PRÓLOGO
Terra de Nocturnia
Pelo vale chamuscado de Nocturnia encontravam-se inúmeras criaturas sem propósitos, nomeadas e conhecidas como as piores porque não tinham propósito de vida, afinal, não sabiam o que era ter um. Seres vivos que não tinham anseios por algo podiam ser considerados seres mortos, ocos por dentro, seres que não sabiam o que era ser vivo por um bom tempo.
Nas entranhas dessa terra, residiam tais seres, não que eles ousassem nomear aquele vale de morada, pois era mergulhado na penumbra e no mistério a cada recanto. Ali repousava um pântano, ou o que dele restava, pois uma criatura monstruosa habitava suas profundezas. Aqueles que ousavam adentrar, jamais retornavam, pois o monstro era senhor absoluto daquele território, reivindicando-o com fúria selvagem.
Ele não era o único territorial naquele lugar cheio de corpos vazios, criaturas da noite e amantes das sombras. Todo tipo de espécie, todo tipo de ser mágico e não mágico que já um dia fora um ser com amor, vida, expectativas e sonhos existiam naquele lugar depois de terem perdido tudo. No entanto, havia um ser por trás de tudo, um ser mais vazio e mais malévolo que todos ali. Tão antigo quanto qualquer um de lá, vivo há tanto tempo que não se lembrava nem como era sentir algo.
Condenado a uma existência enredada na servidão impiedosa e destituída de emoções, esse ser sombrio lançava maldições sobre outros, condenando-os a partilhar seu próprio destino. Manipulava tramas sórdidas em troca do objeto de seu mais ardente desejo: o Poder.
O único sentimento genuíno e vivo dentro dessa escuridão era sua sede por poder, apenas isso o conduzia a fazer qualquer coisa por qualquer pessoa, ser ou criatura. Mas fazer um trato com ele era algo sem volta, um caminho cheio de espinhos, estreito, com somente escuridão e sem saída. Não tinha nada de bom em ter qualquer tipo de acordo com a Feiticeira da Terra Nocturnia, pois ela era o próprio vale, ela era o pântano, as árvores mortas, os galhos medonhos, a neblina tóxica e o terror que se respirava ao se aproximar daquele lugar.
A feiticeira suprema, a soberana das sombras, a tecelã das páginas da morte e dos relatos das trevas. A figura mais temida do vale e, possivelmente, de todo o mundo, pois encontrar-se em sua presença podia ser tanto um pesadelo quanto o mais sombrio dos sonhos, pois ela era a artífice dos sonhos, onde cada doce vislumbre podia se transformar em um terrível pesadelo, e nisso a rainha do vale das sombras reinava soberana.
Seus cabelos loiros, luminosos como a plenitude da lua, adornados por mechas prateadas que fluíam suavemente até sua cintura esguia, outrora mais cheia, mas agora como uma musa da morte do vale, seu corpo ecoava o próprio fim. Esquelética, porém não de maneira repulsiva, como um poema de Edgar Allan Poe, bela como a própria escuridão. Olhos cinzentos-azulados, pele mais alva que a neve, olhos profundos e envoltos em sombras mais densas que as profundezas do pântano.
A musa do próprio Tim Burton com alguns buracos pelo corpo, ainda assim com seu andar elegante. Tudo em Quenna era atrativo, fazia com que todos quisessem se aproximar mais, vê-la de perto, apreciá-la como um quadro raro, bizarro e convidativo. Quenna era a personificação daquele lado sombrio que cada um tinha dentro de si mesmo. Então todos eram atraídos por ela, nem que fosse por sonhos, por desejos profundos e enterrados como cadáveres em decomposição.
Até mesmo o mais poderoso dos homens já desejou ardentemente ter um encontro com Quenna. Um rei, um príncipe, um jovem cavaleiro, até mesmo a rainha, uma dama de companhia, uma simples mãe de uma aldeia qualquer de um vilarejo entediante do reinado de algum rei usurpador. Todos chamavam Quenna pela noite para que ela realizasse aquele desejo insano e profano que deveriam manter a sete palmos, ainda assim, não conseguiam.
Um rei, um príncipe, uma rainha e um… Pirata.
O capitão %Corvane% tinha conquistado todos os sete mares com seu navio de patifes ladrões que ninguém ousava desafiar dentro do mar, talvez até mesmo fora dele, afinal o capitão não era de atracar tão facilmente, mas quando fazia, deixava boas histórias para crianças não dormirem.
O lendário navio temido, a Sombra do Horizonte, era uma figura conhecida em todos os cantos dos reinos, desde os maiores impérios até os mais humildes vilarejos. Para alguns, era apenas uma fantasia, uma narrativa tecida nas páginas de contos infantis. No entanto, nas terras onde reinava a deusa da morte, essas histórias eram reconhecidas com uma intimidade especial, pois ela própria era uma ávida admiradora das épicas e desafiadoras aventuras do capitão e sua tripulação leal.
Todavia, foi de uma grande surpresa para Quenna quando o próprio capitão pisou em sua terra, sozinho, sem sua tripulação. %Corvane% o próprio, sem ser capitão porque um capitão precisava do seu navio e ele estava sem o dele. Isso intrigou tanto a feiticeira que ela ordenou que nenhuma criatura sombria chegasse perto dele a não ser ela mesma. Pois a rainha da escuridão queria sentir o cheiro do glorioso aventureiro que não temia nada, nenhum tipo de estranheza que ele já tenha cruzado nesses mares desconhecidos.
O encontro de ambos causou um novo tipo de caos no universo, fazendo as estrelas se desalinhar, mundos em colapso, destinos embaralhados. Tudo mudou o curso do que já estava predestinado, agora nada era certo, tudo se tornou misterioso de uma forma que fez a rainha dos condenados a não sentir, começar a sentir. Quenna sentiu curiosidade com o que estava por vir.
Ela estava certa, pois ninguém está preparado para o que está por vir.
Um capitão amaldiçoado a viver como capitão de um navio, mas sem conseguir sentir absolutamente nada. Uma criatura da Terra Nocturna no mar, em busca do poder, mesmo quando o obteve, não sentiu nada porque já tinha sido amaldiçoado por almejar demais. Condenado a uma vida lotada de riquezas e poder, mas sem a chance de sentir prazer, felicidade ou qualquer outro tipo de sentimento que já tenha sentido antes.
— Você descobrirá que nenhum ouro no mundo irá te satisfazer — sussurrou a bruxa no ouvido do capitão, mesmo sem estar perto dele.
Os olhos castanhos-dourados a encararam no meio das árvores, rodeada por sombras, o vestido preto longo arrastando nos galhos secos.
— Sua alma pelo seu navio. — Riu maldosamente.
Apesar de sentir arrepios na espinha, a postura do capitão era a mesma, mostrando que nada daquilo realmente o assustava. Nada mais o assustava, essa era a pura verdade.
— Por quanto tempo? — questionou com a voz rouca, baixa e deliciosamente aveludada como uma brisa gelada do inverno.
— Que você possa me trazer alguém repleto de sentimentos, capaz de despertar em mim algo além do gelo que me habita — sussurrou, deslizando a língua inerte sobre seus lábios tingidos de um rubro vibrante.
— Existe uma pessoa assim? — indagou o capitão, soltando um tipo de riso debochado.
— Não ria ainda, capitão — ordenou a bruxa chegando mais perto dele. — Na verdade, existe sim. — Abriu o sorriso que, apesar de convidativo, era como cheirar um mausoléu.
— Diga-me onde que eu trago para você — respondeu sem paciência.
A feiticeira o encarou dos pés à cabeça, lambendo seus lábios mais uma vez como se estivesse saboreando algum tipo de doce especial e delicioso.
— Você tem uma festa para ir.
Naquele instante, o comandante se via munido somente de uma bússola como guia, uma trilha que o conduziria a águas turbulentas, metaforicamente falando, pois o evento se desenrolava em terra firme. Entre todas as suas estimulantes incursões, aquela se perfilava como a mais intrépida de todas, até mesmo superando a jornada à Terra Nocturna para encontrar-se com a feiticeira da verdadeira obscuridade.
Uma feiticeira em busca de sensações. Um capitão ansiando por experiências, e um príncipe inundado por um excesso de emoções.
Caos, mistério e magia delineando um novo curso, capaz de instigar todo tipo de ser, seja ele dotado de vida ou não.
Nota das autoras:
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— Sereia & bru_ZH
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