Golden Hour

Escrito por Mandy Poynter | Revisado por Lelen

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Capítulo 1

  O clima em Seul não estava dos melhores, mas isso não era uma desculpa plausível para a maior burrice que o rapaz já tinha feito na vida. Ele sabia, desde o dia em que decidiu fazer parte daquele mundo, que não conseguiria ter uma vida normal, mas parecia ter se esquecido disso, pois naquele exato momento estava correndo, tentando se desvencilhar de um grupo de fãs que o havia reconhecido.
  Conseguiu despistá-las por um instante ao entrar em uma loja qualquer, sem nem perceber do que se tratava. No entanto, não teve tempo de descobrir. Tropeçou em um vaso de plantas, caiu no chão e viu inúmeras rosas despencarem sobre sua cabeça.
  — Ei, você está bem? — perguntou uma garota, aproximando-se dele.
  — Tá tudo bem, obrigado — respondeu ele, levantando-se e olhando atentamente para o lado de fora da loja.
  — Você é algum tipo de bandido, por acaso? — questionou a menina, fazendo Jungkook finalmente voltar o olhar para ela.
  — Que porra é essa? — exclamou o cantor ao vê-la encarando-o com cara de poucos amigos e segurando um taco de beisebol.
  — Se você veio roubar alguma coisa, sugiro que saia antes que eu acabe com você. — Ela avançou um passo.
  — Que merda é essa de ladrão? Você é louca? — falou, tentando não gritar. — Vai dizer que não me conhece agora?
  — Desculpa, alteza. Você por acaso é a rainha da Inglaterra?
  O tom de deboche em sua voz irritou completamente o ídolo, que só queria se livrar daquela situação.
  — Sério? Vai dizer que não me conhece? Estamos em Seul, não em uma cidade do interior.
  — E o que diabos isso tem a ver? Por acaso...
  Sua fala foi interrompida quando a porta da loja se abriu. Jungkook imediatamente voltou a se jogar no chão e se arrastou para trás do balcão onde a mulher estava.
  — Ei, você! — A menina que acabara de entrar apontou para a vendedora. — Você viu se o Jungkook passou por aqui?
  — Jeon quem? — perguntou a florista, incerta.
  Debaixo do balcão, o rapaz revirou os olhos. Achava impossível que ela não soubesse quem ele era.
  — Jungkook, do BTS, garota!
  — BTS? — Ela franziu a testa. — É algum tipo de seita de adolescentes?
  — Você tá fazendo piada com a minha cara? — A garota tirou o celular do bolso e mostrou uma página da internet para a florista. — Esse é o JK.
  — Uau! — exclamou a mulher, olhando discretamente para o homem em questão e sorrindo de forma sarcástica. — Ele é gato. Deixa eu ver essa foto. — Começou a deslizar pelas imagens da galeria. — Ele é mesmo um ídolo famoso? Não parece, com esse rostinho de neném.
  — Exatamente! Como você não conhece o homem mais lindo de todos? Em que mundo você vive, velhota?
  — Velhota? — Agachado atrás do balcão, Jungkook segurou o riso e acabou levando um chute na perna.
  — A gente vai ficar por aqui. — A fã apontou para um grupo considerável de garotas do lado de fora. — Se você vir ele por perto, me liga.
  Ela entregou um cartão para a mulher e saiu. Assim que o grupo de stalkers se afastou, Jungkook finalmente se levantou.
  — Velhota? — repetiu a florista, indignada. — Eu tenho a sua idade, sabia?
  — Você disse que não me conhecia, mas sabe até a minha idade?
  — Ela me mostrou sua página no Google, estrela! — respondeu rapidamente, revirando os olhos.
  — Valeu pela ajuda.
  — Nem vem com essa. Vai comprar o buquê mais caro da loja.
  — O quê?
  — Sua fã me chamou de velhota! E depois de deixar bem claro que você é um ídolo de K-pop famoso, eu vou me aproveitar mesmo. Tenho contas para pagar. — Jungkook caiu na gargalhada.
  — Qual é o seu nome?
  — .
  — Nome diferente.
  — Diferente onde?
  — Então, , você não acha que está sendo injusta comigo?
  — Primeiramente, é para você. Segundo, eu salvei a sua vida.
  — Agora você está sendo exagerada! — Ele ainda ria. — Pode me emprestar seu celular?
  — Pra quê?
  — Preciso ligar para o meu. Não posso sair andando por aí de novo.
  — Você por acaso tem algum tipo de doença mental?
  — O quê?
  — Olha, estrela, eu acho que você não deveria sair tão cedo. — Apontou para fora, onde ainda podia ser visto um grupo de fãs olhando em todas as direções à sua procura. — Tem um espaço lá atrás onde você pode esperar. Pelo menos até anoitecer, quando a sua tropa for embora.
  — Se você está querendo a minha companhia por mais tempo, é só dizer. Não precisa ficar arrumando desculpinhas.
  — Olha só, JK. Por mim você poderia sair imediatamente. Acho até que eu deveria ligar para a menina desse cartão.
  — Não, não, por favor! — Ele segurou as mãos da garota, que já estava pronta para discar o número. — Você tem um péssimo humor, .
  — É para você. — Ela guardou o celular novamente e caminhou até a porta, virando a placa para "Fechado". — Vamos. Faz sua ligação lá nos fundos, sem perigo de alguma fã louca te ver.
  — Você é bem arisca comigo, . — A garota apenas revirou os olhos. — Me dá seu número.
  — Ei, como assim? Nem um jantar antes?
  — Você falou que queria entrar em contato para pedir uma carona. Estou te dando uma ligação.
  — O que é isso? Eu sou um presidiário, por acaso? — Ela continuou apontando para o celular. — E o que é isso na capa do seu telefone?
  — O quê? Ah, isso? É um anime chamado Haikyuu.
  — Então você gosta de mangás e animes, mas não curte K-pop?
  — O que uma coisa tem a ver com a outra?
  — Não faz tudo parte da cultura asiática?
  — Do que diabos você está falando? Animes e mangás fazem parte da cultura japonesa. Aqui o mais comum são manhwas e webtoons.
  — Aha! Te peguei! — Jungkook apontou o dedo para ela e imediatamente levou um tapa na mão.
  — Que merda é essa?
  — Você é adepta da cultura coreana!
  — Sou adepta às novelas e à comida. Fora isso, não entendo mais nada. Desculpa, estrela, mas não acompanho música coreana. Sou mais do reggaeton, funk e sertanejo.
  — O que diabos é sertanejo?
  — É tipo country. Um estilo brasileiro.
  — Brasil?
  — Eu nasci lá.
  — Você realmente tem traços latinos. Mas definitivamente tem traços coreanos também.
  — Por que está me olhando assim, seu merda? — Ela lhe deu outro tapa. — Meu pai é coreano e minha mãe é brasileira. Agora vai me passar o número ou não?
  — Você é muito apressada. — Passou o número enquanto observava a garota discar rapidamente e colocar a chamada no viva-voz. — Sério?
  — Cala a boca. — No mesmo instante em que ela o repreendeu, a ligação foi atendida.
  — Alô? — A voz do outro lado carregava um leve tom de estranheza, mas Jungkook a reconheceria em qualquer lugar.
  — Me desculpe, acho que liguei para o número errado. Esse não é o celular do JK? — a menina interrompeu Jungkook, que já estava prestes a responder.
  — É o telefone dele, sim. Eu vim falar com ele, mas me disseram que ele tinha saído, então resolvi esperar. — A voz do outro lado tentou explicar a situação, arrancando uma risada da garota e um revirar de olhos do cantor. — Ele deixou o celular aqui. Quem está falando? Posso passar o recado.
  — Como assim, quem está falando? — O falso tom de indignação da mulher enganaria qualquer um. — Quem é você?
  — Eu sou o Jimin, amigo do Jungkook e... — Não conseguiu terminar a frase, pois foi interrompido pela garota, que já segurava o riso.
  — Você é o amante do meu JK? — Jungkook imediatamente se levantou para tomar o celular de sua mão, mas ela desviou. — Ele disse que eu era a única na vida dele. Será que todas as juras de amor que me fez foram em vão?
  — Me dá isso aqui — Jungkook sussurrou, tentando novamente pegar o aparelho.
  — Me desculpe! Eu realmente não sabia que ele tinha namorada! — respondeu Jimin às pressas.
  — Talvez a amante seja eu, então. — A mulher embargou a voz para tornar sua atuação mais convincente. — Me desculpe. Eu não queria atrapalhar o relacionamento de vocês, mas ele disse que me amava e...
  — Deixa de ser otária! — Jungkook finalmente conseguiu arrancar o celular de suas mãos. apenas revirou os olhos e saiu da sala, deixando-o sozinho. — Jimin, sou eu.
  — Que susto, cara! O que foi isso? E desde quando você tem namorada e não contou para a gente?
  — Tá louco? Ela é só uma garota estranha que me salvou de uma fria. —  Preferiu não entrar em detalhes. — Preciso que alguém venha me buscar mais tarde.
  — O quê? Como assim? O que aconteceu?
  — Resolvi sair sozinho e quase fui sequestrado por um bando de garotas. — Jungkook suspirou, exausto. — Eu fiz merda, tá bom?
  — Que bom que sabe. Assim não vou precisar te dar uma bronca. — A voz do outro lado soava divertida. — Vou deixar isso para o Namjoon hyung.
  — Jimin, pelo amor de Deus. Chama qualquer um, menos o Namjoon hyung. Ele vai me matar!
  — A culpa é inteiramente sua, seu irresponsável. — Jimin gargalhou. — Hobi hyung vai adorar saber da sua nova namorada.
  — Chega de gracinha. E eu já disse que essa louca não é minha namorada!
  — Quem você está chamando de louca, seu bosta? — surgiu de repente na porta, assustando Jungkook.
  — Que susto! — exclamou ele, levando a mão ao peito. — Dá para ver que você não é daqui, com essa boquinha suja.
  — Vai se ferrar! — falou a garota impaciente. — Já terminou? Preciso fazer uma ligação.
  — Jimin, quando a barra estiver limpa eu ligo de volta. — Jungkook encerrou a chamada e devolveu o celular para . Nesse instante, sua barriga roncou alto.
  Ele imediatamente se lembrou do motivo que o fizera sair de casa.
   fingiu não ouvir.
  — Eu vou sair. Em uns dez minutos, no máximo, estou de volta. — Ela entregou o aparelho a ele. — Pode se distrair com isso enquanto eu volto. Não vai demorar muito para escurecer e você ficar livre daqui.
  — Você está confiando demais em mim, — comentou o rapaz, apontando para o celular que agora estava em suas mãos. — Não tem medo de eu zoar seus amigos?
  A menina deu uma risada sarcástica.
  — Você não precisa se preocupar. Eu não tenho amigos para isso.
  Ela bateu a porta e saiu, deixando o rapaz sozinho.
   pendurou o avental ao lado do balcão, saiu da loja sem esquecer de trancar a porta e seguiu em direção ao restaurante que ficava em frente à floricultura. Atravessou a rua com cuidado e logo chegou ao destino.
  Assim que abriu a porta do estabelecimento, o cheiro de comida invadiu suas narinas, fazendo sua barriga roncar, mesmo tendo comido há pouco tempo. Aproximou-se do balcão e viu uma mulher sorrir ao perceber sua presença.
  — , querida! O que está fazendo aqui? — perguntou curiosa. — Fechou mais cedo hoje?
  — Ah, não, senhora Seoyun. — sorriu para a mais velha. — Me deu fome e eu vim comer o melhor frango frito da região.
  — Você é muito gentil. — A mulher sorriu de volta. — Vai comer aqui?
  — Não, vou levar. Duas porções, por favor.
  — Uau, está com fome mesmo, hein? — comentou a senhora, surpresa com o pedido. — Acabamos de fritar. Vou pedir para o Daejung preparar para você.
  — Muito obrigada!
  A mulher entrou na cozinha e não demorou mais do que alguns minutos para um rapaz sair carregando duas sacolas.
  — Ei, Daejung. Como vão as coisas?
  — Estão ótimas! — respondeu prontamente, exibindo um grande sorriso. — E você, ? Está com muita fome, hein?
  — Ah, isso? — Apontou para as sacolas. — Vou fechar daqui a pouco e levar um pouco para o jantar.
  — Entendi. Então aproveite.
  — Muito obrigada, Daejung. Eu vou aproveitar.
   dirigiu-se ao caixa para pagar a comida e, em seguida, saiu apressada em direção à floricultura.
   não sabia exatamente o que estava fazendo. Simplesmente sentira pena do rapaz que estava preso em sua loja porque um grupo de mulheres acreditava ter algum direito sobre a privacidade dele.
  Já tinha ouvido falar desse tipo de "fã louca". Afinal, havia passado muitos anos sendo fã de One Direction. Apesar de nunca ter ouvido falar em BTS, imaginava que a fama deles fosse parecida com a da banda em seu país de origem.
  Decidiu que pesquisaria mais sobre o grupo quando chegasse em casa. O garoto escondido em sua loja havia despertado sua curiosidade ao agir como se fosse um integrante dos Beatles, quando para ela era apenas um desconhecido.
  Sentia até um pouco de vergonha de si mesma. Estava na Coreia havia algum tempo. Conhecia PSY, mas apenas por causa da febre mundial que Gangnam Style havia se tornado. Fora isso, nunca tinha ouvido falar em BTS.
  Parte disso acontecia porque ela nunca dera espaço para conhecer a música coreana.
  Ainda perdida em pensamentos, abriu a porta da floricultura e encontrou Jungkook sentado em um canto, escorado na parede e completamente concentrado no que fazia no celular dela.
  — O que tá aprontando? — Jungkook pulou no lugar com o susto que levou.
  — Você quer me matar? — resmungou, levando a mão ao peito na tentativa de acalmar o coração. — As nossas fãs te matariam.
  — Aqui! — A garota jogou uma das sacolas em seu colo.
  — O que é isso? — O cheiro invadiu suas narinas e ele nem esperou pela resposta.
  — O melhor frango frito da região. — sentou-se ao lado dele e roubou um pedaço. — Vou dividir minha comida com você.
  — Ficou com pena do cara gato com rostinho de neném? — Ela riu ao se lembrar do comentário que havia feito mais cedo.
  — Como você disse, suas fãs me matariam se alguma coisa acontecesse com você. — Ainda sorria. — Aliás, dá mesmo para chamar aquelas garotas de fãs? Isso parece meio invasivo. É mais como groupies ou... como é o nome aqui mesmo?
  — Sasaengs — Jungkook respondeu sem tirar os olhos do celular dela. — Pode chamá-las assim.
  — E isso não te irrita?
  — Bastante. Mas não há muito o que fazer. Quando se é artista, algumas coisas ruins vêm junto com a fama.
  — O que você tanto mexe nesse celular? — observava intrigada o interesse quase obsessivo dele pelo aparelho.
  — Estou fazendo uma boa ação. — Ele virou a tela para ela. — Sua playlist não é de todo ruim, mas não tinha BTS. Então fiz uma especial para você.
  — Você criou uma playlist de BTS no meu Spotify? Sério isso?
  — Olha só. — O garoto mostrou a tela enquanto continuava devorando o frango.
  — Pera aí... essa aqui. — apontou para uma das músicas. — DNA não é o primeiro álbum do Little Mix? — Jungkook a encarou, completamente indignado.
  — Sério? — A garota precisou segurar o riso diante da expressão dele.
  — Eu tô brincando! — Acabou gargalhando. — Essa não é a música do assobio?
  — Você não tinha dito que não conhecia BTS? — perguntou surpreso. — Você é uma farsa!
  — E você é um idiota! — rebateu. — Eu só ouvi essa música em algum lugar e acabei me lembrando.
  — Você não é uma fã fingindo que não me conhece para ganhar minha confiança, né?
  — Claro. Na verdade, eu sou uma hater. Inclusive, envenenei sua comida. — No mesmo instante, Jungkook parou de mastigar e a encarou, alarmado. — Sério, JK? — caiu na risada. — Deixa de ser idiota. Eu já ouvi várias coisas na vida, mas K-pop definitivamente não é uma delas. — Ela pegou outro pedaço de frango e deu play na música. — Mas, se aquece seu coração, eu já escutei PSY.
  — Eu vou te apresentar o BTS. Senta aqui.
  O garoto apontou para o espaço ao seu lado. Já cansada de discutir, apenas se acomodou e observou enquanto ele abria a página do grupo no Google e começava a apresentar cada integrante.
  Ela não se importava muito com aquilo, mas era impossível não perceber o quanto ele ficava feliz falando dos amigos e do BTS.
  — Como é mesmo o nome desse aqui? — perguntou, apontando para uma das fotos.
  — Esse é o Taehyung.
  — Não lembro de você ter mencionado esse nome.
  — Eu mencionei. Ele é o V. — Jungkook revirou os olhos.
  — Ele é uma gracinha. — tomou o celular das mãos dele e deu zoom na foto. — Ele tem namorada?
  — Pra que você quer saber? — O tom desconfiado arrancou uma risada dela.
  — Agora que somos amigos, você pode me apresentar a ele.
  — Nos seus sonhos, princesa!
  — Você tem o Jimin e ainda quer esse lindinho também? — Quanto mais provocava, mais a expressão de Jungkook se fechava. Ambos sabiam que era brincadeira, mas ela se divertia demais implicando com ele. — Beleza. Vamos pausar por aqui. Acho que a barra está limpa. Liga para o seu amigo enquanto eu termino de arrumar as coisas para fechar.

   saiu e deixou Jungkook sozinho. Começou a arrumar as últimas coisas que precisava organizar antes de finalmente fechar a loja e ir para casa.
  Olhou mais uma vez para o lado de fora e confirmou que não havia mais nenhuma louca perseguindo o artista escondido na sala ao lado. Enquanto terminava de organizar tudo, pensou na loucura que havia sido aquele dia. Era para ser apenas mais um dia comum, mas acabou se transformando em algo completamente inesperado.
  — Ele já está vindo.
   estava tão concentrada em seus pensamentos que levou um susto ao ouvir a voz do rapaz logo atrás dela.
  — Você quer me matar? — perguntou, ironicamente, enquanto tentava acalmar o coração.
  — Quais são as suas flores favoritas? — questionou Jungkook, ignorando completamente a reclamação.
  — Assim, do nada?
  — Quero dar um arranjo para uma garota que conheci, mas não sei bem o que escolher. — Ele observava atentamente as flores espalhadas pela loja.
  — Então você tem uma namoradinha também? — brincou . — Eu gosto de girassóis.
  — Então faça o mais caro para mim. — O pedido repentino a pegou de surpresa. — O quê? Não era o buquê mais caro da loja em troca da ajuda?
  — Eu estava brincando. — Ela riu. — Mas também não vou negar uma encomenda dessas. — Enquanto montava o arranjo, um carro estacionou discretamente nos fundos da loja e buzinou de leve para não chamar atenção. — Acho que eles chegaram.
  Jungkook observou a garota finalizar o buquê e entregá-lo para ele. Em seguida, tirou algumas notas do bolso e as estendeu para , fazendo-a arregalar os olhos.
  — Pode ficar com o troco.
  — Isso é dinheiro demais, cara.
  — Já fechou tudo? — perguntou ao notar que ela ainda encarava o valor. — Vamos logo.
  — Do que diabos você está falando?
  — Está tarde. Eu vou te dar uma carona.
  — Isso realmente não é necessário.
  — Fecha a loja. Eu vou esperar lá fora.
  Antes que ela pudesse protestar novamente, ele saiu.
   terminou de trancar a porta e o seguiu.
  — Sério, não precisa disso.
  — Não seja idiota. Eu não vou deixar uma garota voltar para casa sozinha uma hora dessas.
  — Eu volto sozinha para casa todos os dias.
  — Você é insuportável mesmo. — Jungkook abriu a porta do carro e indicou para ela entrar. Mesmo hesitante, acabou obedecendo.
  — Então você é a namorada do nosso JK? —  Foi a primeira coisa que ouviu ao entrar no veículo. A pergunta veio do motorista, que exibia um sorriso enorme.
  — Você não deveria constranger a menina desse jeito, Hobi hyung. — Jimin estava sentado no banco do passageiro.
  — Vocês podem parar com isso? — reclamou Jungkook, sentando-se ao lado dela. — Eu já disse que essa louca não é minha namorada.
  — Quem você está chamando de louca, seu bosta? — A resposta fez Jungkook abrir um sorriso imediato.
  — Você realmente tem uma boca muito suja para uma garota.
  — Eu gostei dela. — Hoseok começou a dirigir. — Onde eu devo te deixar, meu anjo? — informou o endereço, e ele seguiu o caminho indicado.
  — Que merda você inventou dessa vez, Jungkook? — perguntou Jimin.
  — Eu só queria tomar um ar e comer alguma coisa.
  — Jungkook, você sabe que precisa sair acompanhado pelos seguranças quando faz esse tipo de coisa.
  — Eu estou me sentindo sufocado. Só queria uma hora de paz. — permaneceu em silêncio, mas não pôde evitar sentir pena dele. Aquela definitivamente não parecia ser uma vida fácil.
  — Nós te entendemos mais do que ninguém. Mas imagina se aquela sasaeng tivesse te encontrado? A quantidade de notícias falsas que poderia surgir não seria brincadeira. — Jimin suspirou. — Sem falar na sua integridade física. Essas mulheres poderiam machucar você.
  — Eu entendi. Me desculpem.
  — Só tome mais cuidado da próxima vez. — Jimin sorriu de leve. — Estamos aliviados por você estar bem.
  — Obrigada por isso, é... — Hoseok pausou, tentando se lembrar do nome dela.
  — . Mas pode me chamar de . — Ela sorriu discretamente, fazendo Jungkook bufar ao seu lado.
  — E por que para mim é ?
  — Porque você é um saco. — Os dois homens no banco da frente precisaram segurar o riso.
  — Eu desisto de você, garota. — Jungkook estendeu a mão entre os bancos. — Pode me dar meu celular, por favor?
  — Toma. — Jimin devolveu o aparelho.
  — Chegamos, . — Hoseok estacionou em frente à casa indicada.
  — Obrigada pela carona, meninos. Vejo vocês qualquer dia. — soltou uma pequena risada logo depois. — Ou não, né? Por um minuto eu esqueci quem vocês são.
  Pela primeira vez, ela viu um sorriso genuíno surgir no rosto de Jungkook.
  O rapaz saiu rapidamente do carro e correu para abrir a porta para ela.
  — Toma. — Assim que desceu, ele estendeu o buquê de girassóis.
  — Mas... o quê? — Ela o encarou, completamente confusa.
  — A louca da florista que me vendeu isso disse que gostava de girassóis. — segurou as flores. — Espero que você também goste.
  — Você é um idiota mesmo. — Ela sorriu e abraçou o presente contra o peito. — Obrigada, estrela. Foi legal te conhecer.
  — Espero te ver de novo, .
  Jungkook se despediu com um aceno antes de entrar novamente no carro.
   observou os três se afastarem pela estrada. Retribuiu os acenos e ficou parada por alguns segundos, observando as luzes do veículo desaparecerem ao longe. Suspirou profundamente e caminhou até o portão de casa. Entrou, trancou tudo atrás de si e largou a bolsa no pequeno sofá da sala. Pegou um vaso, acomodou cuidadosamente os girassóis e os colocou sobre a mesa de centro.
  Só então seguiu para o banheiro, pronta para finalmente encerrar aquele dia interminável. Mais tarde, já deitada na cama, pegou o celular para verificar as horas. Foi então que uma notificação apareceu na tela. O que chamou sua atenção não foi apenas a mensagem, mas quem a havia enviado.
  "My fave of BTS".
   gargalhou imediatamente. Abriu a conversa e sentiu o sorriso crescer ainda mais ao ler o conteúdo. Definitivamente aquele tinha sido o dia mais estranho de sua vida. Conhecera um ídolo mundialmente famoso sem sequer saber quem ele era, passara a tarde escondendo-o de fãs malucas e agora estava recebendo mensagens dele.
  Com a mente cheia de pensamentos, seus olhos começaram a pesar. Pouco tempo depois, adormeceu profundamente.

CAPÍTULO 2: O PRIMEIRO FLASH

   saía da sala de aula apressadamente; havia se enrolado revisando a matéria para as provas da próxima semana e acabou perdendo o horário. Estava um pouco atrasada para abrir a floricultura, mas não se atormentou com isso, afinal, não levaria bronca mesmo. O telefone começou a tocar em seu bolso, atraindo sua atenção. Quando o pegou e viu o nome precisar brilhar na tela, não evitou abrir um grande sorriso. Era incrível, mas parecia que eles se conheciam há anos, mesmo fazendo somente algumas semanas. A menina sempre fora uma grande fã de pop, então escutar BTS não seria uma tortura tão grande, mas conversar com o cantor era tão natural que ela nem se lembrava de quem ele realmente era, pois, para ela, ele era apenas o garoto que invadiu seu trabalho.
  — Eu ainda me pergunto por que não mudei seu nome de contato. — Foram as palavras ditas pela garota assim que atendeu o telefone.
  — Eu sou o seu favorito e não aceito "não" como resposta — respondeu o menino do outro lado. — É assim que você me atende agora?
  — Sabe, eu andei pesquisando e, nos fóruns coreanos, falavam que você é tímido e tem medo de mulher. — Só se conseguia ouvir a gargalhada do menino do outro lado da ligação. — O que aconteceu com essa informação?
  — Eu tinha quinze anos quando debutei, pode ter certeza de que tímido era meu sobrenome — respondeu o menino, ainda rindo. — Mas isso só dura o tempo de pegar intimidade, e a gente pegou muita, não foi, ?
  — Deixa de ser idiota, garoto. Além do mais... — A menina estava tão concentrada na ligação que nem percebeu alguém esbarrar em si, derrubando-a juntamente com seus livros. — Que merda é essa? — questionou, olhando para a pessoa que a encarava com um sorriso sarcástico.
  — Foi mal, não te vi aí — respondeu a outra garota, ainda sorrindo.
  — Eu não sabia que você tinha problema de visão — falou rudemente, ignorando as perguntas de JK do outro lado da linha.
  — Eu só tenho dificuldade de enxergar coisas insignificantes como você.
  — Se você fez tanta questão de vir mexer comigo, significa que eu não sou tão insignificante assim para você, Nayeon — debochou .
  — Levanta. Eu não sei como é no seu país, mas aqui não gostamos de ver lixo jogado no chão — continuou com os insultos.
  — Então você deveria parar de andar por aí. — A última coisa que iria fazer era abaixar a cabeça para uma racistinha de merda.
  — Eu nem deveria perder meu tempo com gente do seu nível. — Nayeon saiu furiosa ao ser confrontada dessa forma, chutando o livro de que ainda estava no chão.
  — Vai se foder — murmurou , levantando-se rapidamente e pegando suas coisas. Assim que pegou o celular, pôde ouvir que a voz do outro lado da linha chamava seu nome insistentemente. — Oi, estou aqui, foi mal!
  — O que aconteceu? — Podia-se sentir o nervosismo do garoto do outro lado da linha. — Você estava brigando com alguém?
  — Ah, você ouviu? — sorriu de leve; era uma situação realmente chata e não queria preocupar o menino com isso. — Não foi nada demais, é só que... — Ela nunca se incomodara com esse tipo de coisa, afinal, era bem comum acontecer com ela, mas isso não significava que não magoava. — Pessoas estrangeiras nem sempre são bem-vindas em escolas ou universidades coreanas.
  — Você está sofrendo algum tipo de bullying por isso? — Podia-se sentir a tensão de Jungkook e ele, por um segundo, pensou em ir correndo atrás dela.
  — Eu já estou acostumada com isso, não liga, estrela.
  — Ninguém se acostuma com algo ruim — respondeu ele, quase em um sussurro.
  — Você, mais do que ninguém, deveria me entender — falou a garota, voltando a caminhar. — Afinal de contas, você é o famoso que recebe ódio gratuitamente. — O silêncio do outro lado foi a resposta que ela sabia que teria; o que ela passava com Nayeon, Jungkook passava com milhões de pessoas. — A gente sabe que ignorar a dor é melhor do que deixá-la nos afetar.
  — , não acho que...
  — Podemos não falar mais sobre isso, por favor? — a garota pediu, interrompendo o rapaz, que logo suspirou pesadamente. Ele sabia o quanto aquilo magoava, o quanto fazia a pessoa se sentir totalmente incapaz. — Por que me ligou uma hora dessas? Não devia estar trabalhando?
  — Tivemos uma pausa agora e resolvi te ligar para fazer um convite. — Ele resolveu acatar o pedido da garota, mas não deixou sua preocupação de lado; queria muito fazê-la se sentir melhor. — Quer vir aqui em casa hoje?
  — Você está preparado para me apresentar para o meu querido V?
  — Estamos com duas semanas de folga, os meninos estão indo para a cidade natal para visitar os pais — disse ele, ignorando completamente o comentário da garota. — Meus pais e meu irmão viajaram, então não vou conseguir ir para Busan, e o Hobi hyung também vai ficar.
  — Hobi seria o J-Hope? — O menino gargalhou do outro lado da linha; achava fofa a forma como ela estava aprendendo aos poucos sobre o BTS.
  — Isso aí, garota! Estou gostando de ver você aprendendo sobre o BTS. Gravar nossos nomes e apelidos já é um ótimo começo — elogiou o menino, ainda rindo.
  — Eu estou ouvindo as músicas e assistindo ao programa de variedades de vocês. — tinha realmente pesquisado sobre o BTS e começado a ouvir suas canções; como ela amava pop em si, não foi ruim escutar.
  — Qual é a sua favorita até agora? — perguntou o menino, curioso.
  — Eu amei Epiphany, é tão sincera e linda — respondeu, lembrando-se de quando ouviu a música pela primeira vez e quase chorou. — O compositor está de parabéns, e o intérprete me emocionou demais.
  — O Jin hyung é o melhor mesmo, você tem que ouvir ao vivo — falou Jungkook com entusiasmo.
  — Você está me convidando para o show, JK?
  — Com certeza eu quero você em um show. — Ele sorriu, o tom mudando para algo mais descontraído, mas sem perder o foco. — Mas antes de pensar em turnê, o meu convite de hoje ainda está de pé. Como eu disse, já que o Hobi hyung e eu ficamos por aqui, nós dois estamos trancados no apartamento. Por que você não vem jantar com a gente hoje à noite? Eu posso cozinhar algo especial para você.
   parou a poucos metros da floricultura, piscando surpresa. Uma ideia travessa surgiu em sua mente, e ela não resistiu à oportunidade de brincar um pouco com o ego inflado do garoto.
  — No apartamento de vocês? — perguntou, fingindo uma animação exagerada. — Espera... você disse que quase todo mundo viajou..., mas o Taehyung mudou de ideia e ficou por aí? Me diz que o Tae-oppa vai jantar com vocês, por favor!
  O silêncio imediato do outro lado da linha foi impagável. quase pôde ouvir o bico emburrado e indignado que se formava nos lábios de Jungkook.
  — Oppa? Desde quando ele é seu oppa, ? — A voz de Jungkook caiu duas oitavas, subitamente séria e visivelmente enciumada. — O Taehyung-hyung foi para a casa da família dele. E eu já disse para você não me chamar de oppa, mas você vai e chama ele? Eu estou aqui te convidando para comer a minha comida, no meu apartamento, e você procurando por outro?
  Ao fundo, uma gargalhada escandalosa ecoou. Era Hoseok, que, pelo visto, estava colado no telefone ouvindo tudo e quase rolando no chão de tanto rir. “Toma essa, Jeon! Tae-oppa! Eu amei essa garota!”, ele gritou, divertindo-se com a crise de ciúmes do mais novo.
  — Sai da minha ligação, Hobi hyung! — Jungkook esbravejou, irritado, afastando o celular por um segundo antes de voltar para ela, resmungando: — Não aceita as provocações dele, . Eu sou o mestre-cuca desta casa, você vai comer muito bem, eu prometo. Esquece o Taehyung.
  — Ele fica todo mordido, ! Vem logo! — O grito de Hoseok ainda ecoou ao fundo, fazendo soltar uma risada sincera, esquecendo por um instante todo o estresse do confronto recente com Nayeon.
  — Mas sério, vem — JK insistiu, o tom um pouco mais baixo. — Acho que uma conversa boba e uma comida boa vão te fazer bem. O que acha?
   suspirou, o olhar caindo sobre a vitrine da loja. O convite era maravilhoso, mas a realidade acadêmica pesou nos seus ombros.
  — JK, eu adoraria, de verdade... Mas vai ser difícil hoje — respondeu ela, o desânimo cobrindo sua voz. — Eu estou entulhada com as coisas da faculdade. Tenho um trabalho prático enorme para entregar e preciso tirar umas fotos para o projeto. Se eu não fizer isso hoje, não vou ter tempo depois por causa das outras matérias. E, além do mais, eu acabei de chegar na floricultura e preciso cumprir todo o meu horário de trabalho aqui. Só vou estar livre bem mais tarde.
  Houve um segundo de silêncio do outro lado da linha, seguido por um estalo de dedos animado do garoto.
  — Mas isso é perfeito! — Jungkook exclamou, e quase pôde ver o sorriso dele se expandindo. — Você cumpre seu horário na floricultura e, assim que fechar a loja, vem direto para cá. Você está falando com o Jeon Jungkook, esqueceu? Eu tenho as melhores câmeras, lentes profissionais e o nosso apartamento tem uma iluminação ótima. Juntamos o útil ao agradável: você faz o seu trabalho, a gente te ajuda, o Hobi hyung vira nosso assistente e depois eu faço o jantar. Sem desculpas, , estamos te esperando depois do seu expediente!
  A determinação dele não dava margem para recusas. acabou aceitando, sentindo um calorzinho gostoso no peito que apagou qualquer rastro do humor ácido de Nayeon.
  As horas na floricultura pareceram voar e, assim que passou a chave na porta principal, a adrenalina subiu. Ela passou correndo em sua casa apenas para buscar suas luzes portáteis de LED e sua câmera, seguindo direto para o endereço deles sob o manto da noite de Seul. Já dentro do condomínio de segurança reforçada, seu coração parecia querer pular do peito. Ela ajeitou os óculos no rosto, respirando fundo para conter o nervosismo. Era sempre surreal lembrar quem a estava esperando do outro lado daquela porta.
  Assim que tocou a campainha, a porta foi aberta por um Hoseok superradiante, vestindo roupas confortáveis de ficar em casa, exalando um perfume suave misturado ao cheiro delicioso de comida temperada que vinha da cozinha.
  — Entra, ! O mestre-cuca está quase surtando ali no fogão porque você chamou o V de oppa — Hobi brincou, pegando a mochila pesada dela com o mesmo carisma do dia em que se conheceram no carro.
  Jungkook apareceu logo atrás, limpando as mãos em um pano de prato, com um sorriso largo que instantaneamente desarmou toda a tensão que carregava do dia.
  — Você conseguiu vir! — ele disse, os olhos brilhando. — Deixa as coisas na sala, vamos montar o seu estúdio primeiro antes que a comida fique pronta.
  Minutos depois, os três estavam espalhados pelo tapete da sala. ajustava o foco da câmera, enquanto a iluminação roxa e rosa que ela havia trazido criava sombras modernas, vibrantes e artísticas contra o ambiente escuro do apartamento.
  — Tem certeza de que não quer que eu tire o boné, ? — Jungkook perguntou, ajeitando a aba preta bem para baixo, cobrindo totalmente os olhos. Ele estava sentado no chão, encostado no sofá, achando superdivertida a brincadeira de ser um modelo misterioso.
  — Não! Deixa o boné exatamente onde está — respondeu firme, o tom de voz misturando a seriedade acadêmica com uma ponta de puro instinto de proteção.
  Para a faculdade, o conceito do ensaio era sobre silhuetas urbanas e texturas. Mas, para ela, aquele enquadramento milimétrico era uma questão de sobrevivência. A última coisa que faria na vida era colocar a carreira e a privacidade daqueles dois em risco. Se um único traço do rosto de Jungkook vazasse no portfólio de uma estudante estrangeira, o tamanho da confusão e dos boatos seria astronômico. Ela preferia tirar um zero a ser a razão de um escândalo na vida dele.
  — Olha o foco, diretora! Se a janta queimar, a culpa é sua — Hobi brincou, aproximando um dos refletores de LED para ajustar o contraste na parede, rindo da seriedade dos dois. — Mas ó, o Jungkook de boca fechada e sem mostrar o rosto é um modelo excelente. Devia posar assim mais vezes.
  — Yah, Hyung! Eu sou o mestre-cuca e o modelo principal hoje, me respeita — Jungkook rebateu, rindo e deixando escapar o nariz e os dentes de coelhinho por baixo da aba do boné, arrancando uma risada de , que aproveitou o momento espontâneo e bateu o primeiro clique.
  Pelo visor da câmera, a foto em estilo Polaroid ficou fantástica. O rosto de Jungkook estava completamente escondido nas sombras, e a luz roxa destacava perfeitamente a linha do seu maxilar inclinado e o contorno do piercing no lábio inferior. soltou um suspiro de alívio ao checar o enquadramento: a mão direita dele, cheia de tatuagens icônicas, tinha ficado estrategicamente escondida atrás do joelho, totalmente coberta pela penumbra do estúdio improvisado.
  — Finalmente! — Jungkook resmungou rindo, jogando o boné no sofá e passando os dedos pelos fios de cabelo bagunçados. — Eu já estava quase congelado nessa pose.
  — Não reclama, Jeon, você nasceu para ser modelo. Agora, o que está me preocupando de verdade... — Hobi farejou o ar, arregalando os olhos com aquela expressividade engraçada que só ele tinha. — É aquele cheiro ali. Corre, mestre-cuca!
  Jungkook arregalou os olhos e deu um pulo do chão, correndo em direção à cozinha enquanto gritava um "Ai, meu Deus, o tteokbokki!" desesperado. e Hoseok caíram na gargalhada, seguindo o mais novo logo atrás.
  A cozinha do apartamento era enorme, moderna e incrivelmente organizada, embora naquele momento houvesse algumas panelas a mais no fogão. Felizmente, o jantar não tinha queimado; Jungkook chegou a tempo de desligar o fogo, suspirando aliviado enquanto apoiava as mãos nos quadris.
  — Quase perco o meu título de melhor cozinheiro do BTS — ele brincou, olhando de rabo de olho para , os olhos brilhando com aquela provocação infantil. — Podem se sentar. Fiz tteokbokki picante do jeito que eu gosto, mas peguei leve na pimenta por sua causa, . E tem bulgogi.
  Ao ouvir aquilo, Hobi soltou uma daquelas suas risadas escandalosas, quase se engasgando com o ar antes mesmo de começar a comer.
  — Melhor cozinheiro? — Hoseok zombou, apontando o hashi para o mais novo com uma cara de pura diversão. — Escuta aqui, , não cai no papo dele, não. Se o Jin hyung ou o Yoongi hyung escutam uma palhaçada dessas, o Jungkook vai passar o resto das duas semanas de folga lavando a louça de todos os jantares do grupo sozinho! Todo mundo sabe que os reis da cozinha são eles. O Jeon aqui só sabe fazer muita pose e comida cheia de pimenta.
  — Yah, Hyung! — Jungkook protestou imediatamente, estufando o peito de forma dramática enquanto distribuía as tigelas. — O Jin hyung e o Suga hyung cozinham bem, claro, mas eles são da velha guarda! Eu sou o mestre da culinária moderna e espontânea.
  — Sei, o mestre que quase defuma a sala inteira — Hobi rebateu, piscando para enquanto se sentava em uma das banquetas. — Ele passou a tarde inteira nervoso planejando esse cardápio, , não se deixa enganar.
  — Eu só queria que ficasse perfeito! — Jungkook resmungou, as bochechas ficando levemente coradas de verdade enquanto colocava as travessas na mesa. Em seguida, sentou-se bem na frente de , cruzando os braços na bancada e olhando para ela com expectativa. — Anda, experimenta primeiro. Quero ver a sua nota.
   sentiu o peso da expectativa daqueles dois voltados inteiramente para ela. Parecia uma cena saída de um sonho surreal. Ela juntou os hashis, pegou um pedaço do bolo de arroz macio e mergulhado no molho vermelho brilhante e levou à boca.
  O sabor era uma explosão: perfeitamente mastigável, com o balanço exato entre o doce, o salgado e uma picância suave que aquecia o peito sem queimar as papilas gustativas.
  — E então? — Jungkook perguntou, inclinando o corpo para a frente, genuinamente ansioso.
  — Nota onze de dez — decretou, fechando os olhos em aprovação. — De verdade, JK, isso está maravilhoso! O Jin e o Suga que se cuidem, porque você tem talento.
  Jungkook abriu um sorriso enorme, daqueles que faziam seus olhos sumirem e os dentes aparecerem, jogando um olhar vitorioso na direção de Hoseok. Hobi apenas balançou a cabeça rindo, atacando o próprio prato e iniciando uma conversa leve sobre as comidas brasileiras que sentia falta e sobre como o sotaque dela falando coreano era fofo.
  Entre uma garfada e outra, o clima pesado que Nayeon tinha deixado no começo do dia sumiu por completo. Estar ali com eles, jogando conversa fora, limpando o canto da boca borrado de molho picante e ouvindo as risadas acolhedoras de Hoseok fazia se sentir, pela primeira vez em muito tempo, totalmente em segurança em Seul.
  Foi quando Hobi deixou os hashis de lado por um momento e olhou para ela com curiosidade.
  — Mas vem cá, ... — ele começou, apoiando os cotovelos na bancada. — A gente brincou ali na sala, mas eu vi o jeito que você se mexe com a câmera. Você muda completamente de postura, fica super séria, focada. Dá para ver de longe que você ama o que faz. De onde veio esse interesse pela fotografia? É o que você sempre quis fazer na universidade?
   engoliu o que estava mastigando, pega de surpresa pela pergunta genuína. Ela ajeitou os óculos no rosto, e um brilho diferente, mais caloroso e vibrante, surgiu em seus olhos.
  — Para ser sincera, a universidade cobra muito a parte técnica, editorial, coisas mais rígidas... É o que eu preciso fazer para me formar. — Ela deu um sorriso meio de lado, olhando para as próprias mãos antes de encarar os dois. — Mas o meu amor de verdade pela fotografia não nasceu dentro de uma sala de aula. Nasceu no meio da multidão, ouvindo música alta.
  Jungkook, que estava prestes a pegar mais um pedaço de bulgogi, parou o hashi no ar, totalmente atento às palavras dela, fascinado pela mudança na energia da garota.
  — No meio da multidão? — JK instigou, incentivando-a a continuar.
  — Sim. O meu verdadeiro sonho... O motivo de eu ter pegado numa câmera pela primeira vez na vida, é fotografar shows — revelou , a voz carregada de uma paixão genuína que ela raramente mostrava para as pessoas da faculdade. — Eu sempre fui completamente apaixonada por música, por pop. Para mim, um show não é só um bando de gente cantando. É o único lugar onde milhares de pessoas esquecem todos os seus problemas ao mesmo tempo para viver um momento único. — Ela gesticulou levemente com as mãos, totalmente entregue àquela sensação. — O que eu quero de verdade é capturar isso. Quero congelar a gota de suor do artista no palco sob a luz dos refletores, o momento exato em que a fumaça sobe, a energia da fita caindo no final da última música, a expressão de alguém na primeira fileira chorando de emoção... — sorriu, quase um pouco sem graça por ter falado tanto, mas seus olhos brilhavam. — Eu quero contar a história do show através de uma imagem. Esse é o meu grande sonho.
  O silêncio na cozinha mudou completamente. Não era mais o silêncio tenso de quando ela falou sobre o bullying na faculdade, mas um silêncio de profunda admiração.
  Hoseok abriu um sorriso enorme, daqueles calorosos que pareciam iluminar o ambiente inteiro, tocado pela sensibilidade dela.
  — Uau, ... — Hobi falou em um sussurro genuíno, os olhos brilhando. — Isso foi lindo demais. Como artista, eu posso te dizer que o que você acabou de descrever é exatamente a alma do que a gente tenta entregar no palco. Saber que tem alguém com essa sensibilidade atrás da lente... Nossa, arrepiei de verdade!
  Jungkook continuava olhando para ela, com um sorriso contido e profundo nos lábios, os dentes aparecendo de leve. Ele apenas balançou a cabeça devagar, processando a intensidade das palavras dela, e o respeito que sentia por só aumentou.
  — Dá para ver nos seus olhos o quanto você quer isso, — JK disse, o tom de voz manso e sincero, quebrando o silêncio com admiração pura. — E com essa visão... você com certeza vai ser gigante no que faz.
   sentiu as bochechas esquentarem de leve com o elogio sincero vindo de alguém que entende tão bem de palcos, mas abriu um sorriso grato.
  — É por isso que eu me esforço tanto, mesmo em trabalhos mais simples como esse das fotos que tirei de você na sala — ela explicou, ajeitando os óculos no rosto com empolgação. — A grade da faculdade é cheia de disciplinas tradicionais e rígidas, mas tem uma única matéria no curso que é totalmente diferente. É uma matéria que visa exatamente essa pegada que eu quero levar para a vida: capturar a energia do momento, o sentimento da massa e o movimento artístico. Eu sou completamente apaixonada por ela! É a única hora da semana em que sinto que estou estudando o meu sonho de verdade.
  Hobi soltou um estalo com a língua, apontando para ela com um olhar cúmplice.
  — Então você já está no caminho certo — brincou ele, dando uma leve cotovelada no mais novo. — Se a sua matéria favorita é o que move o seu coração, você precisa continuar com essa mesma energia. E se precisar de modelos de novo para qualquer outro trabalho, já sabe onde moramos.
  — Com certeza — Jungkook concordou, os dentes aparecendo em um sorriso orgulhoso.
  O clima pesado do início do dia tinha sumido por completo, substituído por uma atmosfera acolhedora, cheia de risadas e sonhos compartilhados no meio daquela cozinha. finalmente sentia que, apesar das dificuldades, estava exatamente onde deveria estar.


  Nota da Autora: Olá gente, espero que estejam gostando de ler da mesma forma que eu estou amando escrever, tenho muita coisa preparada pra essa história e tenho bastante coisa já escrita também. Me digam o que vocês então achando, seus comentários são muito importantes!
  Mil beijos e até a próxima

CAPÍTULO 3 - RITMO DE SEUL

  Alguns dias haviam se passado desde a noite do jantar no apartamento dos meninos, mas a mente de parecia ter ficado travada naquela cozinha. Ela passou o resto daquela semana dividida em uma rotina quase milimétrica: cumpria rigorosamente seus horários na floricultura, assistia às aulas cansativas da universidade e, assim que chegava em casa, entregava suas madrugadas ao brilho da tela do computador. Editar aquelas fotos exigiu dela um cuidado quase cirúrgico. Com os olhos fixos nos detalhes, ela calibrou os tons de roxo e rosa neon que tanto amava, aplicando uma estética moderna e vibrante inspirada na Pop Art e em bordas de Polaroid.
  Sua maior preocupação, no entanto, era a segurança. revisou cada pixel para garantir que a identidade de Jungkook estivesse totalmente protegida sob as sombras e o caimento do boné. Ela preferia tirar um zero a ver o rosto da maior estrela do país vazado no portfólio de uma estudante estrangeira. Quando finalmente fechou os arquivos na véspera da entrega, o cansaço em seus ombros era gigante, mas a satisfação com o resultado artístico era ainda maior.
  Finalmente, a manhã de entrega do projeto chegou. O despertador tocou alto, arrancando de um sono profundo. Antes mesmo de criar coragem para se levantar, ela esticou o braço e pegou o celular na cabeceira para checar as horas. Foi quando viu uma notificação de mensagem que a fez abrir um sorriso instantâneo, espantando todo o rastro de sono:

  JK: Bom dia, ! É hoje o dia de entregar o trabalho, né? Passando para te desejar boa sorte. O Hobi hyung e eu fomos os melhores assistentes de iluminação que você poderia ter, então o seu professor não tem nem direito de te dar menos que um dez! Brincadeira... você é incrível no que faz. Vai lá e arrasa. Avisa quando sair da aula!

  Aquele voto de confiança, vindo de alguém que ela admirava tanto, funcionou como um combustível instantâneo. se arrumou, ajeitou seus óculos no rosto e pegou a pasta com as impressões. Ao entrar no campus da universidade, ela caminhava com uma postura firme, de cabeça erguida. Pelos corredores, ela chegou a avistar Nayeon cochichando e rindo com um grupo de amigas perto dos armários. Em outro momento, os olhares tortos a teriam deixado desconfortável, mas, daquela vez, a presença da garota nem sequer beliscou o seu humor. estava blindada por dentro.
  A primeira aula do dia era a de fotografia tradicional, comandada pelo senhor Kang, um professor conhecido por sua rigidez extrema. Ele passava de mesa em mesa, deixando comentários que faziam metade da sala engolir em seco. sentou-se na terceira fileira, organizando seu portfólio físico e esperando a sua vez. Nayeon, sentada algumas fileiras para o lado, esticava o pescoço com um sorriso cínico, claramente esperando o momento em que a brasileira levaria uma bronca pública.
  — Senhorita , sua vez — o professor Kang chamou, parando em frente à mesa dela.
  Ele ajeitou os óculos e puxou os arquivos digitais na tela enquanto abria o portfólio impresso. O silêncio do professor durou quase um minuto inteiro. Seus olhos clínicos passavam pelas fotos do modelo misterioso na penumbra, onde o jogo de luzes roxas destacava perfeitamente a linha do maxilar e o contorno do lábio inferior, deixando todo o resto oculto artisticamente.
  — Interessante... — o senhor Kang quebrou o silêncio, aproximando o rosto da tela. — Muito interessante. A maioria dos seus colegas se limitou a tirar fotos de prédios ou de objetos na rua para cumprir a tabela de texturas urbanas. Mas você trouxe humanidade e drama para o conceito. Esse contraste de neon com a escuridão criou uma atmosfera editorial pesada, quase... musical. Quem é o modelo?
   sentiu o coração dar uma leve batida em falso, mas manteve a voz firme e profissional.
  — Um amigo, professor. Preferi trabalhar com o mistério da silhueta para que a identidade dele não desviasse o foco do jogo de luzes e texturas que o projeto pedia.
  O professor deu um raro aceno de aprovação com a cabeça, digitando a nota direto no sistema da faculdade.
  — Excelente escolha conceitual. A técnica de corte de luz ficou impecável e a textura do plano de fundo conversou muito bem com o mistério do modelo. Nota máxima. Parabéns.
  Ao ouvir as palavras "nota máxima", o sorriso sarcástico no rosto de Nayeon murchou instantaneamente. Ela bufou de frustração e virou o rosto para a frente, fingindo mexer no celular para disfarçar o incômodo. soltou o ar que nem sabia que estava segurando, sentindo uma satisfação absurda.
  Mas o dia estava apenas começando.
  Assim que o sinal bateu anunciando o fim daquele bloco, arrumou suas coisas rapidamente e praticamente flutuou pelos corredores até a sala do bloco B. Era hora da sua matéria favorita no curso inteiro: Fotografia de Espetáculo e Movimento Artístico. O professor dessa disciplina era jovem, dinâmico e costumava colocar música ambiente enquanto os alunos se acomodavam. sentou-se na primeira fileira, com os olhos brilhando e o caderno aberto.
  — Bom dia, pessoal — o professor anunciou, desligando o som. — Hoje nós vamos falar sobre a alma da fotografia de eventos. Quero uma discussão com vocês sobre o conceito de "congelar a emoção". Como vocês capturam não apenas o artista nos palcos, mas a catarse de quaisquer milhares de pessoas ao mesmo tempo?
   inclinou-se para a frente. Relembrando cada palavra que dissera a Jungkook e Hoseok na cozinha sobre o seu verdadeiro sonho, ela levantou a mão e pediu a palavra.
  — Professor, eu acredito que o segredo está em olhar para a multidão tanto quanto olhamos para o palco — explicou, com uma paixão na voz que chamou a atenção de toda a sala. — Um show é o único lugar onde milhares de pessoas esquecem seus problemas juntos. O clique perfeito não é só focar no artista sob o refletor, mas registrar o momento exato em que a fumaça sobe, a energia da fita caindo na última música ou a expressão de alguém na primeira fileira chorando de emoção. A fotografia precisa contar a história daquela catarse.
  O professor abriu um sorriso largo, impressionado.
  — Perfeito, ! Você acabou de descrever exatamente o que eu espero de vocês — o professor elogiou. — E é por isso mesmo que o projeto final desta matéria será diferente este ano. Nós conseguimos uma parceria exclusiva com a federação cultural. O próximo trabalho prático de vocês será cobrir a grande competição esportiva e cultural que vai acontecer no campus. Quero movimento, suor, drama e torcida. E tem mais: o aluno que tirar a melhor foto da competição, a imagem que mais conseguir capturar essa energia viva, vai ganhar o direito a um photoshoot oficial, com passe livre na área de imprensa, no show de um grande grupo de K-pop que acontecerá em Seul no mês que vem.
  A sala virou um alvoroço instantâneo. Para qualquer estudante ali, uma oportunidade daquelas valia ouro. sentiu as mãos formigarem. O seu grande sonho estava ali, ao alcance de um clique. Duas fileiras para o lado, Nayeon se virou lentamente, olhando para ela com um sorriso competitivo e superior. Mas, dessa vez, não se encolheu. Ela apenas sustentou o contato visual, com uma determinação fria. A guerra estava declarada.
  Assim que o sinal bateu encerrando o bloco de aulas, recolheu suas coisas rapidamente. A mente dela estava fervendo de ideias, traçando estratégias para a competição. Assim que cruzou os portões do campus e sentiu o vento fresco de Seul no rosto, ela enfiou a mão no bolso e puxou o celular. Havia chegado a hora de responder ao garoto que tinha dado o empurrãozinho de sorte que ela precisava.
  Com os dedos ágeis, ela digitou a mensagem para Jungkook:

  : JK, você não vai acreditar! Tirei nota máxima no trabalho das silhuetas! O professor elogiou muito a iluminação (então dê os parabéns para o Hobi hyung também!). Mas a melhor parte veio na minha matéria favorita... O professor lançou uma competição prática valendo um photoshoot oficial no show de um grande grupo de K-pop no mês que vem! É a chance da minha vida. Estou saindo da faculdade agora flutuando. Obrigada por me dar sorte logo cedo!

   ainda não tinha sequer descido os primeiros degraus da estação de metrô quando o celular em sua mão vibrou de forma insistente. Não era apenas uma notificação, mas sim uma sequência de mensagens que parecia uma metralhadora de balões de conversa na tela. Ela encostou-se perto da parede do corredor, ajeitando a mochila no ombro, e abriu o aplicativo com um sorriso curioso.

  JK: NOTA MÁXIMA?! Eu não disse?!
  JK: Eu sabia que o professor não ia resistir à nossa obra-prima! Quer dizer... à SUA obra-prima. Eu fui apenas um excelente pedaço de argila nas mãos de uma artista.
  JK: Mas espera aí... COMPETIÇÃO? Nos próximos dias?!
  JK: , isso é sério? Um photoshoot oficial no show de um grande grupo de K-pop?!

  Antes que ela pudesse começar a digitar uma resposta detalhada sobre as regras que o professor havia passado, a tela mudou abruptamente para uma chamada de vídeo. soltou uma risada baixa, surpresa com a empolgação, e atendeu, levando o aparelho à altura dos olhos.
  A imagem balançou por um segundo até focar no rosto de Jungkook. Ele parecia estar no estúdio da empresa, vestindo um moletom folgado e com os cabelos pretos levemente bagunçados, mas os olhos dele brilhavam de uma forma genuína.
  — Você está brincando comigo, não está? — ele disparou antes mesmo que ela pudesse dizer um "oi". — Um passe livre na área de imprensa? , você tem noção do quanto os fotógrafos profissionais brigam por uma vaga dessas nos grandes shows daqui?
  — Eu sei! Eu ainda estou tentando processar — respondeu, sentindo a adrenalina voltar a subir só de falar em voz alta. — O projeto vai ser cobrir a competição cultural e esportiva do campus. Quem tirar a foto que melhor congelar o movimento e a emoção da torcida leva o prêmio.
  De repente, o rosto de Jungkook foi empurrado para o lado e a imagem foi invadida pelo sorriso radiante de Hoseok, que acenava freneticamente para a câmera.
  — Parabéns pela nota máxima, nossa fotógrafa favorita! — Hobi gritou, fazendo uma dancinha com os ombros que fez rir no meio do corredor do metrô. — Eu sabia que meu talento como assistente de iluminação ia dar frutos. Mas escuta aqui, para ganhar essa competição de esportes você vai precisar de um treinamento pesado. Fotos de movimento rápido não são brincadeira!
  — O Hobi hyung tem razão. — Jungkook voltou a aparecer na tela, dividindo o espaço com o mais velho, com uma expressão pensativa. — O foco precisa ser absurdamente rápido, e você tem que antecipar o movimento do atleta antes mesmo de ele chutar a bola ou saltar. Se você clicar um milissegundo atrasada, a foto borra ou perde a expressão de drama.
  — Exatamente! — Hobi apontou o dedo para a câmera, com os olhos semicerrados em um olhar ultra sério de "treinador". — Então, nós decretamos que você precisa de um treino de reflexo. Que tal se você vier aqui na casa do Jungkook antes do grande dia? Você tenta tirar fotos do Jungkook correndo atrás do cachorro ou tentando dançar a coreografia nova no meio da sala. Se você conseguir focar nesse garoto pulando igual a um coelho hiperativo, você consegue fotografar qualquer atleta do mundo!
  — Yah! Hyung! — Jungkook protestou na hora, empurrando o ombro de Hoseok enquanto suas bochechas ganhavam um tom leve de vermelho. — Eu não sou hiperativo! Mas... pensando bem, , não é uma ideia ruim. Venha nos visitar no meu apartamento antes da competição. A gente te ajuda a testar as configurações da sua câmera para rastreamento de foco dinâmico. Você não pode dar nenhuma chance para aquela garota da sua sala passar na sua frente.
  — Eu aceito a ajuda com as configurações, com certeza! — riu, despedindo-se deles antes de entrar no vagão.
  E foi assim que, na véspera da competição, se viu tocando a campainha do apartamento do Jungkook mais uma vez.
  Quando a porta se abriu, um sorriso doce, familiar e de olhos semicerrados a recebeu.
  — ! Que bom te ver de novo — Jimin disse, abrindo espaço para ela entrar com extrema simpatia. Ele usava calças de moletom confortáveis e uma camiseta preta básica. — Da última vez eu só te vi no meio daquelas flores e do caos para buscar o JK, mas hoje o Hobi hyung montou um verdadeiro campo de treinamento militar na sala. Entre, por favor!
  — Obrigada, Jimin. É muito bom te ver fora do carro também — respondeu, soltando uma risada genuína e sentindo o clima leve desarmar um pouco do seu nervosismo. Ela tirou os sapatos e segurou a maleta da sua câmera com firmeza.
  Ao entrar na imensa sala de estar, a cena que encontrou fazia jus à promessa da ligação. Bam, o imenso dobermann de Jungkook, corria em círculos pelo tapete, latindo animado e perseguindo um brinquedo de pelúcia. No centro de tudo, Jungkook tentava executar um trecho da nova coreografia do grupo — uma sequência de passos absurdamente rápida, cheia de giros de calcanhar e movimentos de tronco —, enquanto Hoseok estava sentado no braço do sofá, segurando o cronômetro no celular.
  — Ela chegou! — Hobi anunciou, pulando do sofá. — Ótimo, sem tempo a perder. , monte seu equipamento. O treinamento de reflexo de ação começou!
  Jungkook interrompeu o passo de dança, passando a mão pelo cabelo suado e exibindo seu sorriso de coelho.
  — Eu já mudei as configurações da câmera pro foco contínuo e pro rastreamento dinâmico — explicou, tirando a câmera da maleta com agilidade. — Mas preciso treinar o meu tempo de reação.
  — Então vamos começar com o nível básico: o Bam! — Hobi comandou. — , tente travar o foco nos olhos do cachorro enquanto o Jungkook joga o brinquedo. Animais correndo mudam de direção mais rápido que atletas!
  Jungkook arremessou a pelúcia do outro lado da sala. Bam disparou como um raio pelo tapete.
  Clique. Clique. Clique.
  O som do obturador começou a ecoar. flexionou os joelhos, acompanhando a corrida frenética do cão. Rastrear o pelo escuro em movimento rápido no meio dos móveis era um desafio insano.
  — Muito fácil! Agora, nível intermediário: o coelho humano! — Hobi gritou, se divertindo. — JK, mude para a coreografia nova. , tente capturar o movimento nítido das mãos e dos pés dele nos cortes de ritmo!
  Jungkook assumiu o centro do tapete e começou a dançar. Os movimentos eram explosivos e rápidos. Ele girava, agachava e saltava em frações de segundo. colou o olho no visor, os dedos trabalhando freneticamente nos botões de ajuste para compensar a mudança constante de posição dele sob a iluminação da sala.
  Jimin, que estava assistindo a tudo da cozinha enquanto tomava água, soltou uma risada alta e caminhou até o centro do espaço.
  — Se o desafio é drama e movimento artístico de verdade, vocês precisam elevar o nível — Jimin brincou, empurrando Jungkook de leve com o ombro. Ele olhou para com um brilho desafiador e divertido nos olhos. — O JK se move com força, mas eu vou te dar linhas dramáticas e saltos no ar. Tente me acompanhar, !
  Antes que qualquer um pudesse protestar, Jimin tomou a frente. Usando suas habilidades de dança contemporânea, ele começou a se mover pela sala ampla. Seus movimentos eram fluidos, mas surpreendentemente velozes. Ele executou um giro perfeito, esticando os braços, e logo em seguida deu um salto alto e teatral, mudando de nível ao se abaixar rapidamente no chão e deslizar.
  Clique. Clique. Clique. Clique.
  A câmera de trabalhava ao extremo. O caos se instalou de vez quando Jungkook resolveu entrar na dança junto com Jimin, e o Bam começou a correr em volta dos dois. Enquanto Jimin criava linhas dramáticas que exigiam que apontasse a lente para cima e para baixo em segundos, Jungkook corria e pulava por cima dos puffs da sala, mudando de direção de forma brusca.
  — Rápido, ! No JK agora! — Hobi comandava de longe, entusiasmado. — Agora volta pro Jimin! Olha o salto! Cuidado com o cachorro!
   sentia a adrenalina subir a níveis absurdos. Ela andava de um lado para o outro, ajustando o próprio ângulo e o foco contínuo da lente para garantir a nitidez perfeita das expressões deles no meio daquele turbilhão de movimentos.
  Depois de quase quarenta minutos daquela maratona improvisada, os três meninos desabaram no sofá, rindo e recuperando o fôlego, enquanto Bam se deitava aos pés deles. finalmente abaixava a câmera, sentindo os braços formigarem pelo esforço.
  — E aí? — Jungkook perguntou, ainda meio ofegante. — Deixa a gente ver se conseguimos quebrar o seu foco.
   sorriu e caminhou até eles, sentando-se na ponta do sofá e ligando a visualização de mídia. Os quatro se inclinaram sobre a pequena tela digital.
  A primeira foto na tela era a do dobermann. Bam havia sido capturado exatamente no meio de um salto no ar, com pelos pretos brilhando sob a luz e os olhos cravados na pelúcia, com uma definição impressionante.
  Ao ver a imagem, os olhos de Jungkook se arregalaram e ele praticamente se jogou para cima do ombro de , apontando para a pequena tela com um sorriso gigante.
  — Meu Deus, ! Olha essa foto do Bam! — ele exclamou, completamente derretido pelo bicho de estimação. Ele puxou o celular do bolso e olhou para ela com uma expressão pidona. — Você precisa me mandar essa agora mesmo! Sério, ficou perfeita demais, parece foto de revista de animais. Vai virar o meu papel de parede de tela de bloqueio hoje mesmo! Por favor, não esquece de me enviar o arquivo original!
   deu uma risada gostosa, achando adorável o orgulho dele.
  — Pode deixar, JK. Assim que eu chegar em casa eu te mando por mensagem — ela prometeu, passando para as fotos seguintes.
  A imagem seguinte mostrava Jungkook no meio da coreografia; as mãos estavam levemente borradas pelo rastro do movimento rápido, mas o rosto dele estava perfeitamente nítido, capturando uma expressão de foco e diversão. A imagem seguinte era de Jimin: ele estava no ápice de um salto, o corpo criando uma linha diagonal dramática, e a lente de havia conseguido congelar exatamente os olhos dele focados e expressivos.
  — Uau... — Jimin soltou, genuinamente impressionado, batendo palmas leves. — , isso ficou incrível. Você conseguiu pegar o momento exato do ápice do movimento. Isso é muito difícil de fazer sem luz de estúdio controlada.
  — Eu não disse? — Hobi exclamou, orgulhoso. — Nossa fotógrafa é profissional. Aquela garota da sua sala não tem a menor chance.
  — No grande dia você vai destruir naquela competição, — Jungkook disse, voltando a olhar fixamente para ela depois de babar mais um pouco na foto do cachorro, com um olhar cheio de incentivo e firmeza. — Você tem a técnica e, depois de hoje, o seu reflexo está mais rápido que o de qualquer um ali. Vá lá e pegue essa vaga pro show.
  Aquelas palavras e a energia daquela tarde ficaram gravadas na mente de durante todo o caminho de volta para casa.
  Mais tarde, quando a noite caiu e o silêncio do seu pequeno quarto a envolveu novamente, a ansiedade tentou voltar. deitou-se na cama e encarou o teto escuro, sentindo aquele frio inevitável no estômago ao pensar na pressão do dia seguinte, na rigidez dos juízes e nos olhares de Nayeon.
  No entanto, sempre que o medo tentava se aproximar, ela fechava os olhos e se lembrava daquela tarde caótica no apartamento do Jungkook. Visualizava o Bam correndo, as risadas, os passos rápidos da coreografia nova, os saltos de Jimin e o apoio de Hobi. Aquele voto de confiança triplicado funcionava agora como uma armadura impenetrável em seu peito.
  Ela se virou de lado, respirando fundo e sentindo uma calma convicta assumir o lugar do nervosismo. Ela estava pronta. Seus equipamentos estavam limpos, sua mente estava afiada e o seu reflexo estava calibrado. O grande dia seria longo, mas sabia que a foto perfeita já era sua.

CAPÍTULO 4 - OLHOS NOS OLHOS

  O grande dia finalmente havia chegado, e a luz fraca da manhã mal começava a desenhar as silhuetas dos móveis no quarto de quando os olhos dela se abriram, muito antes do despertador tocar. A verdade era que ela mal havia dormido; a mente tinha passado as últimas horas reprisando ângulos, velocidades de obturador e enquadramentos possíveis. O frio no estômago estava ali, inevitável, fazendo seus dedos tremem de leve enquanto ela esticava o braço para alcançar o celular na cabeceira da cama.
  Mas, antes mesmo que a onda de nervosismo matinal pudesse tomar conta, a tela se iluminou com uma nova mensagem. ajeitou os óculos no rosto e abriu a notificação, sentindo o coração dar um salto:

  JK: Bom dia, ! Sei que deve estar acordando agora e com o estômago revirado, mas vim lembrar que o Bam já está usando a foto dele como tela de bloqueio no meu celular (e eu também!) 🐶✨. Se você conseguiu congelar o movimento daquele dobermann maluco e o salto do Jimin em uma sala de estar, o ginásio da faculdade vai ser moleza para você. Confia no seu reflexo e na sua câmera. Estamos todos torcendo por você aqui. Vai lá e busca essa vaga para o show! Fighting!

   soltou uma risada baixa, sentindo uma lufada de ar fresco varrer toda a tensão que parecia acumular em seu peito. Ver o apoio dele logo nas primeiras horas do dia era o empurrão que faltava. Ela pulou da cama com uma energia renovada, tomou um banho rápido e revisou cada item de sua maleta: corpo da câmera, lentes limpas, baterias extras totalmente carregadas e cartões de memória vazios. Estava tudo impecável.
  Quando colocou os pés no campus da universidade, o ambiente parecia completamente transformado. O silêncio habitual dos corredores acadêmicos tinha dado lugar a um caldeirão de barulho, música alta e cores. Faixas coloridas com os brasões dos cursos decoravam as paredes, atletas de moletom corriam de um lado para o outro fazendo aquecimento e a torcida já começava a lotar as arquibancadas do imenso ginásio central, com gritos de guerra ecoando pelo teto alto.
   prendeu o cabelo, pendurou a alça da câmera no pescoço e começou a circular pelas laterais da quadra de esportes, estudando a direção da luz que vinha das enormes janelas superiores. Ela precisava mapear o terreno antes do início dos jogos. Foi justamente enquanto ajustava o balanço de brancos da lente que ela sentiu um par de olhos cravados em suas costas.
  Ao se virar lentamente, deu de cara com Nayeon. A garota estava impecável, vestindo uma jaqueta estilosa da faculdade e segurando uma câmera com uma lente teleobjetiva de última geração, daquelas caríssimas que pareciam um pequeno telescópio. Ela olhou para o equipamento mais modesto de e soltou um sorriso ladino, caminhando a passos lentos até ela.
  — Olha só, a fotógrafa de estúdio resolveu aparecer para o trabalho de campo — Nayeon comentou, a voz pingando um deboche velado, enquanto ajeitava a alça de seu próprio equipamento no ombro. — Conseguiu uma nota boa com aquelas fotos paradas na penumbra, mas fotografia de esportes é outra liga, . É preciso velocidade, instinto e, claro... equipamento de verdade para não passar vergonha. Boa sorte tentando acompanhar o ritmo dos jogadores com essa lente aí.
   olhou para a teleobjetiva de Nayeon e depois sustentou o olhar da garota. Há alguns dias, aquela provocação teria feito seu estômago se contrair em insegurança, mas hoje não. Hoje ela tinha o peso de um treino caótico, os conselhos técnicos de Hoseok e a certeza de que sabia exatamente o que significava "congelar a emoção".
  — Obrigada pelo conselho, Nayeon — respondeu, mantendo a voz perfeitamente calma e um sorriso leve nos lábios. — Mas o professor deixou bem claro que o prêmio vai para a foto que capturar a alma do movimento, não para quem tem a maior lente da quadra. Que vença o melhor clique.
  Sem esperar uma resposta, deu as costas com elegância e caminhou em direção às arquibancadas principais. Ela observou o tumulto na quadra por mais alguns minutos. A maioria dos fotógrafos da sua sala, incluindo Nayeon, já estava se acotovelando nas linhas de fundo para garantir o melhor ângulo das enterradas do time masculino de basquete. Todos queriam a foto comercial perfeita, o clique óbvio que sairia na capa do jornal do campus.
  No entanto, ao olhar para aquela cena de fotógrafos empurrando uns aos outros por um espaço milimétrico, sentiu que algo faltava. As fotos ali seriam todas tecnicamente idênticas, destituídas de uma narrativa verdadeira. Ela deu um passo para trás, afastando-se do barulho dos megafones, e deixou que sua mente de fã de cultura pop fizesse uma conexão inesperada. Ela lembrou-se imediatamente de seus animes de esportes favoritos, especialmente de Haikyuu!!.
  Em Haikyuu!!, o que sempre a arrepiava não eram apenas os saques potentes ou os ataques rápidos dos times favoritos ao campeonato nacional. O que mexia profundamente com o seu coração eram os jogos das equipes consideradas "pequenas", desvalorizadas pela grande mídia. lembrou-se vividamente do time da Wakunan, cuja torcida nas arquibancadas do torneio intercolegial era composta quase inteiramente pela família barulhenta, suada e genuinamente orgulhosa do próprio capitão. Lembrou-se da própria Karasuno em seus momentos iniciais, quando apenas um punhado de pessoas fiéis — como a Saeco com seu bumbo — gritava das arquibancadas com uma paixão que engolia o ginásio inteiro. Aquilo era catarse. Aquilo era o verdadeiro significado de "congelar a emoção": o amor puro, o drama de nicho, a torcida fiel que compensava a falta de número com uma alma gigante.
  Com esse estalo estético na mente, tomou sua decisão estratégica. Ela não ia brigar por espaço no basquete masculino ou no futebol. Ela deu as costas ao barulho do ginásio principal e começou a caminhar em direção aos blocos secundários de espetáculo do campus, decidida a encontrar a sua própria "Karasuno".
  Sua intuição a levou até uma quadra menor e mais afastada, escondida atrás do centro de artes da universidade. O som ali era diferente. Não havia o estrondo de cornetas eletrônicas ou patrocinadores, mas o eco seco, rápido e violento de uma bola pesada sendo disputada em alta velocidade, acompanhado por gritos de comando puramente táticos. Era o torneio universitário de futsal feminino.
  Ao entrar no pequeno ginásio de concreto, soube na hora que estava no lugar certo. A atmosfera ali dentro era quase palpável, quente e claustrofóbica. Na quadra, as jogadoras corriam com uma garra feroz e crua, o suor brilhando intensamente sob os refletores simples de luz amarelada, disputando cada centímetro de espaço com carrinhos, trombadas e giros rápidos de calcanhar.
  Mais do que tudo, o que realmente chamou a atenção de foi a arquibancada. Havia poucas fileiras de assentos de metal, e eles não estavam cheios. Mas as poucas dezenas de pessoas ali faziam o chão tremer. Era uma torcida viva, sem filtros. viu um grupo de amigas de curso segurando cartazes feitos à mão com canetinha colorida e glitter que já estava descascando, um casal de idosos que parecia ser avós de uma das jogadoras segurando garrafas de água com as mãos trêmulas de ansiedade, e alguns estudantes que batiam os pés ritmadamente no metal da estrutura. Eles sofriam a cada passe errado, levavam as mãos à cabeça em desespero e explodiam a cada roubada de bola.
   sorriu por trás de seus óculos. Era ali. O drama humano estava montado.
  Ela se ajoelhou rente à linha lateral, bem perto de onde a torcida mais fervorosa estava concentrada, desafiando a poeira do chão. tirou a tampa da lente, respirou fundo e começou a configurar seu equipamento. Sua mente viajou por um milissegundo até o dia anterior na casa do Jungkook. Ela relembrou a corrida imprevisível e veloz do Bam, as mudanças bruscas de direção do JK no meio do tapete e a forma como Jimin usava o próprio corpo e a gravidade para criar drama no ar. O treinamento intenso e caótico deles havia calibrado os seus reflexos para o imprevisível. E o futsal feminino era o imprevisível em estado puro.
  O jogo avançava num ritmo frenético. colou o olho no visor e começou a disparar os primeiros cliques, testando a velocidade do obturador em 1/1000 de segundo para congelar as gotas de suor que saltavam das atletas nas divididas de bola. A cada subida do time da casa, a arquibancada se inclinava para a frente, quase caindo sobre a linha lateral. dividia sua atenção técnica: um olho no visor rastreando a atacante, o outro aberto capturando a expressão de angústia do avô na primeira fileira.
  A partida desenrolou-se como uma batalha de desgaste. Faltando dois minutos para o fim, o time adversário marcou um gol de empate após um contra-ataque veloz. O ginásio silenciou por um segundo, um silêncio pesado e dolorido, pontuado apenas pelo choro contido de uma das meninas no banco de reservas. registrou aquele momento — a dor da queda —, lembrando-se de como Haikyuu!! ensina que a derrota faz parte da jornada. Mas as jogadoras em quadra não se entregaram. Elas bateram palma, gritaram umas com as outras e reiniciaram o jogo com uma fúria renovada.
  Faltavam apenas dez segundos para o apito final. O placar eletrônico pequenino na parede piscava em vermelho, mostrando o empate persistente de 3x3. A atmosfera no ginásio secundário estava tão carregada que o ar parecia elétrico, difícil de respirar. não ousava piscar. Suas mãos seguravam o corpo da câmera com uma firmeza absoluta, os músculos dos braços tensos pelo esforço contínuo.
  A ala direita do time da faculdade, uma garota de baixa estatura com o número 7 nas costas, avançou em alta velocidade pela lateral, costurando a defesa adversária com um drible seco. A torcida fiel nas arquibancadas prendeu a respiração em um silêncio agonizante. Dava para ouvir o som dos tênis cantando alto no chão de taco. Ela armou o chute. A zagueira rival veio de carrinho violento, bloqueando parcialmente a trajetória da bola, que subiu de forma bizarra, pegando um efeito imprevisível no ar.
  O tempo pareceu desacelerar para . Todo o treino da véspera convergiu para aquele milissegundo exato. Seu cérebro antecipou a trajetória da bola antes mesmo de ela atingir o ápice. Ela deslocou o eixo da câmera milímetros para o lado, enquadrando a goleira adversária que saltava desesperada, esticando o corpo inteiro em uma linha diagonal dramática que lembrava os saltos de Jimin, enquanto a bola viajava direto para o ângulo reto da trave interna.
  A bola bateu no metal com um estrondo seco e ricocheteou para dentro, estufando a rede no exato instante em que o cronômetro zerou. O caos emocional explodiu.
  E clicou.
  Clique.
  O som do obturador foi completamente engolido pelo som mais ensurdecedor, cru e visceral que já tinha ouvido na vida. O apito final ecoou junto com uma descarga de sentimentos que preencheu cada milímetro do ginásio. Foi uma reação em cadeia de alívio e êxtase.
  Na quadra, a camisa 7 desabou de joelhos no chão, com os braços erguidos para o teto, abrindo um sorriso gigante que misturava exaustão extrema e pura glória. Ao fundo, as meninas do banco de reservas invadiram a quadra como um raio, gritando a plenos pulmões com lágrimas legítimas de alívio escorrendo pelos rostos suados, abraçando-se em um bolo humano de camisas sujas de poeira.
  Mas a verdadeira obra-prima da foto de estava no segundo plano, perfeitamente calculado através da abertura do diafragma. Na arquibancada, aquela pequena torcida de nicho tinha vindo abaixo. O casal de idosos estava abraçado, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, com as rugas dos rostos acentuadas pela emoção; os estudantes batiam nos corrimãos de metal chorando copiosamente, e as amigas com os cartazes de canetinha pulavam em lágrimas, com as bocas abertas em gritos de vitória genuínos. Era a cópia perfeita da energia de quando a Karasuno finalmente derrubou a Shiratorizawa: o choro da libertação, os gritos do esforço recompensado e os sorrisos da mais pura felicidade coletiva. A catarse perfeita.
   afastou a câmera do rosto devagar, sentindo o peito subir e descer rapidamente enquanto tenta recuperar o próprio fôlego. Suas mãos estavam trêmulas pela descarga massiva de adrenalina. Ela apertou o botão de reprodução para visualizar a última imagem capturada no cartão de memória.
  O visor digital se acendeu no meio da penumbra do ginásio. prendeu o fôlego.
  A foto estava absurdamente nítida, uma joia técnica e artística. O enquadramento havia congelado tudo em camadas perfeitas: o suor voando em gotas brilhantes da jogadora sorrindo de joelhos no chão em primeiro plano, a bola ainda deformada tocando o fundo da rede lá atrás, e o desespero transformado em lágrimas, gritos e abraços congelados de cada membro daquela torcida fiel na arquibancada. Cada expressão de choro, cada boca aberta em grito e cada sorriso estava ali, pulsante. Não era apenas uma imagem estática de esporte; era uma crônica visual viva sobre o amor, a dor e a entrega.
  Enquanto ela ainda admirava a tela, com um sorriso imenso e orgulhoso começando a desenhar-se em seus lábios, ouviu passos apressados vindo em sua direção.
  Ao desviar o olhar do visor, ela viu uma das jogadoras reservas do time da faculdade. A garota usava o colete do banco por cima do uniforme e ainda tinha os olhos vermelhos e marejados pelo choro do susto da vitória. Ela vinha limpando o rosto com as costas das mãos, mas trazia uma expressão misturada de curiosidade e timidez.
  — Com licença... — a jogadora disse, parando a um metro de e apontando para a câmera. — Desculpa te incomodar agora. É que eu vi você aqui na linha lateral o jogo inteiro. Vi o jeito que você estava se movimentando e focando na nossa torcida. Você... você conseguiu tirar aquela última foto? Do clique do gol?
  — Consegui sim — respondeu, com a voz mansa e acolhedora, virando o corpo de lado para dar espaço. — Ficou bem nítida. Quer dar uma olhada?
  A garota se aproximou devagar, inclinando-se sobre o ombro de para olhar a pequena tela digital de LCD. No segundo em que a imagem apareceu, a jogadora congelou. Seus olhos se arregalaram e ela levou as duas mãos à boca, soltando uma lufada de ar audível. Novas lágrimas, dessa vez de puro choque e emoção, começaram a brotar nos cantos de seus olhos.
  — Meu Deus... — a atleta sussurrou, com a voz embargada, apontando com o dedo trêmulo para o fundo da foto. — Olha os meus avós ali atrás... Olha o rosto da minha melhor amiga gritando na arquibancada. Isso está... isso está sensacional. Está muito sentimental, de verdade.
  A garota deu um passo para trás, olhando diretamente para com uma gratidão profunda e tocante no olhar.
  — Você não tem noção do quanto isso significa para a gente — a jogadora continuou, com a voz falhando um pouco pelo choro entalado. — O futsal feminino nunca recebe atenção aqui no campus. Ninguém liga para os nossos jogos, os jornais da faculdade nunca mandam fotógrafos para cá e os outros estudantes nem sabem que a gente treina duro todos os dias. Ver você aqui, dedicando o seu tempo e o seu talento para enxergar o nosso esforço e registrar a nossa torcida com tanto carinho... fez a gente se sentir importante de verdade. Muito, muito obrigada por dar essa atenção para nós hoje. Essa foto tem a nossa alma.
   sentiu um arrepio percorrer sua espinha e um nó morno se formar em sua garganta. Aquelas palavras sinceras atingiram o seu coração com uma força avassaladora.
  — Eu que agradeço a vocês pela entrega em quadra — respondeu, sentindo os próprios olhos marejarem levemente por trás das lentes dos óculos. — O jogo de vocês foi pura poesia. Eu só tentei fazer justiça à beleza desse momento.
  A jogadora sorriu, agradeceu mais uma vez com uma reverência respeitosa e correu de volta para o centro da quadra para se juntar ao resto do time, que já começava a erguer o troféu simbólico do torneio sob os gritos apaixonados da arquibancada.
  A excitação do ginásio aos poucos deu lugar ao silêncio da noite, mas a mente de continuava operando na mesma voltagem daquela partida. Quando ela finalmente entrou em sua casa, o silêncio do lugar foi o contraste perfeito para o turbilhão que ainda ditava o ritmo de seus pensamentos. O cansaço físico era pesado, mas a eletricidade em suas veias não a deixava parar. Ela largou as chaves na bancada da entrada e marchou direto para sua mesa de trabalho, sem tempo a perder.
  Ela puxou a cadeira, sentou-se na penumbra do quarto iluminado apenas pela luminária de mesa e tirou o cartão de memória da câmera com as pontas dos dedos ainda levemente trêmulas. O clique seco do cartão entrando no leitor do computador pareceu o início de um segundo tempo.
  O software de edição abriu, e a barra de carregamento começou a importar os arquivos brutos, os pesados arquivos RAW. Centenas de miniaturas foram surgindo na tela. Havia fotos tremidas, testes de luz, momentos congelados de jogadas no meio da quadra... mas os olhos de ignoraram tudo e foram direto para os últimos registros da pasta.
  Quando ela clicou duas vezes na foto do gol definitivo, a imagem expandiu-se em alta resolução na tela do monitor de 24 polegadas. Naquele exato segundo, o quarto escuro pareceu desaparecer.
   prendeu o fôlego. Ao olhar para os detalhes maximizados na tela digital, uma onda violenta de calor atingiu o seu peito, exatamente o mesmo choque térmico, a mesma descarga massiva de adrenalina que ela sentira no milissegundo em que seu dedo afundou o botão do obturador na lateral da quadra. O coração, que tinha acabado de desacelerar, voltou a martelar forte contra as costelas.
  Ela segurou o mouse com firmeza e começou os ajustes. À medida que arrastava os seletores de realce e sombra, ela sentia que estava reescrevendo a história daquele jogo na poeira. Ela puxou os níveis de contraste, e o suor que saltava da pele da camisa 7 ganhou um brilho vívido, quase tridimensional, fazendo reviver o som do tênis cantando no chão de taco. Ela ajustou a nitidez no fundo da imagem, e as expressões rasgadas de choro e êxtase daquela torcida marginalizada saltaram da tela com uma clareza assustadora.
  Cada clique no teclado para ajustar o balanço de brancos parecia ecoar o som seco da bola batendo na trave interna e estufando a rede. aproximou o zoom no canto superior direito: o avô da jogadora estava ali, com as mãos unidas perto do rosto, os olhos espremidos em uma oração que tinha acabado de ser atendida. A dramaticidade daquela cena, as linhas diagonais que cruzavam a quadra, a composição humana perfeita... tudo ali transbordava a mesmíssima verdade e o sentimento cru do momento do clique. Não era apenas editar; era reviver a catarse. Era sentir, na calada da noite, a alma de trinta pessoas explodindo de felicidade dentro do seu próprio peito.
  Uma lágrima solitária de pura realização artística escorreu por trás de seus óculos geométricos. Ela limpou o rosto rapidamente com o ombro, soltando um suspiro longo e trêmulo, sentindo uma paz indescritível tomar conta. O arquivo final estava exportado. Estava pronto.
   recostou-se na cadeira, olhando para o monitor com um sorriso imenso e orgulhosamente exausto. Nayeon podia ter a lente mais cara do campus, mas sabia, olhando para aquela imagem finalizada na tela, que nenhuma tecnologia no mundo conseguiria replicar o que ela tinha capturado: a vida em seu estado mais puro e comovente. O trabalho estava feito, e ela tinha em mãos muito mais do que um projeto de faculdade. Ela tinha uma obra-prima.
  Ela bocejou, sentindo o peso das últimas horas finalmente cobrar o preço nos seus ombros. Antes de desligar o computador e se arrastar para a cama, olhou para o celular na mesa. A tela bloqueada piscava com o papel de parede padrão, mas ela lembrou na hora da mensagem que tinha recebido logo cedo. Eles tinham passado a véspera inteira correndo atrás do Bam pela sala só para calibrar os reflexos dela, e os meninos estavam genuinamente investidos naquele resultado.
  Com os dedos meio lentos pelo sono, ela abriu o aplicativo de mensagens e digitou para o Jungkook:

  : JK, acabei de exportar a foto final. Você e o Jimin estavam certos sobre o treinamento dinâmico na sala kkkkk. Funcionou perfeitamente! Não consegui fotografar nenhuma enterrada de basquete, mas encontrei a minha própria "Karasuno" em uma quadra de futsal feminino escondida no campus. A foto ficou linda, com o choro, os gritos e os sorrisos de todo mundo na arquibancada. Tem tanta alma ali que acho que o Hobi aprovaria o drama. Obrigada por me fazer acreditar nos meus reflexos logo cedo. Vou dormir agora porque estou um caco, mas amanhã mando o arquivo para vocês verem! Boa noite pros três (e um petisco pro Bam) 🐶💜.

  Ela bloqueou a tela, soltando um suspiro leve. Saber que tinha pessoas tão incríveis torcendo por ela deixava qualquer cansaço mais leve. finalmente apagou a luminária, deitou-se na cama e, em poucos minutos, adormeceu profundamente, sem qualquer frio no estômago — apenas com a certeza de que tinha dado o seu melhor.


  Nota da autora: Olá, gente!! O que acharam desse capítulo, quis focar um pouco no amor da nossa protagonista pela fotografia e por animes hahaha Espero que gostem assim como eu amei escrever esse capítulo. Deixem o comentário de você, que em breve teremos muito mais. Beijoos

CONTINUA...



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