Let's Fly Now

Escrito por Annelise Stengel | Revisado por Pepper

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Ichi.

  Aomine Daiki andava em passadas largas e preguiçosas pelo corredor vazio da escola. Sabia que sua amiga de infância logo estaria atrás dele, insistindo para que ele fosse a um treino de basquete, ou talvez chegasse na hora do jogo. Ela sempre estava fazendo aquele tipo de coisa, e ele estava irritado. Na verdade, tudo o andava irritando ultimamente.
  Ele amava o basquete. Mais do que jamais amara qualquer coisa. Porém ele era bom demais. Estava tudo bem quando seus companheiros de time eram do mesmo nível de habilidade que ele. Kise, Midorima, Murasakibara, Akashi e até mesmo Kuroko não eram simples jogadores de basquete. Aomine era parte dessa equipe, quase uma família, que se chamava Geração dos Milagres. E então, subitamente, perdeu tudo.
  Suas habilidades se desenvolveram, se destacaram, e ele mal podia conter a excitação de ter se tornado tão bom no jogo que ele amava. Crescera, mais, e mais, e correra à frente de todos. Porém quando olhara para trás, nenhum de seus amigos o acompanhara. Ele estava sozinho. Metros e metros na frente de todos, sozinho, ninguém conseguira acompanhá-lo. Nem mesmo os mais talentosos.
  E não eram apenas seus amigos. Aomine correra a tal velocidade e distância que nunca encontrara qualquer outra pessoa que o tivesse alcançado ou ultrapassado. Ele esmagava todos. Recusava-se a voltar para trás. Ele era o melhor. Os outros que chegassem até ele. Enquanto isso, ele perambularia sozinho, vencendo a todos que surgissem no meio do caminho, achando que poderiam vencê-lo.

O ÚNICO QUE PODE ME DERROTAR SOU EU.

  Saiu do prédio da escola e foi até os fundos da escola, onde o sol batia fracamente e tinha alguns bancos esquecidos e largos. Ele podia se deitar sem preocupações ali e ficar esperando algo de interessante acontecer na vida dele. Era seu maior plano até agora. Largou-se em um dos bancos, colocou um braço sobre os olhos e apreciou o silêncio e a solidão que parecia sempre envolver-lhe.
  Esse sentimento não durou muito, já que logo começou a ouvir passos aproximando-se. Não sabia de pessoas que visitavam o lugar frequentemente, então calculou que entraria em problemas se alguém o tinha visto ali. Não se importava. Esperou os passos chegarem próximos a ele, até pararem, e não se moveu até ouvir uma voz.
  - Aomine-kun. - era uma voz de garota, e ele já a ouvira antes. Afastou um pouco o braço, semicerrando os olhos por conta da luz que chegara até eles, e tentou enxergar quem estava ali. Depois, deu um sorriso de canto, sem emoção. É claro que já ouvira aquela voz antes.
  - -san. - resmungou, em uma voz preguiçosa.
   era a presidente do Conselho estudantil do colégio. Da mesma sala que ele, porém de turmas diferentes, tinha alcançado o posto numa velocidade surpreendente, graças à suas habilidades relacionadas a ordenar, organizar e comandar. Não eram todos que gostavam dela, Aomine incluso nestes, mas apenas porque sentiam que ela os puxava demais. Os professores a adoravam, porque achavam que era justamente isso o que toda a escola precisava, então ela estava sempre sendo bajulada. Isso irritava Daiki intensamente, e ela parecia gostar muito de encher o saco do jogador de basquete, sempre indo atrás dele e lhe dando advertências por conta de suas faltas nos treinos e nas aulas. Como um jogador prestigiado da antiga Geração dos Milagres da escola Teiko, todos sabiam quem ele era e todos tinham altas expectativas a respeito dele, e uma das funções de era não deixar que essas expectativas fossem desapontadas. O que parecia quase uma tendência, devido à personalidade de Aomine.
  - Você não tem aula agora, Aomine-kun? - ela perguntou, cruzando os braços. O rapaz novamente deixou o braço cair sobre os olhos.
  - Acho que sim... não tenho certeza. Não estou interessado. - respondeu, soltando um suspiro. bufou, mexendo a cabeça e fazendo seu rabo de cavalo balançar um pouco.
  - Levante-se daí ou lhe darei uma suspensão. Qual é o seu problema? - reclamou, empurrando-o de leve. Daiki resmungou qualquer coisa e levantou-se, quase fazendo-a perder o equilíbrio. Ouviu-a quase xingá-lo e começou a andar.
  - Eu adoraria uma suspensão, -san... - comentou, colocando as mãos no bolso e começando a sair dali, tentando fugir dela. Ela não desistiu, espanando a saia e seguindo atrás do mais alto.
  Andaram em silêncio, incomodados, por alguns segundos, até tocar no outro ponto que precisava discutir com Daiki.
  - Não tenho o visto nos treinos de basquete. - começou. - Momoi-san disse que sempre tenta convencê-lo a ir, mas não consegue na maioria das vezes.
  - Treinar é chato. - ele resmungou, sem olhar para ela. A garota seguiu andando, olhando apenas para frente, como se Aomine não estivesse ao seu lado.
  - Achei que você amasse o basquete. - falou, baixo.
  Eu o amo. Mas ele tirou tudo de mim.
  - Achou errado. É exatamente o oposto. - Daiki retrucou, e saiu correndo à frente da presidente.

Ni.

  As aulas haviam terminado. A maioria dos alunos já tinha seguido embora para casa. Aomine observou alguns dos últimos colegas de classe saírem. Ele estava num dos bancos perto da saída, sentado sozinho. Depois de conversar com , acabara voltando para as aulas e sofrendo de tédio absurdo, por isso preferira esperar um pouco e descansar antes de ir para casa. Agora que quase todos já tinham se afastado, podia seguir seu caminho para casa.
  Ajeitou a bolsa por cima do ombro, colocou a outra mão no bolso da calça, e saiu. Seus passos eram automáticos, ele sempre fazia aquele caminho. Já nem prestava atenção ao que estava acontecendo ao redor. Ele até gostava daquele caminho, porque normalmente tinha algumas quadras de basquete vazias como paisagem, depois de uns cinco minutos de caminhada. A iluminação não era muito forte, mas ele gostava do sentimento um pouco nostálgico que se instalava em seu peito ao ver tais espaços.
  Nessa noite, porém, uma surpresa: havia barulho vindo de lá. Conforme se aproximava, Aomine distinguia gritos, risadas, passadas, e o som de uma bola quicando e batendo na tabela. Parou na grade que o permitia ver dentro da quadra e com um sorriso fraco no rosto analisou o jogo de basquete de rua que ocorria ali.
  O peito apertou e seu sorriso murchou pouco a pouco, enquanto se misturava com as sombras ao lado da quadra aberta. Ele também fazia aquilo, há muito tempo atrás. Ele ainda lembrava da sensação boa que era, só rir e driblar e se sentir bem sem ser o melhor. Aomine às vezes sentia vontade de voltar àqueles tempos.

  - Dai-kun! Pare de ser metido, passe para nós também! - um dos adultos com quem Aomine costumava jogar aproximou-se, bagunçando o cabelo azul escuro da criança. Não havia dito aquilo em tom de reprovação, mas sim com certa graça, ao ver um garoto de apenas 10 anos pontuando mais do que todos os outros 9 adultos na quadra, dos quais o mais novo tinha 21 anos. E ninguém conseguia pará-lo.
  - O que importa, Satobe-kun, é ganhar! - ele respondeu, em sua vozinha estridente, completando com uma risada.
  Nunca se sentia tão completo quanto quando segurava uma bola de basquete na mão. Não tinha problemas com o tamanho dela, nem com o peso. Simplesmente a pegava e usava seu próprio estilo para fazer os melhores pontos. Lançava, driblava, passava - raramente -, e ninguém conseguia o parar.
  - É mesmo um garoto prodígio. - ouviu outro adulto comentar, e sorriu orgulhoso.
  Daiki amava basquete. Amava aquele sentimento gostoso no peito quando jogava. Amava segurar a bola, sentir o cheiro da quadra, a blusa colar no corpo por causa do suor que era causado pelo esforço. Aomine nascera para aquilo, para o basquete. Nunca se cansaria de passar tardes quentes de verão correndo naquela quadra, o barulho do quicar da bola e do balançar da cesca sendo a trilha sonora. Era o melhor sentimento do mundo.
  Com ele, Aomine Daiki sentia-se imcomparável, invencível.

  E ele se tornou isso. Agora, ninguém o parava. Ninguém o vencia. E ninguém o acompanhava também. As tardes quentes converteram-se em noites frias, e todos aqueles que jogavam com ele ficaram para trás, esquecidos na poeira. Aomine agarrou as grades e fechou seus dedos com força sobre elas, trincando o maxilar.

EU TINHA TUDO, EU ERA O PRODÍGIO. E AGORA QUE ME TORNEI O QUE ESPERAVAM DE MIM, E PERDI TUDO... O QUE EU SOU?

  - Isso te faz sentir saudades? - uma voz surgiu ao seu lado e ele novamente se viu encarando . O cabelo dela agora estava solto, e emoldurava seu rosto. Ela, assim como ele, ainda usava o uniforme, e tinha a bolsa pendurada no ombro.
  - Do que está falando? - resmungou, afastando-se da grade. Suas mãos ardiam um pouco, mas apenas flexionando-as um pouco já fez a sensação passar.
  - Não entendo você. - ela ignorou a pergunta dele, começando a andar lentamente ao redor da quadra, observando o jogo. - Você ama basquete. Você é incrivelmente bom em basquete. E ao mesmo tempo, parece que você sente falta do basquete. - parou, e virou-se para ele, que ainda estava parado no mesmo lugar, encarando-a um pouco confuso.
  - Do que está falando? - repetiu, lançando um olhar para a quadra. Alguém tinha marcado ponto, e as risadas preencheram a noite. observava-o, e sorriu fraco.
  - Estou falando da época que você jogava basquete porque era divertido. Porque te fazia se sentir bem. Da época que você só jogava basquete de rua e isso bastava. Quando você não sabia que não teria ninguém que você não pudesse vencer. - ela disse, diretamente, e Aomine arregalou os olhos, surpreso.
  - Você...
  - Eu imaginei que não se lembrava de mim, quando você entrou na escola e não mostrou nenhum sinal de reconhecimento. - ela deu ombros, parecendo ligeiramente desapontada. Aomine fez um esforço, cerrando os olhos, tentando associar tudo o que ela falava com o que ela queria que ele percebesse. - Assim como você, Dai-ki-kun, eu sempre morei aqui. - sorriu cruzando os braços, cantarolando o nome dele de um jeito estranho, mas familiar, e poucos segundos depois Aomine lembrou-se.

  - Vai ter jogo hoje? - duas meninas correram em direção a Aomine, que levava a bola de baquete desajeitadamente embaixo do braço. Uma tinha os cabelos compridos e pretos presos num rabo de cavalo, quase chegando ao meio das costas, e a mais alta usava uma faixa rosa que impedia que o cabelo volumoso e liso caísse em seu rosto.
  - Vai sim! - ele respondeu, alegremente. As duas começaram a andar atrás dele, como se ele fosse algum tipo de ídolo. Era assim que ele se sentia. Várias pessoas da região o admiravam e torciam por ele. Aomine era bastante conhecido, com todos os seus talentos. Aquelas duas, ele percebera, estavam quase sempre perto dos jogos, assistindo. Mas ele não sabia quem elas eram, e não se importava muito.
  - Você joga muito bem, Dai-ki-kun. - a de faixa rosa cantarolou o nome dele, parecendo distraída, e depois riu.
  - Eu sei. As pessoas falam que sou um prodígio. - respondeu, se sentindo importante. Estufou o peito e, avisando os companheiros adultos de jogo, e sua amiga de infância Momoi Satsuki, correu até eles, despistando as duas garotas, que ainda tentaram acenar para ele e desejar-lhe bom jogo.

  Olhando bem para , Aomine pôde identificá-la como a garota de faixa rosa que falara com ele naquele dia e que sempre aparecia para ver os jogos de rua dele. Então ela realmente sabia o que estava falando, ela sabia dessa época da vida dele, desse momento feliz de basquete que permanecia dentro de uma bolha em seu coração.
  - Parece que você lembrou. - ela riu, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha. - Eu realmente lembro da sua expressão durante aqueles jogos. É bem diferente de agora. Vai ver por isso que você ficou assim.
  - Assim? - ele arqueou as sobrancelhas, voltando à sua atitude arrogante. Ia responder que ela não sabia nada da vida dele e que não tinha que ficar se intrometendo, mas deu-lhe as costas.
  - Tenho que ir para casa. Já está escuro. - ela acenou por cima do ombro, sem olhá-lo.
  Aomine Daiki ficou olhando-a se afastar e, fechando os dedos em um punho apertado, soltou um som de irritação e correu atrás dela. Quando o encarou surpresa, de sobrancelhas franzidas, ele desviou o olhar, maxilares trincados.
  - Devo no mínimo te acompanhar até sua casa. - disse, apenas, caminhando ao lado de pelas ruas iluminadas.

San.

  Os primeiros metros foram bastante silenciosos. Aomine não entendia por quê estava acompanhando até a casa dela. Parecia que algo estava entalado em sua garganta, algo que tentava rasgar seu peito e se libertar há tempos, mas ele não havia dado oportunidade e suprimira até que a sensação não ficasse tão desconfortável. E por algum motivo, ele queria falar aquilo tudo ali e agora, para . , que o acompanhava desde que ele era criança, e o apoiara mesmo que ele não se lembrasse.
  - Você quer falar algo? - ela perguntou, suavemente, sem olhar para ele. Daiki a olhou, pensando se ela lia sua mente ou sabia algo a mais. Talvez ela só fosse realmente boa em observar as pessoas, por isso chegara no posto que estava tão rapidamente.
  - Não seja idiota. - resmungou, em sua voz arrastada, mas arriscou lançar outro olhar de lado para ela depois de alguns passos. Suspirou. - Você continuou assistindo meus jogos?
  - Só alguns. Achei que você acabou perdendo uma coisa importante que você tinha antes. - ela respondeu, lançando um sorriso rápido.
  - O que é?
  - Não sei. - deu ombros, e Aomine irritou-se. - Só sei que não é a mesma coisa que antes.
  - Isso qualquer um pode perceber. - ele reclamou. Andaram mais um tempo em silêncio.
  - Por que você disse que odeia o basquete? - perguntou, parando no semáforo. Os carros passavam em alta velocidade, às vezes buzinando, e eles aguardaram para que o sinal ficasse verde para eles e pudessem continuar seu caminho.
  - Porque eu perdi tudo por causa dele. - ele foi direto, rolando os olhos. levantou seu olhar até ele, surpreendida pela resposta.
  - Perdeu tudo? - repetiu.
  - Sim. - Aomine desviou o olhar para a direção contrária aos olhos castanhos de . - Eu comecei a me tornar extremamente talentoso e bom no basquete, e comecei a avançar mais e mais, querendo ser cada vez melhor. Imaginei que meus amigos e meu time aceitariam isso e me apoiariam. Mas quando olhei para trás, todos eles haviam me deixado. Nenhum me acompanhara. E mesmo agora, quando nos vemos não somos mais do que inimigos em quadras opostas. - Aomine foi soltando tudo que o atormentava. - Porque eu sou bom em basquete, eu estou sozinho. E eu odeio isso. - concluiu, irritado. - Por que nenhum deles me acompanhou? - completou, num murmúrio.
   permaneceu em silêncio alguns passos, já que o semáforo abrira e eles agora atravessavam a avenida, em direção ao bairro que os dois moravam. Não faltava muito agora. Aomine pensou que ela estivesse chateada com a resposta dele, que estava com dó. Mas então ela falou, o surpreendendo.
  - Sabe, você é bem mais idiota do que eu pensava. - foi o comentário dela. Aomine parou, boquiaberto.
  - Como é?! - indagou, irritado. Ela continuou séria, olhando para ele, alguns passos a frente.
  - Tipo, tudo bem você ser bom. É seu talento, é sua grande habilidade. Não culpe esse dom por algo que aconteceu na sua vida. Pare de agir como um babaca, como tem agido todo esse tempo. - Uma das características de era de ser sincera com as pessoas quando percebia que elas precisavam de uma puxada de orelha para melhorar. E além da honestidade, ela era um pouco dura também. Mas acreditava profundamente que Aomine precisava daquilo. - Você deve sempre buscar melhorar, não só no basquete mas sim em tudo. Só que ao invés de ser egocêntrico, ajude seus companheiros a deslancharem também e a crescerem. Por você ser o melhor de todos, você tinha que lançar uma corda em volta deles e puxá-los consigo, ser uma espécie de líder. O caminho que você escolheu, se tornar frio, arrogante e egocêntrico, não é à toa que você está sozinho. Você não pode reclamar, já que foi o que você decidiu fazer, ao invés de tentar trazê-los consigo.
  Daiki ainda estava parado alguns passos atrás de . Ele a olhava, admirado pela coragem que ela tivera de soltar tudo aquilo na cara dele. A garota estava um pouco ofegante e mantinha um olhar duro e sincero, e ele não sabia bem como reagir. Desviou os olhos para o chão, e depois os levantou de novo.

EU QUIS SEGUIR O MEU CAMINHO. QUIS SER FORTE, O MAIS FORTE. MAS NÃO QUERIA SER SOZINHO.

  - É tarde demais pra mudar, de qualquer forma. Como você disse, esse foi o caminho que escolhi seguir. - deu ombros, recomeçando a andar e a ultrapassando em poucas passadas.
  - Não acho que seja tarde para perceber seu erro e arrumar um jeito de deixar as coisas melhores. - ela falou, dando uma breve corrida para alcançá-lo e poder andar ao seu lado. - Você só tem que decidir o que realmente quer. Quer continuar sendo o melhor jogador do Japão, à frente de todos, sozinho? Ou prefere ser o melhor, do melhor time do país, como era antes, ao lado de seus amigos? - perguntou, e Aomine a olhou finalmente. sorria.
  - Eu...
  - Não é pra responder agora, Dai-ki-kun. - ela cantarolou o nome dele de novo. - Só pense nisso. - acenou, começando a descer uma rua diferente da que ele estava pretendendo seguir, que dava em sua própria casa. - Boa noite! - ela gritou ainda.
  Aomine Daiki, com a cabeça repleta de pensamentos, meio confuso e meio admirado, apenas a viu sumir, sem saber o que fazer ou para onde ir, embora estivesse a duas ruas de sua casa. Ele sentia que qualquer passo que desse, a partir daquele momento, depois de tudo que ela lhe falara, mudaria toda a sua vida. Para sempre.

Shi.

  Aomine demorou muito pra decidir o que fazer. Depois daquela noite que conversara com , não ousava encará-la nos olhos, então focou-se em treinar. Jogou basquete, jogou basquete de rua, jogou sozinho. Jogara tanto que chegara a exaustão. E então decidiu.
  Foi difícil. Muito difícil. Ele era Aomine Daiki! Ele era o melhor jogador de basquete do Japão. Era imparável, invencível. Mas, com esforço, deixou seu orgulho de lado por um tempo. E foi até Kuroko. E depois até Kise. Conseguiu falar com Midorima, o que considerou incrível. Murasakibara não foi tão complicado. Nem Akashi, que por algum motivo obscuro parecia saber o que aconteceria. Quase doera nele fazer aquilo, mas ele não aguentava mais estar sozinho. Ele não era todo feito de ferro, muito longe disso. Aomine também era um ser humano, e nenhum ser humano gosta de ser solitário.
  Então, num dia meio frio, os outros cinco membros da Geração dos Milagres encontraram-se numa das quadras abertas. Não havia sinal de Aomine, apenas bolas de basquete jogadas pela quadra. Nenhum estranhou o outro estar ali, porque Aomine já havia dito do que se tratava.
  - Ele não está aqui? - Kise pareceu desapontado. Midorima, já irritado, arrumou os óculos na ponta do nariz.
  - Não é como se fosse surpreendente, afinal. - comentou, segurando um coelho branco em sua mão esquerda. Murasakibara bocejou e Akashi apenas levantou um braço, apontando para alguma direção.
  - Yo. - ouviram uma voz desleixada e grave, vinda da direção que Akashi apontava.
  - Aomine. - todos disseram.
  Ele parecia desconfortável. Não sabia como fazer aquelas coisas, era péssimo naquilo. Mas já fora até ali. Trincou os maxilares, tentando elaborar as palavras, tentando criá-las e fazê-las sairem de seus lábios. Pensou em , naquela noite, e tudo que ela dissera. Não fora essa a decisão que tomara? Precisava levar até o fim, agora.
  - O que você quer, Aomine-kun? - Kuroko manifestou-se, olhando para aquele que costumava ser sua antiga luz.
  - Eu... - ele engasgou-se, e depois fez um som de irritação. Forçou-se a terminar. - Quero ver o quão bom vocês estão. - completou, desviando os olhos. Midorima deu um sorriso irônico.
  - Como se não soubesse depois de nos esmagar nos jogos. Todos já sabemos que você é o melhor jogador do Japão, Aomine. Não precisava nos trazer até aqui para isso. - o arremessador da Geração dos Milagres disse, irritado.
  - Isso não é sobre mim! - Aomine retrucou, também irritando-se. Droga, ele não tinha paciência para aquilo. Não sabia explicar direito qual era sua intenção. - Eu sei o quão bom eu sou. Sei que ninguém consegue me vencer. Estou cansado disso! Estou cansado de ficar sozinho, à frente, enquanto vocês idiotas estão tão atrás! Por que vocês não correram também? Por que vocês não me acompanharam?! - começou a gritar, apontando para os cinco que costumavam ser seus melhores amigos.
  Murasakibara trocou um olhar com Kuroko, e Akashi apenas continuou olhando fixamente para Aomine. Midorima, desviou o olhar e Kise sorriu fraco.
  - Aomine-kun... - o loiro começou, colocando as mãos atrás da cabeça. - Nós não o acompanhamos porque não temos como. Suas habilidades, temos que acabar admitindo, superam as nossas. Não temos fôlego para correr atrás de você em seu caminho de se tornar o melhor do Japão. - explicou, pacientemente, com um sorriso.
  - Vamos voar então! - Aomine gritou. Kise arregalou os olhos e todos os outros se surpreenderam. - Se vocês não aguentam correr, então vou amarrar uma corda em todos vocês e puxá-los comigo. Vou abrir minhas asas e vou voar, e vocês vão comigo. - ameaçou. De repente estava ofegante, olhando cada um de seus ex-melhores amigos. - Eu cansei de ser o melhor do Japão. O melhor do Japão é um só, e eu cansei de estar sozinho. Eu quero ser o melhor, do melhor time do Japão. Como éramos antes. - confessou, numa voz cansada e baixa, quase arrependido. Nunca pensara que pudesse falar aquelas coisas, e aparentemente nenhum dos outros também pensara.

VAMOS VOAR ENTÃO.

  - Isso é surpreendente. - Akashi falou, olhando todos ali. - Admito que estou surpreso.
  Midorima estava corado, sem reação, e Kuroko tinha um pequeno sorriso em seus lábios. Kise sentia seu interior animar-se como não fazia há tempos, mas por fora ainda estava estático, surpreso. Murasakibara também sorria.
  - Eu... - Daiki agora não sabia o que mais falaria. Deu as costas à eles e respirou fundo. Fechou os olhos e os punhos, elevando-os à altura do cotovelo. E então, de repente, sentiu um leve soquinho em sua mão fechada, abrindo os olhos e encarando Kuroko.
  - Vamos voar agora. - o de cabelos azuis claros disse, sorrindo, com a mão fechada próxima à de Aomine. O mais alto ficou boquiaberto, sem saber o que fazer. Olhou para trás e Akashi tinha um sorriso mínimo. Murasakibara e Kise fizeram joinha e Midorima, ajeitando os óculos, tinha as bochechas um pouco avermelhadas, mas olhou com firmeza para o ás da Geração dos Milagres, fazendo um aceno com a cabeça.
  Aomine sorriu, e então, ergueu seus punhos para o céu.

Sonogo...

  - O que é isso? - perguntou, franzindo as sobrancelhas. Segurava um papel dobrado várias vezes, que Aomine Daiki acabara de entregar a ela.
  - Você vai saber quando ler! - ele respondeu, arrogante, usando seu tom de voz arrastado. Ela arqueou uma sobrancelha.
  - Você some por dias, não aparece nos treinos, nem nos jogos que contávamos com você, perde algumas provas importantes, e então me dá isso e ainda acha que pode falar desse jeito comigo, Aomine-kun? - ela reclamou, direta. Ele rolou os olhos.
  Os dois estavam no pátio de trás da escola, onde ela o encontrara nos bancos aquela vez. Ele pedira para vê-la porque precisava falar algo, mas tudo que fizera foi entregar o tal pedaço de papel.
  - Claro que sim. Você não sabe quem eu sou? - apontou para si mesmo. Ela permitiu-se dar um soco relativamente forte nos músculos do braço dele, o que pareceu ter efeito nenhum. É como se ela tivesse soprado.
  - Fique aí então. - ordenou, desdobrando o papel. Aomine tentou fugir, corando subitamente, mas ela lhe lançou um olhar frio e duro, e ele não se atreveu.
  Era uma carta breve de agradecimento. surpreendeu-se ao ler. Ele a agradecia por ter dado aquela bronca nele e falado todas as verdades que ele precisava ouvir. Ele costumava ser uma luz forte, mas tinha escolhido um caminho escuro demais para seguir, e não conseguia iluminá-lo sozinho. Por isso se sentia tão perdido. Mas o salvara. Ela aparecera e iluminara o caminho com ele, e então ele pôde ver o que realmente importava e por onde seguir.
  - Acho que nunca esperava que você escrevesse uma coisa tão bonita. - arqueou as sobrancelhas, meio sem palavras. Aomine desviou o olhar pro chão. - De nada, suponho.
  - É tudo isso que você tem pra falar? - ele reclamou, brigando. cruzou os braços.
  - Você achou seu caminho?
  - Erm. - Aomine se desconcertou por alguns segundos. - Sim. Estou me resolvendo. Vai ter um jogo em uma das quadras no sábado, se quiser ir. Estilo de rua. Sem pretensões. - comentou. - Se quiser ir. - acrescentou. sorriu.
  - Parece interessante. Vou ver o que consigo fazer. - disse, guardando o papel dentro do bolso e começando a se afastar.
  - Oi! - Aomine reclamou, puxando-a pelo braço e de repente colando seus corpos. , surpresa com a súbita atitude e proximidade, não soube como reagir. - Não vai mesmo falar nada mais? - ele murmurou, olhando seu rosto. A garota não costumava ficar sem resposta, nem faltar com as palavras, mas não conseguira dizer nada além de algumas sílabas perdidas e sem sentido. Daiki estava perto demais. - Ótimo então. - ele resmungou, e ela supôs que ele fosse soltá-la, mas ele não o fez. Apenas a puxou mais para perto, colando seus lábios.
   foi novamente pega de surpresa, mas não deixou de retribuir. Reagiu, finalmente, passando seus braços pelos ombros largos de Daiki, e ele apertou-a na cintura de leve. Ficaram um tempo assim, até que ele se afastou.
  - Obrigado, hikari.¹ - sussurrou, empurrando-a de leve e virando de costas, para que ela não visse seu rosto extremamente corado. entendeu o que ele pretendia então apenas sorriu, começando a se afastar para voltar aos seus afazeres. Ouviu, ainda, enquanto caminhava meio atordoada: - Você não tem ideia de como ter te conhecido mudou minha vida, para sempre.

  ¹hikari: luz

FIM



Comentários da autora


  n/a: Fanfic feita para a linda Natashia ♥
  Fiquei com medo de ter estragado o Aomine nesses últimos capítulos, como já disse para ela e ela já sabe, BUT gosta de fics fofinhas e Aomine não é fofinho então eu tive que conciliar de alguma forma que eu não acabasse sendo jogada na fogueira. Espero ter dado certo.
  Gostei do jeito que fiz a história e o rumo que ela tomou, esse negócio de abordar o lado dele depois que ele cresceu. Achei que Aomine ia ser solitário, sendo tão chato e fodão. E... é. É isso. Se alguém além da Nat ler, espero que tenha gostado :3
  ACHO QUE MEREÇO MUITOS COMENTÁRIOS E LOVE POR CAUSA DA CAPA, PORQUE ELA É ABSOLUTELY AWESOME q
  Só isso hue
  xx
  Anne