Esta história pertence ao Projeto Adote Uma Ideia
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Ideia #021

Doada por Millena Borges

// A Ideia

Você faz parte de um grupo de (…você escolhe…) e foram visitar um hospital com crianças e adolescentes (de 0 a 21 anos) com câncer, é lá onde você conhece ele. Ele é meio triste pela doença, sabe do preconceito que rola e tudo mais, mas se alegra assim que te ver e começa a conversar contigo. Você ‘perde’ praticamente todo o seu tempo com ele, e foi bom.


// Sugestões

Você pode se basear em filmes como Uma prova de amor ou Um Amor pra recordar, vai da sua escolha mesmo…

// Notas

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Love Is Kind

Escrito por Sam P | Revisado por Natashia Kitamura

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Parte do Projeto Adote Uma Ideia // Ideia Nº: #021

  - Lembrem-se: vocês vão ao hospital para passar o dia com os pacientes, mas não devem, em momento algum...
  - Perguntar sobre a doença, mencionar a doença, fazer anotações ou sequer pensar sobre a doença. Devemos fazer com que eles esqueçam, por algumas horas, que tem câncer. – Joanna rolou os olhos repetindo, talvez pela milésima vez, o que nosso orientador dizia. – Sabemos, Sr. Rush.
  - Srta. Joanna, espero que não esteja debochando da situação, o que estou passando para vocês é sério, aquelas crianças e jovens podem não ter muito tempo de vida, e espero que vocês se comovam, mesmo que seja um pouco.
  - Estamos no grupo porque queremos ajudar, Sr. Rush.
  - Então se comporte como tal. Os pacientes são jovens como vocês, então se coloquem no lugar deles. Agora, entrem no ônibus.
  O GAAN (Grupo de Apoio aos Necessitados) – o nome não foi minha ideia, aliás, sempre o achei um tanto quanto ofensivo - era um grupo da minha escola que fazia visitas à instituições carentes ou com pessoas doentes. Hoje a visita seria ao Midwestern Regional Medical Center, aqui mesmo em Chicago.
  - Eu não preciso repetir mais uma vez, certo? Vocês sabem o que tem que fazer, conversem com eles, andem, os façam rir. As seis da tarde quero todos na porta do hospital, entendido? – Sr. Rush abriu caminho para o Centro de Tratamento, onde os pacientes estavam nos esperando. O hospital cuidava de crianças e jovens de 0 a 21 anos, oferecia os exames, os tratamentos e a internação, caso necessário.
  Todos os integrantes do grupo caminharam calmamente pelo lugar, e logo se espalharam, se apresentando para as crianças e cumprimentando os adolescentes. Resolvi esperar para falar com alguém e continuei andando por lá, até que vejo um menino, aparentemente de minha idade, encostado na parede observando meus colegas de grupo interagindo com os pacientes. Caminhei um pouco mais e encostei- me à parede a poucos centímetros dele.
  - Hã... Olá. – Resolvi cumprimentá-lo, já que ele não teve nenhuma reação.
  - Oi. – Sua voz era incrivelmente rouca. – Você tem um cabelo legal. E bem longo. - Comentou olhando meu cabelo que, mesmo preso, batia na minha cintura. – É natural? – Não consegui controlar a risada e assenti, vendo suas sobrancelhas arquearem. – Mesmo? Uau, não se vê mais ruivas assim hoje em dia.
  - Por que você não está lá como os outros? – Percebi seus ombros encolherem com a pergunta.
  - Porque a) não concordo com essas visitas, não me leve a mal e b) não era nem para eu estar aqui hoje.
  - Ah é? E por que não? – Cruzei os braços, curiosa com sua resposta.
  - Por que eu não concordo ou por que não era para eu estar aqui?
  - Os dois.
  - Porque acho que ninguém tem a alma boa o suficiente para fazer isso de livre e espontânea vontade, sempre querem alguma coisa, uma mansão no céu ou uma cadeira ao lado de Jesus. – Foi impossível não rir da sua teoria.
  - E por que não deveria estar aqui?
  - Não acho que seja agradável passar o aniversário de dezenove anos no hospital, mas meu corpo achou que eu deveria sair de casa para comemorar e me mandou para cá no meio da madrugada e recebi a notícia de que vou ter que ficar internado pelo próximo mês. – encolheu os ombros mais uma vez como se dissesse “fazer o que” e continuou olhando as crianças brincando. E me enganei, ele era dois anos mais velho que eu.
  - É seu aniversário? Nossa, parabéns!
  - Obrigado. – Sorriu fraco e me encarou por alguns segundos. – Seus olhos também são legais.
  - Obrigada. Ah, você deveria saber que eu não faço isso porque quero uma mansão no céu. Faço porque eu gosto de ajudar mesmo.
  - Acho que encontrei uma exceção à minha regra então, quem diria, hã? – Riu fraco e tossiu um pouco. – E, além disso tudo, sei que algumas pessoas não gostam de se relacionar ou fazer amizade com um cara de dezenove anos que provavelmente vai perder a vida para o câncer.
  - Você não anda se relacionando com pessoas muito decentes, então. – Toquei seu braço de leve e vi um projeto de sorriso aparecer por ali.
  - Eu ainda não sei seu nome.
  - . .
  - Encantado, . a seu dispor. – pegou minha mão e deu um beijo, me fazendo rir.
  - da ’s Ark? – Brinquei e ouvi sua risada.
  - Pior que sim, acho que meus pais esperavam que eu salvasse a humanidade de um dilúvio.
  - Eles são religiosos?
  - Muito, do tipo que chega à igreja uma hora mais cedo no domingo só para pegar um lugar no primeiro banco. Já eu não acredito em nada disso.
  - Não acredita em Deus?
  - Não. Acho difícil que exista um ser nesse universo que criou tudo isso.
  - Mas não acredita em nada? Tipo, vida após a morte?
  - Sim, acho que exista alguma coisa depois disso. – Abriu os braços e olhou em volta. - E uma força bem poderosa, mas um ser que comanda o mundo? Não. Isso pra mim é viagem. Na minha opinião, quem escreveu a bíblia foi um grupo de homens que planejava comandar o Mundo, dominar e padronizar tudo.
  - É, mas não deu muito certo.
  - Ah, não? E me diga então, ó grande sábia, quais são os grupos mais fervorosos e qual o tópico que gera mais discussão do mundo?
  - Não são somente os católicos. – Cruzei os braços e arqueei as sobrancelhas, o desafiando.
  - Ok, me expressei mal. Vamos voltar um pouquinho. Na minha opinião, quem escreveu os livros sagrados, como a ´bííblia católica, o Alcorão muçulmano, o Torá judaico, etc. e tal, foram homens que planejavam dominar o Mundo através da religião, e conseguiram.
  - Agora sim eu vejo fundamento na sua teoria, obrigada. – Falei rindo e vendo ele rolar os olhos teatralmente, rindo em seguida. – E aí, vamos ficar aqui o dia inteiro, de pé, falando de religião?
  - Você quer fazer alguma coisa? Não é como se tivéssemos grandes opções aqui.
  - Nada, nenhum lugar, um jardim, nada, nada, nada? – Insisti um pouco e percebi que ele pensou em algo.
  - Bom, tem um lugar, mas a gente tem que tomar cuidado.
  - Por quê? É tipo, um lugar ultra super secreto e perigoso? – Soltou uma gargalhada e tossiu logo em seguida.
  - Não, é que, teoricamente, ninguém pode ir lá. Mas vamos, vem comigo. – Andamos por corredores que para mim eram todos iguais e chegamos a uma porta com uma placa escrito “Entrada proibida”. olhou para todos os lados antes de abrir a porta e me puxar com pressa para dentro, subindo as escadas em seguida.
  Chegamos a o que parecia ser o teto do hospital e sentamos perto de uma das margens.
  - E ai, você não vai me perguntar sobre a minha vida, meu diagnóstico, meus fetiches sexuais ou qualquer coisa do tipo? – Imediatamente a voz do Sr. Rush invadiu meus pensamentos: “Vocês não podem perguntar sobre a doença, estão lá para fazê-los esquecer”.
  - Não quero saber sobre sua doença, . – Eu queria saber, queria muito, mas não seria indelicada. – E muito menos sobre seus fetiches.
  - Não quer? – Franziu a testa em minha direção. – Tem certeza? – Hesitei por alguns segundos antes de bufar.
  - Eu quero, mas não quero ser indelicada e sair perguntando. – Fiquei brincando com a barra da camiseta, envergonhada.
  - Ei, não tem problema nenhum, eu não me importo de falar. – Empurrou meu ombro de leve e eu levantei a cabeça para prestar atenção. – Bom, eu gosto de uma coisa mais masoquista, quem sabe algemas e chicotes e...
  - Não sobre seus fetiches! – Ouvi sua gargalhada e o empurrei. – Seu diagnóstico.
  - Bom, vamos lá, eu tinha onze anos quando fui diagnosticado. Eu sentia várias dores de garganta, minha voz ficou bem rouca e eu tinha dificuldade para engolir. Meus pais resolveram me levar ao médico e após uma série inacabável de exames foi o exame histopatológico que deu a resposta. Exame histopatológico é um exame que...
  - É um exame que analisa um fragmento de tecido de um órgão, como a biópsia, eu sei. – Dei de ombros e o vi arregalar os olhos. – Minha matéria favorita é biologia.
  - Temos uma nerd aqui então. – Riu um pouco e eu fiz um sinal para que continuasse a história. – Ah, sim. Fizeram o exame e chegaram ao câncer de laringe. Comecei o tratamento de radioterapia logo depois, o que melhorou em alguns por cento a chance de cura total, mas, infelizmente, o câncer resolveu se espalhar para outros lugares do meu corpo há quase um ano, então considere um milagre eu estar aqui agora.
  - Como você ainda... Bem...
  - Como eu ainda não morri? – Me encarou e eu assenti. – Como eu já disse, considere um milagre, mas eu tenho que tomar nove remédios por dia, quatro deles três vezes ao dia, e os outros cinco duas vezes, além das sessões de quimioterapia.
  - Entendi, os médicos te dão alguma estimativa?
  - Não, eles não fazem ideia, dizem que já era para eu ter passado dessa para a melhor faz tempo, em todo caso, eu continuo aqui. – Suspirou e tossiu mais forte dessa vez, coloquei a mão nas suas costas e fiquei aflita e sem saber o que fazer. Segundos depois ele parou. – Estou bem, não se preocupe, acontece sempre.
  - Você quase me matou de susto.
  - Imagina se os dois morrem aqui e ninguém fica sabendo, que absurdo? – Falou rindo e eu revirei os olhos.
  - Idiota. – Ele continuou rindo e eu ri um pouco depois. Ficamos em silêncio alguns minutos observando a vista que tinha do hospital. De um lado você via a cidade, e do outro você via um parque. – Esse lugar é lindo, mas por que você vem aqui sabendo que não pode?
  - Eu, provavelmente, tenho pouco tempo de vida, então eu decidi há um tempo atrás não me negar os prazeres mais simples da existência.
  - Você está citando John Green? – Perguntei surpresa.
  - Você não gosta?
  - Gosto, mas não sabia que você gostava.
  - E nem poderia, eu não tinha falado antes. – Sorriu e passamos o resto da tarde assim, conversando sobre nossos gostos, fazendo piadas e discutindo sobre música, até que eu convenci ele a tirar uma foto para eu colocar no meu mural, que tem fotos de todos os lugares que eu já visitei.
  - Você não me disse se acredita em Deus. – Franzi minha testa em sua direção, estranhando sua pergunta. – Só estou tentando retomar o assunto. – Levantou os braços como se pedisse desculpa.
  - Não, não acredito. Basicamente acredito nas mesmas coisas que você. – Dei de ombros e voltei meu olhar para frente.
  - Sabe, tem um trecho da Bíblia que eu gosto muito.
  - Você? Gostando de algo que um grupo dominador escreveu? Cuidado, , logo menos você já começa a construir sua arca. – Falei sem segurar o riso.
  - Engraçadinha – me empurrou e eu ri mais ainda. – É sério, é bem bonito.
  - É de que parte da bíblia?
  - 1 Coríntios 13:4- 7. Quer que eu fale para você?
  - Você sabe de cor?
  - Claro. – Falou suavemente e eu fiz sinal para que continuasse. - “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
  - É lindo, mesmo.
  - É, é a única parte que eu gosto. – Sorriu e virou o olhar para frente, assim como eu. Logo já era fim de tarde e eu tinha que voltar para encontrar o pessoal do grupo.
  - Eu tenho que ir, mas olha, eu venho te visitar mais enquanto estiver internado, o que acha?
  - Vai ser um prazer ter você aqui mais vezes, . – Soltei uma risada fraca e o abracei. – Obrigado por hoje, ruivinha.
  - Eu que agradeço. – Soltei do abraço, dei um beijo em sua bochecha e fui encontrar meu professor e meus colegas.

  xXx

  Visitei praticamente todas as tardes enquanto ele estava internado. Alguma coisa dentro de mim dizia que eu deveria, e que faria bem tanto para ele quanto para mim. Na primeira semana ele estava tão bem quanto no dia que nos conhecemos, mas com o passar dos dias ele estava cada vez mais fraco, cada vez mais dependente de aparelhos e enfermeiras e médicos o cercavam o dia todo. Logo tiveram que estender seu tempo no hospital, e eu continuei indo visitá-lo. Nossa amizade cresceu em proporções inimagináveis, e logo eu não saía mais do hospital.
  Faltando pouco tempo para completar três meses de internação, não teve mais forças para aguentar e faleceu na madrugada. Seus pais me ligaram e eu não consegui nem trocar de roupa, peguei o carro de meus pais e voei em direção ao hospital. Quando cheguei lá e abracei sua mãe me permiti chorar, percebendo que eu tinha perdido a pessoa que, em apenas dois meses, tinha virado meu melhor amigo e a pessoa que eu mais me importava.
  Nos primeiros meses foi difícil me acostumar. Logo eu, que nunca tinha me apegado tanto a alguém e nunca tinha feito tanto por alguém, não consegui superar a morte dele.
  Pouco tempo depois as inscrições para faculdade começaram e eu não tive dúvida, minha faculdade seria de Medicina com especialização em Oncologia, para ajudar as pessoas que, assim como meu amigo, vivem intensamente e não se deixam abater.
  Hoje, quase sete anos depois da morte de , não me lamento mais de o ter perdido, mas foco nos momentos e nas sensações boas que ele me forneceu e me permitiu ter.
  Não cabe a mim afirmar que estava apaixonada, não, mas após aquele tempo que convivemos juntos posso afirmar que o amei e o amo como um irmão, como meu melhor amigo e como meu confidente.
  Nunca acreditei nessa ladainha de amor verdadeiro, de amor da vida ou mesmo de alma gêmea, mas mudou isso em mim. Nosso relacionamento nunca foi amoroso, nunca fomos namorados, nunca nem pensamos nisso. Éramos sim amantes, éramos e somos almas gêmeas que se juntaram tarde demais e eu afirmo, com certeza, que ele sempre vai ser a pessoa que eu mais vou amar em toda minha vida.