I Shouldn't Miss You
Escrito por Lily Rose
Outra vez a felicidade delas incomodava alguém infeliz. Eu sabia o mal que isso causava a mim mesma, mas eu precisava saber que ela sentia minha falta. Ela não sentia absolutamente nada. Saber disso era a minha ferida.
Alguns amigos meus constantemente tentam evitar o assunto, porque eles também são amigos dela. Eles não sabem o que aconteceu, tudo o que sabem é que nós brigamos e terminamos do modo como começamos: a partir do zero.
Eu me lembrava de quando todos nós nos conhecemos. Ela era linda, estava feliz e acompanhada de várias pessoas. Eu estava com alguns conhecidos que arrumei por lá. Nós ficamos sem compromisso, mas havia algo entre nós que nos atraiu, bem, pelo menos atraiu a mim. Por muito tempo acreditei que seríamos algo que dificilmente se vê por aí. A cumplicidade, nosso modo de ver o mundo, nossos segredos e passatempos.
Eu tentava não ligar, mas sabia que agora outra pessoa estava no meu lugar. A outra garota que agora era alvo de todos os olhares que eu amava, é como se não existisse mais nada no mundo. Elas passam por mim, mas é como se eu não estivesse lá.
Há algum tempo, os olhares dela seriam direcionados a mim. Eu não queria admitir, mas talvez todos estivessem certos, talvez eu não significasse algo como a nova namorada dela significava.
Encarando o teto, eu passaria mais uma noite sem dormir pensando em tudo o que nós poderíamos ter sido. Todas as nossas viagens, nossos feriados na casa de praia do meu pai, nossas conversas ao telefone. Havia tanta coisa que eu queria dizer para ela, mas ela não me ouviria. Ao mesmo tempo, eu não queria ter que olhar para ela e me lembrar de tudo, dos nossos últimos minutos de alegria até eu descobrir que havia outra pessoa na vida dela. As ligações, os encontros às escondidas, as mentiras. Eu via tudo tão claramente diante dos meus olhos, mas ainda assim sentia falta dela, mesmo querendo distância, mesmo sem confiar nela.
Eu queria evitar tudo o que me lembrava dela, mas eu a via em todos os lugares, minhas paredes ainda possuíam sua cor, algumas roupas dela estavam esquecidas na minha gaveta. Eu sabia que ela não voltaria, eu sabia que jamais usaria nada do que estava ali, mas ainda precisava guardar cada pedaço do que restou da minha "namorada".
Ela foi a primeira pessoa que me fez chorar em muito tempo, eu já não me lembrava mais da sensação e descobri que era bem desagradável.
A bebida que eu trouxera comigo não tinha gosto algum, todavia continuei a beber. Resolvi sair dali. Abri a porta e desci as escadas da casa em que eu cresci. Eu estava na casa dos meus pais novamente, havia sentido tanta falta dali, por isso voltei, eu achei que me faria bem. Caminhei até a cozinha com a garrafa na mão, então encontrei meu pai sentado à mesa, bebendo chá.
- Pai? - chamei-o. Ele me encarou com um sorriso caloroso como sempre fazia. - São três da manhã...
Meu rosto provavelmente estava inchado e vermelho, eu estava uma bagunça. Meu pai deu uma risadinha triste, encarando a xícara.
- Eu estava me lembrando da sua mãe... - ele falou. - Ela costumava dizer umas coisas...
Ele continuou rindo por mais alguns segundos, antes de parar e manter apenas aquele sorriso. Ele parecia ter tanta coisa na mente, ainda assim, seu sorriso sereno permanecia no rosto. Desde criança eu via seu modo atencioso com as pessoas, não apenas com a minha mãe, mas com qualquer pessoa que procurasse nele um ombro. Seus amigos eram como parte da família, ele os tratava como irmãos e irmãs. Uma pessoa boa, realmente. Depois que minha mãe foi embora, ele tinha dois filhos pequenos e uma casa para cuidar sozinho, mas nunca desistiu de nos passar o melhor. Mesmo depois de abandonado pela esposa, ele nunca desistiu de acreditar em sentimentos, no amor, na amizade verdadeira ou nas pessoas. Aquele homem era o maior exemplo de bondade que eu já vira.
- Pai, você sente falta dela? - perguntei, me sentando.
Ele me olhou, ainda com aquele sorriso.
- Sim... Às vezes, um pouco mais frequentemente do que eu gostaria. - sua voz era doce e calma.
- E você gostaria que ela voltasse?
Sem demora, ele balançou a cabeça negativamente, ainda com a expressão serena no rosto.
- Não... Tem pessoas que saem da nossa vida por uma razão, minha filha, mesmo que isso machuque, partidas são necessárias. Pessoas precisam ir embora por motivos que descobrimos com o passar do tempo.
Abaixei o olhar e encarei a garrafa nas minhas mãos, afastando-a depois de um tempo. Meu pai tinha razão, e não valia sofrer por causa de algo que não tinha remédio. Nós constantemente buscamos a cura de coisas que não são males, são apenas situações que ocorreram e acabaram, mas que nós mesmos resgatamos e trazemos à tona.
Always missing people that I
Shouldn't be missing
Sometimes you gotta burn
Some bridges just create
Some distance
I know that I control my thoughts
And I should stop reminiscing
But I learned from my dad
That it's good to have feelings
Meu pai e eu passamos a noite conversando. Rimos, jogamos jogos aleatórios. Ele me acolheu e era como se eu tivesse oito anos novamente. Eu falei sobre ela, pois talvez fosse disso que eu precisasse, falar sobre isso. Falar sobre como eu sentia falta dela, sobre todos os nossos momentos juntas, sobre todas as vezes que ela passava por mim e fingia que não me conhecia mais.
Ele me entendia como ninguém. "Talvez seja mal de família", brincou. Talvez fosse nosso azar mesmo.
Nós conversávamos sobre ela e sobre a minha mãe de vez em quando. Pois talvez precisássemos disso. Eu sentia que ela não era mais parte de mim aos poucos, mesmo que ainda sentisse que a amasse, eu a queria um pouco menos dia após dia.
Eu sinto a sua falta, mas não sinto muito. Eu sei que você não liga, mas esse é meu objetivo, parar de me importar também. Você é especial e eu espero que seja feliz, mas não espero que você esteja ao meu lado novamente.