Help! My brother has a band!

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 1 • Quase tudo no controle

Tempo estimado de leitura: 16 minutos

  %Maya% Jones acreditava, com convicção quase religiosa, que a vida só funcionava quando tudo estava no lugar certo.
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  Os talheres alinhados na gaveta, os sapatos organizados por cor no armário, as reuniões marcadas com semanas de antecedência e os horários rigidamente cumpridos. Nada era aleatório. Nada era improvisado. O improviso, aliás, era um erro grave, daqueles que custavam caro.
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  Era exatamente por isso que ela estava cinco minutos adiantada ao entrar no prédio envidraçado da empresa, naquela manhã cinzenta de Londres. Cinco minutos que usava para respirar fundo, ajustar o blazer e lembrar a si mesma que estava no controle de sua rotina.
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  — Bom dia, %Maya% — cumprimentou a recepcionista.
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  — Bom dia — respondeu, em um tom educado, porém contido.
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  O salto ecoava pelo chão polido enquanto ela caminhava até o elevador. Já revisava mentalmente sua agenda: reunião com fornecedores às nove, call internacional às onze, almoço rápido sem sobremesa e fechamento de relatórios até o fim do expediente.
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  Tudo sob controle.
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  Entrou na sua sala, sem perceber — como sempre — que seus gestos eram apressados demais para um início de manhã.
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  — Você vai acabar adoecendo desse jeito.
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  A voz familiar surgiu ao seu lado assim que ela se sentou à mesa, ligando o computador.
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  — Bom dia para você também, Dougie — respondeu, sem tirar os olhos da tela.
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  Dougie Poynter, seu assistente, melhor amigo e salvador oficial de crises inesperadas, largou um café ao lado dela e se jogou na cadeira oposta, cruzando os braços.
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  — São sete e cinquenta e cinco da manhã — Ele disse. — E tenho certeza que você já respondeu de três a cinco e-mails pelo celular, no caminho do estacionamento até aqui.
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  — Seis — corrigiu. — E ainda faltam quatro.
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  Dougie suspirou, como quem já tinha perdido aquela batalha há anos.
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  — Você dormiu pelo menos seis horas?
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  %Maya% fez uma pausa mínima. Imperceptível para qualquer um que não a conhecesse tão bem quanto ele.
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  — Dormi o suficiente.
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  — Isso não é uma resposta.
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  — Dougie… — Ela olhou para o amigo como se o repreendesse: — Vamos começar a trabalhar, sim? Quem sabe acabando tudo que tenho para hoje, consigo sair mais cedo e dormir essas benditas seis horas que você tanto me cobra?
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  Ele sorriu de canto, derrotado, e abriu a própria agenda. Dougie tinha esse dom: estar sempre ali, resolvendo o que ela não conseguia, ou não queria, resolver sozinha. Era assim desde sempre. Desde Chicago.
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  O pensamento veio sem aviso, como quase sempre vinha quando ela se permitia um segundo de silêncio. Chicago. A casa antiga. O cheiro de café da mãe. A risada do pai. E Danny.
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  Danny aos nove anos, parado no corredor do hospital, segurando a barra do seu casaco como se fosse um colete salva-vidas.
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  Ela piscou, afastando a lembrança antes que doesse demais.
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  — %Maya% — chamou Dougie, mais sério. — Com essa agenda de reuniões, você vai se atrasar hoje.
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  — Para o quê?
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  — Para buscar seu irmão da viagem.
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  Ela fechou os olhos por um segundo.
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  — Não vou me atrasar. Já reorganizei tudo.
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  — Claro que reorganizou… — Dougie sorriu ladino e perguntou a ela: — Ele te contou o que pretende fazer a partir de agora?
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  — Apenas disse que passar esses dias com nossa tia, proporcionaram a ele “certezas” — %Maya% fez o sinal de aspas com as mãos enquanto explicava: — E eu me preocupo com isso. Sabe como o Danny é. Após se demitir de um emprego que custei conseguir para ele, depois de ele terminar o colégio… Enfim… Pressinto que Danny não sabe o que quer.
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  Danny Jones não fazia parte da categoria “coisas controláveis”. Nunca fez. Quando os pais morreram, %Maya% havia acabado de se mudar para Londres. Um intercâmbio que virou faculdade, que virou emprego, que virou uma vida inteira construída à base de esforço e culpa. Danny ficou em Chicago por quase dois anos, até que ela finalmente conseguiu trazê-lo.
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  Desde então, sua rotina passou a ser uma tentativa constante de compensar o que acreditava ter falhado como irmã.
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  — Ele vai fazer dezoito amanhã — comentou Dougie, como quem joga uma bomba cuidadosamente embrulhada.
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  — Eu sei.
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  — E… você está pronta? Sabe o quanto ele aguarda essa data não é?
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  %Maya% fechou o notebook com mais força do que pretendia.
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  — Claro que estou. Não é porque vai fazer 18 que ele sabe realmente o que é bom pra ele.
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  — %Maya%… — Dougie tentou advertir — Não vá ser controladora, tá?
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  Danny não era mais a criança assustada que dormia com a luz acesa. Era alto, rebelde, irônico e dono de uma habilidade impressionante de testar cada limite que a irmã colocava. E, mesmo assim, ela ainda acreditava que, com regras suficientes, tudo ficaria bem. A diferença de idade entre Danny, %Maya% e Dougie era de 9 anos, mas para Dougie, o irmão da melhor amiga já era um homem. Para %Maya%, ainda não.
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  Horas depois, ela buscou o irmão no aeroporto de Londres deixando-o em casa, e ao fim do dia, quando chegou definitivamente do trabalho, %Maya% encontrou o silêncio impecável que tanto apreciava. Tudo no lugar. Tudo limpo. Tudo… errado.
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  Ela largou a bolsa no aparador e chamou:
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  — Danny?
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  Nenhuma resposta.
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  Subiu as escadas, conferiu o quarto: vazio. A cama desarrumada, um violão encostado na parede. Ela franziu o cenho. O celular vibrou na mão.
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  Danny: Vou chegar tarde. A gente precisa conversar.
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  %Maya% sentiu o estômago revirar. Quando Danny dizia querer conversar nunca era um bom sinal. Ela respirou fundo, endireitou os ombros e foi até a cozinha preparar um chá. Camomila, calmante. Ela sabia que precisaria estar calma.
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  O som da chave girando na fechadura arrancou %Maya% do sofá perto das onze da noite.
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  Ela não se levantou de imediato. Continuou sentada, coluna ereta, as mãos cruzadas sobre o colo, como se estivesse se preparando para uma reunião particularmente desagradável. O resto do chá de camomila esfriava intocado na mesa de centro.
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  Danny entrou fazendo barulho demais para alguém que sabia que estava atrasado.
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  — Ei… — Ele disse, jogando as chaves no aparador. — Você ainda está acordada.
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  — Estou — respondeu %Maya%, sem virar o rosto.
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  Ele hesitou por um instante. Danny sempre fazia isso quando percebia que havia ultrapassado algum limite invisível. Não era medo, exatamente, era mais um cansaço antigo, compartilhado, que nenhum dos dois sabia nomear.
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  — Eu mandei mensagem — ele tentou.
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  — Mandou — ela concordou. — “A gente precisa conversar.” Normalmente, isso vem acompanhado de algum tipo de problema.
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  Danny suspirou, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Ele havia crescido rápido demais. Às vezes, %Maya% ainda se surpreendia ao perceber que o menino que carregava nas costas agora ocupava quase todo o vão da porta.
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  — Não é um problema — disse. — É só… importante.
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  — Tudo é importante quando envolve você — ela rebateu, finalmente se levantando. — Onde você estava?
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  — No ensaio.
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  A palavra caiu no ambiente como algo proibido.
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  — Ensaio de quê?
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  — Da banda.
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  %Maya% fechou os olhos por um segundo, respirando fundo como se contasse até dez mentalmente.
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  — Danny…
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  — Eu sei, eu sei — ele se adiantou. — Você odeia quando falo disso.
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  — Eu não odeio — corrigiu. — Eu me preocupo.
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  — É sempre isso. — Ele cruzou os braços. — Você nunca escuta o resto da frase.
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  — Porque o resto da frase geralmente envolve decisões impulsivas e mal planejadas.
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  — Não é impulsivo! — Danny elevou a voz. — Eu penso nisso há anos.
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  — Pensar não é o mesmo que planejar.
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  O silêncio se instalou entre eles, pesado, familiar.
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  — Você lembra quando a mãe dizia que eu fazia barulho demais? — Danny perguntou de repente.
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  %Maya% engoliu em seco.
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  — Não é justo usar isso.
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  — É justo, sim. — Ele deu um passo à frente. — Porque você faz exatamente igual.
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  Aquilo doeu mais do que ela gostaria de admitir.
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  — Eu larguei tudo por você — disse, num tom baixo, controlado. — Minha vida inteira gira em torno de garantir que você tenha escolhas melhores do que as que nossos pais tiveram.
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  — E se essa for a minha escolha?
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  Ela abriu a boca, fechou de novo. Não tinha resposta pronta. E odiava isso.
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  — Você faz dezoito amanhã, mas… — %Maya% disse por fim. — Não significa que pode simplesmente jogar tudo fora.
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  — Eu não estou jogando nada fora — ele rebateu. — Eu só não quero viver a vida que você planejou para mim.
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  A frase ficou ecoando no ar.
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  Danny pegou o casaco.
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  — Eu vou sair de novo.
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  — Com quem?
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  Ele abriu a porta, já de costas.
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  — Com um amigo da banda.
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  — Espera, mas que banda é essa?! — E saiu antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. — Danny! Danny!
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  %Maya% não sabia dizer quanto tempo ficou parada no meio da sala. Quando finalmente se moveu, foi para pegar o celular.
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  — Dougie — disse assim que ele atendeu. — Preciso sair.
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  — Agora?
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  — Agora.
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  — Dez minutos — ele respondeu, sem fazer perguntas.
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  Ele sempre era assim.
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  O bar era pequeno, abafado e barulhento demais para o gosto de %Maya%. Luzes baixas, cheiro de álcool e risadas altas. Um ambiente que gritava fora de controle em todos os sentidos.
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  Dougie caminhava à frente, abrindo caminho entre as pessoas.
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  — Eles estão ali — disse, apontando para um canto.
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  Danny estava sentado sobre um amplificador improvisado, uma cerveja na mão, rindo alto. Ao redor dele, três garotos.
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  — Aquele é o Tom — Dougie cochichou. — O de cabelo bagunçado e sorriso convencido.
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  Tom Fletcher falava animadamente, gesticulando como se contasse uma história épica. Tinha algo magnético nele, uma energia caótica que parecia ocupar espaço demais.
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  — O quieto é o Harry — continuou Dougie. — Não se engane. Ele é tudo menos quieto.
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  Harry Judd estava encostado na parede, braços cruzados, observando o ambiente com um meio sorriso perigoso, como quem sabia exatamente o efeito que causava.
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  — E você já conhece o terceiro — Dougie completou, apontando para si mesmo com um sorriso.
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  — Muito engraçado. Ainda não acredito que aceitou meu irmão nessa sua banda!
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  Danny os viu e arregalou os olhos.
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  — %Maya%?
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  — Surpresa — ela respondeu, braços cruzados.
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  Tom foi o primeiro a se levantar.
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  — Você deve ser a irmã do Danny — disse, estendendo a mão. — %Maya%, certo? Danny fala de você como se fosse uma mistura de general e mãe superprotetora.
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  — Tom — Danny advertiu.
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  Ela apertou a mão dele, firme.
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  — Prazer. E você deve ser a má influência.
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  Tom sorriu ainda mais.
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  — Eu prefiro “criativo”.
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  Harry se aproximou, analisando-a sem disfarçar.
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  — Você não parece alguém que frequenta esse tipo de lugar — comentou.
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  — Eu não frequento.
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  — E mesmo assim está aqui — ele observou. — Interessante.
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  %Maya% sustentou o olhar por um segundo a mais do que deveria.
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  — Danny, vamos conversar — ela disse.
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  — Aqui não — ele respondeu.
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  — Então você escolhe onde.
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  O clima ficou tenso. Dougie pigarreou.
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  — Talvez a gente possa sentar? Conversar como adultos?
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  — Ele não é um adulto — %Maya% respondeu automaticamente.
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  Danny se levantou num pulo.
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  — Sou, sim!
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  — Legal — Tom interrompeu. — Isso está ficando melhor do que o ensaio.
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  — Cala a boca, Tom — disseram Danny e Harry ao mesmo tempo.
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  Apesar de tudo, %Maya% sentiu algo estranho no peito. Não era alívio. Não era raiva. Era a certeza incômoda de que aquelas pessoas, aquele bar, aquela banda, aquele caos, estavam prestes a se tornar parte da vida dela. Querendo ela ou não.
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  Harry inclinou a cabeça, aproximando-se levemente.
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  — Você não vai conseguir impedir ele — disse em voz baixa, só para ela ouvir. — Ele ama isso. Ainda mais agindo como alguém que está contra ele.
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  %Maya% o encarou, sentindo um arrepio inexplicável.
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  — Nunca estive contra ele, e amor não paga contas — respondeu.
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  — Mas mantém a gente vivo.
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  Ela se virou antes que ele pudesse dizer mais.
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  — Danny… Quer saber? — falou, firme. — Amanhã a gente conversa. Em casa.
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  Ele assentiu, contrariado. Enquanto saía do bar, %Maya% teve uma sensação que não sentia havia anos: o controle escorrendo lentamente por entre os dedos.
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  E aquilo era só o começo.
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