Fora das Quadras
Escrito por Ray Dias
Nota da autora: Elenquei a música tema do casal. Beggin - Maneskin tudo a ver. Depois me conta nos comentários se concorda.
Capítulo 1
Marina Santos tinha aprendido que não era uma boa ideia discutir com atletas antes das oito da manhã. Não porque eles fossem especialmente mal-humorados naquele horário, mas porquê alguns ainda estavam sonolentos demais para perceber que estavam sendo contrariados.
— Você vai fazer o exame hoje. — Ela disse.
O jogador sentado diante dela continuou amarrando o cadarço.
— Hoje?
— Hoje.
— Mas eu estou bem, Nina.
Marina levantou os olhos da prancheta.
— Você está mancando, Cauê.
Ele olhou para o próprio pé como se só então tivesse percebido.
— Estou?
— Está.
— Talvez seja impressão… — Ele deu de ombros tentando disfarçar.
— Está dizendo que a sua fisioterapeuta está tendo só uma “impressão errada do seu pé”, jura?
Ele sorriu.
— Você está ficando sarcástica, Nina.
— Aprendi com vocês...
O jogador soltou uma risada e finalmente levantou.
— Tá bom. Eu faço o exame.
— Ótimo. Você faria querendo ou não.
— Você é muito mandona!
— E você continua jogando basquete mesmo quando está machucado. Acho que estamos quites.
Cauê saiu da sala reclamando qualquer coisa sobre fisioterapeutas que não tinham coração, e Marina voltou para a prancheta.
Do corredor, ouviu:
— Nina! — Era Cauê de novo.
— O quê?
— Você viu meu celular?
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Está no seu bolso, cara…
Silêncio. Depois:
— Ah!
Marina sorriu sozinha.
Era assim quase todos os dias. Ela já não sabia dizer em que momento o Aurora Basquete tinha deixado de ser apenas seu local de trabalho e virado uma parte tão grande da sua vida, tão íntima como uma família. Pode ser que tenha acontecido na primeira viagem em que ela percebeu que conseguia dormir em qualquer ônibus, mesmo rodeada de vários homens. Ou, talvez na primeira vez em que um jogador voltou para a quadra depois de uma lesão e foi abraçá-la antes mesmo de cumprimentar o técnico.
Na verdade… O mais certo era que tivesse acontecido muito antes, quando Rafael Valença telefonou numa terça-feira à noite e fez uma proposta que mudaria completamente a trajetória profissional dela.
Na época, Marina ainda não era “a Nina”. Pelo menos não para aquelas pessoas.
— Rafa? Você está me ligando por quê?
— Porque eu preciso de você.
Marina apoiou o telefone no ombro enquanto procurava alguma coisa na geladeira.
— Isso parece grave. Um pouco assustador, até… Logo você dizendo com esse tom urgente.
— É.
— Você fez alguma merda?
— Ainda não. Mas sem você do meu lado, com certeza, uma hora eu vou fazer.
Ela encontrou uma garrafa de água.
— Então é grave mesmo.
Rafael riu.
Eles tinham esse tipo de amizade. Uma intimidade construída ao longo de anos, suficiente para que Marina pudesse atender uma ligação dele à noite e começar a conversa perguntando se ele tinha feito alguma besteira. Naquele momento, Rafael estava prestes a assumir seu primeiro trabalho como técnico principal de uma equipe do NBB. O Aurora havia apostado nele. E ele queria que Marina fosse com ele.
— Quero você na minha comissão.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Rafael, eu não trabalho em uma equipe desse tamanho.
— Ainda.
— Isso não é resposta.
— É exatamente a resposta.
Marina encostou na pia.
Aquela oportunidade era grande demais para ser tratada como uma gentileza entre amigos. Ela sabia disso. Rafael também.
— Por que eu?
— Porque você é boa.
A resposta veio sem hesitação.
— E porque eu confio em você.
Foi essa segunda parte que a fez considerar. Marina não precisava que Rafael dissesse que ela era boa. Sabia que era. Tinha estudado e trabalhado para aquilo. Tinha passado anos atendendo atletas, estudando lesões, acompanhando recuperação e aprendendo muitas vezes na prática, que tratar um corpo de atleta profissional exigia muito mais do que conhecimento técnico.
Confiança era diferente. Rafael não estava oferecendo apenas um emprego, ele estava dizendo que colocaria o trabalho dela sob o próprio nome!
— Quando eu teria que começar?
— Segunda.
— Você já tinha decidido por mim, não é seu pilantra?
— Eu conheço você.
Marina riu e Rafael também.
— Isso não significa que você pode decidir por mim.
— Mas você vai aceitar.
— Rafa… Preciso pensar. Te ligo na segunda, ok?
— Te encontro às sete e meia na portaria do ginásio do Aurora. Te mandei o endereço no whatsapp já.
Ele desligou sem esperar que Marina ainda o respondesse, e ela, na segunda-feira, apareceu no Aurora às sete e quinze da manhã. Rafael estava esperando na porta.
— Eu sabia.
— Não fala nada, Rafa. Tô apavorada, você sabe! Bom dia.
— Bom dia para você também, lindona! E se você está apavorada, imagine eu!
Ela sorriu.
— Bem-vinda ao time, Nina.
E ela ainda não sabia que aquele apelido ficaria.
Três anos depois, ninguém mais chamava Marina de doutora, senhora, professora ou qualquer outra coisa que pudesse lembrar alguma formalidade. Era Nina.
Nina na fisioterapia, no banco de reservas, no aeroporto às cinco da manhã. Nina no grupo de mensagens do time, o qual ela estava até mesmo no grupo das zoações. Nina que aparecia com uma faixa elástica na mão e fazia metade do elenco desaparecer misteriosamente. Nina que sabia quem estava sentindo dor antes mesmo de o jogador admitir.
O trabalho tinha lhe dado uma espécie de autoridade que não vinha do cargo, vinha do tempo, da experiência e dos resultados. Os jogadores sabiam que, quando Marina dizia que alguém precisava ficar fora de um treino, não era uma opinião, era uma decisão baseada em lógica e competência.
Rafael sabia disso também. Às vezes eles discordavam, às vezes discutiam, mas nunca diante dos atletas. E, quando a porta da sala dele se fechava, a amizade voltava a existir no meio da conversa profissional.
— Você está me dizendo que eu não posso colocar o cara em quadra?
— Estou.
— Mesmo se ele disser que está bem?
— Principalmente se ele disser que está bem.
— Você sabe que eu preciso dele.
— E eu sei que você precisa dele saudável.
Rafael passava a mão pelo rosto.
— Um dia você vai ser minha ruína, Nina.
— Um dia você vai me agradecer. — Ela respondeu com os braços cruzados e sua expressão de quem não perderia a discussão.
— Eu já agradeço… Apesar de me colocar em sinucas táticas.
— Não parece, Rafa. Você sempre reclama com esse seu dramalhão.
— É que você é muito exigente, Marina! Ele poderia aguentar uns dez minutos de quadra, sabe?
— Sou exigente e foi você que me contratou. Ou seja… Colocou seu nome no fogo pelo meu, e tenho certeza que sabia da minha “exigência”. — respondeu fazendo aspas com os dedos na última palavra.
Rafal não tinha resposta para aquilo.
No entanto, fora do ginásio, Marina era bem menos organizada do que os jogadores imaginavam. O apartamento vivia razoavelmente arrumado, mas a cadeira do quarto tinha uma coleção permanente de roupas que ainda não eram sujas o suficiente para lavar e já não estavam limpas o bastante para guardar.
Ela comprava livros como quem comprava comida. Começava séries em horários absurdos. Ligava para a mãe durante o caminho para casa e tinha uma relação complicada com aplicativos de entrega, especialmente depois de semanas de viagens.
Não era uma pessoa que gostasse de falar muito sobre a própria vida, aliás. Preferia ouvir, e com certeza por isso era tão boa no trabalho. Marina prestava atenção. Percebia quando alguém estava diferente, quando um jogador chegava mais quieto ou quando outro estava irritado. Ela sabia ler quando um sorriso vinha acompanhado de alguma coisa que não estava sendo dita.
No Aurora, essa característica fazia dela uma espécie de ponto de equilíbrio. Ela conhecia o corpo dos jogadores e com o tempo, passou a conhecer também os silêncios, os comportamentos. E havia um jogador cujo silêncio ela conhecia particularmente bem: Pedro Dornas.
Pedro tinha aprendido cedo que talento sozinho, não era suficiente. Na infância, bastava ser o garoto que acertava mais arremessos. Na base, já não. Era preciso treinar mais, ser mais disciplinado, focado e o talento era só uma mínima parcela de muito trabalho. Depois vieram os campeonatos, os olheiros, as primeiras entrevistas e a sensação estranha de perceber que outras pessoas começavam a ter expectativas sobre aquilo que ele fazia.
Pedro gostava da expectativa. Gostava de ser cobrado, da sensação de entrar em uma quadra sabendo que havia gente esperando alguma coisa dele. Talvez tivesse gostado até demais…
Quando chegou ao Aurora, ainda era jovem o bastante para ouvir que precisava amadurecer e orgulhoso demais para admitir que fosse verdade. Três temporadas depois, ele já não era uma promessa. Era uma das referências da equipe e isso tinha mudado a maneira como as pessoas olhavam para ele. Pedro Dornas era o jogador que precisava decidir.
O jogador que deveria pontuar, que aparecia nos melhores momentos, o jogador cuja fotografia começava a aparecer nas matérias sobre a temporada. E ele tinha aprendido a conviver com isso, ou pelo menos era o que dizia. Porque, depois dos jogos, ainda assistia aos próprios vídeos e ficava irritado quando perdia um arremesso fácil. Ainda lembrava durante dias de uma assistência que poderia ter feito melhor e ainda odiava a pergunta:
— Pedro, você está satisfeito com sua atuação?
Quase nunca estava. Não porque jogasse mal, mas porque, na cabeça dele, sempre poderia existir uma versão melhor daquela partida… Uma cesta a mais, um erro a menos, uma decisão diferente.
Pedro morava sozinho em um apartamento que parecia grande demais para uma pessoa que passava metade do mês viajando. E ele gostava de cozinhar quando tinha tempo. Ligava para os pais aos domingos, tinha amigos que conhecia desde antes de o basquete virar profissão e fazia questão de encontrá-los sempre que conseguia.
A fama ainda não tinha transformado completamente sua vida. Ele conseguia andar na rua, ia ao mercado, saía para jantar… Mas já começava a perceber que algumas pessoas não olhavam para ele como antes. Reconheciam seu rosto, pediam fotografias e comentavam sobre os jogos. Perguntavam sobre a seleção, sobre propostas e o futuro. Pedro respondia, sorria, e até fazia piada porque sempre foi alto-astral.
Depois ia para casa e pensava em tudo o que tinha dito.
A carreira estava crescendo. E, com ela, crescia também uma inquietação que ele não sabia nomear: Pedro queria ganhar, chegar mais longe. Queria provar que merecia cada oportunidade! Só não sabia ainda, quanto aquela vontade custaria.
Naquela temporada, o Aurora estava vivendo um bom momento, o elenco se conhecia muito bem, sendo o mesmo há quase três anos. Sem grandes alterações de jogadores entrando ou saindo. E Rafael tinha conseguido montar uma equipe competitiva. A comissão técnica funcionava muito bem também, e a torcida comparecia. Aliás… A torcida crescia! E Pedro estava jogando o melhor basquete de sua carreira.
Marina via isso de perto, não porque estivesse prestando atenção nele mais do que nos outros. Pelo menos era isso que dizia a si mesma.
Pedro também não prestava atenção especial nela, pelo menos era isso que ele também dizia a si mesmo.
Para os dois, naquele momento, aquilo ainda era simples: ela era Nina e ele era Pedro. Ou melhor, era o “Dornas”. E havia entre os dois uma amizade construída ao longo de três temporadas, feita de café roubado, discussões sobre treino, viagens, piadas ruins e uma familiaridade que nenhum dos dois tinha parado para examinar.
Naquele ponto da história, Marina não fazia ideia de que Pedro Dornas se tornaria uma das pessoas mais importantes da sua vida. Pedro também não sabia que o fato seria recíproco.
Capítulo 2
Dentre todos os seus talentos, Pedro Dornas tinha um que não aparecia nas estatísticas: ele conseguia chegar atrasado sem parecer atrasado. Era quase uma habilidade profissional.
Naquela manhã, entrou no ginásio faltando seis minutos para o início do treino, mochila pendurada em um ombro, cabelo ainda úmido e uma expressão tranquila demais para alguém que deveria estar se desculpando.
Rafael olhou para o relógio, depois para Pedro.
— Bom dia, Dornas!
— Bom dia, professor.
— Dormiu bem?
— Muito.
— Que bom.
Pedro continuou andando.
— Porque eu não dormi.
Ele parou e notou o tom que o treinador carregava.
— Por quê?
— Estava esperando você chegar. — Rafael falou sarcástico e bufou em seguida dizendo: — As conversas e orientações pré-treino, já fazem parte do treino, Dornas. Quando vai aprender?
Alguns jogadores riram do outro lado da quadra, haviam acabado de sair do círculo inicial de diálogo com o treinador.
Rafael não era muito mais velho do que os jogadores, na realidade, estavam quase na mesma idade, e era isso que o fazia pensar que, possivelmente, Pedro não enxergava a hierarquia necessária em alguns momentos.
Pedro apontou para o técnico.
— Isso aí é perseguição, Rafa!
— Vai trocar de roupa. É treinador, quando estamos aqui. Sabe disso.
— Já estou indo. — Pedro suspirou dando um joinha com a mão e saindo de cabeça baixa sem esperar outras represálias.
— Pedro…
— Estou indo.
— Dornas!
— Meu Deus, eu estou indo!
Marina assistia à cena e deu um sorrisinho, sem tirar os olhos das atitudes de Pedro enquanto organizava alguns materiais na sala de fisioterapia. Embora, ainda que não estivesse olhando, ela saberia que ele estava fazendo graça. Conhecia aquela voz e aquele jeito de responder. Conhecia, principalmente, a capacidade que Pedro tinha de transformar uma bronca em conversa.
— Você está incentivando esse comportamento dele ao ficar assistindo — Rafael disse para ela, ao aparecer na porta.
— Eu? — Marina arregalou os olhos para o amigo.
— Ele só faz isso porque você ri.
— Eu não ri.
— Acabou de sorrir.
— Problema seu se você está reparando na minha boca às sete da manhã.
Rafael fez uma careta.
— Credo… Não fala desse jeito. Se alguém ouvir vai até pensar que eu te acho bonita.
Marina riu.
— Vai trabalhar, Rafa! Para de me encher o saco!
— Você também.
— Eu já estou trabalhando.
— Sei… Assistindo a rebeldia do nosso estrelinha.
Ele saiu e Marina voltou para a mesa. Poucos segundos depois, ouviu passos no corredor e seu nome sendo gritado antes mesmo de alguém surgir na porta.
— Nina!
Ela não levantou os olhos.
— Não. — falou de volta, mais alto.
— Eu nem pedi nada. — Pedro apareceu na porta e já estava com o uniforme de treino.
— Você ia pedir.
— Como você sabe?
— Te conheço há três anos.
— Justo.
Ele entrou na sala sorrindo cafajeste e começou a olhar sem tocar, nas coisas dela.
— Você tem fita? De quinesis.
— Tenho, para quê? — olhou para ele de cima abaixo como se com um olhar fosse achar o ponto de dor.
— Preciso para meu pulso.
Marina finalmente voltou-se para o jogador e pegou em seu punho.
— É punho, não pulso. Já ensinei. Mas, o que aconteceu?
— Nada não, relaxa…
— Dornas!
— Tá, tá… Estou sentindo um negócio… — suspirou abrindo um pouco a mão e mostrando a palma para ela.
— Onde?
Ele apontou para a base do polegar. Ela fez um gesto para que ele se sentasse.
— Desde quando?
— Ontem.
— Por que não falou ontem?
— Porque não estava doendo, oras.
— E agora está doendo em uma escala de quanto? — Marina perguntava tudo enquanto o examinava.
Pedro pensou.
— Quatro.
— De zero a dez?
— Sim.
Marina puxou o polegar de Pedro para trás e então ele gritou de dor.
— Me parece uma tendinite. E você estava planejando treinar assim?
— Estava.
Marina respirou fundo.
— Você tem algum compromisso com a própria integridade física que eu desconheça?
— Tenho. Estou comprometido com ela, por isso vim aqui assim que cheguei… Ué, eu não sentia nada ontem, e preciso treinar então… Você queria que eu faltasse ao treino? O seu amiguinho iria comer meu fígado cru!
— Não vou contestar isso. Vou te receitar antinflamatório e a vamos colocar a tala.
Ela segurou o braço dele e começou a examinar o punho com mais cuidado. Pedro ficou quieto. Era uma das poucas situações em que conseguia ficar quieto perto dela.
Marina fazia perguntas enquanto avaliava o movimento, pressionava alguns pontos, pedia que ele girasse o punho.
— Também dói aqui?
— Não.
— Aqui?
— Um pouco.
— E aqui?
— Aí.
Ela soltou a mão dele.
— Não é grave. É mesmo uma LER.
Pedro abriu um sorriso.
— Então posso treinar!
— Eu não disse isso!
O sorriso diminuiu.
— Mas você acabou de falar que não parece grave.
— Não é grave, mas uma lesão por esforço repetitivo exige repouso! Esse polegar tem que ficar imóvel por um tempo. Não vai poder manejar a bola com essa mão.
— Tá, eu posso treinar com a outra. Sou bom usando as duas mãos, mas também sei me sair bem com uma, Nina. — Ele respondeu em um tom ambíguo, sorrindo e piscando.
— Pedro… Na boa… — Nina suspirou — Tá.
Ela pegou uma faixa.
— Vou colocar uma contenção leve. Hoje você vai evitar exercícios que sobrecarreguem o punho. Se piorar, me avisa.
— Sim, senhora.
— E não esconda outra dor de mim.
— Eu nunca escondo dor de você.
Marina levantou uma sobrancelha. Pedro sustentou o olhar por dois segundos.
— Quase nunca.
— Melhorou.
Ele sorriu.
— Você vai estar na quadra?
— Vou.
— Então eu te vejo lá.
— Infelizmente, não é Dornas?
— Você gosta de mim que eu sei! — Ele brincou.
— Não espalha.
Pedro saiu rindo e Marina terminou de guardar as coisas e só então percebeu que também estava sorrindo.
A relação entre os dois tinha se construído assim, sem grandes acontecimentos. Uma conversa aqui, uma carona ali, um café tomado no meio de um treino, uma viagem em que os dois estavam lado a lado no ônibus da equipe e até, durante uma discussão por motivos bobos ou sérios.
Quando perceberam, já havia uma familiaridade que não precisava ser explicada. Pedro conhecia o humor de Marina, sabia quando ela estava realmente irritada e quando estava apenas fingindo. Sabia que, se ela colocasse o cabelo preso daquele jeito específico, provavelmente teria passado a manhã inteira resolvendo problemas. Sabia que ela não gostava de café forte e que reclamava de café de hotel, embora sempre tomasse. Marina, por sua vez, sabia que Pedro ficava mais quieto antes de jogos importantes. Sabia que ele não gostava de entrevistas depois de derrotas e que, quando estava muito animado, falava rápido demais. E sabia que ele tinha o hábito irritante de dizer que estava bem antes mesmo de alguém perguntar.
Era uma amizade confortável. Daquelas que se encaixam na vida sem pedir espaço.
No treino daquela manhã, Pedro estava particularmente inspirado! Acertou três arremessos seguidos e Rafael mandou marcar mais forte, então Pedro acertou outro.
— Está se achando, Pedrinho! — Um dos companheiros comentou.
— Sempre.
— Humildade passou longe… — Outro amigo riu caminhando pela quadra.
— Eu tenho outras qualidades para compensar!
Marina, sentada no banco ao lado da quadra, ouviu.
— Podemos saber quais? — O tom de ironia na voz dela era jocoso.
Pedro virou para ela, um pouco desafiador.
— Você está do lado deles agora? Qual é, Nina!?
— Só estou fazendo uma pesquisa.
— Sobre?
— Quantas qualidades você consegue inventar antes de acabar o treino.
Alguns jogadores riram, e Pedro levou a mão ao peito.
— Cruel.
— Qualidade minha, ok.
Ele apontou para si mesmo, começando a elencar para ela:
— Sou bonito.
— Isso é opinião.
— Sou engraçado.
— Às vezes.
— Sou inteligente.
— Questionável.
— Sou um ótimo jogador.
Marina deu de ombros.
— Essa eu concedo.
Ele abriu um sorriso satisfeito.
— Sabia.
— Mas não se acostuma.
— Tarde demais.
Rafael apitou, gritando na direção dele:
— Chega de conversa, Dornas!
Pedro voltou para o exercício e Marina abaixou os olhos para a prancheta, tentando não rir.
Depois do treino, o ginásio começou a esvaziar. Alguns jogadores foram direto para o vestiário. Outros ficaram conversando. A comissão técnica se reuniu para discutir o próximo jogo.
Marina terminou os atendimentos e estava guardando uma caixa de materiais quando Pedro apareceu novamente.
— Você vai almoçar, Nina?
Ela olhou para o relógio.
— Vou sim.
— Onde?
— Ainda não sei.
— Vamos naquele restaurante perto daqui.
— Você não enjoa? — Ela perguntou rindo de lado, terminando de pegar suas coisas.
— Não. A comida de lá é incrível!
— Você foi três vezes essa semana.
— E?
— Pelo visto, vai fechar a semana tendo me arrastado para lá em duas de quatro idas!
Ele pegou a mochila dela, sorrindo e batendo as palmas esfregando uma na outra:
— Yess! Então vamos! Hoje é dia de lasanha de espinafre com queijo!
Marina o encarou.
— Minha nossa… Você tem um gosto…
— Para que quando você comer Nina, vai ver que é uma delícia.
— Dornas… — Marina riu olhando descrente enquanto caminhavam lado a lado — Aquela lasanha é verde e… Queijuda!
— Parece comida de filme de terror, mas te garanto que é ó… — Ele fez um sinal segurando o lóbulo da orelha — Uma delícia!
Ela suspirou.
— Ok, hoje eu vou sucumbir a experimentar essa lasanha exótica!
Pedro sorriu. Era comum que os dois almoçassem juntos. Às vezes com outros jogadores, mas às vezes apenas eles e não havia nada de estranho nisso. Pelo menos para eles.
O restaurante já conhecia os dois, e o garçom sabia o pedido de Pedro. Marina dizia que aquilo era falta de variedade, Pedro dizia que era eficiência. Naquela tarde, falaram sobre coisas que não tinham nenhuma relação com basquete. Marina contou uma história sobre a mãe, Pedro falou sobre o irmão mais novo. Depois eles discutiram sobre uma série que os dois acompanhavam. E inevitavelmente, acabaram falando do próximo jogo.
— Você está nervoso? — Marina perguntou.
— Não.
Ela continuou olhando para ele.
— Tem certeza?
— Por quê? Parece que estou mentindo? — Ele perguntou cruzando os braços e apoiando-os na mesa olhando diretamente nos olhos de Nina.
— Você está fazendo aquela cara, Dornas…
— Que cara?
— A cara de quem está nervoso e não quer admitir.
Pedro tomou um gole de água.
— Eu não estou nervoso. Só…
— Está pensando demais, não é?
— Isso é diferente.
— Não para você! Jogos como esse você tira de letra.
Ele riu.
— Você me conhece demais.
Marina não respondeu imediatamente. A frase pareceu estranhamente íntima quando ele disse, não pelo que significava, mas pelo jeito como soou.
Ela pegou o copo.
— Três anos convivendo com vocês. Alguma coisa tinha que ficar.
Pedro sorriu.
— Ainda bem.
Ela levantou os olhos e ele já estava olhando para ela. Foi só um segundo, talvez menos. Marina desviou primeiro.
— Por quê é diferente?
— Nina… Sei lá… Eu acho que é um pressentimento.
— Tira isso da sua cabeça, Dornas. — Ela falou visivelmente preocupada e olhando pra ele com o cenho franzido, fazia muito pouco aquilo — Quer saber? Come sua lasanha. Vai esfriar.
Pedro obedeceu.
E nenhum dos dois comentou o pequeno silêncio que veio depois.
Ainda na noite daquele dia, após um longo expediente e sem tirar aquela fala de Pedro de sua cabeça durante toda a tarde, Marina chegou em casa cansada. Tomou banho e colocou uma roupa confortável. Então preparou alguma coisa para comer, depois se jogou no sofá.
O celular vibrou.
Pedro: Chegou bem?
Ela respondeu:
Nina: Cheguei. E você?
A resposta veio quase imediatamente.
Pedro: Ótimo. Tô de boa. Cansado só. Ah! A contenção ajudou, valeu.
Nina:Não é pra relaxar, mantenha ela amanhã e continua passando a pomada massageadora.
Ela digitou e apagou uma outra frase. Até Pedro responder primeiro:
Pedro: Deixa comigo, Nina. Não vou desobedecer a minha fisio, ainda mais perto do jogo.
Marina deixou o celular sobre a mesa, pouco depois, vibrou novamente.
Pedro: Você vai assistir ao jogo antigo comigo amanhã?
Ela riu.
Nina: Você sabe que eu tenho trabalho.
Pedro: Depois do trabalho.
Nina: Por quê?
Demorou alguns segundos.
Pedro: Porque eu quero saber onde errei.
Marina ficou olhando para a mensagem. Era muito “Pedro”. Até quando não precisava, ele procurava o próprio erro.
Ela digitou:
Nina: Você não errou tanto assim.
A resposta demorou mais.
Pedro: Você acha?
Ela sequer pensou antes de responder.
Nina: Acho. Na verdade, eu vi o jogo ao vivo. Então eu sei.
Dessa vez, nenhuma resposta veio. Marina colocou o celular virado para baixo. Não pensou mais naquilo, ou tentou não pensar.
Nos dias seguintes, tudo voltaria ao normal: treino, fisioterapia, reunião, almoço, viagem, jogo. A temporada seguiria seu curso. Pedro continuaria entrando em quadra com a mesma confiança e Marina continuaria observando da lateral. Rafael continuaria gritando com os jogadores. E o Aurora continuaria tentando vencer.
Era uma rotina. Justamente por isso era tão fácil de ignorar quando a atmosfera parecia querer mudar. E algumas mudanças não chegam fazendo barulho, elas aparecem devagar, escondidas dentro de coisas que sempre estiveram ali. Chegam em uma conversa que dura alguns minutos a mais, um olhar que permanece um segundo além do necessário ou uma mensagem que poderia não ter sido enviada. Um cuidado que começa a parecer diferente… Nenhum dos dois tinha chegado a esse ponto.
Ainda.
Por enquanto, Pedro era apenas Pedro. Marina era apenas Nina.
E a temporada estava só começando.
Capítulo 3
O ginásio estava cheio muito antes de a bola subir. Marina percebeu isso assim que entrou no corredor que levava aos vestiários. O som da torcida atravessava as paredes, misturado à música que tocava nas caixas de som e às vozes dos funcionários correndo de um lado para o outro. Dia de jogo tinha uma energia própria. Não era necessariamente mais barulhento, era diferente. Até os jogadores pareciam ocupar mais espaço.
— Nina!
Ela se virou. Um dos preparadores físicos vinha na direção dela com uma prancheta na mão.
— O que foi?
— O Dornas está perguntando por você.
Marina franziu a testa.
— Por quê?
— Não faço ideia.
— Ele está machucado?
— Não.
— Então ele está inventando alguma coisa.
O preparador riu.
— Provavelmente.
Marina continuou andando, e encontrou Pedro sentado no banco do vestiário, já uniformizado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e os olhos fixos no próprio tênis.
— Dornas… Você me chamou?
Ele levantou o rosto.
— Chamei, Nina.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Então por que me chamou?
Pedro apontou para o próprio joelho.
— Você acha que essa bermuda está estranha?
Marina ficou olhando para ele.
— Você me fez atravessar o vestiário para perguntar isso?
— Estou nervoso.
Ela sorriu.
— Eu sei.
Pedro passou a mão pelo cabelo, e deu um sorrisinho de lado.
— Dá para perceber?
— Para mim, sempre.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Nina… — interrompeu o breve silêncio abandonando o tom risonho e dando espaço para uma voz carregada de preocupação: — Você acha que eu vou jogar bem hoje?
Marina encostou no armário à frente dele.
— Você quer a resposta profissional ou a resposta de amiga?
— As duas.
— Profissionalmente, você treinou bem durante a semana.
— E como amiga?
— Você vai fazer merda em algum momento.
Pedro riu.
— Obrigado… Grande jeito de me acalmar. — A ironia era um traço coerente entre aqueles dois.
— Todo mundo faz merda em algum momento importante da carreira Pedro.
— Você podia ter dito que eu vou jogar muito.
— Você já sabe que eu acho que você joga muito. Você é o melhor do time, e sabe disso.
Ele levantou, suspirando e travestindo-se de um pouco mais de coragem.
— Então está bom!
— Era só isso?
— Era.
Pedro passou por ela, e Marina segurou o braço dele.
— Ei. Tem certeza que é só nervosismo? Você não está sentindo nada? Como está o punho?
— Relaxa, Nina. Eu só estou com aquele… Pressentimento. — Pedro falou segurando na mão dela, como um apoio mútuo de atleta x fisioterapeuta.
Ele se virou para sair.
— Respira, Dornas. Você é bom no que faz!
Pedro assentiu.
— Eu sei.
— Sei que sabe! Vai arrasar! — Ela soltou o braço dele — Vai lá.
— Depois você me conta se eu fui bem.
— Não vai ser preciso. Os gritos de felicidade dos torcedores irão dizer.
Ele saiu sorrindo e Marina balançou a cabeça, um pouco preocupada. Tinha alguma coisa diferente naquela atmosfera.
O jogo começou às vinte horas.
Pedro acertou a primeira cesta, depois a segunda. Na terceira, sofreu uma falta. Na arquibancada, alguém gritou o nome dele e ele sorriu.
Era exatamente o tipo de noite que Pedro Dornas gostava. A partida era equilibrada, mas o Aurora começou a abrir vantagem ainda no primeiro quarto. Pedro estava rápido. Muito rápido. Encontrava espaços, criava jogadas. Chamava a responsabilidade quando precisava. No banco, Marina acompanhava tudo com atenção profissional.
O primeiro quarto terminou com o Aurora na frente. No segundo, o adversário reagiu. No terceiro, Pedro voltou a colocar o time no jogo. Quando o cronômetro marcava pouco mais de três minutos para o fim da partida, o placar estava empatado.
Rafael pediu tempo e os jogadores se reuniram.
— Últimos minutos! — Valença, o treinador, disse. — Cabeça no lugar, pessoal!
Pedro respirou fundo e Marina observava do outro lado, da área da equipe técnica. Ele encontrou o olhar dela e ela fez um gesto pequeno com a cabeça: “Vai, arrasa”. Era o que aquele gesto significava, e bastava aquilo para Pedro sorrir mais confiante.
Voltando para a quadra, a fatídica jogada aconteceu rápido. Tão rápido que, depois, Pedro não conseguiria explicar direito.
Ele recebeu a bola na lateral, um marcador veio para cima. Pedro acelerou e mudou de direção, entrou no garrafão e saltou. O defensor também, a bola saiu da mão de Pedro e então… Cesta! A torcida explodiu.
E então ele caiu.
O pé direito aterrissou sobre o pé do adversário, o tornozelo virou para fora, Pedro sentiu a dor antes mesmo de tocar o chão. Foi uma fisgada aguda, imediata. Ele caiu de lado e por alguns segundos, ficou parado.
A bola continuou rolando pela quadra até que o árbitro apitou. A torcida silenciou de maneira quase instantânea, e Marina já estava de pé.
— Nina! — alguém chamou.
Ela não respondeu, já estava entrando em quadra. Pedro tentou se levantar.
— Não! Não levanta! — A voz dela saiu firme.
Ele olhou para ela, teimoso, mas sem conseguir esconder a expressão de dor:
— Eu consigo, Nina.
— Dornas! Fica parado.
— Nina...
— Pedro, fica parado, é uma ordem!
Ele obedeceu. Marina se ajoelhou ao lado dele.
— Foi o tornozelo, não é?
— Sim. — Ele apontou o local exato do maléolo — Aqui.
Ela examinou rapidamente, o rosto dele estava tenso.
— Consegue mexer os dedos?
— Sim. — Pedro mexeu.
— Sentiu alguma coisa aqui?
Ela tocou alguns pontos.
— Não.
— Aqui?
— Aí. Ai, ai, Nina!
Marina olhou para o tornozelo, o inchaço começava a aparecer e não era bonito. Mas também não parecia, naquele primeiro momento, uma lesão catastrófica.
— Vamos tirar você daqui.
Pedro olhou para o placar.
— Quanto falta?
Marina encarou-o.
— Você está falando sério?
— Quanto?
— Dois minutos e quarenta e sete segundos.
Ele tentou se apoiar.
— Dá para voltar.
— Não, Pedro. Não vou arriscar uma lesão pior!
— Nina.
— Não!
— Mas eu consigo!
— Você acabou de ter uma entorse de tornozelo e está tentando ficar de pé porque faltam dois minutos e quarenta e sete segundos? Não me faça me estressar com você!
Pedro respirou fundo.
— O jogo está apertado, Nina!
— E vai continuar apertado sem você.
— Você não pode saber!
— Posso saber que você não vai voltar agora. E ponto.
Ele fechou os olhos por um instante. Marina viu a frustração chegar antes mesmo de ele dizer qualquer coisa, era sempre assim. Pedro podia sentir dor, podia aceitar tratamento e fazer fisioterapia, mas ficar fora de um jogo era outra coisa.
— Vamos — ela disse.
Dessa vez, ele não discutiu. E naquele jogo, o Aurora venceu por três pontos. Pedro assistiu aos minutos finais sentado no banco, com o tornozelo já imobilizado provisoriamente e uma bolsa de gelo apoiada sobre a região.
Quando a buzina final tocou, os jogadores correram para a quadra, mas Pedro ficou. Marina estava ao lado dele observando-o e tentando mantê-lo calmo.
— Parabéns pelo jogo que você fez e pela vitória do time, Dornas. — ela disse.
Ele continuou olhando para a quadra.
— Eu devia estar lá, Nina.
Ela não respondeu imediatamente.
— Você vai estar de novo.
Pedro olhou para ela.
— Tem certeza? Essa lesão não te preocuparia se tivesse me deixado voltar.
— Isso é precaução, Pedro. Se você quer jogar outros jogos, então vai se recuperar dessa entorse primeiro. Assim que o jogo acabar, a gente vai fazer a ressonância e iniciar a recuperação.
— Mesmo?
— Mesmo.
Ele respirou fundo.
— Então está bom. Confio em você.
No vestiário, a vitória não tinha o mesmo gosto para Pedro. Os companheiros comemoravam, havia música, gritos e toalhas jogadas para o alto. Rafael entrou, recebeu abraços e tentou manter a comemoração sob controle.
Pedro estava sentado em um canto, e Marina apareceu na porta depois de Valença afirmar que ela poderia entrar.
— Vamos, Pedro. — Marina chamou-o e ele levantou os olhos para o treinador.
— Agora, Nina?
— Agora.
— Só para eu saber o quanto você está preocupada, para onde exatamente vamos?
— Fazer uma avaliação melhor, na ala médica do clube mesmo. Não pira. — Marina comentou sorrindo e Rafael apertou o ombro dela como se estivesse entendendo o quanto ela teria que lidar com a ansiedade de Pedro Dornas.
Pedro olhou para os companheiros, todos o incentivando a ficar menos carrancudo, que um entorse era algo comum e simples para as mãos experientes de Nina. Depois ele olhou para ela.
— Eu não posso ir junto com o time?
— Pode. Mas, eu não quero. Quero dar uma avaliada nisso logo!
Ele continuou sentado e Marina sorriu de leve.
— Vamos, Dornas. Tá com medo de mim?
Ele pegou a mochila enquanto os outros colegas gargalhavam da piada da fisioterapeuta.
— Pra quem conhece o peso dessas suas mãozinhas, Nina, a gente entende o Pedro estar de corpo mole. — Gabriel, um dos alas, brincou.
Horas depois, no consultório do ginásio, o barulho da comemoração que os rapazes faziam na área de lazer parecia distante. Marina refez a avaliação com mais calma: movimento, palpação, estabilidade, dor, inchaço… Enquanto esperava o resultado da ressonância magnética ser mandado para ela, ela fazia perguntas, anotava respostas e comparava os dois lados.
Pedro observava o teto.
— Você acha que é grave?
— Não parece.
— “Não parece” não é muito tranquilizador.
— É o que eu posso dizer agora, Pedro. Não devia estar tão assustado… Não é a primeira vez que você vê isso acontecendo.
— Quanto tempo?
— Pedro…
— Quanto tempo fora, Nina?
Marina parou de escrever e bufou.
— Ainda não sei. Mas você não deveria estar reagindo desse jeito, está parecendo um moleque da base.
— Alguns dias?
— Provavelmente.
— Semanas?
— Talvez. Não posso declarar sem ver a ressonância antes.
Ele virou o rosto.
— Eu odeio essa palavra.
— Qual?
— Talvez.
Ela sorriu e largou tudo se aproximando dele:
— Eu sei que odeia, mas sinceramente, Dornas… O que tá se passando na sua cabeça? Por que essa aflição em ficar alguns dias de repouso? Já sofreu lesões antes, sabe como é que funciona!
— Exatamente por saber que eu não queria nada disso agora, Marina. — Pedro falou sério — Estou no meu melhor momento. Isso nunca me afetou antes, porque eu não era o atleta profissional que eu sou hoje.
Pedro ficou em silêncio. Depois perguntou:
— Você vai estar amanhã, na fisioterapia? Ou… Vai ser o Marcelo?
— Vou estar. Rafael me pediu que ficasse com vocês por toda a temporada, já que o Marcelo está voltando da licença paternidade.
— Mesmo sendo domingo? Tem certeza que não vai folgar?
— O time tem treino, e como eu falei… — Ela suspirou — Meus horários acompanham o de vocês.
— Você não precisa vir! Como é isso, de ficar sem a sua folga? — Pedro comentou de um jeito um pouco preocupado e revoltado.
— Eu estou recebendo a mais por isso, e folgo junto com o restante da equipe. Não se preocupe.
Ele olhou para ela.
— Então vou estar nas suas mãos amanhã?
Marina guardou a caneta.
— Pode ficar tranquilo que sim. — Nina falou e sorriu: — Ou não.
Pedro assentiu. Não disse mais nada.
Mais tarde, quando o ginásio já estava quase vazio, Marina saiu pela porta lateral de seu consultório com o resultado do exame de imagem em suas mãos, foi em direção à sala de Valença. Rafael estava esperando.
— E então? O que houve com o Pedro?
— Entorse. Preciso avaliar melhor amanhã durante os exercícios, não parece grave, mas…
Rafael Valença soltou um suspiro e perguntou com medo:
— Mas?
— Identifiquei uma microruptura de tecido muscular. Ou seja… Muita cautela, repouso e cuidado nos exercícios. Vou precisar deixar o Pedro de molho por mais tempo do que eu pretendia, confesso.
Ele soltou o ar.
— Ok, não é tão ruim assim.
Marina cruzou os braços.
— Não tão rápido, Rafa.
— O quê?
— Você conhece o Pedro. O problema é lidar com ele. Está com fome de cestas! Vou precisar da sua ajuda para manter ele… Repousando.
Rafael deu uma risada curta.
— Infelizmente.
— Ele vai querer voltar antes da hora.
— Eu sei.
— Então você vai precisar segurá-lo.
Rafael olhou para o corredor por onde Pedro tinha saído.
— Você também vai precisar ser dura com ele.
— Eu vou! Quando é que eu dei mole para esses garotos?
— Eu sei. — Rafael deu um sorrisinho ladino e comentou: — Só que eu também sei que o Pedro, faz um certo charme pra você.
— Isso é coisa da sua cabeça! Sou profissional com todos eles.
— Eu não disse que não era. — Valença sorriu um pouco mais, observando a amiga e eles ficaram em silêncio por alguns segundos.
Rafael colocou as mãos nos bolsos, notando a expressão de Nina que olhava para o exame de imagem sobre a mesa dele.
— Você ficou preocupada.
Marina o encarou.
— Sou fisioterapeuta do time. Sei exatamente o que eles sentem quando preciso colocá-los de molho, e o Dornas está no auge da temporada, da carreira… Me preocupa a saúde mental dele e como isso pode resvalar na equipe.
— É… Compreendo sua preocupação. Ele parece mais disposto a se abrir com você, do que com o Suárez.
— Já te falei o que penso do Suárez! Como psicológo esportivo ele é bastante retrógrado. Você deveria parar de ter medo e levar isso pra direção.
Rafael sorriu.
— Boa noite, Nina. Não vamos procurar uma briga com os chefões agora, não é?
— Uma hora, a briga tem que partir do técnico se quiser o título. Mas, não vamos discutir. Boa noite, Rafa.
Ela saiu da sala do amigo, pegou suas coisas em seu consultório depois de guardar o exame de Dornas na pasta médica dele, e quando chegou ao estacionamento, Pedro estava esperando do lado de fora. Sentado no banco próximo à entrada, a mochila aos pés.
— Você ainda está aqui?
— Estou esperando você.
Marina parou.
— Por quê?
— Meu carro está no estacionamento.
— E?
— Não posso ir sozinho, não é óbvio?
Ela olhou para ele.
— E ninguém do time podia te dar uma carona? Ou você não poderia pedir um uber?
Pedro deu de ombros:
— Poderia, mas recusei voltar com o Cauê, e pensei que você podia me levar hoje.
Marina respirou fundo.
— Você é muito folgado, Pedro!
— Você pode dizer não. — Ele riu para a amiga.
Ela olhou para o tornozelo dele, depois para o rosto.
— Vamos, estrelinha…
Pedro sorriu.
— Sabia que você não me deixaria pegar um carro desconhecido!
— Não fala nada.
— Ah qual é, Nina! Você sabe que eu te adoro.
Eles começaram a caminhar devagar pelo estacionamento até o carro dela. Pedro apoiava o peso com cuidado na muleta que havia sido dada a ele e Marina acompanhava o passo dele. Por alguns metros, não conversaram, até que ele a chamou:
— Nina?
— Hum?
— Obrigado.
Ela olhou para ele.
— Pelo quê?
— Por não deixar eu voltar pro jogo.
Marina sorriu.
— Você teria voltado em outra circunstância?
— Teria. Se fosse o Marcelo, eu iria teimar e ele ia perguntar se eu aguentava, e me deixaria voltar.
— Eu sei, Pedro. Você é um atleta que exige muito pulso firme, sabia?
Pedro olhou para a frente, sorrindo ladino.
— Ainda bem que você estava lá. Sou muito melhor quando estou nas suas mãos.
Marina não respondeu, apenas continuou andando ao lado dele.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Pedro não saiu do ginásio como jogador. Saiu como alguém que precisava ser cuidado, e, embora nenhum dos dois soubesse ainda, aquele seria o começo de uma temporada muito diferente da que haviam imaginado.
Capítulo 4
Na manhã seguinte, Pedro chegou ao ginásio de muletas e com uma expressão que deixava claro que preferia estar em qualquer outro lugar. Marina estava na quadra acompanhando o aquecimento dos outros jogadores quando o viu entrando.
— Bom dia, estrelinha.
Pedro parou na frente dela.
— Não começa.
— Eu nem falei nada.
— Falou “estrelinha”.
— E você respondeu. Então está tudo bem.
Ele revirou os olhos.
— Meu tornozelo está doendo. Pra caralho.
— Fez alguma coisa fora do recomendado durante a noite? — Marina olhou para o pé dele e subiu os olhos até ele de um jeito sarcástico.
— Queria ter feito muita coisa, acredite.
— Eu sei. — Ela deu uma risadinha.
— Ele não poderia mesmo, Nina. — Lucas, o jogador que estava recebendo uma massagem eletroestimulante de Nina no ombro e que até então não havia se metido na conversa deles, comentou: — Pedrão foi chutado há duas semanas.
— Cala a boca Lucas. — Dornas suspirou.
— Oh… Eu nem sabia que ele estava namorando! — Marina comentou surpresa.
— Não era namoro. Era só uma garota… Aleatória. Não teve importância.
— É. Ele não conseguiu segurar a mina, sabe? — Lucas comentava com maldade — Diz a Priscila, que tem outra mulher na cabeça do Pedro.
— Hum… — Marina comentou vendo Pedro dar um soco no outro braço de Lucas e mandando ele calar a boca — Então a tal Priscila fez bem. Ninguém merece passar por isso de uma pessoa que já tem outra na cabeça.
— Eu estou com fome, Nina. Deixa o Lucas aí, esse boca de sacola e vamos tomar café comigo?
Marina finalmente olhou para ele.
— Isso não é sintoma da entorse, não tenho que te acompanhar.
— Para mim é.
— Além disso, estou atendendo o Lucas. — Marina respondeu.
Imediatamente Lucas se levantou da cadeira e sorriu para os dois, especialmente para Nina dizendo:
— Acha mesmo que eu gosto de ficar tomando esse choquinho né? E você não tomou café da manhã ainda, então vai lá com o esse chorão.
— Eu não acabei a sessão, querido. Sou eu que decido quando parar.
— Nina, você tá me eletrocutando há sete dias. E eu já estou bem melhor, então, dá um desconto vai! Eu quero entrar no treino!
— Lucas, Nina! — Rafael gritou do meio da quadra para eles — Já está liberado, Nina?
Marina fez sinal de “ok” para Valença e voltando-se ao Lucas ordenou:
— Vai lá, mas aquece antes.
Dornas riu e fez sinal para que ela o acompanhasse, assim que Lucas saiu.
— Parecia até que estava fugindo de tomar café comigo.
— Não é isso, mas precisa saber que eu não estou aqui apenas para te atender, ok?
— Só estava tentando ajudar meu colega, esses seus aparelhinhos de tortura, sabe…
— Falando em tortura, preciso contar para você sobre os resultados de imagem.
Pedro parou de caminhar e encarou ela preocupado, então Marina passou a mão no braço dele o estimulando a continuar caminhando. Claro, no ritmo dele, com a ajuda de muleta.
— O resultado da avaliação confirmou uma entorse lateral de grau moderado, com a pequena lesão muscular que eu havia identificado na noite anterior. Não é nada que coloca a temporada em risco, mas é o suficiente para tirá-lo das quadras por algumas semanas.
E Pedro odiava cada palavra daquela frase.
— Droga. Aquele maldito pressentimento… — Dornas bufou assim que ouviu tudo — Nina, eu sei que vem merda por aí. A mídia vai…
— Para com isso. Deixa de pessimismo. A gente vai tomar café e pensar só na sua recuperação. Ok?
Eles entraram no refeitório e Pedro tentou não se abalar com os fantasmas que surgiam em sua cabeça.
Nas primeiras sessões, ele descobriu que fazer fisioterapia era muito menos interessante quando não podia escolher o exercício, a intensidade ou a hora de terminar.
— Mais dez segundos.
— Você disse isso há dez segundos, Nina!
— Então faltam vinte.
— Nina...
— Pedro!
Ele respirou fundo e continuou o exercício de equilíbrio.
— Isso é humilhante.
— Você só está em cima de uma perna no busu, o que tem de humilhante nisso?
— Exatamente. Tô igual um saci-pererê só que com menos agilidade do que ele!
— Você é jogador profissional de basquete, Dornas.
— Justamente por isso.
Marina segurou o riso.
— Dornas, você não está fazendo fisioterapia para provar que é bom. Está fazendo para voltar a jogar sem transformar uma entorse em um problema maior.
— Eu sei, mas é ridículo.
— Então para de tentar negociar comigo, e concentra. Estabilidade nesse joelho, vamos.
— Você nunca negocia.
— Porque eu tenho razão e sei mais o que estou fazendo do que você.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Isso é irritante.
— E você é muito chorão, mesmo.
A rotina começou a se estabelecer.
Pedro chegava mais cedo, fazia o tratamento, acompanhava parte do treino sentado no banco e depois passava mais algum tempo com Marina. Ela cuidava do tornozelo, acompanhava os exercícios, ajustava a carga e, principalmente, tentava impedir que ele inventasse maneiras de acelerar o processo.
Fora dali, os dois continuavam conversando como sempre. Só que agora Pedro tinha muito mais tempo para conversar com ela. Mandava mensagens reclamando do treino que assistira do banco, perguntava o resultado dos outros jogos da rodada e, algumas vezes, aparecia na sala dela simplesmente porque estava entediado.
— Você não tem o que fazer? — Marina perguntou certa tarde.
— Tenho.
— O quê?
— Te perturbar.
— Ah. Então está ocupado.
Pedro sorriu.
— Bastante.
Naquela semana, o Aurora venceu sem ele. Pedro comemorou com os companheiros, mas a vitória teve um gosto estranho. Assistiu ao jogo inteiro do banco, vibrando a cada cesta e reclamando de cada erro como se estivesse em quadra.
Quando o segundo jogo terminou, ele ficou alguns minutos sozinho no vestiário e Marina apareceu na porta.
— Ei, você está bem?
— Estou… Eu acho.
Ela entrou.
— Essa resposta normalmente significa que você não está.
Pedro soltou uma risada curta.
— Eu só odeio ficar olhando.
— Você acha que todo mundo vai esquecer que você existe porque ficou duas partidas fora?
Ele levantou os olhos.
— Não é isso.
— Então o que é?
Pedro demorou a responder.
— Eu estava jogando bem.
Marina sentou ao lado dele.
— Estava.
— E agora estou aqui… Parado e sem treinar.
— Por enquanto, Pedro.
— Você sempre fala “por enquanto”.
— Porque você ainda não me ensinou a prever o futuro, e mesmo assim, estamos indo muito bem para a projeção que eu fiz do seu tempo de tratamento.
Ele sorriu de leve.
— Chata.
— Teimoso.
— Isso foi uma ofensa, Nina? — Pedro a encarou mais atencioso, observando o rosto dela com cautela. Marina apoiava o peso do corpo nos braços atrás de si, olhando-o com expressão sacana.
— Foi uma constatação.
Pedro balançou a cabeça, mas o sorriso permaneceu. Era inclusive, um sorriso diferente. Ele não se lembrava de observar que Marina tinha algumas sardas no rosto sobre o nariz e bochechas. Aquilo deixava-a mais bonita do que ele já havia notado.
Na segunda-feira seguinte, ele voltou ao ginásio andando sem muletas, uma vitória que Marina observou de longe, e sorrindo convencida quando ele chegou perto dela. Na noite anterior, por mensagem, ele havia dito pra ela que estava melhor. E mesmo ela tendo falado que era para ele sair da muleta aos poucos, há três dias, Pedro, em casa, não usava aquelas “malditas bengalas” — como ele dizia — desde então.
— Melhorou mesmo… — Nina comentou ao vê-lo se aproximar sem o apoio.
— Eu falei pra você!
— Isso não significa que está liberado para jogar, Dornas.
— Eu sei.
— Então por que está com essa cara de quem voltou a ativa?
Pedro apontou para si mesmo.
— Porque eu pareço um ser humano novamente. Sem aquelas bengalas!
— Você sempre pareceu um ser humano. Senta aí, quero ver de perto.
— Discordo. — Ele deu de ombros se sentando na cadeira.
Ela se aproximou e examinou o tornozelo.
— Ainda tem sensibilidade aqui.
— Pouca.
— Pouca ainda é sensibilidade.
— Você não pode simplesmente fingir que não viu?
— Posso. Mas aí eu deixo de ser uma boa fisioterapeuta.
— Chata!
— Você já usou essa, precisa de uma ofensa nova.
— Estou repetindo porque continua funcionando.
Ele riu. Naquele momento, nenhum dos dois percebeu que aquelas conversas tinham começado a ocupar um espaço diferente na rotina. Marina estava acostumada a cuidar dos jogadores e Pedro estava acostumado a ser, especialmente, cuidado por ela. E agora havia também os cafés depois do treino, as mensagens durante o dia, as discussões sobre filmes ruins que os dois assistiam e até as ligações rápidas quando algum deles tinha alguma coisa para contar.
Era fácil, natural como uma amizade que se afunila conforme a convivência e era por isso que ninguém questionava a relação dos dois, nem mesmo eles. Até que a imprensa começou a questionar.
Naquela semana, uma matéria esportiva chamou atenção entre os jogadores do Aurora.
“Pedro Dornas faz falta? Aurora vence, mas ausência reacende discussão sobre desempenho da principal estrela do time.”
Pedro leu no celular ainda no vestiário. Depois abriu outra.
“Lesão de Pedro Dornas expõe dependência do Aurora em seu principal jogador. Apesar dos resultados favoráveis, nota-se que o desfalque do ala central da equipe não foi superado mesmo com as substituições de outros jogadores na posição.”
E uma terceira:
“Quanto tempo o Aurora consegue esperar por Pedro Dornas?”
Ele ficou olhando para a tela por alguns segundos. Rafael entrou no vestiário e percebeu a expressão dele.
— Não lê.
Pedro bloqueou o celular.
— Já li.
— Então para por aí. Essas porcarias não estão afetando o time, pode acreditar.
— Eles estão falando como se eu tivesse escolhido me machucar.
— Jornalista precisa de manchete.
— E eu preciso jogar, Valença. Calar a porra da boca deles! Isso é injusto comigo, com o Gabriel que está jogando pra caralho na posição! Isso é… Sujo!
Rafael ficou em silêncio e Pedro guardou o celular no bolso.
— Quando eu voltar, eles vão esperar que eu resolva tudo.
— Você sabe que não funciona assim, Pedro. E já sabíamos que uma hora eles iriam começar a falar da sua ausência.
— Sei.
— O que importa é que o time não depende de você, quero dizer… A gente está fazendo um ótimo trabalho! Eles só estão focados em te atacar, tem clubes rivais pressionando pra mostrar interesse no seu passe, e… Você tem que manter a sua cabeça aqui. No Aurora! Nos seus colegas de time e no seu retorno.
— Sei, sei. Os caras já conversaram comigo. Ninguém está tão afetado quanto eu.
— Exatamente! Então confia na gente, e confie em você. Sabe que estamos juntos não é?
— Sei.
Mas não parecia saber. Do outro lado do corredor, Marina acabava de sair da sala de fisioterapia quando viu Pedro parado com Rafael. Não perguntou o que tinha acontecido. Ela conhecia aquela expressão. E, pela primeira vez desde a lesão, percebeu que o problema de Pedro talvez não estivesse mais apenas no tornozelo.
Na semana seguinte, Pedro já conseguia caminhar sem mancar. Para qualquer outra pessoa, aquilo seria uma ótima notícia, mas para ele, significava que estava pronto para voltar.
— Não, Pedro. — Marina nem levantou os olhos da ficha.
— Você nem olhou para mim.
— Não preciso, já sei o que você pretende.
— Nina.
— Pedro, não.
Ele cruzou os braços.
— Eu estou andando normalmente!
— Ótimo.
— Sem dor, você sabe!
— Melhor ainda.
— Então posso treinar.
Marina finalmente olhou para ele.
— Parcialmente, já disse. Não começa a querer me pressionar para te liberar ao Fred!
— Quanto é “parcialmente”? O Fred é preparador da equipe há anos e ele disse que por ele, eu posso voltar a treinar como antes!
— Parcialmente é o suficiente para você não entrar em quadra e tentar ganhar um jogo sozinho.
— Eu nunca faço isso.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Além disso, quem sabe quando vocês podem voltar a treinar ou não, sou eu! O Fred é excelente no trabalho dele, quando os atletas estão saudáveis! Lesionados, são o meu departamento.
Pedro pensou por dois segundos.
— Tá. Eu não vou insistir.
— Hoje você vai fazer os exercícios que eu passei, depois vai para a musculação e nada de mudança de direção, salto ou corrida em alta velocidade.
— Isso não é treino, ou seja, você continua fazendo fisioterapia comigo.
— É recuperação e treino sim.
— Parece punição para mim…
— Porque você está com pressa e agindo com imaturidade demais para um jogador profissional, sabia?
Ele pegou a garrafa de água e notou que Marina já havia ficado impaciente. Mas, ela estava correta. Ele também sabia disso.
— Estou com saudade da quadra.
Marina não respondeu. Aquela, pelo menos, ela entendia, embora não iria alimentar as reclamações dele. Pedro não estava apenas entediado. Estava desconfortável com a sensação de estar perdendo espaço enquanto o time seguia sem ele.
O Aurora tinha vencido os três jogos em que ele ficara fora. Isso deveria ser bom, mas para Pedro, havia alguma coisa incômoda naquilo. Ele queria voltar antes que alguém se acostumasse com sua ausência.
E Marina percebeu.
Nos dias seguintes, passou a vigiar um pouco mais de perto. Pedro fazia os exercícios corretamente quando ela estava olhando. Quando ela se afastava, porém, aumentava a carga. Uma tarde, ela voltou à sala e encontrou o jogador fazendo saltos que ainda não estavam liberados.
— Dornas. — Marina chamou-o, séria e com expressão de raiva.
Ele parou.
— Nina, eu posso explicar.
— Comece, então. Por que eu estou a ponto de jogar minha prancheta em você.
— Eu só estava testando meu tornozelo.
Marina colocou as mãos na cintura.
— E ele passou no teste?
— Acho que sim.
— Que bom. Porque você quase reprovou no meu.
— Não aconteceu nada, relaxa, Nina!
— Esse é o problema. Você está esperando alguma coisa acontecer para começar a respeitar a recuperação! Além disso, está sendo completamente desrespeitoso com o meu trabalho!
— Eu estou bem.
— Você ainda não está pronto.
— Mas estou melhor.
— Está! Graças ao meu trabalho! Graças às minhas orientações! Ou acha que eu te mantive esse tempo todo de molho só porque eu queria passar tempo com você? — Ela se aproximou e avaliou o tornozelo. — Me deixa ver.
Pedro sorriu.
— Queria passar tempo comigo?
— Cala a boca Dornas, não foi o que eu disse! Estou irritada de verdade com você! — Marina ralhou olhando-o cortante.
— Nina, eu te respeito e não quis te ofender, mas eu realmente estou muito melhor! Viu?
— Não se empolga. A ressonância de ontem apontou uma recuperação na ruptura tendínea do tornozelo, mas a precaução e o retorno gradual não tem a ver só com a lesão, Pedro! É preciso pensar nas outras estruturas musculares!
— Você acabou de falar que estou melhor, porque eu não posso simplesmente retornar como antes?
— Também falei que o retorno deve ser gradual! Você está pensando em treinar como o Dornas que treinava antes da lesão! Três semanas pode parecer um tempo longo para você, mas não é, Pedro! Não estou te impedindo de treinar, só que não é do seu jeito!
Ele suspirou.
— Você é impossível.
— E você continua capaz de voltar a jogar graças a isso! — Marina bufou e contou: — Eu acabei de entregar para o Fred o seu plano de tratamento, montamos juntos o seu treino de retorno e quando eu volto você está saltando como um inconsequente!
Ele sorriu de novo.
— Ainda bem que eu sou muito foda no meu trabalho, não é Dornas? Se depender de você, não chegaria no final da temporada.
— Convencida.
— Realista.
Marina deu as costas para ele, e Pedro se aproximou tocando o ombro dela e a puxando para um abraço amigável, porém, um pouco mais apertado do que geralmetne era.
— Obrigado. Você é especial demais para mim e seu trabalho é incrível. Mas confia em mim, Nina. Eu também conheço o meu corpo.
— Lavei minhas mãos. Você é um problema do Fred por enquanto.
E assim, a recuperação avançava. Primeiro vieram os exercícios de força. Depois, equilíbrio, propriocepção, corrida leve, tudo com o acompanhamento do preparador técnico, e supervisão médica da Marina. Quando ela finalmente permitiu ao Fred, que ele executasse alguns movimentos específicos da modalidade, Pedro saiu da sala com uma expressão que ela não via havia semanas.
Ele estava feliz.
Naquele dia, depois do treino, os dois ficaram sentados na arquibancada vazia.
— Faz quanto tempo que você trabalha aqui mesmo? — Pedro perguntou.
— Três anos.
— Parece mais.
— Isso é bom ou ruim?
— Bom.
Marina olhou para ele.
— Por quê?
Pedro deu de ombros.
— Não sei. Parece que você sempre esteve aqui.
Ela sorriu.
— E você sempre foi folgado assim!
— Desde o primeiro dia.
— Eu lembro bem… — Marina comentou revirando os olhos e virando seu copo de chá gelado.
— Qual é… Você gostou de mim!
— Eu te tolerava, Dornas… Aprendi a te suportar.
— Mentira. — Ele reclamou e os dois gargalharam.
— Um pouco… — Marina olhou para ele com mais sentimento de carinho do que já havia feito: — Ok, preciso confessar que você… É bem divertido.
Pedro riu. Ficaram em silêncio por alguns segundos. A quadra estava vazia. Sem torcida, sem música, sem gritos. Apenas as luzes do ginásio e o eco distante de uma bola quicando em outra parte do prédio.
— Você acha que eu volto quando? — ele perguntou.
— Quando estiver pronto. E não depende mais de mim.
— Você sabe que eu odeio essa resposta.
— Eu sei.
— Então podia mentir.
— Mas eu não minto para meus atletas.
Ele olhou para ela e sorriu.
— Ainda bem.
Naquela mesma semana, o nome de Pedro voltou a aparecer nas notícias. Dessa vez, não por causa da lesão.
“Aurora mantém boa campanha sem Pedro Dornas. Retorno da estrela será necessário para mudar o time? Dornas ainda tem espaço nesta equipe?”
Outra matéria comparava os números do jogador antes da lesão com os resultados obtidos pelo Aurora durante sua ausência. Pedro leu as duas e depois fechou o celular.
— Você está fazendo aquela cara — Marina comentou.
Eles estavam no refeitório.
— Que cara?
— A de quem está pensando demais.
— Estou pensando normal.
— Não existe “pensar normal” para você.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Eles ainda estão dizendo que o time está melhor sem mim.
Marina apoiou os talheres sobre a mesa.
— Não acredito que está de novo, entrando na pilha da imprensa, Pedro.
Marina ficou alguns segundos observando-o.
— Você não precisa provar nada para uma manchete.
— Eu sei.
— Não parece, Pedro. Sinceramente! Não era nem para perder seu tempo lendo essas coisas...
— Eu sei, Nina.
Ela conhecia aquele tom, ele não estava convencido de que tudo o que a imprensa falava era provocação.
— Você vai retornar daqui há uma semana. — Marina então contou — Mas pelo amor de Deus! Isso é segredo de estado, Rafael e Fred nem podem sonhar que eu te contei!
Na mesma hora a expressão de Dornas mudou. Ele pegou a mão de Nina e deixou um beijo e um aperto firme ali, voltando a comer sorridente e largando de vez o telefone.
— Vou focar, minha musa! Você vai ver!
Marina sorriu, estava feliz por ele, mas uma única expressão a congelou totalmente: “minha musa”. O que raios significava aquilo?
A volta aconteceu pouco depois.
Pedro não voltou como titular absoluto nem recebeu os minutos que queria. Rafael e Marina combinaram uma progressão cuidadosa: poucos minutos, controle de carga, observação durante e depois dos jogos.
No primeiro jogo, Pedro entrou no segundo quarto. A torcida gritou seu nome, e ele sorria como criança em piscina de bolinhas. Naquela noite, Pedro Dornas marcou oito pontos, o que não era nada espetacular. Para ele, foi suficiente. No segundo jogo, jogou um pouco mais e no terceiro, voltou à rotação principal. A cada partida, parecia recuperar um pedaço da confiança que havia perdido.
E a imprensa percebeu seu esforço crescente, apesar de manter a mão pesada de críticas:
“Pedro Dornas ainda não recuperou o ritmo.”
“Estrela do Aurora volta, mas produção está abaixo do esperado.”
“Pedro precisa provar que continua sendo o principal nome do Aurora.”
Ele continuava fingindo não se importar, e Rafael e Marina sabiam que era mentira.
— Você está lendo fofocas de novo? — Rafael perguntou quando o encontrou no corredor do ginásio, afundado com a cara na tela do celular.
— Não.
— O celular está na sua mão, Pedro. — Marina completou — E a sua cara é a mesma que denuncia quando alguém te critica e você não gosta.
Pedro olhou para a própria mão.
— É… Tá meio difícil não chegar até mim as notícias.
— Você é péssimo mentindo. — Marina falou tocando o ombro dele, e Rafael a encarou cúmplice.
— Olha só, Pedro. Você voltou para as quadras. Se livrou da fisioterapia dolorosa com a Marina, então… Esquece essas porras, tá? — Valença aconselhava — Além do mais, você não tem ido conversar com o Suárez como eu te pedi.
— Rafael, na boa… O doutor Suárez é um porre. Tudo o que ele tem a dizer é o quanto a gente precisa ter mentalidade forte.
— É, Rafa. — Marina apoiou ao Pedro: — Eu já te falei que o trabalho do Suárez é contestável. Odeio ser antiética, mas… Neste caso, não tem meias-verdades. Os garotos me fazem mais de psicóloga do que ao próprio profissional que tem disponível para eles!
— E a Marina nem deveria ficar com a nossa carga emocional na mão. — Pedro suspirou e tocou a mão dela que ainda estava em seu ombro — Aliás, desculpa por te fazer de confidente e te deixar preocupada, Nina.
— Que isso, Pedro. Somos amigos, e eu… De certo modo, isso faz parte do meu trabalho também, só que… Equipe multifuncional, né Valença?! — Marina de novo criticou, em direção ao treinador.
— Vocês tem razão. Vou conversar com o Suárez primeiro… — Rafael bufou e olhou para Pedro e Marina lado a lado e sorriu de ladinho, um pouco zombeteiro — Quer dizer que vocês são… Confidentes um do outro, é?
— Não exatamente. — Marina disse rápido.
— É, ela é mais minha confidente do que eu dela. Desculpa por te preocupar tanto, minha musa… — Pedro sorriu maldoso e passou um braço em torno do ombro dela a abraçando de lado.
— Pe-Pedro… — gaguejou de novo com a surpresa da proximidade e aquela expressão de novo: “minha musa…” — Você não me deixa preocupada.
— Ele é péssimo mentindo, e você é péssima fingindo que não se preocupa. — Rafael falou piscando para os dois e saiu dizendo: — Não sei o que está rolando entre vocês, mas eu apoio, e acreditem que o time todo também.
Marina ficou quieta, Pedro também. Nenhum dos dois comentou a frase. Naquele momento, ainda parecia apenas uma conversa entre amigos que se conheciam bem demais.
Duas semanas depois, o tornozelo de Pedro Dornas deixou de ser assunto. O ala recuperou os minutos em quadra e voltou a jogar perto do nível que apresentava antes da lesão. A cobrança, porém, não diminuiu. Aumentou.
Agora ele precisava mostrar que tinha voltado. Precisava justificar o salário, o protagonismo, a expectativa da torcida, os comentários dos jornalistas. Precisava provar que continuava sendo Pedro Dornas. E ele estava determinado a provar.
O jogo daquela noite era importante para a classificação do time para as próximas etapas. O ginásio estava lotado, Pedro estava bem desde o primeiro quarto. No terceiro, acertou uma sequência de arremessos e colocou o Aurora novamente na frente.
Marina acompanhava tudo da lateral da quadra, sempre atenta a todos da equipe, mas principalmente, ao Dornas. Ela já tinha visto Pedro jogar centenas de vezes, conhecia a velocidade dele, os movimentos, a forma como ele preparava o corpo antes de uma mudança de direção e por isso percebeu quando ele começou a forçar.
— Dornas! — gritou quando ele voltou para a defesa.
Pedro olhou rapidamente para ela. Marina apontou para ele, depois para o banco. A fisioterapeuta já estava ao lado do técnico Rafael. Ele balançou a cabeça negativamente e sibilou: “Ainda não”.
— Rafa, o Pedro tá forçando. — Marina comentou preocupada.
— O quê? — Rafael então prestou atenção no jogador e perguntou para Marina ainda olhando para aquadra — O tornozelo?
— Não tenho certeza, mas ele não está se movimentando normalmente.
Rafael pediu uma substituição alguns minutos depois. Pedro saiu, bebeu água e ouviu as orientações.
— Está tudo bem? — Marina perguntou quando passou por ele.
— Estou.
— Cansado?
— Um pouco.
Ela observou o rosto dele.
— Se sentir alguma coisa, me fala.
— Eu falo. — Pedro voltou para a quadra evitando Marina.
E ela notou, e o Valença também. Quando Pedro voltou para a quadra, o treinador comentou ao lado da fisioterapeuta:
— Ele está te evitando. Não é?
— Rafa, o Pedro tá sentindo e escondendo!
O jogo estava nos minutos finais quando aconteceu o novo drama. Dornas recebeu a bola no lado direito, o marcador veio rápido e Pedro tentou escapar. Um passo. Dois. Mudança de direção. Ele apoiou o pé esquerdo para frear e girou o corpo.
Foi tudo muito rápido. O joelho direito não acompanhou e Pedro sentiu uma espécie de estalo. Não foi como o tornozelo. Não houve tempo para pensar. A perna simplesmente cedeu.
Ele caiu. A bola escapou de suas mãos e quicou para longe.
Dessa vez, Marina não esperou ninguém chamá-la, a fisioterapeuta correu para a quadra apressada, junto com outros auxiliares médicos. Pedro estava deitado, segurando a própria perna, urrando de dor.
— Pedro!
Ele abriu os olhos.
— Nina… Nina, por favor! — Ele implorava chorando.
Ela se ajoelhou ao lado dele.
— Não mexe. Fica calmo!
— Meu joelho… Nina, tá doendo muito! — Pedro levantou a camisa tampando o rosto com muita dor.
— Eu sei, eu sei! Mas fica parado!
Pedro respirava rápido. Marina segurou o ombro dele enquanto avaliava a situação.
— Olha para mim, Dornas! — Ele olhou. — Respira!
— Não consigo, Nina! Deu merda, não é?
— Consegue! Respira junto comigo!
Marina imobilizava a perna dele, tendo completa ciência do que havia acontecido só de olhar para o joelho dele.
Ele tentou.
Marina verificou a perna, fez perguntas rápidas, avaliou sensibilidade e circulação, sem tentar movimentar o joelho além do necessário.
Ela tocava a região com cuidado e Pedro fechou os olhos.
— Merda! — Pedro chorava controlando-se para não debater de dor.
Marina sentiu o estômago apertar, mas manteve a expressão profissional.
— Pedro, olha para mim. — Ele abriu os olhos novamente, e encarou a confiança e o carinho nos olhos dela — Eu estou aqui. A gente vai te remover na maca, e você precisa ficar calmo, ok?
Foi só isso. Mas alguma coisa no rosto dele mudou. A tensão diminuiu por um segundo, Pedro segurou a mão dela, forte como havia feito naquela primeira noite, quando caminhavam pelo estacionamento.
Só que agora era diferente. Ele estava assustado, de verdade.
— Não vai embora, Nina. Fica comigo… — ele disse baixo.
Marina apertou a mão dele.
— Não vou! Eu estou com você!
Ao redor deles, o ginásio havia ficado em silêncio. Os jogadores do Aurora observavam e Rafael estava de pé à beira da quadra, aguardando ansioso. A equipe médica removeu o jogador da quadra, o árbitro deu autorização para tempo técnico. E durante todo esse momento, Pedro continuava olhando apenas para Marina. Os flashes das câmeras em cima dele só não tornavam o momento pior, porque Dornas não tirava os olhos de Marina, e nem ela desfez o contato visual com ele, em nenhum momento.
— Nina...
— Calma, vai ficar tudo bem.
Ele engoliu em seco.
— Eu acho que aconteceu alguma coisa séria, não é?
Marina respirou fundo.
— A gente vai descobrir.
Ele apertou a mão dela outra vez. Quem estava de fora, conseguia entender o drama. E era fácil perceber que Pedro não parecia estar olhando para Marina como a fisioterapeuta do Aurora. Estava olhando para ela como a única pessoa que queria por perto naquele momento.
Capítulo 5
O diagnóstico chegou duas horas depois. Ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito. Eles já estavam no setor médico do clube, sentado na cama hospitalar, Pedro ficou olhando para o laudo por alguns segundos, embora já soubesse o que significava tudo aquilo que estava escrito.
— Quanto tempo mais?
O médico respirou antes de responder.
— Para voltar a jogar, se tudo correr bem, entre nove e doze meses. Mas isso depende da cirurgia, da recuperação, da resposta do seu corpo...
Pedro parou de ouvir. Nove meses. Doze. Uma temporada inteira, talvez mais.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu não posso ficar um ano fora.
Ninguém respondeu. Marina estava de pé ao lado do médico, assim como Rafael. Aquela expressão no rosto do atleta era a mesma que tinham visto na primeira lesão, só que agora não havia como dizer que seriam alguns dias. Não havia uma ressonância que pudesse trazer uma boa notícia. Não havia uma previsão confortável. Havia uma longa recuperação pela frente.
Pedro se mexeu, tentando levantar.
— Calma aí Pedro, foram pegar uma cadeira de rodas. — Marina interveio impedindo. E ele a encarou como se ela tivesse dito a pior coisa do mundo.
— Quando eu posso operar?
O médico explicou os próximos passos, os exames, a preparação para a cirurgia. Pedro fez perguntas objetivas, anotou algumas coisas no celular e parecia estranhamente tranquilo. Rafael sabia que aquilo não era tranquilidade, era choque.
— Pedro. — O treinador bufou ao dizer — Não vai adiantar tentar evitar lidar com isso agora. Marina e eu concordamos que você precisa de um acompanhamento psicológico para lidar com tudo isso, mas não vai ser o Suárez, ok?
— Eu só preciso da Ninca comigo. — Pedro declarou abertamente na frente de todo mundo, e aquilo fez a fisioterapeuta ruborizar, então, ele olhou para Valença e sacudiu a cabeça de modo positivo: — Mas, faz o que achar melhor Rafel. Você é o técnico.
— Pedro… — O médico ortopedista novamente comentou — Nós iremos te remover diretamente para o hospital autorizado do clube, antes você pode ir para casa, mas… Solicitei sua internação ainda para hoje, quanto antes os cirurgiões avaliarem seu caso, melhor.
— Eu posso te acompanhar. — Marina falou sincera, tocando na mão dele. — Você quer que eu te leve para casa?
Ele negou com a cabeça.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho. Você precisa descansar, também.
Ela ficou ao lado dele.
— Pedro...
— Eu estou bem, Nina. — o atleta interrompeu e ela não insistiu. Só ficou ali. Depois de alguns segundos, ele perguntou: — Você vai continuar comigo?
Marina franziu a testa.
— Na fisioterapia?
Ele olhou para ela.
— Em tudo.
Ela demorou um pouco para responder. Além da surpresa pela intensidade da voz e olhar dele, Marina ficou um tanto constrangida pela presença de outras pessoas ali. Ela sentiu que havia intimidade demais na frase de Pedro. Mordeu os lábios, se aproximou tocando a mão dele e apenas o encarando respondeu:
— Enquanto você quiser que eu esteja do seu lado, eu estarei.
Pedro assentiu. Era tudo o que precisava ouvir.
— Bem, a gente vai preparar algumas coisas… — O médico falou tocando no braço de Valença que parecia hipnotizado com os dois em sua frente — Treinador, vamos?
— Ah! Claro! Pedro, eu te deixo em casa! — Rafael comentou pigarrando — Assim a Nina vai descansar. Ok?
— Obrigado Rafa. Ela tem mesmo que ir pra casa, porque vamos ter longos dias no hospital, e dessa vez… Ela vai estar lá mais como amiga, do que fisio, não é?
Marina sorriu assentindo e os dois ficaram sozinhos logo em seguida. Marina segurava a mão dele, avermelhada, e ele sorriu.
— Você ficou com vergonha de alguma coisa que eu disse?
— Pedro… — Marina mordeu o lábio inferior sorrindo — Você tem alguma coisa para me dizer que, ainda não tenha dito?
— Acho que eu já disse tudo, por palavras e ações, não é? — Pedro comentou olhando-a profundamente — Quero você do meu lado, o tempo todo. Mas não quero ser um peso pra você e nem atrapalhar a sua vida. Sei que você não tem um namorado para implicar com isso, e sua família tá longe, mas… Nina, se eu estiver passando do ponto, então, agora é o momento em que eu preciso saber…
— Eu quero estar com você! — Marina respondeu o interrompendo e tocando no rosto dele. — O tempo todo também.
Quando a mão dela fez um carinho em sua bochecha e ela parecia tomar coragem de se aproximar, a voz de Rafael rompeu o momento. Eles sorriam um para o outro, e Rafael não notou que por muito pouco, ali naquele quarto de ambulatório, poderia acontecer o primeiro beijo.
A cirurgia aconteceu um dia depois e a recuperação começou. Dessa vez, não havia pressa que Marina pudesse controlar, Pedro sabia que não existia atalho. Mesmo assim, os primeiros dias foram difíceis. Ele passou a odiar o próprio apartamento, o sofá, as muletas. De novo.
Odiava o silêncio e o celular cheio de mensagens perguntando como estava. As notícias falando sobre sua temporada encerrada, odiava ainda mais, assim como não se sentia confortável até com as pessoas dizendo que ele voltaria mais forte. Ele detestava aquela frase. Não queria precisar voltar mais forte.
Uma tarde, Marina chegou em seu apartamento para uma sessão e encontrou Pedro sentado no chão da sala, encostado no sofá.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você está no chão. Cadê a Inês?
— Eu sei que estou no chão. Liberei ela mais cedo, você já estava chegando.
— Por quê está no chão?
— Porque eu queria sentar no chão.
— E por quê liberou a Inês? Como vai ficar sem a sua ajudante?
Ela largou a bolsa sobre o sofá se agachando, o encarando sem entender a situação.
— Eu liberei porque você está aqui. Fica comigo, hoje?
Marina arregalou ainda mais os olhos, confusa.
— Está com dor?
— Não.
— Então?
Pedro ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu não sei o que fazer.
Marina se sentou ao lado dele.
— Tá falando exatamente do que, Dornas?
— Eu não sei o que fazer com a minha vida. Quem eu vou ser em quase um ano parado? Ou mais…
Ela não respondeu imediatamente. Pedro apoiou a cabeça no sofá.
— Eu passei a vida inteira tentando chegar aqui, Nina.
— Eu sei, Pedro… — Marina suspirou e pegou a mão dele apertando forte.
— E agora acabou.
— A temporada acabou, a sua trajetória não!
— Para mim, parece a mesma coisa.
Marina virou o rosto para ele.
— Não é. Para de falar assim!
— Como você sabe que eu ainda tenho chance?
— Porque eu conheço você! E na boa Pedro, um rompimento de ligamento é algo mais comum do que andar pra frente na maioria dos esportes de alto rendimento. Você vai voltar a jogar, principalmente porque é teimoso!
Pedro soltou uma risada fraca.
— Me conhece tanto assim?
— Conheço! Como a palma da minha mão.
— Então me diz quem eu sou sem o basquete.
Marina ficou em silêncio. Dessa vez, não tinha uma resposta pronta.
Pedro olhou para ela.
— Viu?
— Eu não disse que seria fácil.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu só queria saber se ainda tem alguma coisa aqui quando eu não estou jogando.
Marina olhou para ele.
— Tem. Claro que tem. E se a gente não percebeu, vamos descobrir aos poucos. O basquete ocupou muito a sua vida, então, fora das quadras… É a sua chance de descobrir o Pedro, além do Pedro Dornas. — Ela respirou fundo. — Você tem muita coisa para conhecer de si, Pedro. E eu também.
Pedro não respondeu. A distância entre os dois pareceu diminuir sem que nenhum deles tivesse se mexido. Marina desviou os olhos primeiro.
— Vamos fazer o exercício.
Pedro sorriu de leve.
— Você estraga todos os momentos. — Ele riu e mordeu os lábios — Quando não é você, é o Rafael.
— Alguém precisa focar no trabalho. Estou com meu uniforme de fisioterapeuta, não vê? Logo, estou trabalhando.
— Inês foi pra casa, a Judith já fez faxina hoje, minha mãe foi embora com muito custo e eu ainda não tenho uma namorada para cuidar de mim. Então… Ao fim do seu expediente, quero a minha musa aqui.
— Você deveria me perguntar se eu posso, sabe? — Marina ajudou ele a se levantar, com certo custo — E nada de ficar sentando no chão! Você sabe o quanto pesa?
— Por que não poderia? Tem alguém que precise mais de você do que eu? — Pedro perguntou apoiando-se no ombro dela, encarando bem de perto o seu rosto.
— Eu vou ter que ir em casa. Não vim preparada para ser babá de um jogador de basquete no fim do expediente.
— Vou te esperar na minha cama. — Pedro zombou ao pé do ouvido dela.
Marina deu um tapinha nele, bronqueando. Eles sorriram e focaram na sessão de fisioterapia.
As semanas passaram, Marina continuou aparecendo no apartamento dele, algumas vezes para a fisioterapia. Outras para levar alguma coisa para ele comer. Às vezes, simplesmente para ficar. Pedro também mudou. Começou a falar mais sobre o medo, a carreira, sobre o que faria se não conseguisse voltar. Sobre coisas que nunca contava aos outros, e Marina ouvia. Não tentava consertá-lo e não dizia que tudo ficaria bem. Ela só ficava ao lado dele.
Até que, certa noite, depois de uma sessão particularmente difícil, Pedro estava sentado no banco da sala enquanto Marina guardava alguns equipamentos.
— Nina.
— Hum?
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Por que você fica?
Ela parou.
— Como assim?
— Você poderia ir embora depois do trabalho. Não precisa ficar comigo até tarde, mas você fica. Mesmo que sejamos amigos, até a Inês me criticou outro dia. Disse que eu estava abusando da sua boa vontade… Só que, eu não vejo dessa forma.
— Eu sei.
— Então por quê você fica?
Marina fechou sua maleta.
— Porque você é meu amigo. Um, muito especial.
Pedro abaixou os olhos.
— Só isso? O que eu sou de verdade pra você?
Havia um tom de nervosismo na voz dele, e o silêncio da ausência da resposta da Marina o deixou ainda mais constrangido. Então, Pedro levantou o rosto.
— Desculpa… Desculpa, Nina, pela pergunta.
Marina se aproximou e ficou parada diante dele, agora abaixada à sua altura já que ele estava sentado no banco.
— Não precisa pedir desculpa.
Ela queria dizer mais, dizer que não era “só amizade”, ou que não se importava de ficar mais tempo com ele porque o flerte bobo que acontecia entre eles, mexia com ela há muito tempo, mas Pedro não deu tempo. Olhando-a nos olhos, silenciosa, o jogador enxergou incerteza nela.
Então Pedro se levantou devagar. Ainda havia cuidado em cada movimento, e os dois ficaram frente a frente.
— Você sabe que eu confio em você, não sabe?
— Claro que sei, Pedro… — Marina estava de pé, segurando as duas mãos dele, sem saber como iniciar as várias respostas que poderia dar a ela.
— Confio mais do que deveria, Nina.
— Isso é uma coisa boa.
— É. — Ele respirou fundo. — E eu acho que não é nenhuma surpresa se eu afirmar, com palavras agora, que estou gostando de você de um jeito que acho que, talvez, não devia.
Marina continuou imóvel.
— Pedro...
— Eu sei! Nós trabalhamos juntos.
— Eu sou sua fisioterapeuta…
— Eu sei.
— E você está se recuperando de uma lesão séria.
— Eu sei disso também.
Ela baixou os olhos.
— Então não torna isso mais complicado.
Pedro deu um passo para trás. O corpo inteiro dele murchou. Eles estavam brincando de sentir um pelo outro algo inominado há tanto tempo, que encarar os fatos agora, parecia um pecado.
— Desculpa, Nina.
Marina fechou os olhos por um instante, e suspirou tomando coragem:
— Eu não disse que não sinto o mesmo por você!
Pedro ergueu a cabeça, olhou para ela.
— O quê?
Ela respirou fundo.
— Eu sei que não devia. Mas, foi natural… Eu, também quero te beijar desde o dia no hospital, talvez, até antes.
O silêncio tomou conta da sala, Pedro se aproximou outra vez. Devagar. E dessa vez, Marina não se afastou. O beijo aconteceu sem pressa. Quase como se os dois ainda estivessem tentando entender se aquilo realmente estava acontecendo.
Quando se separaram, Pedro ficou olhando para ela.
— Isso foi uma péssima ideia.
Marina riu, nervosa.
— Foi.
— A gente não pode contar para ninguém.
— Concordo!
— Nem para o Rafa.
Ela fez uma careta.
— Principalmente para o Rafa.
Pedro sorriu.
— Ele vai perceber.
— O Rafa percebe quando alguém troca o cadarço do tênis.
— Então estamos ferrados, minha musa!
Marina riu.
Por alguns segundos, os dois esqueceram o joelho, a cirurgia, a temporada perdida e tudo o que ainda precisariam enfrentar, mas aquilo não duraria para sempre. Porque, naquela mesma semana, alguém os viu saindo juntos do ginásio, bem mais tarde e abraçados.
E, no dia seguinte, uma fotografia apareceu em uma página esportiva. Não era uma foto do joelho de Pedro, nem do jogador em recuperação. Era uma foto dele ao lado de Marina.
A legenda dizia:
“Pedro Dornas encontrou uma nova companhia durante a recuperação?”
Marina leu a publicação duas vezes, depois olhou para Pedro. Ele ficou em silêncio cheio de culpa e preocupação por ela. A temporada ainda nem tinha terminado para o Aurora, mas a vida dos dois acabava de entrar em outro jogo.
Capítulo 6
A primeira reação de Pedro foi apagar a tela do celular e guardá-lo no bolso. A segunda foi pegá-lo de novo. Marina, havia pego seu próprio celular e aberto sua rede social. Apesar do perfil ser “fechado”, as inúmeras solicitações para seguir, notificações e menções, já diziam o óbvio: sabiam quem era ela. Digitou “Pedro Dornas” na pesquisa, e apareceu a imagem de novo. Pedro e ela continuavam olhando para a fotografia. Não havia beijo, havia toque. Algo que poderia não ser nada, como aquele abraço ladino que Pedro havia dado nela enquanto os dois saiam do ginásio. Era algo pequeno, mas, na internet, aquilo parecia suficiente.
— Já descobriram minha rede social e sabem que eu sou a fisioterapeuta do time… — Ela disse.
Pedro passou a mão pelo rosto, guardando o celular de novo e absolutamente culpado.
— Nina… Eu, eu juro que não queria te expor.
— E já tem gente dizendo que eu estou me aproveitando da situação.
Ele virou para ela.
— O quê?
Marina mostrou a tela. Os comentários eram variados. Alguns apenas especulavam, outros eram mais agressivos… Havia quem dissesse que ela estava tentando aparecer, quem insinuasse que Pedro recebia tratamento diferente por causa dela e havia aqueles que questionavam diretamente a competência profissional de Marina.
“Ela é fisioterapeuta dele ou namorada?”
Pedro leu cada um e seu rosto fechou, não só em culpa, mas raiva.
— Isso é ridículo!
— Eu sei… Nem dá para dizer que essa gente é fã do seu trabalho. — Marina suspirou e olhou em torno da sala de fisioterapia do ginásio. — A essa altura os dirigentes do clube já viram, não é?
Pedro a encarou preocupado.
— O Rafa não falou nada com a gente até agora. E os caras saíram pra almoçar e não fizeram nem uma piada comigo agora há pouco, então…
— Estávamos todos trabalhando, Pedro. Você acabou de receber esse print da sua mãe, então provavelmente a matéria saiu esta manhã. Todos devem estar no refeitório almoçando e sabendo disso agora e…
— Eu vou falar com a direção do clube! — Pedro arregalou os olhos pensando em sair, mas Marina o interrompeu:
— Não.
Ele a encarou.
— Não?
— Se você falar agora, vai parecer que estamos tentando esconder alguma coisa.
— Mas você está sendo atacada, Nina! Preciso me posicionar.
— E você acha que uma nota sua vai melhorar?
Pedro ficou quieto. Marina continuou olhando para o celular.
— Se eu aparecer defendida pelo principal jogador do time, piora…
Ele sabia que ela tinha razão e odiava isso. Enquanto eles se encaravam sem saber o que fazer, Rafael apareceu na porta dela, com uma expressão muito preocupada.
— Rafa… — Nina mencionou logo que o viu.
— Preciso que me digam a verdade para eu saber como ajudar vocês.
— Rafa, a gente não deve alimentar essas fofocas e…
— Nina e eu estamos juntos. — Pedro a interrompeu, confessando para Rafael e com um olhar suplicante: — E eu não vou deixar usarem ela contra mim. Me ajuda, Rafael. Quão grave essa situação é para condição dela aqui no clube?
Marina mal pôde acreditar que Dornas não pensou duas vezes antes de contar pro treinador que estava beijando a fisioterapeuta. Valença olhou para os dois sério, mas logo deu um sorrisinho cretino, e encarou Marina ao dizer:
— Eu sabia que você estava mentindo.
— Eu não estava mentindo. Aconteceu recentemente. Na verdade, Pedro e eu conversamos sobre nos dar uma chance no início da semana e era pra ficar tudo em segredo por enquanto.
— Os fotografos estão loucos por furos do Pedro, vocês deram mole. Sair do ginásio abraçados?
— Era noite, Rafa!
— Pior ainda. — Valença comentou. — Mas, pelo clube não há problema nisso. Não tem nada que impeça dois funcionários de se envolverem, dentro da ética e moral. Só que você não é um funcionário comum, Pedro. E agora precisamos conversar com os dirigentes, porque a mídia vai tentar usar isso contra você sim.
— Não posso permitir que ataquem o profissionalismo da Nina!
— Rafa, Pedro, calma… A gente precisa agir do jeito certo e com estratégia agora. — Marina suspirou olhando para Rafael — Pode solicitar uma reunião com a direção ainda hoje?
Na manhã seguinte, o assunto já havia crescido. Uma página publicou uma matéria perguntando se o relacionamento entre Pedro e Marina poderia explicar a proximidade dos dois durante a recuperação. Outra questionava se a presença constante da fisioterapeuta ao lado do jogador não representaria um conflito de interesses. E não havia nenhuma acusação formal, ainda, mas a dúvida estava lançada.
E dúvida, Pedro sabia, era suficiente para virar manchete das mais vis.
A reunião com os dirigentes só aconteceu naquela manhã, e o diretor geral do clube, Astolfo Borges, aguardava os três em sua sala com o celular na mão. Assim que Rafael, Marina e Pedro entraram, ele perguntou apontando o aparelho no centro da mesa.
— Alguém quer me explicar isso?
Pedro e Marina estavam sentados em lados opostos da mesa, e ela permaneceu em silêncio. Olhou para Rafael, e Pedro respirou fundo respondendo primeiro:
— Não tem nada para explicar.
Rafael olhou para ele.
— Então por que tem foto de vocês dois saindo juntos? — Astolfo direcionava-se principalmente ao atleta agora.
— Porque a gente trabalha no mesmo lugar, diretor.
— À noite?
Marina interveio.
— Senhor, eu estava terminando alguns relatórios.
Rafael olhou para ela.
— E ele?
Pedro respondeu:
— Eu estava a esperando.
— Por quê? — Astolfo arregalou os olhos pegando-os no choque. Houve silêncio e Rafael olhou de um para o outro, então o diretor suspirou: — Vocês estão me escondendo alguma coisa?
Marina sentiu o coração acelerar, Pedro permaneceu calado e Rafael soltou o ar.
— Senhor Astolfo, não acho que seja o problema saber se Marina e Pedro estão em um relacionamento ou não, mas o que faremos com a mídia. Certo?
— Eu não quero saber da vida pessoal de vocês. — Astolfo respondeu olhando o casal, e diretamente para Rafael Valença ao afirmar: — Quero saber se isso pode interferir no trabalho. No resultado da temporada, Valença!
Marina respondeu imediatamente.
— Não interfere, senhor. Eu sou profissional e sempre separei muito bem as coisas. Nunca houve problemas com a equipe técnica do Rafael.
— Tem certeza, Marina? Não me incomoda que namorem entre si. Você é fisioterapeuta do clube e acho que não está em discussão a sua competência ou ética, mesmo que a mídia esteja usando isso pra essa porcaria todo. Mas a interferência que me preocupa é outra. — Ele falou a última frase olhando para Pedro.
Rafael também olhou para Pedro.
— Desculpa, senhor, não compreendi.
— Pedro Dornas. — Astolfo o apontou — Já tenho um atleta caríssimo suspenso por lesão, e uma equipe que claramente pontua três vezes menos sem ele. O ideal era que Dornas estivesse focado na recuperação, em apoiar o time e mostrar que nada iria influenciar o Aurora nesse campeonato. Mas, agora… O assunto é o Dornas, de novo, e não a crescente gloriosa do Aurora com ou sem ele, rumo ao título!
— Espera… — Pedro falou um pouco ofendido — Não está preocupado comigo ou com a lesão, mas só com a popularidade do Aurora?
— Pedro, sabe quantas equipes queria te comprar antes dessa lesão?
O atleta bufou e assentiu.
— E sabe quantas o querem agora?
— Diretor… — ele tentou falar, mas assentiu de novo morrendo a voz.
— Pois é. Nenhuma. Você está lesionado e envolvido em polêmicas, e ninguém quer comprar você agora. Então não se preocupe, o Aurora não tinha interesse de vendê-lo antes e ainda que tivéssemos agora, não é o caso. Não estamos preocupados só com a popularidade do Aurora, estamos preocupados com você também. Mas, quem é o elefante branco neste momento? Você ou o time?
Houve silêncio e Astolfo Borges assentiu, encerrando o assunto e informando:
— Então façam o favor de manter esse relacionamento em discrição. Não iremos nos manifestar a respeito. O clube não vai se meter em suas vidas particulares, mas deixem para ser um casal fora do clube. Aqui dentro, nada de manifestações carinhosas. E… Nosso juridíco vai entrar em contato com seu empresário e advogados.
— Senhor Astolfo. — Marina mencionou — Se acharem prudente me substituir na equipe pelo Marcelo…
— E dar o que a imprensa quer, Marina? — Astolfo interrompeu e falou ofendido: — Oras você não fez nada de errado! Não foram pegos fazendo nada demais! Só tivemos azar de distorcerem as coisas! Eu não vou obrigar o Rafael a trocar as pessoas da equipe dele por causa de fofoquinhas desse tipo, além do mais, colocar o Marcelo e te afastar é como se a gente dissesse que tem algo errado nessa história.
— Além de dar um poder para imprensa, desnecessário. — Rafael comentou em seguida e pegou a mão de Nina. — O Aurora não tem motivos para punir nenhum de vocês. Só precisamos preservar melhor a imagem do time e possíveis estresses que atrapalhem a equipe.
— Exatamente! — Astolfo falou e ajeitou seu terno. — Estão liberados, por favor.
Os três começaram a sair. Pedro mais calado do que quando entrou.
— Dornas! — Astolfo mencionou antes de ficar completamente só, e Pedro era o último a sair da sala — Estimamos sua melhora, mas não temos pressa. Confie em nós, o Aurora te apoia, ok?
Pedro assentiu com um sorriso fraco e saiu.
Naquela semana, Marina começou a perceber pequenas mudanças. Alguns jogadores passaram a fazer piadas, nada diretamente ofensivo, mas suficientes para deixá-la desconfortável.
— Cuidado, Dornas — Cauê brincou certa manhã. — Daqui a pouco vão dizer que a Nina está te dando tratamento VIP.
Pedro riu sem graça. Marina não.
— Se quiser, posso te dar tratamento de verdade — Ela respondeu. — Começando por estender suas sessões de força para este ombro quase recuperado, em mais vinte minutos, Cauê.
O jogador levantou as mãos, surpreso, tal como toda a equipe.
— Que é isso, Nina…
— Olha só pessoal, não gosto que façam piadas misturando a minha competência profissional com o fato de eu estar saindo com o Pedro, ok?
Pedro riu. Ela nem notou, mas estava declarando pro time todo que estava saindo com ele, quando haviam prometido esconder e dizer que era tudo fofoca. Só Rafael e o diretor sabiam da relação, até aquele momento.
— Então finalmente um deles admitiu, galera! — Gabriel rompeu o silêncio e gargalhou indo abraçar aos dois.
Marina ficou em silêncio chocado, e recebeu o abraço de Gabriel junto com as risadas e zombarias amigáveis dos outros rapazes do time. Rafael observava a bagunça na quadra antes do treino começar e riu.
— Chega de fofoca, suas velhas de janela! — O treinador gritou — Todos pra quadra! Pedro, pra fisioterapia!
— Ok, treinador! — Pedro comentou se levantando com a muleta e brincando falou para todos enquanto parava na frente de Marina — Pode relaxar que deixaremos a porta da sala aberta!
— Deixa de ser idiota! — Marina deu um tapa leve em Dornas e saiu na frente.
Ela riu, deixou-se descontrair, mas ainda tinha uma certa preocupação.
Nas semanas seguintes, ela começou a tomar cuidado até com a forma como se aproximava de Pedro, fosse no início, durante ou depois da fisioterapia e treinos. Ele não treinava com a equipe, mas estava assistindo quase sempre. E Marina decidiu que, no clube, evitaria tocar nele além do necessário assim como evitaria ficar sozinha com ele. Principalmente, evitaria demonstrar qualquer intimidade que pudesse alimentar as especulações.
Pedro percebeu.
— Você está se afastando muito, não acha? — disse em um dia que estavam sentados na arquibancada assistindo o treino após o almoço, e ela tomava nota do desempenho de Cauê, o ala que havia tido alta do tratamento há dois dias.
— Estou trabalhando.
— Você sempre fala isso quando está tentando fugir de alguma coisa. E parece que está tentando fugir de mim.
Ela olhou para ele.
— Pedro, agora qualquer coisa que eu faça com você vira assunto.
— Eu sei.
— Então preciso ter cuidado.
— Mas, eu não quero que você mude por causa disso.
Ela suspirou baixando a caneta na prancheta e olhando para ele, sincera:
— Aqui não é lugar pra gente ficar dando bandeira. Mesmo que a equipe apoie e tudo mais, você sabe que pode vazar qualquer merdinha. — Ela fez uma pausa. — Não é só por você. É, principalmente por mim.
Pedro ficou em silêncio logo depois de dizer:
— Ok. Vou tentar me manter longe de você, se acha que assim é melhor.
Alguns dias depois, a situação piorou. Uma matéria apareceu com um título mais agressivo:
“Recuperação de Pedro Dornas levanta questionamentos dentro do Aurora.”
O texto insinuava que o jogador estaria recebendo atenção diferenciada por sua proximidade com uma profissional da comissão técnica. Não citava Marina diretamente, mas todo mundo sabia.
Rafael entrou na sala da comissão técnica irritado.
— Isso está passando do limite. O silêncio do clube parece ter instigado essa imprensa ridícula, e a imagem do Dornas está sendo destruída enquanto ele deveria estar vivendo um momento tranquilo pra se recuperar!
Marina leu a matéria que o Valença estendeu para ela.
— Eles não têm nenhuma prova… E, bom isso cheira a informação vazada. Quero dizer, que tipo de atenção diferenciada ele ia receber agora? Ele está em tratamento pela lesão! É óbvio que passa mais tempo comigo aqui dentro do que os outros, mas…
— Parece uma informação inocente que foi mal colocada. — Fred o preparador técnico que estava ao lado de Marina comentou lendo a matéria também — Marina, você tem alguém aqui que queira te derrubar?
— Eu? Não que eu saiba! — Marina comentou e suspirou.
— Mas o Dornas tem. — Rafael comentou — E não é aqui dentro. Quem publicou foi aquele jornalista que detesta ele, e sempre faz perseguição. Está se aproveitando do mau momento do Pedro pra atingir onde mais vai doer.
Pedro apareceu na porta.
— O que aconteceu?
Rafael mostrou o celular. Pedro leu, seu rosto mudou.
— Isso é absurdo.
— Eu sei — Rafael respondeu.
Marina respirou fundo.
— Mas parece verdade para quem lê.
Pedro olhou para ela.
— Você não precisa provar nada, Nina! — Dornas falou tentando a tranquilizar.
— Preciso, sim. Pedro, estão questionando meu trabalho. — Ele ficou quieto, e Marina apontou para a tela. — Não estão dizendo apenas que eu estou com você. Estão dizendo que eu não consigo separar meu trabalho da minha vida pessoal.
Rafael percebeu a gravidade.
— Marina...
Ela continuou:
— Eu passei três anos construindo minha reputação aqui. — A voz dela não tremia, mas estava mais baixa. — Eu não vou deixar uma fotografia destruir isso!
Pedro sentiu a culpa pesar.
— Então eu termino com você.
Marina olhou para ele, Rafael e Fred também. E Pedro percebeu o que havia acabado de dizer. Silêncio.
— Eu quis dizer...
Rafael levantou uma sobrancelha, com um aviso de que ele só pioraria tudo. Pedro fechou os olhos.
— Merda…
Marina ficou vermelha. Fred olhou de um para o outro.
— “Termina”? Vocês não estavam apenas se conhecendo?
Ninguém respondeu. Ele soltou uma risada incrédula.
— Vocês estão juntos há quanto tempo sob o nosso nariz!?
Marina respirou fundo.
— Não faz tanto tempo, Fred! O Pedro só usou a palavra mais fácil… Ele nem me pediu em namoro ou coisa do tipo.
Rafael passou as duas mãos pelo rosto.
— Vocês dois são inacreditáveis… Eu não quero detalhes, mas sabem que isso precisa ser tratado com muito cuidado. — Rafael voltou-se para Pedro: — E você principalmente.
— Eu sei.
— Porque se isso virar cada vez mais, problema para ela, não vai ser só uma fofoca sobre sua vida pessoal.
Pedro assentiu.
Rafael ficou alguns segundos em silêncio, depois suspirou.
— Vocês precisam decidir o que vão fazer antes que alguém decida por vocês. E Pedro… Não dá para “terminar” uma coisa que nem começou. Pede ela em namoro, se isso for sério, porque sinceramente, mulher nenhuma estaria passando por esse caos se não se importasse, não é Marina?
Horas mais tarde, à noite, Pedro e Marina ficaram sentados dentro do carro, estacionado em frente ao prédio dela. Nenhum dos dois tinha pressa para entrar, haviam conversado o percurso inteiro sobre como agir diante da imprensa, e tudo se resumia em Pedro dizer: “tenho que ver com meu empresário”.
— Você está arrependida? — Ele perguntou.
Marina olhou pela janela.
— De você? — Ela demorou a concluir — Não.
Pedro soltou o ar.
— Eu também não.
— Mas eu estou com medo, Pedro. Não só porque sempre a corda arrebenta pro lado mais fraco, como… Você precisa estar bem pra se recuperar e dentro da sua cabeça tem um monte de fantasmas. Nada disso ajuda.
— Eu sei.
— Se isso continuar crescendo, alguém vai começar a questionar cada decisão minha sobre a sua recuperação.
Pedro virou-se para ela.
— Então eu posso mudar de fisioterapeuta, o que acha?
Marina olhou para ele.
— Você quer?
— Não.
— Então não fala isso.
— Mas eu faria.
— Eu sei.
Ela segurou a mão dele.
— E é justamente por isso que eu gosto de você.
Pedro sorriu.
— “Gosta”?
— Não força.
Ele riu, depois ficou sério.
— Nina.
— Hum?
— Quando eu voltar a jogar, isso vai passar?
Ela não respondeu imediatamente.
— A imprensa?
— Tudo.
Marina apertou a mão dele.
— Não sei. Mas, por enquanto você só precisa decidir se quer mesmo dormir aqui em casa, ou se eu vou ter que dirigir mais vinte minutos pra te deixar no seu apartamento.
Ela sorriu e ele também sorria para ela. Pedro pegou a mão dela e levou até sua boca deixando um beijo respeitoso ali. Do lado de fora, um carro passou devagar pela rua e nenhum dos dois percebeu a câmera levantada do outro lado da calçada.
Na manhã seguinte, uma nova fotografia seria publicada e dessa vez, não haveria dúvida sobre a proximidade dos dois.
E a notícia foi ainda pior:
“Pedro Dornas e a fisioterapeuta Marina Santos: romance secreto confirmado? Na noite passada, o casal foi flagrado em uma conversa íntima dentro do carro de Marina. Quando irão se manifestar publicamente sobre isso? Nem mesmo o clube, nem a fisioterapeuta ou o atleta disseram algo desde o início das especulações.”
Capítulo 7
Pedro acordou com o celular vibrando embaixo do travesseiro. Não precisou olhar para saber. Pegou o aparelho ainda sonolento e encontrou mais de trinta notificações. Mensagens do empresário, do assessor, da mãe, de alguns companheiros de equipe e, principalmente, marcações em publicações que ele não queria abrir.
A primeira mensagem de Marina chegou logo depois.
“Bom dia. Você viu?”
Pedro respondeu:
“Vi.”
Três pontinhos apareceram.
“E agora?”
Ele ficou olhando para a tela.
A verdade era que não sabia. Até aquele momento, eles tinham conseguido transformar o relacionamento em uma coisa quase clandestina. Não porque tivessem vergonha, mas porque parecia mais fácil, confortável e seguro, que fosse assim. O problema era que a imprensa tinha conseguido transformar justamente o segredo na história de manchete perfeita. Pedro ligou para Marina.
— Bom dia, minha musa.
— Não vem com gracinha… O negócio tá feio.
— Eu estou tentando manter o bom humor.
— O momento é de gestão de crise, nada de humor. — Marina comentou um pouco apreensiva.
Ele riu e perguntou preocupado:
— Você dormiu?
— Mais ou menos. E você?
— Dormi como um anjo, mas acordei como um pirata perneta velejando um navio na tempestado.
Houve um silêncio.
— Pedro… A gente precisa se posicionar.
— Eu sei.
— A gente não pode continuar assim.
Ele sentou na cama.
— Eu sei, Nina. Desculpa pela exposição.
— Não quero acordar todo dia pensando se alguém fotografou a gente. Nem quero chegar no clube pensando se posso falar com você ou não, sabe?
— Eu também não! E nem acho justo. A gente não tá fazendo nada de errado, mas essa merda de imprensa…
— E eu principalmente não quero que continuem usando meu trabalho para falar de você.
Pedro ficou sério.
— Nem eu quero que fiquem atacando sua competência. Então vamos acabar com isso. Com o segredo.
Marina ficou em silêncio.
— Você tem certeza? Também não vamos meter os pés pelas mãos.
— Tenho.
— Seu empresário vai enlouquecer. Vamos falar com ele e com o pessoal do clube antes.
— Provavelmente ele vai enlouquecer. Mas o clube vai ter que se posicionar também.
— O Astolfo já disse que não vai se meter… — Nina lembrou. — Acho que é mais sobre a gente manter a nossa transparência com o clube, informar o que queremos fazer.
— O Rafa vai fazer alguma piada idiota.
— Isso é inevitável. — Marina riu. — E a imprensa? Acha que se abrirmos, vai perder a atenção?
Pedro olhou para o teto.
— A imprensa vai falar de qualquer jeito… Então que fale depois que a gente contar a verdade.
A reunião com o empresário aconteceu naquela tarde. Pedro entrou na sala com Marina ao lado e o homem olhou para os dois. Depois para as mãos dadas. Depois novamente para Pedro.
— Finalmente.
Pedro franziu a testa.
— Finalmente o quê?
— Finalmente vocês resolveram parar de fingir que não estão juntos.
Marina arregalou os olhos.
— Você já sabia?
— Pedro, eu trabalho com você há anos. A primeira coisa que aprendi foi que jogador mente mal quando está apaixonado.
— Eu não estou apaixonado.
Marina virou o rosto.
— Dornas…
— Tá bom. Estou.
O empresário riu.
— Ótimo. Então vamos fazer isso direito!
Não houve estratégia mirabolante, não houve entrevista exclusiva e não houve pronunciamento dramático. Pedro simplesmente publicou uma fotografia. Essa foi a ideia da equipe.
Era uma imagem dos dois sentados em uma cafeteria. Marina estava com uma xícara de café na mão e Pedro roubava um pedaço do bolo dela. A legenda dizia: “Ela ainda não descobriu que o bolo era meu.”. E Marina comentou: “Mentiroso. Era meu.”
Em poucos minutos, a publicação estava cheia de comentários: jogadores do Aurora, torcedores, amigos, e, claro, jornalistas. Mas havia uma diferença. Agora não havia nada para descobrir, a fofoca perdeu mesmo a força.
Rafael comentou primeiro: “Demorou.”
Gabriel respondeu: “EU SABIA.”
Cauê: “Então era tratamento VIP mesmo.”
Marina respondeu: “Cauê, amanhã sua sessão começa às seis.”
O comentário dele desapareceu pouco depois e Pedro riu tanto que quase derrubou o celular.
Nos dias seguintes, a imprensa ainda falou. Alguns sites publicaram matérias sobre o casal, outros fizeram perguntas sobre a relação profissional. O clube confirmou apenas que não havia qualquer impedimento interno para o relacionamento e que a recuperação de Pedro seguia normalmente.
Marina também deu uma entrevista curta, pela primeira vez. Não falou sobre intimidade, mas falou sobre trabalho:
— Pedro é meu namorado — disse, sem fazer suspense. — E também é um atleta que estou acompanhando profissionalmente. Uma coisa não anula a outra. Mas existem limites, responsabilidades e uma equipe inteira envolvida na recuperação dele.
Foi suficiente. Não porque a imprensa tivesse perdido o total interesse, mas também porque Pedro tinha parado de entregar a ela aquilo que mais queria: sensação de segredo.
Depois disso, a temporada continuou sem ele. E, pela primeira vez desde que chegara ao profissional, Pedro acompanhou uma temporada quase inteira sentado. No começo, aquilo parecia uma punição, mas depois virou rotina. Ele assistia aos treinos, via os jogos e fazia fisioterapia. Treinava força, aprendia a ter paciência. E, principalmente, começou a perceber que o tempo que antes parecia vazio estava cheio de coisas que ele simplesmente nunca tinha enxergado.
Passou a visitar o projeto social mantido pelo Aurora; no começo, ia porque Rafael pediu e depois, começou a ir porque gostava. As crianças queriam saber como era jogar no NBB. Perguntavam quantos pontos ele fazia, se já tinha enterrado na cara de alguém, se conhecia jogadores famosos.
Um garoto perguntou:
— Você fica triste quando não pode jogar?
Pedro pensou antes de responder.
— Fico. Bastante!
— E o que você faz?
Ele olhou para a quadra.
— Estou aprendendo… Aprendendo que nem sempre a quadra é o lugar mais importante na nossa vida, mesmo sendo atleta.
O garoto pareceu satisfeito com a resposta e Pedro também. Era um novo Pedro Dornas se descobrindo sonhando outras coisas, divertindo-se em outros hobbies… Marina começou a reclamar que ele estava ficando metido a filósofo.
— Você está insuportável desde que começou a achar que descobriu o mundo porque não fica mais só jogando. — Ela brincou, um dia, quando eles estavam juntos e Pedro começou a filosofar sobre o quanto ela era workaholic, sendo que meses antes, era ele.
— Estou evoluindo.
— Se você soubesse o tamanho da sua hipocrisia por me dar lição de moral....
Eles riam em cada momento em que Dornas, se tornava mais “Pedro”. Ele também começou a cozinhar ou tentar. A primeira tentativa de macarrão terminou com Marina pedindo comida no IFood. A segunda foi aceitável. Na terceira, ela admitiu que estava bom.
Pedro comemorou como se tivesse acabado de ganhar uma final.
— Finalmente uma conquista! Caramba, você é pior que a Paola Carosella!
— Não exagera. Tá se empolgando demais…
— Você não entende! Eu passei meses sendo lembrado de tudo que eu não conseguia fazer. Hoje você disse que minha comida está boa!
— Eu disse que estava aceitável.
— Para mim é quase um Michelin.
Ela riu.
Aos poucos, Pedro também voltou a ler. Primeiro porque não conseguia dormir, mas então foi descobrindo que gostava. Começou a assistir aos jogos sem ficar obcecado pelas próprias estatísticas, passou a conversar com jogadores sobre coisas que não tinham relação com basquete. Descobriu que gostava de ficar em casa em algumas noites e que não gostava de ficar sozinho. E com suas tentativas melhorando, descobriu que gostava de cozinhar mesmo! E que era péssimo escolhendo filmes para sessões a dois, assim como, mal assistia filmes se a mulher ao seu lado fosse Marina. Não tinha paciência para ficar quieto sem agarrar ela. Descobriu que podia passar uma tarde inteira sem pensar em contratos milionários, patrocinadores ou uma vida de ostentação que durante anos de sua vida ele perseguiu alcançar.
E descobriu uma coisa que o assustou mais do que a própria lesão: talvez o basquete não precisasse ser tudo em sua vida.
Os meses passaram, a muleta ficou para trás, depois a bengala e o movimento voltou. A força voltou. Entretanto… A confiança demorou mais.
Houve dias bons e dias ruins. Dias em que Pedro terminava a fisioterapia sorrindo, e em que ficava irritado porque o joelho não respondia como queria. Porém, ele não tratava cada dificuldade como uma ameaça à própria identidade e foi Marina quem percebeu antes dele essa mudança na sua autocobrança.
— Você não ficou bravo… Tô orgulhosa!
Pedro olhou para ela.
— Com o quê?
— Você não conseguiu fazer o movimento como queria.
— Ah…
— E normalmente você já estaria reclamando, dizendo que está atrasado, que deveria estar melhor, que precisa recuperar o tempo perdido…
Pedro sorriu.
— Eu ainda penso tudo isso. Só não acredito mais em tudo que penso.
Marina sorriu.
— Finalmente! Meu garotinho cresceu.
Eles riram da ironia dela, Pedro encostou a cabeça no apoio da maca refletindo enquanto a olhava:
— Acho que no começo eu estava tentando voltar para o jogador que eu era.
— E agora?
Pedro olhou para o próprio joelho.
— Agora quero voltar como o jogador que eu vou ser.
Quando recebeu a autorização para começar a fase final de retorno às quadras, Pedro não comemorou. Ficou sentado alguns segundos olhando para o documento. Marina estava ao lado.
— Não vai falar nada?
Ele sorriu.
— Estou com medo. Antes eu fingiria que não.
Ela segurou sua mão.
— Eu sei disso, mas continuo aqui do seu lado. Vai com calma, ok?
Pedro levantou. Ainda havia cautela nos movimentos, e não havia pressa. Ele pegou a bola que estava sobre a mesa da sala de fisioterapia. Girou-a nas mãos.
— Vamos voltar à antiga?
Marina sorriu.
— Vamos! Só que eu quero, por favor, ser mais tempo sua namorada do que sua fisio, será que pode ser, ô atleta?!
Pedro abraçou Marina deixando um beijo em sua boca, como se concordasse com o trato. E, desde aquela noite em que o joelho direito havia cedido no meio da quadra, não pensou em quanto tempo tinha perdido. Pensou apenas em tudo que tinha encontrado enquanto estava parado.
Na manhã seguinte, Rafael mandou uma mensagem: “Quadra às nove. Sem drama. Hora de voltar.”
Pedro respondeu: “Não prometo.”
Rafael: “Então pelo menos não chega atrasado como antigamente, pelo amor de Deus.”
Pedro sorriu, pegou a mochila e foi.
Capítulo 8
O ginásio estava mais barulhento do que de costume, ou ele apenas não se lembrava da sensação. Pedro percebeu isso antes mesmo de entrar na quadra. Talvez fosse impressão dele. Talvez fosse só porque, depois de quase um ano, qualquer som vindo das arquibancadas parecia maior do que deveria.
Ele ficou alguns segundos parado no túnel, olhando para a quadra. A mesma quadra, o mesmo piso e as mesmas tabelas. O mesmo banco onde tinha passado as últimas temporadas reclamando de minutos, comemorando vitórias, discutindo jogadas e fingindo que não estava nervoso antes de partidas importantes.
Só que ele não era exatamente o mesmo.
— Vai ficar aí fazendo turismo?
A voz de Rafael veio atrás dele. Pedro olhou por cima do ombro.
— Tô apreciando a arquitetura…
— Claro. — Rafael passou por ele e deu dois tapinhas em seu ombro. — Entra logo antes que eu tenha que te empurrar.
Pedro riu.
— Você faria isso?
— Hoje? Com certeza!
Ele respirou fundo. Dessa vez, entrou.
O aquecimento tinha começado havia alguns minutos. Os companheiros passaram por ele, alguns dando tapas nas costas, outros fazendo piadas que ele já conhecia de cor. Cauê foi o primeiro.
— E aí, aposentado?
— Quase um ano fora e você continua com essa cara.
— Que cara?
— De quem vai pedir aposentadoria no segundo quarto.
Pedro apontou para ele.
— Eu voltei hoje e você já está me irritando!
— Então está tudo normal.
Gabriel apareceu logo depois.
— Nervoso?
Pedro fez uma careta.
— Não.
— Mentiroso.
— Um pouco.
— Um pouco? Logo você? O mais ansioso do time?
Pedro olhou para a cesta.
— O suficiente. Marina me ensinou a ter calma…
Gabriel sorriu.
— Ainda bem.
Aquilo pareceu estranho. Durante meses, Pedro tinha imaginado o dia da volta de várias formas. Em algumas versões, ele entrava na quadra sem medo, em outras, fazia uma partida absurda, como se os meses parado tivessem sido apenas um intervalo antes de provar para todo mundo que continuava sendo o mesmo. Também imaginou a pior possibilidade: errar. Sentir o joelho ou travar. Perceber que o corpo não confiava nele e que ele também não confiava no corpo.
Nos últimos dias, porém, outra coisa tinha começado a incomodá-lo. E se ele não precisasse provar nada? A pergunta ainda parecia estranha! Ele tinha passado a vida inteira querendo provar alguma coisa para os outros, para os técnicos, torcedores, jornalistas. Principalmente, para ele mesmo.
Naquela noite, pela primeira vez, parecia suficiente simplesmente jogar.
Marina estava perto da lateral da quadra, conversando com Marcelo. Ela tinha passado meses dizendo que estava preparada para aquele momento. Profissionalmente, estava. Tinha acompanhado cada etapa da recuperação. Sabia exatamente o que Pedro conseguia fazer, o que ainda precisava de atenção e quais eram os limites daquele retorno, mas isso não impedia que seu estômago estivesse apertado.
Marcelo percebeu.
— Você está pior que ele. Nunca te vi assim, Nina.
— Não estou.
— Está sim.
— Eu estou trabalhando, Marcelo. Minha apreensão é aquela de sempre que a gente bota um atleta na quadra de novo…
— Claro.
Ela lançou um olhar para ele.
— Quer trocar de lugar comigo?
— Nem pensar! Beijar a boca de Pedro Dornas? Não, obrigado.
— Seu bobão! — Marina gargalhou e voltou a olhar para Pedro.
Ele estava arremessando. Um. Dois. Três. A bola bateu no aro e saiu. Pedro pegou o rebote e olhou para ela. Marina levantou o polegar, e o namorado, alegre e confiante, sorriu. Era um gesto pequeno, mas ela conhecia aquele sorriso.
Era o sorriso de quem estava tentando fingir que não estava nervoso.
Quando o jogo começou, Pedro ficou no banco inicialmente. Aquilo não era exatamente o que ele queria, também não era uma surpresa. Rafael tinha sido claro: sem pressa, sem heroísmo e sem tentar recuperar em uma noite os meses que tinha passado fora. Pedro odiava essa última parte, contudo, daquela vez, não discutiu. Já havia aprendido a ser paciente.
No primeiro quarto, assistiu. No segundo, entrou. Quando ouviu seu nome no anúncio, sentiu as mãos esfriarem, levantou, ajeitou a camisa e olhou para Rafael.
— É agora?
— É.
Pedro respirou fundo.
— Beleza.
Entrou. O barulho aumentou. Por alguns segundos, ele só ouviu aquilo: tênis rangendo, torcida, gente gritando, bola quicando, apito. E o próprio coração.
A primeira posse passou por ele, recebeu, devolveu a bola e correu. Voltou para a defesa. Nada demais, e foi justamente por isso que pareceu tão importante! O joelho estava ali inteiro. Respondendo ao que ele sabia fazer, e havia treinado a vida quase toda. Ele continuou e na posse seguinte, recebeu novamente. Dessa vez, tentou infiltrar. Parou, passou e a jogada continuou. Sem fome de cesta. O companheiro marcou, Pedro levantou os braços.
— Boa!
Ele não precisava ser o responsável por tudo e aquela era uma constatação ainda nova, mas boa.
No terceiro quarto, Pedro conseguiu sua primeira cesta. Foi uma bola de três.
Não foi uma jogada espetacular, não teve drible impossível, nem marcação quebrada, nem comemoração ensaiada. Ele recebeu no canto e arremessou. A bola caiu dentro. Ele, por um segundo, ficou parado. Depois ouviu a arquibancada explodir!
Pedro abriu um sorriso, olhou para o banco. Cauê estava de pé, gritando alguma coisa que ele não conseguiu entender. Gabriel correu até ele. Rafael apenas bateu palmas. E Marina… Marina estava sorrindo. Pedro apontou para ela, ela apontou de volta como quem dizia: “eu falei”. E ele balançou a cabeça, como quem respondia: “Convencida” e ela riu.
No intervalo do último quarto, Pedro sentou no banco, já estava cansado de verdade. As pernas pesavam, a respiração estava acelerada, mas não havia pânico. Ele olhou para o placar, depois para as próprias mãos.
Por quase um ano, tinha pensado naquele momento. E agora que estava acontecendo, percebeu uma coisa curiosa: ele não estava pensando no que os jornalistas escreveriam. Não estava calculando quantos minutos tinha jogado, não estava imaginando comentários sobre seu desempenho, não estava pensando em contrato nem em seleção. Nem em quem tinha duvidado dele. Estava pensando apenas que queria jogar mais alguns minutos. E isso bastava. Rafael se aproximou.
— Como você está?
Pedro pensou antes de responder.
— Cansado.
— Só?
— E feliz.
Rafael sorriu.
— Então está bom. Saldo positivo para quem está voltando.
Pedro levantou.
— Posso voltar pra quadra?
— Pode. Cauê! — gritou o Rafael — Troca!
— Então vamos.
O Aurora venceu por quatro pontos. Pedro terminou a partida com oito pontos, quatro assistências e pouco mais de quinze minutos em quadra. Nada que entrasse para a história da competição, ou que justificasse uma manchete exagerada. Só que para Pedro, foi perfeito.
No vestiário, a comemoração começou antes mesmo de ele conseguir tirar o tênis. Cauê jogou uma toalha nele enquanto outros colegas faziam “montinho”.
— AÊEEE VOLTOU! O DORNAS VOLTOU!
— Sai de cima!
Gabriel abraçou os dois, Rafael entrou no meio da bagunça gritando:
— E amanhã tem fisioterapia! Principalmente pro Dornas.
Pedro fez uma expressão de horror.
— Você não consegue respeitar nem o pós-jogo?
Marina apareceu na porta.
— Ele está certo…
Pedro olhou para ela.
— Você também?
— Principalmente eu.
— Traição, ein! Logo da namorada?
— Profissionalismo. Aliás… Não houve um pedido formal ainda. Sempre bom lembrar…
Ele riu. Durante alguns segundos, ficaram apenas se olhando.
Não havia fotógrafo, jornalista e nem manchete. Mas o resto da equipe estava ali testemunhando o momento de olhares e sorrisinhos, e não iriam deixar de zombar.
— Ei vocês podem se controlar? A galera tá ficando constrangida aqui!
— Pedro! — Rafael falou de um jeito autoritário: — Você tem uma semana pra preparar o pedido perfeito pra Nina! Cria vergonha nessa cara!
— Isso aí! — Cauê comentou — Se não, a gente pode declarar que a Nina tá solteira!
— Acho justo! Não é possível que seja sempre eu a fazer o trabalho pesado aqui. — Marina zombou e todos riram. Aos poucos foram ficando só os dois enquanto os outros se dispersaram para a saída do vestiário. Marina se aproximou um pouco mais para dentro.
— Orgulho de você, meu amor.
Pedro sorriu.
— Eu também estou.
Ela arqueou a sobrancelha.
— De você?
— De mim.
Marina sorriu.
— Uau, isso é novidade.
— Estou evoluindo, eu te falei.
— Está mesmo…
Ele segurou a mão dela sem olhar para os lados, sem se preocupar com quem estava vendo.
— Vamos embora? Para sua casa?
— Vamos.
Naquela noite, Pedro não assistiu aos melhores momentos da partida. Também não procurou o próprio nome nas redes sociais. Não abriu nenhuma matéria. Não ficou tentando descobrir o que tinham falado sobre os oito pontos, os quinze minutos ou a cesta de três.
Chegou em casa, tomou banho e ficou alguns minutos sentado na cama. Marina saiu da cozinha vindo até ele, no quarto.
— Você não vai ver os comentários?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela apareceu na porta.
— Quem é você?
Pedro riu.
— Um homem novo.
— E esse homem ainda é o meu namorado?
— Ele é, mas vai te fazer um pedido decente. Juro.
Marina riu, se aproximou e o abraçou pelas costas descansando o queixo no ombro dele. Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Nina?
— Hum?
— Eu confesso, achei que ia ter uma cobrança.
— Tipo?
— Sei lá. Achei que precisaria voltar pra quadra, e mostrar que ainda era eu…
Marina sentou ao lado dele.
— E como foi?
Ele olhou para ela.
— Foi só... jogar.
Marina sorriu.
— Você evoluiu mesmo. E isso é ótimo, meu amor.
Pedro encostou a cabeça no ombro dela.
— Acho que sim.
Ficaram quietos, em um silêncio que não precisava ser preenchido. Depois de alguns minutos, Pedro levantou.
— Estou com fome, e não vou cozinhar hoje. Tô cansado, musa.
— Claro que está.
— Tem comida?
— Tem.
Pedro foi para a cozinha. Antes de segui-lo, Marina olhou mais uma vez para ele. Pedro Dornas tinha voltado para a quadra, mas, pela primeira vez, aquilo não parecia ser a única coisa que ele tinha recuperado. E na opinião dela, aquele era o melhor resultado daquela temporada.
Fim.
