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Ideia #094

Doada por Ju F.

// A Ideia

Harry sempre levou a vida na farra, mas dessa vez passou do limite. Paul, seu empresário, diz que terá que arranjar um falso ”namoro” para tentar amenizar as coisas que Harry causou. O que ele não esperava é que pudesse se apaixonar de verdade.


// Sugestões

--

// Notas

Harry é principal; Não conseguir imaginar essa história sem ser ele.




Golden Girl



Escrito por Lali V. | Twitter
Revisado por Natashia Kitamura

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ZERO.

PRELÚDIO PARA UM FIM


  — Ele não vem.
  A provocação foi cantada em um tom maldoso, satisfeito, como quem se delicia com a dor alheia e espera mais dela e, logo depois, ecoou pelos cantos do quartinho mofado terminando em uma risada grossa que fazia subir arrepios na espinha. A resposta para ela foi insuportavelmente sútil, ainda que notável: um bufar discreto e uma revirada de olhos que dizia o quanto já estava farta de tudo por ali.
  O quanto contava os dias para ver tudo chegar a um fim.
  Ela suspirou sem fazer barulho, estremecendo dentro do casaco de algodão desfiado que mal lhe cabia no corpo quando passou o ar; por alguma razão que não entendia, o inverno havia chegado mais cedo naquele ano.
  — Está me ouvindo, praga? – ela inspirou com força, sentindo os nervos dentro do ouvido se contorcerem com aquela voz esganiçada.
  Dando o seu melhor para ignorá-la, fixou os olhos na janela coberta por uma névoa densa e assistiu o céu cair sobre a terra violentamente, sacudindo as margaridas plantadas no jardim. Elas pareciam doentes, ela notou com pesar. Pareciam doentes e um pouco mais mortas do que no dia anterior.
  Assim como eu, ela suspirou.
  Assim como todas nós.
  — Eu disse – as palavras nojentas foram repetidas outra vez e notou que o diabo havia se aproximado, parando perto o bastante para que pudesse sentir o hálito podre da boca dele. Ela prendeu o ar no peito; bom senhor, como os odiava profundamente — que ele não vai vir. Que seja lá que fantasias de criança você tenha nessa sua cabecinha tola, é melhor ir dando adeus para todas elas. Ele não vem mais e não vai demorar muito até que o presidente decida dar um fim nessa sua vida inútil igualzinho ele fez com as outras putinhas – cuspiu no chão – Sua coisinha nojenta.
  Ela respirou profundamente, puxando o ar para dentro como se fosse veneno corroendo o peito – ignore, lembrou a si mesma em um tom de aviso. Ignore todos e vão te deixar em paz. Ela sempre se cansava no final; tal como um cão do inferno, ela só sabia caçar e correr em bando sempre em busca da próxima vítima, do próximo medo, da próxima vida que pudesse sugar, mas sozinha, ela não era perigo para ninguém. Irritante, mas não perigosa.
  O mesmo não poderia ser dito sobre si mesma, porém.
  Mordendo os lábios cheios, contou até três procurando se acalmar. Ela pensou na mãe, na casa que tinha antes de deixar tudo para ir atrás de um sonho estúpido, da vida que vivia e que estava determinada a voltar, e sentiu vontade de chorar – ela não conseguia acreditar que havia trocado um mundo bonito e justo por uma vida como aquelas; que havia abandonado o amor e o carinho da família por causa de algo tão ínfimo, insignificante. Em como havia sido burra, idiota, e como estava pagando por tudo aquilo agora com juros mais altos do que podia aguentar.
  — Garotinha estúpida – o outro golpe veio, o veneno doce pingando em cada sílaba pronunciada naquele tom de quem sabe que tocou na ferida e quer enfiar o dedo mais fundo para abri-la um pouco mais — Você achou mesmo que ele te amava? – riu – Olhe para você. Você não é nada. Menos que uma prostituta, uma vadiazinha sem valor.
  Ela sentiu os próprios lábios se contraírem, um sorriso azedo surgindo neles; cometeria um assassinato se tivesse a oportunidade – faria valer a pena estúpida que havia sido lhe dada. Era engraçado pensar que havia os dado o benefício da inocência quando havia acordado ali, que havia os tratado como iguais e permitido que eles lhe machucassem dia após dias, sem descanso, sem paz. Deveria ter ouvido os próprios instintos e queimado todos eles quando havia tido a oportunidade. Deveria ter escapado dali quando teve a chance. Realmente, ela quis dizer de volta, eu sou uma garotinha idiota.
  Sem dizer nada, ela estendeu a mão para o ar e a TV se ligou sozinha.
  Repentinamente, o rosto atraente e os olhos claros enfeitaram a tela grande, causando no estômago uma sensação agridoce de frio e calor. Ela sentiu as bochechas corarem e o coração disparar – a reação usual que havia tido naqueles sete meses até ali. Na TV, o sorriso que havia se acostumado a ver todo dia se alargou abertamente e a voz que conhecia tão bem respondeu algo genérico ao repórter que estava por perto. Ela suspirou outra vez e sentiu um aperto no peito.
  Ele estava atrasado.
  — Já disse – o rato infeliz continuou, rindo como uma bruxa de desenho infantil. A cada dia que passava, eles ficavam cada vez mais feios como uma também — Ele não vem, garotinha. Ele não te quer. Ele nunca te quis.
  Ela continuou a ignorá-los, ainda que sentisse um bolo na garganta. Lá embaixo, uma atrás da outra, seis margaridas se soltaram com a força do vento e voaram, alto e além, cada vez mais distante da sétima irmã. Antoni sentiu aquilo no fundo do peito, deixando uma lágrima rolar pelo rosto e rapidamente se recompôs. Ela não era uma das seis irmãs – fracas, inúteis, estúpidas e ingênuas. Mortas. Não, não era como nenhuma delas. Ela era forte e resiliente, corajosa e mais esperta. Ela estava viva e se recusava a passar o resto da sua vida presa em cativeiro.
  Ela não seria como as outras.
  — Ele nunca te quis, porquinha – a coisa continuou a importunar — Vai chorar agora, vai? Oinc, oinc.
  Eles eram menos do que nada, lembrou a si mesma; aquelas palavras eram vazias, sem peso algum, porque, no fim, não eram verdade. Ele a queria, a queria tanto quanto ela o queria e ela se recusava a dar ouvidos ao que saía daqueles lábios imundos que a arrastavam para o buraco frio que havia estado anos atrás. Ela se recusava e não desceria, nunca mais.
  Não importava quantas margaridas morressem na sua frente.
  — Ele vai chegar – ela anunciou de repente, a voz rouca de há muito não ser usada cortando o ar como uma navalha. A carcereira arfou com o som, recuando cinco passos largos como quem foge de um animal perigoso e levou uma mão ao peito, agarrando ao crucifixo que estava lá. sorriu marota — Ele vai chegar e vai me tirar daqui – se virou, colocando-se de pé – E, quando eu sair daqui, eu vou destruir você. Você, aquele seu marido inútil e o seu filho nojento que pôs as mãos em mim. Então, eu vou atrás do seu pai, do seu irmão e tios, primos, até que não sobre mais nenhum deles. Até que você não tenha nada. Até que você entenda o que a putinha aqui é capaz de fazer.
  Tremendo da cabeça aos pés, a mulher saiu correndo e começou a chorar.


PARTE I

CASTANHO

Don't blame me for falling
I was just a little boy
Don't blame the drunk calling
Wasn't ready for it all
You can't blame me, darling
Not even a little bit
I was away
And I'm just an arrogant son of a bitch
— “To Be So Lonely”, Harry Styles.


UM.

HARRY É UM PROBLEMA


  — Eu já não aguento mais.
  Harry Styles, 29 anos, fechou os olhos e suspirou pesadamente reclinando-se sobre a cadeira confortável do escritório; o couro, vindo de algum país exótico e distante, fez barulho com o movimento inesperado e se espalhou pela sala gelada, causando um eco agonizador. O silêncio reinou por um momento oprimindo todo o cômodo. Então, com um boom, alguém guinchou causando a Harry dor física. Ele agarrou os apoios da cadeira.
  — Falo sério, Styles. Eu estou por aqui.
  E eu também, Harry quis retrucar como uma criança petulante que se agarra ao último resquício de razão, mas, sabiamente, se manteve calado e imóvel: não queria provocar mais a fera já louca para sair. Estava claro para qualquer um com olhos e dois neurônios funcionando que Lincoln Paul, 49, estava só procurando um motivo para arrumar uma briga astronômica e Harry, que havia decidido seguir um estilo de vida mais zen e despreocupado desde quatro horas atrás, não era bobo de entregá-lo assim de bandeja – ele era um meio idiota, sim, mas nunca um meio boboca. Lincoln que arrumasse outro para brigar. Ele puxou o ar para dentro com força. Logo à sua frente, Lincoln reclamou como um cão irritado.
  — Você está me ouvindo, porra?
  — Estou – respondeu mal-criado.
  Como não estaria?, ele queria gritar. Desde que chegara ali tudo o que havia feito fora ouvir e ouvir e ouvir. Lincoln, com toda a sua raiva e tesão em palestras, não o havia deixado falar uma só vez naquele dia sobre o que havia acontecido, tampouco o deixara se defender das acusações infundadas como se a ele não fosse digno o direito de defesa – como se não acreditasse que ele tivesse como se defender. Harry, no entanto, não gostava nada daquilo: nunca havia sido homem de tolerar o abuso e aquela falação incessante que não levava a nada estava cansando o seu ouvido. Se soubesse que teria que suportar esporro por mais de duas horas teria ficado nas Ilhas Cayennes por mais alguns dias sem data de retorno – talvez alguns anos. Lincoln suspirou com força como se tentasse se tranquilizar:
  — E o que você tem a dizer?
  Harry riu meio zombeteiro, a ironia da situação deixando seu humor mais azedo do que o usual. Agora ele quer me ouvir, é? Ele respirou profundamente como quem busca por paciência e guardou o comentário que dançava na ponta da língua, abrindo os olhos preguiçosamente em seguida. Como uma aparição, Lincoln surgiu no seu campo de visão com os braços magros cruzados rente ao peito e os olhos castanhos mais escuros do que o normal. Ele parecia o retrato do ódio esculpido e desenhado, e parecia ainda mais do que disposto a enviar Harry para conhecer a deus e Jesus Cristo pessoalmente. Ignorando o perigo, Harry sorriu como o Gato de Cheshire.
  — Nada – ele disse.
  E, como se não houvesse computado a resposta, Lincoln piscou duas vezes.
  — Nada? – ele repetiu, boquiaberto; não havia mais cor no seu rosto bronzeado. Com um aceno leve de cabeça, Harry fez que sim de modo despreocupado tendo plena noção de que era um homem inocente; pessoas inocentes não precisavam dar explicações. Lincoln piscou outra vez — Nadinha?
  Harry assentiu com a cabeça outra vez. Da mesa no centro, o tablet ligado exibia a matéria de um site de fofocas famoso, a foto de um homem magro e moreno sendo o centro das atenções. Harry não precisava dar um zoom para saber que se tratava de uma foto sua tirada há quatro dias e também não precisava ler a matéria que anunciava em caixa alta HARRY STYLES: DE ÍDOLO TEEN AO TERROR DE MÃES, acompanhada de uma outra foto, agora de duas mulheres e Harry abraçados, para saber que tipo de mentiras haviam sido inventadas ali.
  A indústria era podre, mas Harry já não se impressionava mais com aquilo.
  Ele já estava acostumado com os comentários maldosos que diziam que há muito tempo já não sabia fazer música boa, ou que era um viadinho enrustido passado da data de validade ou que nunca havia tido talento para início de conversa. Já estava mais do que vacinado contra tudo e todos, no entanto, a mentira daquela vez era tão absurda que fazia o cu cair de indignação. Harry suspirou:
  — Você sabe que eu não toquei nela, Linc — ele murmurou sem emoção. Era um abuso ter que anunciar o óbvio em voz alta e mais abuso ainda saber que seu empresário era o primeiro a lhe jogar na cruz, mas um homem sábio matava e morria por um pouco de paz espírito, e Harry não era diferente; ele só queria ir para casa e dormir — Eu sou inocente.
  Lincoln abriu um sorriso aliviado e se sentou pesadamente em cima da cadeira, como se houvesse acabado de nadar em mar aberto e encontrado uma ilha. Harry sabia, racionalmente, que ele só estava preocupado; que só queria seu melhor. A injúria que sentia no peito, no entanto, não era nada racional e, com a falta de sono e a dor de cabeça que ameaçava dar as caras, a descrença de Lincoln era como uma faca enfiada nas costas.
  — Então, não é você naquela foto? – ele perguntou, a voz subindo com a chama de uma esperança quase infantil. Harry se esforçou para não se mostrar ofendido mas sem efeito; o desgosto marcava cada pedacinho do rosto cansado. Lincoln deu uma batida na mesa — É edição, não é? Esses jovens de hoje em dia – ele riu – É claro que é edição. Você não seria idiota de se enfiar em um iate com um bando de prostitutas.
  Harry abriu um sorriso azedo:
  — Pior que eu fui, Linc. Muito idiota.
  No mesmo minuto, Lincoln parou de rir.
  — Isso não tem graça, menino – suplicou ele bem baixinho, tremendo da cabeça aos pés; ele forçou um sorriso de quem segura um pum e coçou a garganta, olhando para algo além de Harry — Não tem graça mesmo.
  Harry suspirou.
  — Nenhuma piada, Linc. Sou eu nessa foto. Sou eu com essas mulheres. Mas não toquei na menina – ele repetiu incisivamente, disposto a martelar a ideia no cérebro alheio até que fosse aceita e compreendida; até que alguém tomasse partido pela causa da sua inocência — Eu não sou desse tipo.
  — Mas é verdade, então – ele sussurrou em desolação, ignorando tudo o que Harry havia dito; seria extremamente frustrante se tivesse energia para se irritar — Você estava com as prostitutas, os cafetões, as drogas e os mafiosos.
  Harry revirou os olhos.
  — Eu não disse isso.
  — As prostitutas não estavam no iate? – Lincoln disparou com acidez. As mudanças de humor dele estavam deixando Harry agoniado. Iria precisar de cinco aspirinas quando saísse dali. Cinco aspirinas e uma vida de sono também. Lincoln lhe encarou, os olhos duros como pedra, e vomitou as palavras como se fossem veneno — Você não estava usando drogas na sua festinha?
  Harry suspirou – só queria um cigarrinho. Fazia algumas horas que havia fumado a sua última cartela, mas a abstinência já estava batendo na porta como uma grande desgraçada que era. Teria comprado outra no aeroporto após desembarcar com a carteira e a roupa do corpo, mas só foi colocar os pés para fora do avião que Lincoln o carregou para longe murmurando algo sobre não ser visto por ninguém. Agora, não tinha nada com que matar a vontade e também não tinha como sair dali. Ele estalou a língua nos dentes.
  — Olha, Linc, não sei se você sabe, mas… maconha não é ilegal, não – ele zombou, fazendo uma cara que irritava até mesmo o mais santo dos santos e Lincoln, que tinha a paciência de um recém-nascido, não chegava nem perto de ser um. Por isso, ele fechou a cara e fez um som pouco lisonjeiro, vindo do fundo da garganta. Harry bufou com a atitude desagradável — Porra, Linc, relaxa. Ninguém vai me mandar pra cadeia por causa de uma ervinha.
  — E por causa de prostitutas, hein? Você não vai pra cadeia, não? – Lincoln cuspiu de volta.
  Harry contou até dez, pausadamente. A paciência estava se esgotando – se não estivesse calmo e com os efeitos de três dias de farra ainda no sistema, teria gritado de volta e ido embora; teria dado um sacode em Linc e estabelecido que sua vida privada era somente sua e que não devia satisfações com quem fazia sexo à ninguém. Linc estava mesmo precisando de um soco de realidade. Ele, porém, não fez nada disso: após o dez, respirou bem fundo e sorriu debochado, causando às bochechas de Lincoln ainda mais rubor.
  — Foder agora virou crime, é? – ele soltou malicioso, erguendo uma das mãos do apoio e levando dois dedos à testa para massageá-la. Lincoln disse algo que parecia um latido esganiçado. Harry revirou os olhos — Oh, não me prenda, seu policial. Meu único pecado é amar boceta demais.
  Causando um baque ensurdecedor, as mãos de Lincoln acertaram a mesa outra vez.
  — Você se acha muito espertinho, não é? Se acha melhor do que os outros… mas é só um moleque inconsequente! – rugiu o homem mais velho e Harry soube que a besta havia saído. Cacete — É um fedelho malcriado mesmo. Você vai pra cadeia, idiota. A gravadora vai te largar! Como que você não entende a gravidade da situação? Imbecil! — riu — Eu sabia! Eu sabia! Eu deveria ter botado limite na tua fuça quando ainda tinha oportunidade; eu deveria ter te colocado na coleira e feito você andar na linha! Se eu tivesse feito isso hoje em dia você não estaria me dando desgosto com uma coisa dessas.
  Harry suspirou.
  — Linc…
  — Meu Deus. Meu Deus – Linc chorou. Com um movimento brusco, ele se levantou e começou a andar pela sala, tal como um bicho enjaulado buscando uma saída. Harry tentou chamá-lo outra vez — Eu vou perder meu emprego – ele murmurou o ignorando — Eu vou morar na rua. Vou ser arruinado. Virar a chacota da cidade; não, não do planeta inteiro. A única coisa que eu vou administrar são as pastas de usuário do meu Windows 07.
  Involuntariamente, Harry sorriu.
  — Você ainda usa o Windows 07? Que coisa de tio, Linc.
  Lincoln parou de supetão. Com os olhos arregalados e os ombros caídos, ele parecia o retrato perfeito da derrota. De repente, Harry se sentiu culpado; aquele também era o ganha-pão de Lincoln, afinal.
  — Por que você me odeia, menino? – murmurou ele pequenininho. Harry lutou contra a vontade de revirar os olhos e respirou fundo, buscando paciência. Lincoln suspirou e pôs as mãos sobre a mesa fria — O que foi que eu te fiz, Harry?
  Harry passou a língua nos lábios.
  — Eu não te odeio, Linc. Só não acho que existe motivo pra tanto – ele disse e se inclinou, lhe dando dois tapinhas na mão esquerda — Já disse que sou inocente.
  — Das prostitutas? – Lincoln cutucou.
  — Da menina, Linc. A menina que me acusou de maltratá-la – Harry revidou aumentando a voz, chateado. Que merda de fixação com prostitutas era aquela? Até parecia que Lincoln não fazia sexo. Harry abriu um sorriso malicioso — E, por mais empolgação que isso te cause, não tinha nenhuma prostituta lá. Eram todas boas amigas minha e de Louis. E não – Harry cortou assim que Lincoln abriu a boca – eu não vi nenhum cafetão ou mafioso. Esposa de bandido, sim. Bandido, não.
  Lincoln gemeu agoniado.
  — Jesus, Maria e José.
  Harry riu.
  — Cuidado, hein, Linc – ele murmurou em zombaria. Com um bico enorme na cara, Lincoln ergueu uma sobrancelha questionadora e puxou a cadeira para se sentar outra vez. Harry estalou o pescoço e coçou o nariz — É pecado chamar o nome de Deus em vão, não lembra?
  A resposta veio em forma de um dedo do meio.
  — É pecado e crime andar com gente criminosa, Harry – Lincoln revidou venenoso e abriu um sorriso ácido que torcia as feições do rosto — Lembra?
  Harry sorriu, mais leve.
  — Bom pra mim que não conheço um criminoso, não acha? – ele retrucou e, pela primeira vez naquela manhã, Lincoln sorriu genuinamente, ainda que pequeno. — Você sabe muito bem que não ando com esse tipo de homem. Sou um menino bonzinho.
  Lincoln fechou os olhos e puxou o ar para dentro, respirando fundo.
  — Certo, então, bom menino – ele suspirou mais calmo do que antes, abrindo os olhos direto para Harry — então, por que você está sendo acusado? Eu quero saber de tudo o que aconteceu nesse barco.
  Harry bufou.
  — Eu já disse que nada – ele retrucou irritado, fechando as duas mãos ao redor do apoio da cadeira outra vez — Juro por Deus que não fiz nada. Eu não coloquei as mãos nela, pelo menos, não enquanto eu estava consciente.
  Os olhos castanhos de Lincoln se estreitaram.
  — Enquanto estava consciente? – ele levantou uma das sobrancelhas, os olhos brilhando com suspeita. Harry conseguia ver as engrenagens do cérebro dele trabalhando para decifrar o que quis dizer e imaginou o mesmo acontecendo em um tribunal, se toda a história fosse levada a um júri. Já podia até sentir o cheiro de podre das matérias que iriam sair — O que você quer dizer por consciente? – de repente, ele arregalou os olhos — Você usou tanta droga que perdeu a noção do que é certo, Harry?
  Grunhindo, Harry esfregou as mãos no cabelo.
  — Pela milésima vez, Linc, era só uma coisinha de nada de maconha – disse categórico, batendo o indicador contra a mesa como que para enfatizar o argumento — Eu não fumei nada além de maconha e bebi cerveja, e mais uma vez, eu não machuquei ela. Eu não entendo porque estão dizendo que a garota está toda arrebentada. Não foi assim que as coisas aconteceram.
  Lincoln cruzou os braços sobre o peito.
  — Não foi assim que as coisas aconteceram – imitou ele ligeiramente irritado — Não estou te entendendo, moleque. Primeiro você diz que não tocou na menina e agora, tocou, mas não machucou ela tanto assim. Qual é a verdade, Harry?
  Harry suspirou profundamente.
  — É complicado, Linc.
  — Ah, mas é bom você começar a ir descomplicando tudo agora mesmo porque vai ter que explicar isso aí na frente de um juiz se essa menina levar o caso adiante – ele esbravejou se agitando em cima da cadeira — Quantos anos ela tem mesmo? Eu ouvi dizer que era quinze, mas pelo seu e o meu bem, eu espero que seja mentira.
  Harry estalou a língua nos dentes.
  — Eu sinceramente não sei – disse ele em um murmúrio abatido. As coisas não pareciam boas para o seu lado e ele sabia disso — Pelo rosto, eu daria uns doze ou sei lá – ele coçou a cabeça, envergonhado – mas ela era… gostosinha? Era do tipo encorpada, sabe? Linc, não me olha assim.
  Lincoln respirou profundamente.
  — Assim como? – ele quis saber — Eu estou te olhando normal, como sempre olhei.
  Mas ele não estava e Harry sentiu o próprio coração afundar no peito. Ele odiava aquele olhar.
  — Como se eu fosse um criminoso nojento, Linc – ele suspirou com força. — É assim que você está me olhando. Como se eu fosse desse tipo de gente.
  Lincoln sorriu com aquela expressão odiosa de quem ama o pecador, mas não o pecado e inspirou profundamente.
  — E você me culpa, menino? – ele rebateu suavemente — Você verdadeiramente me culpa? Por favor, Harry, se ponha no meu lugar. Você vem aqui e me diz que achou uma menina de doze anos atraente e quer eu tire o quê disso?
  — Mas eu não disse isso, caramba – Harry o cortou, frustrado com a situação — Eu disse que, pelo rosto, isolando todo o resto, ela tinha no mínimo uns doze anos. Mas isso não quer dizer muito, tu sabe disso. Hoje em dia é difícil dizer essas coisas.
  Lincoln continuou o olhando com bondade.
  — Você não sabe a diferença de uma mulher adulta para uma criança? – ele perguntou suavemente e Harry suspirou cansado; ele sabia como aquilo soava, mas Linc não havia visto a menina de perto. Ela era diferente, de um jeito esquisito. Lincoln se inclinou para frente — Eu não tô aqui pra te julgar, Harry. Tá tudo bem se você achou ela atraente.
  Harry recuou, enojado.
  — Pelo amor de Deus, Linc, eu não sou assim. Eu não gosto de crianças – ele se defendeu, socando o braço da cadeira. Lincoln não disse nada, ainda o observando com aquela expressão odiosa e Harry respirou profundamente, contando até dez mais uma vez — Você não estava lá. Não viu ela.
  — Então, me conta o que você viu.
  Harry mordeu o lábio inferior. Não era esse exatamente o problema? Ele não tinha ideia do que havia visto. As memórias, cobertas pela névoa de maconha e cerveja, se misturavam à fantasia e imagens psicodélicas distorcidas e Harry não tinha ideia do que era real ou não. Até o momento que a notícia vazou e o mundo caiu sobre a sua cabeça, ele estava crente que a menina não era real, apenas invenção da sua mente inebriada.
  Ela era esquisita demais pra ser real.
  Tinha certeza de que não havia nenhuma mulher, jovem ou velha, com aquela cor de cabelo e aqueles olhos estranhos que pareciam olhar dentro da alma; tinha certeza de que não havia nenhuma mulher com aquela estatura, aquele corpo minusculamente alto que parecia um saco de esqueleto tão gordo que não se sabia onde começava a cabeça e terminava as pernas; e, tinha a mais absoluta certeza de que aquela mulher, menina ou criatura que seja, não estava no barco quando eles saíram do porto e mais certeza ainda que ele a viu simplesmente evaporar no ar.
  Ele tinha certeza de tudo.
  E também não sabia de nada.
  — Eu não sei o que aconteceu lá – ele suspirou profundamente. Não havia nada que mais queria agora do que se enfiar debaixo das cobertas e dormir até o mundo acabar. Lincoln, porém, jamais deixaria isso acontecer, então, era melhor soltar o absurdo de uma vez. Lincoln definitivamente o jogaria em um hospício depois de ouvir — Eu não sei o que eu vi – ele respirou fundo – mas tenho certeza que não é o diabo que estão tentando fazer parecer.

DOIS.

HARRY CONTA UMA HISTÓRIA


  Tudo começou com uma festa.
  Não, não a festa no iate; essa daí foi consequência. A festa da qual eu falo é uma que aconteceu mais ou menos sete meses atrás.
  Era uma noite de quarta-feira, sem estrelas, quando a minha amiga – a quem eu vou chamar de Sra. Anton, e mais nenhuma informação darei a respeito – me convidou para uma reuniãozinha íntima, só para quem era amigo mais próximo e me pediu para trazer os caras também. Ela disse que queria ter a oportunidade de conhecer eles, de colocar o papo em dia, de me apresentar algumas pessoas e tal. Nada extravagante, nem coisa do tipo. Só uma reunião de confraternização, ela havia dito. Besteira — o que ela queria mesmo era que eu arrumasse um homem para as amigas dela darem bom e gostoso.
  E, porque eu sou um bom menino, obedeci.
  Liguei para o Zayn, o Niall e o Liam e todos eles concordaram assim, de supetão. Só aqui entre nós, era uma combinação perfeita e ninguém pode discordar – mulher bonita, biritinha e ainda ganhar presentinho de coroa gostosa, quer dizer, quem negaria isso? Só louco. E Louis se comportou incrivelmente como um quando disse que não queria nada disso; quando disse que não estava interessado e que não poderia sair pra farra com a gente. Que tinha outros planos e que iria encontrar alguém mais tarde.
  — Besteira – foi o que eu disse com um risinho meio sacana pelo celular porque, desde que me entendo por gente, Louis nunca recusou um dia de farra comigo. — Vai ser divertido, benzinho. Tem uma que faz o seu tipo, toda ruiva e peitudinha, do jeito que você gosta.
  — Não estou interessado, Harry.
  Foi a resposta dele e, então, decidi tentar uma abordagem mais cheia de manha, persuasiva, e mandei fotos da peitudinha – com foco nas armas da moça, o ponto fraco do menino – para convencer ele a mudar de ideia. Nada. Ele não tinha a menor vontade de ver ela, e, mesmo que ele se recusasse a admitir, eu senti que era por causa de boceta.
  A razão pela minha teoria eu apresento mais tarde.
  Então, porque a festa já estava chegando perto e a minha amiga havia dito que a presença de todo mundo era importante, eu tomei uma decisão extrema: convenci ela a mudar o endereço da festa para a casa dele.
  Uma espécie de Maomé das fodas, se você quiser colocar dessa forma.
  Se ele não queria ir até a mulher, eu levaria a mulher até ele, como um bom amigo deve fazer. Agora, para ser bem honesto aqui em prol da validade dessa história, eu vou dizer que Louis ficou puto – mais do que puto, ele tentou me matar. Quando eu cheguei com o pessoal, o coitado ficou todo perdido sem saber como reagir, e, quando finalmente achou raiva o bastante para me enviar para o céu – o que eu já havia mencionado antes – já não tinha mais o que fazer, porque todo mundo estava muito mais do que estabelecido na casa dele. Ainda sim, isso não o impediu de me puxar para um canto, me dar um tabefe na orelha e enfiar o dedo no meu peito, perguntando qual diacho era o meu problema.
  — Meu problema é o seu problema – foi a minha resposta super digna, que saiu meio embolada porque eu estava assim de álcool no cérebro, então, eu não estava pensando, eu diria, muito bem — A Sra. Talbot é tão bonita e ela gosta tanto de você. Você está sendo mau e egoísta.
  — Eu, egoísta? – ele guinchou como resposta, e eu vi a ofensa dançando ali naqueles olhos azuis dele. Mesmo com o cérebro embolado e meus sentidos meio cagados, eu percebi que tinha dito uma coisa idiota e, quando Louis deu um passo para frente com os olhos vermelhos, eu dei um passo para trás com o cu trancado. De repente, aquela varanda parecia apertada demais para nós dois. Sem que eu pudesse evitar, ele me agarrou pela lapela da minha blusa e enfiou o nariz no meu — Você invade a minha casa, traz a sua vagabunda pra cá e eu sou o egoísta, Styles?
  Eu sabia que ele tinha dito muito mais, mas tudo o que eu consegui ouvir foi:
  — Vagabunda? Não fala assim dela, Louis. Isso é feio.
  O que arrancou dele um sorriso de nojo, irritadiço, que continuou me assombrando até mesmo no dia do iate. Agora pensando bem, todos eles começaram naquela noite, naquela festa, daquele jeitinho que inclina para o lado mas nem tanto assim, que diz franzidamente que ele já não sentia a menor vontade de ficar do meu lado, que ele já não me aguentava mais. Isso, você vê, não faz o menor sentido hoje e não fez naquele dia. Louis me adora. Ele me quer o tempo todo…
  Exceto, é claro, naquele dia.
  Mas eu admito que ele tinha as suas razões.
  — Eu só não te mato agora, Styles – ele começou em um grunhido de quem mal controla a raiva que sente, novamente cutucando o meu peito como se quisesse fazer um buraco nele. Doeu muito, não vou mentir. Aquele dedo parecia duro que nem pedra – porque você está caindo de bêbado. Mas eu juro por deus que amanhã você não me escapa.
  Então, ele me soltou bruscamente, empurrando o meu corpinho gracioso para trás como quem joga um saco de bosta, e tal como ele havia chegado, me abandonou, fazendo um trabalho lindo de me evitar a noite inteira. Eu e a Sra. Talbot, pobrezinha, que só queria o menino pra fazer companhia. Aquilo, porém, não ficou muito na minha mente, não – a minha companhia precisava de mim, e, ao contrário do Louis que era um mau educado e não tinha a menor consideração com uma dama, eu sim dei atenção para a Sra. Anton e deixei ela me amassar todinho.
  O quarto de hóspede do Louis nunca havia visto tanta diversão assim.
  Mas, nem só de diversão vive um homem e, quando eu estava indo até a cozinha para apanhar mais uma garrafa de cerveja enquanto ajustava o zíper da minha calça, eu vi o Louis – por volta das duas da manhã, talvez três – se esgueirando como quem não quer nada pra fora da casa dele e, tal como o espírito de fofoqueiro ordenou dentro de mim, fui comentar com os caras, que estavam fumando uma perto da varanda.
  — Louis acabou de sair – eu disse.
  Zayn, que parecia o mais sóbrio de todos nós, me lançou um olhar esquisito.
  — Eu percebi – e deu uma tragada. — Ele está puto com você.
  Para o que eu acenei com a cabeça e disse, depois de me ajustar em cima do banquinho:
  — Eu sei. Logo passa.
  E ele acenou a cabeça, concordando comigo. Então, Liam lançou o mesmo olhar esquisito de Zayn na minha direção, e apontou para uma coisa logo abaixo. Eu me rastejei até a varanda para ver o que era.
  — Parece que a boneca voltou.
  Ele estava certo. Uma menina, mais ou menos um metro e meio, estava lá fora parada com as mãos dentro do bolso da calça tremendo debaixo da neve extrema – o que, em retrospecto, não deveria ter estado assim – enquanto olhava fixamente na entrada do prédio em que eu estava e que Louis morava. Eu não precisei esperar muito para ver o que ela tanto queria, porque, no minuto seguinte, Louis apareceu e puxou a menina pela cintura metendo um beijão na boca dela.
  Tipo, totalmente cena de cinema.
  Só faltou trilha pra complementar.
  Eu, por outro lado, estava em choque completo; eu tinha feito uma nova descoberta, um aspecto da vida de Louis que eu não fazia ideia de que existia – ele tinha uma namorada esse tempo todo e não me contou? – e, meio sem perceber, eu agarrei o meu celular para dar um zoom na cara da menina e poder ver quem era a garota que havia roubado o coração do meu melhor amigo. Atrás de mim, os rapazes começaram a comentar:
  — Você acha que ela fica dessa vez? – foi o Niall que murmurou como quem não está interessado. Ele fez um som estranho com a boca e se mexeu, causando um barulhão. O celular na minha mão tremeu com o susto e a foto que eu ia tirar ficou toda borrada — Ela nunca fica por muito tempo – fungou – Aquela megera cruel. Não entendo como Louis se humilha tanto quando existe coisa melhor por aí.
  Então, o Zayn deixou um risinho de escárnio escapar:
  — Não entende porque não é você mais lá, maninho. Nunca se esqueça de como você fazia pior quando era sua vez – riu outra vez – Implorando de joelhos só pra sentir o gosto da boceta dela outra vez. Não por uma foda completa, mas uma lambida na xota – ele gargalhou e eu imaginei ele jogando a cabeça para trás. Meio de relance eu olhei para o Niall, que estava cabisbaixo e com a bochecha dos dois lados em vermelho cor de pimentão. Era verdade, então? A menina lá embaixo havia sido namorada dele também? Zayn logo voltou a si e adicionou de forma cruel — Pelo menos Louis consegue fazer ela voltar, ela vir até aqui pra ver ele. Tudo o que você conseguiu foi o desprezo dela – eu ouvi ele dando um gole na garrafa e então, continuar mais sombrio – Isso aí é só ciúmes. Você sabe que nunca foi homem o bastante pra ela.
  Niall ficou em silêncio por um tempo, talvez sem uma resposta, e eu aproveitei para tentar tirar mais uma foto da menina. Ela tinha uma touca na cabeça e cabelo ruivo, dava para ver pelo zoom. Os olhos, a única coisa visível do rosto dela por causa dos ombros do Louis, eram meio amendoados no formato, como se um coelho tivesse virado gente. Como se ela fosse preciosa e frágil – o que parecia meio com o tamanhinho dela e o tamanhão dele –, Louis pegou um dos pompons e começou a brincar, fazendo ela sorrir. Foi tão bonitinho que eu até fiz o mesmo; e então, a voz de Niall quebrou a beleza do momento:
  — Como se você fosse diferente, não é? Se acha tão esperto, mas também estava lá se humilhando, pedindo por mais – ele rosnou perdendo a compostura, e eu tive que me virar e entender o que estava acontecendo. Como se mal conseguisse controlar a própria raiva, Niall se colocou de pé tremendo dos pés a cabeça e apontou um dedo na cara do Zayn — Você acha que eu não vi os olhares que você dava na nossa direção quando ela estava comigo? Você acha que eu não sei que você esteve na porta da porta da minha casa e tentou tirar ela da porcaria minha cama quando achou que eu não estava na cidade? Você é tão patético quanto eu, maninho.
  Zayn sorriu amargamente.
  — Mas ela ainda fala comigo.
  Com o pingue-pongue de ofensas, eu esperei a vez de Liam entrar na roda e também dizer que teve um casinho com a namoradinha de Louis – de dizer o quanto ele havia se humilhado, chorado e pedido por mais dela e revelasse finalmente um nome com o que eu pudesse trabalhar. Era chocante que meu grupo de amigos que eu achava conhecer tão bem houvesse guardado um segredo que nem aqueles durante todo aquele tempo e, mais uma vez, senti uma vontade extrema de ver o rosto da menina pra poder entender que tipo de beleza era ela que fez o Zayn tentar trair o amigo na cara dura. Liam se pôs de pé, batendo a poeira da roupa para longe. Eu esperei, que nem um maníaco, a confissão dele. Ela nunca veio. Com um sorriso amargo no rosto, ele murmurou para os outros dois:
  — E agora ela está com ele – Liam disse como encerramento de discussão. A frase em si era muito simples, inocente até, mas Niall e Zayn arfaram como se tivessem sentido dor física - como se tivesse levado uma facada no peito de quem eles mais confiavam — Ela está com ele trepando todos os dias, enquanto vocês – riu cruel – estão aí competindo para ver quem é o mais patético dos dois. É um empate, percebem? Os dois são igualmente patéticos e muito futuramente Louis vai se juntar ao clube também.
  E agarrou o telefone da minha mão, batendo a foto que eu tanto queria antes de sair de lá – devolvendo o celular, é claro. Boquiaberto, eu pisquei algumas vezes para espantar o choque e olhei para Zayn, com uma pergunta clara no meu rosto.
  — O que deu nele?
  Zayn me ignorou e se pôs de pé também, encarando a Niall.
  — Você sabe que é mentira, Niall – ele murmurou como se houvesse perdido uma guerra — É ele e você sabe disso. Sempre foi ele. Você e eu fomos só diversão.
  Eu olhei para Niall pedindo uma explicação – qualquer uma mesmo – mas, ele só me ignorou e meteu o pé de lá. Sozinho, com o celular aberto na foto tirada pelo Liam, eu matutei comigo mesmo o que essa menina tinha de tão bom pra fazer os meus amigos trapacearem entre si só pra ter a atenção dela. Foi na minha trocação de ideias que a Sra. Anton me encontrou e me perguntou o que eu estava fazendo sozinho ali ao invés de, você sabe, dentro dela.
  — Nada, benzinho. Só pensando.
  E então, ela me entregou um copo, uma bebida colorida que ela havia aprendido a fazer especialmente para mim, e pediu para que eu experimentasse e pensasse em um quarto, uma cama e ela. Como um bom menino, eu bebi tudinho e ela se aproximou, mordendo o meu pescoço. Eu sabia o que ela queria e não faria a coitada pedir duas vezes; mandei ela na frente, que eu iria logo depois. Quando ela saiu, o celular na minha mão chamou a minha atenção outra vez – ainda estava aberto, ainda na foto que Liam havia tirado.
  Eu olhei com atenção.
  O rosto da menina era uma massa disforme, borrado como quem risca uma foto, com um flash de luz esquisito cobrindo ele, e o Louis… havia algo estranho perto dele. Era uma coisa negra, esquisita até, que parecia a figura de uma pessoa mas ao mesmo tempo não, e onde a cabeça deveria estar, havia duas bolinhas vermelhas que estavam olhando diretamente para o Louis com o que parecia um sorriso. Agora pensando a respeito, eu acho que fui descuidado na época. Eu deveria ter ouvido o que Liam havia dito; prestado mais atenção em como Niall estava miserável, e Zayn fingia sorrir pra esconder a tristeza evidente. Eu deveria ter pensado naquela foto mais vezes, ter comentando com algum padre ou coisa assim, porque aquilo parecia um aviso. Eu deveria ter notado que Louis estava em perigo. Porque, sete meses depois, foi exatamente isso que aconteceu.
  Ele havia se tornado patético.
  Na noite anterior a festa no iate, eu recebi uma ligação do Louis a quem eu não conversava a exatos, veja só, sete meses e fui pego de surpresa com os soluços e gemidos de dor dele. Eu perguntei assustado o que havia acontecido e ele respondeu entre um engasgo e outro:
  — Harry, eu vou morrer.
  Então, eu larguei tudo o que eu fazia (estava num botequinho do hotel esperando a Sra. Anton chegar), peguei o carro e corri para casa dele, porque, que amigo eu seria se deixasse o homem morrer? Exatamente, um péssimo amigo.
  E eu não sou desse tipo.
  Quando eu cheguei lá, tudo estava num breu que só deus e um calor horroroso que te fazia suar que nem porco: as cortinas haviam sido fechadas, o ar condicionado desligado e tinha um cheiro… um cheiro tão forte… quando eu liguei a luz, eu percebi que era o cheiro de cerveja das garrafas quebradas espalhadas no chão. Morto de preocupação, eu chamei pelo Louis não tendo nada como resposta. Procurei em todos os cômodos da casa – quartos, cozinha, banheiro, varanda – e não achei ele em lugar nenhum. Eu estava pronto para chamar a polícia e comunicar o sumiço dele quando eu vi os pés do coitado, atrás do balcão de bebida, caído que nem saco de batatas murcho no chão.
  — Louis! – eu fui até ele, meu coração batendo a mil, e ergui o corpo mole dele pelos braços puxando para perto do sofá. Ele cheirava a álcool dos pés à cabeça e, para o meu desespero completo, ele também estava queimando de febre. No caminho até o sofá, ele não mostrou nenhuma reação, o que me preocupou ainda mais achando que ele tinha morrido ou entrando em algum tipo de coma alcoólico – tinha muita garrafa no chão que servia de base para essa teoria. Mas, quando eu ameacei de erguê-lo para colocar em cima de um lugar mais confortável, ele gemeu agoniado e começou a chorar — Louis, o que aconteceu?
  — Dói muito, Harry – foi a resposta dele, e eu perguntei também já todo agoniado aonde é que doía e como eu poderia ajudar. Com a mão mole, ele levou até o próprio peito e começou a bater — Aqui. Dói aqui. Dói demais.
  — Você quer ir em um médico?
  Ele sacudiu a cabeça. E quando eu pensei que ele fosse cair no choro outra vez ou desmaiar como eu o encontrei antes, ele fungou bem alto e sussurrou:
  — Eu quero ela.
  — Ela? – retruquei — Ela quem?
  — Ela.
  E então começou a uivar que nem um maluco, como se estivesse com muita dor queimando por dentro. O que deveria ser verdade, com aquela febre que só parecia aumentar. Eu fiquei lá, parado por um bom tempo sem saber o que fazer, enquanto ele tremia descontroladamente e os gritos dele faziam cortes dentro do meu coração.
  Era triste, sabe?
  Triste ver ele daquele jeito, sofrendo como um condenado, e mais triste ainda era não saber o que eu podia fazer pra ajudar. Pensei em Niall, que parecia super miserável naquela noite, e cheguei a conclusão de que ele havia passado pela mesma coisa que Louis naquele momento. Eu estava prestes a ligar para ele e pedir algum tipo de luz, quando o celular do Louis começou a tocar na cozinha. Eu fui até lá e vi o identificador: era uma ligação anônima, mas, mesmo sem um nome ou um rosto, eu senti no peito quem exatamente era.
  E uma raiva horrível queimou dentro de mim.
  — Sua mulher desalmada – eu disse sem pensar quando atendi,  amaldiçoando cada pessoa na árvore genealógica daquela mulher cruel. Do outro lado da linha, eu ouvi a respiração tranquila dela e fechei a minha mão livre em um punho, metendo em cima do balcão — Você tem muita cara de pau, ligando pra ele assim, sabendo o que você fez. Você gosta disso, é? De saber que fez dele um monte de nada? Sua puta imunda. Sua ordinária. Jezabel!
  Sem afeto, a risadinha dela entrou nos meus ouvidos:
  — Essa é a única coisa que você acertou, tigrinho. – murmurou, e eu juro aqui pela vida da minha mãe e irmã, aquela voz enviou arrepios na minha espinha. Como podia, eu pergunto aqui, o Louis escutar todo dia aquela apatia, aquele tom cortante, aquele gelo robótico quase inumano e morrer de amores mesmo assim? Eu não conseguia entender — No seu tempo, Harry Styles, você vai entender muitas coisas – ela continuou, como se respondesse aos meus pensamentos – No seu tempo, tudo vai fazer sentido. Mas agora, você vai colocar William na linha e me deixar falar com ele.
  O gelo na minha espinha derreteu com o fogo da raiva outra vez.
  — Nunca – eu rosnei apertando o telefone contra a minha mão, desejando que pudesse ser ela que eu estivesse estrangulando para vingar o que havia acontecido com Louis e os outros — Você nunca vai chegar perto dele, sua vagabu-
  E então, simplesmente assim, meu corpo inteiro tremeu e torceu indo pra frente; cambaleando, eu tentei me equilibrar na ilha da cozinha, batendo a cabeça na pedra no processo. O celular escapou da minha mão no mesmo instante em que eu caí, e, do nada, Louis surgiu, ainda tremendo como se mal suportasse o próprio peso, pegando o aparelho e levando a orelha, como quem agarra a um bote salva-vidas. Levou um segundo e meio para perceber que ele havia me empurrado. E outro segundo e meio para perceber que ele estava voluntariamente se colocando em contato com aquela mulher.
  — Caralho, Louis! – eu gritei, enxergando dois dele fugindo de mim — Não faz isso, inferno!
  Me ignorando, ele deu meia volta e voltou a sala com o celular. Depois de conseguir ficar de pé e me livrar da tontura, eu o segui.
  —… eu juro que não faço mais – estava dizendo ele para a menina – Eu fui bobo e infantil, e não pensei no quadro todo. Mas agora eu estou pronto, anjo – ele sorriu contente e confiante, como se fosse uma criança que descobre uma coisa nova – Eu estou pronto e quero me casar com você.
  Minha boca despencou até o inferno com a revelação, e eu até esqueci a dor pulsante no meu cérebro sentindo o ímpeto de tomar o celular de volta e sacudir o Louis até ele criar senso. Casar? Ele tinha perdido o juízo de vez. A menina disse alguma coisa que fez ele olhar pra mim, então, me dando as costas novamente, ele disse que a resposta era sim. Eu fui até ele.
  — Me dá o celular, Louis – ordenei com autoridade de um melhor amigo. Ele precisava de uma intervenção séria antes que a coisa ficasse pior. Casamento… eu sacudi a cabeça, indignado. Ele claramente não estava pensando direito — Eu estou mandando você me dar o celular.
  Ele me ignorou outra vez.
  — Eu não me importo com os outros – ele disse para o aparelho, deitando no sofá — Eu sei que você é minha. Eu juro que não vou mais reclamar se você quiser os outros homens – outra pausa, outra resposta – E eu não vou mais tocar em nenhuma mulher, eu prometo. Eu só quero você de volta.
  Aquilo foi o meu limite. Eu agarrei a mão dele e tomei o celular à força, pronto para desligar na cara daquela diaba sem coração quando eu percebi, com um gelo surgindo no estômago outra vez, que a ligação havia sido desligada segundos depois de ser atendida – a mesma quantidade de tempo que levou para que somente eu falasse com ela. Minha mão apertou o celular com força e eu observei o rosto do Louis, confusão estampada no meu rosto provavelmente pálido. Que diacho estava acontecendo ali? Não era possível que… sacudi a cabeça mais uma vez, rindo desconfortável. Não era possível que ele estivesse falando sozinho. Não durante todo aquele tempo. Deus – eu sentia medo até de pensar na possibilidade.
  — Louis…
  Ele fingiu não me ouvir. Ele havia deitado no sofá, os olhos vidrados no teto e uma expressão de tristeza enfeitando o rosto; eu mordi o lábio sem saber o que fazer. Como ele havia chegado naquele estado tão miserável? Se humilhando por quase nada… Liam estava certo – ele havia se juntado ao clube também. Eu estava perdido nos meus pensamentos maturando uma ideia de como ajudá-lo naquela situação deplorável, quando a campainha da porta tocou.
  — Não se mexe – eu disse pra ele.
  E caminhei até o corredor do vestíbulo tomando cuidado pra não pisar em nenhum caco de vidro no caminho e abri a porta de supetão. Com a turbulência das coisas, sequer me ocorreu dar uma espiada no olho mágico, e mesmo se eu tivesse feito, o ato em si teria sido por nada – exatamente isso que me recebeu do outro lado, sendo o frio de congelar o cu no corredor a minha única companhia. Eu franzi o cenho, não entendendo porra nenhuma: quem havia tocado a campainha? O que diabos estava acontecendo ali? Todas essas perguntas morreram no mesmo instante que surgiram com a voz abafada do Louis murmurando animado você veio. Com a pedra de gelo maior do que um iceberg, corri de volta pra ele com um mau pressentimento.
  Quando eu cheguei lá, preferi não ter feito.
  — Isso mesmo… caraaaalho.
  Eu fisicamente estremeci – senti o meu corpo inteiro tremer como se estivesse com o frio, arrepiado da cabeça aos pés, enquanto o som do gemido angustiado vindo dos lábios do Louis penetrou os meus ouvidos e me paralisou no lugar. Eu abri a boca, talvez para gritar: se o som que ele produziu não houvesse sido o suficiente para me perturbar, a visão do pênis dele fodendo o ar fazia o trabalho pelos dois.
  — Bom senhor – eu deixei escapar.
  Ele não estava se masturbando; a mão dele sequer chegava perto do pau à mostra pela calça arriada até os tornozelos, estando ao invés, estrategicamente colocada ao redor do ar como se segurasse a cintura extremamente fina de alguém enquanto ele subia e descia os quadris. E ele gemia – Deus, como ele gemia; e alto, tão alto que ecoava pelos cômodos do apartamento que ainda estavam na escuridão. O som, como eu disse, era perturbador: ele rosnava e chiava como um animal enjaulado, buscando a liberdade como quem busca alimento. Louis trepando não era e nunca havia sido novidade para mim, mas, a visão do pênis dele subindo e descendo, rijo que nem pedra, enquanto os sons que ele fazia ecoavam na quietude da casa, me causaram calafrios na espinha.
  Tinha algo diabolicamente errado com ele naquele momento.
  — Eu amo… você. Eu amo… Ela.
  Eu respirei fundo colocando minha mente em ordem, e dei o melhor de mim para sair do mesmo lugar. Era claro, tão claro quanto um riacho em dia limpo, que ele achava que o diabo daquela mulher estava ali com ele; que era ela quem ele fodia como a porcaria de um animal. Talvez fosse a febre que ficara tão alta que ele estava começando a alucinar; talvez fosse algum tipo de vudu esquisito que aquela diaba horrível havia jogado nele, deixando o coitado como um cachorro bom e obediente; fosse isto ou aquilo, o fato era que eu precisava fazer alguma coisa. E, com a determinação pulsando nas minhas veias, eu finalmente consegui me mexer.
  — Você é… – ele gemeu outra vez, subindo e descendo, suor escorrendo da testa e os braços dele, as veias tão estouradas na pele que parecia mesmo que havia algum tipo de esforço sendo feito ali — perfeita… – outra estocada, agora mais violenta. Eu respirei fundo, sentindo uma vontade imensa de chorar – tão bom… tão perfeita… – estocada, estocada e estocada – e minha. Minha, minha, minha.
  E então, como se não fosse a coisa mais repugnante e perturbadora que ele já houvesse feito, ele gozou com um sorriso débil no rosto, o cheiro de sexo, baunilha e talco de bebê impregnando cada canto daquele local. Eu cheguei no meu limite ali – com a mão na boca e sem rumo, eu corri até a pia mais próxima (da cozinha, que tristeza) e vomitei tudo o que eu tinha comido até então: o odor que estava no ar era tão enjoativamente doce que me fazia querer desmaiar. Eu não sei quanto tempo fiquei até finalmente melhorar, mas, quando já não tinha nada além de água dentro de mim e a pia já estava toda entupida com tudo o que eu havia colocado dentro dela, eu endireitei as minhas costas duras o mais lento que eu pude e fui até o Louis, só para descobrir que ele estava dormindo em um sono profundo de homem feliz.
  E sorrindo, o filho da mãe.
  O tipo de sorriso que se dava quando se esvaziava o saco até não sobrar uma única gota, de satisfação masculina pura e simples e que só se via depois de uma foda completa bem dada. Se fosse em qualquer outra situação e eu pegasse ele sorrindo assim, eu iria fazer uma piadinha e brincar com a cara dele até não poder mais; no entanto, porque não era uma outra situação e eu havia visto pessoalmente como ele havia feito para chegar naquilo ali, aquele sorrisinho só meu preocupava profundamente – só me fazia pensar que havia algo de muito errado naquela mulher.
  — Ah – ele suspirou em cima do sofá e girou para o lado, caindo no chão. Sem acordar, ele se ajustou no chão frio e duro e bocejou, coçando a virilha logo em seguida. Ouvindo o tom dele extasiado de quem quer agradar a todo custo, eu tive um pressentimento horrível que subiu até a boca do estômago – qualquer coisa, Ela – ele continuou mansinho – Qualquer coisa por você.
  Diacho.
  Nem nos sonhos aquela mulher deixava ele em paz.
  Eu não sabia como ela havia feito, não sabia que armas ela tinha usado, mas a macumba ali era forte – do tipo que precisava de alguém ainda mais experiente no assunto pra poder dar cabo na amarração. Era meu dever moral, como amigo e como homem livre das opressões de uma boceta, quebrar qualquer tipo de feitiço que havia sido jogado sobre ele: era absolutamente inviável meu Louis continuar sendo feito de gato e sapato por aquela aberração em forma de mulher.
  Absolutamente apenas.
  E, ali, eu havia decidido que seria eu. Então, disposto a dar um fim naquela noite horrível para assim dar um fim naquela patifaria desgraçada, eu me preparei para erguer o Louis daquele chão frio e carregar ele até uma cama confortável, dando ao coitado uma noite de sono agradável. Ele era pesado para a minha surpresa, mais pesado ainda por ser um peso morto, e gotinhas de suor agonizantes escorreram pela minha testa, deslizaram pela ponta do meu nariz e caíram na cara abobada de pós-coito dele. Porque eu sou muito estúpido e só me dou conta das coisas depois, não me ocorreu que aquele peso insano dele era estranho – Louis era grande, era certo, mas não grande que me causava dificuldade pra erguer.
  Era como se, e tenho horror ainda de pensar, eu estivesse puxando ele pra cima e, lá embaixo, de algum lugar, alguém estivesse puxando ele na direção oposta.
  Eu fiz mais forças, grunhi como um animal agoniado, e finalmente – finalmente – o quer que estivesse segurando ele soltou tão súbito que eu até me desequilibrei um pouco, e ele subiu para cima comigo sem o peso extra que havia estado até nele até então. Foi fácil, mais fácil do que eu havia pensado, mas aí… aí já era tarde demais. Meus braços ficaram moles, minhas pernas endureceram e, como um saco de batatas, eu ouvi o som do baque do corpo do Louis caindo de volta no chão. Então, foi a minha vez – em câmera lenta, desesperadamente, só tempo o bastante para que eu pudesse ver a massa escura parada diante de mim. E, como se ela tirasse sarro da minha cara, como se estivesse rindo de mim, tudo ficou escuro.
  E outra vez eu ouvi aquela voz fria, morta, gargalhando bem em cima de mim.

CONTINUA...