Eu não sabia que ele era musculoso assim... Seu estômago é dividido em oito gominhos proeminentes e seu peitoral é enorme. Meu suspiro sai languido. E francamente, eu nunca tinha visto alguém mais lindo do que ele e tão impressionante, mesmo doente.
Ele já tinha me cativado por seu jeito de ser, seu coração... E agora ele me tinha mais atada a si por conta de seu exterior.
— , eu estou mantendo essa distância de para que eu não pegue catapora. Você deve se manter afastada se não quiser ser infectada também. — Gen alerta.
— Tudo bem. Eu já peguei catapora, então as chances de eu pegar novamente são quase zero. — Eu conto. Ela assente.
— Bem, eu sei que vocês precisam conversar. Então eu vou aproveitar para ir em casa ajeitar as coisas por lá. — Gen vira para mim. — Você pode cuidar dele enquanto eu fico fora? Eu só vou em casa, e depois vou ao supermercado fazer umas compras para . Está faltando algumas coisas em seu estoque. — Assinto. Ela sorri. — Obrigada. E você... — Ela olha para ele. — Deve tomar um banho, você não quer matar a moça com esse cheiro de bunda. — Eu sorrio quando ela sai.
— Eu não estou fedendo a bunda, estou? — pergunta me fazendo ri.
— Não. Nem um pouquinho.
— Que bom. Menos mal.
Nós ficamos nos encarando por um bom tempo. Eu não sei nem por onde começar a me explicar. Eu só sei que tudo que eu quero fazer é me lançar sobre ele e abraçá-lo, enquanto murmuro que estive morrendo de saudade. Só que ele pode não gostar, já que eu o desprezei quando ele disse que estava apaixonado por mim.
Minutos se passam enquanto o silêncio só cresce. É constrangedor, eu sei. Mas estou tomando meu tempo para executar o que eu tinha que fazer quando revolvi vir aqui. Um grito de adeus de Gen vindo da sala e nós sabemos que ela foi embora. Agora são apenas eu, ele e Black no apartamento.
— Eu posso... Me aproximar? — Pergunto, insegura.
— Claro. — Ele se ajeita melhor, sentando-se. Lentamente eu vou em sua direção. O certo seria eu sentar na ponta da cama, um pouco mais afastada de seu corpo, mas eu escolho sentar-me tão próxima quanto eu posso. Isso significa que estou a quatro palmos de distância. Observo os vários pontinhos por seu corpo e rosto, e percebo que a catapora já está na fase de cicatrização, ou seja, ela não contamina mais.
Levo minha mão ao seu rosto, sentindo-o quente. Isso me deixa triste. Eu queria ter estado aqui quando a doença apareceu, eu queria ter cuidado dele.
— Por que não me telefonou para avisar que estava doente? — Eu pergunto olhando em seus bonitos olhos. esfrega seu rosto em minha palma.
— Não queria incomodá-la.
— Não iria. — Toco sua sobrancelha, os lábios. — Nunca vai me incomodar.
Após isso as lágrimas descem sem permissão. Isso o deixa confuso.
— Por que está chorando? — Ele pergunta, inclinando-se para mim. As pontas de seus dedos tentam limpar as lágrimas, mas o esforço é em vão porque mais delas caem.
— Eu senti tanto a sua falta. — Eu finalmente confesso. — Eu precisava vê-lo. Você se tornou tão importante para mim quanto o ar que eu respiro. Essas duas semanas que estivemos longe... Foi como um inferno. Eu só precisava te ver, te abraçar... Pedir desculpas pelo meu comportamento tão inadequado, e por todas as palavras duras que eu disse. Eu sinto tanto. — Eu choro. amavelmente me puxa para seu peito e eu o abraço, sentindo sua quentura apaziguar meu estado de espírito. Eu não tenho vergonha de chorar em sua frente, na verdade é libertador. — Você apareceu na minha vida como um raio de sol clareando o escuro. Eu estava sozinha, , infeliz. Mas depois de você, a minha alma se iluminou, você trouxe alegria pra minha vida, e eu não quero perder isso. É por essa razão que eu estou aqui te pedindo desculpas. Eu só quero tê-lo de volta para mim. — Eu me afasto um pouco para olhar em seu rosto.
— Estou muito feliz de ouvir isso. Eu estava preocupado também que eu nunca mais iria te ver. Ao vir aqui, você simplesmente melhorou meu dia 100%. — Seu sorriso é grande e ele está reluzente de felicidade.
Eu não sei o que acontece comigo neste momento, mas há uma necessidade dura e grande crescendo ainda mais dentro de mim que me comanda a tomar seus lábios. Eu encaro seu bonito rosto, seus olhos azuis límpidos, sua pequena boca rosada... Eu apenas me inclino um pouco mais e o beijo. Sim. Eu queria isso. Eu gosto de ter seus lábios nos meus. Surpreso, não retribui por um tempo, porém quando eu forço um pouco mais o domínio em seus lábios, ele finalmente aperta meu rosto contra o seu, invadindo minha boca com sua língua. Eu precisava ter esse contato com ele novamente. Sim, eu sei que eu disse que eu vinha aqui para lhe explicar a razão de eu não poder aceitá-lo como namorado, mas agora eu estava me descobrindo muito tentada a mudar de opinião.
Sem largar seus lábios, eu me ergo um pouco e tiro a jaqueta porque estou ficando quente e suada. Assim que a peça está fora me puxa de volta e me faz sentar sobre seu colo. Suas mãos abraçam meu corpo e eu faço o mesmo. Minhas mãos vagam por seu rosto, pescoço, ombros, bíceps... E que bíceps, hein!
Quando o sinto levantar minha camisa para tirá-la, tenho a certeza de que quero fazer amor com ele. Já se passaram três anos que eu não sei o que é ter o carinho de um homem sobre o meu corpo e eu quero isso agora com . Eu me afasto e ergo os braços para que ele deslize a blusa para cima. Aproveito e me levanto para tirar os tênis e a calça. move as cobertas para longe e me olha com paixão crua.
Sim, baby. Eu sinto isso por você também.
Assisto quando ele remove a boxer azul escuro exibindo sua virilidade orgulhosa. Ele não tirou os olhos de mim, e eu tento não ser tão vergonhosa quando fico ereta e removo o sutiã, mostrando a ele meus seios. Curvo-me apenas um pouco para tirar a calcinha, e em poucos segundos eu estou nua em sua frente sob seu olhar fatal. me estende sua mão como um convite e eu aceito indo para cama com ele. Sento-me sobre o seu corpo enquanto ele volta a beijar-me.
— Espere um segundo. — Ele murmura, sem fôlego.
— O que foi? — Eu pergunto.
Sorrindo ele se inclina para o lado e pega o controle, aponta para um home theater e imediatamente uma melodia domina seu quarto. Reconheço ser 1+1 da Beyonce. O olho, questionadora.
— Eu não tinha muita coisa pra fazer enquanto estava doente, então selecionei algumas músicas românticas que me faziam imaginar eu e você e coloquei num pen-drive. Estou feliz que tive essa ideia antes, por que agora posso aproveitá-la com você. — Ele sorri, sua boca indo para o meu pescoço.
— Sim. — Eu gemo enquanto o deixo me amar. Ele é tão carinhoso com seu toque, tão cuidadoso quando desce seus dedos para minha parte íntima, movendo em círculos, tirando meu ar. Ele assiste eu me contorcendo em seu colo, sua boca indo de um seio para o outro, lambendo e sugando. — , sim. Apenas... Apenas não pare.
— Nem por um milhão eu pararia, querida. — Ele sussurra e sua boca cobre a minha. Ele me testa, me tenta. Estou me afogando nesse mar de prazer.
— ... — Eu respiro. — Faça amor comigo agora. Por favor.
Seus olhos estão inflamados, seu rosto rosado... Uau... Ele é o próprio deus Narciso, tão bonito. Eu o quero tanto que dói. Erguendo-me apenas um pouco, se conduz para dentro de mim, e quando ele entra, eu me sinto tão completa.
— .... — Ele suspira. Nossos corpos começam a se mexer em simultaneidade, eu me sinto em êxtase, sendo enviada pouco a pouco para a borda do prazer. E quando finalmente aumenta seu ritmo batendo em um ponto dentro de mim que envia calafrios por todo meu corpo, eu chego ao ápice com um gemido rouco. Algumas estocadas depois chega a sua liberação mordendo meu ombro, o que eu amo.
Nossos olhos se encontram e eu tenho a certeza... Eu não estou apaixonada por esse homem.
É mais do que isso.
...
— Mas que porra é essa? — Gen grita quando abre a porta do quarto e entra sem bater. Eu puxo a coberta sobre o meu peito porque ainda estou nua. Para falar a verdade eu não achava que ela fosse chegar tão cedo. — Você! — Ela aponta para mim. — Eu disse para cuidar dele, e você transou com ele. Isso é nojento. Transar com alguém enquanto ele está com catapora. — ri ao meu lado. — E você! — Ela aponta para ele. — Você deveria estar em repouso. Não deveria estar fazendo certos... Esforços. — Ele solta uma gargalhada que soa como música para os meus ouvidos. — Vocês dois são nojentos.
— Não há risco de contaminação por que as feridinhas dele já estão cicatrizando. — Eu explico, meio envergonhada.
— Feridinhas? Isso é mais asqueroso ainda. — Ela torce o nariz. — Estou seriamente tentada a vomitar agora.
— Não seja tão dramática. — a corta. — Para sua informação, a minha febre baixou, e eu estou me sentindo muito melhor.
— Claro, depois de uma surra de bu...
— Nem comece. — Eu a paro. — Essa palavra é simplesmente desnecessária.
— Oh, ok. — Gen assente. — Deixe-me reformular isso. Depois de uma “surra de vagina”... Assim está melhor? — Ela me olha e eu coro em resposta. — Depois de uma surra como essa, todo homem fica bom rapidinho.
— Conte-me sobre isso. — zoa.
— Onde estão minhas roupas? — Eu pergunto. pega minha calcinha que está ao seu lado e me entrega. Visto-a. Já Gen, apenas mexe no guarda-roupa de seu amigo, e pega uma camisa jogando-a para mim.
— Vista isso. É confortável. — A camisa é 100% algodão. Tão macia contra a pele e ela vai até quase meus joelhos. — Olha, depois disso se eu fosse você, cara de dente... Eu não teria mais dúvidas sobre os sentimentos da moça ao seu lado.
Eu olho de um para o outro.
— O que você está falando, Genevieve cara de gengibre?
Ela arqueia a sobrancelha como se fosse óbvio.
— Estou falando da cara de merthiolate.
Eles riem de mim.
— Que tipo de brincadeira de rima é essa? — Eu pergunto, mas eles claramente me ignoram. Principalmente Gen que apenas continua com o que começou.
— , ela transou com você enquanto você estava doente cheio de feridas. Se isso não for amor, então eu não sei o que é. — Explica. O assunto me deixa tensa e percebe. — Apenas conte a ela tudo. Tire isso como um band-aid.
— Contar o quê? — Eu pergunto.
olha para sua amiga.
— Sente-se conosco. Preciso de você aqui também. — Pede ele, e Gen realmente vem para sentar na cama.
— Mas vista uma cueca. Eu não quero ver o seu pau feio. — Ela faz cara de nojo e solta uma gargalhada.
— Se você visse meu pau feio você ia se apaixonar por ele. — Ele fala presunçoso enquanto se veste por baixo do lençol.
— Meu negócio é bu... — Ela para. — A moça não gosta dessa palavra. Meu negócio é vagina. Ela pode me mostrar a dela se quiser.
— Eu não! — Eu guincho e os dois caem na risada como se fossem duas hienas.
— A cara dela foi engraçada.
Eu não posso evitar, eu gosto de Gen. Ela é tão divertida.
— Sim, voltemos ao assunto. Vá lá, amigão. Desembuche. — Gen passa um tipo de força através do olhar para . Ele se vira para mim com seriedade nos olhos.
— Você lembra a primeira vez que nos vimos na Starbucks? — Pergunta ele para mim.
— Sim. Foi no dia que você precisou se sentar comigo porque as outras mesas estavam cheias. — Eu respondo.
— Esta não foi a primeira vez que eu te vi, . — Confusão pinta minha face. — Na verdade eu já tinha visto você há mais tempo, cerca de seis meses atrás antes do nosso primeiro contato. — Minha boca se abre em surpresa. — Eu estava com Gen e Karen quando vi você pela primeira vez sentada sozinha numa mesa. Você estava usando uma jaqueta preta e um cachecol vermelho. Estava séria mexendo no celular. Neste dia eu apenas a observei. Dois dias depois eu vi você de novo e assim sucessivamente. A cada dia sim e dia não você aparecia na Starbucks e eu comecei a me interessar. Neste tempo, eu estava quase perdendo meu emprego porque meus textos não estavam saindo tão bons como antes. Eu tinha perdido a inspiração de escrever e de fotografar também. Até que você apareceu. — olha para Gen. — Pegue lá. — Ela assente e se levanta, indo até o guarda-roupa tirando de lá um livro muito grande e pesado. Ela entrega a ele que o entrega a mim. É um álbum. — Não se assuste, apenas veja.
Curiosa e um pouco receosa também eu viro a capa encontrando uma página aquarela cujo tema está escrito em letras pretas e grandes: “Minha Musa”. A partir da terceira página meus olhos arregalam. São fotos... Fotos minhas. Todas na Starbucks. Não importa quantas páginas têm no álbum, todas elas são minhas. Eu comendo, eu séria, eu com a mão na cabeça, eu entediada, em várias posições, com variadas roupas.
— A partir do momento que comecei a tirar suas fotos, minha criatividade voltou com tudo. Eu podia escrever sobre qualquer coisa, e isso se tornava muito bom. Eu consegui um aumento após publicar um texto sobre o que um homem de verdade enxerga quando vê uma mulher que lhe atrai. Eu sei que você deve estar pensando que isso é assustador, que um cara estranho andava tirando fotos sua sem você saber, mas quero que compreenda que não houve nenhuma maldade da minha parte. Eu só estava fascinado demais por você. Você era tão misteriosa, eu não sabia seu nome, mas já tinha decorado todas as suas feições. Eu sabia o que você mais gostava de comer e beber. Gen descobriu que eu estava gostando de você há pouco tempo, e ela sempre me motivou a ir conversar com você, só que eu nunca tive coragem. Eu tinha medo que eu fosse te assustar e isso faria com que eu te perdesse.
— Sim. — Gen fala e eu tiro meus olhos do álbum para olhar para ela. — Eu disse a ele que se ele não fosse falar com você, outro faria, então ele realmente seria um perdedor. Disse a ele que você era bonita demais para estar solteira, e que ele deveria aproveitar a oportunidade. Então, ele se preparou e naquele dia esperamos até que o local enchesse para que ele finalmente fosse falar com você. Ele não forçou ou fingiu nada, ele só queria se aproximar de você, . Ele não quis estragar as coisas, ele quis fazer de uma maneira certa.
Volto meu olhar para o álbum e no fim dele encontro uma foto que está intitulada como “a foto favorita”. Eu estava sorrindo amplamente enquanto olhava para frente. Eu me lembrei desse dia. Eu recebi uma mensagem do meu avô me pedindo a ensiná-lo a como usar o facetime e isso foi muito hilário porque ele ficava reclamando que não estava funcionando, quando na verdade estava sim.
— Eu não estive apaixonado por apenas este mês, ... Eu já gostava de você bem antes de você me conhecer, de sorrir para mim, de me abraçar. Então agora que você já sabe, por que você não me dá uma chance?
Eu cubro o rosto com as mãos.
— Eu não posso. — Eu choro.
— Por que não? — soa triste.
Eu levanto a cabeça para olhar em seus olhos.
— Não é sobre você, é sobre mim. Eu passei por coisas e eu não quero que aquilo se repita. — Eu digo limpando as lágrimas que não param de cair.
me olha confuso e triste. Gen se mete entre nós.
— Venha cá. Deite sua cabeça nas minhas pernas e nos conte o que aconteceu. — Eu faço o que ela pede. Eu estico na cama pondo minha cabeça em suas pernas. Sua mão vem em meu braço, acariciando para me acalmar.
— Aconteceu quando eu tinha 19 anos, há três anos. Eu tinha um namorado. Alex. Nós estávamos juntos desde o colegial. Começamos a namorar quando eu tinha 15 anos, então por aí você saca que nós namoramos por quatro anos. Quando o período da faculdade chegou nós começamos a morar juntos. Ele era muito gentil, e muito agradável. Eu o amava tanto que não pensaria duas vezes em ficar em frente a um revólver e levar um tiro por si. Acontece que nessa mesma faculdade havia uma garota... Ela tinha intrigas comigo porque seu pai foi demitido pelo meu quando trabalhavam juntos. Ela tentava fazer da minha vida um inferno... Ela sempre tentava me sacanear nas coisas, nós discutimos várias vezes, enfim... Seu nome é Miranda. Uma vez ela estragou um trabalho que eu gastei duas semanas pra fazer e por conta dessa maldade eu acabei tirando zero e ficando reprovada na matéria. Eu odiava aquela garota com todas as forças que havia em meu corpo. Uma semana antes do período das férias chegar, eu estava na faculdade fazendo um trabalho de cálculo, então mandei uma mensagem para Alex avisando que eu chegaria mais tarde em casa. Ele respondeu que tudo bem. O que eu não contava é que eu fosse terminar cedo.
— Oh, meu Deus. — Gen sibila, sentindo minha dor. — Já até sei o que aconteceu.
Não ouso olhar para , estou muito focada relembrando aquela cena lastimável.
— Eu cheguei no apartamento e haviam várias roupas espalhadas pela casa. Os gemidos vinham do quarto... Eu lembro de ter rezado pedindo a Deus que não fosse Alex. Eu não sei de onde eu tirei coragem para ir até o quarto, mas eu fiz. Ao abrir um pouco a porta, eu os vi. Miranda e Alex transando na porra minha cama. De todas as garotas no mundo ele foi me trair logo com a que eu mais odiava. Eu me senti tão humilhada. Porém eu não fiz nada. Eu não gritei, eu não me descabelei, eu só fui embora. No dia seguinte chegou uma mensagem no meu celular com um vídeo. Era o vídeo deles dois juntos. Parece que ela gravou e divulgou na universidade para quem quisesse ver sem se importar com sua exposição. Ela só queria me destruir. E conseguiu. Meu coração se partiu em tantos pedaços que eu achava que nunca iria tê-lo inteiro novamente. Minha confiança se perdeu, meu psicológico assim como o emocional ficaram abalados... Eu era apenas um corpo, sem alma. Meus pais... Aqueles malditos tentaram me convencer a volta com Alex porque eles o enxergavam como uma fábrica de fazer dinheiro, já que sua família sempre foi rica. E os odeio por não se importarem comigo, apenas com fortunas. Meu avô me deu uma quantia em dinheiro e eu vim pra Nova York procurar um apartamento. Achei aquele aonde vivo até hoje e meu avô o comprou pra mim. Ele pagou também para mim uma terapeuta com intuito de me ajudar a recuperar daquele trauma e talvez voltar a ser como eu era antes. Mas não aconteceu. Eu continuo com medo, a dor da traição ainda é muito viva no meu peito.
— Agora eu entendo ainda mais o olhar em seu rosto quando abri a porta. — Gen comenta e vejo lágrimas em seus olhos.
— Como assim? — É . Não o olho. Não quero ver sua pena agora.
— Hoje, quando ela chegou aqui e me viu naquele estado, toda descabelada e com sua camisa... Ela pensou que nós estávamos dormindo juntos. O seu rosto transpassava uma dor tão grande... Ela ia chorar, então eu a reconheci e contei que somos apenas melhores amigos e que eu era lésbica. — Ela explica.
— Depois daqueles dias, eu nunca mais voltei para o Canadá e nem vou. Estou tentando reconstruir minha vida aos poucos. sabe... Ele foi o único amigo que eu fiz durante esses três anos que estou morando aqui, no Brooklin. Eu sou muito fechada, eu não quero passar por nada daquilo novamente porque eu sei que não vai restar mais nada. No fundo, no fundo, eu só estou tentando evitar mais decepções. — Eu limpo os olhos.
— ... — começa. — Olhe para mim. — Insegura, eu faço. Me ergo e sento ereta. — Eu entendo completamente o seu medo. Lembranças assim são difíceis de esquecer, mas você só vai conseguir tirá-las de sua vida criando novas lembranças. Lembranças boas.
— , eu posso te dizer algo? — Eu olho para Gen e concordo. — Eu já fui traída. E doeu muito também. Mas Karen me ensinou algo e que agora eu quero que você aprenda. Já vou direto ao ponto: uma das melhores coisas da vida é amar e ser amado, e não há risco de dor maior que esse. Sentir essa dor é natural, em algum momento vai doer, mas daí o amor vem e cura. Por mais insuportável que seja, a dor passa. Não faz o menor sentido tentar bloquear todo e qualquer sentimento para evitar a dor. Quem te magoou ontem, não tem relação nenhuma com quem quer te amar hoje, ou amanhã. “Evitar” esse tipo de dor é evitar o amor. Você também não pode culpar o mundo porque alguém, algum dia, te fez chorar. É péssimo, mas não é sua culpa, nem minha e nem dele. De fato, é muito complicado parar pra pensar em toda essa questão, mas, por pior (ou melhor) que seja, o amor cria o caminho e é a mistura dos sentimentos que traça um final. Não deixe as feridas antigas te impedirem de viver uma história linda, não conhecemos ninguém por acaso nessa vida, todos que passam por você tem algo para te ensinar. Cultive o amor em todas as pessoas, quando a certa florir abra seu coração, vai dar um pouco de medo e com certeza vai dar trabalho, mas o amor é isso, conhecer alguém e ir trabalhando esse sentimento todos os dias. Depois de tudo de ruim que te aconteceu, quando der certo vai valer a pena, mas você precisa se permitir, se deixar levar. Não faça planos, não pense muito, temos uma vida só, talvez a sua felicidade esteja só esperando para te encontrar do outro lado da estrada, ou neste caso, talvez ela esteja bem ao seu lado. E lembre-se “Seu futuro amor não tem culpa do anterior”. — Dá um beijo na minha testa, se levanta e se afasta. — Agora é com você. — Ela me olha. — Agora e com vocês dois. — E se vai.
Said all I want from you is to see you tomorrow
Tudo o que quero de você é te ver amanhã
And every tomorrow
E todo amanhã
Maybe you'll let me borrow your heart
Talvez você me empreste o seu coração
And is it too much to ask for every Sunday
E seria demais pedi-lo todos os domingos
And while we're at it
E já que estamos falando nisso
Throw in every other day to start
Jogue todos os outros dias, só pra começar
— ... — Pega a minha mão. Ao ver meus olhos cheios de lágrimas, ele se adianta para limpar. — Todo fim deve ser encarado como um recomeço, uma nova oportunidade de se descobrir, de se amar e de amar um outro alguém. Veja... Nos decepcionamos no trabalho, mas não deixamos de trabalhar. Nos decepcionamos com amigos, mas não deixamos de fazer novas amizades. Nos decepcionamos diariamente com os outros, e até conosco, mas seguimos em frente. Por que então uma decepção amorosa deve determinar se iremos, ou não, amar novamente? Não deixe que o sofrimento do passado impeça que você seja feliz no seu presente. As pessoas são diferentes, você está diferente, e este amor será diferente – só depende da entrega, porque amar é se entregar. Tudo que eu estou pedindo é uma chance... Uma chance pra te mostrar quem eu sou de verdade, uma chance de mostrar que eu estou pronto pra te amar. Eu não tenho qualquer intenção de te encher de promessas que eu não posso cumprir. Ao contrário, ao invés de prometer, eu quero fazer. Quero te mostrar os lados da vida que você nunca viu. Seu relacionamento comigo será completamente diferente do que foi com seu ex porque eu não sou ele.
I know people make promises all the time
Sei que as pessoas fazem promessas o tempo todo
Then they turn right around and break them
Depois dão às costas e as quebram
When someone cuts your heart open with a knife
Quando alguém parte o seu coração e o abre com uma faca
Now you're bleeding
Agora você está sangrando
But I could be that guy to heal it over time
Mas eu poderia ser o cara pra curar isso com o tempo
And I won't stop until you believe it
E não vou parar até você acreditar
'Cause, baby, you're worth it
Porque, baby, você vale a pena
— Eu posso ver praticamente todas as engrenagens rodando na sua cabeça enquanto você pensa. Eu sei que você quer isso também, só está com medo. Mas não precisa ter. Veja, eu observei você por meses, demorei seis... Seis malditos meses para tomar coragem e finalmente ir falar com você. Isso já não é prova suficiente do quanto eu gosto de você? Eu tenho fotos sua no meu álbum, milhares delas porque você é como uma inspiração... E um bom artista sabe que ele nunca deve permitir que sua inspiração vá embora. Você tem sido e é minha musa. Você não tem ideia do quanto é importante pra mim. A ideia de amar alguém é tão ruim assim para você? — Eu nego. — Então não aja como se fosse ruim me amar porque não é. Eu não quero que isso pareça presunção ou arrogância da minha parte, mas você já pensou no quão bom seria aceitar namorar comigo? Trocar carinhos, ter uma mão para segurar na sua, um ombro para chorar e um cafuné para dormir. Ter com quem dividir a pizza, os cheesecake de frutas vermelhas, o sofá, os sonhos, poder contar os seus dramas e os seus segredos para alguém que vai olha nos seus olhos e dizer: “eu te entendo, meu amor”. O peso dos problemas é sempre mais leve quando é dividido por dois e as alegrias só aumentam quando são compartilhadas. Nós temos tudo para dar certo, não evite. Aceite os meus sorrisos, os meus carinhos. Aceite que o momento é agora. Não faz sentido adiar a felicidade. Não tenha medo de se entregar para quem quer se entregar para você também. No amor só perde quem não ama. Use um pouco da sua imaginação. Imagine-se num dia chuvoso... Você chega em casa e eu estou te esperando... Você corre para mim então eu te aceito e você pode descansar nos meus braços, porque eles serão como um abrigo para você. Isso é uma garantia minha. Serei seu templo, assim como você será o meu.
So don't act like it's a bad thing
Então não aja como se fosse uma coisa ruim
To fall in love with me
Se apaixonar por mim
'Cause you might look around
Porque você pode procurar por aí
And find your dreams come true with me
E ver que seus sonhos se tornam realidade comigo
Spend all your time and your Money
Gaste todo o seu tempo e dinheiro
Just to find out that my love was free
Só para perceber que o meu amor era de graça
So don't act like it's a bad thing
Então não aja como se fosse uma coisa ruim
To fall in love with me, me
Se apaixonar por mim, por mim
It's not a bad thing to fall in love with me, me
Não é uma coisa ruim se apaixonar por mim, por mim
Now, how about I'd be the last voice
Agora, que tal minha voz ser a ultima
You hear tonight?
A ouvir esta noite?
And every other night for the rest of the nights
E todas as outras noites pelo resto das noites
That there are
Que existem
Every morning I just wanna see you staring back at me
Todas as manhãs só quero te ver olhando para mim
'Cause I know that's a good place to start
Porque sei que esse é um bom lugar para começar
I know people make promises all the time
Sei que as pessoas fazem promessas o tempo todo
Then they turn right around and break them
Depois dão às costas e as quebram
When someone cuts your heart open with a knife
Quando alguém parte o seu coração e o abre com uma faca
Now you're bleeding
Agora você está sangrando
But I could be that guy to heal it over time
Mas eu poderia ser o cara pra curar isso com o tempo
And I won't stop until you believe it
E não vou parar até você acreditar
'Cause, baby, you're worth it
Porque, baby, você vale a pena
So don't act like it's a bad thing
Então não aja como se fosse uma coisa ruim
To fall in love with me
Se apaixonar por mim
'Cause you might fuck around
Porque você pode procurar por aí
And find your dreams come true with me
E descobrir que seus sonhos se tornam realidade comigo
Spend all your time and your Money
Pode gastar todo o seu tempo e dinheiro
Just to find out that my love was free
Só para descobrir que o meu amor era de graça
So don't act like it's a bad thing
Então não aja como se fosse uma coisa ruim
To fall in love with me, me
Se apaixonar por mim, por mim
It's not a bad thing to fall in love with me, me
Não é uma coisa ruim se apaixonar por mim, por mim
No such a bad thing to fall in love with me
Não existe mal nenhum em se apaixonar por mim
(No such a bad thing to fall in love with me)
(Não existe mal nenhum em se apaixonar por mim)
No, I won't fill your mind with broken promises
Não, não vou encher sua cabeça com falsas promessas
And waste of time
E desperdiçar seu tempo
And if you fall
E se você se apaixonar
You'll always land right in these arms
Você sempre vai se deitar nestes braços
These arms of mine
Nos meus braços
Don't act like it's a bad thing to fall in love with me
Não aja como se fosse uma coisa ruim se apaixonar por mim
'Cause you might look around
Porque você pode procurar por aí
And find your dreams come true, with me
E descobrir que seus sonhos se tornam realidade comigo
Spend all your time and your Money
Pode gastar todo o seu tempo e dinheiro
Just to find out that my love was free
Só para descobrir que o meu amor era de graça
So don't act like it's a bad thing
Então não aja como se fosse uma coisa ruim
To fall in love with me, me
Se apaixonar por mim, por mim
Not such a bad thing to fall in love with me
Não existe mal nenhum em se apaixonar por mim
Eu exalo. Todas as coisas que ele disse entraram direto para o meu coração. As coisas que Gen e me disseram serviram mais que os dois anos que eu passei indo na droga da terapeuta. Eu tinha tudo em minha mão. Minha felicidade dependia de mim, e eu só percebi isso agora. Eu realmente percebi que eu não tinha que ter medo de tentar só porque eu tinha medo. Era como andar de bicicleta, certo? Você nunca sobe numa bicicleta e sai pedalando perfeitamente. Não é assim. Na primeira tentativa, por mais que você se esforce, você vai cair. E depois você recomeça tudo novamente, mesmo quando você se machuca porque sua vontade de passear por aí é maior que qualquer dor. Assim era a vida, assim era o amor. Eu não deveria me privar de ter uma nova experiência porque eu fui machucada antes. Doeu? É claro que doeu. Mas eu me levantei, não foi? Dolorida, quebrada, porém eu estou aqui. E por que não tentar novamente? Isso é desculpa para quem não ama de verdade, porque se você ama uma pessoa, você faz de tudo, enfrenta céus e terras para ficar ao lado dela. não é apenas um casinho qualquer. Este homem me enxergou quando ninguém mais fez. Ele estava literalmente de olho em mim. Mesmo com medo de estragar tudo, ele tentou. Tentou porque ele almejava conseguir ter minha atenção voltada para si. Ele entrou no meu coração como quem não queria nada (mas queria), montou sua casinha e deixou claro que não iria sair. E eu não queria que ele saísse. Ele é muito importante para mim porque ele abriu meus olhos para coisas que eu normalmente não via. Ele me fez feliz em um mês, enquanto que em três anos eu estive andando por aí infeliz e sozinha. Eu não posso deixar ele escapar, não sem ao menos tentar. Eu o quero. Eu gosto dele. E sim, eu já o amo. E ele precisa saber disso.
— . — Eu não me importo que minha cara pareça uma bola de tão inchada que deve estar por causa do choro. Eu apenas pego seu rosto entre minhas mãos e me aproximo mais enquanto as lágrimas descem. — Eu te amo. Amo tanto que não posso imaginar ficar um dia sem você. Sinceramente, estou tão feliz por você não ter desistido de mim. Me sinto agradecida por todas as coisas que você e Gen me disseram. Vocês dois abriram os meus olhos, me ajudaram mais que a puta da minha terapeuta. Antes de te conhecer eu fiquei imaginando se algum dia eu iria amar novamente, e acabei descartando a ideia. Por conta do medo, acabei ficando cega e insensível ao meu coração, por isso não percebi logo de cara que já te amava. Mas agora, depois desse balde de água fria que vocês jogaram sobre mim, eu me sinto acordada para a realidade e eu simplesmente não quero mais ser um caracol. Eu não quero mais viver dentro mim, eu quero migrar para outras pessoas. Eu quero viver aqui. — Eu coloco minha mão sobre seu coração. — Você já vive no meu. Eu quero voltar a ser aquela garota sorridente e feliz. Eu quero poder interagir com as pessoas sem medo de ser magoadas. Eu preciso aprender amar novamente e isso só você pode me ajudar. Me ajude. Por favor, eu preciso da sua ajuda. Eu te amo, mas eu preciso da sua ajuda.
— Eu já sabia que você me amava, eu só precisava que você confirmasse. — Ele me abraça tão intensamente e uma frase que eu li em algum lugar está fazendo sentido agora. “Um dia, alguém vai te abraçar tão forte, que todos os pedacinhos quebrados dentro de você vão se juntar novamente, e você vai ter certeza que tudo o que aconteceu até esse momento, valeu a pena”. — Eu te amo também. Eu só não disse antes por receio de te assustar e você correr para longe de mim novamente. Eu te amo desde que vi o seu primeiro sorriso na Starbucks. Você não era de sorrir muito, mas a primeira vez que fez você tirou meu fôlego. Inconscientemente você fisgou meu coração naquele momento. Sei que isso vai soar meloso, mas acredite em mim... Já virei tantas noites imaginando como seria eu e você juntos, e agora que a tenho em minha cama, tão próxima a mim... Deus, isso parece quase irreal. Só não peço para que me belisque porque posso sentir sua pele contra a minha. — Sorrindo, me puxa para seu corpo e eu aceito seu abraço porque experimento uma sensação de conforto. beija o topo da minha cabeça e inspira. — Você veio aqui apenas com a intenção de se desculpar? Tinha algo a mais? — Questiona.
Fito seus olhos.
— Sim, meu principal objetivo era pedir que me perdoasse. Mas eu também queria te explicar a razão de eu não poder aceitá-lo como namorado. Então assim que Gen abriu a porta um dos primeiros pensamentos que tive foi “ disse que estava apaixonado por mim. Como ele pôde seguir em frente tão rapidamente agora?”. Teria realmente me matado saber que você já estava com outro alguém. — Toco seu rosto. — Depois que nos beijamos, minha consciência começou a trabalhar em me fazer mudar de ideia sobre sermos apenas amigos. E te afirmo com toda certeza que eu nunca poderia esquecê-lo depois da nossa primeira vez. Eu estive por três anos sem ter contato sexual com um homem, e termos feito isso hoje, assim... sem planejar somente afirmou o quanto eu confio em você. Por isso te entreguei meu corpo, e agora estou te entregando meu coração. Ele está meio judiado, porém tenha certeza que ele ainda vale alguma coisa.
Esfrega seu nariz contra a minha bochecha, num gesto de carinho.
— Vou guardá-lo com muito cuidado. Ele é meu bem precioso.
Seu olhar me trazia segurança, e suas palavras eram como um porto seguro. E com minha experiência em relacionamentos, eu sabia que tinha que ter cuidado agora, mas algo... Uma sensação... Um instinto me comandava a entrar de cabeça, que dessa vez ia ser diferente e eu não tinha com o que me preocupar, afinal, era situações e pessoas completamente diferentes. Foi como Gen falou... não tinha culpa do que Alex tinha feito.
Nós começamos a curtir um momento a sós. Beijos, carinhos e palavras amorosas são trocadas. Estamos felizes, e nos sentimentos completos na presença do outro.
— Eu gostaria de continuar aqui, com você. Mas eu preciso de um banho. Essas marquinhas começam a coçar de vez em quando e às vezes é insuportável. Me sinto como um cachorro cheio de pulgas. — Explica . Eu entendo e sorrio.
— Tudo bem, pode ir. — Beijo-me uma vez mais nos lábios e me afasto.
— Você está convidada a se juntar no chuveiro comigo. — Propõe e sua cara me faz rir.
— Proposta tentadora, mas eu vou passar. Vou me vestir e ver se Gen ainda está por aqui.
— Claro.
Ele se ergue da cama e anda rumo a uma porta, onde a abre e entra. Só agora percebi que é um banheiro. Eu olho em volta procurando minhas roupas e vejo minha blusa em cima do criado-mudo e minha calça está na beiradinha da cama. Visto meu sutiã e troco a roupa de pelas minhas. Saio do quarto e vejo Black estraçalhando um osso. Ouço cantoria baixa e ando até a cozinha, encontrando Gen cortando alguns legumes na pia.
— Pelo tempo que demoraram e pela expressão em seu rosto, devo supor que você foi racional e aceitou o amor de ? — Ela sequer me olha, ela apenas faz sua observação.
— Sim. E eu queria agradecer pelo “sacode” que você me deu. — Eu me aproximo dela. — Gen? — Se vira e seus azulados olhos entram em contato com os meus. — Você não sabe o quanto foi importante para mim todas aquelas coisas que me disse. Mexeu com meu psicológico, me deu ânimo, segurança... Eu realmente estou me sentindo reluzente agora. E... Eu acho que estou meio enferrujada nisso, mas... Eu amaria se nós duas virássemos amigas. — Eu olho para ela com expectativa.
Seus lábios se torcem em um bico engraçado.
— Amigas sempre se veem peladas, não é? Se disser que eu posso te ver nua, então eu aceito. — Eu rio porque sei que ela está apenas brincando. Quando sua gargalhada ecoa pela casa, Black corre até nós. — Venha aqui. Dê-me um abraço. — Dou um passo em sua direção e abro os braços, recebendo-a com carinho. Quando ela se afasta, seus olhos estão sérios. — Cuide dele, tá? E tenha certeza que ele fará tudo que estiver em seu alcance para deixá-la feliz. é um homem maravilhoso, e com o tempo você verá isso. — Concordo. — Me ajuda com a comida?
— Claro. Por onde começo?
— Descasque os ovos. Assim que terminar coloque os morangos no liquidificador. Uma vitamina fará bem a todos nós.
Aceno e começo a fazer o meu trabalho.
...
— ? — Gen chama. Eu tiro os olhos da comida e a fito. Nós já estávamos jantando e eu estava atenta ouvindo conversar no telefone sobre sua volta para o trabalho que seria apenas em duas semanas, porque ele ainda estava com resquícios de catapora. Na verdade era uma mentira porque ele já estava se curando, mas eu não ia falar nada por que gostaria de tê-lo para mim tanto neste final de semana quanto na semana seguinte, para tentarmos recuperar de alguma forma os 14 dias que não nos vimos. Ele pisca para mim quando rapidamente minha atenção recai em si, depois volta para sua amiga. — Eu não sei se você ainda está chateada sobre isso, mas eu gostaria de saber a respeito de seu livro.
Eu engulo a comida.
— O que tem ele? — Eu devolvo.
Ela dá de ombros.
— Eu o li, deixou. E queria dizer que não publicá-lo é um desperdício de seu talento. Ele está maravilhoso, e o que eu achei incrível é que não há muitos erros. Você realmente entende muito de gramática. O enredo não é enjoativo e nem tão clichê. Você sente na pele o sentimento dos personagens, não há buracos que geralmente levam o leitor a ficar um pouco confuso, e o que eu achei muito bom é ser em terceira pessoa. Tanto um homem como uma mulher pode ler e não se sentir desconfortável. Por que você sabe... Homem não gosta de ler esse tipo de romance hot porque na maioria das vezes a leitura é feita pelo ponto de vista da personagem, e os caras odeiam isso. Tem certeza que não quer publicá-lo? — Seus olhos estão grandes em cima de mim. Eu penso a respeito.
— Eu não sei. Eu fiz pedir de volta o livro para o agente. Acho que ele não vai querer tê-lo de novo.
— Claro que vai! — Ela exclama.
— Como pode ter tanta certeza? — Fico curiosa.
Sorrindo de um jeito meigo, ela bebe um pouco de suco.
— Porque eu sou o agente literário. — Minha boca se abre e ela ri da minha reação. — Seu livro fez sucesso entre o pessoal da editora e é certeza que eles vão querer adquirir os direitos. Mas isso depende de você. Se quiser, posso marcar uma reunião e eles vão conversar melhor com você, tirar suas dúvidas... Essas coisas.
Eu olho para e percebo que sua ligação já acabou.
— O que você acha? — Eu pergunto para ele.
— Eu acho que você deve devolver o livro para Gen e ir a essa reunião com ela. As pessoas precisam apreciar essa sua obra, é muito bonita. — Apoia ele.
Mordo os lábios enquanto avalio a opção. Eu não tenho nada a perder, não é? Apenas a ganhar. E se eu quero mesmo me tornar uma escritora conhecida, então eu devo começar a ter confiança em mim e em meu trabalho. Essa pode ser a única chance da minha vida e eu não vou desperdiçá-la. Hoje já aprendi a minha lição de que medo não leva a lugar nenhum senão ao fracasso e a solidão. E eu digo BASTA para essas coisas. Começou hoje uma nova fase da minha vida onde a nova está mais confiante de si, de seu trabalho, de seu relacionamento... Enfim, de tudo.
— Eu vou trazer o livro para você amanhã. — Eu confirmo com segurança.
Os dois começam a comemorar e batem seus copos em forma de brinde. Sorrio para eles e penso... O que seria de mim se esses dois não estivessem no meu caminho?
Capítulo 7 – Final Feliz
Quatro meses depois...
Frankin Avenue – Starbucks
“Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa. Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado. Não se pode deixar que perceba que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente. Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança. É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade. Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos. Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes, que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago... E então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco. Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração. Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria. Baterá descompassado muitas vezes e sabe por quê? Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós. Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava... É assim que se rouba um coração, fácil não? Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então! E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... É simples... É porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.”- Dedicado a uma pessoa especial e amada.
Eu sorrio quando termino de ler o texto de na revista em que ele era colunista. Eu sei que é para mim e isso me deixa em deslumbramento. Ele deixou a revista sobre o balcão da minha cozinha quando saiu mais cedo para trabalhar. Eu acordei e a encontrei com um bilhete vermelho dizendo: “Leia a página 30. Tem algo especial que eu fiz pensando em você!”. Eu não li naquele momento. Eu apenas guardei a revista na bolsa porque eu faria isso mais tarde – no caso, agora – quando eu estivesse na Starbucks.
Marquei de encontrá-lo aqui para irmos juntos para casa, porém ainda não tinha chegado. Eu tomo um pouco do meu frappuccino e folheio a revista, cinco páginas depois eu encontro um envelope. Curiosa, eu o pego, retirando de dentro um bilhete.
Abro-o.
Amizade? Amor? Afeto? Paixão? SIM! Tudo isso ao mesmo tempo, eu sempre quis encontrar alguém que eu pudesse confiar, contar meus segredos, pesadelos ou até minhas coisas fúteis, alguém que eu pudesse gastar horas conversando sobre os mais diversos assuntos, alguém para me amar, dividir, ensinar e respeitar, alguém que me aceite exatamente como eu sou. E eu tenho inúmeras razões para dizer o porquê eu te amo, e o porquê preciso tanto de você. Você me deu motivo pra criar um carinho enorme por coisas simples. Cada dia 20 é uma data muito ESPECIAL para nós, pois no dia 20 completamos mais um mês de namoro. E isso me faz muito feliz, saber que estarei ao teu lado completando mais uma data, mais um mês contigo.
E eu prometo para Deus e para o mundo que estarei sempre ao seu lado, te ouvindo, brigando, te dando amor, carinho, atenção, te fazendo a mulher mais feliz do mundo. Só em vê seu sorriso eu já fico feliz, está com você é a melhor coisa do mundo. Já passamos por tantas coisas juntos, já aprendemos muitas coisas um com o outro, amadurecemos muito. Agradeço a Deus por ter colocado você no meu caminho. E rezo para que ele abençoe a nossa relação, para que possamos continuar felizes e que ele afaste qualquer mal que venha para tentar nos atingir. Você é minha força, meu amor, minha Musa.
Você me faz tão feliz! Não há palavras para definir o que eu sinto por você, mas um resumo de tudo o que sinto é: eu te amo, e isso nunca (eu disse N U N C A) vai mudar! Te amo, além de todas intensidades!
Oh, meu Deus.
O que eu fiz para merecer um homem como esse?
Não, sério!
O que eu fiz?
Eu me sinto tão abençoada quando abro os olhos e a primeira coisa que vejo é deitado ao meu lado, assim como quando os fecho pela noite e ele é a minha última visão. Quantas vezes já bati cabeça tentando entender como a vida é... Como ela nos surpreende. Eu já apelei para Deus... Conversei com ele diretamente perguntando se ele estava finalmente me recompensando com depois do que eu tinha sofrido. surgiu na minha vida como um anjo... E eu não tinha pedido isso a Deus, na verdade eu andava a rogar a Ele que me livrasse do fantasma de uma paixão mal resolvida. Mas, minhas preces trouxeram algo ainda melhor do que eu pedia, pois não apenas apagaram de minha memória afetiva aquela sombra que me fazia sofrer, como também o colocaram em meu caminho, trazendo-me de volta a alegria que eu julgava irresgatável. Sua calma, sua paciência para com os meus medos - medo de ferir-me ou magoar-me novamente - me comoveram, de verdade. No início eu duvidei que fosse possível alguém se interessar por mim naquele estado horroroso, naquela insegurança, naquele baixo astral que não me permitia um só sorriso... Mas soube esperar, soube compreender aquele meu triste momento, soube se aproximar de uma forma hábil, sutil, que aos poucos me fez confiar mais e mais em si e em seus modos carinhosos. Aos poucos o velho fantasma despareceu e eu comecei a perceber que gostava dele, que havia algo em torno de si que me fazia bem demais. Comecei a sentir a sua falta, a ter momentos de saudades, a desejar lhe ver. Quando percebi, pude constatar que ele é a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
me ensinou a amar primeiramente a mim para depois amá-lo. Me ensinou tanta coisa, me motivou, me deu confiança e segurou minha mão quando eu estava com medo. Por exemplo, quando eu fui chamada na Editora para conversar com os coordenadores editoriais, eu era o medo em pessoa. Tinha receio que eles fossem achar meu livro imaturo e superficial e que iriam jogar todas as suas críticas negativas na minha cara. segurou meu rosto entre as mãos e com segurança me disse palavras de carinho que me fizeram entender que eu era boa o suficiente, caso contrário eles nem teriam marcado uma reunião comigo. Ele segurou minha mão desde que saímos de casa até a hora em que entramos na sala de conversa. Ele ouviu comigo quando eu recebi um “Sim, nós vamos publicar o seu livro porque ele é muito bom!” e um “Comece a preparar outro porque nós, com certeza, queremos ter mais livros seus.”. Nós escolhemos a capa juntos e eu escrevi um agradecimento bem amoroso para ele e Gen. Em duas semanas o livro já estaria nas livrarias e eu estaria reluzente de felicidade.
Fiquei tão feliz que não cabia em mim mesma. Meu avô não aguentou, voou para Nova York para me ver, dar os parabéns e principalmente conhecer . O encontro dos dois foi emocionante e meu avô chorou agradecendo a por ter me tirado da quase-depressão em que eu estava caindo. Os dois ficaram tão amigos que até já combinaram de pescar no mês que vem em Susquehanna River na Pensilvânia onde os pais de moravam. Ele aproveitaria e iria me apresentar oficialmente a eles. Eu estava nervosa sobre isso, porém não com medo. Falei com a mãe de – Susan – no celular e ela foi muito gentil comigo. Seu pai também.
— Por que está chorando?
Eu olho para cima e encontro a me olhar com preocupação.
Mostro a ele o bilhete e sua face amolece na hora.
— Então você achou meu presentinho? — Ele se inclina na minha direção para me beijar nos lábios e eu o agarro com força, abraçando-o como se minha vida dependesse daquele contato.
— Obrigada por cada palavrinha. Eu te amo, e saiba que é tudo recíproco. — Beijo seu pescoço e todo seu ombro. Quando se afasta é só para puxar uma cadeira e sentar ao meu lado. Limpa as lágrimas que escorreram – e com certeza borraram a maquiagem -, sua face feliz.
— Eu tenho uma boa notícia.
— O que é? — Eu o olho com expectativa.
— Fui promovido no trabalho. Vou ser um redator e receber o dobro do meu salário. — Seus olhos brilham de felicidades. — Meu amor, eu nem acreditei quando o chefe me chamou para contar. Deus! Eu sou um cara de sorte.
Sim, ele é.
— Parabéns. — Eu o beijo tanto. Há tanta alegria em nosso caminho. Não estou dizendo que não há momentos de brigas, discussões... Por que tem sim. Porém não nos predemos a coisas ruins. Na nossa vida é assim... 5% de brigas e 95% de felicidade, amor e cumplicidade. — Estou tão orgulhosa de você.
— Nós vamos comemorar. Já reservei o restaurante. Vamos no Carbone. Já aluguei o carro e tudo mais. — Hoje é uma noite especial porque estamos comemorando quatro meses juntos e a minha promoção. Também não podemos esquecer que em breve seus livros estarão por todas as livrarias que conhecemos... — Ele me beija sem avisar. — Hoje é a nossa noite, amor.
Eu não tenho palavras, e quando você não consegue falar, você apenas demonstra com gestos. Agarrei seu pescoço forte e beijei-lhe com vontade. Ele sentia que meu coração estava batendo forte, e ele sabia que felicidade e orgulho tomavam-me inteiramente.
__X__
Oito anos depois...
Manhattan
Um dia, alguém vai aparecer na sua vida e tirar tudo do lugar. Mudar os seus hábitos, algumas opiniões, a sua cor preferida, os seus gostos culinários, o seu programa de tv. Vai mudar também o primeiro pensamento ao acordar, e os sonhos de todas as noites, vai fazer você se superar a cada dia, e aprender a essência verdadeira do amor. Essa mesma pessoa vai fazer o seu pesadelo de infância mudar, e o que era o bicho papão do armário agora é o medo de vê-la partir algum dia. Essa pessoa também vai ser a razão para o que você é hoje. Vai fazer você ter vontade de apresentá-la a todos, ter vontade de mostrar suas manias, levá-la aos seus lugares prediletos, vai fazer crescer em ti algo muito belo e especial, algo que você jamais sentiu. Vai fazer também você sonhar acordada. Vai fazer você ficar suspirando de minuto em minuto, vai fazer você sentir paz apenas ao olhar para ela. Essa pessoa vai pegar seu mundo e virar do avesso, mas você não vai ligar, apenas vai achar tudo muito lindo, como tudo o que ela faz. Vai fazer você pensar em futuro, em construir uma família. Vai fazer você desejar sempre ser o seu melhor só para agradá-la, vai querer fazer você em pleno sábado assistir um filme reprisado na TV, apenas porque a companhia ao seu lado será ela. Essa pessoa vai te fazer crescer, te fazer vibrar a cada sorriso, e sempre vai estar ali para abraçar você caso haja quedas. Essa pessoa será seu porto seguro, aquela que você sempre esperou. Essa pessoa é o seu amor da vida toda.
Sabe quando você tem toda a certeza do mundo de que fez uma escolha certa, e que por mais que o tempo passe, coisas aconteçam (tanto boas, quanto ruins) você nunca vai mudar de opinião?
Bem, eu tinha essa certeza agora enquanto assistia sentado no tapete da sala brincando com Felicity enquanto tentava fazê-la comer. Era impressionante, eu nunca cansava de observá-lo com a pequena, o modo com ela sorria mostrando aquela boca banguela toda vez que o pai fazia uma careta ou um barulho estranho. Eu tinha certeza que era o homem da minha vida quando ele me abraçou forte durante a gravidez, quando não media esforços em conseguir para mim o que eu estava desejando, quando me acalmou quando a bolsa estourou e as contrações vieram fortes, quando segurou minha mão enquanto eu fazia força para empurrar o bebê, quando sorriu e me agradeceu por lhe dar o segundo maior presente de sua vida, já que o primeiro era eu, quando teve que acordar de madrugada todas as noites para verificar o bebê quando ele chorava. Eu sabia que ele era o homem certo pela paciência que ele tinha, pelo amor que ele sentia, pelo jeito que ele agia. Brigas nunca eram para sempre na nossa casa... O máximo que ficávamos sem falar com o outro eram horas... Eu não tinha orgulho na hora de pedir desculpas e ele também não. A cada dia que passava, a cada ano que virava provava cada vez mais que ele era um perfeito pai de família. Esforçado, conseguiu mais algumas promoções e acabou virando um dos donos da revista. Abriu um estúdio e contratou alguns fotógrafos para fazer o empreendimento andar. Mas nunca deixou a família em segundo plano. Nós vínhamos sempre em primeiro. Homem honrado, me deixava orgulhosa... Sempre me deixou. E não havia um dia que eu não agradecesse a Deus por tudo... Minha recompensa era tão grande que nem “um trilhão” de obrigados agradeceria pelo presente.
— Mamãe. — Eu olho para baixo vendo um garotinho com intensos olhos azuis a fitar-me.
Sorrio.
— Que foi, amor? — Pergunto.
— Tenho fome. — Diz ele.
— Você quer que a mamãe prepare um sanduiche de atum com suco de laranja? — Ele concorda. — Vá ficar com o papai e a sua irmãzinha enquanto eu faço, sim? — Ele concorda e se vai. Vejo quando ele senta ao lado de e começa a mexer com Felicity que estende os bracinhos na direção do irmão.
Shady era o filho mais velho, já tinha três anos e era muito esperto e amoroso. Era mais agarrado ao pai por ser menino, mas sempre corria para o meu lado quando estava com medo. O garoto era a cópia idêntica do pai, tão parecido que um dia eu confundi a fotos dos dois de quando eram crianças. Felicity tinha puxado meus olhos... Pelo menos isso.
Começo a fazer o lanche do pequeno. Assim que termino, caminho até a sala e me sento no sofá. Não estou em condições de me sentar no chão, por que se eu fizer, não levanto nunca mais.
— Toma, amor. — Estendo o pratinho para Shady que o pega e volta para o lado do pai. — Me dê ela, querido. Deixa que eu termino de dar sua papinha. — A garotinha solta uns barulhinhos quando me vê e aponta para mim.
— Você quer ir com a mamãe, princesinha? Quer, quer? — atiça a pequena que grita em resposta. — Ela tá esperta, não é, amor? — me entrega ela. — Já viu? O primeiro dentinho já está nascendo.
— Own. A ‘fofula’ da mamãe já está ‘vilando’ mocinha. É isso que o papai tá dizendo? É, é? — Sopro em sua barriga o que naturalmente a faz gargalhar.
— Eu vou tomar um banho. Volto em alguns minutos. — Assinto e começo a alimentar novamente Felicity com frutas amassadas. Ela gostava mais quando eu juntava mamão, banana e maçã. Um ano e a menina odiava Kiwi. Shady gostava de legumes e eu fiquei aliviada que eu não tinha que me preocupar tanto com sua alimentação. Ele comia tudo, não tinha frescura.
Quando os dois acabaram de comer, eu ninei Felicity para que ela dormisse um pouco e Shady resolveu ir para seu quarto assistir seus desenhos. Como a casa está silenciosa, eu aproveito o momento para continuar a minha trama. Eu tinha realizado meu sonho de me tornar uma escritora conhecida. Eu já tinha vinte romances publicados, e agora estava indo para o vigésimo primeiro. Este contava a história de uma moça dividida entre seu ex namorado e sua atual namorada. Ela amava o ex, mas o tinha deixado por que pensava que ele a tinha traído. Depois que alguns anos se passam e ela está agora namorando com uma garota, ela descobre que seu ex tinha sido fiel e ela caiu na mentira de seus inimigos. Agora ela não sabe como fazer para escolher entre os dois. Eu estava na parte da decisão final e precisava fazer isso direito.
— Como está o meu filho? — A pergunta vem acompanhada de mãos em meu estômago muito redondo. Eu rio quando acaricia minha barriga e o bebê lá dentro chuta em resposta. Ele cheira a sabonete e creme de barbear. Eu amo seu cheiro.
— Muito bem. Anda chutando bastante nesses dias. — Eu conto e deixa um beijo na minha testa, depois tira o notebook de cima de mim para colocá-lo em cima da mesinha. Suas mãos novamente vêm para minha barriga onde ele encosta a orelha e espera até o bebê se movimentar. Alguns segundos mais tarde ele chuta e sorrir feliz.
— Será que teremos um jogador de futebol na família? — Questiona. Eu dou de ombros.
— Se ele continuar chutando assim é bem possível.
Seus olhos encontram meu rosto.
— E você, como está? — Preocupação passa através de sua face.
— Ótima. Algumas dores na costa, pernas inchadas... Mas nada que eu não possa aguentar. — Ele assente. Suas mãos indo para o meu pé esquerdo, massageando.
— O que era aquele olhar que você estava me dando enquanto eu alimentava Felicity? Não pense que eu não percebi. — Explica.
— Eu estava pensando sobre tudo o que aconteceu com a gente, a forma como aconteceu... Estava lembrando do dia em que falou comigo pela primeira vez, das opiniões que eu tinha antes de te conhecer... Então percebi que minha vida realmente começou a melhorar depois que finalmente deixei meus medos para trás naquele dia em sua casa. Você sabe, minha vida amorosa ficou 100% com você. — Ele sorri. — Fiz vários amigos, e minha vida social que antes era muito ruim ficou ótima. As inseguranças que eu tinha sobre o meu trabalho sumiram... Nos casamos, vieram os filhos... Percebi que sou sortuda. E tentei imaginar como seria se nada disso tivesse acontecido. Provavelmente ainda estaria no Brooklin, despedaçada, sozinha e com medo. E olha só o que eu teria perdido...
Sorrindo, se muda do outro lado do sofá e vem sentar atrás de mim. Eu deito sobre seu corpo e sinto quando ele me abraça, beijando todo meu ombro, pescoço e nuca.
— Eu sempre tive vontade de ter uma família. Queria algo igual ao que os meus pais tiveram e tem até hoje. Cresci num lar cheio de amor, respeito e carinho. Desde cedo apreciava meu pai sendo romântico com a minha mãe, adorava o modo como ele cuidava dela e como falava. Eu queria ser como meu pai, e eu perguntei a ele como fazer isso para ter o que ele tinha. Eu lembro até hoje que ele sorriu e disse que não havia uma instrução para que eu seguisse e fosse como ele, que cada um tinha seu jeito de ser, mas que eu poderia ser respeitoso, que somente isso já bastava. Porém eu não estava conformado. Eu queria saber qual era a fórmula mágica para ser um homem como ele, então eu procurei minha mãe e fiz a mesma pergunta a ela. Você já ouviu aquela canção do Lynyrd Skynyrd, Simple Man? — Confirmo. — Mamãe praticamente me disse tudo que aquela música dizia. Ela disse que eu não precisava de muito para ser feliz, e que com o tempo eu saberia o que era o certo para mim. Quando descobri a banda e consequente essa canção, a tornei uma filosofia de vida para mim. Conheci algumas garotas, namorei com duas por um tempão, só que eu não sentia no meu coração que era com elas que eu formaria uma unidade familiar, então eu esperei. Quando te vi, você já sabe... Fiquei fascinado... Contava os dias para apenas “encontrá-la” na Starbucks. Quando conversamos a primeira vez eu estava tão nervoso, não queria espantá-la para longe. A primeira vez que sorriu para mim meu coração bateu forte e eu sabia que você era uma ótima candidata para ser uma esposa. Inteligente, bem-humorada, espirituosa e linda... Era um combo que eu nunca poderia deixar de levar. Quando finalmente me aceitou, conforme os meses passavam mais eu tinha certeza de que tinha feito a escolha certa, que valeu a pena ter esperado. Quando nos casamos, e você estava linda naquele vestido... O olhar em seus olhos e aquele sorriso tão grande nos lábios... Eu soube... Você era a mulher perfeita que eu estive procurando. — Eu não posso conter, eu choro. Ele nunca tinha me dito essas coisas antes. — Assim que tive a oportunidade, eu procurei meu pai e disse a ele que agora eu sabia a fórmula mágica e ele apenas riu. O que faz um marido ser bom o suficiente é a esposa que ele tem.
Eu viro um pouco meu rosto para olhá-lo.
— Estou tão feliz pela criação certa que seus pais lhe deram. Na minha casa a única coisa que meus pais ensinaram era sobre ambição pelo dinheiro. Graças a Deus aconteceu toda aquela merda para que eu fugisse de lá e saísse antes de me tornar uma cópia fodida da minha mãe.
— Então... Há males que vem para o bem, amor. Eu ouvi uma frase por aí que diz que “tudo que acontece de ruim, é para um dia melhorar”.
Ele nunca poderia estar mais certo.
Viro-me pondo minhas mãos em seu rosto.
— Obrigada por ser meu marido, por me dá três crianças maravilhosas, por me ajudar a encontrar meu caminho, e por estar aqui. Eu não sei o que eu faria sem você.
Sorrindo, abaixa a cabeça um pouco apenas para me beijar nos lábios.
— Então não foi uma coisa ruim se apaixonar por mim, não é?
FIM
Relou, relou! Espero que gostem! <3
