Imagine All

Escrito por Meeg Lima | Revisado por Pepper

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“This is the story of a girl
Who cried a river and drowned the whole world”

  O Sol começava a se apresentar. Era como um espetáculo, logo o Grande Astro ia roubar toda a cena, ia ofuscar qualquer outra estrela. Pelo menos era o que Drew pensava, ele era diferente, via as coisas de formas diferentes. Era bom ser diferente.
  Sentado na areia da praia, observava o céu ir mudando, se colorindo com novas cores e formas. Seu violão estava no colo, seus dedos dedilhavam uma versão mais calma para Drive, uma de suas músicas preferidas. Quem visse diria que ele estava drogado, ou era só mais um adolescente Hippie qualquer. A Sociedade o julgava assim, não é? Drew piscou algumas vezes e voltou seu foco novamente para o brilho no mar, o Sol que renascia.

“I say bless me with a heart of gold
Positivity and a story to be told”

  O costume era a banda visitar lugares considerados Cool, que tivesse uma vibe mais praiana, juvenil. Lugares felizes e badalados. Porém, resolveram fazer um programa que Drew gostava mais, não que os outros não fossem se divertir, mas era mais o jeito calmo e espiritualizado do rapaz. O lugar em questão era a Rose’Mary Lether House*, uma instituição não governamental que visava cuidar, abrigar, ajudar e, se possível, curar pessoas com câncer.
  A Lether House – como é conhecida – existe desde 1971, no principio era um orfanato, porém quando a filha mais nova da criadora, Amy Lether, teve Leucemia, em 1992, o local começou a abrigar famílias que possuíam filhos com a mesma doença. A Sra. Lether buscava uma forma de curar a filha, buscava em outras crianças o conhecimento da doença. No ano seguinte quando a filha veio a óbito, a Sra. continuou sua busca por melhores condições de vida dos doentes, ajudava a financiar pesquisas que procuravam a cura do mal. Com o falecimento da matriarca, em 1998, a filha mais velha, Riley, assumiu o poder e transformou a Lether House em uma das maiores referencias na luta contra o câncer.
  Drew estava empolgado, não parava de falar sobre a ida ao local, Keaton estava também empolgado, mas não igual ao primeiro. Wes achava engraçado ver os dois assim, mas estava preocupado com o Chadwick, o conhecia a tempo suficiente para saber o que essa simples visita podia fazer com ele.
  O prédio que funcionava a instituição era grande, nas cores verde e branca, com gigantescas janelas e uma fachada incrível. Não se parecia com um Hospital, mas sim com um prédio de apartamentos qualquer. O Hall era colorido, as cores azul e roxo predominavam, os moveis eram em maioria brancos, mas com adornos coloridos. Um imenso balcão ocupava a parede do outro lado do imenso corredor que tinha ali. Lane, a gerente de marketing deles, foi até lá, deixando Wes filmando algo com o celular e Drew e Keaton falando sobre algumas músicas que poderiam tocar. Quando retornou deu algumas instruções para eles, que nem se dignaram a ouvir. Bom, o Stromberg mais novo ouviu, mas não colocaria todas as em prática.
  Foram até os elevadores e se dividiram em dois grupos e se dirigiram até o sétimo e último andar, onde ficavam os pacientes acima dos 20 anos. O instituto tratava um total de 437 pessoas, 200 delas internadas no prédio, sendo elas de todos os sexos e lugares diferentes, a partir dos seus um ano de vida.
  A primeira parada no sétimo andar fora rápida, ficaram em torno de uma hora lá, tocaram alguns covers, deram alguns autógrafos e conversaram. No andar não tinham mais do que 23 pessoas, em maioria homens. Só ficavam ali internados casos realmente graves, a outra porcentagem dos enfermos podia aproveitar a vida do lado de fora, vivendo em suas casas e empregos, seguindo com suas rotinas.
  A próxima visita era uma das mais aguardadas por eles, era o sexto andar, onde os pacientes tinham entre 13 e 19 anos. Foram informados que lá tinha 72 pessoas, sendo 49 garotas. E que tinham uma boa base de emblem3rs* ali, em torno de quatorze meninas e dois meninos. Era uma visita surpresa, ninguém sabia que eles iriam ali.
  – Rapazes, nós vamos até o quarto andar, onde será feito um pocket show* para o pessoal. Não poderemos ir até a área juvenil, porque todos estão almoçando no refeitório. Que é no quarto andar. Sim Keaton, você pode almoçar antes de se apresentar. – Lane disse e o menino sorriu, fazendo Wes revirar os olhos.
  Por ser hora do almoço boa parte das alas, pacientes e funcionários estavam no refeitório, os três meninos e sua equipe foram até a fila que já se extinguia, o que chamou atenção de algumas meninas, que logo se puseram a gritar. Em meio minuto todo o ambiente era repleto por gritos e choros.
  – Não achei que fosse acontecer isso. – Wes tinha seus olhos arregalados.
  – Elas são tão rápidas e eufóricas quanto qualquer outra fã. – Keaton disse ao contar mentalmente três câmeras, dezoito celulares e oito tablets. – Aquela menina tá usando um celular e um iPad. – apontou para uma menina de aproximadamente sete anos.
  – Acho que vamos ter que fazer o show antes de comermos. – Lane murmurou mais para si do que para eles.
  – Nem venha, estou com fome. – Keaton disse e pegou um prato, já se servindo de uma boa quantidade de macarrão.
  Drew não esperou por uma reação de Lane, ou um posicionamento de Wesley, foi até uma mesa e subiu encima de uma cadeira, todos olharam para ele. Drew não precisava fazer muito esforço para pedir silêncio, elas não aguentavam tanto esforço, logo seus gritos sumiram.
  – Oi, sou Drew da Emblem3. – alguém respondeu com um “hm, é mesmo?” – E agora nós vamos almoçar, mas depois disso vamos nos apresentar e tirar foto com todas vocês. Queria tocar agora, mas não tem nenhum amplificador por aqui e a acústica é horrível para uma apresentação sem equipamento. – ele juntou as mãos e as esfregou – Bom, é isso.

“He's got a unique philosophy
Sings about love and harmony”

  Após o almoço e a sobremesa, que foi repetida duas vezes, uma vez que era bolo de sorvete, descobriram que o mini palco já estava montado. Apresentaram músicas como: Chloe, One Day, Jaiden, Curious, Reason, 3000 Miles e covers como This Love do Maroon 5, Get Lucky do Daft Punk e Best Song Ever do One Direction. Foram um total de nove músicas mais os três covers.
  Depois da apresentação tiveram uma pausa de uma hora, onde assinaram alguns autógrafos e tiraram algumas fotos com alguns funcionários. Em seguida retomaram com a visita e foram até o sexto andar, visitar a ala juvenil.
  Os três se dirigiam até um quarto particular, onde uma garota de 17 anos vivia. Sabiam que ela estava ali há seis meses, tinha sido diagnosticada após parar em um hospital por não se alimentar direito e desmaiar. Quando a noticia da Leucemia apareceu a família passava por um momento de luto, a garota tinha perdido o pai em um acidente de carro. Acharam que por esse motivo ela se recusava a comer e se isolava, alegando estar cansada demais e que precisava dormir. A perda de cabelo também podia se passar por um dos sintomas da depressão, que a família acreditava que a menina sofria. Até o dia em que ela desmaiou na rua e foi encaminhada até um hospital, seu exame de sangue mostrava claramente que ela tinha leucemia, e também uma anemia. Sendo descoberto ainda no inicio poderia ter tratamento para cura facilmente e era por isso que ela estava ali.
  Wes bateu na porta e uma senhora de cabelo escuros presos em um coque os recebeu, ela tinha um sorriso feliz e olhos cansados.
  – Ah, vocês. – ela disse e soltou um riso fraco. – Me desculpe, mas eu esqueci os seus nomes. – um a um foram se apresentando. – Eu sou Jane, aquela é minha filha . – apontou para uma menina que dormia na cama.
  – Ela está dormindo? – estupidamente, Wes perguntou.
  – Bom, foram muitas emoções na hora do almoço, não é? – ela deu uma risadinha – se cansou e acabou adormecendo na volta ao quarto.
  – Acho melhor voltamos aqui depois então. – Keaton disse e a senhora deu um sorriso concordando com a cabeça.
  – Ela tem que acordar às 16h para tomar remédio, se ainda estiverem por aqui...

“I got a vision
To make a difference
And it's starting today”

  – Já podemos ir. Fizeram um bom trabalho hoje rapazes. – Lane sorriu ao fim da frase.
  – Nós ainda não visitamos aquela menina. – Keaton lembrou.
  Após visitarem todos, com exceção de , eles estavam realmente cansados, tanto fisicamente, quanto emocionalmente.
  – Falamos que íamos voltar, então temos que ir lá, certo? – continuou.
  Sem dizer mais anda os outros dois concordaram com a cabeça e voltaram se arrastando para o elevador. Duas batidas na porta e foram recebidos por uma menina e não por Jane. Ela tinha olhos , era menor que o Keaton e usava um short jeans desfiado. Seus olhos arregalaram ao ver os três meninos ali.
  – Você é a , né? – Drew quem perguntou, ele tinha um lindo sorriso nos lábios, a menina só assentiu.
  – Nós somos o Emblem3. – Keaton disse e recebeu um pedala do irmão mais velho.
  – É óbvio que ela sabe quem nós somos, ela viu nosso show. – se virou para a menina – Podemos entrar? Nós queremos sentar um pouco.
  – Desculpe. – ela sussurrou e deu passagem para os três, para Lane e para um segurança.
  – Cadê sua mãe? – Wes perguntou assim que se jogou em uma das poltronas do quarto, Lane se sentou no sofá junto com Keaton. Drew se sentou na beirada da cama.
  – Foi buscar meu irmão na escola e leva-lo para a casa da minha tia. Ela disse que vocês viriam, mas não acreditei.
  – E por que não?
  – Sei lá, talvez porque vocês estariam cansados demais, teriam outras coisas para fazer. – deu de ombros.

“Destination desolation, tell me when you reach the brink of life”

  Keaton estava sonolento e quase dormia no sofá, Wes conversava com a garota, falavam sobre shows que já foram e que queriam ir. Drew andava pelo quarto e via as fotos que tinham ali. Havia uma fotografia da mãe dela com um homem, que ele acreditava ser o pai dela; uma da mãe com um menino de uns oito anos; outras de dois cães; um grupo de adolescentes; outra de duas meninas.
  – Quem são essas? – Drew levantou o porta-retratos no ar e atrapalhou a conversa.
  – São minhas melhores amigas, Bree e Dakota. – a menina respondeu e retirou com cuidado o objeto da mão dele, olhou ele com um sorriso triste e o devolveu ao lugar de origem.
  – Você não tem fotos suas? – perguntou, a menina negou com um seco não. Drew não se abalou e continuou – E por que não?
  – Não gosto de ver fotos antigas. – involuntariamente a mão dela foi até próximo a orelha, parando perto do pescoço, ela passou a mão onde antes deveria ter um longo cabelo brilhoso, mas que agora não tinha nada além de um vazio. Sua expressão era igualmente vazia. Seus olhos imersos em lembranças tristes.
  Todos baixaram os olhares, não era a primeira vez no dia que se deparavam com algo como aquilo. Muitas garotas choraram quando falaram de seus cabelos. Era como tirar o poder de Sansão, elas perdiam não só a força, mas também a felicidade. A vitalidade. Não era só a questão de perder o cabelo, mas era algo mais vaidoso, mas íntimo. Era inexplicável o que acontecia. O sentimento era triste, era... como ver a esperança de ser uma piada morrer.
  A menina fungou e ajeitou a postura, voltando para a cama e se sentando, esses atos pareceram mais difíceis do que poderiam ser. Em outra ação involuntária sua mão foi até o aparelho celular, checou se tinha recebido uma nova mensagem. Nada. Era decepcionante saber que as pessoas tinham medo.
  Drew analisou a figura da menina, era frágil e pequena como uma bailarina, uma boneca de porcelana. Sua pele parda estava translucida, quase como o branco, algumas manchas eram vistas em suas coxas, provavelmente embaixo de seu moletom também existiam outras. Suas pernas tinham um lindo desenho, um contorno bonito, mas não eram preenchidas. Ela estava magra, mas não uma magreza saudável; isso a tornava mais necessitada de cuidados. Seus olhos foram até os de Wesley, que provavelmente pensava o mesmo que ele, ou não.
  – Você gostou do nosso show? – Drew quebrou o silêncio e foi até o violão que estava perto do Stromberg mais novo, que cochilava tranquilamente.
  – É, foi legal. Gostei bastante dos covers de vocês, ficaram bons.
  – Quais bandas você gosta? Talvez quem sabe, eu e o Wes não tocamos sua música favorita? – Drew piscou para ela.
  Iniciaram uma conversa sobre música, discos, bandas e possíveis junções de bandas. Era divertido ver as reações dos dois quando ela falava de suas preferencias, como podia uma menina tão pequena ter um gosto musical tão absurdamente grande e bizarro?
  – Sabe cantar?
  – “I took my time, I hurried up / The choice was mine, I didn’t think enough / I’m too depressed to go on / You’ll be sorry when I’m gone”*. – cantarolou – Isso responde a sua pergunta?
  – WOW!! – os dois rapazes disseram em união. – Sabe cantar alguma música nossa? – Drew continuou.
  – Eu sei a letra de Curious.
  – Acorda o Keaton que nós vamos tocar Curious mais uma vez. – Drew estava empolgado.

“I'm so lonely, but that's ok
I shaved my head, and I'm not sad”

  Ao terminarem a música Jane chegou, tocaram Sunset Blvd e resolveram conversar sobre as viagens e fãs de todo o mundo. A garota estava encantada com as historias deles, queria um dia fazer como eles, viajar o mundo fazendo algo que gosta.
  Suas esperanças se baseavam em se curar e ir viver. Queria pela primeira vez ter a sensação de que está vivendo. Queria poder dizer em seu leito de morte, que por Deus não fosse ali, que algum dia ela viveu. Imagina poder contar aos netos que escalou uma montanha? Que fez uma trilha na Floresta Amazônica? Que viu um show comemorativo dos Rolling Stones? Que esteve na África ajudando ao próximo? Que pudesse pelo menos dizer que venceu o câncer.
  Ela sonhava com esse dia. O dia em que poderia dizer que foi mais forte. Que sobreviveu.
  – . – Drew a chamou – Você ficou calada do nada, tudo bem? – Drew estava preocupado com ela. Drew estava preocupado com . estava nas nuvens. – Quer que eu chame algum enfermeiro? Ou sua mãe? – A preocupação dele tinha nome, Leucemia. Ele tinha medo. A preocupação era pena.
  – Sim, está tudo bem.
  – Você pode sair? Algumas garotas podem, você pode? – Wes tinha arrastado sua poltrona até próximo à cama, onde estava sentada.
  – Eu posso, mas...
  – Você pode sair hoje? Você poderia ir à praia conosco, ver o Sol se pôr. Você tem que assistir o Drew vendo o Sol se pondo, ele fica que nem um chapado, fala meia dúzia de filosofias. É muito engraçado, !
  – Não posso sair assim do nada Wes, embora eu queira, não posso. Tenho que pedir autorização médica antes. E mesmo assim, seria estranho. – as palavras eram cuidadosamente escolhidas, não podiam revelar o verdadeiro motivo para a recusa.
  Sua vaidade, sua vontade de existir, tinham ido embora junto com seu último fio de cabelo. Como ela poderia se achar bonita se nem cabelo tinha? Se não podia usar nem maquiagem para tentar amenizar os estragos da quimioterapia? Ela não queria que os outros vissem como ela era feia. Porque sim, ela se sentia feia. Um monstro, uma aberração. Não podia sair enquanto estivesse horrível do jeito que estava. Sem cabelo, com manchas e magra. Fraca. E se se sentisse tonta, se vomitasse? Preferia não passar por isso. Fraca.
  Era difícil ver e sentir os olhares, os julgamentos. Ela nunca estaria pronta para isso. Ela tentou, viu como podia ser doloroso. Seus próprios amigos... Seus próprios amigos a trataram diferente. Medo em seus olhos, em seus atos; pena em suas palavras. “Você vai ficar bem, vai superar isso”, “Você está bonita”, tantas frases fabricadas, sem sentimentos. Eram ditas para melhorar o ego deles, amenizar a culpa e pena. Ela não queria que estranhos agissem igual aos antigos amigos. Não, ela não queria, não precisava.
  – Então vamos marcar com sua mãe uma ida ao cinema conosco. Vai ser legal, vamos deixar até você escolher o filme. – Wes sorriu – Mas nada de filmes românticos, por favor, não queremos o Keaton chorando.
  Drew observava a cena. Ele sabia o porquê dela ter recusado, sabia que também recusaria esse novo convite. Ele só queria entender o porquê ela tinha a autoestima tão afetada; ela era tão linda. Wes anotava o número do celular dela, e de quebra anotava também o Twitter, o Facebook, o Instagram... Wes estava fazendo o trabalho completo. Drew gargalhou ao reparar.
  – Você é retardado, não é? – Wes perguntou, mas não esperou por resposta, apenas afirmou com a cabeça – Tem Snapchat?
  A porta foi aberta e Jane e Lane entraram. A mais velha tinha em mãos uma bandeja com a janta da filha, Lane mexia em seu celular.
  – Rapazes, nós temos que ir. – informou – Wes, acorde seu irmão, Bob já está lá embaixo com o carro.
  Wes se levantou e chacoalhou o mais novo, que acordou assustado e reclamando. Wes foi até a menina e deu abraço desajeitado, pois tinha medo de machuca-la. Keaton apertou a mão dela e fez um toque estranho, ele estava envergonhado demais, principalmente por ter dormido. Drew foi até ela e deu um beijo na testa dela, um beijo demorado. Era um pouco invasivo e intimo, mas no momento ele não pensou em consequências, nem em restrições.
  – Até outro dia.

“And even though I might, even though I try, I can't”

  Dois meses de tratamentos, dois meses lutando pelo sonho de viver algum dia. Dois meses em que desejava ser forte.
  Durante esse tempo muitas coisas aconteceram, ela começou a reagir de forma positiva ao tratamento. Ganhara uns dois quilos, não tinha mais enjoos e dores constantes, as aparições de manchas diminuíram. Seu cabelo tinha crescido e davam coloriam a sua antiga tristeza. E Emblem3 tinha se tornado um grupo de torcedores pela sua cura.
  Wes diariamente mandava fotos dele e dos meninos, mas mais dele, pelos aplicativos e redes sociais. Mandava vídeos, mensagens, cantava para ela. E comprava um monte de revistas onde ele (e a banda) saía e mandava para ela. Keaton vinha visita-la uma vez por semana e eles passavam horas assistindo filmes, depois falando sobre música. Ele inclusive compôs uma música com . Drew vinha visita-la também, porém com mais frequência, costumava conversar com ela. Conversava sobre tudo, música, viagens, vida, livros, experiências... Tudo. Drew se saía um ótimo amigo.
  Chadwick buscava entender mais sobre ela, sobre o que ela sentia. O que ela pensava. Ele se sentia fascinado por ela, cada vez mais louco. Cada vez mais necessitado dela. Drew precisava entendê-la, protegê-la. Cura-la de si mesma.
  – Toc, toc. – ele disse ao abrir a porta. estava deitada, tinha um livro em suas mãos. A TV ligada baixinha exibia algum desenho. Entrou no quarto e foi até ela, dando um beijo em sua testa e lhe entregando um simples buquê, que ele mesmo tinha colido no jardim do seu prédio – Jane está com seu irmão?
  – Hoje ele teve uma festa de algum coleguinha para ir. – a menina deu de ombros e passou os dedos pelas pétalas das flores. Era um risco trazer flores para ela, principalmente flores que ficavam expostas a tantos perigos, tantos diferentes tipos de germes. Ela poderia pegar alguma infecção, mas não ligava. Gostava de receber os buquês de Drew.
  E não, Drew não sabia dos riscos que trazia em seus buquês de quatro flores diferentes. Não sabia que podia talvez até mesmo mata-la trazendo flores que representavam o quanto ele gostava dela. Como o simples, até mesmo malcuidado, poderia ser tão belo.
  – Quais suas flores preferidas? – Drew foi espontâneo ao perguntar. Uma hora observava como passava levemente os dedos por uma flor silvestre qualquer, na outra queria comprar um buquê caro, com as flores preferidas dela. Talvez até fazer uma serenata*. Arriscar um beijo.
  – Não sei, não conheço sobre flores. Talvez sejam as tulipas ou as orquídeas.

“Can we learn to get by if we learn to have scars
If we learn to forgive and accept who we are”

  Drew tinha em mãos um buquê grande e colorido, tulipas das mais variadas cores. Eram dezoito flores ao total, representavam o décimo oitavo aniversário da menina que aconteceria no fim da semana. Como ele não estaria ali no dia correto, pois começaria uma nova Tour, se adiantou em dar o buquê pessoalmente. Seus olhos vagaram até os dois vasos com orquídeas, um estava na cômoda onde estavam as fotos e outra ao lado da cama.
  O rapaz esperava por , a menina tinha ido fazer uma radioterapia, pois reclamava muito das dores, infelizmente na última semana a menina tinha voltado com as dores e enjoos. Drew estava preocupado, há tempos que ela estava bem, sem complicações, mas há dois dias que isso mudou, dores, enjoos e ontem ela tinha acordado com febre alta.
  A porta foi aberta, Jane entrava no quarto, atrás de si vinha em uma cadeira de rodas empurrada por um enfermeiro. Drew se levantou, pronto para ajudar no que fosse preciso.
  – Drew, você de novo meu rapaz. – Jane sorriu para o menino, seus olhos fixos no grandioso buquê. Suspirou, olhou para a filha e viu um sorriso brotar nos lábios dela, inconscientemente o de Jane aumentou. Era perigoso de tantas formas, mas certo de tantas outras. – Acho que vou à cantina comer algo.
  Antes que ou Drew pudessem quebrar o contanto visual e absorver o que fora dito pela mais velha, Jane já estava longe dali.
  – Trouxe pra você. – Drew estendeu o buquê, se abaixando para ficar da altura da garota.
  – Não precisava Drew. – ela colocou as flores sobre o colo, se sentia tonta, queria apenas dormir, mas não podia ignorar Drew. Drew um dos únicos que ainda se importava com ela, de verdade.
  Antes que ela pudesse tentar se locomover Drew pegou as flores e colocou sobre a poltrona, fora uma ação rápida. Tinha que ser rápido. Foi até ela novamente e passou seus braços com muito cuidado pelas pernas e costas dela, suspendeu no ar e a transportou para a cama.
  – , eu queria falar com você. – começou – Um assunto sério. Sei que não é a melhor hora, pois sei que você está cansada, só que se não falar logo, acho que vou estourar. Vou estourar como um balão. – Drew parou para pegar ar e seus olhos foram de encontro com os da menina.
  – Tudo bem, Drew. – a tinha os olhos espremidos em uma linha fina, um sorriso simples nos lábios. O peito descia e subia calmamente pelo vestido rosa. Drew colocou uma das mãos na lateral do rosto dela, o polegar fazia um carinho na bochecha. Ele também tinha um sorriso simples em seus lábios.
  – Eu gosto muito de você, , gosto muito mesmo. – ele suspirou as palavras. Todas elas saíram de uma forma tão doce pelos lábios dele; não precisavam ser altas para ser claras, um sussurro bastava.
  – Obrigada Drew, – levou uma de suas mãos até a dele, colocou por cima da mão quente dele, impedia que continuasse com o carinho – mas não. Não é um livro, não é um filme, nós não vamos travar uma batalha juntos, não vamos vencer. Talvez eu não tenha cura, talvez eu morra amanhã. – ela suspirou e fechou os olhos – Como disse não é um filme, não posso dar certeza de que haverá um final feliz. Não é drama, é a realidade.
  – Você não tem esperanças? – a mão de Drew foi até a outra dela, a que repousava sobre a barriga – Você desistiu? Não estou dizendo que serei um soldado em sua própria guerra, estou dizendo que gosto de você. Que quero vê-la feliz, que quero fazê-la feliz...
  – Drew, por favor. – ela suplicava em voz baixa – Não torne as coisas em uma peça. Olhe pra mim, você vê uma garota quebrada, cansada, doente. Você quer me ajudar, quer fazer o bem. Você gosta de mim por que tem pena.
  – Qual é, . – Drew se afastou bruscamente da garota, queria muito xingar Deus e o mundo, mas não o fez – Esse assunto de novo? Você tá doente? Está, mas você ainda está viva. Sei que parece bobagem, só que você não precisa ter o cabelo mais belo do mundo, ou usar a maquiagem mais perfeita, você é linda. De todas as formas, você é linda. É tão impossível você aceitar isso?
  Drew parecia travar uma guerra, embora fosse um exímio compositor, tinha problemas em colocar suas simples palavras em frases e orações. Ou ele falava muito sem dizer nada, ou dizia nada sem falar muito.
  – Droga, é realmente difícil, não consigo me expressar. – ele respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos – Passei tanto tempo vindo te visitar, te entender, saber o porquê você se odiava tanto. Até agora eu não entendi, mas me apeguei a você, droga! Eu chegava em casa pensando no que podia fazer para distrai-la, para vê-la sorrir ou rir de novo. Gravava fitas com as músicas que ouvia e sabia que você gostaria de também escutar. Você estava em tudo. Você é tudo.
  – Drew...
  – Não, , não. Chega, não quero ouvir você falando como você se acha um monstro, como se odeia. Eu sei todas as palavras que você quer dizer, mas você não dirá. Você vai dizer as erradas, . Vai querer me magoar, mas só vai conseguir se magoar. É difícil ver que você merece ser feliz? A doença não foi consequência de algo que você fez; se as pessoas se afastaram você não teve culpa. Se o seu cabelo caiu, adivinhe? VOCÊ NÃO TEM CULPA! É algo que pode acontecer com qualquer pessoa, em qualquer lugar, em qualquer idade. Você sabia que do lado de fora tem milhares de outras meninas iguais a você? Talvez a diferença seja que elas se agarram até o último fio de esperança. Elas estão resistindo, você sobrevivendo.
  Os dois tinham lágrimas em seus olhos, cada qual por seu motivo.
  – Por que tudo isso , por quê?
  – Porque as pessoas me julgam, elas dizem sentir compaixão, mas sentem pena. Esperam que eu dê um passo e caía morta, para poderem dizer “pobre menina, morreu tão jovem, fizemos de tudo por ela”. Posso estar viva, mas para elas estarei a um minuto da morte. É deprimente, Drew. – ela limpou as lágrimas com raiva – Meus amigos se mostraram bons até a minha primeira semana, depois tinham medo. Chegaram até a achar que era contagioso! Por Deus, Drew, eu vi todos se afastarem quando eu precisava. Eu perdi meu pai! Só tive minha mãe como apoio. São tantas coisas, tantos motivos. Mas quem liga? O meu maior problema é ser careca, é estar doente. É morrer na manhã seguinte! Não é isso que todos dizem?
  Drew tinha seus olhos e pensamentos focados na menina a sua frente, tão nova, tão pequena, mas tão sofrida. Tão necessitada dele. Ele precisava dela e ela dele. Ela tinha mais, tinha mais problemas, mais choros, mais gritos, dentro dela. Ele queria escutar cada um, resolver e acalmar cada um deles.
  – Uma chance, . – ele tinha novamente uma das mãos na bochecha dela – Uma vida, só isso que eu peço.
  Sem esperar por resposta, Drew colocou delicadamente seus lábios sobre os dela. Rápido, delicado, inesperado. Do mesmo modo repentino que aconteceu, acabou.

“How am I gonna be an optimist about this?”

  – Drew, você tem uma ligação. – Brooke estendeu um telefone para ele.
  – Quem é? – Brooke não disse nada, só colocou o telefone enfrente ao rosto dele, que revirou os olhos e pegou o aparelho – Drew falando, quem é? (...) Não, tudo bem, pode falar. A tá bem? (...) O QUÊ? ACONTECEU O QUÊ? Não, não. Não. Está falando sério? Pelo amor de Deus não brinque comigo.
  Drew não terminou de ouvir o que a senhora do outro lado dizia, apenas desligou o aparelho e o deixou cair no chão. Desabou ali mesmo, era informação demais. Eram coisas de mais para absorver. . Ah meu Deus, !
  A sua ...

FIM



Comentários da autora

  (26/02/14)
  A fic tem o nome inspirado na frase “Imagine all Lennon had to say, to make us wanna pray for peace every single day”, da música “Curious” do Emblem3. Porém, diria que a short tem como música tema “Story of a Girl” do Blink-182.

  * Rose’Mary Lether House – Instituição totalmente criada pela minha imaginação. Caso realmente exista um lugar com esse nome fora uma gigantesca coincidência.
  * emblem3rs – A primeira vez que vi o nome do fandom, bem lá no inicio, era assim que era escrito. Quis coloca-lo mais por questões estéticas, e, também porque prefiro esse.
  * pocket show – Expressão designada para descrever um “pequeno show”. Shows de curta duração.
  * “I took my time, I hurried up / The choice was mine, I didn’t think enough / I’m too depressed to go on / You’ll be sorry when I’m gone” – Versos retirados de Adam’s Song, música da banda Blink-182.
  * serenata – Primeiro tema que me foi me dado no projeto, dele sugiu a short #MiddleFinger.
  Um obrigado para beta que teve uma paciência gigantesca comigo e com a short. xMeegs.