Last First Kisss

Escrito por Laís Stéfani | Revisado por Bella

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  Corri pelos corredores brancos e sem vida daquele lugar a procura do quarto em que a pessoa mais importante da minha vida se encontrava. Eu me encontrava agora em um dos piores momentos da minha vida. Simplesmente não conseguia acreditar que tal desgraça estava acontecendo. Era doloroso demais, injusto demais. Tanto para mim, mas principalmente para ela. Minha garota. Minha, minha, minha. Ou que pelo menos sempre foi minha em meus devaneios mais profundos.
  Ao começar de novo a pensar no tempo perdido, meus olhos transbordaram de água outra vez e respirei fundo, controlando-me ao máximo para não deixar uma lágrima cair. Eu tinha de ser forte. Mais coisas estavam por vir, eu precisava ser forte. Eu precisava suportar toda essa dor, por mim e por ela.
  Quando achei a porta em que haviam os números que eu procurava, abri devagar a mesma e pude sentir meu corpo relaxando naturalmente, como sempre acontecia ao vê-la. Talvez fosse porque saber que ela realmente existia, e não era só uma miragem dos meus sonhos, me fazia ficar mais calmo. Por saber que ela estava ali, perto de mim, e que nada poderia acontecer com ela enquanto eu estivesse por perto.
  Tudo que consegui, ao vê-la deitada naquela cama, dormindo tão profundamente e com traços de um anjo, foi me lembrar da primeira vez que vi aquele rosto.

  -Ei, Payne! – Dianna gritou, estalando os dedos algumas vezes na frente de meu rosto para me chamar a atenção. – Caramba, cara, você tem que acordar!
  - Me desculpe, Anna. – chacoalhei a cabeça e tirei a ponta da caneta da boca, me concentrando no rosto de minha amiga. A pele cor de chocolate de sua testa formava uma ruga de descontentamento por eu não ter ouvido nada do que ela falou a alguns segundos atrás. Bem, não era totalmente minha culpa. Dianna simplesmente falava demais para meus ouvidos acompanharem.
  - Enfim... – ela deu de ombros e suspirou. – Você vai lá em casa para estudarmos hoje, não vai? Olha, estou precisando de ajuda em álgebra e se eu rodar, minha mãe não vai me deixar continuar na banda.
  Era legal que eu tivesse uma amiga popular que fazia parte de uma banda quando eu não passava de um Zé ninguém. Além disso, ela era a baterista, o que a tornava umas sete vezes mais legal do que alguém que apenas faz parte de uma banda.
  - É claro, eu vou.
  - Ótimo, mas, assim, só não liga para o Kyle. Ele está insuportável desde que conheceu a vizinha nova que se mudou para a casa do lado da nossa. Eu não sei se ela é gostosa demais, ou se é alguma atriz pornô, ou algo do tipo, porque assim que ele a vê, corre para o banheiro pra, você sabe...
  - É, é... – concordei com a cabeça para que ela parasse de riscar em minha mesa e se virasse para a frente. – O professor chegou na sala.
  - Grande coisa. – ela bufou. – Você tem que deixar de ser nerd se quiser continuar sendo meu amigo.
  - Quem precisa de ajuda em álgebra não sou eu. – ergui uma sobrancelha.
  - Touché, meu amigo! – ela riu e se virou para frente.
  Assim que os alunos se aquietaram aos poucos, enquanto o professor de sociologia se ajeitava em sua mesa, a porta se abriu e aquele rangido horroroso se fez presente, arranhando meus ouvidos.
  Uma garota um pouco baixa e com uma franjinha meiga entrou na sala. Não consegui ver seus olhos naquele momento, porque ela manteve a cabeça devidamente abaixada até chegar à mesa do professor e entregar a ele um papel.
  - Camila Campbell, Louisiana, Estados Unidos. – ele leu no papel e olhou-a. Alguns engraçadinhos sentados no meio da sala soltaram risadinhas e eu aposto que era por terem ouvido o país de onde ela veio. – Seja bem vinda, senhorita. Pode achar um lugar para sentar, sou seu novo professor de sociologia.
  A garota assentiu, pegou o papel de volta e se virou para a turma, andando a paços pequenos e rápidos até... Mim. Bem, não até mim, mas até perto de mim, pelo menos. Perto o suficiente para eu acreditar que ela estava vindo até mim.
  Quando levantou o rosto, pude ver seus olhos pela primeira vez. Eram bem grandes e brilhavam de uma maneira descomunal. Eram exatamente em um marrom claro que parecia caramelo, e pareciam sorrir para mim. Gostei deles logo de primeira.
  A menina desviou o olhar assim que encontrou o meu e voltou a encarar o chão. Sentou na carteira atrás da minha.
  - E aí, o que achou dela? – Dianna não tardou a se virar para trás e me perguntar.
  - Não tenho nada para achar dela.
  - Ah, qual é! Ela é gostosa? – ela me perguntou, com um sorriso sacana.
  Não entendia por que Dianna tinha que saber quem era ou não gostosa na opinião de todos os garotos que conhecia, isso sempre fora um mistério para mim.
  - Eu não sei! – sussurrei de volta, bravo.
  - Você é um viado, Liam Payne. – ela bufou e se virou para frente.
  Nem bem dez segundos depois, Blake sentou na classe ao lado da minha.
  - E aí, Camila de Louisiana! Como vão as coisas na América? As meninas como você continuam cobrando muito caro?
  Os seus amigos lá na frente, que acompanhavam seu showzinho, riram de sua piada infame.
  - Blake. – chamei, duro. – Não.
  - Qual é, CDF, vai arrumar encrenca mesmo?
  Blake era o maior idiota daquela escola. Vocês sabem como é, capitão do time e cheio de músculos, que namorava minha irmã mais velha por culpa de um erro no cérebro dela que não a permitia fazer escolhas decentes.
  - Você quer mesmo fazer isso? Quero ver você encarar o meu pai.
  Blake tremia na base quando o assunto era seu sogro.
  - Você é um pé no saco, bujãozinho! Por isso não tem amigos. – ele despejou as palavras em mim e se levantou, voltando para o seu lugar. Tratei de ignorar, essas coisas estavam começando a não surtir o mínimo efeito sobre mim, de tanto que eu as ouvia.
  Virei de costas.
  - Tudo bem? – perguntei à menina.
  - Me avisaram que talvez isso acontecesse. – ela respondeu, em um inglês bem menos carregado do que os que eu estava acostumado a ouvir. – Obrigada. – e sorriu. Foi a primeira vez que ela sorriu para mim. Apenas a primeira. E me fez sentir um arrepio desde aquela vez.
  As próximas aulas até o intervalo foram tranquilas. Dianna correu para encontrar seus companheiros assim que saímos da sala, e me lembrei que precisava falar com o meu professor de biologia sobre a prova que havia perdido na última semana, por ter ido ao dentista. Me virei para voltar para a sala, quando bati com a garota nova, que vinha bem atrás de mim.
  - Ai! – reclamamos juntos, e eu segurei seis braços para que ela não vacilasse para trás. Assim que a soltei, ela levou a mão à testa e fez uma careta.
  - Desculpa. – pedi.
  - Tudo bem, eu não te vi aí.Hã, será que você...
  Olhei por cima de seu ombro e vi que já era tarde para falar com o professor, então parei ao lado dela e comecei a andar no mesmo passo que ela.
  - Você quer que eu te mostre o refeitório?
  - Eu agradeceria. - Assenti.
  - Então, o que faz uma americana vir para o outro lado do mundo, assim, do nada?
  - Ah, longa história. – ela revirou os olhos. – Meus avós eram daqui, foram para a América a alguns anos, e foi lá onde meus pais nasceram. Eles se conheceram no colégio, namoraram, minha mãe engravidou e meu pai tratou de fugir antes que eu nascesse. Nessa época os meus avós paternos haviam voltado para cá, e meu pai veio morar com os pais dele. Eu cresci com minha mãe, em uma cidadezinha de Louisiana. – Camila fez uma pausa e coçou a testa, onde havia machucado quando nos batemos. Depois ergueu o olhar para mim. – Ela morreu há dois meses.
  - Ah. Eu... sinto muito, Camila.
  - Eu também. – ela sorriu. – De qualquer forma, vim morar com meus avós, mas meu pai fez questão de pegar a minha guarda, então agora estou morando com ele e o conhecendo melhor.
  - Deve ser estranho você se mudar de repente para a casa de um homem que nem conhece e descobre que é seu pai.
  - Pode ter certeza que é. Eu era acostumada a viver sozinha com uma mulher, agora tenho que me acostumar com ele.
  - E seu pai não se casou de novo?
  - Não, ele diz que gosta de ficar sozinho. Acho que herdei isso dele.
  Sorri e concordei.
  - O refeitório é ali. – fiz um aceno de cabeça.
  - Obrigada... hã...?
  - Liam, meu nome é Liam
.   - Liam. Obrigada, Liam.
  - Disponha.
  Ela colocou as mãos nos bolsos da calça jeans e se balançou para frente e para trás por um tempo. Talvez não fosse a hora de acabar aquela conversa, então puxei outro assunto.
  - Olha, se quiser as matérias importantes que perdeu até agora, eu posso te emprestar meus cadernos, ou...
  - É, isso seria bom. Obrigada.
  - Você mora aqui perto?
  - Sim, eu moro na esquina de uma rua que tem uma padaria com uma rosquinha gigante na frente, e esse é meu ponto de referência. – ela riu e encolheu os ombros.
  - Eu sei onde é, moro na rua de trás.
  - Sério?
  - Sim. Passo na sua casa hoje de tarde, se quiser.
  - Pode ser. Hum, acho que já te agradeci muito hoje, mas... obrigada.
  Sorri.
  - Tudo bem. Então, te vejo depois. – acenei e me afastei, indo em direção à biblioteca.

  Não pude evitar um suspiro frustrado ao lembrar de tudo isso. Talvez se nosso primeiro encontro naquela escola tivesse sido diferente, acabaria melhor. Ou talvez, se eu não tivesse a defendido de Blake nós nunca nos falássemos. Não sei qual seria o melhor para mim. Talvez se eu nem a conhecesse, não teria sofrido tanto. Mas de algum modo, tudo que já senti e que sentia naquele momento, naquele quarto de hospital, parecia valer a pena.
  Caminhei lentamente até a poltrona ao lado da cama e me sentei ali. Me permiti pegar sua mão, também. Fiquei por minutos incontáveis olhando o seu rosto e me perguntando o que era certo a fazer, ou se ela simplesmente não preferiria o silêncio.
  - Se lembra do dia em que decidiu que queria ser minha amiga? – sussurrei para ela. – E se lembra do que eu te disse?

  - Liam! – ouvi sua voz me chamar e caminhei mais rápido até meu armário. Não, Camila, não faz isso, você vai se arrepender... pensei comigo mesmo. - Ei, Liam, espera! – ela correu até mim e me alcançou com a respiração ofegante e a mão no meu ombro. – Aqui, seus cadernos.
  - Ah. – peguei os cadernos de seus braços e soltei-os dentro do armário.
  - Obrigada por eles, consegui recuperar todo o ano em duas noites. – ela sorriu para mim.
  - De nada.
  - Ei, hum, eu estava pensando, e... você não quer me encontrar depois da aula para tomarmos um café? E talvez eu possa experimentar uma daquelas rosquinhas da padaria, elas parecem boas. – sorriu de novo. Ela tinha o péssimo hábito de sorrir para mim depois de tudo que falava.
  - Hã, eu, hum... – peguei meu livro de matemática e fechei a porta do armário. – É que não vai dar, Camila. Desculpa.
  Seu sorriso sumiu, e eu me odiei por isso.
  - Qual é o problema? Até ontem, você estava falando comigo normalmente. Eu falei algo que não gostou? Ou você só... não quer ser meu amigo?
  Fechei os olhos e balancei a cabeça negativamente, me lembrando de ver os garotos incomodando ela no final da aula por andar com “o nerdzinho”.
  - Não, é que... – comecei a andar em direção à minha sala, e ela me seguiu, tendo que manter a cabeça erguida para olhar em meu rosto. – Nós dois... não podemos andar juntos. Entende?
  Ela me encarou por um segundo.
  - Não.
  Fiz uma careta.
  - Ah, espera aí! Você não quer andar comigo, não quer ser vista com a americana prostituta ou algo assim, saquei. – ela concordou com a cabeça e virou as costas.
  - Não, Camila, espera. – segurei seu braço e ela voltou. – Não é isso.
  - Então é o que?
  - Você... não vai querer andar comigo, vai se arrepender disso. Eu não sou... legal. Não sou uma boa companhia para você.
  Ela deu um passo à frente e pediu que eu me aproximasse com a mão. Me curvei um pouco para que ela falasse no meu ouvido.
  - você vende drogas?
  Voltei ao meu lugar e ri.
  - Não.
  - Então, não vejo motivos para não querer ser sua amiga.
  Suspirei pesadamente.
  - É só que... eu sou o nerd, o esquisito e ignorado. Se andar comigo, vai virar uma ignorada também.
  - Ótimo, eu não gosto de atenção para mim.
  - Camila, é sério.
  - É sério. – ela repousou uma mão no meu ombro e continuou andando em direção à minha sala de aula. – Vamos ser invisíveis juntos.

  - Você não hesitou nem por um segundo em ser minha amiga... – ri. – Sua idiota. Não devia ter feito aquilo.
  Me lembrei das incontáveis vezes em que Camila foi a única que ficou ao meu lado.

  - Me desculpe, Liam. Mesmo. Eu queria ir, mas...
  - Tudo bem, Dianna, sério. Você tem ensaio, entendo isso. – segurei o celular entre o ombro e a orelha, e enchi o copo de plástico com refrigerante pela terceira vez.
  - Eu sinto muito, de novo. Tenho que ir, te vejo no colégio amanhã.
  - Tchau.
  Soltei o celular na mesa e me sentei na cadeira atrás dela. Tomei um gole do refrigerante e soltei-o na mesa também. Dei outra olhada para o bolo com as velas 1 e 6 uma ao lado da outra. Fechei os olhos, e pude ouvir a música alta da casa de Blake a dois quarteirões. “A festa do ano”, Ruth disse. “não posso perder, Liam. Se você comemorasse seu aniversário em qualquer outro dia, eu juro que estaria com você, mas, simplesmente, não posso deixar de ir na festa, ele é meu namorado”. Foi assim que minha irmã escapou. Meus pais tiveram que viajar para ver Nicola, minha outra irmã, que estava doente e precisou ir para o hospital. Dianna tinha ensaio da banda.
  Eu queria de verdade ficar bravo com todos eles, e culpá-los por me deixar comemorar meu 16° aniversário sozinho, mas pensei que talvez eu só não fosse uma boa companhia para se estar junto; e eu não os culpava por isso. Talvez até fizesse o mesmo, se estivesse em seu lugar.
  - Psiu! – ouvi um chamado e um estalo atrás de mim na varanda. – Ei, Liam!
  Virei de costas, e Camila escalava a barra de ferro que protegia a varanda com uma mão só.
  - Me dá a mão, anda! Me dá a mão antes que eu caia!
  Me levantei e segurei sua mão para puxá-la. Na outra mão, ela tinha algo dentro de uma sacola e não podia soltar. Puxei-a para dentro e ela ficou de pé na minha frente, me olhando por alguns segundos. Até pular em meu pescoço e quase me sufocar com um abraço.
  - Feliz aniversário!
  - Ah, obrigado. – vacilei um pouco para trás com o impacto do abraço. – Obrigado, Cams.
  - Ta, agora me solta. – ela se afastou. – Tenho algo para você.
  - Você não precisava me trazer nada.
  - Eu precisava, sim. Olha, vê se isso não é demais! – ela tirou um pote de vidro de dentro da sacola e a abriu, tirando uma tartaruga pequena de dentro dela e correndo para a sala de minha casa.
  - Na loja disseram que era fêmea. Então eu pensei “que tal se ela se chamar Jessie e for a companheira do Woody?” – Camila se debruçou sobre meu aquário, no canto da sala, que era a única luz do cômodo, com as luzinhas de neon dentro dele, e soltou devagar a tartaruguinha ali. Ela foi direto ao encontro de Woody, a tartaruga que eu já tinha. – isso não é incrível? Transformamos uma tartaruga solitária em duas acompanhadas. – sorriu para mim.
  Camila adorava sorrir, era meu detalhe preferido dela, o seu sorriso. Às vezes eu pensava poder morrer por um sorriso daquele; e, sabe, não era um sorriso qualquer, era o sorriso dela, e não era qualquer pessoa que merecia ele. Eu era tão privilegiado por poder vê-lo todos os dias. Eu tinha pena daqueles que viviam sem saber da existência daquela coisa maravilhosa que iluminava tudo ao redor.
  - O que está me olhando? Você não gostou?
  - Eu adorei, Mila. Obrigado, achei maravilhoso.
  - Tudo bem, então. – ela riu. – Mas tem mais uma coisa. Vem cá! - Ela me chamou para a varanda de novo e procurou por algo na sua sacola. Sentou no muro de apoio da grade da varanda e eu sentei ao seu lado. Ela abriu um pote branco e nele tinha duas rosquinhas da padaria do meio da quadra. Sorri.
  - Não podia faltar. – nós falamos juntos.
  Peguei a minha, que, como de costume, era a de chocolate, e ela pegou a com cobertura rosa de morango e granulados coloridos. Nós mordemos ao mesmo tempo, porque aquilo era uma regra que criamos e nunca podia ser quebrada.
  - Hum...
  - Isso aqui é um pedaço do paraíso. – disse.
  Rimos, porque essa era a mesma reação de sempre. Aquelas rosquinhas eram tão gostosas, que toda vez que comíamos parecia a primeira vez.
  Perdi a noção do tempo em que ficamos comendo a melhor guloseima do mundo e conversando com minha melhor amiga. Camila era a primeira pessoa que pude chamar de melhor amiga na minha vida.
  - Como se sente?
  - Eu me sinto ótimo. – respondi. – Essa rosquinha é demais.
  - Não, não, eu digo, como se sente tendo 16 anos.
  - Ah! Não muito mais diferente do que há duas horas atrás.
  Ela riu.
  - Entendo.
  - Sabe, acho que você devia fazer 16 anos mais vezes. – ela deitou a cabeça em meu ombro e colocou os pés em cima da cadeira à sua frente. – Gostou do seu aniversário?
  - É o melhor aniversário de todos.

  Às vezes eu sinto como se Camila tivesse me salvado, inúmeras vezes, me salvado de mim mesmo. Quando até mesmo eu me olhava no espelho e odiava o que via, ela estava do lado e me fazia sentir especial; e eu devia tanto a ela, por ter me ensinado a amar primeiramente a mim mesmo. O tempo em que passei com ela foi uma sucessão de fracassos e sucessos em minha vida, que não pode ser descrita como nada mais do que: agitação. Minha vida começou a ganhar cor quando eu a conheci. Uma sucessão de fatos que me dava vontade de acordar no dia seguinte para descobrir o que o dia me reservava.
  Eu e ela íamos e voltávamos do colégio todo dia juntos. Eu a ajudava em matemática, física, química e biologia, enquanto ela me ajudava a criar um olhar artístico que aumentou em cinquenta por cento minhas notas nas aulas de artes e em tudo que exigia minha criatividade.
  Outra coisa que comecei a amar em Camila era seu jeito de ver o mundo. Ela tentava ver absolutamente tudo como uma coisa divina e maravilhosa que Deus nos deu o privilégio de presenciar. E isso começou a me passar esperança e fé de que a vida era uma coisa boa. Eu era feliz sempre que ela estava por perto. Ela dava cor à minha vida.
  Com o passar do tempo e na metade de nosso segundo ano como amigos e colegas, sempre indo e voltando do colégio juntos e comendo uma rosquinha de café da manhã por dia – sempre dando a primeira mordida juntos, como era de costume – eu comecei a perder peso e me sentir melhor comigo mesmo. Ia a alguns shows de Dianna, sua banda estava tocando em casas de shows e começando a ganhar reconhecimento.
  Mas as coisas começaram a ruir quando, na metade do segundo ano, Joey Miller entrou em nossas vidas. Não foi uma coisa que durou muito, mas fez um estrago enorme. Ele e Camila começaram a sair, afinal eu nunca tomara uma iniciativa com ela e mesmo se tomasse não tinha esperança alguma de ela querer algo comigo.
  Eles começaram a se ver frequentemente, e ela já não tinha mais tanto tempo para mim como tinha antes; eu até que levei isso tudo numa boa. As coisas se complicaram quando eu percebi que ela ficava triste sempre que saía com ele, porque ele não a dava o devido valor. Isso me fazia querer ter coragem para quebrar a cara dele. Como ele não conseguia perceber a coisa tão preciosa que tinha nas mãos?
  Eu odiava ver seus olhos tristes; eles não sorriam como costumavam fazer normalmente.

  - Não vou poder ir hoje, de novo.
  - Deixa eu adivinhar, é por causa do seu namoradinho?
  - É, Liam. – ela revirou os olhos.
  - Por que não convida ele para ir junto?
  - Ele não curte muito essas coisas de show, orefere ficar em casa, você sabe.
  - É, eu sei. – sei bem o que ele quer com ela em casa.
  - O que é? – ela sentou; antes estava jogada em minha cama com os pés em cima de mim. – O que foi?
  - O quê? Não falei nada.
  - Você falou sim, falou daquele jeito de quem sabe algo muito importante.
  - Você ta louca?
  - Me fala aí, Liam!
  - Ah, você sabe minha opinião sobre esse cara.
  - Esse cara é importante para mim, sabia? E eu agradeceria se você me apoiasse pelo menos uma vez.
  - Não é culpa minha se você não sabe fazer boas decisões, ok, Camila? Olha só o tipo de gente com quem se relaciona.
  - O tipo de gente? – ela se levantou. – Que tipo de gente? O tipo de gente normal que gosta de coisas normais e não fica o tempo todo cuidando de suas tartarugas, sem ter uma vida?
  Olhei para o chão e depois para ela.
  - O tipo de gente que só ta com você até conseguir o que quer.
  - Você nunca acha nenhum garoto pelo qual eu sinto algo o garoto certo, eu não te entendo. Pensei que fosse meu amigo, pensei que estivesse do meu lado.
  - Eu estou! Estou cuidando de você, me certificando de que não vá se machucar por causa do cara errado! – levantei as mãos.
  - Adivinha? Eu posso decidir sozinha quem é o cara errado. – pegou seu casaco de cima da minha cama e saiu do quarto batendo os pés, sem me olhar no rosto de novo.

  - Você sabe que eu sempre estive certo, Cams. A única pessoa digna de você nunca teve coragem de te dizer isso, e agora já é tarde. – falei isso perto de seu ouvido na cama do hospital.
  Passei as mãos por seu cabelo e me lembrei da cena seguinte a essa:

  Ela pulou do sofá onde estava em sua casa e correu até mim, assim que abri a porta e entrei. Só o que pude sentir foram seus braços apertando minha camiseta e seu rosto se escondendo na curva do meu pescoço, enquanto soltava uns soluços baixos.
  - Você estava certo, em tudo. Me desculpa, Liam... ah...
  - O que aconteceu? O que foi, Camilla? O que aconteceu? – me afastei o suficiente para segurar o seu rosto
  - Ele me deixou. Disse que achou uma garota melhor que não se importava em transar com ele onde ele quisesse e a hora que ele quisesse. - Meu sangue ferveu no mesmo segundo, era tão típico! Só o que me segurou ali, e me impediu de procurar por aquele imbecil até achá-lo e quebrar sua cara a chutes, foi que ela precisava de mim.
  - Ta tudo bem. – puxei-a até o sofá e me sentei ali com ela. – Vai ficar tudo bem, Cams. Você pode chorar.
  - Eu sinto muito por brigar com você, você estava certo. Ele era um canalha, e... ah, meu Deus, Liam, me desculpe!
  - Está tudo bem, shh... – passei minhas mãos em seu cabelo e dei-lhe um beijinho na testa. – Fica calma, tudo vai se acertar.
  Camilla chorou por minutos incontáveis. Ela era sensível assim mesmo e eu já havia perdido as contas de quantas vezes sequei suas lágrimas e a ouvi desabafar. Ela não era durona e nem se fazia disso, simplesmente chorava quando sentia vontade e me abraçava forte. Nunca reclamei.
  Ficamos no sofá em silencio, até seu choro se transformar em um soluço baixo. Eu estava com o queixo apoiado no topo de sua cabeça e ela estava embolada em meu colo. Pensei que estivesse quase dormindo, mas não.
  - Seu coração está batendo tão rápido. – ela sussurrou para mim.
  É você, tive vontade de responder.
  - E você ta tão quente, Liam. – ela segurou meu braço. – Você está bem?
  - Mila, tenho que te contar uma coisa. – falei, com uma faísca de coragem que veio de algum lugar do nada.
  - O que foi? – ela se separou de mim e me olhou com os olhos grandes e brilhantes de caramelo.
  - Eu... – eu sabia que não conseguiria, ia travar de novo. Tentei por tanto tempo dizer aquilo a ela, mas eu tinha medo de sua reação, medo de que nada mais fosse voltar a ser como era. E eu tinha medo de não ser o cara certo e machucá-la também. Já não era fácil conviver com aquele sentimento a anos, eu não conseguiria conviver sabendo que estraguei tudo entre nós.
  - Eu... hãn... eu tenho que te dizer que... – fechei os olhos quando percebi que minha respiração já estava fora do normal. Tentei me acalmar. Deus, aquelas palavras presas em minha garganta imploravam para pular para fora. – Camilla, eu... você... é, nós...
  Abri meus olhos outra vez quando senti a sua mão no meu rosto, fazendo um carinho ali.
  - Tudo bem. – ela me empurrou de leve até a guarda do sofá e deitou ao meu lado, deitando a cabeça no meu peito. – Você pode me falar quando estiver pronto.
  Amava o jeito dela de não julgar nada precipitadamente e de acreditar profundamente em tudo que ela julgava ter salvação. Camilla poderia salvar alguém da morte só com seu sorriso e sua bondade. Eu mesmo já havia presenciado essa sensação de que fui salvo simplesmente por vê-la sorrir. Ou era isso, ou eu apenas a amava mais do que conseguia suportar.
  Senti um beijinho em minha bochecha e fechei os olhos. Tudo bem se eu não conseguisse falar para ela naquele momento, eu ainda não estava pronto para sobreviver sem a sua amizade.

   E foi aí que as coisas começaram a se complicar, depois que eu já estava completamente dependente dela. Me tornei uma pessoa melhor com ela, e eu já era mais feliz com quem eu era agora, ela me mudou completamente de um jeito bom. Eu descobri ser quem eu realmente era, porque ela me mostrou que eu podia ser melhor do que antes, que eu podia mudar e mesmo assim continuar sendo quem eu era por dentro. Eu era mais feliz depois de ter Camilla em minha vida. Mas nem tudo são flores, e a vida nunca deixa nenhuma felicidade se alimentar de tristezas sem inverter o jogo. No meu caso, o jogo simplesmente virou de cabeça para baixo, tudo desmoronou de uma só vez com apenas três palavras:

  - Eu vou embora. - Meu sorriso sumiu, precisei recuperar o fôlego que perdi subindo a colina correndo até chegar ao píer do lago do parque, que era onde sempre nos encontrávamos depois do colégio. Naquele dia ela não havia ido, o que era estranho porque tínhamos Arte e ela nunca perdia uma aula. Mesmo assim, levei nossas rosquinhas porque se não comemos de manhã, temos que comer de tarde.
  - O quê? – coloquei as mãos na cintura e me curvei um pouco para recuperar o fôlego. – Está falando do que?
  - Eu vou embora da cidade, Liam. Eu e o meu pai, nós vamos nos mudar para Londres.
  - Você está brincando comigo, não é? - Como assim se mudar, e para Londres? Ela disse que gostava de ser uma garota de cidade pequena (porque sim, Wolverhamton era minúscula perto de Oxford, a cidade de onde ela veio) e não queria se mudar dali. Ela não podia se mudar, e me deixar, não podia.
  - Como assim, Camilla? Se mudar? Mas e... e o colégio, e... e nós? Nossa amizade? - Ela fez uma careta e bateu na madeira na ponta do píer onde estava sentada. Me sentei ao seu lado.
  - Meu pai quer procurar serviço na capital. Ele disse que é hora de mudar, eu não vou ter futuro aqui e isso é verdade. Ele disse que eu tenho muito talento e não vou ser reconhecida o suficiente aqui. O máximo que eu faria aqui em Wolverhamton seria trabalhar no museu ou pintar telas por encomendas para algumas pessoas. Eu não quero só isso, Liam. E ele está fazendo isso por mim. Passei toda a minha vida pensando que meu pai nunca se importou comigo, e agora ele me provou o contrário. Ele está fazendo de tudo que pode para me dar um futuro melhor, e eu simplesmente não posso ignorar isso. Eu passei a noite toda pensando na gente, eu sei que não posso te deixar, mas... não depende só de mim, sabe? Eu também tenho que pensar em tudo que ele está fazendo por mim.
  Pensei por um momento. O pior de tudo, é que eu entendia ela. Seus motivos estavam certos, e eu não a culpava. Ela podia ser o mundo para mim, mas eu não podia me esquecer que não passava de seu bom amigo; e amigos nunca duram para sempre.
  Assenti devagar para ela.
  - Eu entendo. - Ela também me olhou por um segundo, e depois me puxou para um abraço.
  - Eu não queria que fosse tão difícil, por que tem que ser assim? Por que você não vai comigo? Pode morar com a gente. Eu não consigo ser a mesma coisa sem você, Liam. Não tem um jeito menos difícil de fazer tudo isso? – fungou.
  - Tem, se você não chorar. – me afastei um pouco e como de costume limpei uma lágrima que escorria. – Isso só vai piorar as coisas aqui.
  - Aqui onde? – ela pareceu confusa.
  Abri um sorrisinho e encostei do lado esquerdo de meu peito.
  - Ah, Liam! – ela me abraçou de novo.
  - Eu disse para não andar comigo quando entrou no colégio. – ri. Sentia um nó enorme em minha garganta, mas eu simplesmente me recusei a chorar.
  - Não, não. Ser sua amiga foi a melhor decisão que eu já tomei na minha vida. Você é a pessoa mais importante para mim, e eu nunca vou te esquecer, pink promise. - Ri de novo.
  - Olha, podemos nos falar por email, ou por carta, telegrama, pombo-correio ou código Morse. Eu não vou perder o contato com você. Nós vamos...
  Camilla continuou fazendo planos, mas a cada vez que ela falava algo sobre ir embora eu sorria mais por fora, mas estava mais acabado por dentro. Eu não sabia o que seria de mim sem ela.

  Durante os dias que se seguiram, fiz o mesmo que qualquer pessoa faria: fingir que está tudo bem, quando na verdade cada dia era um dia a menos para minha sentença. Ela fazia mais e mais planos para nos falarmos enquanto estivéssemos separados. Insistia em dizer que nunca ia me esquecer, mas por algum motivo isso me deixava profundamente triste, porque sempre que ouvia isso me lembrava de que ela estava partindo.
  Umas duas semanas e meia depois, as coisas pioraram mais. Camilla começou a passar mal toda manhã e ia para o hospital seguidamente. Ela geralmente tinha febres muito altas durante a noite, e ia sempre parar no hospital por fraqueza ou dores de cabeça muito fortes. Perdeu um pouco de peso e logo foi diagnosticada com uma infecção. Eu ia visitá-la todo dia, afinal não parecia ser tão sério assim. Ela mesma estava tranquila, ninguém realmente dava muita moral para isso, estávamos só esperando que ela melhorasse para a vida seguir normalmente.
  O problema veio quando a infecção começou a ficar cada vez pior, e não tinha indícios de melhora. Um dia, ela passou mal e começou a vomitar sangue, e foi aí que os médicos começaram a se preocupar e a fazerem outros tipos de exames e a procurarem por outro tipo de doença. Eu ficava com o coração na mão toda vez que a via entrar no hospital, e mil vezes mais leve toda vez que ela saía.
  Com isso, a mudança foi adiada pelo menos até que descobrissem o que ela tinha. O dia em que os resultados saíram foi, até hoje, o pior de minha vida.

  - Chegaram agorinha, pelo correio. – ela disse, me mostrando o envelope verde.
  - Não quer esperar seu pai? - Ela fez que não.
  - Ele volta tarde hoje.
  - Ok. - Ela ficou virando e revirando o envelope nas mãos e olhando para ele, mordendo o lábio. – Então, quer que eu abra?
  - Sim. – ela disse. – Rápido, como quem tira um curativo. - Assenti e rasguei a parte de cima para tirar o exame de dentro. Eu o tirei de lá, ainda dobrado, e olhei para ela. - Vai, lê!
  Abri o papel e corri os olhos por ele. Tinha seu nome, idade e algumas outras informações como tipo sanguíneo e essas coisas. Em baixo, o resultado. Uma única palavrinha, pequenininha: leucemia.
  Voltei para seu nome, idade, tipo sanguíneo e tudo que me indicasse que era a Camilla de quem eu queria saber. Não era possível, simplesmente não era. Leucemia, leucemia, Liam. Leucemia, câncer, câncer no sangue. Sem cura, incurável, mortífero.
  Não sabia como reagir, era demais para mim. Há dois meses atrás tudo estava perfeitamente bem, e estávamos deitados nesse mesmo sofá onde nos encontrávamos agora, assistindo Friends e comendo salgadinho, como sempre fizemos, saudáveis, sem data para irmos embora, e quando digo ir embora falo dos dois jeitos que você imaginou.
  - E então, Liam? - Me levantei e soltei o papel em suas mãos. Enquanto ela olhava, dei uma volta pela sala com as mãos na cabeça. Olhando para cima, para que meus olhos marejados não causassem uma reação em cadeia. Quando a olhei de volta, ela estava parada, ainda olhando para o papel, catatônica, sem piscar, mas parecia estranhamente mais calma ou conformada do que eu.
  - Isso está errado. Não é, Cams? Está errado, não está? – me abaixei na frente dela, e segurei as suas mãos. – Me diz que sim, por favor, me diz que isso não é verdade.
  - Já te contei como minha mãe morreu, Liam? – ela sussurrou para mim. – Ela morreu de leucemia. E agora eu... - Abracei-a antes que ela terminasse a frase. Não, eu não podia ouvir aquilo, me recusava a ouvir aquilo. Por favor, diz que é mentira, por favor, diz que é um pesadelo.

  Com o tempo eu aprendi a aceitar. Em três semanas eu tive que aprender a lidar com aquilo assim como seu pai e até mesmo ela. Eu precisava manter a calma para que não a apavorasse, mas a verdade era que ela estava em um estágio avançado da doença. Com tanta coisa dando errado em nossas vidas, não foi muito chocante quando ouvi o médico dizer que ela não tinha muito tempo de vida, oimpacto mesmo, veio na manhã seguinte. Eu me recusei a sair da cama até que eu acordasse e aquilo tudo não tivesse passado de um sonho; não aconteceu, então eu me senti obrigado a viver. Por ela, entende? Porque viver era o que ela mais gostava de fazer.
  E ver a pessoa que você ama morrendo aos poucos não é nada bom. Ver ela piorando todos os dias, indo para o hospital e tendo recaídas, tendo que fazer tratamentos que a deixavam acabada, e vendo aquele brilho dos seus olhos se apagar, que me fazia morrer por dentro também.
  Foram várias às vezes em que tive que parar tudo durante a aula e sair do colégio porque recebi um telefonema de seu pai avisando que ela havia ido para o hospital outra vez, ou a ajudar quando ela tentava ir para o colégio e acabava não dando certo. eu vivia em prol disso. Camilla se recusava a parar de fazer as coisas costumeiras mesmo que estivesse incapacitada. Mesmo estando no hospital, às vezes quando dava uma melhorada ela me pedia um quadro e alguns pincéis para pintar o dia que via pela janela. Ela era minha inspiração de vida; não pararia até que a doença a derrubasse de uma maneira que ela não poderia mais se levantar.
  E então foi quando eu percebi, percebi que mesmo com tudo isso eu só conseguia amá-la um pouquinho mais a cada manhã; e que meu tempo estava acabando, e que eu não podia mais esperar. Eu não podia sequer pensar em deixá-la partir sem saber do mais importante; eu me culparia pelo resto da minha vida se não a falasse a verdade pela última vez. Percebi isso enquanto tentava pintar uma tela sozinho na aula de Arte no colégio, no meio de uma avaliação importante, quando eu precisava desenhar algo abstrato, mas tudo que conseguia imaginar era seu rosto.
  E então, nós nos encontramos na situação presente. Corri até a casa dela, pouco me importando com o colégio ou a suspensão que levaria, isso, é claro, levando a tela que acabara de pintar e precisava que ela visse.

  - Ela piorou, Liam. Foi para o hospital essa manhã. Antes disso, me pediu para cuidar de tudo caso ela não voltasse, e me pediu para te entregar isso – me deu um papel rosa dobrado em várias partes. – Mas só pode abrir quando... quando... você sabe, quando ela não conseguir mais aguentar.
  - Por que não me ligou?!
  - Ela pediu para não te ligar, porque queria que você conseguisse terminar a tela sem precisar se preocupar com ela. - Isso era tão típico de Camilla.
  Saí do jardim da casa dela sem nem dar tchau para seu pai, correndo até a padaria onde eu costumava ir todos os dias.
  - Ei, Liam. Como vão as coisas?
  - Ei, Harry.Tudo bem, me vê o de sempre? – parei no balcão, recuperando o fôlego.
  O garoto dos cabelos cacheados assentiu e colocou as duas rosquinhas, uma de chocolate e a outra de morango, dentro de uma caixinha de confeitaria e me entregou. Joguei algumas libras no balcão, porque não tinha tempo para passar no caixa.
  - Bom dia, amigo.
  - Bom dia! – saí gritando.
  Fui para o hospital o mais rápido que pude. Corri pelos corredores brancos e sem vida daquele lugar a procura do quarto em que a pessoa mais importante da minha vida se encontrava...

  - Hey, Cams, você ainda está aí, não está? – chamei-a. Eu gostava de falar com ela por mais que ela não me respondesse há dias; tentava acreditar que isso a ajudaria a melhorar. Eu era o único que ainda não havia perdido as esperanças disso. – Porque eu estou aqui. Estou te segurando, está sentindo? – apertei sua mão. – E eu nunca vou te largar; eu nunca vou te deixar ir. - Não houve resposta.
  - Trouxe algumas coisas para você, tudo bem? – me afastei dela e levantei da cadeira, indo até a cômoda ao lado da cama, onde havia algumas coisas dela junto com o que a trouxe. Peguei o potinho de comida para dar à Jessie que estava dentro do aquário quadrado. Eu disse que trouxesse Jessie para não ficar sozinha enquanto eu não estivesse aqui.
  Depois, abri minha mochila e tirei a tela que pintei de lá de dentro. Não era totalmente abstrato, mas para quem olhasse não faria o menor sentido, ao não ser para nós dois, é claro. Sentei ao seu lado colocando a mochila ao meu lado no chão.
  - Esse aqui é o píer. – apontei. – Aqui é a árvore onde você gosta de sentar quando o píer está molhado e você não pode ficar lá. Esses aqui são Jessie e Woody. Não, eles não estão voando, só estão nadando nas nuvens, porque eu não tinha como desenhá-los suspensos no ar sem sentido nenhum. Essa aqui é você, e me desculpe por não conseguir passar toda a sua beleza para a tela, mas nem Da Vinci conseguiria, acredite em mim. Olha, desenhei seus olhos bem grandes, porque na maioria do tempo é assim que eu os vejo. Dizem que os olhos são a janela da alma, e olhando para você não tem como isso ser mais verdadeiro; eles também brilham um monte, se é que você conseguiu perceber, eles sempre brilham. E se você parar e olhar de perto, eu os pintei com a mesma cor da minha rosquinha de chocolate. Sabe porque? Porque eles são tão irresistíveis quanto. – sorri. – Além disso, tenho que te dizer, eu acho que te amo, Cams. Eu te amo mesmo, e muito mais do que amo as rosquinhas. – cheguei mais perto e murmurei. – Consegue imaginar o tamanho do meu amor? - Soltei o quadro no balcão perto da janela, junto com os outros que ela havia pintado.
  - E aqui – peguei a caixa das rosquinhas e peguei a minha, deixando a dela aberta ao lado da cama. – Eu vou esperar você acordar, porque não posso comer sozinho.
E então eu esperei, por horas. O pai dela veio e a visitou, com cara triste e ar de despedida. As enfermeiras tentaram me tirar de lá, mas eu não saí. Elas até chamaram o médico para me falar que eu devia me despedir, porque não havia mais tempo, mas eu não saí. Eu não a deixaria, u prometi, e nunca a deixaria.
Acabei pegando no sono na cadeira ao lado da cama, ainda com a rosquinha na mão, e me acordei com um pulo quando ouvi meu nome sendo chamado baixinho. Eu não pude conter o sorriso em meu rosto ao ver seus olhos brilhando para mim.
  - Hey, garota. – respondi, também baixinho, e me aproximei. – Olha só o que trouxe para nós. – mostrei as rosquinhas.
  - Ah. – ela sorriu; e que sorriso. – Obrigada, Liam, mas eu acho que não tenho muito tempo.
  - Ah, não. Não, você não vai me fazer essa desfeita, vai? – peguei a rosa e coloquei perto do seu rosto. – Só uma mordida, vai, só uma.
  - Só uma, então. - Ela mordeu um pedaço pequenininho e mordi a minha no mesmo tempo.
  - Ótimo, agora eu estou feliz. – soltei as duas na caixa outra vez e as tirei da cama.
  - Liam, preciso te contar uma coisa. Você recebeu a carta que te deixei?
  - Sim, recebi. - Uma pausa para ela tossir. Sua voz estava ficando mais fraca.
  - Você não a leu, não é?
  - Não, eu não a li.
  - Ótimo. Estava com medo de não poder te dizer isso pessoalmente. – sua voz falhou incontáveis vezes.
  - O que é que você quer me dizer?
  - Chega mais perto. - Cheguei mais perto dela.
  - É uma pergunta, tudo bem?
  - Tudo. Mas, Cams, posso te dizer algo primeiro?
  - Sim. - Eu sentia que essa era minha única chance, então não a desperdicei.
  - Eu te amo. - Tudo bem se ela entendesse errado, eu não me importava, só queria que ela soubesse. Ela não disse nada por um tempo.
  - Agora é você, o que queria pedir?
  - Me beija? – saiu quase que inaudível, mas foram as palavras mais claras de toda a minha vida.
  Eu não hesitei em fazer o que ela pediu pela última vez. Eu sabia que era o fim, cheguei muito tarde. Eu falei muito tarde, esperei demais. A vida nunca seria o conto de fadas que eu imaginei ao lado dela, mas, pelo menos uma vez, eu pude sentir a sensação de tê-la; por alguns segundos, quando encostei meus lábios nos dela, gentilmente. Não importava o quanto eu sofri ou ainda sofreria, porque eu estava ali, eu olhei em seus olhos e eu a beijei, e eu posso dizer que ninguém nunca a amou como eu amei; e eu sempre amaria, eu nunca a esqueceria. E aquele foi nosso último primeiro beijo. Era melhor do que qualquer rosquinha de manhã cedo, qualquer tarde preguiçosa passada no píer sem fazer nada ou qualquer noite no sofá assistindo Friends. Aquele foi o momento que marcou nossa pequena história, a primeira e única garota que eu já amei com essa intensidade e o final de uma vida incrível. Porque segundos depois de me afastar dela e olhar em seus olhos pela última vez, eles se fecharam.
  E, pensando agora comigo mesmo, eu não me arrependo de nada que fiz ou do rumo que nossa história levou. Eu sei que ela foi uma pessoa incrível e fez tudo que poderia fazer para esse mundo. Ela ajudou tanta gente, e perdê-la foi uma grande lástima, mas sei, do fundo do meu coração, que se ela pudesse falar uma última frase, seria que sua vida valeu a pena. Ela mudou o mundo, mudou o meu mundo. Ela me salvou inúmeras vezes, me fez acreditar na vida, e criar um motivo a mais para viver. E todas as vezes que eu acordava de manhã comprava nossas rosquinhas e jogava pedacinhos no píer para alimentar os patos, como ela faria; e eu via o seu sorriso para mim sempre que o fazia. E por mais que procurasse por olhares brilhantes como os dela (e eu procurei) nunca mais achei.
  Mais tarde, nessa mesma noite, quando deitei em minha cama para tentar descansar, eu peguei o pedacinho rosa de papel em meu bolso; tinha o cheiro do perfume dela. Quando o abri, apenas quatro palavras, em sua caligrafia desenhada, sorriam para mim no papel:
  Eu sempre te amei.
  Não consegui não sorrir.
  - Eu também sempre te amei, Cams. – sussurrei.
  Quem diria. Um dia desses, uma garota, de olhos brilhantes em tom caramelo, mudou minha vida.

FIM



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