Milano

Escrito por Duda Posanske | Revisado por Duda

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  Alessia estaria mentindo se dissesse que não acreditava no amor.
  Ela acreditava, mas relutava para admitir. Para ela, era algo muito relativo. O amor tem várias formas e significados, e no momento, ela não estava ligando para isso, pois sua alma gêmea parecia não importar-se muito com ela.
  Não podia acreditar no que via. Assim que acordou, sentiu uma dor em seu braço e quando foi verificar o que era, viu várias marcas roxas não só em seu braço, mas em todo o seu corpo, que definitivamente doeriam por pelo menos mais uma semana. Ah, sua alma gêmea era tão cuidadosa!
  Nesse momento você deve estar se perguntando “Alma gêmea? Machucado? O que tudo isso tem em comum?”. Na verdade, tudo.
  Você nasce com uma alma gêmea e qualquer marca que ela ganhe em sua pele, você também ganhará, e vice-versa.
  Particularmente, Alessia odiava sua alma gêmea. Ele – ou ela, já que Alessia ainda não sabia quem era – parecia ser um estraga prazeres e extremamente descuidado, além de gostar de atividades não muito convencionais – que ela não fazia a menor ideia do que eram, mas ao menos uma vez por mês, ela aparecia com um novo machucado ou marca, deixando-a profundamente irritada -.
  Quando Alessia tinha dez anos, estava fazendo uma viagem no Egito com sua família, e no penúltimo dia do passeio, quando iriam fazer as atividades que mais ansiava, ela acordou com o braço esquerdo doendo, e muito. Ela estava com o braço quebrado, e não havia feito nada para ocasionar isso. Mas sua alma gêmea sim, e mesmo sem querer, acabou estragando o final de sua viagem.
  Esse foi o primeiro machucado que a afetou seriamente, e tudo o que queria era esganar quem quer que fosse o responsável por isso – fato que nos últimos anos, não havia mudado muito -.
  Alessia decidiu ignorar os novos machucados e seguiu sua rotina normalmente. Levantou, tomou café, arrumou-se e foi para a faculdade, esperando que conseguisse manter-se acordada durante as aulas.
  Entrou na sala e sentou-se na fileira da parede, encostando-se a ela. De agora em diante, restava apenas estudar.

  A aula estava entediante, mais entediante do que na maioria das vezes, mas enquanto analisava seus braços, amaldiçoando sua alma gêmea, teve uma ideia: escreveria uma carta para ela. Não seria a mais amigável, mas a ajudaria a passar o tempo, distraindo-a. Pegou uma folha de seu caderno e começou.

  “Eu não te conheço.
  Não sei quem é.
  Mas você adora se machucar – e consequentemente, me machucar também -. Parece que a atividade de ontem foi paintball, certo? Porque eu reconheço essas marcas – não que eu já as tivesse alguma vez, mas vejo em meus amigos -.
  Pergunto-me se, por acaso, você pensa em mim. Será que acha que gosto de acordar toda marcada? Caso ache isso, a resposta é não.
  Entretando, você parece aproveitar a vida. Cada ano, numa data mais ou menos específica, acordo com alguns roxos, seria uma forma de comemoração? Do seu aniversário ou de alguém próximo, talvez? De qualquer jeito, peço que tome mais cuidado, pois ao contrário do que você aparentemente pensa, é possível sim divertir-se sem se machucar.
  Acho que hoje já falei o bastante sobre você e seus machucados, então agora irei falar sobre mim.
  Ao contrário de você, prefiro ficar em casa – dormindo, de preferência – e não faço a mínima ideia do que gosto. Quer dizer, eu sei, mas no próximo segundo, já não sei. Pode ser apenas uma fase da vida, e em algum momento, saberei do que realmente gosto, mas para não deixa-lo sem nada, irei citar algumas coisas que geralmente aprecio.
  Comer e dormir estão no topo da lista, juntamente com tirar fotografias aleatórias – sinceramente, ainda não sei o motivo de estar fazendo Direito, foi algo bem... impulsivo, eu diria – e discutir sobre alguns assuntos – ah, talvez seja esse o motivo de eu gostar de Direito, mamãe sempre fala que para ser um bom advogado, ou ao menos um profissional do ramo jurídico, é preciso saber falar e convencer, não apenas expor suas ideias -. A verdade é que gosto muito de falar, mas nem sempre posso, então é bom que se formos ficar junto, você também goste ou de falar ou de escutar. Você também gosta de falar? E de ouvir? Falar é ótimo, mas ouvir é tão importante quanto.
  Terei de parar de escrever agora, pois aparentemente tenho algumas atividades para fazer e quanto mais rápido termina-las, sairei antes.
  Se cuide, estranho.

  Mais tarde, ao encontrar-se com suas amigas no refeitório, Alessia teve um susto ao encontra-las surtando com algo. Eram gritos, sorrisos e mais gritos, com ela não entendendo nada do que estava acontecendo.
  Após esperar pacientemente que elas se acalmassem, perguntou o motivo de tanta euforia.
  - Aline tem uma novidade maravilhosa... – Bianca olhou esperançosa para a amiga, que acenou animada e abrindo um sorriso que Alessia podia jurar ser maior do que tudo – Que você não irá acreditar!
  - Vocês não podem, sei lá, só contar de uma só vez? – Alessia perguntou, não querendo que enrolassem mais o mistério.
  - Eu conheci... Ou melhor, descobri. Isso, descobri quem minha alma gêmea é! – revelou, abrindo os braços e pulando para cima de Alessia, que estava atônica, mas não deixou de demonstrar sua felicidade pela amiga.
  A partir do momento em que Aline apertou-a um pouco mais forte, ela voltou a sentir uma dor pelo corpo e lembrou-se de suas marcas roxas. Se o dia estava sendo bom para Aline, já não podia se dizer o mesmo para Alessia.
  Ela afastou a amiga um pouco e passou a mão em seus braços, com uma expressão de irritação.
  - Sua alma gêmea andou se machucando de novo? – Paola manifestou-se, preocupada, mas ao mesmo tempo com um olhar divertido.
  - Exatamente. Paintball foi a atividade da vez – respondeu e voltou-se para Aline, sorrindo – Yay, fico feliz com isso! Como ele é?
  - Acho que você já o conhece... Vocês fazem algumas aulas juntos, Marco Gianelli. Ele é tão gentil, e bonito, e cavalheiro! Digno de um príncipe!
  Aline continuou falando sobre o novo conhecido – e Alessia já podia até adivinhar que ansiosa como a amiga era, Marco já conheceria seus sogros na próxima semana -.
  Enquanto ouvia a conversa, não pôde deixar de pensar em sua alma gêmea. Como ela seria? Como reagiria a ela? Será que teriam uma relação harmoniosa ou do tipo?
  O tempo diria isso e agora só restava a Alessia viver e pensar no agora.

  Dias depois, Alessia já estava sem marca alguma em sua pele. Ela estava sozinha, em seu apartamento que dividia com Paola, e olhava desinteressada para a parede de seu quarto. Por quê? Bem, aparentemente nem ela mesma sabia.
  Pegou seu celular e olhou suas redes sócias. Nada. Absolutamente nada que a interessasse. Levantou-se de sua cama e começou a andar pelo quarto, na esperança de achar algo interessante para fazer. Mexeu em uma caixa, e encontrou um caderninho simples, com quase todas suas folhas em branco.
  Lembrou-se da “carta” que escreveu para sua alma gêmea e resolveu fazer daquele caderno, uma espécie de diário – embora “diário” fosse uma palavra muito forte, era a mais adequada à situação -. Nele, escreveria quando estivesse entediada, com raiva de sua alma gêmea e situações similares, que pareciam aplicar-se à de agora.
  Alessia pegou uma caneta e foi para a sala, aconchegando-se no sofá e abrindo o pequeno caderno, pronta para escrever.
  “Voltei antes do que esperava – mas sendo sincera, eu nem voltar a fazer isso -.
  Aliás, olá!
  Hoje não estou aqui para te encher, apenas para... passar o tempo? É, acho que sim. Estou extremamente entediada – como sempre, você terá de acostumar-se com isso – e pensando sobre a vida, a minha vida. Sobre você também. E em alma gêmeas.
  Para mim, alma gêmea é um termo muito forte para ser usado. Nem toda alma gêmea é necessariamente uma, em minha opinião. Também tem outros termos, como metade da laranja, cara metade, tampa da panela, e muitas outras. Eu poderia te chamar de alguma dessas? Sim, é claro que sim. Porém, não irei.
  Talvez... Estranho? Amigo? Não tenho a mínima ideia, mas sei que se já estivéssemos juntos e tudo, não teria problema algum em ser “amor”, embora eu ache meio enjoativo. Ah, acabei de lembrar-me de um maravilhoso! Eejit.   Também falando em amor, esses dias eu estava pesquisando sobre o assunto. Você sabia que existem diversos tipos de amor? É um tópico interessante para conhecer e pesquisar, e é exatamente sobre ele que falarei agora.   Eros é o amor que tem ligação com a atração física. Às vezes, é como “sensualidade”, que de atração física, leva às relações sexuais. É um dos mais comuns, pois quem nunca se atraiu fisicamente por alguém? Talvez também seja um dos mais cruéis.   Psique representa um sentimento mais espiritual e profundo, que os casais realmente apaixonados sentem.   Ludus é o favorito de alguns. É o amor jogado como um jogo ou esporte, conquista, podendo ter até mais de um parceiro.   Mania. A palavra já diz praticamente tudo. Amor obsessivo, instável, possessivo e às vezes, ciumento.   Pragma é o amor conduzido pela cabeça, razão, e não pelo coração. O lado prático é priorizado, é esperado algo em troca e é interessado em fazer bem a si mesmo. Acredito que mesmo não muito visível, é um dos mais comuns também.   Storge. Você sabia que o nome da divindade grega é esse? É o amor que surge através da amizade, da confiança, do entrosamento. Pode demorar um tempo até ser percebido, mas é consideravelmente mais duradouro que os outros.   Agape, o amor espiritual, altruístico, o companheiro sempre é priorizado, o amor de almas gêmeas – ou seja, supostamente o nosso -.   Também há muitos outros, mas esses foram os mais significativos para mim. Qual você gostou? E qual não gostou?   Mesmo que já nascemos destinados a alguém, muitos não aceitam isso e tem outros parceiros. Toda forma de amor é válida.   A ideia de Ludus me atraiu, deixando-me curiosa. É um jogo, e confesso que já “participei” dele muitas vezes.   Meu preferido – ou um deles – é o storge. Para uma boa relação, é preciso amizade, confiança, carinho. A minha opinião é que antes de ser alma gêmea, namorado, marido e semelhantes, é preciso ser amigo, ter tranquilidade e afeto. Essa é a descrição de storge.
  Você já amou, Eejit? O que é amor, para você? Se gostar do assunto, tenho certeza que poderemos ter uma boa conversa sobre ele.
  Por hoje já deu, acho que estou pensando muito sobre isso e te incomodando com o assunto – mas sempre irei te incomodar, aí já está outro fator que você terá de acostumar-se.

  Até logo,
  A.

  Alessia realmente não acreditava o quão azarada estava naquele dia. Para começar, havia acordado atrasada e até conseguir chegar à universidade, perdeu a primeira aula e metade da segunda. Depois, percebeu que havia esquecido o celular. Ótimo, pensou, e se eu receber alguma ligação importante? Não vou poder fazer nada, porque esqueci a porcaria do celular. Em casa.
  No intervalo, foi para uma mesa na praça, esperando suas amigas, que não demoraram muito para chegar.
  - Hello, girl! – Aline cumprimentou-a, animada como sempre.
  Alessia murmurou um “bom dia” e foi respondida pelas outras, que se sentaram ao seu redor.
  - Quando vamos ter férias mesmo? – Alessia pediu.
  - Hm, daqui a umas três semanas, por quê? – Bianca respondeu, olhando-a estranhamente.
  - Mal vejo a hora de elas chegarem, mamma mia.
  - Não era você que detestava férias e até disse que deveriam aumentar a carga horária de aulas? – Aline zombou, e Alessia olhou-a com a cara fechada.
  - Preciso de uma folga. A semana já começou horrível horrível.
  - Sei de algo que pode ajudar a melhorar, Alessia – a garota murmurou curioso um “o quê?” e Bianca a respondeu – Café!
  - Você realmente me conhece, sua danada! – ela disse sorrindo levemente e levantou-se, seguindo Bianca para pegarem seu café.
  Bianca começou a falar sobre alguma coisa de seu curso e o quanto estava brava com isso, e Alessia apenas escutava, concordando com uma coisa ou outra e adicionando alguns comentários.
  Elas ficaram algum tempo esperando na fila pelo café, mas quando saíram de lá, era a vez de Alessia falar. Ela contava sobre seus planos para o final de ano e o quanto queria visitar sua família em Milão, já que não os via há uns meses. Bem... Isso até ela esbarrar em alguém. E derrubar todo o café – que por sinal, estava bem quente – em sua blusa. Ah, agora tudo está perfeito!
  Alessia gritou, irritada. Com a raiva que estava sentindo, era capaz de matar o primeiro ser que ousasse irritá-la ou perguntar se estava tudo bem. É claro que não estava.

  “22/11/2016.
  Boa noite, Eejit.
  A partir de hoje, começarei a colocar o dia que escrevo, é bom para poder me localizar e não confundir tudo. Você precisa entender que quando quero, posso ser uma pessoa muito confusa.
  Hoje o dia foi péssimo. Se na maioria das vezes é você que se machuca, hoje foi o meu dia. Esbarrei com alguém na universidade e acabei derrubando todo o café em mim, por isso estou com meu peito queimado. Ah, e você também!
  Se você estiver sofrendo tanto quanto eu com isso, pode me culpar e me xingar. Confesso que fui um pouco descuidada no momento, mas estava tão ocupada falando que me esqueci de olhar por onde andava. Desculpa mesmo.
  Após toda a cena que fiz e ter trocado de blusa, continuei na universidade – apesar de querer muito ir para casa, Paola não me deixou, pois segundo ela, era hora de parar de pensar em meu azar e começar a me preocupar com os estudos – e minhas amigas tiveram a maravilhosa – note a ironia, por favor – ideia de irem a uma festa no final de semana.
  Definitivamente não quero ir, mas elas irão me arrastar, como sempre fazem. “Alessia, você precisa sair mais, ir a mais festas!”. “Pare de frescura, sabemos que você quer ir sim”. Essas foram algumas das frases que falaram, mas por hora, vamos esquecer disso, tenho coisas mais importantes para lidar. Como uma queimadura horrível em meu peito.
  Já estava quase me desculpando novamente, mas acho que não é preciso. Muitas desculpas podem ser chatas, em minha perspectiva.

  Tenha uma boa noite e se cuide,
  A.

  Paola observava a amiga lendo um livro, sem saber como contar a ela que algumas horas depois, elas teriam uma social no apartamento. Assim que Alessia percebeu que estava sendo observada demais, olhou para a morena que estava em sua frente, curiosa, e perguntou:
  - O que aconteceu?
  - Você vai... Uh... Sair hoje à noite? – Paola questionou nervosa.
  - Não, por quê?
  Ah, ótimo. Agora Alessia estava com a típica cara de “O que diabos você está aprontando? E por que está agindo assim, nervosa?” e Paola estava sem graça, envergonhada.
  - A Aline meio que me obrigou a ceder o apartamento pra uma festinha. Hoje à noite. Vai vir o namorado dela e mais algumas pessoas, sabe...
  - Ah.
  Ah definitivamente não era a “resposta” que Paola esperava, mas significava que, aparentemente, a amiga não via problema algum em fazer a reunião no apartamento.
  Alessia voltou a ler seu livro e Aline foi para seu quarto, já pensando nas preparações da festa.

  “23/11/2016.
  Olá, terráqueo.
  Como está? Espero que bem, e que sua – nossa – queimadora não esteja atrapalhando tanto. Ela é tanto quanto desconfortável, principalmente para dormir, mas muito assustador não – pelo menos não quebrei algum osso, certo? Porque você já faz isso mais do que o normal -.
  São quase nove horas da noite e estou deitada em meu quarto, imaginando histórias anormais para passar o tempo. É um bom hobby, definitivamente recomendo.
  Daqui a pouco, algumas pessoas chegarão ao apartamento para um tipo de festinha. Não sei se irei participar dela, mas com certeza darei uma espiada para ver o que estará acontecendo.
  Creio que a “carta” de hoje será curta, mas tenho quase certeza que mais tarde voltarei para escrever mais.

  Até,
  A.

  Alessia fechou o pequeno caderno e o deixou em cima da escrivaninha, logo antes de seu quarto ser invadido por uma Bianca sorridente e pronta para ajudar sua amiga a escolher uma roupa para vestir, mesmo Alessia insistindo que ficaria apenas em seu quarto – um grande engano dela, precisou admitir -.
  Assim que Alessia ficou pronta, foi para a sala, encontrando alguns conhecidos e também desconhecidos, que ela presumiu serem os amigos do namorado de Aline. Pegou um copo de vinho e sentou-se na ponta do sofá, observando o movimento. Ah, como adoraria limpar a bagunça no dia seguinte!
  Ela passou praticamente a noite inteira sentada, vez ou outra conversando com alguém, e quando estava prestes a ir para seu quarto e dormir, alguém senta ao seu lado e ela olha, analisando o rapaz. Bonito, até. Entretanto, Alessia não tinha a menor ideia do que ele queria.
  - Você gosta de ler Lord Byron?

  “Ainda 22/11/2016.
  Fiquei na tal festa, mas não fiz nada a maior parte do tempo. A rainha do nada, eu mesma.
  Antes de vir para o meu quarto, conversei com um estranho. Nunca o tinha visto antes e não descobri nem seu nome, mas desconfio que seja amigo de Marco. Ele me perguntou se eu gostava de Lord Byron, e bem, quem sou eu para negar? Provavelmente deve ter visto meus livros de poesia e alguém disse para ele que eram meus, por isso veio falar comigo.
  Não sei o porquê de estar te contando isso. Talvez porque foi uma parte legal da noite. Mas vamos apenas ignorar isso, ok? Ok.

  Boa noite,
  A.

  Alessia apertava fortemente a bolsa contra seu corpo, preocupada em não a perder. Passava entre as pessoas e tentava não encostar-se a elas, encolhendo-se ao máximo. Quando viu suas amigas no bar, foi até elas.
  - Olha só quem resolveu dar o ar de sua graça: Alessia Sturaro! – Paola anunciou, apoiando-se na recém-chegada.
  Alessia sorriu e cumprimentou-as, animada. Talvez hoje não seja tão ruim, mas sempre é bom ficar na retaguarda um pouco, ela pensou.
  Ah, inocente Alessia. Privando-se da diversão e do entretenimento por receio de algo ruim acontecer, acabava ficando desanimada e até um pouco rabugenta – isto é, quando Aline não decidia que seria uma ótima ideia embebedá-la -.
  O tempo passou e quando percebeu, estava só. E segurando um copo com uma bebida com aparência duvidosa, mas que para sua surpresa era muito boa.
  - Se divertindo? – o cara da noite no apartamento perguntou, aparecendo de surpresa em sua frente.
  - Err... Sim? Talvez?
  Tsc tsc... Boa, Alessia!
  - Não é o que parece – ele notou, e a garota perguntava-se o que fizera para merecer isso.
  - Aline saiu com Marco. Bianca também está com o namorado. Paola deve estar conversando com algum outro amigo ou ficando com alguém. E Alessia, no caso eu, estou aqui, parada. Observando a arquitetura da boate e disfrutando de uma bebida que nem sei o nome, mas é a melhor que provei hoje. – ela constatou, parecendo meio distante – Aliás, você já reparou nessas colunas? Tenho certeza que sei o nome delas, me lembro de vê-las nas aulas de Arte... Mas isso foi muito tempo atrás, né? Eu já tô muito velha...
  O desconhecido olhou-a, rindo. Ela definitivamente não estava bem, e por algum motivo, ele estava preocupado com ela.
  - Ei, você não acha que já bebeu demais? – questionou, tirando a bebida dela após isso.
  - Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Mais que o normal. – ela respondeu alegre, e confirmando a hipótese dele – Qual é o seu nome mesmo?
  - Theo. Que tal descansar um pouco, huh? E ir para casa?
  - Nah... Tá muito legal – aham, Alessia, muito legal.
  - Vou mandar uma mensagem pra Paola avisando que vou te levar pra casa, ‘tá? – Theo avisou assim que viu que ela já estava alterada.
  Alessia murmurou alguma coisa e tentou puxá-lo pelo braço, mas falhou e quase caiu. Ah, a noite realmente estava sendo maravilhosa.

  Ressaca. Alessia odiava ficar de ressaca, sua cabeça parecia estar prestes a explodir, e ela definitivamente não lidava muito bem com a dor. Mas naquela manhã, sua maior surpresa foi um (des)conhecido estar dormindo ao seu lado, em sua própria cama.
  Seu instinto dizia que ela devia gritar e sair correndo, mas a garota resolveu primeiro olhar quem era. Ela tinha certeza que o conhecia. Sua memória não era a das melhores para gravar rostos, mas se não estivesse enganada, tinha conversado com ele no seu apartamento. E na festa de ontem.
  Como era mesmo o nome dele? Matthew? Matheus? Matteo? Definitivamente parecia com Matteo. Talvez Theo? Observou-o novamente. Theo era mesmo o seu nome.
  Olhou-o mais atentamente e percebeu que ele estava sem camisa. Droga. Ela não tinha feito nada, certo? Apesar do susto, suspirou aliviada quando percebeu que estava vestida – com a roupa da festa, aliás, que fazia questão de cobrir toda a sua queimadura -.
  Uma coisa chamou a atenção de Alessia. O peitoral de Theo parecia estar meio vermelho – Será que ele tem alguma alergia?, ela pensou -, mas ao chegar mais perto – e amaldiçoar-se por ser tão curiosa e estar fazendo isso, e se ele acordasse e pensasse que ela era uma pervertida? O pensamento disso já a assombrava o bastante -, viu que era uma queimadura.
  Uma queimadura no peitoral.
  Alessia tinha uma quase idêntica.
  E inconscientemente, tocou na dele. Theo remexeu-se, e revelou estar acordado. Maldito Theo.
  - O que você está fazendo? – ele questionou, estranhando-a.
  - Ei, parece que você é minha alma gêmea.

  Um ano depois...

  - Alessia Sturaro, será que você poderia, por favor, parar de ficar trazendo esses agasalhos horrorosos para casa?
  - Suas tias que mandaram, Eejit. Tia Rome enviou uma carta também, ela é uma gracinha. – Alessia respondeu, ainda mexendo nos armários da cozinha.
  - Ela gosta mais de você do que de mim – Theo disse em tom de reclamação, com sua típica cara de “isso é injusto!” – Ainda vamos passar o Natal em Milão, né?
  - Ja. A ceia será na casa da vovó. E minhas tias também gostam muito de você, sabia? Não precisa ficar com ciúmes.
  - Eu não estava com ciúmes!
  - Eejit.

FIM!

  


  Eejit: Idiota.



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