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Ideia #004

Doada por Fernanda Camilo

// A Ideia

Inicialmente eu imaginei a fic como McFLY, mas pode ser qualquer outra que tenha 4 integrantes… A personagem principal é irmã do vocalista da banda (se for McFly, no caso, irmã do Jones)… O fandom é o Tom, o Dougie é melhor amigo, e o Harry tem um caso com ela por uma noite. A personagem principal, vamos chamá-la, por exemplo, de Maya. Ela mora em Londres, enquanto o “Danny” que tem 9 anos, mora com os pais em Chicago, mas os pais morrem, então só sobra a Maya pra cuidar do irmão caçula, que é 9 anos mais novo que ela. A Maya faz faculdade de Comércio Exterior, trabalha numa empresa, é super organizada, séria e cheia de regras! E a vinda de uma criança vai mudar totalmente a rotina da garota. Até porque, o “Danny” não é lá uma criança muito comportada! Quando “Danny” tem 18 anos, ele joga a bomba: Vai desistir de fazer faculdade pra montar uma banda!


// Sugestões

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// Notas

Então… Eu imaginei um dia ela chegue em casa e o “Danny” está dando uma festa, ela fica doida de raiva, mas como não encontra o irmão em lugar nenhum, está cansada e é sexta feira, ela desiste e começa a beber, no final da noite acaba dormindo com o amigo do irmão (Harry Judd), que não para de lhe seguir a partir daí. E sugiro que ela tenha um melhor amigo (Dougie), que é também seu assistente e faz tudo, ele também é mais novo que o irmão da garota. Ele sempre está lhe ajudando a resolver os problemas com o irmão e também os profissionais! Ahh! Eu tinha imaginado como nome da história, mas isso não quer dizer que você tenha que usá-lo: “HELP!MY BROTHER HAS A BAND!”




Help! My brother has a band!

Escrito por Ray Dias

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Capítulo 1
Quase tudo no controle

   Jones acreditava, com convicção quase religiosa, que a vida só funcionava quando tudo estava no lugar certo.
  Os talheres alinhados na gaveta, os sapatos organizados por cor no armário, as reuniões marcadas com semanas de antecedência e os horários rigidamente cumpridos. Nada era aleatório. Nada era improvisado. O improviso, aliás, era um erro grave, daqueles que custavam caro.
  Era exatamente por isso que ela estava cinco minutos adiantada ao entrar no prédio envidraçado da empresa, naquela manhã cinzenta de Londres. Cinco minutos que usava para respirar fundo, ajustar o blazer e lembrar a si mesma que estava no controle de sua rotina.
  — Bom dia, — cumprimentou a recepcionista.
  — Bom dia — respondeu, em um tom educado, porém contido.
  O salto ecoava pelo chão polido enquanto ela caminhava até o elevador. Já revisava mentalmente sua agenda: reunião com fornecedores às nove, call internacional às onze, almoço rápido sem sobremesa e fechamento de relatórios até o fim do expediente.
  Tudo sob controle.
  Entrou na sua sala, sem perceber — como sempre — que seus gestos eram apressados demais para um início de manhã.
  — Você vai acabar adoecendo desse jeito.
  A voz familiar surgiu ao seu lado assim que ela se sentou à mesa, ligando o computador.
  — Bom dia para você também, Dougie — respondeu, sem tirar os olhos da tela.
  Dougie Poynter, seu assistente, melhor amigo e salvador oficial de crises inesperadas, largou um café ao lado dela e se jogou na cadeira oposta, cruzando os braços.
  — São sete e cinquenta e cinco da manhã — Ele disse. — E tenho certeza que você já respondeu de três a cinco e-mails pelo celular, no caminho do estacionamento até aqui.
  — Seis — corrigiu. — E ainda faltam quatro.
  Dougie suspirou, como quem já tinha perdido aquela batalha há anos.
  — Você dormiu pelo menos seis horas?
   fez uma pausa mínima. Imperceptível para qualquer um que não a conhecesse tão bem quanto ele.
  — Dormi o suficiente.
  — Isso não é uma resposta.
  — Dougie… — Ela olhou para o amigo como se o repreendesse: — Vamos começar a trabalhar, sim? Quem sabe acabando tudo que tenho para hoje, consigo sair mais cedo e dormir essas benditas seis horas que você tanto me cobra?
  Ele sorriu de canto, derrotado, e abriu a própria agenda. Dougie tinha esse dom: estar sempre ali, resolvendo o que ela não conseguia, ou não queria, resolver sozinha. Era assim desde sempre. Desde Chicago.
  O pensamento veio sem aviso, como quase sempre vinha quando ela se permitia um segundo de silêncio. Chicago. A casa antiga. O cheiro de café da mãe. A risada do pai. E Danny.
  Danny aos nove anos, parado no corredor do hospital, segurando a barra do seu casaco como se fosse um colete salva-vidas.
  Ela piscou, afastando a lembrança antes que doesse demais.
  — — chamou Dougie, mais sério. — Com essa agenda de reuniões, você vai se atrasar hoje.
  — Para o quê?
  — Para buscar seu irmão da viagem.
  Ela fechou os olhos por um segundo.
  — Não vou me atrasar. Já reorganizei tudo.
  — Claro que reorganizou… — Dougie sorriu ladino e perguntou a ela: — Ele te contou o que pretende fazer a partir de agora?
  — Apenas disse que passar esses dias com nossa tia, proporcionaram a ele “certezas” — fez o sinal de aspas com as mãos enquanto explicava: — E eu me preocupo com isso. Sabe como o Danny é. Após se demitir de um emprego que custei conseguir para ele, depois de ele terminar o colégio… Enfim… Pressinto que Danny não sabe o que quer.
  Danny Jones não fazia parte da categoria “coisas controláveis”. Nunca fez. Quando os pais morreram, havia acabado de se mudar para Londres. Um intercâmbio que virou faculdade, que virou emprego, que virou uma vida inteira construída à base de esforço e culpa. Danny ficou em Chicago por quase dois anos, até que ela finalmente conseguiu trazê-lo.
  Desde então, sua rotina passou a ser uma tentativa constante de compensar o que acreditava ter falhado como irmã.
  — Ele vai fazer dezoito amanhã — comentou Dougie, como quem joga uma bomba cuidadosamente embrulhada.
  — Eu sei.
  — E… você está pronta? Sabe o quanto ele aguarda essa data não é?
   fechou o notebook com mais força do que pretendia.
  — Claro que estou. Não é porque vai fazer 18 que ele sabe realmente o que é bom pra ele.
  — … — Dougie tentou advertir — Não vá ser controladora, tá?
  Danny não era mais a criança assustada que dormia com a luz acesa. Era alto, rebelde, irônico e dono de uma habilidade impressionante de testar cada limite que a irmã colocava. E, mesmo assim, ela ainda acreditava que, com regras suficientes, tudo ficaria bem. A diferença de idade entre Danny, e Dougie era de 9 anos, mas para Dougie, o irmão da melhor amiga já era um homem. Para , ainda não.
  Horas depois, ela buscou o irmão no aeroporto de Londres deixando-o em casa, e ao fim do dia, quando chegou definitivamente do trabalho, encontrou o silêncio impecável que tanto apreciava. Tudo no lugar. Tudo limpo. Tudo… errado.
  Ela largou a bolsa no aparador e chamou:
  — Danny?
  Nenhuma resposta.
  Subiu as escadas, conferiu o quarto: vazio. A cama desarrumada, um violão encostado na parede. Ela franziu o cenho. O celular vibrou na mão.
  Danny: Vou chegar tarde. A gente precisa conversar.
   sentiu o estômago revirar. Quando Danny dizia querer conversar nunca era um bom sinal. Ela respirou fundo, endireitou os ombros e foi até a cozinha preparar um chá. Camomila, calmante. Ela sabia que precisaria estar calma.

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  O som da chave girando na fechadura arrancou do sofá perto das onze da noite.
  Ela não se levantou de imediato. Continuou sentada, coluna ereta, as mãos cruzadas sobre o colo, como se estivesse se preparando para uma reunião particularmente desagradável. O resto do chá de camomila esfriava intocado na mesa de centro.
  Danny entrou fazendo barulho demais para alguém que sabia que estava atrasado.
  — Ei… — Ele disse, jogando as chaves no aparador. — Você ainda está acordada.
  — Estou — respondeu , sem virar o rosto.
  Ele hesitou por um instante. Danny sempre fazia isso quando percebia que havia ultrapassado algum limite invisível. Não era medo, exatamente, era mais um cansaço antigo, compartilhado, que nenhum dos dois sabia nomear.
  — Eu mandei mensagem — ele tentou.
  — Mandou — ela concordou. — “A gente precisa conversar.” Normalmente, isso vem acompanhado de algum tipo de problema.
  Danny suspirou, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Ele havia crescido rápido demais. Às vezes, ainda se surpreendia ao perceber que o menino que carregava nas costas agora ocupava quase todo o vão da porta.
  — Não é um problema — disse. — É só… importante.
  — Tudo é importante quando envolve você — ela rebateu, finalmente se levantando. — Onde você estava?
  — No ensaio.
  A palavra caiu no ambiente como algo proibido.
  — Ensaio de quê?
  — Da banda.
   fechou os olhos por um segundo, respirando fundo como se contasse até dez mentalmente.
  — Danny…
  — Eu sei, eu sei — ele se adiantou. — Você odeia quando falo disso.
  — Eu não odeio — corrigiu. — Eu me preocupo.
  — É sempre isso. — Ele cruzou os braços. — Você nunca escuta o resto da frase.
  — Porque o resto da frase geralmente envolve decisões impulsivas e mal planejadas.
  — Não é impulsivo! — Danny elevou a voz. — Eu penso nisso há anos.
  — Pensar não é o mesmo que planejar.
  O silêncio se instalou entre eles, pesado, familiar.
  — Você lembra quando a mãe dizia que eu fazia barulho demais? — Danny perguntou de repente.
   engoliu em seco.
  — Não é justo usar isso.
  — É justo, sim. — Ele deu um passo à frente. — Porque você faz exatamente igual.
  Aquilo doeu mais do que ela gostaria de admitir.
  — Eu larguei tudo por você — disse, num tom baixo, controlado. — Minha vida inteira gira em torno de garantir que você tenha escolhas melhores do que as que nossos pais tiveram.
  — E se essa for a minha escolha?
  Ela abriu a boca, fechou de novo. Não tinha resposta pronta. E odiava isso.
  — Você faz dezoito amanhã, mas… — disse por fim. — Não significa que pode simplesmente jogar tudo fora.
  — Eu não estou jogando nada fora — ele rebateu. — Eu só não quero viver a vida que você planejou para mim.
  A frase ficou ecoando no ar.
  Danny pegou o casaco.
  — Eu vou sair de novo.
  — Com quem?
  Ele abriu a porta, já de costas.
  — Com um amigo da banda.
  — Espera, mas que banda é essa?! — E saiu antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. — Danny! Danny!
   não sabia dizer quanto tempo ficou parada no meio da sala. Quando finalmente se moveu, foi para pegar o celular.
  — Dougie — disse assim que ele atendeu. — Preciso sair.
  — Agora?
  — Agora.
  — Dez minutos — ele respondeu, sem fazer perguntas.
  Ele sempre era assim.

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  O bar era pequeno, abafado e barulhento demais para o gosto de . Luzes baixas, cheiro de álcool e risadas altas. Um ambiente que gritava fora de controle em todos os sentidos.
  Dougie caminhava à frente, abrindo caminho entre as pessoas.
  — Eles estão ali — disse, apontando para um canto.
  Danny estava sentado sobre um amplificador improvisado, uma cerveja na mão, rindo alto. Ao redor dele, três garotos.
  — Aquele é o Tom — Dougie cochichou. — O de cabelo bagunçado e sorriso convencido.
  Tom Fletcher falava animadamente, gesticulando como se contasse uma história épica. Tinha algo magnético nele, uma energia caótica que parecia ocupar espaço demais.
  — O quieto é o Harry — continuou Dougie. — Não se engane. Ele é tudo menos quieto.
  Harry Judd estava encostado na parede, braços cruzados, observando o ambiente com um meio sorriso perigoso, como quem sabia exatamente o efeito que causava.
  — E você já conhece o terceiro — Dougie completou, apontando para si mesmo com um sorriso.
  — Muito engraçado. Ainda não acredito que aceitou meu irmão nessa sua banda!
  Danny os viu e arregalou os olhos.
  — ?
  — Surpresa — ela respondeu, braços cruzados.
  Tom foi o primeiro a se levantar.
  — Você deve ser a irmã do Danny — disse, estendendo a mão. — , certo? Danny fala de você como se fosse uma mistura de general e mãe superprotetora.
  — Tom — Danny advertiu.
  Ela apertou a mão dele, firme.
  — Prazer. E você deve ser a má influência.
  Tom sorriu ainda mais.
  — Eu prefiro “criativo”.
  Harry se aproximou, analisando-a sem disfarçar.
  — Você não parece alguém que frequenta esse tipo de lugar — comentou.
  — Eu não frequento.
  — E mesmo assim está aqui — ele observou. — Interessante.
   sustentou o olhar por um segundo a mais do que deveria.
  — Danny, vamos conversar — ela disse.
  — Aqui não — ele respondeu.
  — Então você escolhe onde.
  O clima ficou tenso. Dougie pigarreou.
  — Talvez a gente possa sentar? Conversar como adultos?
  — Ele não é um adulto — respondeu automaticamente.
  Danny se levantou num pulo.
  — Sou, sim!
  — Legal — Tom interrompeu. — Isso está ficando melhor do que o ensaio.
  — Cala a boca, Tom — disseram Danny e Harry ao mesmo tempo.
  Apesar de tudo, sentiu algo estranho no peito. Não era alívio. Não era raiva. Era a certeza incômoda de que aquelas pessoas, aquele bar, aquela banda, aquele caos, estavam prestes a se tornar parte da vida dela. Querendo ela ou não.
  Harry inclinou a cabeça, aproximando-se levemente.
  — Você não vai conseguir impedir ele — disse em voz baixa, só para ela ouvir. — Ele ama isso. Ainda mais agindo como alguém que está contra ele.
   o encarou, sentindo um arrepio inexplicável.
  — Nunca estive contra ele, e amor não paga contas — respondeu.
  — Mas mantém a gente vivo.
  Ela se virou antes que ele pudesse dizer mais.
  — Danny… Quer saber? — falou, firme. — Amanhã a gente conversa. Em casa.
  Ele assentiu, contrariado. Enquanto saía do bar, teve uma sensação que não sentia havia anos: o controle escorrendo lentamente por entre os dedos.
  E aquilo era só o começo.

Capítulo 2
Dezoito anos e o início do descontrole

  O aniversário de Danny chegou e nada seria como ela imaginava. percebeu isso logo cedo, quando acordou antes do despertador, com a sensação incômoda de que algo estava fora do lugar. O quarto estava exatamente como sempre estivera: a colcha esticada, as cortinas semiabertas, a luz cinzenta de Londres filtrando-se com delicadeza, e ainda assim, nada parecia certo.
  Dezoito anos. Ela repetiu mentalmente enquanto se levantava.
  Dezoito anos significava documentos, decisões legais, escolhas definitivas. Significava que, pela primeira vez desde o hospital em Chicago, ela não poderia mais decidir tudo por ele.
  Na cozinha, preparou o café da manhã com a mesma rotina alimentar de sempre. Torradas alinhadas, frutas cortadas em pedaços iguais, café forte. Um gesto quase irônico de normalidade para um dia que prometia ser tudo menos isso. Danny apareceu alguns minutos depois, ainda sonolento, vestindo uma camiseta velha de banda e com o violão pendurado nas costas.
  — Feliz aniversário — ela disse, colocando o prato à sua frente.
  Ele piscou, surpreso.
  — Você lembrou. — ele mencionou olhando o prato com o “café de manhã de aniversário”, uma tradição que a mãe sempre fizera com ele.
  A frase doeu mais do que qualquer discussão.
  — Claro que lembrei — respondeu. — Sempre lembro.
  Danny se sentou, observando-a com cautela, como se esperasse uma condição escondida junto com o café.
  — A gente vai conversar hoje? — ele perguntou.
   apoiou as mãos na bancada.
  — Sim.
  — Sem gritos?
  — Sem gritos — prometeu, mesmo sem ter certeza se conseguiria cumprir.
  O silêncio se estendeu por alguns segundos, até que o celular de Danny vibrou. Ele sorriu ao ler a mensagem.
  — Tom disse que vai passar aqui mais tarde.
  — Tom — ela repetiu, com um suspiro controlado. — Claro que vai.
  — Você não gosta deles só porque eles são “os caras da banda”, ou porque são meus amigos?
  — Nunca tive problema algum com seus amigos, e sabe disso Danny! — falou ultrajada. — Mas, essa história de banda… Danny, eu não me importaria de verdade, se você não dissesse que não faria sequer uma faculdade!
  — A tia te contou?! — Danny perguntou ultrajado.
  — Sei disso desde que você fez 16. Peguei uma conversa sua com ela, em que você contava que quando acabasse o colégio iria montar ou achar uma banda, e não faria faculdade. Que não queria ver seus sonhos morrendo pra ser um trabalhador certinho como eu.
  — Não falei por mal… — ele disse arrependido ao encarar a irmã — Sei que você gosta do que faz, e eu também só quero fazer o que eu amo.
  — Você não entende que eu não estou te proibindo de ser feliz? Eu só quero que você tenha os pés no chão, busque estabilidade antes de sonho, porque essa coisa de banda pode não te levar muito longe…
  — O Dougie está na banda, nem assim você se tranquiliza? — Danny suspirou com um fôlego de quem queria convencer a irmã de que, não precisava seguir os planos dela.
  — E eu ainda me sinto traída por ele esconder de mim que você já estava enfiado nisso. — revelou. — Sabe que esse lance de música não é certeza de futuro, não sabe? Por que acha que o Dougie tem um emprego estável, fez uma faculdade…?
  — Por que ele tinha uma mãe e um pai que queriam mandar na vida dele, como tenho uma irmã. — Danny respondeu sarcástico mordendo parte do sanduíche.
  — Então é assim que você enxerga as coisas? — perguntou com um tom de voz extremamente magoado — Acha que eu só quero mandar na sua vida? Sinceramente, Danny, entre todas as vidas do mundo, se eu pudesse escolher mandar em alguma, seria na minha própria!
  — Você sempre usa esse discurso de quem abriu mão da sua juventude desde a perda dos nossos pais! Mas a verdade é que ninguém te pediu para ser minha tutora, ! Eu vivia em Chicago com a tia Anny, e só vim porque você fez questão!
   engoliu a resposta do irmão como uma ofensa, algo que ele nunca havia dito e que para ela, soava como a maior ingratidão do mundo.
  — Quer dizer que… Você preferia ficar com a tia Anny do que perto da sua irmã?
  Danny olhou para baixo soltando uma lufada de respiro, pesaroso. Havia tocado em uma ferida aberta e sabia disso.
  — Não foi o que eu quis dizer. Eu só estou tentando te mostrar que foi escolha sua agir como a adulta responsável por mim, sozinha. A gente tinha e ainda tem a tia Anny, mas você assumiu tudo e sequer pensou em si, então não adianta agora, querer que eu siga sonhos que você sonhou para mim, mana. Eu não vou fazer nenhuma faculdade, não sem antes tentar tudo pelo meu verdadeiro sonho.
   apenas assentiu. Ela segurou as lágrimas, encarou o chão, e depois falou para o irmão, sincera e baixinho:
  — Feliz aniversário, divirta-se com seus amigos.  — E saiu da cozinha calada.
  — , espera! — Danny pediu — Vai aonde?
  — Lidar com o peso das minhas escolhas. Qualquer coisa estarei na empresa.
  Ela subiu para o quarto, trocou de roupa, e pegou sua bolsa e chave do veículo, partindo, em pleno sábado, para a empresa.
  Não era um dia que ela trabalhava, sempre fez questão de ter os finais de semana em casa ou com Danny, e há meses, ele não fazia questão de estar com ela. Mesmo solitária, a irmã mais velha não fazia perguntas ou implicava com isso, apenas tentava fazer algo de que gostava. Contudo, se tivesse perguntado uma única vez o que Danny andava fazendo aos finais de semana que não a incluía, saberia que ele havia entrado na banda de Dougie.
  Dougie… Ainda tinha que conversar com ele sobre a traição que foi, esconder dela algo tão importante.

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  Quando Danny contou para Dougie por telefone sobre a conversa tida com sua irmã, na manhã, o melhor amigo de soube que precisaria tirá-la da empresa à força.
  Porém, conhecia melhor do que ela mesma, e sabia que, a mulher precisava daquele tempo sozinha enfiada em trabalho para se recuperar das coisas que o irmão a dissera.
  — Eu não acredito que você disse estas exatas palavras para sua irmã, Danny! — Dougie ralhou por telefone — Você parou para pensar em como ela se sentiu?
  — Parei. Foi vacilo! Ficou parecendo que além de culpar ela por cuidar de mim, eu escolhesse viver em Chicago, não é?
  — É. E seja lá o que se passou na cabeça da quando decidiu ser sua total responsável naquela época, ela só tinha dezoito anos quando vocês perderam seus pais, cara… Imagino que ela escolheu cuidar de você pensando só no seu bem, e não no dela. Depois que ela alcançou tudo o que precisava para viver com você, a não podia dar para trás.
  — Ela podia, a tia Anny mesmo falou para continuar em Londres estudando, e eu vivendo com ela. Mas, a simplesmente achou que era a mamãe.
  — Julgar sua irmã agora não faz sentido e nem vai mudar nada. Precisa reconhecer o esforço dela e ser mais pacífico. Você se tornou tudo que ela tinha, então, a gente precisa cortar esse laço protetor gradualmente Danny!
  — Eu sei, Dougie. Eu sei. Por isso te liguei contando. Me ajuda vai!
  — Ela foi para a empresa?
  — Sim!
  — Ok, deixa ela. Na hora do almoço passo lá e trago ela para casa, ainda vai ter a sua festa de aniversário, não é?
  — Bem… Acho que sim. Falei que o Tom passaria aqui, então, ela deve ter entendido, não é?
  — Puta que pariu, Danny! — Dougie reclamou — Sequer contou para ela da festa? Você é mesmo um idiota. OK, deixa que arrumo a sua bagunça.
  — Valeu Dougie, valeu mesmo cara!
  Assim, os dois desligaram a chamada e foram se concentrar em suas tarefas para o aniversário e para a reconciliação.
  Dougie pensou em como tirar da empresa para almoçar, mas o problema maior ele sabia que não era tirá-la de lá, e sim, encarar a conversa que teriam. Por isso, ele adentrou à sala dela com um enorme sorriso no rosto.
  As pessoas que trabalhavam no final de semana estranharam a presença dele tanto quanto a dela, mas limitaram-se a cumprimentar cada um quando chegaram, e focar no serviço. O relógio marcava meio-dia, e a maioria já havia ido embora ou estava almoçando.
  — Desliga o computador, princesa. — Dougie disse ao entrar na sala com as mãos no bolso e um sorriso enorme — Vou pagar o seu almoço como pedido de desculpas e você pode brigar comigo como quiser!
  — Não quero mesmo falar ou estar perto de você, Dougie. — respondeu sem o olhar — Não sei se consigo te desculpar em um ano.
  — … — Dougie suspirou sentando na poltrona da sala dela — Você sabe muito bem o que penso do assunto. Sempre te falei que seu irmão não é um boneco que você poderia controlar para sempre. Além disso, era responsabilidade dele contar a você! Não gosto de fazer fofoca!
  — Dougie! — Ela disse firme, largando o computador e batendo uma palma na mesa ao o encarar: — Não é fofoca! Você deixou ele entrar na banda sem falar comigo! Deveria ter dito para o Danny conversar com a irmã antes de aceitá-lo, mas não, você abriu a porta para ele e viu o Danny fechando a porta para mim por meses!
  — , ele não trocou você pela banda, ok?
  — Tem certeza? E todos os finais de semana saindo sem me dizer para onde, sem me convidar ou sequer pensando em como eu queria estar com ele?
  — O garoto estava empolgado, qual é! — Dougie falou se levantando e ficando de pé em frente a mesa dela — Ele te ama, você é a irmã maluca dele! Claro que o Danny pisou na bola, mas… Não pode me culpar por escolhas dele. E só para sua informação, eu fiquei o tempo todo na cabeça dele mandando-o te contar a verdade.
  — Você deveria ter aceitado aquele merdinha, só depois que ele me contasse.
  — , desculpa, mas… Eu não sou o pai do Danny para ficar podando ele, ainda mais quando não é uma parada ruim. Música é algo importante para ele, e eu jamais seria o cara que diria não para isso. Você precisa entender também o lado do seu irmão.
  — Tenho que entender coisas demais há anos, Dougie.
  Ela se levantou desligando o computador, pegou sua bolsa e tentou sair da sala passando ao lado do melhor amigo que a segurou.
  — Ei, espera. — Dougie a encarou manso, compassivo — Vai me desculpar?
  — Eu não posso não te desculpar, mas me dê um tempo, ok? Essa história do Danny dizer que não vai estudar mais, que vai girar estrada com essa banda e que… Que preferia ficar em Chicago… É muito para eu assimilar de uma só vez.
  Dougie suspirou compreensivo, abraçou a amiga e afagou os cabelos dela. relutou, mas se deixou ser abraçada e passou os braços em torno da cintura de Danny também.
  — Vamos almoçar. Depois te levo para casa, porque vai rolar uma festinha simples para o Danny. Ideia minha, juro! Não consegui falar com você antes, mas já mandei ele preparar tudo.
  — Dougie! — reclamou o empurrando de leve e batendo no ombro dele.
  — , é aniversário dele! — Dougie justificou rindo — E nós dois vamos nos divertir também, porque eu não sou o pai dele, e nem você a mãe. Nada de caretice!
  — Espero que ele tenha ao menos bom senso, e não encha a casa de gente estranha e mulher pelada.
   revirou os olhos e permitiu-se ser guiada por Dougie para o restaurante e depois, para casa.

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  A casa começou a encher no meio da tarde. Dougie chegou primeiro, carregando sacolas e uma paciência infinita.
  — Eu trouxe bolo — anunciou. — E comida de verdade, antes que alguém mais sugira pizza fria.
  — Você é oficialmente minha pessoa favorita — Danny respondeu.
  — Ainda bem que eu não moro aqui.
  Tom apareceu logo depois, trazendo um entusiasmo que parecia incompatível com qualquer espaço fechado.
  — Então é aqui que o futuro astro do rock mora! — disse, entrando sem ser convidado.
  — Tom — concluiu de costas, ao reconhecer o jeito impertinente.
  — — ele respondeu, sorrindo. — Feliz dia em que você perdeu oficialmente o controle legal sobre o seu irmão.
  Ela lançou um olhar fulminante.
  Harry foi o último a chegar. Sem barulho. Sem anúncio. Somente a sua silenciosa presença.
  — Feliz aniversário — disse a Danny, entregando-lhe uma baqueta gasta. — Para dar sorte.
  Os olhos de Danny brilharam.
   observou a cena com um nó no estômago. Aquilo não era só amizade, era cumplicidade, pertencimento. E ela estava fora.
  No fim das contas, a festa era mesmo só entre os amigos da banda, e Danny. Eles sequer chamaram garotas, e pensou se, talvez, não fosse culpa dela. Cercear o irmão demais poderia tê-lo polido de ter a casa como dele também.
  Depois do bolo, das risadas e de um nível de barulho que já ultrapassava o tolerável, Danny se levantou de repente.
  — Preciso dizer uma coisa.
   sentiu o coração acelerar.
  — Agora? — perguntou.
  — Agora.
  Ele respirou fundo, encarando todos e depois, especificamente, ela.
  — Pensei no assunto, mas decidi com certeza: não vou me inscrever em nenhuma faculdade.
  O mundo pareceu inclinar alguns graus.
  — O quê? — perguntou, num sussurro.
  — Eu vou me dedicar à banda — continuou Danny. — A gente vai tentar de verdade.
  Silêncio.
  — Não — ela disse, automática. — Isso não é uma opção.
  — É, sim — ele respondeu. — É a minha.
  — Você está jogando seu futuro fora!
  — Não! — Danny rebateu. — Você só não aceita que ele não seja igual ao seu!
  Tom deu um passo à frente.
  — , talvez…
  — Não se meta — ela cortou.
  Harry permaneceu quieto, observando.
  — Fiz tudo por você — ela disse, a voz finalmente falhando. — Tudo!
  — Eu sei — Danny respondeu, com os olhos marejados. — Mas eu não posso viver pagando essa dívida para sempre.
  Aquilo foi a ruptura do assunto.
  Não houve porta batendo, não houve gritos histéricos. Apenas algo quebrando definitivamente na relação entre os irmãos.
  Danny pegou o casaco dizendo:
  — Quero ensaiar um pouco. Quem vem?
  — Se sair por essa porta — disse —, não volte esperando aprovação.
  Ele parou por um instante.
  — Eu nunca esperei.
  E saiu.
  A casa ficou estranhamente silenciosa.
  Dougie foi o primeiro a se aproximar dela.
  — …
  — Não agora.
  — Você pode perder ele assim. — Tom parecia incomodamente sério.
  — Eu já perdi — ela respondeu, sentindo as pernas fraquejarem.
  Harry se aproximou por último:
  — Não — disse, baixo. — Você só perdeu o controle que tinha das ações dele.
  Ela o encarou, sentindo algo perigoso crescer no peito. Jones percebeu que aquela guerra não seria vencida com regras.

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  Tom chegou antes do horário combinado. Não por ansiedade — ele jamais admitiria —, mas porque estar ali parecia menos invasivo se fosse rápido. Bateu na porta duas vezes, firme, e aguardou. a abriu, com uma pasta de documentos sob o braço e o celular pressionado entre o ombro e a orelha.
  — Sim, confirmado. Sexta-feira, até às dezessete. — fez uma pausa, escutando. — Não, sem prorrogação. — desligou.
  Só então percebeu Tom ali.
  — Você é o… — começou, avaliando-o com os olhos treinados de quem cataloga tudo rapidamente.
  — Tom. — respondeu, apontando discretamente para dentro da casa. — Vim buscar o Danny e entregar isso… Ele esqueceu o metrônomo ontem.
  — Claro que esqueceu. — ela suspirou, abrindo mais a porta. — Ele esquece tudo que não seja música ou comida.
  Tom entrou sem pressa, observando o espaço com curiosidade respeitosa. A casa tinha um silêncio tenso, organizado demais. Não era fria, mas era rígida. Como se cada móvel tivesse sido colocado para impedir qualquer colapso.
  — Ele está no quarto. — disse, já andando à frente. — Deve descer em cinco minutos. Seis no máximo, afinal, ele tá evitando ficar com a irmã para ficar com vocês, há meses.
  — Ele sempre foi assim? — Tom perguntou, encostando-se na parede do corredor.
  — Assim como?
  — Intensamente… distraído.
   parou por um segundo antes de responder.
  — Ele sempre precisou de alguém para lembrar o chão onde pisa.
  Disse aquilo sem perceber o quanto revelava.
  Tom a observou de perfil, notando como ela mantinha os ombros tensos mesmo parada, como se estivesse sempre pronta para impedir algo de cair.
  Danny saiu do quarto aos tropeços, mochila pendurada de qualquer jeito.
  — TOM! — abriu um sorriso largo. — Cara, você chegou cedo.
  — Não confunda com pontualidade. — corrigiu. — Você tem duas horas e trinta minutos para ficar nessa farra. Já está bem tarde.
  — Eu sei, eu sei. — Danny beijou o rosto dela distraidamente. — Não começa.
  Quando os dois saíram, Tom olhou para trás antes de fechar a porta.
  — Ele volta. — disse, sem saber exatamente por que sentia necessidade de afirmar.
   ficou sozinha na sala. Aquela frase ficou suspensa no ar por mais tempo do que deveria.

Capítulo 3
Caos

  Depois que Danny saiu, em seu aniversário, a casa não voltou ao normal. Apesar de ter retornado e ficado trancado no quarto, no dia seguinte, ele havia saído com Tom que viera trazer o metrônomo, mas não retornou mais. ficou parada no meio da sala, cercada por uma bagunça deixada por Danny. Era uma bagunça pequena, controlável, mas suficiente para causar nela uma inquietação quase física.
  — Falei que ele tinha duas horas e meia, para farrear porque já estava tarde! — suspirou olhando para Dougie — Eu vou atrás dele — disse, pegando a bolsa.
  — Não — Dougie respondeu rápido demais. — Agora não.
  Ela o encarou.
  — Ele saiu ainda chateado, . Se você for atrás agora, isso vira outra briga.
  — Ele não atende o telefone. Ele deveria ao menos avisar!
  — Tom, você não sabe mesmo para onde ele foi, depois da balada? — Dougie perguntou para Tom que havia ido até a casa de Danny no dia seguinte, e surpreendido-se com a notícia de que ele não havia voltado para casa.
  — Não… Ele disse que ia vir para a casa, perguntei se não queria ir comigo, mas ele falou que estava “de boa”.
  — Danny sempre some quando precisa pensar. — Dougie concluiu.
  — Ele nunca some — rebateu. — Não assim.
  Tom passou a mão pelos cabelos, inquieto.
  — Acho que ele pode ter ido para o estúdio — disse. — Ou pelo menos era isso que ele disse quando falou ontem, que gostaria de ensaiar hoje.
  — Onde fica esse estúdio? — perguntou.
  Tom abriu a boca, fechou. Olhou para Harry.
  — Em Camden — Harry respondeu. — Mas ele não está lá.
  O coração de deu um salto.
  — Como você sabe?
  — Porque telefonei para lá há meia hora.
  — Eu preciso saber onde o Danny está! E se ele foi sozinho para cidade vizinha? Saiu ontem sem nem pegar os documentos, a carteira ficou aqui! — A voz dela falhou.
  Harry sustentou o olhar.
  — Ele não é uma criança.
  — É meu irmão.
  — Isso mesmo, não é seu filho. — Harry alegou — Nem se fosse poderia agir assim, .
  Aquilo foi demais.
  — Saiam — disse, de repente. — Por favor. Preciso ficar sozinha.
  Dougie hesitou.
  — …
  — Eu disse que preciso ficar sozinha.
  Um a um, eles foram saindo. O último foi Harry, que parou na porta.
  — Ele vai voltar — disse, com convicção. — Danny sempre volta.
  Quando a porta se fechou, sentiu o silêncio cair como uma coisa viva. Ela recolheu os copos mecanicamente. Lavou pratos que não precisavam ser lavados. Alinhou objetos que já estavam alinhados. Tentou, inutilmente, reorganizar algo dentro de si.
  O celular continuava mudo.
  Foi então que ela abriu o armário da cozinha.
  A garrafa de vinho estava lá havia meses. Talvez anos. Um presente esquecido de algum jantar corporativo. nunca bebera sozinha. Nunca bebia sem um motivo social aceitável.
  Ela puxou a rolha.
  — Só um pouco — murmurou, enchendo a taça.
  Depois outra. E outra.
  O vinho descia quente, estranho, libertador. Pela primeira vez em muito tempo, ela não estava contando calorias, horários, consequências. Não estava se punindo por existir fora da linha. Ela sentou no chão da sala, encostada no sofá, a taça pendendo frouxa entre os dedos.
  O celular vibrou, ela atendeu a chamada:
  —… Ele não respondeu pra gente também.
   fechou os olhos.
  — Danny… — sussurrou.
  — , você bebeu? — Dougie perguntou e ela apenas desligou a chamada.
  — O que houve? — Harry perguntou ao ver Dougie guardar o telefone com uma expressão preocupada.
  Estavam os três caras da banda juntos, em um barzinho de sempre, na esperança de que Danny aparecesse.
  — Acho que ela está bêbada, mas a nunca bebe. — Dougie suspirou tentando se levantar: — Eu vou lá.
  — Não. — Harry o impediu — Deixa que eu vou, você é o melhor amigo dela e ela nem vai abrir a porta.
  — Tem certeza? Vocês mal se conhecem…
  Dougie dizia preocupado, então Tom apoiou o amigo:
  — Deixa cara, melhor o Harry ir.
  Foi assim que Harry encontrou a casa quando voltou: a porta não estava trancada.
  A música tocava baixa, mas não o suficiente para ser ignorada. estava sentada no chão, descalça, os cabelos presos de qualquer jeito, o rosto corado pelo álcool.
  — Você não devia estar aqui — ela disse, sem olhar para ele.
  — Você também não devia estar bebendo assim — ele respondeu, entrando.
  — Não me dê ordens.
  Harry fechou a porta com cuidado.
  — Onde está o Danny? — ela perguntou.
  — Ainda estamos procurando.
  — Você prometeu que ele voltava.
  — Prometi que ele sempre volta — Harry corrigiu. — Não quando.
  Ela riu. Um riso curto, sem humor.
  — Eu estraguei tudo, não foi?
  Harry se aproximou devagar, sentando-se no chão à frente dela.
  — Você tentou salvar ele, do seu jeito.
  — Eu tentei controlar — ela corrigiu. — Não é a mesma coisa.
  O silêncio entre eles era diferente do que já havia sido. Mais denso, mais íntimo.
  — Você tentou o seu melhor, não foi um erro — ele disse.
  — Eu erro o tempo todo — respondeu. — Eu só não me permito sentir.
  Harry estendeu a mão, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. O gesto foi simples. Carregado demais.
  — Você está sentindo agora. Antes tarde do que nunca.
  O olhar de para ele era curioso, e o deixava intrigado. Precisava admitir: Jones era linda, e estava muito sexy com o rosto corado pelo álcool. Ele não recuou. O beijo aconteceu sem anúncio, sem promessa, sem qualquer plano, exatamente como tudo o que evitara a vida inteira. Mas, foi ela quem deu o passo de puxar o rosto de Harry contra o seu. Foi intenso, urgente. Algo que ela diria ter, posteriormente, sido um erro delicioso.
  Ela o puxou pela camisa. Harry respondeu sem hesitar. Levantaram-se do chão em um momento de urgência impensada. Eles tropeçaram pelo corredor, rindo baixo, beijando-se como se o mundo tivesse parado de exigir decisões.
  — , espera você… — Harry tentou pará-la enquanto ela arrancava as roupas dele.
  — Eu estou consentindo, não estou bêbada a ponto de não saber que você é o Harry e que estou te arrastando para o meu quarto. — Ela interrompeu.
  — Você tem certeza?
  — Você não disse que estou sentindo? Então me encoraje, não me freie.
  Harry assentiu, e voltou a enlaçar o corpo dela em seus braços, puxando a nuca da mulher para um beijo mais voluptuoso. No quarto, não houve palavras bonitas, apenas necessidade. Naquela noite, Jones não era a irmã responsável, nem a executiva exemplar. Era só uma mulher cansada demais para continuar sendo forte.
  Ela acordou de madrugada com uma dor de cabeça latejante. Harry dormia ao seu lado, tranquilo demais para alguém que acabara de atravessar todas as linhas que ela traçara para si mesma.
  Seu celular vibrou na mesa de cabeceira. Finalmente, uma mensagem:
  Danny: Tô bem. Volto para o almoço.
   fechou os olhos, sentindo o peso de tudo cair de uma vez. A casa estava bagunçada. A rotina quebrada. O irmão distante. E um homem que não devia estar ali respirava calmamente ao seu lado. O controle não estava mais apenas rachado. Ele havia ruído, e não havia planilha no mundo capaz de consertar aquilo.

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   Jones sempre soube reconhecer os sinais de desorganização.
  Um atraso pequeno. Um e-mail não respondido. Um copo esquecido fora do lugar. Porém, na manhã seguinte, o caos não se anunciava em detalhes, ele estava escancarado.
  Ela acordou sozinha. O lado da cama estava frio, amarrotado, vazio demais para alguém que ainda sentia o corpo pesado da noite anterior. Por um segundo, pensou que Harry nunca tivesse estado ali. Que tudo não passara de um sonho mal calculado, uma reação exagerada ao estresse.
  Então viu a camiseta preta dobrada de qualquer jeito sobre a cadeira. Real.
   sentou-se devagar, sentindo a cabeça latejar. O quarto ainda cheirava a perfume masculino e algo mais difícil de definir — liberdade, talvez. Ou culpa. Ela pegou o celular. 09:47.
  — Droga…
  Levantou-se num pulo, tropeçando em um par de sapatos que definitivamente não eram seus. No caminho até o banheiro, evitou o espelho. Ainda não estava pronta para encarar a versão de si mesma que surgira na noite anterior. Depois de passar pelo corredor, encontrou Harry na cozinha, encostado na bancada, mexendo no celular como se estivesse perfeitamente à vontade naquele espaço que sempre fora território controlado.
  — É domingo, calma. Você não deveria estar trabalhando, relaxa. — Ele comentou, sem levantar os olhos.
  — Você devia estar vestindo uma roupa — Ela rebateu.
  Harry sorriu de canto.
  — Bom dia para você também.
   abriu a boca para responder, mas parou. Não havia script para aquela situação. Nenhuma regra previamente definida, nenhuma decisão tomada com antecedência.
  — Isso não pode se repetir — Ela disse, por fim.
  Harry a observou com atenção incomodamente calma.
  — Eu não planejei — Harry respondeu. — Mas também não me arrependo.
  — Eu me arrependo — mentiu.
  Ele se aproximou, ainda mantendo uma distância respeitosa.
  — Então vamos fingir que não aconteceu.
  Ela assentiu rápido demais.
  — Ótimo.
  Harry foi se vestir em silêncio, e quando retornou para a cozinha, vestiu a jaqueta.
  — O Danny ligou — disse, antes de sair. — Vai direto para o ensaio hoje. A gente se vê .
  A porta se fechou. ficou sozinha com o silêncio e uma sensação nova, desconfortável: a de que nada havia sido resolvido, mesmo com notícias de Danny.

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  No escritório, tudo estava errado.
  Os números se misturavam na tela. As palavras pareciam fora de ordem. Pela primeira vez em anos, releu o mesmo e-mail três vezes sem conseguir compreender o conteúdo.
  — Você está pálida — comentou Dougie, surgindo ao seu lado. — E chegou atrasada.
  — Eu sei.
  — Você nunca diz isso.
  Ela suspirou, esfregando o rosto.
  — O Danny voltou? — Dougie a analisava.
  — Ainda não. Disse que voltaria para o almoço ontem, e não voltou.
  — Ele avisou onde está?
  — Disse estar na casa de uma ficante, depois iria para o ensaio. Sempre ensaio. — fechou os olhos. — Eles vão destruir a vida dele.
  — Ou ele vai construir algo — Dougie respondeu com cuidado. — Você não pode decidir isso por ele.
  — Eu sou responsável por ele.
  — Você foi — corrigiu. — Agora você é irmã.
  A palavra caiu pesada demais.
  — E você? — perguntou de repente. — De que lado está?
  Dougie sorriu, triste.
  — Do seu. Sempre. Mas às vezes, ficar do seu lado significa te dizer coisas que você não quer ouvir.
  Ela não respondeu.

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  O telefone tocou no meio da tarde.
  — Jones — ela atendeu, automática.
  — , estamos no estúdio em Camden — disse a voz do outro lado. — Seu irmão está aqui desde ontem. Estivemos ensaiando sem o Dougie, mas a produtora quer fechar alguns horários fixos de ensaio… O Dougie já te disse?
  — Não! Ele está trabalhando e nos finais de semana, é outro que some!
  — É porque precisamos dele nos ensaios do fim de semana, mas além dos horários fixos, a produtora quer, talvez, fechar algumas apresentações pequenas.
  O coração de acelerou.
  — Quem está falando?
  — Harry. Achei que reconheceria minha voz, . — Ele deu um risinho abafado.
  — Espera… Está com ele? Ele não estava na casa da tal ficante…? E apresentações?
  — Sim. Nada grande. Pub, eventos locais. Ele nos acham bons, e somos. Só estou te ligando porque o Tom ainda não falou com o Dougie sobre o que ele pretende fazer, mas em breve vai falar. É melhor você saber logo que o Dougie vai ser voto vencido caso negue, e bem… Só avisando mesmo.
  — Não — ela respondeu. — Harry, ele precisa assumir um compromisso de verdade se não vai fazer faculdade, como procurar um curso, um trabalho. Uma vida real!
  Houve uma pausa.
  — … — a voz pareceu hesitar. — A música é a vida real dele, um compromisso de verdade para nós. Não menospreze isso, tá?
  Quando a ligação terminou, percebeu que suas mãos tremiam.
  — … — Dougie surgiu em sua sala com os olhos arregalados.
  — Eu já sei. Acabei de saber. — suspirou para o amigo, segurando seus cabelos entre as mãos de um jeito desesperado — Dougie, ele vai saber se cuidar?
  — Ele precisa tentar para sabermos, mas… Ele não vai estar sozinho, relaxa. — o amigo puxou para um abraço.

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  Duas semanas depois, e à noite, a casa estava cheia outra vez. Amplificadores no chão. Cabos espalhados. Risadas altas. Música demais.
  — Isso não é um estúdio! — gritou.
  — É temporário! — Danny respondeu, afinando o violão. — A gente só precisa de um lugar para ensaiar hoje.
  — Hoje vira sempre!
  Tom ergueu as mãos.
  — Tecnicamente, é assim que bandas começam.
  — Saiam — disse, perdendo o controle. — Todos vocês.
  — Não — Danny respondeu. — Essa casa também é minha.
  O silêncio foi brutal.
  — Porra então vai para a garagem, sei lá! Eu preciso acordar cedo pra trabalhar amanhã! Tenho contas a pagar, sabia?
  Harry observava do canto, sério demais.
  — Qual a chave do seu carro? — disse.
  — Como é? — o encarou surpresa.
  — Se vai expulsar a gente pra garagem, temos que tirar seu carro de lá. — Harry rebateu.
  Danny largou o violão com força.
  — Esquece, ela só está tentando dificultar — disse. — Vamos embora.
  Ele saiu. Um por um, os outros o seguiram. A casa ficou vazia de novo.
  — , você precisa parar com essa luta de braço. — Dougie advertiu e suspirou sendo o último a sair.
   afundou no sofá, sentindo o peito apertar de um jeito que regra nenhuma conseguia aliviar. Minutos depois, o telefone vibrou. Uma mensagem de Dougie:
  Dougie: Ele vai ficar na casa do Tom por uns dias, não quis ficar comigo.
  Ela não respondeu.
  Naquela noite, apenas abriu outra garrafa de vinho e deixou o caos ficar. Porque, pela primeira vez, lutar contra ele parecia inútil demais.

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  Alguns dias depois, estava na casa de Tom, e ele ficou sentado no chão da sala por quase vinte minutos, encostado no sofá, observando a luz mudar lentamente pela janela.
  — Aí, vou invadir sua cozinha!
  — À vontade, Jones. — Tom riu ao vê-la sair, impaciente.
   havia ido buscar algo na cozinha. Quando ela retornou, trazia duas xícaras.
  — Café. — disse, oferecendo uma. — Não perguntei se você queria.
  — Aceito tudo que não exija trair meus princípios. — ele sorriu.
  Sentaram-se no chão, mantendo uma distância confortável. Danny ainda não chegara do ensaio, e aquilo, estranhamente, não a incomodava tanto quanto costumava.
  — Você não parece alguém que gosta de improviso. — Tom comentou.
  — Eu gosto. — respondeu. — Só não confio nele.
  — No improviso?
  — Em mim improvisando.
  Ele a olhou com mais atenção agora. Não como quem flerta, mas como quem reconhece um padrão familiar.
  — Sabe… — começou — quando larguei o curso, todo mundo achou que era só rebeldia. Mas a verdade é que eu só estava tentando respirar.
  Ela manteve os olhos na xícara.
  — Respirar não paga aluguel.
  — Não. — ele concordou. — Mas ficar sem ar cobra juros.
  Ela riu, breve. Um riso que escapou antes que pudesse ser contido.
  — Você fala como se tivesse tudo resolvido.
  — Eu falo como quem ainda está tentando.
  O silêncio entre eles não foi desconfortável. percebeu isso com estranheza. Não sentiu necessidade de preencher o espaço, de organizar a conversa, de conduzir.
  — Espero que o Danny não fique incomodado por eu aparecer aqui assim.
  — Não vai. É só a irmã querendo visitar o irmão. Tenta não cobrar nada.
  — Não vou, só vim mesmo saber se ele está bem ou precisando de alguma coisa.
  Quando Danny entrou, barulhento como sempre, os dois se levantaram quase ao mesmo tempo, como se tivessem sido flagrados fazendo algo íntimo, mesmo não tendo feito nada além de existir juntos.
  — Calma, só vim te ver. — sorriu.
  — E aí, mana. Tudo bem? — Danny aliviou, sorrindo e indo cumprimentar ela em um abraço.

Capítulo 4
Aceita, ou perde

  A casa ficou grande demais depois de alguns dias em que se via sem Danny por ali.
  Não era pelo silêncio. sabia reconhecer o silêncio confortável, aquele que repousa. Aquilo era ausência. Uma ausência espalhada pelos cantos, infiltrada no sofá ainda marcado pelo peso de corpos dos amigos de Danny que não estavam mais ali, no chão onde os cabos haviam sido enrolados às pressas, no ar ainda vibrando com ecos de uma música interrompida.
   permaneceu sentada, os braços caídos ao lado do corpo, como se qualquer movimento pudesse fazer tudo desmoronar de vez. Havia algo profundamente injusto em perceber que, mesmo depois de tudo, a casa continuava de pé. Que o mundo não havia parado para acompanhar o colapso interno que se espalhava dentro dela.
  Ela fechou os olhos. Viu Danny aos nove anos, sentado na beira da cama, perguntando se ela iria embora também. Viu-se prometendo que nunca faria aquilo. Viu-se falhando, mesmo quando acreditava estar fazendo tudo certo.
  A segunda garrafa de vinho que jazia no armário intacta, agora vazia, estava onde ela a deixara. Não houve culpa ao servir mais uma taça, apenas um cansaço repetitivo. O líquido escuro desceu queimando, e dessa vez ela não se importou. O gosto amargo combinava com o que sentia.
  Pela primeira vez, não tentou se convencer de que aquilo era um erro pontual. Era escolha. Pequena, talvez irrelevante, mas ainda assim escolha. O celular vibrou, e ela ignorou. Vibrou de novo.
  Com um suspiro pesado, esticou o braço e olhou a tela. Dougie. Ela demorou alguns segundos antes de atender.
  — Chegamos do primeiro show. Deu tudo certo e ele está bem — foi a primeira coisa que ele disse, antes mesmo que ela pudesse falar. — Dormiu no sofá do Tom. Roncou o suficiente para irritar metade da casa.
   soltou um riso curto, que morreu antes de virar alívio.
  — Obrigada.
  — Você não precisa passar por isso sozinha, nem ser assim tão dramática.
  — Eu sempre passei e sou dramática por natureza, você sabe.
  — Não — Dougie corrigiu, com suavidade. — Você só se convenceu de que precisava lidar com tudo na sua vida sozinha.
  Ela não respondeu. Não havia argumento que sustentasse suas defesas naquele momento.
  Depois que desligou, a casa voltou a pulsar naquele vazio pesado. caminhou até o quarto de Danny. Abriu a porta com cuidado, como se temesse encontrar alguém ali ou nada de mais. O quarto estava uma bagunça familiar. Roupas jogadas sobre a cadeira, partituras rabiscadas, pôsteres colados de forma torta. Ela passou os dedos pela cama desarrumada, sentando-se ali.
  Quantas vezes havia entrado naquele quarto para recolher copos, desligar amplificadores imaginários, endireitar coisas que não pediam correção?
  Ela nunca perguntara se ele queria aquela ordem. Sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Não ainda.

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  O dia seguinte amanheceu lento e não foi ao trabalho. Não avisou. Não justificou. Simplesmente ficou sentada à mesa da cozinha, observando a luz atravessar o vidro da janela e pousar em superfícies que sempre estiveram ali, mas que agora pareciam estranhas, deslocadas.
  Quando a campainha tocou, ela quase não atendeu. Harry estava do outro lado.
  Vestia jeans, camiseta simples, o cabelo ainda úmido, como se tivesse saído às pressas. Havia algo contido no jeito que ele a olhava, uma cautela que não combinava com a intensidade da noite que haviam dividido muitas noites atrás.
  — Eu não devia estar aqui — ele disse.
  — Não — ela concordou, abrindo a porta mesmo assim.
  Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, observando-se como dois desconhecidos que sabiam demais um sobre o outro.
  — O Danny pediu para te dizer que ele está bem — Harry falou. — Que não quer te machucar. Só… viver.
  — Eu sei — ela respondeu, embora não tivesse certeza.
  Ele entrou. O ar entre eles era denso, carregado de algumas coisas não ditas. apoiou-se na bancada, cruzando os braços, como se aquilo pudesse protegê-la.
  — Aquilo do outro dia… — começou.
  — Não precisa — Harry interrompeu. — Eu não vim por isso.
  Ela ergueu o olhar, surpresa.
  — Vim porque achei que você está se perdendo. Dougie ligou para a gente preocupado por você matar o trabalho, ao que entendi, você é certinha demais para isso. E aí… Danny pediu para eu vir. — ele continuou. — E, porque, apesar de tudo, você ainda é a pessoa que mais se importa com ele.
  — Me importar não foi suficiente.
  — Foi demais — ele corrigiu. — Amor em excesso também sufoca.
  A frase encontrou um lugar sensível demais.
  — Você acha que eu não sei disso? — perguntou, a voz baixa. — Você acha que eu não acordo todos os dias com medo de ter feito tudo errado?
  Harry se aproximou um passo.
  — Eu acho que você nunca se permitiu ser só irmã.
  Ela engoliu em seco.
  — Se eu soltar, ele pode cair.
  — E se você continuar segurando — Harry respondeu —, ele nunca vai aprender a ficar de pé.
  Eles ficaram assim, próximos demais, sem se tocar.
  — Isso não muda o que aconteceu entre a gente — disse, quase num sussurro.
  — Não — ele concordou. — Mas também não define.
  — É… Talvez estejam todos certos mesmo. Estou tentando organizar as coisas aqui dentro. — Ela pontou o peito.
  — Se precisar de ajuda, apesar da gente ser… Digo… Não precisa contar só com o Dougie, tá?
  — Obrigada Harry.
  Harry ficou apenas conversando com por uma hora ali, coisas triviais, na tentativa de fazer a mulher sentir-se menos solitária com as decisões do irmão. Quando Harry foi embora, a casa não pareceu tão vazia quanto antes. Mas também, não cheia, somente menos hostil. sentou-se outra vez no sofá, respirando fundo. Pela primeira vez desde que Danny saíra, ela não pensou em ligar, exigir, impor condições. Pensou em ouvir, pensou em esperar. Pensou, com medo e estranha curiosidade, em quem ela poderia ser se deixasse de tentar controlar tudo.
  E essa, percebeu, talvez fosse a escolha mais difícil de todas.
  Dias depois, encontrou Tom na padaria da esquina numa manhã em que não havia planejado fazer absolutamente nada. Usava roupas comuns demais, cabelo preso de qualquer jeito, o rosto sem a armadura profissional.
  Tom sorriu ao vê-la, genuinamente surpreso.
  — Jones! — Tom sorriu ao abordá-la saindo da fila do pão.
  — Meu Deus! — abriu a boca em choque, na verdade, constrangida por estar tão desarrumada — Tom. Er… Oi, bom dia.
  — Você parece… real.
  — Isso foi um elogio?
  — Foi uma constatação. — ele respondeu, rindo. — Quer sentar? Acabei de pedir um café. Ou, podemos ir para a sua casa antes que seu pão esfrie.
  — Você é um folgado. — riu apontando o balcão da padaria — Vamos tomar um cafezinho aqui mesmo.
   e Tom conversaram sobre coisas pequenas. O pão que estava seco, o clima estranho da cidade... Nada importante. E ainda assim, tudo parecia carregado de significado.
  — Escuta… Por quê me chamou para sentar aqui e conversar? A gente, meio que não tem muito assunto.
  — É que você é paranoica, né, .
  — Eu, paranoica? — apertou o olhar em julgamento.
  — Não me leva a mal. Eu entendo. De verdade. Eu sei que tudo o que você quer é fazer as coisas do jeito certo, pra você e pro Danny.
  — Hm… Tom, o algoz que influencia a rebeldia do meu irmão sendo um cara maduro?
  — Não influencio a rebeldia dele. Só encorajo ele a fazer o que ele acha certo.
  — É… — concluiu — E qual a sua lição de moral para mim?
  — Eu? Nenhuma. — Tom gargalhou.
  — Você não vai tentar me consertar. — Ela disse de repente.
  — Nem você pode impedir a si ou seu irmão de errar. — ele respondeu.
  Ela percebeu, ali, que aquilo era novo. Não precisava ser forte. Nem vigilante. Nem responsável. Quando se despediram, Tom não tocou nela. Não insinuou nada. Apenas disse:
  — Se precisar… estou por perto.
  E pela primeira vez, isso soou como uma ação amigável e não uma provocação.

Capítulo 5
Resolução

  O tempo não voltou a ser o que era. Afinal, horas perdidas são o que são. O tempo, só… se rearranjou. Nos primeiros dias após a saída de Danny, ainda viveu como quem caminha sobre um chão instável, esperando que tudo cedesse sob seus pés. Agora, quase três meses depois que o irmão morava com Tom ou com sua ficante, a casa continuava grande demais, silenciosa demais, mas já não havia urgência em preencher cada espaço.
  Pela primeira vez, ela permitiu que as coisas ficassem fora do lugar, fora do tempo, fora do controle. A xícara esquecida na pia deixou de ser um problema. O relatório entregue com atraso virou exceção, não catástrofe. O celular desligado à noite tornou-se um alívio.
  Dougie observava tudo em silêncio, como quem assiste a uma transformação lenta e delicada.
  — Você está diferente — comentou certa manhã, apoiado na mesa dela, enquanto revisava um contrato sem a antiga obsessão.
  — Diferente como?
  — Mais… humana — respondeu, com um sorriso leve. — Menos gerente da própria vida.
  Ela bufou, mas não discordou.
  — Eu cansei — admitiu. — De segurar tudo sozinha.
  Dougie inclinou a cabeça.
  — Demorou, mas chegou lá.
  O telefone tocou pouco depois. O nome de Danny apareceu na tela, e dessa vez, não sentiu o aperto no peito de antes. Apenas respirou fundo antes de atender.
  — Oi.
  — Oi… — Ele hesitou. — Você pode me encontrar?
  — É claro, Danny. Obrigada por isso! — Ela falou sincera, com o alívio pelo irmão dar o passo a se aproximar, primeiro.
  Encontraram-se em um café pequeno perto do estúdio. Um território neutro, longe da casa, longe das memórias mais duras. Danny chegou atrasado, como sempre, carregando o mesmo sorriso inseguro que ela conhecia desde criança.
  — Desculpa — ele disse. — O ensaio passou da hora.
  — Tudo bem — respondeu . — Cheguei cedo demais por hábito.
  Eles sorriram um para o outro, um reconhecimento silencioso de quem ainda estava aprendendo a existir de um jeito novo.
  — Conseguimos mais alguns shows — Danny contou, mexendo no copo. — Nada grande. Mas é… real.
  — Eu sei — ela disse. — Tom me mandou mensagem. Várias, inclusive. Nos últimos meses que você tem estado lá, ele simplesmente… Conversa comigo quase todo dia.
  Danny arqueou a sobrancelha e deu um sorrisinho sarcástico.
  — Ele gosta de você.
  — Percebi — respondeu, com um meio sorriso.
  — Não tô falando desse jeito… — O irmão soltou um sorriso enviesado — Ele gosta de você, do mesmo jeito que parece que o Harry gosta. Rolou alguma coisa, não é?
  — Que porra é essa, garoto!? — arregalou os olhos.
  — Qual é , a diferença de idade agora nem pesa tanto, eu tô com 18 e você com 27. E sou o caçula da banda, mas não sou idiota.
  — Tá insinuando o quê, pirralho Jones?
  — Que Harry tem ficado preocupado demais com você, e esse papel é do Dougie. Dougie me jurou que nunca dormiu com você, então, se o Harry está assim… Vocês tiveram alguma coisa, o que explicaria também o fato dele e do Tom andarem se estranhando quando o assunto é você.
  — Deveriam estar ensaiando e não falando de mim. — revirou os olhos.
  O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era cuidadoso.
  — , olha, eu não vim pedir sua aprovação — Danny falou, por fim. — Só… queria que você soubesse que eu não estou te afastando. Eu só preciso tentar.
   assentiu devagar.
  — E eu preciso aprender a não transformar medo em regra. E nem a controlar suas escolhas. Eu… — hesitou e suspirou fundo — Estou tentando, Danny.
  — Eu sei. O Dougie me disse. Acha mesmo que eu ficaria longe sem me preocupar com você? Pedi ao Dougie para me dar relatórios periódicos.
  — Você falando de relatórios é até estranho. — riu.
  — Estranho é o Tom me dando relatórios além do Dougie.
   enrubesceu. Ele a olhou com atenção.
  — Você sempre foi tudo para mim, mana.
  A frase veio simples, sem drama, e talvez por isso tenha sido tão forte.
  — Você também sempre foi tudo para mim, irmãozinho — ela respondeu. — E isso foi o problema.
  Danny estendeu a mão por cima da mesa. segurou. Não como quem prende, mas como quem reconhece. Eles não prometeram nada um ao outro, e isso bastou.

•  H E L P ! •  M Y •  B R O T H E R  • H A S •  A •  B A N D !  •

  Alguns dias depois, foi ao primeiro show de Danny conscientemente. Não como fiscal, não como salvadora, mas como alguém que escolheu estar ali.
  O pub estava cheio, abafado, vibrante. A música preenchia o espaço de um jeito imperfeito e intenso. sentiu o som no peito antes mesmo de entender se gostava ou não, e percebeu que gostar não era mais a questão.
  Danny estava no palco. Vivo. Presente.
  Tom comandava a banda com uma naturalidade quase irritante. Ele se movia como quem pertencia àquele lugar, rindo, provocando o público, olhando para Danny com cumplicidade verdadeira. Em vários momentos, seus olhos encontraram os de e sempre havia algo ali. Um convite silencioso. Um “você está vendo isso comigo”. Ela estava.
  Depois do show, Tom foi o primeiro a se aproximar, antes mesmo de Danny pensar em sair do círculo de fãs que surgiam, para ir até a irmã.
  — Você veio — disse, com um sorriso aberto, quase incrédulo.
  — Eu disse que estava tentando mudar — ela respondeu. — Isso inclui aparecer.
  — Isso inclui ficar?
   hesitou apenas o suficiente para ser honesta.
  — Sim.
  Tom sorriu de um jeito mais suave do que ela esperava.
  — Eu gosto de você — ele disse, sem rodeios. — Do jeito complicado, organizado e assustador que você é.
  — Isso não é exatamente um elogio.
  — É o melhor que eu tenho — ele respondeu, rindo.
  — O que eu devo fazer com isso? Essa declaração de que… Gosta de mim? — sentiu-se estremecer no estômago como uma adolescente de novo.
  — Faz o que quiser. O que quero é que você me deixe aproximar mais do que só por conversas no chat.
  — Hã? — olhou para Tom como se não tivesse entendido. Era aquilo mesmo? O amigo do irmão que ela menos “aprovava” chamando ela para sair? — Isso é…?
  — Um convite para sair, sim. Seu irmão já aprovou. Harry já disse que vocês não têm nada. Dougie… Bem, me ameaçou se eu achasse que você era bagunça, mas… Você nunca pareceu bagunça para mim né? — Tom ironizou a última frase pelo jeito todo metódico de .
  — É, tá legal. — sorriu um pouco desafiadora, mas, no fundo, a perna estava tremendo.
  Eles conversaram sem pressa. E os amigos do banda ao verem os dois tão entrosados, deram o tempo que precisava.
  — O Tom conseguiu mesmo uma abertura com a sua irmã. — Dougie riu ao dizer para Danny.
  — É, eu não achei que ela fosse cair no papinho dele. — Danny riu.
  Danny e Dougie olharam para Harry que estava parado ao lado deles, observando o casal à frente, sentados na mesa em um maior bate-papo.
  — Tudo bem por você, Harry? — Danny perguntou.
  — Sua irmã é fantástica, Danny, mas a gente já se resolveu. — Harry deu de ombros sorrindo.
  Pela primeira vez, não sentiu necessidade de controlar o rumo da conversa, nem de se proteger com ironia. Tom falava de música, de sonhos, de fracassos com a mesma naturalidade, e ela percebeu que aquilo não a ameaçava mais.
  Harry observava de longe.
  Ela o encontrou depois, do lado de fora, encostado na parede, fumando.
  — Harry.
  — . — Ele a cumprimentou de volta. — Tá fazendo o quê aqui fora, gata? Está frio.
  — É que o pub encheu mais, e eu sou meio claustrofóbica. Vim pegar um ar.
  — Saquei. — Ele riu e disse a observando de cima a baixo: — Você parece… bem. Digo, melhor do que da última vez que nos vimos.
  — Estou tentando — respondeu.
  — E ele? — Harry perguntou, com um aceno discreto em direção ao lado interno do pub — Tô falando do Tom.
   não fingiu.
  — Ele é diferente. Acho que criei uma imagem errada baseada na minha revolta por conta do Danny ouvi-lo mais do que a mim.
  Harry assentiu, sem amargura.
  — É. O Tom é legal. Que bom que você viu isso.
  — Você também é. — falou batendo braço no braço dele e sorrindo.
  — Sou sim. — Harry riu — Te ajudei de alguma forma?
  — Claro que sim, Harry. Tudo bem por você? — perguntou se tocando pela primeira vez que sair com Tom poderia deixar os amigos em uma situação delicada — Não pensei muito em como as coisas podem ser entre vocês.
  —  Você e o Tom? — Harry arqueou a sobrancelha em uma clara expressão tranquila — Tá de boa, sério! A gente foi um erro necessário — disse. — Um choque.
  — Foi — ela concordou. — E eu precisava do choque.
  — Precisava de mim — Harry corrigiu. — Não do que a gente poderia virar.
  Ela sustentou o olhar dele por um momento longo, respeitoso.
  — Obrigada — disse. — Por não insistir… Eu sei que você me viu como um desafio a explorar, mas respeitou meu tempo e decisão. Foi bom, Harry, mas… Foi o suficiente.
  Harry sorriu de leve.
  — Obrigado por ter se permitido ser livre e sentir algo impulsivo pela primeira vez comigo. Se por acaso der errado com o Tom, eu ainda estou aqui, ok?
   riu assentindo e eles se abraçaram.
  Mais tarde, quando voltou para casa, abriu as janelas antes de dormir. Deixou o ar frio entrar, misturado aos sons da cidade. Não organizou nada. Não planejou o dia seguinte. Danny morava com o Tom agora.
  Deitou-se cansada, mas inteira.
  Pensou nos pais. Pensou em quem havia sido obrigada a se tornar cedo demais. Pensou em Danny no palco, vivendo algo que ela jamais conseguiria controlar e que, finalmente, não precisava. O controle ainda existia. Não como prisão, mas como escolha.
   Jones entendeu, enfim, que amar não era manter tudo de pé sozinha. Era permitir que o outro aprendesse a cair e levantar. Algumas vidas não cabem em planilhas, algumas histórias precisam de ruído. De música, de desordem.
  E a dela, finalmente, começava a parecer completa.
  A mensagem chegou sem aviso.

Tom: “Independente de você ir ou não, eu vou te esperar na porta do cinema nem que eu perca o filme.”

   ficou olhando a tela por alguns segundos. E sorriu.

: “Gosto de pipoca doce”

FIM.