Kaer e Lith: Um conto de A Ordem



Escrito por |
Revisado por Natashia Kitamura

Tamanho da fonte: |


Capítulo Único

  O submundo estava um caos.
  Caminho entre os corpos que ainda estavam mornos. Podendo sentir as gotas de sangue caindo pelas minhas garras. Respiro firmemente, mantendo o controle do meu coração que parecia querer explodir a qualquer momento. Não existiam governantes no submundo . As famílias reais foram dizimadas, e não haviam dúvidas de que o verdadeiro motivo para isso acontecer era que queriam o nosso fim.
  As manhãs gloriosas se tornaram cinzentas. Hoje, você mata, ou morre. E eu não tinha nenhuma intenção de morrer, não quando eu era tão nova. Não quando eu tinha sido treinada a minha vida toda para isso.
  O fogo tomava conta do pequeno vilarejo que eu estava. Era isso que vinha acontecendo, dia pós dia.
  O submundo estava sucumbindo em uma escuridão devastadora.
  Um uivo distante faz com que eu volte a realidade.
  Baixo. Profundo. Capaz de fazer meu corpo se arrepiar por completo. Esse som era diferente dos sons que estive escutando até agora.
  O lobo não estava faminto, era um uivo de aviso.
  Parei para analisar o ambiente. Precisando me precaver para uma possível invasão de lobos contaminados. Eu lutava por mim mesma. Sem alcateia, porque ela tinha sido a primeira a ser atacada, mas não por lobos, e sim por caçadores.
  E é então que eu o vejo.
  Uma sombra se movendo pela floresta. Um lobo cinzento, maior do que qualquer outro lobo que eu já tinha visto até então. Ele estava sozinho. Não sinto a presença de nenhum outro lobo com ele.
  Apenas o observo.
  Seu pelo manchado de sangue, os olhos me encarando como se o fogo nunca fosse capaz de ser apagado.
  Ele faz seu caminho até mim. Um lobo preso entre suas presas.
  Isso não parecia me deixar com medo. Mas havia algo de errado naquela fúria que via em seus olhos. Era muito mais profundo... Era como se ele guardasse sua própria maldição.
  Ao se aproximar de mim, fico imóvel. Eu não sabia quem ele era, ou se ele era um inimigo.
  Ele joga o corpo daquele lobo em meus pés.
  Meu coração para. Mas não recuo.
  O lobo parecia se divertir ao mesmo tempo que começa sua transformação. É possível ouvir o som de pele rasgando e ossos se organizando, até surgir um homem em minha frente.
  Alto. Ombros largos. Os cabelos escuros como uma noite sem estrelas. Sem a lua para iluminar seu própria caminho. Ele parecia feroz. Seu rosto endurecido, como se estivesse cansado. Ainda assim, seus olhos estavam grudados nos meus, e ele sorri. Um sorriso perigoso, como se já me conhecesse.
  — Você está em um território que não é seu. — Falei, sem transparecer medo.
  — Até onde eu sei, esse território não é de ninguém. — Apesar de estar em sua forma humana, seus dentes ainda estavam manchados de sangue. — Estive procurando por você, .
  Meu corpo inteiro trava.
  Permito que minhas garras apareçam novamente.
  Ele me conhecia.
  E isso bastava para me deixar mais aterrorizada do que qualquer guerra que já estive.
  O silêncio entre nós parecia sufocante, assim como o fogo que tomava conta das pequenas construções ao nosso redor.
  Minhas costas pareciam arder com o calor, mas a única coisa que eu conseguia sentir era a presença daquele lobo. Ele exalava poder, muito poder e uma fúria incontrolável, que ele parecia controlar muito bem. E no fundo, parecia que era eu quem não conseguia controlar a minha própria fúria.
  Sinto meus dente ranger a medida que tento entender como ele sabia meu nome. Minha mão também se fecha em punhos ao tentar controlar minha ânsia de atacá-lo. Porém eu parecia paralisada, como se meu corpo não respondesse as minhas próprias ordens.
  O olho atentamente. Algo nele não fazia nenhum sentido.
  O lobo, que agora está em sua forma humana parecia me encarar de cima abaixo, e isso desencadeia mais uma onda de fúria.
  — Pensei que você fosse um pouco maior. —Ele fala suavemente, sua voz rouca. — E seu cabelo é ainda mais prateado do que eu imaginava. Parece que você foi beijada pela lua cheia. — Suas observações me deixam incomodada.
  — Não sei qual o seu poder, mas por que não me solta? Assim podemos decidir quem é menor aqui. — Minha voz soa ameaçadora, mas tudo o que ele faz é rir.
  Um sorriso lento e perigoso.
  — Conheço esse seu olhar. Já o vi antes. — Suas palavras novamente soam arrastadas. — Uma loba criada para nunca se ajoelhar. Que prefere morrer do que dar o braço a torcer...
  Meu coração para...
  Como ele sabia a forma que fui criada?
  — Você age como se me conhecesse... — Minhas palavras soam fortes, mostrando toda a minha determinação e o quão puta eu estava por não poder mover um centímetro do meu corpo até ele. — Mas eu nunca te vi na minha vida.
  Parece que minhas palavras o despertam, pois ele começa a se mover lentamente na minha direção. Como se estivesse caçando.
  Sinto o ar dos meus pulmões se esvaindo.
  Parecia que meus sentidos estavam dez vezes mais aflorados.
  Sinto o cheiro de sangue e de fumaça e não consigo bloqueá-los da minha mente. Só que tudo piora quando o seu perfume atinge o ponto mais baixo do meu corpo. Seu cheiro queimava minhas narinas de uma forma que nunca tinha acontecido antes.
  Nenhum lobo, nenhum... Tinha conseguido fazer isso.
  — Você pode não me conhecer. — Sinto sua boca tocando minha orelha enquanto ele sussurra. — Mas eu conheço você, a sua linhagem. E o melhor, sei porque você foi a única que sobreviveu...
  Sinto meu estômago revirar. Eu queria poder acabar com isso, mas o controle que ele exercia sobre mim era maior.
  Lembranças da noite do ataque corroem minha mente.
  Os gritos das crianças da nossa alcateia. A correria daqueles que não foram totalmente intoxicados... O desespero nos olhos dos meus pais...
  Fecho meus olhos, tentando dispersar essas lembranças.
  — E o que exatamente você sabe de mim? — Meus olhos faíscam ao voltar a encará-lo.
  — Sei que você não é uma loba comum. — Seus olhos eram tão escuros quanto os seus cabelos. — Sei que seus pais a treinaram para ser muito mais do que uma caçadora.
  — E para o que eles me treinaram? — Pergunto.
  — Para ser uma rainha, assim como eu. — Solto uma risada quando ouço o que ele fala.
  Mas no fundo elas me atravessam como laminas.
  Meus pais tinham dito que eu tinha um futuro pela frente, e por isso eu deveria viver.
  Mas ser uma rainha? Isso não estava em meus planos.
  Eu precisava sentir o sangue dos meus oponentes. Não fui feita para estar sentada em um trono.
  — Eu não preciso disso. — Solto um sussurro. — Muito menos que um estranho fique falando coisas sem sentidos na minha cara.
  Fico surpresa ao ver o sorriso dele diminuindo. O ar parecendo faltar novamente.
  — Sei que você não precisa de um rei ao seu lado. — Ele se aproxima novamente. — Mas você precisa de alguém que lute pelos seus ideias.
  — E quem disse que preciso disso? — Dessa vez sinto sua força ceder e avanço em sua direção, o agarrando pelo pescoço.
  — Ninguém sobrevive sozinho. Nem mesmo você, . — Os olhos dele se estreitam em surpresa. Suas pupilas dilatadas.
  Suas palavras fazem calafrios percorrerem minha espinha.
  Seu olhar era tenso, e novamente sinto que o conhecia de algum lugar. Apenas não conseguia lembrar de onde.
  — Diga isso por você. — O solto, mesmo que uma parte de mim não quisesse fazê-lo.
  — O tempo está acabando, ou você aceita minha ajuda, ou você morre, aqui e agora. — Suas palavras são frias.
  — Por quê? — Pergunto.
  — Porque o que está à espreita irá matar você se não aceitar minha ajuda.
  Suas palavras queimam através da minha pele, enquanto sinto o chão tremer. As chamas ao nosso redor pareciam tornassem ainda mais fortes. Elas eram lambareiras, vibrando através de um grito muito conhecido, e temido.
  Eidak...
  Para a minha infelicidade, não era apenas um, mas vários. Eles avançavam em nossa direção como se esperassem por nos encontrar ali.
  Era possível ver as cores se perdendo conforme eles iam se aproximando. Sussurros de feitiços antigos tomavam conta do lugar. Eu podia sentir sangue saindo pelos meus ouvidos, mas eu não os deixaria passar, nem que isso tomasse minha vida.
  Avanço sem pensar duas vezes. Minhas garras cortando o ar enquanto tento pega-los. Mas eles manipulavam as sombras, essas que me atacam por trás. O impacto me fazendo cair por cima do meu braço. Levantei, soltando um rosnado de fúria. Eu não podia me dar ao luxo de me transformar, pois isso me deixaria em desvantagem, por isso luto com tudo o que eu poderia.Os Eidak não lutavam com seus corpos, eles lutavam manipulando magia. Uma magia proibida em nosso mundo.
  Uma sombra paira ao meu lado, dessa vez diferente da manipulação dos Eidak. Quando olho, percebo que o lobo estava comigo. Não transformado, mas como um humano.
  Ele manipulava as sombras.
  — Por que não usa o seu poder? — Suas palavras são ditas propositalmente baixas, para que apenas eu escutasse.
  Sinto meu coração acelerar. Como ele sabia sobre isso?
  Eu poderia atacar, mas isso revelaria meus poderes. E meus pais foram claros sobre a exposição deles. Eu não podia , mesmo que isso significasse minha morte. Mas para minha surpresa. Ele se ajoelha na minha frente. Suas mãos abertas, se oferecendo como uma ponte.
  Fico tentada em aceitar. Fazia muito tempo desde a última vez que o usei.
  — Não hesite. Se você demorar mais um pouco, nós dois morremos.
  Sua voz não passa de um sussurro novamente. E não penso duas vezes, deixo meus extintos ultrapassarem o meu bom senso.
  No momento em que seguro sua mão. Suas sombras percorrem cada parte do meu corpo, se unindo a mim. Como se soubesse a quem pertencia. Mas não é fácil. Eu nunca tinha aceito ajuda, essa tinha sido a primeira vez, e o poder que eu sentia pulsar em minhas veias era maior do que um dia imaginei.
  Ergo minhas mãos, invocando todo o poder da lua. Fazendo com que meus cabelos flutuassem e a energia tomasse conta de mim. Fria e cortante. O vilarejo é dominado pela luz do luar. E os Eidak começam a se afastar.
  Lua e sombras se entrelaçando, formando um poder pulsante capaz de acabar com os inimigos que se aproximavam de nós.
  Eu podia começar a sentir meu corpo inteiro tremer. Meus braços aos poucos começam a voltar ao normal, como se eu estivesse perdendo minha magia lentamente.
  Minha respiração estava descompassada enquanto encaro o homem que havia me ajudado a afastar todos aqueles Eidak, garantindo que eles não avançassem.
  — Quem é você? — Eu ainda conseguia sentir sua energia pulsando dentro de mim.
  — ...
  Ele ergue seu rosto, e arregalo meus olhos.
  Não podia ser. Eu achei que todos tivessem morrido.
  — O príncipe exilado... — As palavras morrem à medida que minha ficha cai. Obviamente ele sabia sobre mim. Ele era o futuro do submundo.
  O rei por direito.

CONTINUA...



Comentários da autora

  N/a: Vocês devem estar se perguntando, porque eu escrevi uma história sobre os reis do submundo, certo? A realidade, é que eu precisava trazer eles. A história deles . Afinal, o submundo de A Ordem só é o que é por tudo o que eles fizeram pelos seres que habitam aquele lugar.
  O submundo, é muito maior do que qualquer pessoa possa imaginar. Muito maior do que a forma rápida que vemos em A Ordem. Isso porque a história lá se passa no “Reino Humano” e não dentro de “Nerath” que faz parte de “Elandra”.
  Acho que vou parar por aqui para não dar mais spoilers. Espero que tenham gostado dessa história, e de saber um pouquinho sobre os nossos reis.