Meu Medo, Meu Monstro

Escrito por Ree Magnoni | Revisado por Flavinha

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  Algumas pessoas acham que a vida de todo mundo é perfeita, que todos os sonhos que você imaginar vão se realizar em um piscar de olhos. Mas a vida não é assim, os sonhos só vão se realizar se você correr atrás deles e na vida também existe seus altos e baixos, suas derrotas e vitórias.
  Todos pensavam que a vida de sempre fora perfeita, mas ninguém via como a doce menina de longos cabelos negros como a noite, e olhos castanhos chocolate se transformava quando chegava em casa, que por todo lugar que ela olhasse enquanto subia as escadas em direção ao seu quarto, rostos e vozes desconhecidas a acompanhavam. Muitos rostos e vozes talvez não fossem tão desconhecidos assim, ela já estava acostumada com alguns deles, já estava familiarizada. Eram monstros que a perseguiam por onde ela fosse, apontando-lhe seus piores defeitos e lhe dizendo coisas más.
  Todo mundo tem um lado mal, ou um pouco dele em si mesmo, e esse era o de .

  Enquanto se vestia após tomar um banho relaxante, gritos chamando-a vieram do primeiro andar, fazendo a garota abrir a porta rapidamente enquanto colocava as calças e pegava o primeiro tênis que vira dentro do quarto. Talvez fossem seus pais, que haviam chegado do trabalho. Os gritos continuaram, até o momento em que chegou ao topo da escada e no último degrau da mesma, ela pode ver uma garotinha de cabelos castanhos negros e olhos castanhos chocolate muitíssimo parecida com ela, vestindo uma capa de chuva amarela e botas de borracha.
  - Como conseguiu entrar aqui? - descia as escadas ainda com o calçado em mãos, e sentou no penúltimo degrau, colocando o mesmo. E como não obteve resposta da garotinha, continuou: - Você parece perdida... Onde estão seus pais? Você sabe o número do telefone de sua casa? - Ela levantou rapidamente e em seguida sentiu uma rajada de vento forte atingir-lhe os cabelos quando a garotinha saiu correndo de sua casa.
  Os gritos começaram novamente, fazendo sentir inúmeros calafrios pelo corpo e perceber que os gritos vinham de fora de sua casa a fazendo sair correndo da mesma, atrás da pequena garotinha com a capa de chuva amarela. Lá fora o céu já estava mudando do azul para o alaranjado, assim formando um lindo crepúsculo e anunciando que em pouco tempo a lua e as estrelas tomariam lugar, junto com a escuridão. A inocência de estava a levando para o caminho da morte, enquanto ela ainda corria pelas ruas agora, já cobertas pela noite e mal sabia ela que estava indo atrás da figura dela mesma, com aproximadamente 10 anos de idade.
  - Ah meu Deus, eu não acredito que esta garota veio parar aqui! - sussurrou, enquanto abria o portão da grande casa que se encontrava em sua frente.

  A casa que iria entrar estava abandonada há algum tempo, várias madeiras estavam lascadas, várias janelas quebradas e talvez já não fosse possível subir a escada que dava acesso ao segundo andar. Além do fato, que sempre falavam que naquela casa existiam vários fantasmas e que era muito perigoso entrar nela, pois haviam várias histórias e boatos que muitos meninos já entravam lá para explorar a mesma, e seus corpos acabaram sendo encontrados lá dentro, ou em meio a grande mata que rodeava a casa, e por último várias pessoas falavam que eles pulavam do grande precipício que havia não muito longe da casa. Mas não se importava, não agora, que ela achava que a garotinha era real e estava perdida.
  - Vamos lá garotinha, apareça! - sussurrou novamente enquanto as tabuas rangiam embaixo de seus pés.

  Então ela passou a ouvir um choro alto, vindo de uma das salas e começou a andar mais rápido a procura dele, abrindo todas as portas que encontrava em sua frente, em busca da garota. Então ela chegou a um grande corredor onde existiam várias portas e continuou a abri-las até que o choro alto finalmente parou, assim que abriu a última porta do corredor. A única coisa que iluminava o cômodo vinha da Lua no céu que refletia na grande janela de vidro, e enfrente desta estava uma grande cadeira preta, que rangia. respirava alto, e pulou quando a porta atrás de si fechou sozinha, ela estava encrencada. A cadeira foi virando lentamente, e fechou os olhos, e só tornou a abri-los quando uma risada estridente lhe atingiu os ouvidos.
  - Você achou que esse dia nunca chegaria, não é? Você deve estar se perguntando quem eu sou, porque vim. - continuava de olhos fechados, com medo. - Alguns me chamam de morte, outros de medo e para você eu posso ser a junção dos monstros que você mesma criou, e sempre via nas paredes de sua casa. Mas agora, eu estou aqui, encarando o seu rosto angelical. - O monstro em forma de mulher, grandes olhos em chamas e grandes unhas vermelhas estava em frente à agora, tocando o seu rosto. - Você não vai abrir os olhos, pequena, e ver o quão linda eu sou? - O monstro continuou irônico, com a sua voz rouca e baixa.
  - Você deve muito bem saber, as coisas boas que eu sempre fiz e quantas vezes eu tentei expulsar todos aqueles rostos e vozes da minha vida. - engoliu em vão, abrindo os olhos e tentando conter as lágrimas que estavam prestes a rolar pelo seu rosto pálido. - O que você vai fazer? - não esperou a resposta, e virou em uma tentativa inútil de sair o mais rápido possível daquele cômodo, daquela casa abandonada.
  Mas garras afiadas agarram seu braço e a puxaram para trás, a arrastando pelo chão e quando a menina percebeu, havia quebrado a grande janela de vidro que existia no cômodo e ela já sentia a grama tocar-lhe a pele. Agora ela chorava alto e gritava por ajuda, enquanto tentava tirar os inúmeros cacos de vidros de sua perna e de seu braço. Ela não conseguia olhar para cima, mas ela conseguia ouvir as gargalhadas maléficas que o monstro dava, enquanto ela fora arrastada até chegar à beira do precipício que se encontrava atrás da casa abandonada.
  - Você fez muitas coisas boas sim, . - O monstro estava agachado em sua frente, mas não conseguia fixar o olhar dentro daqueles olhos em chama. - Mas essas coisas não foram o suficiente para fazer você viver, queridinha. - Sua cabeça virou para o lado, e de seus lábios vieram um lindo sorriso. - Mas você deveria saber que o medo só continua se você o alimenta, não é? Pois então minha querida, com os monstros que você criou aconteceu à mesma coisa. E agora é a hora que você deve morrer, pois o mal sempre vai vencer enquanto eu estiver incomodando as pessoas. - O monstro sorriu novamente, se levantando.
   continuou a gritar mesmo algo dentro dela dizendo que ninguém a ouviria, ela tentou se livrar daquele monstro que ela mesma havia criado, tentando se rastejar e sair de perto do precipício sem nenhum sucesso, pois seu corpo frágil e pequeno não tinha mais forças para continuar. E quando sua garganta ficou dolorida, pelos gritos, lágrimas salgadas ainda rolavam pelo seu rosto assim que o monstro em sua frente abriu a boca apresentando seus grandes e pontudos dentes avançando nela, e depois de muito bem satisfeito, a jogando do precipício.
  Ninguém tem uma vida perfeita, mas as pessoas podem fazer algo para mudá-la, muitas coisas podem se tornar melhor. E não alimentar os monstros que existem dentro de si mesmo. Ninguém sabe o dia de amanhã. Assim como que nunca mais terá um novo amanhã para se viver.



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