Focus of my Blur: Filme II

Escrito por Sial | Revisado por Lelen

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Preliminary

Este capítulo está em processo de revisão.

"(Querida, nós dois sabemos)
Que as noites foram feitas principalmente
Para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte."
⏮︎⏸︎⏭︎

  O corpo suado de caiu para o lado direito da cama, respirando pesado, os olhos fechados. Devia ser a segunda vez que ele gozava só naquela noite — o que não fazia parte dos planos. deu um sorriso sapeca enquanto olhava o teto, querendo zombar do relato que ele havia dado na semana passada de que não costumava gozar duas vezes no mesmo dia.
  — Sei que você está rindo — ele murmurou, ainda de olhos fechados. Ela deixou sua risada fazer barulho desta vez. — Desgraçada.
  Ele riu baixo e afastou alguns fios molhados da testa, olhando brevemente para a garota.
  — Você tá ficando bem melhor nisso do que eu esperava.
  — O quê? Na “arte de sentar”? — Ela fez as aspas no ar e ele não segurou o sorriso. — Palavras suas, não minhas.
  — Você só decide fazer esse inferno quando eu tenho que trabalhar cedo no dia seguinte. Vou começar a pensar que é de propósito…
  — Você não tem como provar isso, Jeon — ela deu uma piscadinha de leve ao frisar a palavra, fazendo-o rir da ironia. — E eu também preciso ir trabalhar. Inclusive… — ela olhou para o aparelho de som na mesinha de cabeceira, que marcava 1:55 AM. — Acho que já passou da sua hora. Você deveria…
  Jungkook interrompeu a fala da garota enquanto dava um puxão em sua cintura, aproximando-a de seu corpo e atacando seu pescoço de forma voraz. fechou os olhos, sentindo a boca dele em sua orelha, na curva de sua clavícula, perto de seu queixo. Era delirante ao ponto de se deixar levar novamente por aqueles braços. Mas ela não podia ignorar a hora.
  — Já conversamos sobre as marcas no pescoço — ela sussurrou, lutando para parecer coerente em meio ao tesão que se apoderava dela de novo, principalmente quando ele já chupava a região abaixo de sua orelha. Não queria ter de passar mais maquiagem no local e mentir pra Candice sobre as possíveis causas de um chupão que não envolvam sexo escondido com um idol.
  — Posso deixar em outro lugar — ele transportou os beijos para um dos seios, e ela soltou um gemido quando ele começou a chupar a pele logo acima do mamilo, alternando a língua por toda a extensão daquela parte, descendo os dedos lentamente para o meio das pernas dela, que começava a pensar que aquilo, sim, era de propósito.
  Ela o empurrou bruscamente quando o aparelho apitou às 2:00, fazendo com que os dois voltassem ao foco.
  — A hora, Jungkook — ela falou enquanto se levantava, puxando a camisola de seda que havia ganhado de Candice no Natal passado.
  Ele piscou os olhos, ainda atônito pela volta à realidade e também tratou de se levantar, começando a se vestir com suas roupas inteiramente pretas. Aquele momento era, na maioria das vezes, dotado de um silêncio pesado e sugestivo. Para Jungkook, parecia sempre como uma aura de decepção por colocar fim à vibe prazerosa do sexo cedo demais. Para , era mais como um tanto constrangedor, mesmo que não entendesse como poderia se sentir constrangida depois de todas as coisas insanas que fazia com ele naquela cama sem pudor nenhum.
  Não havia muito o que dizer. Ele queria mais, mas se sentia retraído com toda a diligência da garota em seguir as regras.
  Regras que ele mesmo havia feito.
  Por fim, ele terminou de calçar as botas, descontraído, vendo-a encarar o celular flip com certo cansaço.
  — Então… — Ele começou a falar, pondo-se de pé. — Tem algum trabalho amanhã?
  — Vou pra SM no final da tarde. Os caras do Shinee estão preparando um retorno — ela respondeu enquanto apertava várias teclas de uma vez, desistindo logo em seguida. Estava cansada demais para tentar reanimar um celular que já estava nas últimas. — Devo terminar por volta das oito, então, se…
  — Pelo visto não vou poder te ligar — ele inclinou a cabeça para o celular, agora jogado em cima da cômoda. desviou os olhos, tentando não pensar que teria de ceder à era digital e comprar um telefone. — De qualquer forma, vou estar ocupado amanhã. Por causa da mudança.
  Ele disse enquanto enfiava as chaves e o celular nos bolsos, rolando os olhos pelo quarto em busca de mais apetrechos que poderia ter deixado para trás, como em uma situação anterior que envolveu a chave reserva do carro que quase rendeu um interrogatório minucioso de Candice. Não percebeu o olhar confuso de sobre si.
  — Já vai ser amanhã? — Ela perguntou, finalmente abrindo a porta do quarto enquanto via que ele havia pegado tudo que precisava.
  — É, e não sei exatamente quanto tempo demora isso. Também tenho que passar no estúdio, então, não tenho certeza sobre estar totalmente livre.
  Os dois caminharam pelo corredor vazio e silencioso até a porta da frente do apartamento. Ela acendeu as luzes da sala, pondo as mãos na maçaneta.
  — Certo, então… Boa noite. — Ela disse quando terminava de girar a chave.
  — Candice não voltou ainda? — Jungkook perguntou bruscamente.
  — Não, e provavelmente nem vai. Ela tem dormido quase todas as noites no Yoongi. Imagino que queiram mais privacidade — ela fez uma careta. — Mas costumo vê-la no quarto às quintas.
  — Amanhã é terça — ele disse automaticamente, e arqueou as sobrancelhas para o garoto como se dissesse um grande “e daí?”.
  Ele repuxou os lábios e passou a mão pelos cabelos.
  — Entendo… — Ele encarou ao redor, como se procurasse alguma falha nas janelas ou em qualquer outra parte do apartamento. — E você vai ficar bem sozinha?
   piscou os olhos, claramente confusa com a pergunta.
  — Ahm… Sim, vou? Como sempre fiquei.
  — Claro… Claro — ele concordou rápido com a cabeça, se sentindo atrapalhado por um instante. — Então, eu já vou. Boa noite.
  Ele abriu a porta e deu um passo para fora, girando as costas de volta quase no mesmo momento, apoiando um dos braços no batente.
  — Acho que vou estar livre às dez — disse Jungkook, dando de ombros.
  Ela não segurou um sorriso de canto, claramente debochado.
  — Você vai estar cansado.
  — Garota, não me provoca… — Ele usou seu tom de voz grave e passível, o mesmo que costumava usar quando dizia as palavras sujas no ouvido dela enquanto metia de forma avassaladora. — Melhor não ter nada pra fazer na quarta-feira. Posso ir até de manhã, se quiser.
  — Sem manhãs, Jungkook. Lembra? — Ela segurou o sorriso, controlando-se para não cair na provocação (e na tentação, diga-se de passagem). — Bem, você viu o estado do meu celular. Vai ter que tentar a sorte e aparecer por aqui.
  Ele sorriu de forma cretina. De repente, um toque de consciência o fez ajeitar a postura e retornar à expressão séria e normal de antes. Ele tinha feito de novo: conversar. Uma conversa misturada, escondida nos joguinhos provocativos que ela o fazia começar. Não exatamente ela, mas… Enfim. Ela era um poço de persuasão às suas ideias mais travessas, mesmo que só estivesse parada ali, se despedindo dele depois de já terem transado por horas.
  — Boa noite, — ele disse novamente, lançando um longo olhar para a garota antes de se retirar.
  Ao entrar no carro, ele se perguntou o que diabos estava fazendo.


[ 1 ] – Let me be your coffee pot

Este capítulo está em processo de revisão.

"Se você gosta do seu café quente
Me deixe ser a sua cafeteira
Você que decide, amor
[...]
Segredos que tenho mantido em meu coração
São mais difíceis de esconder do que pensei
Talvez eu só queira ser seu
Eu quero ser seu, eu quero ser seu."
▶ i wanna be yours

  “Você não precisa ir.”
  “Mas ele disse que você podia ir.”
  “Mesmo assim, você sabe que ele a convidou por estarem todos juntos, porque têm convivido bastante nos últimos dias, não por realmente querer que você fosse.”
  “Mas se eu não for, vai ser estranho.”
  “Se você for, também não seria?”
  “Mas já falei a Candice que não vou.”
  “Você sabe onde é, ele te passou o endereço. E ainda acha que ele não quer que você vá?”
  “Mas isso é diferente, não era sua maior vontade me passar o endereço…”
  O barulho de mensagem recebida apitou no silêncio do quarto, estrangulando as vozes do dilema na cabeça de . Ela tateou a cama, inconscientemente pegando seu celular, mesmo sabendo que aquele modelo não era equipado com toque algum de notificação.
  O computador estava em modo suspensão bem à sua frente, e a tela brilhou de repente com o aviso de um novo e-mail. Ela já sabia de quem era, e seu coração deu uma leve balançada ao abri-lo para averiguar a mensagem.
  Os parágrafos acompanhados de uma coletânea de fotos foram exatamente como ela esperava. Apesar dos intervalos de contato cada vez mais espaçados, aquilo não mudava. Jaehyun era uma personalidade constante, e ela sentia que, mesmo depois de descer do avião dali há mais de 50 dias, pareceria que ele nunca tivesse ido embora.
  E era verdade. E, por essa verdade, ela sorriu sozinha, como de praxe. Um hábito há pouco implementado na rotina.
  Mas não sorriu por muito tempo ao ler as últimas linhas. Ele não costumava incluir P.S. algum nas mensagens, nem falar sobre quaisquer outros assuntos que não tivessem a ver com sua viagem ou preocupações esporádicas sobre . Mas, naquele e-mail específico, uma frase fez com que ela fosse puxada para fora da bolha imaginária que se enfiava toda vez que lembrava de Jaehyun e pousasse os pés na realidade: “Soube que Jungkook está fazendo uma festa na casa nova. Você foi, não é?”
  Ela bufou, empurrando o laptop para o lado. Olhou a roupa que Candice havia deixado separada em cima da cadeira da escrivaninha, mesmo que tivesse usado todas as línguas possíveis para afirmar que não iria. Mesmo que Candice insistisse que ele a havia convidado, não importava como aconteceu. Mas Candy não sabia o que estava rolando, ninguém sabia o que estava rolando de verdade. Que se ele quisesse mesmo que ela fosse, poderia tê-la convidado em outro momento, naquela mesma noite, aliás, na mesma cama em que ela estava sentada agora.
  Não que ela se importasse tanto com a educação das pessoas. Eles se deram bem depois do primeiro acordo, e até então, depois do segundo, podia-se pensar que a paz estava instaurada de vez, segundo todos os espectadores. Eles não eram amigos, mas compartilhavam das mesmas companhias, então é compreensível que ela estivesse em sua casa agora, junto com os outros. Não precisaria necessariamente levar presentes, e não iria demorar tanto, de qualquer forma. E ele realmente havia passado o endereço — para a festa e apenas para a festa. Essa era a verdade.
  Afinal, Jungkook só a tinha chamado por isso, certo? Só como mais uma convidada, uma média e não como a garota com quem ele estava transando. Não que isso importasse mesmo – bufou com seu pensamento. E naquele ponto, se pegou pensando no porquê de ter recusado de aproveitar a festa. Claro que ela tinha suas questões, mas seu maior impasse ela já sabia qual era, e aquilo não estava certo. Ela não podia se privar de curtir uma festa, nem que fosse por pouco tempo, por conta daquilo.
  Finalmente levantou da cama e olhou seu reflexo no espelho do quarto, se imaginando por alguns segundos na roupa apoiada na cadeira.

❬📸💔❭

  Jungkook olhou novamente para a porta, de forma involuntária. Ele acreditava que a bebida estava batendo rápido demais, tão rápido quanto as batidas de alguma música eletrônica aleatória que alguém havia colocado. Parecia que havia mais pessoas na casa do que a quantidade que se lembrava de ter convidado, mas poderia ser apenas uma questão de perspectiva. Assim como sua cabeça virando rapidamente a cada barulho da campainha.
  Ele a havia convidado, dois dias atrás, durante uma de suas passagens na agência. Não que pretendesse fazer isso quando a viu — na verdade, ele não sabia se pretendia alguma coisa. Ele estava com os outros membros e o assunto veio à tona, e não faria sentido não convidá-la. Isso porque era nítido para todos o cessar fogo instaurado há algumas semanas atrás, mesmo que o pé da relação agora estivesse em outro patamar, completamente diferente, tão diferente que fazia com que não trocassem mais que cinco palavras nos espaços compartilhados com os amigos. Mas não brigavam mais, mesmo que claramente houvesse algo estranho, muito estranho, algo que as pessoas certamente reparariam se decidissem parar e pensar demais. Não que isso fosse plausível — elas estavam muito ocupadas, ficando aliviadas por todo o clima pesado e as alfinetadas vindas de ambos os lados ter finalmente chegado ao fim.
  Portanto, não havia porque não convidá-la. Mesmo que, em suas reflexões posteriores, ele tenha se perguntado como aquilo seria visto pelos outros. Jin claramente lhe deu um sorriso satisfatório de canto, parabenizando-o telepaticamente por ter dado mais um passo em toda a questão de se aproximar e ser mais legal com a garota. Jungkook entendia a parte do ser mais legal, era o que ele estava fazendo, o que estava tentando fazer, mesmo antes do último acordo. Agora, toda essa questão parecia mais fácil, e ter negado o convite para ela seria uma demonstração desnecessária e mentirosa do que realmente estava acontecendo, mesmo que as pessoas não soubessem da metade.
  Porque mesmo que a intenção primordial fosse de que nada mudasse, automaticamente as coisas mudaram. Não que ele soubesse disso, não que ponderasse sobre o assunto nas horas vagas e muito menos que algo emocional estivesse envolvido, ele tinha certeza. Mas, bem, ele não queria repelir de sua frente toda vez que a olhava agora, nem tinha o menor interesse em lembrá-la das coisas que fez de errado, muito menos sentia mais raiva. Todos esses sentimentos pareceram se converter em um tesão maluco por ela e a ansiedade estranha de olhar para a porta. E isso já poderia ser considerado uma mudança e tanto.
  Não era uma ansiedade para que ela aparecesse. Ele sinceramente achava que ela não fosse aparecer, não depois do olhar que lhe lançou quando ele a convidou. E não podia culpá-la, aquilo foi uma surpresa. E, mesmo que não existisse cláusula alguma no acordo que vetasse a ida da garota à sua casa, ele nunca a convidou. Morava no endereço novo fazia apenas uns três dias, mas também não se deu ao trabalho de ter seus encontros com ela na antiga casa, onde ela havia praticamente invadido depois de beber demais e contado sobre suas questões sexuais fazia menos de um mês — não, não era por nada disso. Mas se ela aparecesse, como ele agiria?
  As pessoas poderiam pensar que eles eram amigos, tudo bem. Era melhor do que se pensassem em algo além disso, bem além disso.
  Ele varreu os devaneios da mente, concentrando-se na história engraçada que Mingyu contava no semi círculo dos amigos da mesma idade, que seria sobre um dia que ele havia tentando pular no mar em uma viagem de barco e na verdade estava tão bêbado que teve de ser salvo pelos outros amigos, tão bêbado quanto estava naquele momento. Jungkook riu, bebendo mais um gole da cerveja quase no fim e se preparando para voltar a atenção agora para alguma história de Yugyeom. A campainha tocou mais uma vez.
  Desta vez, ele estava absorto. A história de Yugyeom o envolvia, e eles riram alto ao se lembrar de uma noite fatídica em uma boate em Gangnam, regada a rodada de shots para todos os presentes e outras coisas que nenhum dos dois se lembrava.
  Ele nem viu Eunwoo saindo de seu lugar, murmurando algo sobre uma caixa de cerveja que havia pedido. Ele costurou o montante de pessoas apinhadas no cômodo central até chegar à porta da frente, perguntando-se se só ele estava escutando a campainha estridente tocar.
  Ele abriu a porta e se deparou com uma garota segurando uma enorme caixa de cerveja. Tão enorme que ela parecia estar se esforçando para mantê-la nos braços, e sua cabeça praticamente sumia por detrás dela.
  — Ah, você finalmente chegou! — ele disse, curvando-se para pegar a caixa dos braços da garota, encarando seu rosto — Você é a nova entregadora? Achei que vocês usavam uniforme, mas você até parece arrumada para uma festa.
  Eunwoo riu, enquanto a garota o olhava estática, com certa confusão. Ela tentou olhar brevemente para trás dele, buscando desesperadamente encontrar Candice ou Yoongi, ou qualquer outra pessoa que conhecesse para não precisar se comunicar com seu coreano ainda imaturo.
  Ele percebeu a inquietação da garota, olhando ligeiramente para trás.
  — Você fala coreano? — ele perguntou, desta vez mais devagar, e ela abriu a boca para responder, mas foi interrompida por ele — Aish, me perdoa. Eu não sabia que a distribuidora tinha contratado uma estrangeira. Entre por um minuto pra que eu possa te dar o dinh…
  — Você viu a Candice? — ela perguntou na frente, um pouco hesitante, mas tendo certeza de que não havia dito palavras erradas.
  — Candice? — ele juntou as sobrancelhas — A loira da revista?
  Ela concordou com a cabeça no mesmo momento em que a música havia subido três oitavas a mais. Eunwoo tentou falar e gesticular, mas a caixa de cerveja nos braços não permitia e muito menos o barulho. Por fim, ele moveu a cabeça para o lado, indicando para que a garota entrasse e saísse do lado de fora.
  Ela não podia imaginar que Jungkook havia convidado tanta gente. Bom, mesmo que não tivesse sido exatamente isso, a sala de estar e o jardim estavam lotados, mesmo que as pessoas parecessem bem mais interessadas em conversar de pé do que necessariamente dançar em cima de mesas. À medida que o álcool subia, as vozes ficavam mais altas até se transformarem em gritos e gargalhadas, vedando ainda mais a comunicação normal e exigindo o desafio entre som e voz, quem ganhava.
  Ela seguiu o garoto até a cozinha, que estava mais iluminada e com menos gente. teve de se controlar para não deixar claro o quanto estava admirada pela arquitetura escura do ambiente, com detalhes em inox e azul, mas a cor preta em sua totalidade. Era a cara de Jungkook. Ele depositou a caixa em cima da ilha, virando-se para ela.
  — Nossa, isso estava muito pesado. Como você trouxe isso sozinha?
  — Eu vim de táxi — ela deu de ombros, agora olhando direito para o garoto alto à sua frente. Ela o conhecia brevemente da TV, e sabia que era um amigo de Jungkook.
  Ele a encarou por quase um minuto inteiro antes de passar uma das mãos no cabelo, colocando a outra no bolso.
  — É… Parece que você não é uma entregadora nem nada disso — ele riu, claramente envergonhado. A situação fez com que ela risse também, mesmo contida — E espero que não seja uma sasaeng também. Você disse Candice, não é? É amiga sua?
  — Amiga e colega de quarto.
  — Sério?! Espera, você é a…
  — ? — ela ouviu seu nome ser chamado por suas costas e virou-se rapidamente, se deparando com Jungkook, que a olhou sem expressão alguma. Aquilo causou algo estranho no peito dela. Será que ele esperava — e torcia — que ela não fosse aparecer?
  Mas a voz que dissera seu nome não havia vindo dele. A voz veio do rapaz ao lado, um que se lembrou imediatamente ao vê-lo sorrir.
  — Yugyeom? — ela arriscou o nome, vendo-o abrir ainda mais o sorriso.
  — É sempre bom ser lembrado — ele curvou-se de forma teatral e exagerada, arrancando uma risada contida dela — Você é a fotógrafa que participou da nossa sessão em DYE, se eu não tô bêbado o suficiente pra me confundir. Era a única estrangeira contratada. Você fez um ótimo trabalho!
  — Ah… Obrigada — ela corou, e baixou os olhos quase automaticamente — O trabalho foi da equipe inteira, eu só tive a oportunidade de participar. E vocês são naturalmente talentosos pra essas coisas, então…
  Ele riu de forma espontânea e alegre, contagiando a garota à frente e Eunwoo pareceu começar a comentar sobre como havia encontrado a garota na porta e salvado-a da caixa pesada e, de quebra, perguntou como ela nunca havia tirado fotos dele e do grupo. Rapidamente, ela se via no meio dos dois caras que batiam um papo entre si que a envolvia, mas ela não se sentia mais tão deslocada ao ter decidido aparecer naquela festa de última hora, mesmo que ainda não tivesse encontrado Candice.
  Candice. Ela se lembrou da amiga e olhou novamente ao redor, mas estacionou nos olhos dele, que a encarava com uma expressão estranha, quase hipnotizada, como se estivesse confuso com a presença dela ali. Não a ajudou muito a se sentir confortável.
  Ainda assim, ele lhe lançou um sorriso de canto, em cumprimento básico, não se demorando muito no gesto. Ela acenou levemente com a cabeça, retribuindo.
  Ela limpou a garganta, desviando os olhos, voltando a procurar por Candice. Desde aquela festa do Grammy, há algumas semanas, e posteriormente das coisas que fizeram no quarto dela na hora seguinte, e de todas as outras vezes que vieram depois, era um pouco esquisito olhar nos olhos de Jungkook. Pelo menos em situações normais. Olhar para ele agora significava outra coisa, trazia de volta outros tipos de lembranças e todas elas tinham a ver com suas pernas em volta da cintura dele, suas mãos passeando pelo seu corpo enquanto ela sentia ondas de um prazer inimaginável, que eram diretamente relacionadas à língua dele explorando seu colo, suas costas arqueadas para que ele fosse mais rápido e sua mão em sua boca, tentando abafar os gemidos desesperados que acordariam todo o prédio caso não fossem contidos. Tudo isso enquanto olhava nos olhos dele.
  Portanto, era diferente. E ele sabia. E sentia o mesmo.
  Mas ele era o anfitrião e, por mais que no fundo não conhecesse metade das pessoas que estavam ali, ao menos conhecia ela, e portanto sabia o quanto ela devia estar se sentindo perdida.
  Ele olhou para ela, ainda entre Eunwoo e Yugyeom. Inclinou a cabeça para o lado, chamando-a para perto dele. Ela olhou em volta, como se perguntando se aquilo era com ela mesmo. Ele riu da situação e balançou a cabeça, sentindo o álcool girar rapidamente. Caminhou para ela até chegar em suas costas, inclinando a cabeça em seu ouvido.
  — Vem comigo, vou te levar até Candice — ele soprou em sua orelha, e se controlou ao notar o primórdio de um arrepio na nuca, empurrando a sensação para bem longe, mandando embora toda aquela loucura.
  Ela olhou para ele enquanto concordava com a cabeça, despedindo-se brevemente dos outros dois rapazes que ainda conversavam, precisando inesperadamente falar mais alto pelo aumento repentino do som. Ela torceu para os novos vizinhos de Jungkook serem bastante compreensivos.
  Ele fez sinal para que ela fosse na frente, de repente ela estava se embrenhando na sala apinhada de pessoas e a luz baixa não ajudava em absolutamente nada para saber seu destino, já que nunca estivera no lugar. Ela bufou e se virou para trás em busca de Jungkook e levou um rápido susto ao notar o garoto em seu encalço, com as sobrancelhas franzidas, perguntando-se porque ela havia parado. Ele fez sinal para que ela continuasse em frente, em direção ao jardim, e ela se virou novamente, desta vez sentindo a palma da mão dele em suas costas desnudas pelo vestido preparado por Candice, guiando a garota até o lado de fora.
  A situação da aglomeração deste lado não estava muito diferente do de dentro. Ela registrou o lugar na memória porque era impossível: mesmo com o número elevado de pessoas, ainda era possível perder o fôlego pelo gramado e pelas luzes que circundavam a área da piscina, pelo caminho de pedras até uma grande sacada com pelo menos três pares de sofás e, claro, um saco de pancada.
  — Gostou da vista? — ele a tirou de seus pensamentos, sorrindo de forma divertida enquanto bebia mais um gole da cerveja.
  — É bonita, Jeon. Foi você mesmo que escolheu? — ela cerrou os olhos.
  — Você subestima meu bom gosto.
  — Não, isso tem mais a ver com sua incrível capacidade de ser um mão de vaca — ela deu de ombros, rindo logo em seguida. Ele acompanhou o embalo, talvez rindo um pouco mais alto pelo efeito da bebida, mas tinha algo estranho.
   foi a primeira a perceber. Ela desviou os olhos, limpando a garganta e cruzando os braços. Algo gritava para ela, vindo de algum lugar aleatório, mostrando que eles não deveriam rir daquele jeito.
  — E a Candice? — ela perguntou rápido, antes que ele também percebesse.
  — Ah, claro… — ele passou uma das mãos no cabelo, começando a andar rente à piscina, onde depois de alguns metros estava uma grande mesa de madeira polida, ocupada por Jimin, Taehyung, Yoongi e, claro, Candice.
  A garota gritou e se levantou antes mesmo que chegasse perto.
  — Não acredito! — ela praticamente correu até a amiga, puxando-a para perto da mesa depois de engolfá-la em um abraço de urso — Você disse que não vinha!
  — Também ouvi esse papo, ! — foi a vez de Jimin se levantar, caminhando até a garota e, como sempre, lhe dando um abraço. — Mas que bom que você veio. Eu já ia preparar o roteiro de um belo drama dizendo que não existe festa sem você — ele piscou um dos olhos, fazendo rir. Ali estava um bom motivo de ela ter decidido sair de casa naquele dia.
  Ela puxou uma cadeira para se sentar entre Taehyung e Jimin, que, por incrível que pareça, não pareciam estar tão bêbados ainda, mesmo que o tampo da mesa estivesse tão abarrotado de garrafas vazias que ela mal conseguia apoiar os cotovelos. Ela viu Jungkook se sentar do outro lado, próximo a Yoongi, trocando algumas palavras inaudíveis com o membro mais velho enquanto se serviam de mais uma cerveja.
  Ela juntou as sobrancelhas e se perguntou por que ele estava se sentando ali, visto que era o anfitrião e havia deixado pelo menos três amigos para trás na cozinha, e deveria se sentir bem mais confortável com eles e que não precisava se estabelecer ali, naquela mesa, com aquela turma, não nesta festa em questão.
  Um nervosismo incômodo tomou conta dela novamente, mas logo dera um jeito de mandá-lo embora. Ela estava sendo paranoica, de novo, para variar. Estava achando, de forma errônea, que todas as pessoas da mesa, ou pior, todas as pessoas daquela festa descobririam sobre sua série de perversidades com o maknae só de vê-los juntos, e até se dando bem. Era uma preocupação que rondava sua mente sempre que ele chegava perto dela em público e ela não entendia o porquê. Ele parecia tão tranquilo, descontraído, conversando com Yoongi como se fosse em qualquer outro dia, qualquer outra situação antes do acordo. Ela era a única que estava delirando.
  Bufou, aceitando a cerveja oferecida por Taehyung. Ela não deixaria esses pensamentos a dominarem, não quando eles nem ao menos faziam sentido.
  — Ei, esse vestido é bem bonito — Taehyung comentou, tirando os olhos do celular para observá-la. — Você anda esbanjando flores ultimamente.
  Ela pareceu demorar um pouco para entender o elogio, já que o garoto apenas deu um sorriso de canto e voltou a mexer em algum tipo de rede social. Ela sentiu os olhos de Jungkook em cima dela de novo, mas tão rápido que pensou ter realmente imaginado. O mesmo olhar que ele a lançou assim que chegou. Ela murmurou um agradecimento a Taehyung, voltando-se para sua cerveja.
  — Ele está certo, . Contando o fato de que mereço grande parte do crédito por esse novo estilo — comentou Candice, piscando para a amiga.
  Ela sorriu para Candice, mesmo que quisesse enterrar a cabeça em algum buraco ao ser alvejada pelos olhares de todos. Mas não podia culpá-los por isso, ela realmente estava um tanto diferente das reuniões anteriores. Até havia deixado Candice arrastá-la para qualquer rua de lojas onde pudesse comprar um rímel e um batom na semana passada. Apesar de ter batido o pé e explicado mais de cinco vezes que era apenas para causar uma melhor impressão profissional, Candice não caiu nessa. Nem ela mesma acreditava nisso.
  Mas não sabia explicar de verdade o que era toda aquela vontade de parecer um pouco mais feminina, então simplesmente não pensava sobre o assunto. Assim como outras questões que ela se detinha em adiar por mais um tempo.
  Uma cerveja seguida da outra, ela já estava rindo de forma exorbitante enquanto conversava com Jimin. Ele, que contava sobre algum perrengue na América nos últimos sete anos, fazia questão de gesticular com seu corpo inteiro enquanto demonstrava como foi rasgar o casaco da performance e ter de pedir outro à equipe de staffs vizinha da premiação, usando seu inglês menos do que básico.
  Candice também aproveitou para fazer a mesa inteira rir com as histórias dos primeiros dias dela e de na Coreia, e de como era fácil errar e trocar palavras até para comprar uma simples melancia. Tudo tinha um ar cômico bastante elevado com o passar das horas, e teve plena certeza de que não deveria mesmo ter ficado em casa.
  A não ser quando Jimin de repente disse:
  — Vamos brincar de verdade ou consequência! — Ele gritou, já bêbado e tosco para todos na mesa, que vibraram com a proposta. Até mesmo Candice, mesmo que Yoongi tenha adotado uma expressão claramente receosa.
  — O que… — começou a falar, tentando acompanhar o raciocínio.
  — Hobi, pega uma garrafa — Jimin chamou, e o amigo prontamente arrastou as demais garrafas vazias da mesa, depositando uma delas virada na horizontal. — E vai chamar os outros.
   começou a entender o que estava acontecendo. E não gostou nem um pouco.
  — Não! — ela gritou, mais alto do que pretendia. Todos os olhos viraram para ela, principalmente o dele. Ela não sabia o que sua testa franzida significava, mas tinha certeza de que não queria participar daquela brincadeira.
  Mas também não podia simplesmente levantar e se retirar. Achar um táxi àquela hora, ainda mais em uma região que não conhecia bem, somado ao estado grogue em que quase estava, não daria um bom resultado. Muito menos sair andando por aquela festa. Imagina se acabasse no quarto dele sem querer? De jeito nenhum. Ela só podia fazer uma coisa.
  — Tenho outra ideia — ela se apressou em se levantar e distribuir os copos espalhados para cada um dos presentes. — Vamos jogar “eu nunca”.
  Agora as testas franzidas se aplicavam a geral.
  Ela explicou rapidamente: alguém usaria o prefixo “eu nunca” para relatar uma certa situação. Se aconteceu com você, era soju goela abaixo. Se não, era só ficar na sua mesmo.
  Por sorte — e alívio — a ideia foi bem aceita, até mais do que a verdade ou consequência. Essa tinha bem menos chances de dar errado, diga-se de passagem. Ela com certeza tinha ficado melhor em mentir nos últimos tempos, mas ainda não era tão convincente. Em um minuto, os outros rapazes da cozinha já tomavam novos lugares à mesa, recebendo explicações rápidas dos outros.
  — Ok, vou começar! — Jimin falou, pensando por um segundo. — Eu nunca pulei de paraquedas.
  Pelo menos metade da mesa bebeu. E o início do jogo foi aceitável e tranquilo. O próximo a falar foi Taehyung, que lançou o “eu nunca bebi makgeolli com soju” como uma provocação a todos beberem. e Candice se safaram bem dessa. Mas a partir daí, a brincadeira tomou a proporção indesejada, porém esperada: os membros se conheciam, e então todas as sentenças eram dadas de propósito, de acordo com um conhecimento prévio de suas ações. Era roubado.
  Mas estava divertido, ela não podia negar. Também tinha sido alvo das frases propositais, como nunca escrever um caractere errado ou nunca ter escorregado na rampa de mármore da entrada da Big Hit. Nunca ter trocado beijos com alguém no estúdio de dança foi pesado à primeira vista e revelou coisas antes inimagináveis, mas isso nem chegava perto do que estava por vir.
  Quando Hobi decidiu dizer o “eu nunca fiz sexo na mesa.”
  Ok, daí teve certeza absoluta de que eles estavam além de bêbados.
  Praticamente todos eles beberam, com exceção de . Ela achou que Namjoon estava na mesa, mas àquela altura não dava para ter certeza. Se estava, ele rapidamente se retirou quando o nível da brincadeira começou a baixar. E se ela tivesse percebido antes, teria feito o mesmo.
  Porque a coisa estava começando a ficar reveladora demais. Talvez até tensa demais, mas ela não queria pensar nisso. Ela ria sem perceber, de forma espontânea, porque todas as frases de cunho sexual vinham acompanhadas da história de como aquilo aconteceu. Ela riu até de Jungkook, quando contou a situação da transa ao ar livre, sem mencionar nomes ou lugares, apesar de ela imaginar bem de quem ele falava. Uma imaginação louca de experimentar o corpo dele em cima do seu enquanto sentia a maresia do mar passou correndo pela sua cabeça, e ela se viu em transe por alguns instantes, prendendo a respiração pelo formigamento no estômago que apareceu de imediato.
    Por favor, que ninguém insinue carro, ou bancos de carros, ou Mercedes, ou qualquer coisa desse tipo…, o pensamento surgiu na mesma hora, e ela desviou os olhos depressa.
  Jungkook talvez tenha notado esse olhar mais intenso e também notado quão poucas vezes ela tinha bebido. Ele podia adivinhar a mente de Jimin gritando para saber se ela era tão inexperiente quanto aparentava, e ele deu uma risada grogue ao imaginar que sabia a resposta.
  Mas ele não riu por muito tempo. Não depois que Candice soltou um “eu nunca transei em uma fraternidade.”
  Houve alguns murmúrios sobre a jurisdição do significado de fraternidade na Coreia, mas Jungkook não participava da conversa. Ele só prestou atenção no momento em que Candice bebeu e, depois, a garota do outro lado da mesa.
  Ele teve um breve pico de consciência. Lembrou-se de invadindo seu apartamento há algumas semanas, tão ou menos bêbada do que agora, repetindo os absurdos de ser meio virgem. Ele afastou o assunto de imediato na época, mas não o esqueceu. Ele se lembrava de ela ter mencionado sobre a única pessoa com quem fizera tal coisa.
  O que ele estava pensando? Isso não era importante.
  Jimin apontava eufórico para a garota, pedindo malditos detalhes, e Jungkook esticou os ouvidos. Mesmo que fosse certo que ela jamais contaria tal coisa na frente dos outros.
  Mas ele já estava sinceramente curioso. Como foi? Ele foi tão babaca que não a deixou tentar de novo? Não a fez querer de novo? Será que ao menos tinha olhado pra ela? Ou ele poderia ser seu namorado, mas… por que transar com um namorado seria tão traumático assim?
  — JK! — ele ouviu a voz de Hobi, tirando-o de seus devaneios totalmente inesperado. — Tá esperando o que pra beber? A gente falou do quarto de hotel, e nem adianta fazer essa cara de desentendido pra mim.
  Hobi gargalhou junto com os outros, e Jungkook olhou novamente para a garota. Engoliu a bebida em uma virada só e começou a se levantar.
  — Acho que eu vou… — ele encarou os amigos, pensando em uma desculpa o máximo que seu cérebro permitia. — Vou juntar as louças… E limpar a cozinha.
  As palavras saíram sem firmeza alguma e a reação coletiva foi encará-lo com a confusão estampada no rosto. Desde quando ele limparia alguma coisa quando a festa nem sequer tivesse terminado? E Jimin sabia que ele já tinha deixado a limpeza nas mãos de profissionais no dia seguinte. Aquilo não fazia sentido.
  Apesar disso, ninguém discutiu. Hobi bem que tentou, mas Jimin tratou logo de retornar à brincadeira. encarou o rosto do rapaz e viu que ele fazia o mesmo. Ele desviou os olhos e começou a caminhar de volta para dentro.
  — Eu acho que ele vai precisar de ajuda. Divirtam-se — ela disse do nada, alto o bastante para que ele escutasse e parasse no meio do caminho. A saída dela gerou ainda mais protestos, e ela rezava para que ninguém assumisse coisas demais. Porque realmente não era nada daquilo, ela só não queria mais jogar. E não via problemas em ajudá-lo, visto o tamanho daquela cozinha.
  A gritaria repentina de Yugyeom surgiu do nada e viu a brecha para se levantar e ir ao encontro de Jungkook.

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  Jungkook caminhou na frente da garota desta vez, sabendo que estava com uma expressão estranha. Ele sentia que não estava muito normal, mas era difícil de explicar e ir lavar as louças era um bom motivo para fugir de perguntas e, consequentemente, de mais respostas.
  Ele não fazia ideia de que horas eram, mas a sala parecia mais vazia, não perdendo exatamente o status de lotação, mas estava mais fácil se deslocar até a cozinha sem esbarrar em dezenas de ombros desta vez. Esta estava igualmente desocupada, à medida que o som acústico do jardim começava, com a performance exclusiva de Taehyung e Jimin, na versão mais alcoólica possível.
  Ele começou a juntar as garrafas espalhadas na ilha, no chão, na pia, empilhando-as em uma caixa de papelão, olhando para algumas vezes enquanto ela fazia o mesmo com os pratos, tentando desfazer o vinco da testa e tornar o clima mais leve, seja lá qual fosse o motivo para que ele ficasse daquela forma, mas ele não podia existir, porque não havia motivo, ele não entendia a razão de estar incomodado.
  Ela terminou de empilhar parte das louças dentro da pia enquanto ele andava de um lado a outro pela cozinha, procurando mais garrafas a empilhar, buscando mais um tempo distante dela e em silêncio, para que pudesse se recuperar, para que pudesse esquecer, seja lá o que tinha de esquecer. A bebida, ele pensou. Céus, eu bebi demais.
  Ela também não estava avulsa ao clima estranho no ar, igualmente desconhecendo sua origem. Era um fato que haviam combinado não jogar muita conversa fora quando estivessem sozinhos, ainda mais quando não envolvia os dois completamente nus, mas aquela regra não era lá seguida tão à risca. A maioria das conversas eram sobre o que, na verdade, estavam fazendo — sobre o que ela queria ou não, o que a incomodava ou não e todas as frases desconexas que saíam de sua boca quando ele a deixava tão louca que facilmente se esquecia da onde estava. E eles riam e até se divertiam às vezes, e não ignorava o fato de parecer saber quando ele estava bem ou não — ou, naquele caso, quando repentinamente havia ficado um pouco… Estranho?
  As frases pré formuladas para uma tentativa de questionamento sobre seu estado vieram e foram quase ao mesmo tempo, e ela já imaginava a resposta caso decidisse perguntar. É claro que ele diria que sim, estava tudo bem, que só devia estar cansado.
  Ela retornou o foco para as louças, pegando as luvas pretas de látex no armário acima de sua cabeça quando escutou:
  — Pode deixar aí que eu lavo — a voz dele surgiu do outro lado do cômodo. — Volta pra festa, você não curtiu quase nada ainda.
  O tom dele foi firme, e em poucos minutos ele já caminhava em direção a pia, esperando que ela chegasse para o lado e o deixasse tomar o controle.
  Ela piscou algumas vezes e se afastou, mas não foi embora. Contornou as costas do garoto, apoiando o quadril na bancada enquanto ele colocava as luvas e lançava um olhar curioso.
  — Vou guardar os pratos. Não te dá uma certa nostalgia? — ela deu de ombros, abrindo um sorriso que amenizasse a cara estranha dele. Pareceu dar certo quando ele riu, balançando a cabeça.
  — Não precisa, mesmo. Mas você não vai sair, não é? — ela negou com a cabeça enquanto rolava os olhos a procura de um pano.
  Ele balançou a cabeça enquanto começava o serviço. Ela seguiu o ritmo dele, em silêncio.
  Ela suspirou antes de arriscar:
  — Tem alguma coisa te incomodando?
  Ele quase trincou os dentes. Queria que ela o tivesse seguido até ali para achar uma rota de fuga da brincadeira e da cantoria do karaokê, mas não por causa daquilo. Ele nem sabia o que responder.
  — Não tem nada me incomodando — ele deu de ombros — E você?
  — Como assim?
  — O jogo incomodou você?
  — Seria estranho, já que dei a ideia — ela posicionou um prato lindo e preto dentro de uma gaveta. — Mas devo dizer que não imaginei que ele tomaria proporções tão…
  — Vulgares? — completou ele, rindo logo em seguida. — Fica tranquila, normalmente eles dizem coisas piores quando estamos sozinhos. E não vão se lembrar disso amanhã, posso te garantir.
  — Eu não iria querer, depois de todas as histórias que ouvi — ela riu, e ele a encarou com o canto do olho de forma automática. Algo a dizia que certa desconfiança escapou daquele olhar, mas preferiu ignorar tal devaneio.
  — Você certamente vai ser a única a se lembrar. Posso contar nos dedos quantas vezes você bebeu.
  — É, a minha vida é um pouco parada, ainda mais no quesito vulgar da coisa.
  Jungkook virou a cabeça na mesma hora, não controlando a risada que se apoderou de sua garganta. Ela sentiu as bochechas ficarem vermelhas ao perceber o que disse.
  — Ei… — ela falou baixo, dando uma rápida olhada para os lados, sentindo a paranoia invadi-la de novo, convencendo-a de que a cozinha não estava tão vazia assim e alguém poderia ouvi-los caso começassem a falar daquilo.
  — Desculpa — ele riu novamente, desligando a torneira e retirando as luvas. — É que a sua pose de durona agora tem um milhão de vezes mais graça, .
  — Bom, você não pode dizer que estou mentindo — ela o empurrou com o quadril, começando uma limpeza metódica ao redor da cuba.
  Jungkook colocou uma das mãos na cintura, franzindo as sobrancelhas.
  — Parada? — ele se aproximou de seu ombro, chegando perto de seu ouvido. — Quer que eu vá lá fora e diga em detalhes o quanto sua vida sexual anda parada?
  Ela olhou novamente para os lados, desta vez pela aproximação inesperada dele. Sabia que as atitudes de Jungkook estavam sendo seriamente guiadas pelo álcool e que ele jamais se aproximaria daquela forma se estivesse sóbrio, muito menos em público.
  — Pode chegar pro lado, por favor? — ela arqueou a sobrancelha, empurrando-o mais uma vez. — Não queira fazer um jogo de comparações, Jeon.
  — Pelo visto, quem gosta de jogos aqui é você, .
  Ela riu, juntando uma pequena pilha de pratos.
  — Batalhando com você, eu com certeza só tenho a perder. Nada do que fizemos chega perto da sua prática na banheira, barco, backstage e, eu ouvi acampamento? — ela estreitou os olhos.
  — Você tá me provocando, não é?
  Ela balançou a cabeça e riu. Abriu um armário acima de sua cabeça e ergueu os pés para guardar a pilha de pratos. Ela segurava com firmeza e confiança, mas ainda assim sentiu o corpo dele em suas costas, pegando os pratos de sua mão e colocando-os no seu devido lugar.
  Ela ignorou o arrepio que atravessou sua nuca, e esperou que ele saísse.
  — Você tem algo que eu não tenho, — ele disse, ainda parado atrás dela, inclinando-se até seu ouvido e sussurrando: — Fraternidade.
  Ele andou até a ilha, começando a amarrar as sacolas já muito bem amarradas do lixo e separando-os bem devagar, procurando algo a fazer.
  Ele ouviu a risada dela, e sentiu uma queimação no peito.
  Bolas até o outro lado da cozinha. Perguntas se embolavam em sua cabeça, um interesse absurdo por aquele assunto, que o deixava loucamente ofendido. O que ele pensava que estava fazendo?
  — Era seu namorado? — perguntou ele, indiferente, voltando à pia, vasculhando louças esquecidas ou qualquer fio fora do lugar.
  Ela juntou as sobrancelhas enquanto apoiava o quadril na bancada, de costas para a pia.
  — Era um amigo — respondeu, cautelosa. Não era um assunto muito falado. — Quer dizer. Eu o conhecia há uma semana. Então, um quase-amigo.
  — Foi bom?
  — Por que quer saber disso, Jeon? Aceitou o jogo de comparações?
  — Você me ofende se quer me comparar com um cara qualquer que não soube fazer o trabalho dele direito.
  — Eu gozei, isso não é fazer o trabalho direito? — ele virou a cabeça rápido demais, e ela segurou um riso. — Bem, eu acho que gozei…
  — Quantas vezes? — ele ergueu as sobrancelhas, sentindo a queimação de novo. De novo a provocação. Ela estava com aquele olhar brincalhão que o fazia ter vontade de agarrá-la ali mesmo.
  Ela olhou para os lados, como se não entendesse a pergunta.
  — Não tivemos tanto tempo assim…
  — Não é uma questão de tempo. Posso apostar que você não curtiu nenhum segundo disso, quanto mais gozar. Não do mesmo jeito que eu…
  A mão dela voou para sua boca, os olhos se alarmando ao verificar o ambiente. Uma garota loira cambaleou até a ilha, estudando o tampo até pousar o copo em cima do mesmo e encarar e Jungkook. Ela o soltou imediatamente.
  — Bela festa, Jungkook-ah — ela lhe lançou um sorriso. — Não imaginei que, no final de tudo, você viria para Itaewon.
  Jungkook arqueou as sobrancelhas. A garota se virou para logo ao seu lado, piscando os olhos devagar.
  — Ei, as bebidas acabaram? — ela perguntou com voz arrastada. Seu rosto não era tão estranho. — Bebidas… Você me entende? — ela disse mais uma vez, gesticulando com as mãos. lembrou-se brevemente de seu nome ser Eun-ha, mas não tinha muita certeza disso. Acatou o pedido como uma ordem e se virou para ir à geladeira, mas sentiu o aperto de Jungkook em seu pulso.
  — Acho que dei liberdade suficiente pra todo mundo se servir por aqui — ele murmurou, dando um sorriso de canto. — Acho que preciso ficar um pouco sóbrio. Você vem?
   não entendeu de imediato o direcionamento da pergunta, mas foi conduzida do mesmo jeito, antes de dar qualquer resposta. Ela arregalou os olhos, olhando para trás com certo pedido de desculpas. Atravessaram a sala sem grandes problemas até uma porta preta e alta debaixo da escada em espiral, que se abriu em um dos cômodos mais surpreendentes em que ela havia estado.
  Claro que ela já havia entrado em um estúdio, mas não como aquele. Os estúdios de agências gigantescas eram igualmente largos e pomposos, ostentando aparelhos de última geração que visavam a melhor qualidade da música. Aquele em que pisava agora era mais como um espaço amador e extremamente pessoal. Ela soube disso ao encarar as paredes negras, o sofá largo de couro igualmente preto e uma mesinha de centro em cima de um tapete fino de fiapos emaranhados. A mesa no outro canto continham os materiais característicos para uma gravação simples, acústica, sem grandes edições.
  Apesar de ainda surpresa, de repente se viu imaginando um Jungkook sozinho em seu tempo livre, compondo no sofá de couro confortável, levantando-se para registrar seu trabalho em pura voz e violão, deixando-a desconcertada por um momento ao notar que realmente gostava da voz dele.
  Ele fechou a porta e caminhou até a mesa grudada à parede do outro lado, onde havia uma cafeteira moderna, inúmeros sachês de café instantâneo em um recipiente e um frigobar. Ele tirou um pacote de grãos inteiros de café de uma das gavetas. Não disse uma palavra sequer.
  Ela bufou e caminhou até ele.
  — Você é maluco? — disse, entre dentes — Tem noção de que é no mínimo bizarro me arrastar desse jeito no meio de todo mundo?
  — Você sempre precisa fazer tudo que te dizem sem pestanejar? — respondeu ele, sem virar o rosto.
  — Você ‘tá exagerando… — ela revirou os olhos.
  — Pergunte às suas horas extras na Big Hit pra ver se eu tô exagerando.
  — Não existem horas extras quando não é bem um emprego fixo — ela deu de ombros, insegura. Não gostava nem queria concordar com Jungkook. Aquilo não era sobre ela. — E agora pode me explicar por que estamos aqui?
  — Não gosta de café de verdade?
  — ‘Tô surpresa que você goste — ela debochou.
  — Engraçadinha — ele grunhiu, pegando o moedor de outra gaveta. — Às vezes eu só não tenho tempo de apreciar certas coisas, então não posso criticar quem criou o café instantâneo.
  — Uh, tocante — ela disse, com desdém. — E então ‘tá com tempo agora?
  — Tempo bastante para dar uma festa — ele respondeu. — E perceber como a tolerância dessa galera é mais alta do que imaginei.
  Ela encarou ao redor novamente. As paredes não pareciam comuns, e ela não conseguia mais escutar a música alta do lado de fora.
  — Aquela garota — começou a falar, chamando a atenção dele —, é a Eun-ha do Gfriend?
  Jungkook não tirou os olhos dos grãos.
  — Sim — murmurou.
  — Foi com ela que você…
  — Não.
  — Mas naquela manchete...
  — Não.
  — … Vocês dois na frente do hotel…
  — Não importa — ele a encarou por um momento antes de desviar os olhos. Pareceu se apressar em encher uma chaleira elétrica de água enquanto mantinha o maxilar trincado. riu novamente, desta vez sem nenhuma tentativa em se conter.
  — Saquei, fez tudo isso pra se livrar dela — ela estalou a língua, cerrando os olhos. — Bem que eu notei o olhar diferente. O que foi, ela não gozou nenhuma vez e por isso você foge com o orgulho ferido?
  — Ah, sua… — ele trincou os dentes, e ela riu ainda mais. Era enérgico e alegre, fez com que ele baixasse os ombros e rir também. Só o fez ter certeza de que os dois estavam bêbados, era isso. — É sério, cansei das suas provocações. Elas são divertidas na cama, mas aqui sem dúvida é uma má ideia. — Acho que você está pensando demais — ela balançou a cabeça e começou a organizar a bagunça que ele havia feito. — E espero que nenhuma das pessoas lá fora façam a mesma coisa. Aliás, desligaram a música? Estão acabando com a festa?
  Ele a olhou confuso e ela inclinou a cabeça para as paredes.
  — Ah — ele apontou para os lados. — À prova de som. É bem útil, na verdade. Torna o trabalho mais íntimo e seu.
  — Trabalho, é? — ela riu enquanto começava a andar pela sala, reparando em mais detalhes do que perdeu à primeira vista.
  Ele encarou as costas dela, sentindo novamente a faísca dentro de si que já o incomodava. Uma ideia maluca perturbava sua mente, e ideias malucas não deveriam ser alimentadas.
  — O que os outros garotos acharam daqui? — perguntou ela.
  — Não sei, eles ainda não viram — ele caminhou até perto dela, passando os dedos pelo Focusrite e seus botões ainda complexos. arregalou os olhos.
  — Quem mais veio aqui?
  — Ninguém, por enquanto. Quer dizer, se quiser contar os caras da mudança… — ele levantou os ombros, tentando ignorar a expressão espantada dela. — Não me olha assim, ele nem ‘tá totalmente pronto, se ainda não percebeu. Ainda faltam umas caixas de som, uns quadros, esse tipo de coisa.
  Ela assentiu com a cabeça, olhando com mais afinco os aparelhos organizados por cima do móvel planejado, imaginando novamente algum momento criativo de Jungkook.
  — Esse é um belo jeito de impressionar uma garota — ela cerrou os olhos, lhe dando uma piscadinha. — Se repetir esse discurso assim de novo, posso dizer que ficou convincente. Daí, é só ir lá fora e testar com mais alguém, tenho certeza de que a Eun-ha gostaria de fazer um dueto.
  Ele trincou os dentes e ela riu novamente. Não esperava a zombaria por dizer a verdade, mesmo que ele não fizesse ideia de como aquilo poderia soar. De repente, ajeitou a postura e olhou para ela com firmeza.
  — Quer começar a tirar a roupa, ?
  — O quê?
  Ele tirou a jaqueta, expondo a camisa branca de mangas curtas e o braço tatuado que nunca deixava de surpreender . O tecido se foi logo em seguida e ele arqueou as sobrancelhas, em espera.
  — Sei que gosta quando eu tiro pra você, mas agora quero ver suas mãos trabalhando.
  Ela riu em descaso, um tanto chocada com a atitude repentina do rapaz. Ele se esqueceu da onde estavam?
  — O que é isso? Quer adicionar mais um lugar inusitado na lista? — ela cruzou os braços. — Posso saber qual seu grande tesão por transar em festas?
  — Quer fingir que nunca fizemos isso? — ele falou enquanto se aproximava devagar. — E vou atribuir o tesão desta vez a essa sua roupa estupidamente desnecessária, que grita pro mundo todo que você é uma gostosa.
  — Acho que Candice sabe das coisas — deu de ombros. — Seria uma pena se eu me livrasse dele agora.
  Ele a agarrou pela cintura com força, aproximando seus corpos de imediato enquanto já prendia a respiração. Ele estava mais perto do que antes, mais perto do que o necessário e permitido.
  — Já te disse mil vezes que comigo você pode falar o que realmente quer falar — ele a encarou de forma intensa. — Se ‘tá com vontade, é só dizer.
  Ela não disse. Não sabia se conseguiria. A faísca também começava a crescer dentro de si, e com Jungkook tão perto do jeito que estava, ficava muito difícil se concentrar na realidade.
  Ela baixou os olhos para os ombros dele, descendo-os até atingirem o cós da sua calça. Colocou um dos dedos na curva de seu quadril, vendo o tecido da cueca que escapava um pouco acima. Ela imaginou como ele estaria vestido por baixo e sentiu a cabeça girar. Tentou desesperadamente se lembrar se poderiam fazer aquilo; se não existia alguma cláusula que permitisse que se despissem em algum outro lugar que não fosse na cama dela.
  Mas ele não a deu tempo algum. Em um movimento rápido, estava entre ele e a mesa, apoiando suas mãos na madeira enquanto Jungkook aproximava seu nariz em seu pescoço, sua clavícula, toda a região em que ele já era especialista em explorar. fechou os olhos com força, sabendo que estava com o discurso na ponta da língua, mas ele não saía, nada saía. Em vez disso, moveu uma das mãos até o cabelo recém cortado do rapaz, apressando a boca dele e sua manobra infalível por trás de sua orelha.
  — Tira isso — ele sussurrou em seu ouvido, e ela já parecia hipnotizada a ponto de descer as alças do vestido e deixá-lo cair a seus pés, revelando os seios nus que já estavam duros e ansiosos para qualquer coisa que ele pretendesse.
  Ele observou o desenho dos seios com um desejo ardente no olhar. Sua imaginação aflorava de tal forma quando estava frente a frente com aquele corpo que precisava frear os pensamentos para não se descontrolar. Uma das mãos dela foi até o ombro involuntariamente, olhando nos olhos dele com certo receio, que mascarava um resquício de timidez. Causava um estado de absorção na mente de Jungkook — ela ainda era delicada, mesmo que não demonstrasse.
  Engolfada pelas mãos firmes, ela foi erguida até a mesa atrás de si, ao mesmo tempo em que ele empurrou com pressa o Focusrite para o lado. Seus seios foram tomados pela boca dele, enquanto as mãos faziam o serviço de abrir suas pernas mais um pouco. Sua respiração já saía mais pesada, pedinte. Eram os sinais de que ele precisava.
  — Seu corpo cede mais do que sua boca, . Impressionante — ele deu uma risada curta, passando a língua entre os lábios. — Não precisa se controlar aqui. Ninguém vai ouvir.
  Devagar, ele puxou a calcinha dela até suas panturrilhas. Ela ergueu o corpo automaticamente para ajudar, completamente vidrada em seus olhos com uma vontade maluca que não sabia o que era. Balançou os pés até que o tecido caísse no chão, de repente se sentindo totalmente à vontade com o rapaz e demonstrando que tinha total liberdade para fazer o que quisesse.
  Ele entendeu o recado e se apressou. Colocou as mãos debaixo das coxas da garota até que ela deitasse mais na mesa ocupada, apoiando-se nas duas mãos, que bateram em um teclado e em outro objeto desconhecido. Não se virou para ver e não prestou atenção por mais tempo porque a cabeça de Jungkook já se afundava no meio de suas pernas, e um arfar pavoroso escapou de sua garganta ao sentir a língua frenética dele começar a exploração nos pontos mais sensíveis de sua intimidade. Ela sentiu um formigamento no ventre balançar como um carnaval; todos os seus hormônios estavam gritando como loucos. E, para piorar, ele fazia todo aquele estrago enquanto olhava para ela.
   não percebeu quando abriu mais as pernas e apertou um dos mamilos, tombando a cabeça para trás em uma viagem fantástica que a boca de Jungkook cedia a sua imaginação. À medida que a cabeça dele vagava de um lado a outro, ela ia ficando mais desesperada; não sabia se continuava a estimular o prazer com os dedos nos próprios seios ou se os afundava no cabelo dele para aprofundar o ato; ou que ele finalmente metesse dentro dela.
  Os gemidos dela já estavam altos o bastante para que começasse a se preocupar, se não fossem as paredes convenientes de Jungkook. Ele lambeu toda a extensão da vulva, chupando os grandes lábios, mordendo a coxa, usando a língua novamente em sua barriga até voltar a se concentrar no corpo dela por inteiro. Olhou o cabelo bagunçado e os lábios da garota preso entre os dentes. Aquela feição dizia tudo que ele precisava saber.
  — Me olhar assim não vai ajudar — ele sussurrou, desfazendo-se do cinto e do jeans em questão de segundos. encarou a elevação da boxer com expectativa latente; estava estampado em seu rosto e ela não se importava. Ele tirou a última peça, sabendo o que definitivamente queria fazer, o que já estava pronto.
  Mas de repente a garota desceu da mesa, encarando-o com um olhar animalesco, junto com um sorriso convencido. Se colocou de joelhos em um segundo e antes que ele entendesse, Jungkook sentiu os espasmos de prazer quando ela abocanhou seu membro enquanto olhava para cima. Um dos braços dele buscou apoio na mesa à frente e o outro segurou o cabelo solto de em uma manobra desesperada de não perder aqueles olhos. Ela o chupava freneticamente, ora segurando-o com as duas mãos, ora levando seus dedos ao mamilo de novo. A visão era de tirar o fôlego; ele sentiu a perna tremer levemente quando ela passou a língua em sua glande, chupando com mais força enquanto ele tentava segurar a respiração forte e pesada. Se ela sentiu alguma insegurança ou dúvida sobre se deixar levar, aquilo não existia mais. Suas sobrancelhas franzidas misturadas à sua respiração ofegante o deixavam maluco. O olhar dela era a coisa mais sensual que ele já havia visto.
  Mais um espasmo o avisou o que estava por vir, e ele teve de fazer um esforço sobre humano para interromper a boca e expressões deliciosas dela e puxar sua cabeça para cima.
  — Já te avisei que isso pode ser tão bom quanto maléfico às vezes — ele grunhiu, tentando esconder a voz arrastada pelo torpor. Ela sorriu, passando as costas das mãos nos cantos da boca, dando um motivo para que a mente dele apagasse como se tivessem retirado seu cérebro.
  — Vai me fazer esperar por mais quanto tempo? — ela passou a língua no lábio inferior, mordendo e engolindo os últimos resquícios do líquido pré gozo que havia tomado dele. Aquilo foi o suficiente para que ele mandasse para o inferno toda a tentativa de se conter e não assustá-la com seu tesão incondicional.
  Com um braço só, ele a colocou de volta na mesa, surpreendendo-a com a atitude repentina, enquanto via a cabeça dele sumir por entre suas pernas de novo, mas não para lhe conceder mais alguns minutos no paraíso. apertou os dedos no teclado, sentindo um monitor em suas costas, a ansiedade tomando seu ventre com rapidez. Ouviu um pacote se rasgando e respirou fundo para conter a queimação, vendo a cabeça dele surgir logo depois, carregado do mesmo desejo que ela.
  Jungkook puxou a cintura de para mais perto, fazendo a pele da garota deslizar sobre a madeira e cravando as duas pernas em volta da cintura dele. O brilho animal de seu sorriso cafajeste a deixou anestesiada; ela implorava para que ele fosse rápido, com força, que não se limitasse em momento algum.
  — Cuidado com o jeito que me olha, . Já ‘tô maluco o suficiente — ele aproximou sua testa na dela quando deu a primeira estocada, forte e firme. Um grito escapou da garganta dela, alto e trêmulo. Ela automaticamente levou as mãos à boca quando ele se moveu mais uma vez para dentro dela, aumentando o ritmo, franzindo as sobrancelhas em total concentração. Se ela queria, ele faria. De repente aquilo era simples e óbvio. Ele não conseguia se controlar.
  Ele foi mais rápido a cada segundo. Ouvia os gemidos abafados pelos dedos dela e puxou a mão intrometida, que caiu para o lado de seu corpo.
  — Já disse que pode gritar… o quanto quiser — ele disse em meio às respirações entrecortadas. De repente o impulso de dar carta verde para as expressões de prazer dela não pareceram uma ideia tão boa assim. O ato expôs algo que Jungkook definitivamente evitava com todas as forças.
  — Isso… Rápido… — ela usou a voz rouca e manhosa que saía automaticamente nos maiores picos de prazer. Agarrou os ombros dele com afinco, firmando ainda mais as pernas em volta de sua cintura. Aquela voz e aquele olhar não podiam ser reais. Ele ia mais rápido, obedecendo-a vigorosamente, deixando que ela o puxasse para mais perto, mesmo que isso o colocasse perto demais. Ela mordeu os lábios enquanto acompanhava as estocadas, cravando suas unhas na pele dele, o que só servia para deixá-lo mais excitado. Aproximou seus narizes sem notar, querendo apenas que ele passasse a língua sobre seu pescoço novamente, ou que a olhasse daquele jeito agressivo que a prometia uma foda inesquecível, mas isso não funcionava para ele. Aquela série de pequenos movimentos o deixavam com uma vontade insana e proibida.
  Porque a boca dela estava muito perto, tão perto quanto não poderia estar, não quando ela lhe parecia o paraíso perdido e impenetrável que eram um pecado velado para qualquer ser humano decente. Aquela boca…
  Ele grunhiu, parando repentinamente com o ritmo. Ela levou alguns segundos para controlar a respiração pesada e se tocar da interrupção brusca, mas não precisou pensar por muito tempo.
  — Vira — ele ofegou.
  Em um instante, ele a colocou no chão, virando-a para o lado contrário e se encaixando em suas costas. O coração dela bateu forte ao sentir o hálito dele em sua nuca, os dedos acompanhando o desenho da nádega até o lugar de onde ele nunca deveria ter saído. sentiu um tremor na base das pernas quando ele enfiou um, e depois outro, tirando e colocando insistentemente, como se para conferir que ela ainda estivesse disposta e toparia qualquer outra posição maluca que ele propusesse. Ela gemeu, arqueando o corpo para frente, sabendo que suas ações falavam por si só. Uma ansiedade começou a tomar seu peito de novo; Deus do céu, ela não sabia se era o álcool, mas precisava que Jungkook entrasse nela imediatamente.
  Ele ficou desconcertado com o quanto ela estava entregue, concedendo-lhe visões de tirar o fôlego. Não importava se o corpo dela se encaixasse no maldito padrão ou não, Jungkook só conseguia pensar no quanto ela era maravilhosa. E isso não tinha nada a ver com sentimentos. Ou com uma vontade repentina de beijá-la de vez em quando. Era normal, pessoas se beijam durante o sexo, certo? Ter vontade não queria dizer nada.
  Ele bufou e recomeçou as estocadas enquanto os gemidos dela voltavam aos seus ouvidos. Sim, era mais fácil, muito mais fácil. Passou um dos braços pela barriga dela, posicionando-a mais colada em seu corpo quanto possível e a mão dela automaticamente tomou a sua, apertando seus dedos enquanto ele caprichava na firmeza dos movimentos. O suor já começava a estampar sua testa, e as costas dela molhada batendo contra seu peito era uma visão de pura loucura. Os barulhos de seus corpos batendo entre si acordariam um prédio inteiro.
  Seu desejo era voraz. Por um momento, diminuiu o ritmo até puxar uma das pernas dela para cima, posicionando-a na mesa antes de recomeçar com o trabalho. Estando mais aberta, ela pareceu senti-lo ainda mais, e o peito se apertou enquanto antecipava que não iria demorar muito até que ela finalmente sentisse a liberdade se derramando dentro de si, alcançando o pico máximo de prazer que sabia que teria com o rapaz. O lugar inusitado pareceu tê-la deixado ainda mais propícia a querer de tudo, absolutamente tudo com ele, mesmo sabendo onde realmente estava.
  — Jungkook… — ela tentou dizer em meio ao corpo trêmulo pelas batidas, virando a cabeça para olhá-lo, implorando, avisando que estava perto. Ele quase falhou na mesma hora; pegou no cabelo da garota, virando seu rosto para a mesa, afundando seu nariz na curva de seu pescoço. Ficou aliviado por ter feito isso a tempo. Não, ela não podia encará-lo daquele jeito, de jeito nenhum, tudo menos aquilo. Ela não deveria atiçar aquilo nele.
  Isso trouxe irritação para seus movimentos. Por um momento, pensou em perguntar se ela não estava sentindo nenhuma dor, mas quando o gemido seco e espontâneo fugiu da garganta da garota e os espasmos atravessaram sua perna, ele sabia que ela não se importava. Deixou seu corpo pender mole ainda nos braços dele, controlando a respiração, fechando os olhos enquanto agarrava a superfície. Ele riu, aliviado ainda mais por ela estar de costas e não mostrar aquela expressão pra ele.
  — Foi gostoso? — ele sussurrou em seu ouvido, fazendo-a soltar um riso seco e cansado. Ela apenas acenou com a cabeça e ele levou os dedos novamente para onde sentiria todo o líquido prazeroso que ela havia acabado de destilar. A região estava quente e molhada, exatamente como esperava.
  — Espero que isso não vá contra as regras — ela respondeu, manhosa.
  — Foder com você na minha casa nunca foi contra as regras.
  — Então por que não estive lá antes?
  Ela virou-se para encará-lo, em um tom cômico e brincalhão. Como se não se importasse realmente com a resposta, mas mesmo assim o fez engolir em seco. Ele não sabia como responder; existiam motivos plausíveis e ao mesmo tempo eles não pareciam tão plausíveis assim.
  Em vez disso, ele riu e caminhou para o sofá largo, sentando-se enquanto segurava o pênis erguido para cima, encarando-a com um olhar venenoso.
  — Acho que preciso da minha vez — ele arqueou as sobrancelhas. — E aí posso responder às suas perguntas.
  Ela mordeu o lábio inferior, mas não se mexeu. O olhar para o membro grosso e molhado a deixava sem saber o que fazer; ainda. Um sorriso sacana escapou de seus lábios quando ela caminhou até ele, deslizando suas mãos para baixo e cima até que ele começasse a respirar de forma desregulada.
  Um leve empurrão o fez se deitar na superfície de couro, e ela prontamente se posicionou em cima dele, pegando-o levemente de surpresa.
  Ela deslizou por cima de seu pau, balançando os quadris em um movimento suave e torturante. Ele mordeu os lábios, apertando os dedos em sua bunda, olhando para ela com uma curiosidade típica.
  — Sei que ainda posso gozar assim, mas é um pouco maldoso, não acha? — ele disse e ela sorriu.
  — Porque você pode querer que eu não saia mais daqui? — ela mordeu o lábio inferior, cerrando os olhos em uma expressão lasciva. Ele não sabia que era possível endurecer ainda mais.
  — Não diz essas coisas… Ah!
  Ela sentou de uma vez só, apoiando uma das mãos no encosto do sofá, arqueando as costas para trás e se movendo freneticamente. Ele ficou surpreso com a abordagem, claramente hipnotizado pela expressão divertida dela, mas se deixando levar pelas investidas deliciosas que demonstrava o quanto seus corpos se encaixavam. Os seios da garota pulavam, seu cabelo caía de lado e os olhos fechando e abrindo, como se sentisse o tremendo prazer do que estavam fazendo, tornando tudo melhor ainda. Ele já estava se segurando por bastante tempo, e queria urgentemente acelerar as coisas.
  Segurou em sua cintura e a manteve parada enquanto ele mesmo investia contra ela por baixo, fazendo com que ela gemesse pela força de seus ataques, segurando no antebraço do rapaz enquanto os socos frenéticos a faziam querer explodir novamente; ele estimulava sua sensibilidade como ninguém, exatamente no ponto certo. Ela rebolou por cima, não se contendo em demonstrar que aconteceria de novo caso ele continuasse, e aquilo foi suficiente para que ficasse maluco. Não era mais sobre ele.
  Mas acabou sendo quando, em um impulso durante a subida e descida da garota, ele ergueu a mão para o seu rosto, colocando um dos dedos polegares em sua boca. Ela sorriu e passou a língua por ele, sentando sem perder o foco, chupando-o logo em seguida. Ele grunhiu e afastou a mão com certa força, odiando a si mesmo por ter pensado naquela boca de novo, mas ficando cheio de um tesão inimaginável que não esperou muito para que ele finalmente estourasse, terminando com um gemido sôfrego, sentindo um pingo de suor descer pela lateral do rosto. Com ela aconteceu o mesmo; despencou no peito dele, fechando os olhos enquanto recuperava o fôlego perdido de toda aquela loucura. Ele levou os braços para cima da cabeça, igualmente do mesmo jeito. As respirações se concentravam ao redor, juntando-se no mesmo ritmo. Se houvesse uma forma de descrever o verdadeiro prazer, e Jungkook seriam o material de pesquisa perfeito.
    É realmente intenso, ela pensava. Todo o lance carnal com Jungkook lotava seu organismo de endorfina, e ela sentia que dormiria como um bebê. Se soubesse disso antes, teria dito sim a Jaehyun naquela noite. Mesmo que as coisas fossem completamente diferentes.
    Gostosa do caralho, ele pensou, mas não disse. Parecia já começar a sentir a sobriedade e assim chegava a hora de se limitar com as palavras. Apesar de que seu olhar e o tesão velado fossem palavras suficientes pra ela.
  Um apito barulhento surgiu do nada no ambiente, junto com uma fumaça quente passeando sobre a pele de ambos.
  Jungkook recuperou a voz e respirou fundo antes de dizer:
  — Acho que o café está pronto.

[ 2 ] – Without a sound you're calling me, and I don't think it's very fair

Este capítulo está em processo de revisão.

"Pare de me olhar desse jeito
Que eu paro de te olhar assim
O que me surpreende
É que eu não quero realmente que você pare
[...]
Oh não tem amor, não
Montéquios ou Capuletos
Só músicas arrasadoras nas listas do DJ e
Pistas sujas
E sonhos de indecência."
▶ i bet you look good on the dancefloor

  Já era o fim da tarde seguinte.
  Os dígitos exorbitantes de um celular novo a assustaram, mas não foram o suficiente para prender sua atenção.
  O silêncio da biblioteca não ajudava em muita coisa.
  Uma desavisada que não se atentou em desligar o telefone foi pega de supetão pelo toque insistente de chamada recebida. não teria notado, se as letras de My Time não fossem tão evidentes, com a voz dele se esparramando pelo ambiente, e não mais somente em sua cabeça.
  Droga!
  Eles não deveriam ter feito aquilo!
  Não importava o quanto tentasse dispersar o dia anterior da memória, a maldita voz de Jungkook em sua orelha e seu toque impetuoso a enlouqueciam como o inferno e voltavam ao menor sinal de brecha, fazendo-a perder o foco da vida real por vários minutos. Ela sentiu o rosto queimar e tinha certeza de que, se não se controlasse, qualquer pessoa ao redor seria capaz de perceber e então saber o que aconteceu no estúdio pessoal de Jeon Jungkook na noite passada. Ela mordeu a ponta da caneta, que já estava corroída o máximo que podia. O artigo do projeto sobre linguagem fotográfica não tinha avançado nem duas linhas, e ela não tinha nenhum trabalho marcado nos próximos três dias para que pudesse, pelo menos, distrair a mente. Tudo que conseguia pensar era no que faria agora.
  Falar com ele era uma opção, mas o que ela diria? O contrato fajuto e sem autenticação que tinham realmente não dizia nada sobre se entregarem ao tesão somente na casa dela, então talvez ela só estivesse pensando demais. Afinal, ela tinha conseguido voltar para casa com Candice sem perguntas demais e nenhum de seus olhares desconfiados, então estava tudo bem. Não é como se fosse acontecer de novo.
  O pensamento a embrulhou o estômago. Aquilo com certeza não deveria acontecer de novo.
  Ela teve os pensamentos cortados pelo barulho da pasta pesada de Yeri que acabava de puxar uma cadeira do outro lado da mesa. desviou os olhos da tela branca em um sobressalto – não que a estivesse vendo realmente – e sorriu pela companhia.
  — Você chegou — cumprimentou, abaixando a cabeça lentamente como um gesto já implementado no hábito. — Tudo bem?
  — Estou bem. E você? — ela lhe retornou a pergunta enquanto abria a pasta e pegava um notebook prata. murmurou em resposta. — Como anda o projeto?
   olhou para o único parágrafo e deu um sorriso tristonho.
  — Um pouco devagar.
  — Sério? Tem certeza que você está bem?
  — Sim, eu estou bem, juro — ela riu, balançando as mãos em frente ao rosto. — Só preciso de mais um tempo pra colocar as ideias no lugar. Trouxe o que eu pedi?
  — Ah, trouxe! — Yeri disse, animada, remexendo na segunda bolsa branca que carregava nos ombros e puxando uma Kodak amarela, colocando-a na mesa, junto com dois filmes enrolados. — Foi a única que achei em Sokcho. Ainda prefiro a Olympus, mas essa é bem peculiar para fotos caseiras. Pretende fazer uma viagem?
  — Ainda não — respondeu, pegando a máquina nas mãos e avaliando-a com um olhar cuidadoso e afiado para detalhes. — Vou mandar fotos pra um amigo que está viajando.
  — Hum, algum namorado? — Yeri deduziu, rindo logo em seguida.
  — Não, não — ela respondeu rápido, sentindo a bochecha corar pela segunda vez no dia. — Não acho que isso seja possível.
  — Então ele é um idol — Yeri respondeu e ergueu os olhos imediatamente. Não era uma pergunta. Yeri riu imediatamente, abrindo sua tela à frente de forma descontraída. — Estou só brincando, . Apesar de que não seria impossível, vendo no que você trabalha.
   revirou os olhos, olhando novamente para a câmera. Não era a primeira vez que escutava tal coisa, mas ainda a deixava profundamente impressionada. Ela achava que tirar fotos de idols não era lá um trabalho tão impressionante na Coreia do Sul, mas se viu abismada ao notar o contrário.
  Porque ela estava ciente dos olhares disfarçados que recebia quando pisava na Universidade de Seul, e sabia bem dos motivos por trás deles. Se fosse apenas pelo seu nome em letras pequenas nos créditos das produções de photoshoots, ela estava mais do que satisfeita. Seu trabalho bem feito era reconhecido e contratado em sequências, e ela jamais imaginou que ganharia mais do que ganhava na Califórnia exercendo um trabalho de freelancer. As pessoas não a tratavam como se fosse a mais nova integrante de um girl group, mas sabiam bem reconhecer quem convivia com famosos com frequência. Em dois anos, estaria mais do que pronta para Londres, e desta vez sem confiar cegamente em promessas de terceiros.
  Mas também existia o segundo motivo, e este realmente poderia ser considerado o maior de todos. O motivo chocante que até hoje não parecia real — e que fazia pensar ainda com mais certeza de que alguém no plano acima devia estar rindo dela. E este motivo se chamava Ali Dalphin.
  Ali que era a maior celebridade acessível da Universidade de Seul e com quem acabou por dividir uma sala de aula em História da Arte Moderna. Se fosse apenas isso, ela não teria com o que se preocupar – além do choque por reconhecer a garota das fotos polêmicas que havia tirado bem na sua frente. Mas então descobriu que a modelo francesa, bela e escultural, era tentada a arranhar seu inglês com ela sempre que podia, e se queixava da dificuldade de aprender uma língua nova tardiamente, mas que se tornava fácil à medida que praticava com o namorado.
  O embrulho no estômago voltou e ela balançou a cabeça para voltar a se concentrar na câmera. O segundo motivo – ser amiga de Ali Dalphin – não parecia tão real agora.
  — Lidar com idols pode ser complicado — ela respondeu sem pensar, encarando os dois únicos rolos de filmes que Yeri havia conseguido. De repente, pensou no sr. Ahn e de que ele poderia conseguir bem mais, caso ela pedisse.
  — Imagino que sim — a amiga respondeu, deslizando os dedos pelo teclado. — Você lidava com famosos complicados na Califórnia também?
  — Com certeza. Celebridades ocidentais podem ser tão ou mais terríveis quanto as daqui.
  — E como você veio parar aqui, ? — as sobrancelhas de Yeri levantaram, em uma pergunta sincera e ansiosa. abriu a boca para responder, mas de repente notou que não sabia exatamente o que dizer. Não fez questão de sair por aí revelando seu antigo emprego, muito menos para uma das primeiras amigas que fazia desde que havia chegado.
  — É uma longa história — disse apenas, levantando os ombros. Yeri pareceu aceitar bem a resposta e voltou sua atenção ao computador, murmurando palavras abafadas enquanto digitava.
   olhou para sua própria tela em branco e em seguida para a Kodak de novo. Ela sentiu as lembranças vindo e quis rir, mas não teria como explicar a Yeri. Apoiou os cotovelos na mesa e colocou o primeiro rolo na câmera, virando-a para garota de cabelos negros e boina vermelha, batendo a primeira foto.

⏩⏩⏩

   apertou as malas no porta-malas de Candice estacionado na estação de desembarque. O clima gelado do inverno foi substituído pela brisa fresca do início da primavera. Ela entrou no banco do carona, ligando o som em algum jazz aleatório dos canais que preenchiam o aparelho de Candy. Desfez os nós dos tênis, desejando sua cama mais do que nunca.
  — Você sabe que não vamos pra casa ainda, não é? — disse Candice enquanto dava partida no carro.
  — Como é que é? — quase gritou. Ela não podia estar falando sério.
  — Como eu disse nas mensagens, James está atacado essa semana. Deve ter brigado com uma das amantes ou sei lá o quê. Ele quer todos os funcionários na sala de reuniões em… — ela olhou para o relógio no painel de controle — 10 minutos! Cacete! — Candice grunhiu e cantou os pneus ao sair do aeroporto, fazendo ter de se segurar no banco para não bater com a cabeça na janela.
  Então era isso, ela já havia sido “educadamente” convocada de volta de suas férias mais cedo do que o esperado e James ainda nem a deixaria passar em casa para tomar um banho. Apesar de tudo, não conseguia reclamar. Aquele emprego era tudo pra . Bom, pelo menos, era um degrau para que ela finalmente chegasse ao emprego dos sonhos.
  Candice parou o carro como uma louca em uma vaga que com certeza não era dela e atirou o crachá de depois de puxá-lo da bolsa. Faltavam 2 minutos para chegarem à sala de reuniões quando atravessaram as portas duplas de vidro, e correram para o quinto andar.
   e Candice passaram pela porta bem na hora que todos os outros funcionários se sentaram. As garotas trataram logo de lançar um sorrisinho sem graça para James, que já arrumava os documentos em cima da mesa e puxou uma cadeira ao lado de Candice… e Phil.
  — Hello, darling — ele sussurrou em deboche em seu ouvido, o que a fez querer socá-lo na boca — Como estava Miami? Muito quente? — ele deu um sorriso atrevido.
   o encarou com desprezo e desviou os olhos. Idiota galinha. Mas era um gato e um gostoso de morrer. Haviam rumores de que ela era a única a qual ele não havia tido sucesso nas investidas, e talvez por isso a enchesse tanto.
  James deu dois toques de leve na mesa. Era o jeito como ele sinalizava que a reunião iria começar. se ajeitou na cadeira, tentando manter os olhos abertos.
  — Bom dia, pessoal. Não vou me estender muito nesta reunião pois acho que já falei demais essa semana — ele fuzilou os outros com os olhos, o que os fez abaixar a cabeça. ficou confusa. Candice havia esquecido de lhe contar alguma coisa? — As vendas da LA Parker estão caindo cada vez mais. Estamos afundando! E tudo que peço a vocês é que façam um trabalho decente — ele rosnou, já começando a ficar vermelho. A veia na têmpora esquerda estava dilatando. Ele tirou os óculos de grau, coçando os olhos. — Tudo bem, vamos lá… A demissão de alguns de vocês é inevitável após as vendas do mês passado. Embora ainda haja uma chance de conseguirem manter seus empregos — ele desviou os olhos e abriu o slide, projetado na parede branca atrás. — Esse fim de semana vai acontecer o VMA em New York e vocês sabem o que isso significa: os maiores nomes da música juntos no mesmo lugar é uma ótima oportunidade para uma história! E eu estou falando da capa! É a chance que vocês têm de me provarem que foi a decisão certa não ter jogado seus currículos no lixo! — bufou. — Vou mostrar a localização e quem deve comparecer esse ano…
  Ele controlou o slide pelo controle, mas já havia parado de prestar atenção, enterrando a cabeça nas mãos discretamente. Por favor, não me meta nessa — repetiu a si mesma. Não me faça ficar escondida atrás de alguma árvore no meio da noite com resquícios do inverno de New York, esperando qualquer besteira que alguma celebridade possa cometer para que eu registre em primeira mão. Aquilo era totalmente incômodo, desagradável e ela detestava.
   não queria dizer que odiava o seu trabalho, mas infelizmente era verdade. Ela queria trabalhar com fotografia desde que se conhecia por gente. Não se lembrava exatamente em qual momento da vida começou a almejar a National Geographic; talvez porque se derretia em todas as imagens que via na TV, e passou a ter colagens de suas fotos mais bonitas em seu quarto. Eles a proporcionaram aquele tipo de arte de forma linda, pura, registrando a vida como ela era. Se algum dia ela cruzasse as portas daquele lugar com um crachá, sabia que não precisaria de mais nada.
  Sair do Brasil já não foi muito fácil. Ela não tinha muitos amigos, nem uma família que a apoiasse — se é que podia chamar aquilo de família. Pavimentou sua adolescência inteira com trabalhos esporádicos e juntou o máximo de dinheiro que conseguiu para sair de casa — e sobreviver sozinha. Pagou a faculdade de fotografia e fez mais outros tantos trabalhos pequenos junto com o curso de inglês para juntar mais dinheiro para ir a LA e se virar sem um emprego por um tempo. jamais achou possível ser aceita na National Geographic com a graduação simples do país natal, então também passou a almejar o mestrado na Royal College of Art em Londres, mas ainda precisava de um emprego. E achou que ser fotógrafa em uma revista iria ser um pontapé de sucesso para sua carreira.
  Ela só não imaginava que acabaria virando paparazzi de uma das maiores revistas de fofoca da Califórnia.
  A invasão da privacidade de alguém deixava bastante incomodada. Ela tinha empatia o suficiente para saber que odiaria se alguém fizesse aquilo com ela. Mas a empresa a pagava muito bem — bem o suficiente para que conseguisse morar em um bom apartamento, mesmo que fosse dividido com Candice, e conseguir guardar muitas economias para o mestrado. Não eram poucas as vezes que Candy reclamava pela amiga ser muito pão dura, que não gastava dois dólares sem anotar. explicava que fora assim a vida inteira — teve que ser. Ela não sabia ser de outro jeito.
  Apesar dos pesares, era realista: precisava do emprego. E fazia um bom trabalho, pela sua singela opinião — e às vezes a de James. Ela era uma das funcionárias com quem ele menos havia gritado, e isso já era um diferencial.
  Candice não era paparazzi. Ela era a pessoa que pegava as fotos de e escrevia a matéria. E escrevia muito bem, apesar de exagerar às vezes em alguns fatos, mas esse também era o trabalho dela. Assim como o de Phil, que editava o material final.
  Portanto, ao final da reunião, enquanto todos se levantavam e James acenou bruscamente para que apenas os responsáveis pelas fotos ficassem, deu um tchauzinho triste para Candice.
  Fora ela, havia apenas Hilary Smith, uma ruiva com o rosto pintado de sardas que a odiava desde que a viu pela primeira vez — e que parecia odiar até o ar que a garota respirava. Era considerada muito bonita pela opinião geral e também transava com Phil, então poderia ser mais um motivo.
  As duas se sentaram à frente da mesa de James, que parecia mais calmo e já havia recolocado os óculos.
  — Temos um assunto sério a discutir — ele tamborilou os dedos na mesa de vidro, olhando-as um pouco cansado. — Thomas está de licença por causa do acidente e isso está me custando uma fortuna! — ele grunhiu. Thomas era o outro paparazzi da revista, que, em uma tentativa de chegar à Britney Spears com uma fantasia de entregador de pizza, acabou batendo com ela. Não foi grave, mas ele havia se arrebentado bastante. não conseguia deixar de achá-lo um tanto patético. — Como sabem, estamos com problemas financeiros, e o risco também serve para o emprego de vocês. O VMA é nossa chance de decolar! Mas não é exatamente por isso que quis que vocês ficassem… — ele deu um pigarro antes de continuar. — Não sei como verão isso, mas não posso mais manter as duas aqui. , você tem um ótimo olho e fotografias belíssimas, mas não tem um conteúdo relevante. Você prefere fotografar o cachorro do Justin Bieber ao próprio Justin Bieber, e isso não é interessante pra nós. Hilary, suas fotos são péssimas, borradas, parece que foram tiradas por uma pessoa com Parkinson. Mas você é ótima em se aproximar dos nomes em alta e sempre está no lugar certo na hora certa — ele suspirou, olhando de uma a outra. — Uma fusão de vocês duas é o meu maior sonho, mas infelizmente as contas não são pagas com isso. Vou ter de propor em enviar vocês duas ao VMA e exigir que melhorem nesses respectivos pontos que acabei de citar. É simples: quem trouxer a capa fica com o emprego.
  — Mas, James… — falou antes que se arrependesse. Ele a olhou com as sobrancelhas levantadas. — Eu não preciso ir ao VMA, Hilary pode cuidar de tudo sozinha. Eu posso tentar melhorar em tudo que disse daqui mesmo, Malibu aos sábados tem muitas opç…
  — Você vai ao VMA — ele a interrompeu em um tom de voz duro, encerrando o assunto. — E está decidido, ou se não eu teria deixado que continuasse curtindo suas férias — ele deu um sorriso irônico. — Estão dispensadas.
  Hilary lançou seu típico olhar mortal à colega antes de sair da sala.
  , espera mais um minuto — James chamou e ela voltou a se sentar, de repente preocupada. — Não quis falar na frente da Hilary, mas quero deixar claro a minha preferência por você — ele sussurrou, como se achasse que Hilary poderia estar ouvindo. — Suas fotos são magníficas. Eu sei que você é capaz de capturar um momento bobo do dia a dia que ninguém presta merda de atenção nenhuma e transformá-lo em uma pintura, então você pode fazer isso com o que estamos interessados aqui. E estamos interessados em celebridades — ele frisou a palavra, como se até hoje ela não tivesse entendido. — Sei que nunca foi a uma premiação, mas em um evento como esses acontecem muitas coisas que a TV não mostra. Mas nós queremos mostrar — um sorriso malicioso contornou seus lábios. — Não vou poder fazer nada por você se Hilary conseguir invadir alguma after party. Você me entende?
   concordou com a cabeça, sem dizer nada. Apesar de tudo, sabia que ele estava certo. James não poderia fazer nada por ela e suas fotos incríveis não iriam sobreviver se não fossem as fotos que ele queria. Ela não tinha escolha a não ser aceitar.
  Ir a uma premiação daquelas nunca esteve nos seus planos. Apesar de perseguir celebridades, ela não tinha interesse por nenhum deles em especial. Ela fazia faxina ouvindo Harry Styles e gostava de dormir com as músicas do Lauv, mas era isso. Ela não estava nem disposta a comprar um mísero ingresso para ir a um show.
  James pareceu perceber que aceitava a proposta com certo sofrimento. Ele se recostou na cadeira, suspirando fundo. Parecia realmente cansado.
  — Ok, ok, você não fará um bom trabalho com essa cara mesmo se quisesse — ele balançou a cabeça. — Vou melhorar pra você: se me trouxer a capa, eu escrevo sua carta de recomendação para o mestrado em Londres.
  A garota arregalou os olhos.
  — Você está falando sério?
  — Muito sério. Você está tentando a bolsa de estudos, não é? — ela assentiu. — A minha carta pode te ajudar nessa porcentagem.
  Ele não estava mentindo. Apesar de comandar uma empresa quase falida, James tinha nome na cidade — e em toda Califórnia. Ele poderia reduzir a mensalidade de a quase nada e aquela era uma oportunidade que acontecia apenas uma vez na vida.
  — Se me trouxer uma boa capa, transfiro seu trabalho todo pra lá, com aumento e benefícios, além da carta. O que acha?
  — Nem precisa dizer mais nada — sorriu alegre. Uma euforia louca começava a tomar conta de si. — Vou trazer a melhor capa da sua vida!

❬📸💔❭

  Jungkook rabiscou a folha novamente.
  A próxima frase parecia estar na ponta da língua, mas nada saía. Depois de encarar os versos anteriores, eles de repente pareceram ruins e aleatórios — como se fossem uma sopa de letrinhas. Ele arrancou a folha inteira e a transformou em uma bola de papel disforme, jogando-a de lado para se misturar com as outras que tiveram o mesmo destino.
  Encarar o espaço branco e vazio não ajudou muito. Jungkook bufou em frustração, apoiando a cabeça no encosto da cadeira giratória, torcendo para que a mesma inspiração que o tomou na semana passada voltasse novamente, que o trouxesse outra grande frase de impacto que seria o estopim de uma música inteira, mas nada vinha. Sua mente não parecia interessada em compor no momento, ela estava cheia de outra coisa mais urgente e recente.
  Ela estava abarrotada por e seus gemidos espontâneos no estúdio na noite passada.
  A caneta caiu de seus dedos ao se lembrar novamente do episódio. Ele provavelmente não devia estar pensando nisso, mas não conseguia deixar de ficar confuso e reflexivo. Poderíamos ter feito aquilo? Logo ali? Não é como se não pudesse levá-la em sua casa, ele só não sabia se queria isso — se estava pronto para isso. A única garota que havia tirado a roupa na sua cama era Ali, e não poderia ser comparada a ela em nenhuma escala mundial, muito menos o que tinham. Eram duas situações extremas e totalmente diferentes, e Jungkook não sabia bem até que ponto era aceitável que uma se igualasse a outra.
  Ele largou o caderno e pegou o telefone. Olhou para o espaço vazio onde ficava o número da ex-namorada, agora apagado junto com as fotos da galeria. Na maioria do tempo, ele conseguia passar o dia sem se lembrar do motivo que rachou seu coração ao meio e o trouxe composições frenéticas e nunca reveladas, mas não conseguia correr desse sentimento por muito tempo. Ele aparecia um pouco mais fraco do que da última vez, mas ainda doía como nunca. E ele odiava isso mais do que tudo.
  Pressionou os dedos no contato de , encarando o nome da garota na tela enquanto tentava pensar no que estava fazendo. Ele sentia que precisava dizer alguma coisa – qualquer coisa – sobre a noite de ontem, e de como eles certamente não deveriam fazer de novo, e que de preferência ela não fosse mais à sua casa, mas qual seria o motivo plausível? Só porque não queria que Ali e se misturassem daquele jeito? Mesmo que a casa fosse outra, e muitos dos móveis também, e que Ali jamais estivera em seu estúdio pessoal, ainda parecia um espaço dela e totalmente dela que ele não tinha coragem de abrir para mais ninguém.
  Ele falava de sua casa ou de seu coração?
  Fechou a tela, sufocando uma risada irônica. Sentiu que estava dando atenção demais a um assunto pequeno e sem importância. Não importava o quão incrível foi a foda que tivera com no espaço incomum, aquilo não mudava nada. E ele só não conseguia tirá-la da cabeça porque foi diferente e inesperado. Só por isso. Não é como se fosse acontecer de novo.
  A porta da sala fez barulho ao ser aberta, tirando Jungkook de seus pensamentos.
  — Ei, hyung — ele cumprimentou, jogando o celular em cima da mesa.
  — Não sabia que ainda estava aqui — Namjoon andou até a cadeira disponível na frente do rapaz. — Nada ainda? — ele inclinou a cabeça para as bolas de papel espalhadas no canto.
  — É, parece que não — Jungkook deu de ombros, olhando para a bagunça de forma distraída.
  — Não precisa se cobrar tanto, você deu uma baita festa ontem. Seu cérebro ainda deve estar absorvendo toda aquela música eletrônica. Aliás, quem colocou aquela porcaria?
  — Não faço ideia — o garoto riu, balançando a cabeça. O teor cômico não durou por muito tempo. — Não é bem uma cobrança, eu só… Achava que estaria mais inspirado. Não sei.
  — Acha que está perdendo a inspiração porque está se curando do seu coração partido? — Namjoon arqueou uma sobrancelha. Jungkook o encarou com surpresa. — O quê? Acha que eu não notei que você anda menos propenso a sair quebrando as coisas por aí?
  — Duvido que tenha quebrado mais coisas do que você — disse ele, fazendo o outro soltar uma gargalhada. — Mas eu não… Isso não tem nada a ver com coração partido. Quer dizer, não é sobre isso que eu quero escrever e mostrar a vocês.
  — Eu sei, às vezes a gente só quer tirar uma mensagem legal de alguma merda que acontece na nossa vida e colocar isso numa música, mas isso nem sempre é possível, JK. Às vezes a gente só não sabe o que tá acontecendo mesmo — Namjoon suspirou. — E acho que tá tudo bem com isso.
  Jungkook mordeu o lábio inferior, sabendo que estava passando por mais um daqueles momentos que se repetiram inúmeras vezes nos últimos nove anos: Namjoon se sentando ao seu lado e exercendo sua incrível capacidade de ler a sua mente conturbada em questão de segundos.
  Mesmo que, no momento, existisse um certo assunto que Jungkook preferia que ele não desvendasse.
  — Então é só não mostrar pra gente — continuou o líder, percebendo o silêncio pensativo de Jungkook. — Você é livre pra produzir seu próprio trabalho e colocar pra fora o que tá se passando nessa cabeça. Se não consegue transcrever nada disso agora, você talvez possa estar passando por uma fase de transição. Já pensou nisso?
  — O quê? — Jungkook riu, como se Namjoon tivesse realmente dito alguma piada. O mais velho apenas deu de ombros e se levantou de novo.
  — Acho que entendeu bem o que eu quis dizer. Mas por enquanto só vou dizer: relaxa — ele colocou uma mão no ombro do rapaz. — O pessoal quer pedir bulgogi, vai querer?
  — Claro — Jungkook respondeu prontamente, arrancando mais um sorriso de Namjoon. — Eu já vou, só preciso… — ele olhou para a pilha de papéis.
  Namjoon assentiu com a cabeça e seguiu porta afora da sala da empresa, deixando Jungkook sozinho com seus pensamentos novamente.
  Transição. Ele apenas fingiu que tinha entendido de verdade. Pegou o caderno de novo e passou algumas páginas até chegar na partitura ainda em andamento da música composta para Ali, a mesma que tentava ensaiar no antigo apartamento quando tocou sua campainha. Ele ainda tinha a melodia na cabeça, os versos espalhados, porém escritos, só esperando para serem organizados e completados com o instrumental, mas Jungkook não conseguia fazer isso agora. Ele não conseguia desde que ela o havia magoado daquela maneira.
  Pensar na última vez que havia tentado tocar aquilo o fez se lembrar de de novo. Ele pegou o celular sem pensar, olhando o contato dela mais uma vez, agora por um motivo diferente; ele precisava espairecer. Discou o número no automático, não estando certo o suficiente se queria que ela atendesse, mas não tirando o aparelho do ouvido até que ouvisse a mensagem de telefone indisponível. Ele bufou e encarou o nome dela por mais um tempo até que guardasse o celular e se preparasse para sair.
  Foi melhor que não tenha atendido — ele pensou, juntando as bolas de papel rapidamente enquanto jogava-as na lixeira mais próxima. Mesmo que a relação que tinham firmado fosse de interesse carnal e mútuo, ele não tinha certeza se conseguiria se manter calado sobre os devaneios da última noite se a encontrasse hoje. E decidiu que simplesmente não pensaria mais no assunto.
  Ao fechar o caderno para guardá-lo, ele se viu observando a folha da partitura novamente, encarando a palavra “amor” que se repetia várias vezes no papel, e travou os dedos por cima dele, preparando-se para arrancá-lo de vez e misturá-lo com a bagunça da lixeira, mas parou logo em seguida. Fechou o caderno com força e o meteu em alguma gaveta da mesa, caminhando pra fora da sala.
  Se era um gesto simbólico, ele não sabia. Só sabia que ainda não conseguia arrancar Ali do papel — e nem de seu coração.

❬📸💔❭

  No dia seguinte, havia conseguido aproveitar uma carona de Candice até o prédio da Big Hit. Ela não se deu ao trabalho de perguntar se a amiga entraria com ela – Candy já desatava o trinco do cinto de segurança. Ela caminhou a passos largos para dentro, não demorando a se separar de sua companhia em um piscar de olhos. não fazia ideia do porquê Yoongi estaria rondando por aí em um horário de almoço, mas Candice parecia saber muito bem. Ela entrou a tempo de ver o sr. Ahn terminar de fechar a bolsa pesada de aparelhos e apressou ainda mais o passo até sua mesa.
  — Sr. Ahn — ela o chamou, um pouco ofegante pela correria. — Sinto muito pela demora, o trânsito naquela rodovia perto de Gangnam estava uma loucura, eu não…
  — Oh, srta. , quase ia me esquecendo que te veria hoje — ele riu sem jeito, tirando os óculos e os deixando cair sobre o peito, agora devidamente presos em tirar no pescoço. — Seu pedido ontem foi tão repentino que me esqueci de anotá-lo hoje.
  — Ah… Tudo bem, não precisa se preocupar com isso — ela respondeu com voz baixa, tentando não deixar a decepção tão evidente.
  — Não vou poder te mostrar pessoalmente todos os filmes compatíveis com a sua Kodak que tenho disponíveis, mas posso te indicar a sala do estoque. Você se importaria de olhar sozinha?
  — De jeito nenhum — ela sorriu, os olhos brilhando instantaneamente. Por um momento, a ideia de ter que procurar Candice e avisar que iria embora tão cedo já lhe causava desânimo.
  Em um coreano rápido e, muitas vezes, incompreensível, ele indicou um corredor vizinho até uma porta pequena e escura, onde encontraria as caixas de rolos que sobravam ou que eram parcialmente usados e esperando para serem reaproveitados. O sr. Ahn ainda indicou o nome de um staff que só agora ela percebia que estava em silêncio na sala enquanto se preparava para entrar na sala escura de revelação de fotos negativas. Após outra série de palavras emboladas, ela apenas assentiu e seguiu pelo caminho indicado.
  Em menos de dois minutos, ela já entrava na porta localizada aos fundos, tomada de armários industriais e caixas que não acabavam nunca, esburrando rolos que pendiam das bordas e etiquetas abaixo que indicavam os tipos de câmeras para as quais serviam. Ela não demorou muito a achar a palavra Kodak, e a viu se repetir várias vezes por uma fileira inteira indicando vários modelos da mesma marca. Ela riu com o desafio iminente e procurou algo em que pudesse subir e alcançar a prateleira do alto, já se sentindo animada por passar vários minutos mexendo em filmes antigos. Por último, largou a bolsa esfarrapada em algum canto da sala, puxando o iPod que deixou que Candice a presenteasse e colocou os fones de ouvido, iniciando uma playlist no aleatório enquanto subia puxava a caixa até seu nariz, enfiando as mãos no bolo empoeirado.
  Depois de alguns minutos, a sala anterior recebia a visita de Taehyung, Jungkook e Jimin, agora equipados com uma filmadora Sony pequena que pedia urgentemente pela manutenção do sr. Ahn. Eles prontamente notaram a sala vazia, sem nenhum aviso prévio.
  — Sabia que a gente devia ter ligado antes — resmungou Taehyung enquanto vasculhava toda a extensão da sala.
  — E eu tentei avisar que era mais provável que ele estivesse no restaurante de kimchi na esquina — Jimin deu de ombros, brincando com uma faixa que pendia de uma câmera em cima da mesa de madeira.
  — Esse é o único horário que poderíamos vir hoje — Tae suspirou, pousando a câmera na mesa. — Acho que vou escrever um bilhete ou algo assim…
  Jungkook olhou ao redor em silêncio. A sala estava inegavelmente vazia, a não ser por alguns barulhos desconexos ao longe no fundo dela, onde uma porta estava entreaberta e igualmente parada. Ele começou a mover os pés em sua direção quando a outra porta logo ao lado se abriu, esbanjando a luz vermelha da revelação fotográfica, e um rapaz de boné e jeans saindo de lá.
  Ao ver os três membros do grupo, ele prontamente fez uma reverência rápida e respeitosa, arregalando os olhos ligeiramente.
  — B-bom dia! — disse ele, tirando o boné em seguida. — Não imaginei ver vocês aqui hoje. Procuram o sr. Ahn?
  — Isso mesmo, sabe se ele volta logo? — perguntou Taehyung.
  — Ele foi se encontrar com um CEO de multimídia que vai fornecer novos equipamentos em parceria com a empresa. Parecem ser muito bons, a qualidade dos MVs vai deslanchar bastante.
  Jimin cutucou Jungkook de forma animada, enquanto ele retribuía o sorriso, imaginando de repente como seria produzir mais conteúdo para o seu acervo de diretor com uma câmera mais profissional do que a sua do estoque pessoal.
  — Então melhor voltarmos amanhã — Taehyung assentiu, dando uma leve batida nos ombros do rapaz, que curvou a cabeça novamente. — Obrigado pela informação. Fighting!
  Em cumprimentos de despedida, eles começaram a deixar a sala. Jungkook olhou pela última vez para a porta entreaberta com curiosidade evidente, típico de quando sentia que estava deixando alguma coisa para trás.
  O staff do sr. Ahn percebeu o olhar furtivo do garoto e soltou uma risada baixa.
  — Ah, ele não está ali mesmo — ele disse, e Jungkook o encarou confuso. — Aquela garota veio aqui, a fotógrafa estrangeira. O sr. Ahn a deixou procurar alguns filmes naquela sala. Já faz uns vinte minutos que ela está lá dentro.
  Taehyung e Jimin já haviam ultrapassado a porta e esperavam Jungkook bem depois do batente. Ele mal percebeu que havia parado por mais tempo que o necessário ao receber a informação, e quis trincar os dentes ao notar que não esperava vê-la ali hoje. Quando Jimin o chamou de novo, ele logo se despediu devidamente do garoto e voltou a acompanhar a dupla, que discutiam algo sobre a nova coreografia, mas ele não estava prestando atenção. Ele só conseguia pensar em uma coisa, e percebeu que pensava em tal coisa há mais tempo do que esperava.
  — Ei, JK. O que acha de udon? — Jimin perguntou enquanto mexia no celular. — O Jin disse que queria cozinhar no dormitório hoje. ‘Tá mandando aquelas fotos ridículas dele em forma de enquete pra gente escolher. E aí? — sem resposta. Jimin levantou os olhos e viu o amigo andar a seu lado com a cabeça aérea. — Jungkook!
  — O quê? — ele se virou em sobressalto, vendo a expressão confusa de Jimin.
  — Udon. Jantar no dormitório. Não verificou seu Kakao?
  — Ah, é. — Ele pegou o celular a tempo de ver as notificações antigas. — Por mim, qualquer coisa serve.
  — E esse é o Jungkook de sempre — Taehyung respondeu, e Jimin riu.
  — Vocês podem ir na frente, eu acho que esqueci alguma coisa no estúdio principal depois daquela última live — ele colocou o celular no bolso e começou a fazer o caminho de volta. Jimin e Taehyung juntaram as sobrancelhas e começaram a caminhar em suas costas. Jungkook suspirou e parou bruscamente, virando-se para os amigos de novo. — Eu disse que podem ir na frente.
  — Aish, você anda tão estranho — Jimin resmungou e puxou os ombros de Taehyung. — Vamos, deixa essa criança pra lá.
  Jungkook revirou os olhos enquanto assistia os dois mais velhos seguirem em frente. Ele seguiu para o outro lado, caminhando a passos largos para a entrada principal do estúdio, o mesmo lugar onde esteve ontem arrancando folhas de papel do caderno, guardado no mesmo lugar.
  Minutos mais tarde, batia as mãos uma na outra enquanto tentava se livrar dos resquícios de poeira que entrava sob suas unhas e subiam até seus antebraços. Ela não tinha nenhuma alergia ou coisa parecida, mas havia perdido as contas de quantas vezes havia espirrado por causa de toda a poeira. Procurando otimizar o seu tempo, ela pegou mais caixas de uma única vez para fazer um rodízio mais eficiente de busca e parecia estar dando certo. Já havia conseguido pelo menos seis filmes e esperava parar quando chegasse aos dez. Então, mais uma vez, ela esticou o corpo por cima da cadeira de plástico e tentou alcançar a caixa de papelão dos fundos do armário, as maiores detentoras de pó do que as da superfície, se é que era possível.
  A playlist havia saído de um DNA vibrante para a melodia calma e melancólica de Begin. Ela havia se tornado uma perfeita conhecedora de todas as músicas do BTS, mesmo que nem se desse conta disso. Desde os acontecimentos malucos na América, ela jamais imaginou que estaria cantarolando a música de Jeon Jungkook de forma quase perfeita, errando uma pronúncia aqui e acolá, mas reconhecendo que era uma das melhores músicas que ela já havia escutado.
  Em um piscar de olhos, ela sentiu algo roçar em suas costas. A única coisa que ela escutava era a música, e o toque a deixou em puro espanto quando se virou de uma vez só, ainda com alguns filmes amassados nas mãos. Seus pés perderam o equilíbrio por um instante, sendo tempo suficiente para que o plástico abaixo sentisse a mudança de peso e quase tombasse para trás. Ela sufocou um grito e viu as mãos de Jungkook tomarem seus braços em um movimento rápido, logo em seguida pegando em sua cintura e a colocando no chão, ainda com a soundtrack de Begin como se tudo fosse uma perfeita alucinação.
  Ela o viu esfregar as mãos na calça e se livrar da poeira na barra da camisa dela enquanto murmurava palavras sem som. Ela o observava em sua frente em movimentos ilusórios de câmera lenta, fazendo-a sentir uma pontada estranha no peito.
  — ! — ela levou um susto quando ele arrancou um de seus fones, transformando o ambiente agora em um ponto fixo e real. — Caramba, não sabia que levantou hoje planejando quebrar uma perna.
  Ela revirou os olhos, retirando o outro fone.
  — Nunca planejo quebrar nada, Jeon. Os planos de saúde desse país são bem caros.
  — Então acho que seria mais inteligente não subir em um desses da próxima vez — ele cutucou o banco de plástico com a ponta dos pés, olhando em seguida para a bagunça do chão. — Seja lá para o que você queira fazer.
  Ela seguiu seu olhar e limpou a garganta, de repente constrangida por ter quase caído em seus braços daquele jeito.
  — O que faz aqui? — perguntou.
  Ele a encarou por um instante enquanto buscava uma forma de responder, e de repente escutou as últimas batidas da música que saía alta pelos fones de ouvido fechados nas mãos dela. Ela viu para onde ele olhava e rapidamente desligou o ruído, se sentindo ainda mais envergonhada do que antes — e sentindo raiva por isso.
  — Caramba, , se gosta tanto da minha voz, pode simplesmente ligar pra mim.
  — Não tem o mesmo efeito, posso te garantir — ela sorriu em sarcasmo, querendo desesperadamente que ele fosse embora. Ainda não aceitava aquela pontada esquisita; ainda não aceitava aquela noite maluca em seu estúdio. — Não é como se eu pudesse fazer isso no momento também.
  Ele umedeceu os lábios e assentiu com a cabeça.
  — É sobre isso que vim falar com você.
  Ele remexeu nos bolsos e puxou de lá um celular. reconheceu o modelo na hora: já tinha visto fotos suficientes da campanha do BTS pra Samsung para reconhecer que aquele era o mais novo e moderno smartphone da marca. Ele era roxo e revestido por um plástico na tela, novo em folha. Um carregador embolado nas mãos de Jungkook parecia pequeno em comparação ao aparelho que parecia gigante aos olhos de .
  Ela olhou do celular para ele, como se perguntasse em profunda inocência o que ele estava querendo fazer.
  — Pega. É pra você.
  — Quê? — ela piscou os olhos, descrente. — ‘Tá maluco?
  — Você sabe que não. Vamos lá, pega.
  — Não vou aceitar isso, Jungkook — ela arqueou as sobrancelhas, como se dissesse o óbvio. — Não posso aceitar.
  — Não paguei por ele, se é com isso que está preocupada — ele deu de ombros. — Deve ter pelo menos cinquenta desses espalhados pelo estúdio, esperando pra serem espalhados pelos staffs pra fortalecer a publicidade, então não é tão estranho receber um, ok? Pode conviver com isso?
  Ele pegou em sua mão e depositou o celular ali com firmeza e rapidez, lançando-lhe um sorriso vitorioso. Ela não teve tempo de rejeitar o aparelho e agora o prendia em sua palma, como se fosse deixá-lo cair a qualquer momento.
   não sabia o que dizer por um momento. Ela encarou o sorriso irônico de Jungkook e trincou os dentes com uma raiva contida.
  — Você podia ter me perguntado antes — disse ela com palavras atropeladas. — Ou ter feito algo melhor do que isso.
  — Te perguntar como? Na sua cama? — ele ergueu a sobrancelha e ela sentiu um embrulho no estômago. — Acho que se esqueceu da vibe século 18 que você passa, então te garanto que um celular novo vai te trazer de volta pra uma era onde as pessoas se comunicam sem precisar estar juntas. Acho que vai ser interessante pra você — ele sorriu novamente, desta vez em uma indicação clara sobre quem falava. — E se viesse em um embrulho, você poderia pensar que é um presente.
  — E vir assim não é considerado um presente? — ela estreitou os olhos.
  — Não é um presente! — ele respondeu rápido, tirando o sorriso sacana do rosto.
  — Então o que é?
  — Já disse, é uma ajuda. Seu talento com câmeras não vai ser nada se as empresas não conseguirem se comunicar com você, já pensou nisso?
  Ela abriu a boca para responder, mas não conseguiu. Sua mente se apagou em uma demonstração aberta de razão a Jungkook.
  — Tá legal — ela disse, suspirando. — Vou agradecer pela ajuda que não pedi.
  — Você pede ajuda de várias formas — ele riu e balançou a cabeça, recebendo um olhar mortal da garota. — Vai me dizer que não estava procurando um novo? Com certeza não pretendia abrir o bolso e comprar um desses.
  — Eu… — ela tentou responder, mas novamente as palavras se perderam. — Eu não iria…
  — Sabemos bem que você não iria. Agora dá pra aceitar o celular sem reclamação? Não vai te fazer tão mal assim.
  Ela engoliu em seco e o encarou por mais uns minutos antes de se dar por vencida e concordar com a cabeça. Olhou o aparelho novo e perfeito em suas mãos e quis rir de repente por pensar em chegar em casa e ter que “aprender” suas funcionalidades como uma perfeita idosa.
  — Você é um grande desgraçado, mas não é mentiroso — ela deu de ombros, puxando sua bolsa do chão e guardando o celular com cuidado. — Vou aceitar pela câmera quebrada em New York. E não vá pensando que não vou pagar por ele.
  Ele riu, balançando a cabeça em indignação.
  — Você insiste em pagar? — ele levantou uma sobrancelha. — Estou louco pra saber como pretende fazer isso.
  Ela estava pronta para rebater quando entendeu o sentido de sua frase. Aquele sorriso cafajeste que parecia agora ser bastante usado quando estavam juntos a levou de novo à noite do estúdio, e de como ela não sabia novamente como lidar com tais atitudes que poderiam ou não ser incluídas no acordo. Como receber uma ajuda disfarçada de presente, ou vice versa. Era confuso, será que ele sentia a mesma coisa do que ela sobre isso?
  Ela pensou em perguntar porquê ele estava fazendo aquilo. Não tinha lógica. A única coisa que Jungkook deveria dar a ela eram orgasmos divididos em dias esporádicos da semana, e não mais do que isso.
  — Talvez eu demore um pouco pra isso — ela respondeu, hesitante, tentando empurrar palavras aleatórias pela cabeça para que não perguntasse o que queria perguntar.
  Ele se aproximou a um passo, que foi o bastante para encará-la de perto.
  — Não precisa disso, pode só me agradecer.
  — Então prefiro agradecer à equipe de publicidade. Afinal, eles não quebraram nada meu para buscarem uma forma de se redimir.
  Jungkook revirou os olhos.
  — Eu tentei te comprar uma câmera nova.
  — Você tentou me dar um cheque absurdo e sem noção.
  — E não é a mesma coisa? — ele rangeu os dentes. — Acha que naquela época eu estava preocupado em ajudar em alguma coisa no seu trabalho?
  — Então por que está preocupado em fazer isso agora?
  Os dois se encararam de forma firme e mutuamente raivosa. Havia tanta confusão embolada em suas mentes, tantas lembranças que pegavam fogo que de repente quis empurrá-lo para fora da sala. Mas ao mesmo tempo também queria que ele simplesmente calasse a boca e tirasse sua camisa da mesma forma que fez em sua casa.
  Uma pontada aguda de rancor deu às caras no peito de Jungkook, mas desta vez seu efeito foi totalmente reverso. Ele não sabia responder a sua pergunta e nem queria responder, não queria lembrar de New York e recordar de como não suportou olhar para por muito tempo depois do acontecido. Mas agora a lembrança vinha e passava rápido, e ele só conseguia sentir um formigamento misturado com raiva misturado com tesão a cada vez que ela trincava o maxilar quando estava nervosa e jurou que seria capaz de andar até aquela porta e trancá-la para começarem a tirar as roupas de novo.
  Ele com certeza estava louco de vez!
  — Srta. ? — os dois ouviram a voz vir do lado de fora e se afastaram em um susto compartilhado. Jungkook olhou para as paredes enquanto encarava as prateleiras empoeiradas, notando agora que devia estar com o rosto quente pela sensação maluca que acabara de ter.
  O barulho de passos ia se aproximando da porta. Ela encarou Jungkook com ansiedade, assim como ele, que tratou logo de respirar fundo e balançar a cabeça.
  — Melhor aprender logo a mandar mensagens, — disse ele, se aproximando pela última vez. — Te vejo hoje à noite? — sussurrou.
  Ele a encarou com tanta intensidade que ela não conseguiu formular uma resposta decente, apenas concordou com a cabeça e observou as costas dele se afastando.

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  Estar em um avião duas vezes na mesma semana parecia um pesadelo. Mas tentava ao máximo não reclamar. Se quisesse realmente trabalhar na National Geographic tirando fotos de safáris na África e desertos no oriente médio precisava superar aquilo. Seu corpo não seria um empecilho para o seu sonho.
  Candice sentou-se ao seu lado, não que tenha notado; ela já estava de olhos fechados. Sentiu um cutucão e algo gelado e molhado em seu ombro.
  — Caramba, são só 5 horas, ! — ela abriu os olhos e pegou a garrafa de água que Candice oferecia. — Vou precisar te dar quantas pílulas pra você não correr o risco de vomitar nos meus sapatos novinhos?
  — Quantas você tem? — fechou os olhos novamente após dar um grande gole da água, junto com o remédio para cinetose que havia recebido.
  Candice riu, encostando-se no assento e abrindo o celular. mal podia acreditar quando ela a contou que James a mandara para ir junto naquela empreitada, com o intuito de fazer parte da equipe da coletiva de imprensa. Aquele não era seu trabalho habitual, mas James estava certo quanto às condições financeiras da revista. Primeiro que as revistas em formato físico vendiam cada vez menos e ele era uma perfeita mula quando se tratava de mudar seu rumo de negócios. Mas tinha de concordar que, se a capa dessa edição fosse boa, as chances da revista ser salva eram enormes.
  E seu mestrado em Londres. Aquilo sim era motivação. Mais um degrau pro seu objetivo dependia daquela capa.
  — Cadê a Hilary? — ela perguntou enquanto se ajeitava no banco porque iria dormir com certeza.
  — A vaca fez questão de reservar um assunto bem longe de nós — Candice deu uma risadinha. — Talvez não queira que saibamos do seu grande plano.
   ficou em silêncio porque sabia que Hilary era muito capaz de colocar realmente um grande plano em ação. Ela era boa naquilo e jamais passaria seu conhecimento adiante. Mas o plano de também não era dos piores.
  As horas haviam passado mais rápido, graças às várias sonecas que havia tirado no caminho. Candice a acordou com um cutucão e logo saíram do avião. Ela havia trazido apenas uma pequena bagagem de mão enquanto a amiga portava não apenas uma, mas duas malas. Pudera, ela era a pessoa mais vaidosa que conhecia. E estaria na coletiva de imprensa, mas isso não explicava as outras roupas. Ficariam no máximo dois dias na cidade.
  Ao menos James não havia mandado as duas para um hotel de beira de esquina por causa da falta da grana. Ele apostava tanto naquele trabalho que havia feito as reservas no Opera House Hotel no Bronx, e não duvidava que havia o dedo de Candice naquela história. Ela jamais aceitaria ficar em um lugar com menos de três estrelas.
  O táxi as deixou em frente à construção restaurada e gigantesca. O final da tarde combinava com as luzes amarelas que já estavam acesas e as bandeiras estendidas do país no extremo superior do lugar. procurou a sua analógica, o apetrecho preferido que usava para registros pessoais.
  — Não, não, não temos tempo pra isso — Candice baixou sua câmera antes que ela desse qualquer clique. — Temos que arrumar as nossas coisas. A premiação vai começar em algumas horas.
   fez um biquinho triste e foi puxada para dentro.

  Candice estava montada em um vestido vermelho longo com uma grande fenda na perna direita e tanta maquiagem que mal a reconhecia. Estava linda, parecia que brilhava. O cabelo estava arrumado em um coque solto, com uma presilha brilhante em uma extremidade lateral. Parecia ser uma das artistas que desfilariam na entrada, não uma colunista.
  Enquanto isso, havia colocado um jeans preto, com tênis pretos e um moletom também preto com um capuz. Sabia que deveria parecer uma pessoa normal e não alguém que furtaria telefones, mas ela não conseguia exatamente correr e se esconder de saltos e vestido. Não usava isso nem em situações que pediam, então trabalharia da forma que achava melhor.
  Prendeu o cabelo em um coque e o escondeu por dentro de um boné escuro. Ela estava pronta. Esconder a Nikon era a parte mais difícil, mas era fácil camuflar a bolsa preta também. Posicionou a lente na câmera para que fosse mais fácil caso precisasse pegá-la rápido.
  — Você parece um moleque — Candice murmurou enquanto retocava o batom pela décima vez.
  — Essa é a intenção — deu de ombros. — Já é hora de irmos?
  — Quase. Preciso reler minhas perguntas — ela puxou uma pequena pasta de dentro da bolsa em sua cama. — Já sabe como vai fazer?
  — Mais ou menos.
  Na verdade ela sabia, mas não imaginava como Candy iria reagir. A amiga a encarou feio, como se já estivesse pronta para negar caso pedisse para que ela fizesse seu trabalho de novo. E por trabalho ela queria dizer: fazer uma varredura na internet e por todos os contatos que tinham para descobrir onde os artistas iriam após a premiação, a placa do carro, com quem estavam, o endereço da festa e etc. não tinha jeito para aquilo tanto quanto Candice, mas desta vez precisava fazer aquilo sozinha. Havia o seu mestrado em jogo.
  Quando chegaram ao hotel, ela não perdeu tempo e tratou logo de dar uma estudada em toda a planta do local — e ligar escondida para Phil. Era a ideia mais louca de sua vida e ela não estaria disposta a correr tanto risco se confiasse que aquela seria sua última vez fazendo aquilo antes do voo para Londres. Ela só tinha de fazer uma vez.
  Como seria os bastidores de uma premiação como aquela? Óbvio que haveria segredos, comportamentos e interações inesperadas. Era um prato cheio para James. Talvez ela presenciasse um próximo capítulo da saga Taylor vs Kanye ou uma nova versão desta novela.
  Tudo que precisava era ser discreta e relembrar os golpes de auto defesa que havia esquecido há muito tempo. Várias coisas poderiam dar errado naquela noite.
  Candice saiu primeiro. Afinal, não havia nada para enquanto a premiação não começasse. Ao sair do hotel, menos de uma hora depois, passou pela portaria sem o boné e com os cabelos soltos, dando um tchau amigável para o porteiro antes de chegar ao lado de fora. Dentro do táxi, fez o coque novamente e meteu o boné, fazendo com o que o taxista a olhasse confuso, como se estivesse se perguntando se havia pegado uma garota mesmo. Ajeitou a câmera mais uma vez com cuidado na bolsa antes de chegarem ao local.
  Ou ao menos perto do local. O trânsito estava tão caótico naquela região do Brooklyn que preferiu ir andando. Ao menos não pagaria a viagem total do taxista, o que economizaria o dinheiro de James. Jogou o capuz na cabeça e seguiu andando com as mãos nos bolsos em direção à arena. Ficava mais nervosa a cada passo que dava, mas precisava seguir seu plano, por mais perigoso que ele fosse.
  Não muito longe dali, ela aguardou algumas horas em uma lanchonete que parecia ser de baixa categoria. Sabia que havia algumas partes do Brooklyn que não eram lá muito recomendadas de se estar à noite, mas seu visual parecia se camuflar muito bem. Se eles a encaravam, ela os encarava de volta e estava tudo certo.
  As músicas das apresentações podiam ser ouvidas dali. esperou que tocassem as cinco primeiras. Ao final desta, levantou-se e saiu, jogando umas notas na mesa pelo café que havia pedido. O troco do táxi funcionou muito bem.
  Ela andou de volta para a arena e trincou os dentes. Talvez não fosse tão fácil como esperava. Desejou fazer perguntas à Hilary porque estava pra nascer pessoa que soubesse se enfiar em todo lugar como ela, mas não o fez. Ela também não a diria. Só restava se virar.
   cresceu no interior. Costumava tentar escalar todo tipo de coisas até uma certa idade em busca de perder o medo de altura, mesmo que não tenha dado muito certo. Apesar de tudo, a visão que tinha de lá de cima era espetacular, tão linda que queria que ficasse marcada para sempre na memória. O amor por todas as suas câmeras surgiu dessa necessidade que tinha de não deixar os momentos felizes morrerem. Naquela noite, teria que pensar em todas elas para conseguir se motivar a continuar com aquele plano maluco.
  A imprensa estava presente em peso e a segurança do evento não era brincadeira. pensou na hora: alguém tem que limpar esse lugar. Tem comida no camarim, certo? Alguém também precisa levar as roupas dos artistas. O que não faltava era funcionário dentro dessa estrutura gigantesca e eu precisava que eles pensassem que sou uma urgentemente.
  Seu celular tocou repentinamente e ela viu o nome de Phil no visor. Para sua infelicidade, teve de incluí-lo no plano assim que chegou, e odiava isso mais do que tudo. Ela estava sem escolhas.
  — Darling — ouviu sua risada maliciosa. — Afinal, percebeu que precisava de mim.
  — Corta essa, Phil. Conseguiu o que eu pedi?
  — Pra sua sorte, sim. Mas… Tem certeza que quer seguir com isso? É um pouco perigoso.
  — Tenho. Ela vai me encontrar?
  — Fica pronta atrás da arena, mas não dá muito mole. Aposto que tá vestida com aquele visual totalmente não sexy de novo, não é? — revirou os olhos e ele riu ao fundo. — Ela vai te encontrar. Fica ligada.
  Ela fechou o telefone e o guardou no bolso. Já não tinha nenhum smartphone e muito menos um celular decente. Mas ele era apto a fazer e receber ligações, e era tudo de que precisava. Correu pra parte de trás da arena e esperou.
  Uma garota não muito mais velha do que atravessou a rua correndo e veio em sua direção, que era apenas uma sombra disforme e estática escondida na região arbórea da calçada. Ela usava um uniforme de limpeza, com um coque preso na renda preta e um avental branco. Ela não disse nada, apenas olhou para e jogou uma sacola de papelão no chão bem à sua frente, dando a volta e retornando pra arena de novo. demorou segundos para entender que aquele era o plano.
  Ela pegou a sacola e se agachou na árvore. Lá dentro havia uma calça social preta, uma blusa branca de botões e um colete. Também tinha a rendinha, que imaginava ser pro coque. Não havia sapatos, mas havia um crachá e um pedaço de papel indicando onde ela deveria entrar. Ela estava sinceramente muito surpresa; não imaginou que Phil pudesse ser tão prestativo. Esperava sinceramente que ele não estivesse pensando que ela iria agradecê-lo na cama depois. Não se importou de trocar as roupas ali mesmo. Não havia ninguém, absolutamente ninguém naquela área. As ruas adjacentes estavam quase todas interditadas por causa do evento e quem devia estar lá dentro, já estava. Ela não via movimentação na porta, além da segurança.
    Largou a sacola com a sua roupa atrás da árvore e caminhou até os fundos com a bolsa preta onde estava a câmera. Seu rosto não era lá muito memorável, e deveriam ter uma quantidade absurda de funcionários lá dentro, portanto eles jamais se tocariam de que ela era uma pessoa que não estava lá antes.
  Como imaginou, não foi difícil passar pela segurança. Na verdade, foi até um pouco divertido: um deles a deu boa noite e havia um grupinho que estava fumando juntos. Ela recebeu uma pergunta preguiçosa de por que estava atrasada e ela pensou rápido; apontou para a bolsa atravessada e deu uma piscadinha amigável para o homem, que a encarou por um instante antes de abrir caminho. O coração dela estava pronto para sair pela boca. Havia muitos deles.
   nunca havia parado para pensar em como eram os bastidores de uma grande premiação, mas constatou que era uma zona. Haviam pessoas correndo pra lá e pra cá, gritos e muito cheiro de comida. Ela avistou na mesma hora uma porta ao fundo e bandejas escoradas em uma abertura na parede, cara de bufê total. Ninguém em especial parecia prestar atenção nela, então a princípio não sabia bem o que fazer. Não queria fingir tanto costume a ponto de executar uma função específica que eles faziam, aquilo a faria perder tempo. Ela precisava andar por aí, pegar alguma coisa, qualquer coisa.
  Uma mulher com as roupas iguais a dela puxou-a pelo braço repentinamente e a empurrou para uma sala grande com araras montadas com roupas de diferentes cores, tons, formas, como um closet gigante.
  — Onde você estava esse tempo todo? — Ela parecia muito brava. — Aqui, leve este pro camarim 15, agora mesmo! A apresentação vai começar! Era só o que me faltava… — ela bufou, riscando alguma coisa em um bloquinho de notas. — Se eu vê-la parada no corredor de novo vai ficar sem cachê.
  Ela saiu da sala pisando fundo. olhou para a arara que a outra havia mostrado e viu as mais diversas variações de ternos e roupas extremamente brilhantes que quase a deixavam cega. Camarim 15. Ela não fazia a menor ideia da onde aquilo ficava.
  E isso não era ruim. Era a sua chance de explorar o ambiente e tentar captar algo. Aquele trabalho havia lhe ensinado muito na arte da observação e algo a dizia que iria conseguir uma matéria de capa perfeita.
  Haviam pelo menos três rampas que precisou subir carregando uma arara para conseguir chegar ao andar dos camarins. Ali também havia movimentação de pessoas, mas em menor quantidade, e o ambiente também era mais silencioso, tirando o estrondo vindo da arena. andou devagar com a arara e começou a contar as cabines: 1, 2… 6,7…
  Ela se perguntou se uma dessas poderia ser o camarim do Harry Styles. Talvez ela o pegasse com alguma modelo — ou um modelo, vai saber. As duas formas dariam uma boa história. Andou mais um pouco à frente e percebeu que os corredores não eram alinhados. Existiam várias curvas e bifurcações, fazendo o lugar parecer quase um labirinto. Como ela sairia dali depois? Eu deveria ter prestado mais atenção ao caminho do que no conteúdo dos camarins.
  Ela não chegava ao camarim 15 nunca. Quando caiu em si, havia dado tantas voltas que leu o número 27 em uma estrela da porta. Não havia nome. A porta estava entreaberta. Não havia motivo para ela entrar em um camarim que não sabia de quem era.
  Mas uma voz que reconheceu gradualmente estava vindo do fundo do corredor e andando rápido. avistou um cabelo loiro rodeado de outras pessoas falando sem parar. Puta merda, era a Taylor Swift. Abriu o camarim 27 com os ombros, empurrando a arara e fechando a porta logo em seguida e encostando os ouvidos na porta, tentando escutar algo relevante.
  Fotografar Taylor Swift no corredor do set não era uma coisa digna de capa. Ela sabia disso. E foi impossível ouvi-la quando haviam mais três pessoas ao seu lado falando ao mesmo tempo. bufou e se achou uma idiota por ter pensado que aquele plano daria certo. Ela não fazia ideia do que estava fazendo, ela só pensava em Londres. Tinha que se concentrar de verdade.
  Virou-se para a sala pela primeira vez e definitivamente não sabia onde estava. Não parecia um camarim, parecia mais uma sala de espera. Haviam algumas cadeiras giratórias e penteadeiras enormes no ambiente, mas não havia ninguém. De um lado, dois sofás de couro estavam postados um de frente para o outro e atrás destes havia uma aglomeração de araras, com vestidos coloridos, ternos e roupas brilhantes. Assim como os que estava carregando. Não havia nem comida, mas a luz estava acesa. Onde ela tinha se enfiado?
  Ela se preparou para dar o fora dali, mas de repente ouviu vozes no corredor. E podia jurar que as vozes estavam vindo exatamente para aquela sala. Uma risada altíssima soou como se estivesse dentro do ambiente e se apavorou imediatamente. Puxou a arara para juntá-la com as outras atrás do sofá de couro e se enfiou no meio delas no mesmo instante que a porta se abriu.
  Dois caras entraram na sala, rindo a plenos pulmões. Quando começaram a conversar, ela esticou os ouvidos para entender, mas na verdade… Que língua era aquela? Eles não estavam falando em inglês.
  Ela olhou pela fresta dos vestidos e viu um deles se sentando no sofá à sua frente. Asiáticos, ela desconfiou. Ele tinha o cabelo preto e usava uma roupa igualmente preta, mas estava de costas. O que estava à frente dele era o que ria escandalosamente. Ele falava alegremente sobre um assunto que ela não fazia ideia porque, bem, não entendia o que eles estavam falando. Quem eram aqueles caras?
   ficou uns minutos vendo-os na mesma posição, conversando, ora mexendo no celular, ora voltando a rir. De repente, o cara de cabelo preto começou a falar tanto que parecia mais um monólogo e, pela expressão do outro, falava de algo sério porque ele prontamente parou de rir. Ela não fazia ideia do que poderia ser, mas ele estava minutos a fio olhando fotos de uma mulher tatuada na galeria do telefone. Oras, ele estava na sua frente, não tinha como não ver.
  O rapaz enterrou a cabeça entre as mãos, e mesmo não vendo seu rosto, sabia que a conversa tinha um teor difícil. O cara da frente levantou-se e sentou ao lado do amigo, passando uma mão por seu ombro e dizendo outras palavras que ela não entendeu, mas pareciam ser de consolo. só podia supor que ele provavelmente estava tendo dificuldades em algum relacionamento.
  A porta abriu novamente e dessa vez um terceiro deles entrou. Ele chegou perto dos dois no sofá e também começou a falar naquela língua, que a cada vez parecia mais familiar. Apesar dela não entender, eles tinham bastante linguagem corporal e era fácil supor o assunto da conversa: ele queria saber o que estava acontecendo.
   olhou mais de perto o terceiro integrante, que estava de pé. Ele também tinha o cabelo preto, mais cheio do que o primeiro, e tinha uma expressão séria. O tom de sua voz rouca repentinamente a fez se lembrar de algo.
  Ela respirou o mais discretamente que conseguiu, tentando recordar. Ela se lembrava desse rosto, lembrava dessa expressão. Já tinha ouvido aquela voz.
   era uma negação para estar por dentro dos maiores nomes de sucesso da atualidade, apesar daquele ser seu trabalho — que preguiçosamente deixava na mão de Candice. A amiga odiava ter de fazê-lo, mas fazia questão de se familiarizar no que estava acontecendo na vida de qualquer um desses nomes.
  Há algumas semanas, Candy havia lhe dito sobre um grupo de meninos da Coreia do Sul que estavam fazendo sucesso em proporções globais e que logo logo estariam frequentando as premiações da América. No início, ignorou, mas foi coagida a assistir não só um, mas três clipes musicais. A música era boa e as coreografias eram bem trabalhadas. Não foi o bastante para que ela sentisse uma completa perdição por eles — ela não se sentia assim por artista nenhum. Mas não negou que um deles havia chamado sua atenção; não só por ser um gato porque, na realidade, todos eram. Mas a voz dele era diferente e chamou sua atenção, e ele estava bem ali na sua frente. Era loucura.
  Ele disse algo para o cara risonho e os dois saíram da sala, deixando o cara de cabelo preto sozinho, cabisbaixo e ainda encarando as fotos da mulher no celular.
  Ok, agora ela estava ciente. Esse era o BTS — ou parte dele. Tinha que ser. Ela não era nem de longe a maior conhecedora do k-pop, mas se lembrava do carinha da voz bonita e isso era tudo que precisava saber.
  E eles realmente eram celebridades em ascensão. E um deles estava na sua frente, olhando de certa forma apaixonada para a foto de uma garota. Se odiou pelo que iria fazer, mas já estava pensando em Londres.
   sabia que Hollywood era uma terra onde já se havia visto de tudo. Mas uma foto daquelas renderia pelo menos uma semana de burburinho, e isso já seria a salvação da revista. Não havia mais ninguém ali, seria exclusivo. Como quando os abutres da internet estavam furiosos para saber quem era a primeira namorada do Justin Bieber quando ele havia acabado de estourar. As pessoas adoram artistas novatos. A carne fresca no pedaço estava ali, e Hollywood estava louco para destrinchá-los e mostrar ao mundo. Era a sua capa.
  Com muito cuidado, ela abriu a bolsa e pegou a câmera. A lente era tão imensa que ela ficou preocupada de ser vista por ele, então ficou aliviada por ele estar de costas. Posicionou o ângulo certo para que pegasse a foto da garota direto no celular, e agradeci por ele ficar revirando a cabeça várias vezes para que pudesse pegar um pouco do seu perfil também. então silenciou o equipamento e começou a dar vários cliques.
  Ele balançava a cabeça várias vezes e ela não estava nada satisfeita com a qualidade da foto do celular. Não estava nítida o bastante, precisava chegar mais perto. Tentou avançar o mínimo possível, sem respirar, e deixou a lente ultrapassar um pouco as roupas. As batidas na arena enchiam o ambiente a ponto do rapaz não ouvir seus dedos no botão, e repentinamente ele saiu da galeria e foi para um aplicativo de conversas. Não havia absolutamente nada que pudesse entender, mas registrou mesmo assim.
  De repente a câmera não tirava mais fotos. O botão não seguia seus comandos. Não, não, não. A bateria não podia ter acabado. Ela jamais saía com a bateria sem estar 100%. Bufou e tentou dar umas batidinhas no objeto, xingando internamente. Malditas câmeras digitais.
  Só que ela não contava que bateria tão sem jeito que a ferramenta cairia no chão, causando o maior estardalhaço.
  O cara pulou de susto, virando-se para trás repentinamente. Droga, droga, droga. Ela abaixou-se para pegar a câmera na mesma hora que ele afastou as roupas da frente e olhou para ela.
  — Quem é você? — se surpreendeu ao vê-lo falando inglês. Ele tinha um inglês muito bom, diga-se de passagem.
  Mas ela não estava afim de bater papo. Ele olhou da garota para a câmera e não iria dar tempo de ele entender nada. Levantou-se e saiu correndo até a porta, mas foi puxada pelo braço, deixando a câmera cair no chão novamente. Desta vez ele foi mais rápido e pegou primeiro.
  — Paparazzi, é? — ele cerrava os dentes, nervoso. — Há quanto tempo estava escondida ali atrás?
  — Devolve a minha câmera — ela tentou soltar o braço, mas ele agarrou com mais firmeza e a puxou para perto, não pretendendo deixar que ela fugisse.
  — Você é maluca? Quantas pessoas nesse evento são supostos funcionários? — ele deu uma risada engasgada e irônica. — Sinto te dizer que seu plano vai acabar…
   tentou novamente avançar para pegar a câmera, mas ele a levantou no alto e porra, como ele era alto. Aquela não era apenas uma câmera, ela era Londres! Era o mestrado! Era o seu sonho! Ela não podia deixar que as coisas dessem errado àquela altura do campeonato.
  — Eu não fotografei nada, por favor, só me devolve a câmera, ela é muito cara — mentiu, mas esperava que ele acreditasse.
  — Ah, ela é muito cara? — ele levantou uma sobrancelha. Do nada, ele simplesmente jogou a câmera no chão, com uma força considerável. A lente se separou da câmera há pelo menos um metro de distância.
  — Ops — ele deu de ombros, despreocupado.
   ficou completamente chocada. Ele a puxou para mais perto, ainda com um olhar raivoso.
  — Caro é o preço que a gente paga por deixar vocês transformarem nossa vida em um circo.
  Ela não costumava sentir raiva de nada. Nem quando Candice pegava seu sorvete sem pedir. Mas aquele cara havia oficialmente ganhado sua inimizade.
  Ela não estava pensando direito. Estava muito nervosa. Quando percebeu, já havia chutado o meio de suas pernas com uma força impulsionada pelo ódio. Ele gemeu e a soltou na hora, o que a cedeu tempo de pegar os destroços da câmera no chão e guardá-la de novo na bolsa.
  Ele já estava se recuperando. Seu olhar era um misto de choque e desprezo, e isso pareceu deixá-la com ainda mais raiva. Juntou as mãos em seu peito, dando-lhe um empurrão também com uma força que nem sabia que tinha. Ela oficialmente o odiava.
  — Babaca! — gritou e correu para a porta o mais rápido que pode. Ela precisava sair dali agora mesmo.
  A poucos metros, a porta subitamente se abriu à sua frente e deu com a cara em uma pessoa que acabava de entrar. Sua testa bateu contra o tórax vizinho e ela foi jogada para trás, quase caindo.
  — Ai! Você está bem?! — ele perguntou, com uma careta de dor. o encarou e devia estar muito tonta para sentir o que sentiu: um milésimo de segundo parar para que ela admirasse um dos rostos mais lindos que já viu. Ela havia batido nele e ele se preocupava em perguntar se ela estava bem. De repente ele olhou para trás dela e viu o cara que ela havia acertado entre as pernas. Ele gritou algo que ela não entendia e, sem perder tempo, empurrou-o para o lado e correu com toda a força que conseguia até onde se lembrava ser as rampas. Achou ter ouvido um grito vindo daquela sala, mas estava muito ocupada desviando de pessoas e araras para conseguir se afastar dali o mais rápido possível.

[ 3 ] – We'll put it down to fate

Este capítulo está em processo de revisão.

"Bem, secretamente, eu acho que eles querem que tudo se exploda
Eles querem, braços voando por todos os lados assim como garrafas
Só algo pra se conversar, uma história pra te contar
[...]
Eu disse um milhão de coisas que eu nunca poderia ter dito essa manhã
Ficou muito profundo, mas o quão profundo é muito profundo?"
▶ from the ritz to the rubble

  O céu estava inchado de chuva.
  Chuvas de verão eram consideradas bons presságios, pelo menos de acordo com a população da linha 417 de Jongno-gu para Yongsan-gu. Segundo uma idosa que carregava uma bolsa cheia de folhas de rúcula, eram ocasiões tão especiais quanto a primeira neve, apesar de as pessoas não darem a mesma importância porque estavam ocupadas demais reclamando do calor.
   certamente seria uma delas. Não pelo calor, mas porque não pensou em levar um guarda-chuva.
  Até mesmo agora, enquanto olhava pela janela do estúdio no fim daquela manhã, ela não acreditava que o tempo feio se sustentaria até a hora do almoço. Só lhe restava torcer para que a chuva decidisse cair quando estivesse bem segura em casa.
  Ela bateu um dos últimos flashes daquele dia, observando o ombro mal colocado do garoto mais alto na frente do cenário de luzes fortes e brancas, vendo como ele parecia se esforçar para manter a pose.
  — Soobin — ela chamou, baixando a Sony até o peito. — Pode chegar mais perto do Yeonjun? Vocês dois vão ficar melhor sinalizados ali.
  Os dois rapazes assentiram e logo fizeram o que lhes foi dito. avaliou as novas posições e soltou um sorrisinho satisfeito, sendo retribuída por todos os outros cinco. Ela levantou a câmera novamente e a posicionou em frente aos olhos, soltando os cliques enquanto caminhava devagar para mais perto, pegando cada rosto com precisão. Ela se preparava para avisar das fotos individuais quando a voz do sr. Ahn surgiu por trás dela, avisando da pausa merecida para o almoço.
  — , você deve ir também. O pessoal da equipe vai comer jjangmyeong lá embaixo, quer se juntar a nós?
  Ela parou com a menção de pessoal da equipe e não soube se devia se sentir parte dela. Trabalhar com o sr. Ahn nos últimos meses a deu brecha para dizer que conhecia todo mundo, mas compartilhar refeições tinha um significado mais crucial no país. E se ver incluída nesses encontros era uma surpresa.
  Fazer aquele trabalho era como um esporte. Um jogo que gostava de pensar que jogaria melhor se conhecesse mais o meio e as pessoas inseridas, por isso não demorou em aceitar o convite.
  No entanto, ela não precisou se preocupar em responder perguntas difíceis sobre o mestrado ou suas experiências profissionais anteriores. Eles não pareciam ter dúvidas em relação a isso. Sentados numa mesa comprida no restaurante de macarrão no fim da rua, os demais subordinados do sr. Ahn, junto com alguns outros funcionários esporádicos, falavam apenas de suas vidas cotidianas fora daquelas portas e em como aproveitavam os conhecimentos técnicos de fotografia em suas vidas pessoais. Algo normal, mais normal do que ela esperava.
  Assim seria um jantar de equipe? As confraternizações famosas que faziam Candice chegar em casa tarde e bêbada no meio da semana?
  Quando ela riu pela milésima vez de uma piada feita por um colega um pouco mais velho e que falava sem parar, ela ouviu o toque do telefone. Levou um tempo até que notasse que se tratava do seu. Era fácil se esquecer que agora ela fazia parte da sociedade digital.
  Era uma mensagem de Candice. “Vamos almoçar juntas? Ou fazer as unhas naquele salão em Garosu-gil? Esse é o nome certo? Eu nunca lembro…”
    “Também verifiquei no Instagram que aquela loja de móveis está com liquidação de purificadores de ar! Também podíamos trocar aquele tapete da sala, ele anda com marcas de sapatos que não saem de jeito nenhum! E então? Onde você está?”
  Com Candice, era difícil dizer para que servia exatamente o horário de almoço. Todas as opções diziam a que almoçar não era uma delas.
  Mas a garota assumia que não adiantava apenas ignorar as mensagens. Ou Candice recebia uma atenção um pouco mais especial do que os outros – principalmente depois de ter ganhado um telefone novo, dando fim a todas as desculpas de vácuo que o velho sempre servia –, ou ela apareceria pessoalmente na empresa, ou em qualquer outro lugar que estivesse.
  Era assim. Candice Chaperman não era o tipo de pessoa que se prendia a motivos plausíveis para agir por impulso. Às vezes, tinha inveja disso.
  O resultado para se livrar das compras e, de quebra, não causar nenhuma revolta na amiga, era falar sobre a confraternização da equipe e acrescentar que ela teria mais uma tarde cheia de trabalho pela frente. Quando começou a digitar a mensagem que explicaria toda a situação, mais um pop-up estourou na notificação, e o nome de Jaehyun surgiu com um belo boa noite.
  Ela trabalhava duro para manter a expressão impassível toda vez que recebia uma mensagem dele ou simplesmente lia seu nome por qualquer lugar, mas às vezes era fácil se esquecer que estava em público e deixar um sorrisinho tímido escapar.
  Mesmo que aquele não fosse o melhor momento pra isso.
  — O que é isso, ? — disse Seojun, o colega sentado ao seu lado que adorava contar piadas, aproximando seu rosto do ombro de apressadamente, olhando para o celular. — Faz vinte minutos que você 'tá encarando esse telefone como se tivesse ganhado na loteria. Algum namorado novo? Quem é esse Jeon…
   puxou o celular num jato, esbarrando em uma xícara e fazendo uma bagunça na mesa com folhas de algum tipo de chá. O cheiro era terrível.
  — Não é ninguém! — respondeu rápido, devolvendo o aparelho da onde havia pegado, agarrando a bolsa junto. Ela encarou rapidamente os outros na mesa e percebeu, com alívio, que ninguém havia se virado, ou notado qualquer movimentação estranha dela. Apenas Seojun e as pessoas mais próximas, e nenhuma delas incluía o sr. Ahn.
  O garoto começou a rir. estreitou os olhos, desejando que um terremoto acontecesse bem embaixo de sua cadeira e o engolisse solo abaixo.
  — Jeon? Aish… Isso me lembra o Jungkook — disse a garota sentada na diagonal, bebendo um gole do chá, que fazia o possível para tentar arrumar. O nome dela era Yoona, era baixinha e usuária de muitas correntes e adornos oceânicos. A ideia do chá tinha sido dela.
  — Tudo te lembra o Jungkook — murmurou Seojun. — Já não basta te ver surtando pelos corredores todas as vezes que ele pisa na empresa. Se a equipe do RH descobrir… — sussurrou ele, olhando para os lados.
  — Calado! — ela trincou os dentes, e engoliu em seco com a conversa. Yoona pareceu perceber a apreensão incomum da garota. — Ah, esse Seojun… Ele não sabe o que diz, , não dê bola pra ele. Eu não corro sempre.
  — Você corre, sim — replicou Seojun. — Sorte que ele é simpático e não denunciou a presença de uma fã maluca trabalhando bem embaixo do nariz dele. O que ele diria sobre a réplica de papelão em tamanho real que você tem bem ao lado da cama?
  — Han Seojun! — Yoona falou mais alto que o normal. Alguns olhares furtivos da mesa se viraram e o rosto dela ficou vermelho. abafou o riso, desviando os olhos para baixo. — Por que está revelando uma coisa dessas? Idiota! — ela sussurrou furiosa.
  — O quê? Acha que alguém daqui vai contar pra ele? Se toca! — o garoto revirou os olhos, agarrando um pedacinho de arroz solto no prato. — Mas e então, , seu namorado também é Jeon?
  — Jeong — respondeu , rápido demais. — É Jeong. E ele não é meu namorado — Então resmungou para si: — Não tem como ele ser meu namorado.
  Da mesa, a voz suave de Yoona ecoou:
  — Precisa de uma ajuda com isso, ?
  Ela deu um sorriso malicioso. procurou dar uma risada discreta, mas Seojun soltou uma gargalhada explosiva. Era difícil imaginar Yoona, sentada à sua frente com uma xícara de chá redonda, com o rosto angelical dentro de um estilo hippie e boho dar conselhos que oferecessem resultados confiáveis, mas elas ainda não eram tão próximas para que dissesse isso abertamente. A garota encarou Seojun com os olhos estreitos, mas ele continuou rindo sem fazer contato visual.
  — Acho que sou capaz de fazer isso sozinha — respondeu , em seu tom cotidianamente gentil. Era importante que a colega entendesse isso, antes que precisasse inventar uma gripe para não ter que ficar perto dela e de suas possíveis ideias malucas.
   pressionou a palma das mãos sobre os olhos. Ela nunca demorava muito a responder as mensagens de Jaehyun — pelo menos não quando passou a ter um celular. O presente foi recebido com muita surpresa e alívio da parte dele, mesmo que ela tenha dado uma resposta curta e pontual sobre da onde ele tinha vindo. Ele não precisava saber que Jungkook tinha feito uma boa ação, ainda mais pra ela.
  Ao fim do almoço, ela encarou o céu do lado de fora do restaurante com uma careta de preocupação. Talvez toda a conversa com Jaehyun na noite passada tenha deixado-a um pouco sonolenta, e o tempo chuvoso não melhorava em nada o teor de produtividade. O dia ainda estava cheio pela frente, e ela precisava responder as mensagens…
  — Ei, e aquele garoto? Ele não tem? — ela ouviu a voz de Yoona novamente, alcançando-a pelas costas enquanto falava com Seojun. Este apenas balançou a cabeça em negação. — Aish. , você conhece alguém que tenha?
  A garota ouviu a pergunta com as sobrancelhas juntas.
  — Tenha o quê?
  — A lente Canon de 50mm. Ou uma teleobjetiva, tanto faz, as duas seriam ótimas para as fotos do photobook do novo álbum do TXT. Cairia bem no conceito que estão montando — respondeu Yoona, dando de ombros. — Apresentei a proposta para o setor criativo e eles adoraram, mas não disseram muito mais. Acho que precisam ver para darem uma opinião mais concreta. Mas a empresa não vai gastar dinheiro com essas coisas…
  — É claro que não, a agência investe em equipamento profissional, com imagem de qualidade. Hoje em dia ninguém tá muito interessado em fotos analógicas, não para a indústria em que trabalhamos. Mesmo se eles fossem arrumar uma coisa dessas, levaria tempo, e mesmo se tivéssemos as fotos, não sei se entrariam no projeto. É tudo muito complicado… — Seojun suspirou, colocando as mãos nos bolsos.
  — A ideia é maravilhosa! — abriu um grande sorriso para Yoona, mesmo que a garota já estivesse cabisbaixa. — Digo, eu gosto muito de câmeras analógicas, é o tipo de coisa que eu faço questão pra fotos pessoais. Acho que investir nesse conceito mais intimista para incluir no photobook seria uma ótima estratégia de aproximação com o público, ainda mais fotos dos bastidores do MV ou de outros ensaios, como os concept photos, e podíamos até usar filmadoras retrô...
  — Sim! É isso mesmo! — Yoona bateu palminhas, mas logo baixou os ombros novamente. — Mas as lentes são difíceis de se conseguir por aqui. Ninguém na Coreia parece muito interessado nesse conceito, não até verem dando certo. Todos só sabem se preocupar com fotografias em 4K ou em Black Magics e estruturas 3D. Fotos analógicas são coisa do passado, ainda mais com filmadoras…
  — Acho que conheço alguém que tem uma dessas — Seojun interrompeu, abrindo um sorriso amarelo. — Mas não vai adiantar muita coisa.
  — Como assim? Fala! — pediu .
  — Sabe que a Hybe é uma das agências mais rentáveis da Coreia, não sabe? — Yoona estreitou os olhos para o garoto, como se o desafiasse a dizer algo que fosse impossível para eles.
  — Eu sei, mas isso não adianta nada quando a pessoa já trabalha ali. E dinheiro não é nada quando ele faz parte do BTS — o garoto riu, colocando as mãos nos bolsos novamente. e Yoona juntaram as sobrancelhas. — Fala sério, gente, o Jungkook. O cara faz uns bicos de diretor por aí, esqueceram? Existe o Golden Closet aí como prova da coleção de equipamento pessoal que ele deve ter. Ele e o Taehyung compartilhavam muita coisa como essa, mas o Tae é mais chegado nas fotos do que nos vídeos. Então sobrou pro maknae ter esse apetrecho na coleção…
   ficou em silêncio. Yoona começou a falar por cima de Seojun, animada e ao mesmo tempo não. não queria dizer o quanto aquilo fazia sentido, assim como gostaria de não se lembrar do garoto tão claramente para atestar aquele fato apresentado pelo colega.
  Ou melhor, ela gostaria de não saber tantas coisas sobre Jeon Jungkook.
  E enxergar aquilo parecia algo que sussurrava em seus ouvidos como uma vantagem, mesmo ela tentando sempre esquecer disso.
  — Fala sério, por quanto tempo eu dormi? Esse cara é mais perfeito do que eu imaginei — acordou a tempo suficiente para ouvir Yoona suspirar. Eles já se aproximavam da entrada do prédio.
  — É porque você estava preocupada demais com os outros 40 caras que enfeitam sua parede — respondeu Seojun concisamente. — Pelo menos foi isso que eu ouvi.
  — Ora, seu… — começou Yoona, e riu enquanto entravam novamente pela porta giratória.
   foi acompanhada pelos colegas até o estúdio, onde Yoona tomou seu lugar na edição com seu chá inseparável, que desta vez estava com o cheiro bem mais forte do que no restaurante, e Seojun no figurino. Ela encarou a câmera em suas mãos, de repente pensando na informação do garoto e sentindo a ideia descabida vir com tudo em sua cabeça.
  Durante a próxima sessão, ela tentou se concentrar apenas no trabalho presente e se esquecer do que ouviu. Mesmo que agora fosse costumeiro trocar alguma mensagem que seja com Jungkook, ela não perguntaria nada daquilo. Seria totalmente fora do rumo. Não faria sentido para a relação que tinham. Ou faria?
    O que eles tinham exatamente?
  As horas passaram mais rápido do que ela imaginou. Depois de cumprimentar os 5 integrantes, começou a juntar suas coisas para ir, pensando agora no projeto do mestrado que precisava dar continuidade em casa.
  O projeto que ficaria muito bom com uma filmadora Panasonic…
  — Então é verdade — Yoona a pegou desprevenida. — O Jungkook é mesmo dono de um acervo cult incrível.
   abriu a boca para perguntar — tantas dúvidas que surgiram em sua cabeça sobre como ela havia ficado sabendo —, mas achou melhor não demonstrar tanto interesse.
  — Você tem uma energia e tanto para buscar informações — disse ela, passando a alça da bolsa pelos ombros. — Foi o sr. Ahn?
  — Em carne e osso. Mas não disse nada sobre falar com ele. Será que o Jungkook é daqueles que têm ciúmes dos equipamentos?
  — Eu não duvido — soltou sem perceber. Mas Yoona estava com uma expressão muito distante para notar alguma coisa.
  — Acho que se eu falar com o assessor dele… Ou até mesmo encontrá-lo no estúdio do segundo andar… Ei, você não conversa um pouco com ele?
   teve dois pensamentos imediatos sobre isso. Um foi: Eu converso um pouco com ele? E o outro: Por que alguém me perguntaria uma coisa dessas? E então, a paranoia quis dar as caras novamente, mas ela deu um jeito de calá-la antes que desse um problema terrível, como começar a gaguejar e não responder absolutamente nada.
  Não era como se permitisse intencionalmente ser tomada pela cisma, mas fazer o que estava fazendo com um cara como aquele era o suficiente para pensar que qualquer troca de palavras poderia dar na telha. As pessoas reparavam demais nele, não nela.
  — Eu? Conversar com ele? De jeito nenhum — ela respondeu com uma risada engasgada, nervosa. Fez com que começasse a arrumar coisas já prontas.
  — Mas você conversa tão bem com todos os idols, até nas outras empresas…
  — É diferente — cortou , limpando a garganta logo em seguida. Era muito, muito diferente. — Digo… É o básico. Fique ali, vira de costas, sorria, não sorria, essas coisas...
  — Mas você é amiga de Candice Chaperman, não é? — Yoona estreitou os olhos. franziu o cenho. — A Vogue ama o BTS, e nós consequentemente amamos eles também, e precisamos ter os olhos afiados para as pessoas que entram e saem daqui. Acredite, ela está se envolvendo com algum deles — a garota olhou para os lados e se aproximou de para sussurrar: — Você sabe, não sabe? Seojun desconfia que seja o Namjoon, mas ele jamais admitiria uma coisa dessas. Mesmo assim, ela dá muito na cara com todas as visitas, devia ensiná-la a ser mais discreta.
   arqueou as sobrancelhas, sentindo um bolo no estômago de irritação.
  — Eu ensino a ela… — começou, e parou logo em seguida, querendo morder a língua por ter caído no verde de Yoona. — Acho que Candice não é tão incapaz assim de se virar sozinha pra transar com quem quer que seja na surdina. Não é da nossa conta.
  — Tudo é da nossa conta. Chá? — Yoona estendeu uma caneca para . Ela fez uma careta.
  — Não, obrigada — o cheiro é horrível, ela quis completar, mas preferiu se manter calada. A conversa com Yoona já embrulhava seu estômago o suficiente e ela precisava ir embora. Já tinha aceitado o pote de iogurte que lhe ofereceram logo de manhã e decidiu que não aceitará coisa alguma nunca mais.
  — Tudo bem, não precisa ensinar nada a sua amiga, mas pode usá-la um pouco quando se trata de trabalho, não é? Acredite, eu não estaria pedindo e implorando se eu tivesse um outro jeito, mas pra acharmos outro precisamos testar se esse vai dar certo, não é mesmo? Por favor, ! — guinchou ela, pegando no pulso da garota. — Essa proposta pode me promover, ou pode te dar um cargo fixo ou até mesmo aumento e bônus para as duas nas promoções, qual é! Mais dinheiro, mais reconhecimento, não parece bom?
   abriu a boca para responder, mas voltou a fechá-la. Não podia soltar a negação presa na garganta; não podia discordar quando era verdade. Refletindo naquele momento, ela via que Yoona estava certíssima. Tudo aquilo poderia acontecer com sua contribuição, e estava mais do que claro o quanto ela se importava com dinheiro.
  — Argh. É espantoso, você amplifica tanto as situações… — resmungou, cruzando os braços. — Tudo bem, vou pensar em um jeito. Não sei se vai dar certo ou quanto tempo vai levar, mas posso prometer pelo menos isso.
  — Ah, pare com isso, você vai conseguir! — disse Yoona, batendo palminhas. — Quer dizer, Candice vai! Se tudo der certo, vou pagar um jantar para as duas, com tudo que tem direito.
   deu um sorriso amarelo e se preparou para se despedir. Yoona ainda a agradecia quando ela caminhava para fora, agora com a cabeça tão pesada quanto uma bigorna. Um sentimento louco de arrependimento e consternação tomou conta de si; que ideia descabida foi aquela que disse a Yoona? Falar com Candice?! Pensar sobre o assunto? Não havia o que pensar! Ela não faria aquilo.
  Mas agora estava tão aterrorizada pelas palavras — que já estavam lançadas e não voltariam — que pensou seriamente que teria que fazer alguma coisa.
  Finalmente, ela pegou o celular e viu as mensagens e ligações perdidas. Conseguia ver a imagem frustrada e raivosa de Candy pela falta de resposta, e Jaehyun já estaria dormindo há muito para se importar com o vácuo desproposital. Depois de devidamente respondidos, ela encarou a numeração do ônibus vindo ao longe, prometendo sua casa e um final do dia inteiro dedicado aos seus trabalhos pendentes em cima da escrivaninha.
  Mas, ao entrar no coletivo, ela não conseguiu evitar o pensamento de mais cedo. Yoona estava certa sobre tudo, e estava certa sobre os benefícios, então talvez ela pudesse…
  Ela abriu a conversa dele, começando a digitar a mensagem. A última coisa ali era o aviso de cancelamento do encontro na noite passada porque precisava trabalhar e terminar de arrumar algumas coisas. sabia da viagem agendada pro Japão e que deveria estar perto — uma das razões do comportamento temporariamente grudento de Candice —, mas se adiasse aquela pergunta para depois, poderia chegar atrasada demais. Era só uma pergunta, apenas isso…
  Ela apagou, fechando o celular. Não era desse jeito que queria verificar aquilo. Discou o número, ouvindo o toque padrão da ligação, mas nunca sendo atendida. A voz eletrônica da caixa postal veio e ela bufou. Em um instante, olhou para fora e reconheceu as ruas antiquadas de Itaewon e se levantou imediatamente, dando o sinal para sair.
  Quando percebeu, ela já estava do lado de fora e não tinha mais como voltar atrás.

❬📸💔❭

  Jungkook não ouviu o celular tocando.
  O aparelho estava jogado em algum canto da sala. Ou da cozinha. Ele estava muito ocupado juntando coisas, jogando outras e refletindo sobre letras de músicas em meio a arrumação rápida de viagem. As últimas horas de folga que conseguiu antes de pegar o avião estavam sendo gastas de forma mais improdutiva do que esperou.
  O toque do telefone foi substituído pelo estrilar do interfone. Esse foi impossível não escutar. Jungkook odiava o som da campainha do antigo apartamento, mas se irritava bem mais em como o barulho se propagava na nova casa. Sem explicação nenhuma, ele sempre pensava em Hobi. Era a cara dele aparecer do nada sem avisar, chamando pra comer ou jogar algum jogo. Ele andou até o aparelho localizado entre a sala e a cozinha e o atendeu.
  — Fala, Hobi… — disse ele, assim que apertou o botão. Mas a imagem da câmera externa não mostrou o colega de grupo.
  Jungkook paralisou por um momento. Ela estava usando um rabo de cavalo, e a bolsa atravessada de forma chula e os jeans cotidianos demonstravam que a visita não era bem planejada.
  — Jungkook? — disse do outro lado, torcendo o pescoço enquanto procurava a câmera.
  — Oi, ‘tô aqui — ele atendeu, limpando a garganta. — Eu não curto biscoitos de escoteiras, sinto muito.
  Ela revirou os olhos, olhando para a porta, o rosto sendo pego em lateral pela câmera. Jungkook sufocou uma risada.
  — É sério, eu… — não terminou o que iria dizer pois o botão de liberação foi acionado e o portão fez um barulho ao ser aberto.
  — Entra.
  Ele automaticamente olhou em volta, como se procurasse algo que pudesse esconder por ter deixado bagunçado demais, mas o serviço de limpeza sempre era feito com antecedência antes de qualquer viagem. A ideia de que estava caminhando para dentro do jardim da frente em direção à porta de entrada de repente caiu como uma bomba: estava na sua casa. E ele estava sóbrio.
  O barulho da porta indicou que ela havia entrado e Jungkook percebeu que não havia saído do lugar.
  — Deixa eu adivinhar — ele começou, se recompondo rapidamente e caminhando até ela. — Não suportou o adiamento de ontem à noite e veio recuperar o tempo perdido?
   ergueu as sobrancelhas.
  — Claro que você pensaria uma coisa dessas — ela deu uma risada sarcástica. — Seu telefone. Você não atendeu.
  Ele olhou em volta mais uma vez, agora realmente procurando algo.
  — Não faço ideia da onde esteja. ‘Tô meio ocupado… — ele coçou a parte de trás da cabeça, e trincou os músculos. Era o que imaginava. — Então, o que…
  — Não vou demorar, prometo… — respondeu, agitada, começando a remexer na bolsa. Ele juntou as sobrancelhas, aproximando-se.
  — Ei, não disse isso pra você ir embora — disse, incisivo. Então, começou a caminhar para a cozinha. — Quer alguma coisa? A maioria das pessoas oferece uma bebida, mas você parece estar faminta.
  A garota soltou uma risada nasalada, sentindo a irritação típica pelo jeito despojado e irônico de Jungkook.
  Ainda mais porque a imagem dele atrás do balcão era estranhamente convidativa, fazendo-a começar a sentir um fantasma das sensações que tivera antes na casa dele, aquele estranho pesar misturado com adrenalina.
  — Não estou com fome, mas legal saber que você repara em mim — ela revirou os olhos, tendo noção total de sua aparência naquele momento, naquele sorriso dele e estranhamente se sentiu uma louca por aparecer ali daquele jeito. — Vou direto ao ponto: o quanto você faz questão da sua coleção pessoal de câmeras?
  — É uma das únicas coisas que eu mantenho em ordem — respondeu ele, puxando uma cesta de frutas e a depositando no balcão. — Por quê?
  — Preciso da sua ajuda — pediu ela, com um sorriso amarelo. Ele estreitou os olhos. apoiou os cotovelos no balcão, juntando as duas mãos com olhos esmoleiros.
  — Sabe que eu me preocupo quando você me pede ajuda, não sabe?
  — Ah, qual é…
  — Come — ele apontou para a cesta. Ela arfou com indignação.
  — É sério, eu não estou…
  — Come e eu escuto — pontuou. Ela revirou os olhos e puxou uma uva verde, enfiando-a na boca. Jungkook riu e fixou o olhar na garota, aquele olhar de quem sabe exatamente o que ela pediria, mas queria ouvi-la dizer. Ele fazia muito isso.
   quis começar a contar, mas Jungkook fez sinal para as outras frutas. A garota revirou os olhos e puxou um cacho inteiro, enquanto ele puxava uma caneca e a colocava embaixo na máquina de café. Ele parecia tão impressionante quanto uma pessoa com bermudas cáqui, regata e sem sapatos poderia parecer, agora segurando uma xícara de café que cheirava bem melhor do que os chás de Yoona com odor de terra em decomposição.
  — Isso parece um jeito de evitar que você fale, mas na verdade só preciso acabar com essa comida antes de viajar — afirmou ele, dando um sorrisinho em meio ao gole da bebida. o encarou em choque e irritação.
  — Muito engraçado, Jeon. Isso não vai te salvar do meu pedido — ela inclinou-se sobre a bancada de novo. — Preciso de uma filmadora VHS. Não é pra nada estúpido e você vai estar salvando meses da minha vida.
  — Você é uma manipuladora — disparou Jungkook, mas sem perder o ar cômico da voz.
  — É um bom artifício para sobreviver no entretenimento. E então? — ela levantou as sobrancelhas. Ele continuou em silêncio. — O que você acha que eu vou fazer? Colocar ela na frente de uma Land Rover? Gravar uma sex tape? Não, não responde.
  Ele soltou uma gargalhada. Não é como se ela pudesse evitar que ele risse de qualquer maneira.
  — Ótimos motivos pra você me procurar, — disse Jungkook. — Posso dizer que seu destino é pedir minha ajuda.
  — Destino olhou furiosa para o garoto — é uma palavra muito forte pra se dizer sem sapatos. Ou sem uma reza, no mínimo.
  — Nesse país não usamos sapatos em casa. E minha vida religiosa é muito pessoal pra que eu discuta, sinto muito — o rapaz riu e deu de ombros. — Mas respondendo sua pergunta, posso ter uma Panasonic guardada em alguma caixa de mudança que ainda não abri.
  Ele terminou o café em um gole só e sorriu. A caneca fez barulho quando ele a depositou de volta na pia, contornando a bancada em seguida. Então, começou a caminhar para longe.
  Antes de abrir a porta localizada embaixo da escada, ele se virou para ela.
  — Você vem?
  Ela seguiu rapidamente até lá, até se tocar da onde estava entrando e diminuir os passos.
  O estúdio. Péssimo momento para se lembrar.
  O ar estava gelado pelo ar condicionado ligado, o que mostrava que ele estava ali há pouco tempo, assim como a poltrona torta e os papéis espalhados pela mesa. Jungkook andou até uma das portas de um armário baixo e planejado, puxando uma caixa de papelão muito bem conservada, tirando de lá uma maleta preta.
  — Alguma coisa errada? — perguntou em seu jeito de afetação, olhando rapidamente pra ela, que ainda estava no batente. — ‘Tá recebendo algum insight na memória? — zombou.
  — O único insight que eu tenho agora é que eu deveria estar em casa antes que… — na mesma hora, o barulho estrondoso soou do lado de fora, causando um arrepio em sua espinha. — Antes que eu seja acompanhada pela chuva. — Engoliu em seco.
  — Ah. Isso explica a pressa. Não tinha reparado no tempo — e nem poderia estando preso aqui dentro, pensou . Ele se sentou no chão e abriu a maleta, puxando uma máquina envolta em plástico quase encardido. O compartimento da bateria foi aberto e o grande retângulo pesado foi colocado lá dentro. — Aqui está. E acho que ainda está funcionando.
  Isso chamou a atenção de completamente. Ela prontamente saiu da entrada, largando a bolsa em qualquer lugar e se abaixando ao lado dele.
  — Sim! — exclamou ela, pegando o aparelho com todo cuidado nas mãos. Ele era um verdadeiro dinossauro; grande e pesado, com espaço para o microfone logo em cima da lente, ao lado da boca da lanterna e os botões desgastados que mal se liam os comandos, mas com certeza estava funcionando. Todos os cabos estavam perfeitamente enrolados e guardados.
  Jungkook encarou o sorriso de , preparando-se para dizer alguma coisa, mas então pressionou os lábios e preferiu apenas observar.
   perguntou:
  — Tem as fitas?
  O garoto cruzou as sobrancelhas e puxou mais uma caixa de dentro do armário, revirando o conteúdo ainda intocado, interrogativamente.
  — Achei que elas estariam aqui, mas… — ele pressionou os lábios novamente, lembrando-se da informação. — Tem outro lugar em que podem estar.
  — Onde?
  — No meu quarto — suspirou ele.
   não pareceu ouvir a resposta muito bem, já que ainda admirava o objeto em mãos. No entanto, os músculos de Jungkook se retesaram disfarçadamente com a informação.
  Ele se levantou e passou a mão no cabelo.
  — Eu vou buscar…
  — Eu vou junto! — se levantou logo depois, animada, pressionando a câmera no peito. Jungkook freou os passos e a encarou com expressão séria, mesmo que não fosse sua intenção. Ele pensou em várias coisas em um intervalo de milésimos de segundos, mas todas elas poderiam se resumir no simples fato:
  Nenhuma outra garota esteve em seu quarto além de Ali Dalphin. Mesmo que aquele quarto em questão fosse novo para ambos, ele não se desprendia dessa ideia.
  E repetindo: sóbrio.
  Mesmo assim, não pareceu perceber essa dificuldade e o barulho de mais um trovão o fez voltar à realidade. Ao engolir em seco e expulsar os pensamentos, ele apenas respondeu:
  — Tudo bem.
  Então eles passaram para os degraus da escada acima, subindo em direção ao corredor largo e caminhando até a porta amadeirada no fim. Ao entrar, teve que se controlar para não reparar em absolutamente toda a decoração escura, iluminada apenas pela janela de vidro logo em cima da cama, que pegava toda a extensão das paredes e mostrava claramente o tempo cinza lá fora. Preto. Esse era o quarto de Jeon Jungkook.
  — É cranberry? — ela perguntou, aguçando o nariz. A cama no meio cheirava bem. Tudo cheirava bem. O quarto era facilmente do tamanho de todo o seu apartamento, e o cheiro se difundia por todos os cantos.
  — Deve ser. Minha mãe escolheu meus produtos de limpeza — ele deu de ombros, dando um sorriso sacana.
  — Ela tem um ótimo gosto — respondeu ela, sendo sincera.
  Jungkook caminhou até uma porta no canto, que se revelou como um compartimento igualmente gigantesco dentro de outro. O closet parecia bem minimalista, mas as caixas empilhadas em uma prateleira mostravam que estava daquele jeito apenas pela falta de arrumação. Ele passou os dedos por elas, puxando uma e colocando-a sobre a cômoda espelhada no centro de maneira delicada. Ao contrário das fitas VHS, que estavam jogadas e agitadas dentro da caixa.
  — Infelizmente, não consigo dizer as que estão gravadas ou não. Algumas tem etiqueta, mas a maioria tá sem — explicou Jungkook, com as sobrancelhas franzidas. — Me responsabilizei por algumas só esse ano, antes disso estavam na garagem do meu pai. Vamos ter que testar.
   perguntou:
  — Vídeos caseiros? Sério? — ela sorriu. Ele apenas assentiu com a cabeça.
  Com um sorriso fofo, pegou a primeira fita e a inseriu no compartimento da câmera, ligando-a logo em seguida. Ela puxou a máquina até os olhos, encarando o tempo de gravação restante. Jungkook reparou no sorriso que ela emitia vez ou outra, tirando e colocando a fita, se aventurando nos botões espalhados como se conhecesse a câmera há tempos; ou que tivesse um relacionamento tão íntimo com ela de várias vidas como se já a entendesse o suficiente. Era algo estranho, estranhamente hipnotizante. Ele até se esqueceu que estava com em um espaço tão íntimo de sua vida, com as luzes apagadas e a luz cinza invadindo o quarto.
  Mesmo com o lado de fora sendo uma massa sombria do fim do dia, ali dentro parecia um espaço vívido e iluminado.
   viu algo de relance em uma de suas verificações. Imagens tremidas de árvores claras, tão claras que pareciam de primavera, com as folhas pressionadas contra um vidro, e de repente o zoom diminuindo até mostrar que o cômodo em questão era cercado de árvores do lado de fora, como se fosse uma mata fechada. E a risada de um garotinho, que logo apareceu quando a lente desceu a fez olhar demais.
  — Se estiver curiosa, não precisa ficar em silêncio — disse Jungkook, remexendo nas fitas sem olhar para ela. retirou a que estava, sentindo-se de repente uma grande intrometida.
  — Desculpa, não era a intenção — ela puxou a fita e a separou das outras. Ela se recostou no móvel de vidro e aceitou a próxima que ele lhe passou.
  Ele a encarou com curiosidade. E não era de seu feitio ficar curioso e não fazer nada a respeito.
  — Você parece profissional demais para isso — pontuou. franziu o cenho. — Acho que achei uma. Me dá.
  Ela passou a câmera e ele trocou a fita novamente. Ao posicionar os olhos na lente, ele deu mais um sorriso vitorioso.
  — Como era o nome da sua ajuda mesmo? — perguntou.
  — O nome é salvar a minha vida, isso é o suficiente? — e se sentiu envergonhada por ter levado o assunto para a palavra salvar. Parecia aumentar bem mais a necessidade de ajuda. — É pra um projeto do mestrado. E da empresa também, mas não se preocupa com isso, é a preparação de uma proposta, não é nada certo ainda.
  Ele assentiu, olhando pra ela. Uma das coisas que Jungkook não podia negar em relação à era em seu talento admirável com aquele apetrecho. A ideia de que ele teria alguma influência, mesmo que mínima, em um projeto importante dela o fazia ficar feliz e se sentir responsável de alguma maneira.
  — Já é o suficiente — disse ele.
  Então ele colocou a filmadora nos ombros como um cinegrafista dos anos 90 e apontou-a para a garota, que arregalou os olhos pela surpresa e visualizou seu reflexo na boca da lente e a luz da lanterna brilhando sobre seu rosto.
  — O que está fazendo? — ela deu um passo para trás.
  — Testando — ele deu outro, se aproximando. notou o que ele estava fazendo e colocou a mão na lente, apavorada de repente com a ideia de estar na frente de uma câmera e não atrás dela.
  — Tem outras formas de testar isso, Jeon — ela trincou os dentes. Ele riu.
  — Ah, qual é, . Nunca esteve do outro lado? — ele se afastou antes que ela colocasse as mãos de novo. Jungkook começou a dar passos para trás em direção ao quarto. — Você até que fica bonitinha num retrato mais vintage.
  Ela cerrou os olhos e caminhou até ele. Vê-lo com uma câmera apontada para ela fazia o gesto parecer mais do que era. Mais distante de um ato de brincadeira e mais próximo de uma simulação de vingança.
  Finalmente, ele gargalhou quando ela tentou tomar a câmera de suas mãos. A essa altura, os dois já estavam dentro do quarto enquanto resmungava sobre a filmagem e ele, achando mais graça a cada minuto, levantava a câmera no alto. não seria capaz de alcançá-lo, e ela bem que tentou, o que o fez rir ainda mais e se sentir triunfante. Eles nem escutavam mais os raios do lado de fora.
  — Qual é, Jungkook! — ela grunhiu, dando um leve empurrão de cansaço no garoto. — Já percebi que o filme funciona. Dá pra parar?
  — Sinto muito, o filme só funciona depois que a pessoa ri, você não ‘tá ajudando — ele estalou a língua, olhando-a por cima do aparelho. — Acho que você consegue se lembrar do tombo do Jimin na virada do ano em New York ano passado.
  Com aquela frase, não conseguiu manter a compostura. Ela não tinha ideia de como a coisa por fim terminaria, mas naquele momento foi engraçado lembrar e se deixar levar pelo lado divertido de Jungkook. Suas tentativas de pegar a câmera eram mais fracas pelas risadas e, em uma investida um pouco mais brusca, onde o corpo de Jungkook se juntou a ela num choque, ela tombou para a cama logo ao lado, rindo sem parar, agora escondendo o rosto da lente tão próxima, vindo do garoto que agora se colocava por cima e ainda insistia em pegar seu sorriso.
  — Você não ‘tá cedendo um material decente...
  — O que você quer ver, afinal? — ela perguntou, respirando a fim de conter as risadas. — Nessa posição você já viu de tudo.
  Jungkook afastou os olhos da lente, sem tirá-los de . Sem a câmera no meio, o sorriso dela estava muito perto. Ele a encarava intensamente, como quem fazia uma pergunta enquanto respondia.
  — É, eu vi — respondeu, dando um sorriso brincalhão. Um nada absoluto se passava em sua mente. Ele precisava se lembrar da onde estava, com quem estava.
   ergueu a palma das mãos em um gesto de trégua. Jungkook conhecia bem o sinal. Ele sentiu a pele formigar. costumava usá-lo quando estava cansada depois da foda, ou quando dizia algo arrebatador. Só que dessa vez ele sentia a mente em pane, então não conseguia interpretar exatamente o que a situação queria dizer.
  O garoto respirou fundo e falou:
  — Aquilo que eu disse mais cedo… Sobre cancelar na noite passada… — ele começou, hipnotizado pelo rosto dela ainda sorridente. — Tenho uma viagem… Você sabe. E devo ficar fora por uns dois dias…
  — Sei. As notícias correm em instantes na agência.
  — Eu imagino — ele deu uma risada engasgada. — Não devo conseguir ver muita coisa por lá, já que é trabalho e é sempre muito corrido, mas ver você hoje — e nesse momento ele baixou a filmadora para o lado, desviando do rosto de e focando em seu corpo sem disfarçar. Ela sentiu o formigamento no estômago com aqueles olhos. — Não era algo que eu esperava. E antes eu estava brincando, mas se você quiser…
  — Eu quero — ela respondeu sem pestanejar, sentindo o corpo ficar quente com aquele brilho selvagem dos olhos de Jungkook. Ela se apoiou nos cotovelos, ficando ainda mais perto de seu nariz. — Se você me disser exatamente o que quer, sr. Jeon.
  Ele a encarou em desafio, mordendo os lábios de excitação. A câmera escapou de suas mãos e ele pressionou seu corpo no dela.
  — Essa brincadeira é minha, — sibilou ele. — Mas se você quer uma resposta, talvez eu esteja com vontade de te foder sem qualquer fim educativo, e também sem nenhuma cerimônia.
  Ela revirou os olhos e riu.
  — Não posso demorar muito — disse.
  — Posso dar um jeito nisso — e então, ele afastou a câmera de vez e puxou o corpo dela para cima do colchão, arrancando a camisa logo em seguida.

❬📸💔❭

  Agora estava se lembrando das incontáveis vezes em que se perdia nas próprias regras e ignorava totalmente o tempo quando estava na cama com Jeon Jungkook.
  Não havia formas de interceptar um homem que ignorava totalmente o conceito de “rapidinha”, e que se esforçava o bastante para deixar claro que não era possível sair da cama dele sem alcançar o prazer absoluto por pelo menos duas vezes.
  Primeiro, as mãos firmes que rodeavam seu corpo, já suado e totalmente entregue à respiração pesada e quente em sua nuca não a deixariam ir embora, mesmo se quisesse. E segundo, que as palavras incompreensíveis sendo murmuradas em seus ouvidos enquanto ele posicionava-se entre as nádegas da garota a prometiam uma explosão de sensações imperdível, e ela só esperava não entrar em combustão antes do tempo.
  A chuva lá fora parecia um desenho melancólico, mas ali dentro acontecia exatamente o contrário. Quente como o verão, a garota já estava em chamas enquanto ele pressionava-se para dentro de seu canal mais apertado, passando agora a mão em uma bunda, afastando-a para ceder mais espaço e a brecha necessária para que ele se enterrasse de vez.
  — Já pensou em fazer uma tatuagem aqui? — ele deslizou os dedos sobre seu quadril. — Ficaria bonito… — e então entrou um pouco mais fundo.
   soltou um gemido seco, apertando um dos mamilos com a dor gostosa que se seguiu, mas que logo se transformou num turbilhão de euforia, como havia sentido antes quando tentaram pela primeira vez. A voz dele estava próxima, vinda de algum lugar que ela não podia ver pela imersão da exultação, perguntando se estava tudo bem enquanto ela mantinha os olhos fechados e o sentia penetrar ainda mais. Não havia explicação, era delicioso. Seu braço passou para atrás da cabeça, contornando o pescoço do garoto e o aproximando de seu ombro, encostando suas bochechas quando seus corpos se colaram ainda mais. Jungkook estava concentrado demais para notar algum problema na atitude — aproximar-se demais sempre era um problema em potencial. Pelo contrário, o movimento fez com que ele entrasse ainda mais, e soltou um gemido alto desta vez.
  — Muita pressa, . Não é assim que as coisas funcionam — ele grunhiu, mas estava claro que tentava não rir. No fundo, queria investir com força e rapidez, mas não tinham feito muitas vezes naquela posição para que se sentisse acostumada e segura o bastante. Ele depositou uma mordida de leve em seus ombros, sentindo a lateral do rosto dela em sua bochecha. — Fica calma que a gente só ‘tá começando...
  — Cala a boca… — interrompeu ela, deslizando a bunda sobre o rapaz, sentindo o descontentamento por ele estar apenas na ponta. Jungkook riu e mordeu os lábios, desferindo um tapa na garota, voltando ao foco em abri-la de novo e seguir em frente.
  Quando ele avançou devagar, com cuidado, um barulho alto do lado de fora se mesclou com o grito estridente de , que se afastou imediatamente e se encolheu no colchão. Jungkook se apoiou em um cotovelo, levantando o tronco até observar o rosto dela escondido entre os braços e o cabelo espalhado pelo travesseiro como uma imagem de puro caos.
  — O que foi? Machucou? — perguntou em um tom nítido de preocupação. Talvez ele também estivesse apressado pra foder a bunda da garota, mas pararia imediatamente se tivesse se afastado demais dos limites.
  — Não, não… — respondeu, com a voz fraca, depois do barulho surpreendentemente alto ter passado. Agora, depois do susto, ela ouvia o alvoroço da chuva caindo forte do lado de fora e notava as luzes amareladas iluminando o breu do quarto, denunciando a hora tardia. Virando-se pra ele, ainda deitada, ela afastou os cabelos para os ombros. — ‘Tá tudo bem, foi só uma surpresa… — explicou, fazendo o possível para parecer sincera. A verdade era vergonhosa demais para ser dita.
  Ele assentiu devagar, não se convencendo o suficiente da explicação, mas não achava que perguntar a faria dizer a verdade.
  — Tá tudo bem mesmo? Se você não quiser...
  Antes que ele acabasse de falar, ela soltou uma risada fugaz e se virou de lado novamente, empinando a bunda contra sua barriga de forma totalmente libidinosa.
  — Anda logo, Jeon, você tem um trabalho a fazer.
  Jungkook se esqueceu do que iria dizer a seguir. Uma risada deve ter escapado de seus lábios, mas ele não notou. Simplesmente se achegou de novo na garota e apertou seu quadril.
  — Você não me contou que tinha guardado tanto tesão nesses últimos dias — passando a língua nos dois dedos indicadores, ele os levou para baixo e acariciou seu clitóris, se instalando novamente na bunda dela, sentindo o pau latejar de expectativa.
  — Não parecia relevante — respondeu ela. A mesma levou uma mão a uma das nádegas e a puxou para facilitar o acesso.
  — Fazer você gozar é algo bastante relevante — ele pensou em perguntar mais uma vez se ela estava bem, mas o sorriso cafajeste que ela aprendera com ele ainda estava ali, pedindo com todas as forças que ele se afundasse nela da forma que queria. A habilidade de se manter controlado ia se esvaindo a cada segundo.
  Os gemidos vieram com os dedos lentos e torturantes no clítoris. Se fosse um jogo, Jungkook com certeza saía ganhando em manter a expressão safada e sofrida da garota, enquanto ouvia constantemente os pedidos por mais daqueles movimentos. O prazer nivelado na intimidade ajudou com que ela se distraísse o bastante pra ele voltar a colocar a cabeça em prontidão no canal, entrando com afinco e firmeza, sentindo-o molhado o suficiente para seguir em frente.
  — O que você acha? — ele sussurrou em seu ouvido, sem esconder a preocupação de ela estar sentindo dor. fechou os olhos novamente, se inebriando naquele hálito estupidamente bom, misturado com todo o cheiro do quarto.
  — Acho gostoso, diferente da sua voz irritante — respondeu grogue, apoiando a cabeça no peito dele atrás. Ele riu e entrou um pouco mais.
  — Você é uma gostosa — ele passou a língua na ponta de sua orelha e sentiu a pele estremecer. — De um jeito que, porra…
  Outro estrondo a fez se afastar imediatamente, mas desta vez de encontro ao peito dele.
  O movimento foi rápido demais. Em um instante, ele estava fora dela e sentiu o corpo da garota se encolhendo contra o seu, escondendo o rosto nas mãos. Os dentes trincaram com um ruído audível.
  Confuso, ele encarou a cabeça pendida em seu braço sem entender.
  — ? O que foi? — perguntou, outra vez claramente alarmado. Era impossível não pensar que tivesse feito algo que a tivesse machucado.
  — Droga… — ela murmurou, ouvindo o barulho alto de novo do lado de fora e se arrepiando por completo.
  Desta vez, ele pareceu perceber. O estrondo morreu novamente, e Jungkook puxou o rosto da garota para cima, vendo o cenho franzido e tentando não parecer tão assustado. Eles se olharam por um tempo até que ela se sentisse minimamente mais tranquila, e menos propensa a se esconder.
  — Vai continuar me olhando desse jeito até quando? — perguntou , afastando as mãos dele de seu rosto.
  Jungkook olhou pela janela. Uma camada fina de neblina era perceptível, e as gotas grossas de chuva encharcavam o vidro. O clarão que atravessou o céu explicava o método incontestável das tempestades de verão.
  — O que tem de errado com os raios? É medo ou trauma?
   deu de ombros, se afastando devagar ao perceber que ainda estava abraçada com ele.
  — Nada. Não gostar de alguns fenômenos da natureza não é algo tão excêntrico assim — desviando os olhos, ela se afastou completamente, jogando as pernas para fora da cama. — Que horas são?
  — Acho que umas sete. Ou um pouco mais tarde — supôs ele, ainda desconfiado da mudança de comportamento repentino.
   vasculhou o quarto e olhou na mesinha de cabeceira. Um relógio digital grande e caro indicava nove horas. Ela se levantou em um sobressalto.
  — Não acredito… — resmungou , puxando suas roupas rapidamente. — Você poderia colocar um alarme em algum lugar desse treco. Deus! Candice vai me matar!
  — Qual é, também não é assim… — ele se sentou, olhando para fora. — A chuva…
  — A chuva é o menor dos problemas agora, Jungkook — ela se apressou em colocar as roupas íntimas, começando a se desesperar com a ideia de chamadas perdidas de Candice e não ter nenhuma desculpa pra dar pelo sumiço. — Você viu meu telefone? Candice com certeza vai me perguntar onde eu estava e como sumi do nada, e não dá pra responder que estava na sua casa. E como… — mais um estrondo lá fora. Ela ficou pálida por um instante. — Droga…
  Enquanto tentava juntar suas coisas ruidosamente e resmungava consigo mesma sobre sua demora, Jungkook dispensou um olhar sobre a garota e a forma como ela ficou com a tempestade, franzindo o cenho em curiosidade. Aquilo era uma desculpa para não seguirem em frente? Não fazia sentido. Ela não havia ficado assim da primeira vez, há algumas noites.
  As questões sobre pareciam especialmente fora de seu alcance, mesmo que a garota estivesse sempre tão perto.
  — Ok, se acalma — ele se levantou finalmente, pondo-se na frente dela. — Extrapolamos um pouco no horário, beleza, mas podem existir um milhão de motivos pra você ter sumido até essa hora, então fica tranquila. Vou pegar meu celular e vou te levar pra casa. Espera aqui.
  Ela assentiu e se virou de volta pro relógio, com os braços cruzados. Jungkook puxou a mesma bermuda cáqui jogada aos pés do baú e bagunçou ainda mais os cabelos, expulsando todo e qualquer pensamento que ratificava o fato que antes parecia improvável: na sua cama. Voltando-se para ela e suas costas, os pés se aproximaram por conta própria e as mãos espalmaram a bunda da garota levemente, de um jeito engraçado. Ela se virou imediatamente.
  — O universo algum dia vai me deixar desfrutar dessa bunda… — ele disse brincalhão, e não conseguiu sair a tempo de não levar o empurrão no peito, sendo encarado com os olhos firmes.
  — Você é um cachorro.
  Ele deu de ombros e saiu às risadas, vendo um sorriso brotar de seus lábios antes que passasse pelo batente.

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   se demorou olhando para a cama bagunçada. Em um impulso, ela começou a arrumá-la, sentindo de repente um choque ao constatar que tinha feito mesmo aquilo na cama dele de forma tão casual. Parecia um segredo grande demais, arriscado demais, maior do que o que já existia entre os dois. A paranoia era inevitável.
  Ela se virou para as roupas, terminando de vesti-las e se preparando para calçar os sapatos.
  Jungkook entrou no quarto novamente, encarando o celular com uma fisionomia nada animada.
  — — disse ele finalmente —, acho que temos um problema.
  Os ombros dela baixaram. conhecia Jeon Jungkook há menos de seis meses, mas sabia que determinadas coisas desagradáveis vinham quando ele resolvia usar o tom sério ou hesitante como estava.
  — Eu posso tolerar a Mercedes — ela disse na frente, mais como um fio de esperança de que se tratasse somente daquilo.
  Ele soltou uma risada de escárnio.
  — A Mercedes não vai passar da ponte do rio Han — e então ergueu a tela do celular. — E nenhuma outra coisa vai.
  As notícias chegavam em tempo real no celular. Ela não precisou lê-las por muito tempo.
  Os dois primeiros pensamentos de foram totalmente sugados por aquela problemática. Dizer que pegaria um ônibus ou táxi estavam na ponta da língua, mas a realidade conturbada era inquestionável. Quando se tratava de ter que ficar um pouco mais no mesmo ambiente que Jeon — usando roupas —, a resposta era recíproca e compartilhada: não. Não mesmo.
  — Não existe outro caminho? — questionou , hesitante. Ela já começava a gesticular com as mãos. — Um atalho? Um jeito?
  — Não é como se eu não tivesse procurado também — ele disse, franzindo os lábios. — A maioria das ruas ‘tá interditada, e parece que algumas árvores caíram no metrô. A prefeitura só deve resolver amanhã — ele baixou os ombros e colocou uma mão nos bolsos. — Parece que perdemos um baita espetáculo.
   queria dizer que quem cairia dali há pouco seria ela, tomada de pura frustração. Nada foi dito nos primeiros instantes, permitindo que um silêncio cortante se instalasse. Os dois não sabiam o que dizer.
  O acordo não seria o acordo se ela passasse mais um minuto ali.
  — O que a gente faz agora? — perguntou ela, levantando os ombros.
  — Nessa época, as pessoas costumam esperar a chuva passar — ele respondeu, inquieto .— Bem, esperar a chuva passar ou se arriscar nas avenidas, mas essa opção parece um pouco impossível de se lidar agora.
  Ela fechou os olhos com força. Pensou no trabalho programado para amanhã e nas aulas da tarde que seriam um prato cheio de orientações. Havia muitas coisas a se preocupar do lado de fora, mas a maior de todas acontecia ali dentro, no quarto dele, em um impasse sentido pela dupla na mesma intensidade.
  Do lado de fora do casarão, o vento devia estar há 70km/h, com chuva grossa e pesada, varrendo as ruas com força e violência. Eram os chamados tufões, que acometiam a Coreia do Sul durante o verão em anos esporádicos, e no momento não fazia ideia disso, assim como nenhum outro cidadão imerso em trabalho durante o dia. Se olhasse bem, os sinais já estavam ali desde que se levantou da cama. Portanto, lá estava ela, presa na casa de Jeon Jungkook pela falta de parar e reparar ao redor.
  Seu celular estava no andar debaixo, na bolsa jogada no estúdio. Talvez, se ligasse pra Candice…
  Não. Seria perigoso tirá-la de casa agora. Sem chance. Ela podia andar por aí montada em um vestido de seda branca e se parecer como uma atriz de capa de revista, mas perderia toda a compostura para buscar até o fim do mundo. Era injusto pedir uma coisa dessas quando ela estava bem.
  Ou tão bem quanto poderia ficar na presença de Jungkook e um elefante no meio da sala.
  — Acho melhor você ligar pra Candice — Jungkook disse, finalmente, mantendo as sobrancelhas juntas. — Avisar que você não vai pra casa hoje.
  Todas as palavras sumiram de sua garganta. Ela sentiu um formigamento no estômago.
  — Acho que não prec...
  — É sério, vou me sentir terrivelmente ofendido se você sequer pensar que vou te deixar sair nesse tempo — interrompeu ele, se aproximando. — Sem chance, . Nenhuma chance.
  Ele, trajando aquele tom de voz informal e autoritário, firme e decidido, parecia ter uns trinta anos de repente. Ela não era capaz de dizer não. A garota se perguntou se transmitiria tamanha autoridade se rebatesse, ou se sua infância a trairia e a deixaria ridícula.
  — Tudo bem. Obrigada — falou, baixando os olhos. Um constrangimento vindo de lugar nenhum pairou em seu rosto. A situação era mais estranha do que parecia.
  Jungkook respondeu:
  — Sem problemas.
  A gentileza era uma característica bem treinada para Jungkook, sendo uma peça da indústria há muitos anos e ter conquistado o mundo inteiro com um belo sorriso no rosto. Ele não faria diferente com , mesmo se ainda guardasse todos os sentimentos ruins de antes. Era uma atitude gentil, mas parecia mais do que isso. Um palpite era de que não suportaria vê-la saindo naquele tempo, mesmo que fosse com ele. Mas ele não deixaria esses pensamentos o importunarem.
  — Então… ‘Tá com fome? — perguntou ele.
  Ela assentiu devagar, não vendo a serventia de mentir naquele momento, já que teria que ficar ali. Tudo que precisava fazer era expulsar a sensação de estar sendo observada, o que era ridículo.
  — Gosta de tteokbokki? — ele parecia incerto. — Digo, não é um grande jantar, mas duvido muito que alguém esteja entregando comida a essa hora e não guardo muita coisa antes de viajar.
  — Tudo bem. Não se incomoda com isso — ela foi extremamente educada. Ele coçou a parte de trás da cabeça.
  — Você pode ir tomar um banho, se quiser. Tem um banheiro lá embaixo, outro no quarto da esquerda e um no… — ele apontou para a porta na outra extremidade do quarto, onde ficava locado o seu banheiro.
  — Eu vou lá embaixo, não se preocupa. Vou aproveitar e ligar pra Candice — ela respondeu rápido, caminhando em direção à porta.
  — Mas… — Jungkook tentou dizer, mas a garota já havia saído.
   não tinha certeza de como colocar todos aqueles sentimentos em termos concretos. A maioria deles pareciam imaginários, mas partiam da mesma base: incerteza. Confusão.
  Seria uma noite inteira na casa de Jungkook. E ela não sabia como agir. Ou se tinha forma certa de agir.
  Ela só precisaria de uma cama ou qualquer lugar que pudesse se deitar bem longe daquele quarto. Ou então, o acordo já era.

[ 4 ] – They told ya, but you were dying for it

Este capítulo está em processo de revisão.

"Não fique surpreso quando eles te enganarem
Eles te avisaram mas você estava rindo disso
[...]
Não nos preocupe
Com as suas baboseiras
Eu não quero as suas orações
Guarde-as para a manhã seguinte."
▶ teddy picker

  Jaehyun olhou para a plateia.
  A multidão ensandecida gritava seu nome, junto ao dos outros 8 garotos, sem parar. Um a um, curvaram-se como de praxe em um agradecimento final e seguiram caminho para fora do palco, aproveitando a perda do brilho dos holofotes e os flashs de câmeras para respirar e, finalmente, se desconectar de microfones e apetrechos plugados em toda a roupa. Era a libertação do toque de recolher artístico. Jaehyun logo sentiu o vento fresco do backstage, seguido por uma dupla de staffs que falavam rápido demais e um pedaço de fita absorvente ser depositada em sua testa para a retenção do suor. O verão americano atingiu seus bons 30º graus naquele dia, e a noite agitada só serviu para tudo parecer ainda mais quente. Com uma concordância sutil, ele se deixou ser verificado pelos funcionários e aceitou a garrafa de água de uma garota baixa que se aproximava com agitação.
  — Obrigado, Dabin — ele entornou o líquido goela abaixo. Um tapinha afetivo de Taeyong surgiu em seus ombros. O líder murmurou algo como “pegar os equipamentos e ir remar na próxima sexta-feira de folga”, em seguida dizendo palavras de comemoração pelo grande show e saindo logo depois.
  Jaehyun sabia que às sextas-feiras eram quando Taeyong pensava que os outros se metiam em confusões, especialmente confusões para durarem apenas uma noite naquele lugar longe de casa. Se qualquer um deles saísse em algum tabloide ocidental que não fosse por causa dos shows da turnê, Taeyong não conseguiria convencer os soberanos a serem flexíveis — e muito menos o público.
  — Jaehyun… — Dabin, com o crachá marcado como staff/assessora, deu um passo à frente, ajustando a faixa no pescoço e juntando as sobrancelhas em cautela — Tem uma pessoa te esperando no camarim.
  — Quem? Agora?
  — Ela insistiu muito pra falar com você. Eu disse que você precisava descansar, mas ela garantiu que vai ser rápido. Parecia muito decidida, eu não soube o que dizer…
  Dabin mordeu o lábio inferior, corando em uma expressa culpa. Jaehyun levantou o canto dos lábios em um sorriso gentil e compreensivo; fazia menos de um mês que designaram a garota nova para cuidar dele, e a má gestão de uma grande empresa não se preocupava exatamente com treinamentos individuais longos. Examinando atentamente, Dabin estava perdida e se inteirando no mercado, e com certeza ainda não sabia lidar com imprevistos.
  — Tá tudo bem, Dabin. Eu vou lá… Você disse ‘ela’? — Jaehyun começou a tomar o caminho do camarim individual, levantando as mãos brevemente para que os outros staffs amontoados em cima de si se dispersassem.
  Dabin balançou a cabeça freneticamente em concordância. Aquela situação era visivelmente maior do que o que ela estava acostumada a lidar.
  — Sim, é uma garota muito bonita, estrangeira… É alguma namorada sua? — perguntou, o tom carregado de cuidado. — Por favor, não me diga que você tem uma namorada, eu não vou saber o que colocar nos relatórios, eu não…
  — Ei, ei, se acalma, respira, tá bom? — ele segurou o riso, dando um leve tapinha nas costas da garota, como se pudesse expelir as preocupações de dentro dela — Eu não tenho namorada, Dabin. Quer dizer, ainda não. Tem uma garota que eu gosto, e ela é estrangeira, mas ela não viria até aqui. Tenho certeza que não.
  Não sem avisar, pensou ele quando chegaram à porta acinzentada da cabine. Seu celular devia estar guardado em alguma gaveta da penteadeira, devidamente desligado e esquecido, impossibilitando de avisá-lo sobre uma visita surpresa. Uma queimação de expectativa de repente atravessou seu peito, e antes de abrir a porta de uma vez, Dabin suspirou e apertou os dedos entre o crachá.
  — Por favor, não deixe que tirem fotos — pediu, com os olhos beirando a aflição. Jaehyun deu mais um sorriso gentil e plácido como de rotina que era uma onda de calmaria certeira.
  — Pode ficar tranquila.
  A garota sorriu aliviada e se retirou para auxiliar os demais membros, menos carregada de ansiedade. Seus pés mal alcançaram a curva do corredor quando Jaehyun abriu a porta e entrou rapidamente.
  A pessoa em questão estava sentada de costas em frente ao espelho cravejado de luzes, encarando seu próprio reflexo enquanto abocanhava as próximas unhas. Quando o viu surgir na entrada, ela se levantou com rapidez, virando-se para o rapaz e tentou dar um sorriso convincente que não demonstrasse seu estresse com a longa espera.
  — Finalmente! — sua respiração foi longa e aliviada. Jaehyun continuou parado, os olhos erguendo-se com incredulidade, movimentando-se o bastante apenas para fechar a porta o mais rápido que conseguiu, olhando para trás a tempo de ver se algum olho curioso tinha conseguido espiar o que não devia — Você demorou. Precisam agradecer até a rainha da Inglaterra para terminarem um show?
  — O que você tá fazendo aqui? — seu tom de voz era nitidamente horrorizado. O cenho franzido denunciava raiva. Ele não esperava que fosse , mas também não esperava que fosse ela.
  Meu deus, como ela poderia estar aqui dentro?!
  A modelo alta, loira e tatuada que, teoricamente, deveria estar em algum país da Europa naquele exato momento.
  Pelo menos era o que as manchetes diziam. O que ela queria que todos acreditassem. Uma notícia que era alimentada, pelo menos, de duas em duas horas.
  Ali trocou o peso de uma perna a outra, fechando os punhos na alça da bolsa brilhante enquanto pensava em suas próximas palavras com firmeza.
— Precisamos conversar. E eu digo sério dessa vez.

❬📸💔❭

  Havia muito o que se admirar na casa de Jeon Jungkook.
  No entanto, a admiração nunca era uma regalia a pessoas desesperadas. Não quando seu rosto estava prestes a aparecer no noticiário de desaparecidos se uma ligação urgente não fosse feita naquele instante.
  A agonia de Candice só poderia ser uma condição patológica, e tinha total conhecimento disso.
  Quando entrou no banheiro social, ela foi golpeada pela beleza dos pisos frios e a arquitetura deslumbrante que não podiam ter vindo da cabeça de Jeon Jungkook. Ignorando esse fato, era agora ou nunca. pegou o telefone e discou os contatos de emergência. A voz de Candice surgiu antes que o primeiro toque se completasse.
  — Porra, ! Onde caralhos você se…
  Droga, ela falou palavrão.
  — Candice, eu posso explic…
  — Vai explicar aqui em casa! Já viu o tempo lá fora? Já olhou a internet?! Onde você se meteu?! Eu fui no seu trabalho perguntar pra onde você tinha ido, se alguém tinha te dado uma carona, se te assaltaram na porta do prédio, e adivinha só? Eles me olharam como se eu fosse louca! Louca, !
  Ah, merda, ela realmente tinha entrado no modo Candice de resolver as coisas.
  — Candy, me escut…
  — … E eu disse que você deveria ter saído há mais de 2 horas, mas estava completamente desaparecida. Tive que me submeter a vasculhar aquele estúdio, pra também não te encontrar! Onde você se enfiou, garota? Aqui não é a América!
  — Eu sei, cacete! Dá pra respirar? — bufou, encostando-se na porta — Candy, eu estou… — e nessa hora ela percebeu que ainda não tinha uma história pronta, e deveria ter pensando nisso assim que transpôs a soleira do quarto no andar de cima — Acabei vindo pra casa da Yoona. Vamos discutir uma nova proposta para apresentar na Hybe sobre alguns equipamentos. É só isso.
  Um breve silêncio. Tudo em seu campo de visão era um box de vidro elegante e preto e um tapete azul-marinho.
  — Quem é Yoona? — era capaz de ver as sobrancelhas arqueadas da amiga — E que coisa é essa de proposta? Achei que não tinha feito amigos na Hybe.
  — Não somos bem amigas, estamos mais para colegas. E a tempestade tem toda a culpa por eu ainda estar aqui, ‘tá bem? — reiterou, na esperança de acalmar uma Candice agora ciumenta — E recebi uma boa ameaça caso decidisse sair nesse tempo, e pelo visto, foi o certo a se fazer, não acha?
  Outro silêncio. umedeceu os lábios, esperando ser convincente, torcendo para que sua voz não balançasse mais do que o normal e revelasse qualquer mentira — ou verdade.
  Qual era a punição por trepar escondido com um idol? Candice certamente saberia a resposta. Mas algo a dizia que existia uma diferença gritante entre transar com Min Yoongi e transar com Jeon Jungkook.
  Porque oras, quem em sã consciência transa com alguém que detesta?
  — Tá, tá, entendi — Candice se deu por vencida, e deixou os ombros cederem em alívio — E por acaso você se esqueceu de que tem um celular novo? Me pouparia horas de aflição e muitos wons da conta de telefone.
  — Me desculpa, ainda é fácil esquecer desse precedente — suspirou e, então, concluiu: — Mas agora que sabe, pode ficar tranquila e em paz, tudo bem? Não inventa de sair daí em hipótese alguma. Prometo que vou estar em casa de manhã.
   pensou que não deveria estar prometendo absolutamente nada, já que seus planos estavam fadados a morrer pelo caminho enquanto estivesse ali, mas achou que as palavras fossem o suficiente para Candy.
  — Tudo bem, . Então boa n…
  — ? — disse a voz masculina do outro lado da porta.
   prendeu a respiração. O ar parou de se mexer por um segundo de tensão antes que Candice falasse de novo na linha:
  — Tem um cara aí?
   pensou em jogar o corpo no chão e se fingir de morta naquele exato momento.
  —
  — É o irmão da Yoona ele quer usar o banheiro preciso desligar te vejo amanhã te amo tchau! — disse sem pausas, desligando imediatamente e abrindo a porta em um rompante.
  Jungkook tremeu os ombros de susto com a porta, vendo a garota com o maxilar trincado e esperando que ele dissesse o que queria.
  — Conseguiu avisar a Candice? — perguntou. assentiu.
  — Tive que usar meu estoque de mentiras, e você sabe como eu não sou boa com essas coisas. Então, se ela morrer enquanto cozinha os neurônios sobre meu comportamento estranho, a culpa é sua — disse, levantando os ombros. Ele riu de forma sarcástica.
  — Na verdade, a culpa é sua — corrigiu Jungkook. — Não sabe que pra mentir precisa contar a verdade primeiro?
   franziu o cenho em incompreensão. Agora ele riu abertamente, balançando a cabeça.
  — Quando a verdade é absurda demais, ela funciona melhor do que a mentira. Ou acha mesmo que Candice acreditaria que você estava na minha cama? — afirmou casualmente. Ele estendeu o braço para a frente, onde um conjunto de camiseta e calça de moletom estavam perfeitamente dobrados — Aqui. Infelizmente, não tenho nada mais feminino do que isso.
   riu pelo nariz, estreitando os olhos.
  — Eu só vou acreditar nisso porque a casa é nova e você ainda não teve tempo de definir os horários de entrada e saída daquelas que podem esquecer coisas por aqui.
  Jungkook riu em resposta. Um sorriso bonito e canalha.
  — Ainda bem que você sabe das coisas — deu uma piscadinha, começando a se afastar — As toalhas estão na gaveta debaixo.
  Ele desapareceu escada acima, provavelmente indo tomar seu próprio banho. revirou os olhos, fechando a porta, buscando as toalhas e pegando uma qualquer.
  O compartimento do box era maior do que o normal. O piso por dentro não era tão liso, assim como as paredes, o que a fez ter pensamentos desagradáveis sobre o que possa ter sido feito bem ali. Esperava que nenhuma das outras garotas tivesse uma doença ou algo do gênero.
  Mas ela não estava pensando nas mulheres. No fundo, estava pensando em por que Jungkook não tinha arrancado as roupas e entrado no chuveiro junto com ela, mas isso nunca seria admitido.
  Devia ter algo a ver com intimidade e todas essas coisas que fazia questão de assumir com aquela postura de sempre.
  Já no fim do banho, sentiu os olhos pesarem. A água no rosto era morna, e o shampoo parecia algo terrivelmente caro para ser exposto em um banheiro social, mas foi o suficiente para o cabelo de um dia inteiro de trabalho finalmente tivesse sua merecida limpeza.
  Ela secou a sola dos pés no tapete azul-marinho e puxou as roupas em cima da pia. Na frente da camiseta de mangas, havia uma estampa do homem de ferro deitado sobre uma espreguiçadeira na praia, bebendo uma água de coco. balançou a cabeça, segurando a risada enquanto vestia. Era mais curta do que parecia, com o aspecto confortavelmente indecente. Ou qualquer verbo que combinasse com algo que passava poucos centímetros abaixo da pelve.
  Quando entrou dentro da calça, ela soube imediatamente que aquilo deveria ter sido um plano. Ou talvez Jungkook fosse tão desatento quanto aparentava ser para aquelas coisas — não tinha como saber. As palavras eram largo demais e estranho demais. Apesar de não haver razão para pensar que Jungkook se preocupasse com a aparência dela, teve a estranha impressão de que ela mesma se importava, e se livrou da peça antes que começasse a andar por aí puxando-a para cima o tempo todo. Por que raios ele gostava tanto assim de roupas tão maiores do que ele?
  Se bem que, levando para o lado dos palcos, aquilo com certeza não acontecia.
  Ao abrir a porta do banheiro, o cheiro de pimenta veio forte da cozinha. Seguindo para lá, ele se tornava ainda mais presente, misturado com algo que parecia cebola e alho. desconfiou que ele poderia ter achado mais do que tteokbokki na despensa da cozinha.
  Quando chegou, encontrou um Jungkook parado em frente à ilha, vestido com uma regata e calça de moletom parecida com a que tinha lhe dado, com a diferença de que essa servia perfeitamente. Os ombros nus ainda exibiam míseras gotículas de água, que desciam do cabelo também molhado de pós banho. Ele usava dois hashis de madeira para bater uma mistura de ovos dentro de um bowl, enquanto algo já cozinhava no fogão.
  Percebendo a aproximação no cômodo, Jungkook ergueu os olhos. E parou de mexer os ovos por pelo menos um minuto.
  Ele pensou em perguntar onde estava a maldita calça que ele havia dado, ou desde quando aquela camiseta era tão curta, ou então por que diabos ela tinha que ficar tão mais gostosa e bonita — meu Deus, ela estava bonita — com o cabelo molhado e sem nenhum resquício de maquiagem, e todas essas coisas que vieram e foram rápido demais para dar importância.
   percebeu a checagem de Jungkook e o sustentou de maneira um tanto desconcertada. Era a segunda vez que ele a encarava daquele jeito concentrado só no dia de hoje, e se houvesse uma terceira ela começaria a se irritar de verdade.
  — Apesar do seu interesse em vestir sacos de batatas, eu não curto muito, Jeon — declarou ela, dando de ombros — Ele com certeza me deixaria ainda mais socialmente desastrada do que já sou.
  Ele assentiu devagar, descobrindo agora que também não gostava tanto deles. Nela.
  — Ficou melhor assim.
  E voltou a atenção imediatamente aos ovos. sabia o quanto Jungkook certamente desprezaria ter que lhe fazer qualquer elogio que não fosse sob o efeito de tesão, então apenas suspirou e se aproximou da bancada.
  — Precisa de ajuda?
  — Não, está quase pronto, pode sentar ali e esperar — ele apontou para a mesa, ou na direção da sala, não estava muito claro. pensou em insistir, mas lembrou-se de que era uma boa juíza de caráter na maioria das vezes e que ele insistiria de volta, e assim isso não teria fim. Era o tipo de coisa desconcertante a respeito dos dois.
  Com um mísero aceno, começou a caminhar para a sala e percebeu como desconhecia aquela parte da casa. Certamente no dia da festa aquele sofá retrátil não estava ali, assim como o tapete grande e suave e a TV de sei lá quantas polegadas — eram muitas. Bastante.
  Algumas vezes, era fácil esquecer que ele era tão rico.
  Não tinha muita coisa a se olhar. Fora as decorações diferenciadas do homem de ferro, bonecos variados de outros heróis da Marvel, quadros autorais nas paredes e alguns livros sobre história romana que certamente tinham várias ilustrações, tinham alguns retratos de família em um pequeno móvel ao lado da TV — junto com outro alto e circular onde tinha bastante whisky e vodka.
  A primeira foto era de um garotinho segurando um violão, e depois o mesmo garotinho sentado ao lado dos pais, que se transformava em uma terceira onde tinha Jungkook crescido com o mesmo casal, sorrindo com entusiasmo. Embaixo delas, uma abertura quadrada guardava fileiras e mais fileiras de DVDs e CDs ainda em disquetes, a maioria sendo de cantores antigos da Coreia dos anos 90 e alguns álbuns dos grupos da primeira e segunda geração do kpop, como SHINHWA, 2NE1 e BigBang.
  Uma das laterais não se parecia com nenhum CD ou DVD. Estava escondida, com as bordas mais arredondadas e amadeiradas, parecendo novo demais para ser esquecido ali e velho demais para estar tão organizado. não conseguia encontrar um ponto de vista. Não percebeu seu braço indo de encontro ao objeto, puxando-o para fora e se deparando com mais um porta retrato, um que, no final, tinha um propósito para estar ali.
  Jungkook sorria enquanto Ali dava um beijo em seu rosto, os dois com roupas de neve em um cenário noturno e iluminado, debaixo de um céu estrelado, muito parecido com Paris ou a Islândia, ou algum lugar da Europa. seguiu encarando a imagem. Ela era boa em encarar pessoas, e teve certeza absoluta de que nunca viu Jungkook sorrir daquele jeito, nem um mísero dia desde que o conhecera. Um sorriso totalmente diferente, totalmente feliz e entregue.
   engoliu em seco, olhando para o chão por alguns instantes. Havia alguma coisa naquele sorriso registrado que tirava algo dela. Que exibia um momento de alegria genuína no qual ela tinha ajudado a destruir.
  — Não sabia que você era do tipo que gosta de bisbilhotar.
  O susto a fez voltar a guardar o retrato em um jato, negligenciando se o deixava na mesma posição ou não. Ela virou-se pra ele rapidamente, embaraçada.
  — Não consegui lidar com a minha curiosidade quando vi que você tinha Rambo 1982 em VHS.
  Ele ia se aproximando com duas louças e os olhos baixos para não tropeçar. Depositou-as em cima da mesa de centro, que parecia uma mesa de té dobrável e só agora percebia que algumas coisas já estavam prontas em cima dela; duas porções de arroz e duas porções de sopa.
  Jungkook perguntou:
  — O que pensou que eu fazia aqui nos dias de folga? — ele se inclinou sobre a mesa, organizando os acompanhamentos com maestria — Esquece, acho que não quero saber sua resposta.
  A risada de foi deixando seu corpo mais leve. A culpa não podia dar as caras agora, não quando tinha sido tão difícil e trabalhoso escondê-la em algum lugar no fundo. Não quando todos já tinham passado por isso e sido devidamente punidos, em várias vertentes.
  — Só achei que você se rendia a ficar um dia inteiro no sofá apenas quando está doente ou coisa parecida — a resposta veio com os ombros levantados e uma pitada de zombaria. se sentou no chão em frente ao pequeno banquete, enquanto Jungkook fazia o mesmo do outro lado. O cheiro fazia sua barriga roncar, e não era um barulho tão discreto assim.
  Eles olharam um para o outro. corou levemente e Jungkook segurou uma risada.
  — Acho que gozar te deixa faminta — rindo, ele pegou o hashi e já puxava um grande pedaço de massa do tteokbokki — Vai, come. Não precisa inventar desculpas dessa vez.
   cerrou os olhos, mas começou a comer. Estava bom, melhor do que esperava de um cara que não era muito exigente com o que botava pra dentro. Só esperava que não estivesse exibindo desesperado demais, porque a fome era real, principalmente depois que se lembrou que sua última refeição foi aquela com a equipe mais cedo.
  Quando estendeu o braço para pegar mais um pedaço de massa, um barulho alto rasgou o céu do lado de fora. se desequilibrou pelo susto, deixando um dos hashis despencarem para a mesa, pegando-os imediatamente antes que rolassem para o chão.
  Jungkook espiou dentro daqueles olhos de novo, confuso, pensando em perguntar novamente, perturbado com a dúvida. Mas lembrou que já tinha feito isso na cama mais cedo e batido a cota de se preocupar com qualquer assunto que envolvesse o bastante para um mês.
  Mesmo assim, distraidamente, ele moveu os dedos até um controle pequeno e compacto ao lado do sofá, apertando um botão e mergulhando a sala na escuridão ao mesmo tempo em que a TV acendia. olhou em volta, franzindo o cenho, observando agora as luzes amareladas em uma fileira no teto e o som alto da abertura da Netflix enquanto um filme abria automaticamente: Rambo.
  Jungkook viu apenas de relance, mas sabia que estava olhando para ele, com as sobrancelhas arqueadas.
  — O que? — perguntou, defensivo — Nada substitui a praticidade do streaming.
   concordou. O barulho dos tiros e da trilha sonora explosiva abafaram os sons do lado de fora. Sem perceber, os dois passaram a acompanhar a perseguição de Rambo pelo xerife veterano com atenção, se deliciando com a improbabilidade de um cara normal ter sucesso contra milhares de hectares de mata virgem sem qualquer equipamento, mas essa era a verdadeira magia do cinema: quando a lógica desaparecia.
  Não era muito diferente do que estava acontecendo ali. Com poucos minutos, buscou outra porção de sopa com os dedos e desviou os olhos para a mesa, e então para o garoto sentado do outro lado, com os olhos grudados na TV. E então, tudo se juntou em outra enorme bolha de coincidências erradas.
  — Meu deus, isso é estranho — balbuciou, sentindo explicitamente o manto estranho no ar.
  Jungkook tirou a atenção do filme.
  — O que é estranho?
  — Isso! — apontou de um para o outro, e depois para tudo ao redor, como se a constatação fosse pesada demais para falar em voz alta. — Não sei se devíamos estar fazendo isso.
  Ele parou por um instante antes de soltar uma gargalhada.
  — Não pensa demais, . Pra você é romântico comer kimchi enquanto assiste um filme razoavelmente ruim? — ele ainda ria levemente, voltando o corpo para encará-la — Não vai por esse lado, essa não é minha praia. Ainda mais com você.
   cerrou os olhos, da mesma forma que o sr. Teasle fitou Rambo.
  — Não é sua praia ser romântico? Tem certeza? — deixou que uma risada incrédula se manifestasse — Acho que você está se esquecendo que gosta de mandar flores, fazer o café-da-manhã, levar em viagens surpresa, anéis de compromisso…
  — E você deduziu isso com toda a sua inteligência? — Os dois se olharam em desafio. A garota levantou uma sobrancelha.
  — Eu não deduzi nada. Ali me contou tudo. — Respondeu, e tudo se fez entender. A expressão divertida de Jungkook se esvaiu. baixou os ombros, sentindo-se idiota por ter trazido o assunto à tona e esperando que agora Jungkook certamente a expulsasse educadamente de sua casa, não importava o nível apocalíptico da chuva lá fora.
  Era no mínimo hostil mencionar Ali na presença dele, ainda mais depois da foto escondida entre os filmes.
  No entanto, ele apenas desviou os olhos e voltou a atenção para a comida.
  — Agora posso entender porque achei melhor que abrisse a boca só quando estivesse gemendo — disse ele enquanto balançava a cabeça. mordeu o lábio inferior, sem saber como exatamente deveria pedir desculpas. Talvez o silêncio funcionasse melhor. Ficar em silêncio e não deixar minha boca extremamente grande dizer outra besteira, pensou. — Melhor não pegar esses casos isolados como regra para algum encontro perfeito, você pode se decepcionar. Se bem que, como você saberia, não é? Já que nunca teve um. — Ele mordiscou um pequeno pedaço de massa, sorrindo descaradamente. Sabendo o que dizem sobre bocas grandes, sufocou a grande vontade de xingá-lo naquele momento — É tão estranho que um homem nunca tenha te chamado pra sair e curtir a sua companhia. — disse sarcasticamente.
   teve certeza, pelo sorriso afetado de Jungkook, que ele estava sendo propositalmente detestável.
  — A maioria dos encontros têm grande potencial para ser uma merda porque homens são idiotas. Não vou incluir o Jaehyun nessa conta.
  A expressão de Jungkook confirmou todas as suspeitas da garota: sim, totalmente detestável. De propósito. E agora com um sorrisinho prepotente.
  — Está dizendo que os homens são idiotas por não quererem tomar um café com você, a tão inteligente e durona ?
  — Nunca tive tempo pra um café, Jeon. E nem pra relacionamentos, festas ou uma foda decente…
  Parou. Aquele não era o melhor caminho para continuar a conversa. Trouxe o efeito totalmente contrário do que pretendia: parecer ainda mais ridícula na frente de Jungkook, que agora ria com gosto, o tipo de sorriso que era dourado, enquanto juntava mais alguns punhados de arroz e avaliava o rosto da garota.
  — Então também estava procurando uma foda em Los Angeles? Isso é algo que nunca pensei em ouvir.
   revirou os olhos e, inconscientemente, pensou em Phil e de como todo o ano passado agora parecia algo muito mais distante do que realmente era. Todas as mudanças tenebrosas que aconteceram desde então tinham virado sua vida de cabeça para baixo. Ela pensou, com espanto, que provavelmente deve ter cogitado a ideia de ceder aos flertes de Phil por alguns minutos, pouquíssimos minutos, por causa de malditas necessidades corporais que só estavam sendo atendidas agora.
  — Perdi o interesse bem rápido. — gaguejou, depositando os hashis à frente — Candice disse que a maioria dos caras não conseguem achar o clitóris de uma mulher. E ainda se acham o máximo.
  Saiu sugestivo, e um tanto inesperado. Jungkook entreabriu a boca em um sorrisinho, pousando a língua nos dentes superiores. O filho da puta é insuportável, mas é gostoso, jamais deixaria essa resposta aparecer.
  Em vez disso, ela arqueou a testa.
  — Eu acredito nela, oras, ela era tipo uma versão feminina sua. Deve entender dessas coisas.
  — Infelizmente, não posso te responder isso.
  — E por qual motivo?
  — Porque nenhuma mulher deixou de gozar comigo. Me asseguro disso — deu de ombros, sem um resquício de incerteza. — Devia saber disso como ninguém. Afinal, estamos aqui.
  A reação imediata de foi revirar os olhos e juntar os pratos, se mexendo rápido o suficiente para que ele não notasse seu arrepio na nuca com aquele olhar e de como odiava isso.
  — Você também fica bem melhor abrindo a boca pra achar o meu clitóris — resmungou, colocando-se de pé junto com as louças — Acabamos aqui, não é? — e caminhou a passos pesados para a cozinha.

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  Quando os dois chegaram ao andar de cima, Jungkook andou direto para uma porta no meio do corredor largo, vizinha de tantas outras com a mesma configuração frontal: branca com retas esculpidas em preto. Lá dentro, o piso se transformava em um amadeirado claro muito diferente do andar debaixo, com uma cama no centro revestida de lençóis brancos e sem estrado — estava mais para ripas de madeira, porém com um design moderno —, e um armário pequeno repousado no canto, junto com um pequeno abajur. Havia um problemático lustre de vitral pendurado no meio do cômodo, que apesar de lindo, fugia totalmente do cenário de trevas que era o restante da casa.
  Da janela de vidro na lateral, a cortina entreaberta permitia um feixe de luz azulada vinda do lado de fora, indicando a localização exata do quarto: bem em cima da piscina.
   já estava lá dentro sem notar, olhando cada ponto do espaço praticamente vazio. De repente, todo o ambiente foi banhado por luz amarela saindo da boca de dezenas de lâmpadas enfileiradas nos cantos do teto, de uma extremidade à outra. Uma delas, no meio, estava apagada.
  — Também ficou surpresa? — Disse ele à suas costas, vasculhando o lugar com atenção, como se claramente também não pisasse muito ali — Pensou que minhas visitas se alojassem no meu quarto?
  — Que tipo de visitas? — perguntou ela, mas logo balançou as mãos em negação — Não, prefiro não saber. Mas essas lâmpadas — suspirou, impressionada — São demais.
  — São feitas sob medida. Quando param de funcionar, tipo aquela, é um processo chato que exige pelo menos umas três pessoas, e como eu quase nunca venho aqui, a tendência é esse serviço ser protelado até que todas elas queimem.
   quase disse que não se importaria em ajudar, mas estava tão tarde e aquilo poderia significar tantas e tantas coisas demais que ela preferiu ficar quieta.
  Jungkook limpou a garganta e começou a dar passos para trás.
  — Bom, se quiser mais cobertores tem naquele armário, o banheiro é lá embaixo e pode ajustar o ar-condicionado naquela parede bem ali. Eu vou nessa.
  — Jungkook, espera — ele parou assim que abriu a porta. — Obrigada. Você é um bom anfitrião.
  Ele arqueou as sobrancelhas, resignado.
  — Eu meio que não tive escolha, . O que minha mãe diria se soubesse que joguei uma garota indefesa no meio da tempestade? — Ele sorriu com o despejo da ironia. o olhou com incredulidade — Enfim, pode ficar à vontade durante a sua estadia. Se precisar de algo pra distrair a cabeça, arrume um jogo da cobrinha no celular, mas não me chama. É só isso, boa noite.
  Ele ergueu as mãos para dar-lhe um aceno debochado e fechou a porta, enquanto segurava uma risada daquela estupidez.
  Olhando para a cama, não dava para adivinhar que ela era tão confortável quanto realmente era. Devia ser ainda mais confortável do que toda a concepção de conforto conhecida pelo ser humano — a não ser que você faça parte do 1% rico o bastante pra já ter experimentado algo assim. se espreguiçou, sorriu, puxou as cobertas e sentiu o mesmo cheiro de cranberry do quarto dele. Com as luzes apagadas, o azulado da piscina entrava com mais força e deixava o espaço aconchegante. Ela sentiu os olhos pesarem ainda mais e o sono chegando, finalmente chegando…
  Um clarão destruiu a ambientação índigo e reverberou por todas as paredes. tremeu, quase se esquecendo de que a chuva continuava e de que os raios não pareciam querer dar uma trégua. Deitou-se novamente, fechando os olhos com força e tentando se imaginar em outro lugar. Mais um clarão e toda a fantasia se perdeu. Pegou o celular, zapeando sobre as conversas e percebendo que Jaehyun não tinha mandado nenhuma mensagem nas últimas 24 horas, ou tentado fazer uma ligação. bufou, digitando um “bom dia” sem esperanças de receber uma resposta; ao menos a deixava leve, mas também insegura.
  No fim, ela precisava fechar os olhos e se forçar a passar por aquilo sozinha, como sempre passou nos últimos anos. Não era hora de pensar no que acontecia lá fora. Não era hora de deixar o medo irracional falar mais alto. E, muito menos, não era hora de lembrar do motivo das crises — sua família não podia ganhar aquela batalha sempre.
  No fim do corredor, Jungkook mexia na corrente do pescoço enquanto suspirava na tentativa de dormir. O barulho lá fora não o incomodava, muito menos a insônia, mas sim, como todo aqueles caos poderiam estar dificultando que outra pessoa dormisse.
  A ideia era ridícula. Ele não estava pensando em fazer isso no meio da noite.
  Lançou um olhar carregado para o telefone. Fazia apenas trinta minutos que tinha deixado-a no quarto. Com certeza, estava tão cansada quanto ele. Existia 99% de chance que já estivesse dormindo.
  Infelizmente, Jungkook tinha nascido com mais desconfiança do que devia.
  Com um suspiro, digitou uma pequena mensagem. “Já está dormindo?” e aguardou mais dez minutos.
  Sem resposta. Enfim, ela estava dormindo. Não havia porquê procurar motivos para levantar e verificar se ela não estava encolhida embaixo da cama. Pelo menos foi o que o Google disse sobre pessoas astrofóbicas e suas reações à tempestades quando não tinham um calmante por perto.
  Quando um ronco pavoroso veio de fora, acompanhado do barulho forte que parecia uma calha se partindo, o garoto grunhiu e se levantou, saindo para o corredor à contragosto, convencendo-se de que seria apenas uma espiada, e então poderia voltar e dormir em paz. Várias coisas erradas estavam acontecendo naquele dia, a começar por ter dormindo sob o mesmo teto que o seu e tirando seu sono sem estar pelada em seu colo.
  Abrindo a porta da frente, qualquer suspeita se concretizou de forma palpável: era uma perfeita astrofóbica e estava encolhida não embaixo da cama, mas sim embaixo do cobertor. De dois cobertores.
  A princípio, a garota permaneceu parada no mesmo lugar, sem dar atenção ao novo barulho, podendo muito bem ter vindo do anarquismo da natureza. Quando Jungkook fechou a porta, colocou a cabeça para fora imediatamente, tremendo com a surpresa.
  — O que faz aqui? — perguntou, com a voz fraca. Existia uma lista de coisas improváveis a se acontecer naquela noite, e a primeira delas era ver Jungkook voltar ao quarto por qualquer motivo.
  Afinal, ele era uma criatura de hábitos e nada sedentário, mesmo que dormisse em horários soltos, enquanto escondia diversos motivos que a faziam vagar pela insônia diariamente. Quando dizia que iria dormir era porque, certamente, ele iria dormir.
  Mas então, por um momento, ele não soube o que responder e a verdade parecia ridícula e inconcebível.
  — Verificando a energia — apontou para o pequeno abajur ligado ao lado da cama, ainda que o sarcasmo estivesse ali presente, como sua segunda língua.
  — Desculpa — engoliu em seco, ajustando a luz até que o breu tomasse conta de novo.
  Ele passou a mão pelo cabelo em nervosismo, pensando racionalmente em dar as costas e voltar para o próprio quarto, colocar fones de ouvido e um blues qualquer para que o sono finalmente viesse e o colocasse para dormir porque tinha uma viagem à trabalho amanhã, e dois dias longos e atarefados depois disso, e viagens de avião são sempre tão cansativas…
  Seus pés se moveram e então, ele estava sentando-se ao lado dela, jogando as pernas para cima e recostando-se na cabeceira.
   o encara no escuro. A luz azulada a deixava ainda mais pálida.
  — Que tipo de brincadeira é essa? — perguntou, sem ânimo para forçar qualquer grosseria na voz. O garoto revirou os olhos, inclinando-se para a mesinha de cabeceira ao lado e puxando um controle pequeno igual ao da sala.
  — É tipo alguém tentando te ajudar a dormir. Agora não começa a reclamar e me fazer desistir — ele mexeu em alguns botões. continuava confusa.
  Esse tipo de alguém não fazia o menor sentido.
  Alguns minutos se passaram em silêncio, onde ele encarava o controle de um jeito tranquilo enquanto ela segurava a respiração ruidosa. Ele queria que ela dormisse com ele ali? Não dá. Era um jeito estranho de tocar os negócios. Mas antes que tivesse tempo de perguntar alguma coisa, a voz dele veio primeiro:
  — Gosta de alguma música específica?
  Ela se virou lentamente.
  — Gosto de Daniel Caesar — respondeu. Ele fez sinal para que ela continuasse — Japanese Denim.
  — Boa escolha — então, com um toque, a melodia de Japanese Denim começou a soar ao redor, saindo das paredes. Literalmente das paredes.
   ergueu o corpo devagar até se sentar, sentindo-o meio elástico depois de tanto contraí-lo por debaixo dos cobertores. A música atravessava todos os seus poros, vibrava por cima de sua pele e estava em todo lugar.
  Mas é claro. Aquela era a casa de Jungkook; ele daria um jeito de enfiar uma acústica especial em todas as paredes possíveis.
  — Segura os seus elogios porque tem mais — o dono da voz balbuciou, cedendo mais um toque no controle e então, o teto se encheu de estrelas cadentes e planetas em órbita. Pareceu que a cor de todo o cômodo tinha se transformado na própria galáxia. As paredes laterais foram pintadas com a Cassiopeia, Ursa Menor e outras tantas constelações que desconhecia.
  Por um momento, Jungkook cultuou o rosto de , enquanto ela estimava o ambiente aos poucos. Foi como a olhou mais cedo, enquanto tinha a Panasonic nas mãos. Era como se todas as reações dela fossem transparentes e autênticas, inocentes até certo ponto. E ele não esperava que a honestidade genuína o deixasse tão atraído.
  — Isso te assusta? — perguntou ele, lembrando-se dos raios e se existia alguma relação com os outros elementos extraterrestres. Ela demorou um pouco para responder, fazendo-o umedecer os lábios e emaranhar ainda mais o cabelo.
  — Não — respondeu, sincera, esticando mais o corpo sobre a cama involuntariamente, puxando o cobertor até o peito — É lindo.
  Um sorriso brotou de seus lábios de uma maneira natural. Jungkook parecia tão absorto em seu rosto quanto estava com as luzes. Ele percebeu que ela era bonita — e era bonita de uma maneira que não exigia muito trabalho por parte do observador. Todos os traços faciais se encaixavam e se encontravam no rosto. Ficava ainda mais linda sob aquelas luzes dançantes. Como ele não percebeu isso antes?
  A resposta era muito clara. Era difícil notar a beleza de alguém quando estava ocupado demais sentindo ódio dela.
  Os dois permaneceram em silêncio, sob a música e a chuva, que agora parecia distante, pertencente a outra cidade, outro país. Jungkook mergulhou o corpo para baixo, deitando no mesmo nível que , olhando para o teto assim como ela.
  Quando mais duas músicas passaram, ela olhou de relance para ele, vendo-o com o braço por trás da cabeça e repetindo a melodia baixinho enquanto dedilhava com o dedo. Ainda era estranho toda a repentina companhia, mas inegavelmente válida. Era como se pudesse dormir pacificamente pelo resto da noite.
  — Isso daria uma bela foto — murmurou, sem tirar o primórdio do sorriso. Jungkook riu fracamente.
  — Acho que já ouvi isso antes — ele lembrou-se do episódio na cozinha de Yoongi, onde tentava tirar suas dúvidas sobre as lanternas e ele assassinava qualquer tentativa de terem uma conversa legal — Sinta-se à vontade pra tirar. Só vai ser complicado se roubarem o seu telefone ou coisa parecida.
  Ela cerrou os olhos e virou-se para ele de lado.
  — Esse é um jeito muito estranho e muito azarado de ter fotos do quarto de Jeon Jungkook vazadas.
  — Me desculpa, mas depois que vi uma caneca de chopp em Londres ser vendida por milhões de libras depois que usei, eu não duvido de mais nada.
   riu, imaginando que Jungkook até poderia ser traumatizado com fofocas, mas tinha permitido que um bando de gente entrasse naquela casa, que era um verdadeiro ponto comercial, há algumas semanas atrás em uma festa alucinada. Talvez significasse que seu eu bêbado não tinha muito filtro para o certo e o errado.
  Apesar disso, lhe ocorreu que a decoração da sala e de todo o resto era extremamente minimalista e sem artifícios muito chamativos. Ele poderia colocar um aviso na frente, pintado à mão — com a mão de qualquer pessoa — e dizer: não há nada de valor para os tabloides por aqui.
  A não ser que invadissem seu quarto e achassem aquela caixa de fitas. Ou encontrassem o retrato escondido na prateleira. Coisas pessoais que eram o verdadeiro objetivo de qualquer paparazzi. O íntimo era o que realmente marcava uma pessoa na mídia — o íntimo que costumava ir atrás, que buscava como uma profissional.
  Mesmo que odiasse isso.
  — Aquilo que você disse mais cedo… Sobre eu ser profissional demais pra isso. — Disse ela de repente, sem tirar os olhos do teto — O que quis dizer?
  Jungkook também não se mexeu, os olhos voltados para o mesmo lugar que ela.
  — Sei lá… Foi só uma impressão que ficou marcada.
  — Que tipo de impressão?
  — Que talvez você esteja no trabalho errado — Os dois viraram-se ao mesmo tempo. Ela fez uma careta leve de confusão, e ele balançou a cabeça — Quero dizer, à vista de todos você tira boas fotos, mas é muito fácil dizer isso quando você faz exatamente o que pedem. Desde que você começou nessa indústria, pode entender o que eu ‘tô falando: não importa o tipo de conceito e se alguns querem inovar ou não, tudo continua igual. O mesmo tipo de foto, o mesmo tipo de pose pra ilustrarem um mesmo tipo de ritmo. E não entenda errado, não estou julgando a Hybe ou até mesmo as outras empresas, estamos falando de negócios. É só que… É tudo do mesmo. Mais do mesmo. Porque é isso que vende — Jungkook respondeu com firmeza, sossegado, recusando-se a se sentir culpado ou temendo más interpretações — Mas eu vi seu portfólio quando o apresentou ao sr. Ahn há três meses. Não era de esperar que ele fosse aceitar alguém inexperiente, e sei que as recomendações dos meninos ajudaram, e na época fiquei revoltado com isso, mas não dava pra negar. Tinha alguma coisa diferente no seu trabalho. E não estou falando das pessoas que posam pra você.
   o olhou sem dizer nada. Talvez não conseguisse. Ele retribuiu sua apreciação até dar de ombros e suspirar.
  — Não sei se tem algo a ver comigo e meu hobby favorito com as câmeras, mas você capta mais do que os outros normalmente captam. Como naquela foto da migração das tartarugas marinhas em alguma praia de Malibu, que o sol batia em cada uma delas criando aquelas sombras naturais e não sei… Ficou incrível, bonito de verdade. Era a beleza da vida real. Parecia querer dizer algo, mesmo que você tenha só registrado esse comunicado. Acredite, se as coisas tivessem sido diferentes, eu convenceria todos que eu conheço a marcarem uma hora com você, mas não acho que pessoas e casamentos sejam o que você realmente quer fazer.
  Jungkook era como uma voz distante ao pé da escada, há 100 metros de distância. Irreal e chocante. abriu e fechou a boca várias vezes, pensando em respostas coerentes que não fossem do tipo: desde quando você olhou meu portfólio?
  — Você realmente não precisa falar desse jeito — riu de um jeito engasgado, ainda pasmo — Eu sou só uma assistente, não faço o trabalho principal. Aquelas fotos do portfólio são só alguns registros pessoais, nada muito elaborado...
  — Você não sabe aceitar elogios de um modo geral ou somente os meus? — interrompeu ele, fazendo uma leitura superficial sobre o nervosismo de . Por fim, estalou a língua e continuou: — Tudo bem, não precisa levar minha observação em consideração. Pode achar que sua única vocação é tirar fotos de celebridades com maquiagem e roupas brilhantes. Mas quero ver você quebrando a cara quando seu projeto for aceito na agência, e nem precisa me dar os devidos agradecimentos pela contribuição.
  — Você está tão certo disso… — Riu em descrença. De novo, ela parecia pequena e pálida, sufocando a falta de jeito pelo reconhecimento de Jungkook. Tentou lembrar se tinha recebido tanta motivação e apoio de alguém a não ser de Candice, e não achou nenhum nome relevante. Colocar Jeon Jungkook nessa lista parecia um delírio coletivo.
  O garoto a encarou, e não sabia se ele estava reconsiderando seu real talento ou porque elogiá-la daquele jeito era informação demais para assimilar.
  — Estou falando sério, — Disse, finalmente. — Já deixei muita coisa por não acreditar que eu podia. Algumas oportunidades só acontecem uma vez na vida. Então estou dizendo pra você dar o melhor de si nesse projeto e deixar que as portas se abram. Mais cedo ou mais tarde você vai fazer o que quer, isso é o que importa.
   voltou a olhar o teto. Levou um tempo até que percebesse que Jungkook estava se referindo à tal coisa que ela queria fazer como se soubesse exatamente do que se tratava, mesmo que isso fosse impossível. Mas parecia melhor imaginar que ele sabia de alguma forma, do que admitir que, talvez, estava sendo tão transparente na frente dele de um jeito totalmente involuntário.
  O universo saltava das paredes. Parecia uma mensagem também, algo subliminar escondido nos detalhes cotidianos que o garoto tinha mencionado — o céu é o limite. E, mais cedo ou mais tarde, ela iria alcançá-lo.
  — Por que criou o Golden Closet? — A pergunta foi respeitosa, mesmo que súbita. Jungkook engoliu em seco, soltando um suspiro leve, batucando os dedos nas coxas enquanto Daniel Caesar cantava sua parte favorita de Get You.

and I’ll take some time
  just to be thankful
  that I had days full of you, you
  before it winds down into
  the memories, it’s all just memories.

  Por um momento, pensou em não responder, ou mudar de assunto, ou fazer o que devia ter feito há vários minutos atrás — levantar e voltar para o quarto. Mas já tinha começado a responder as perguntas dela há muito tempo, somente naquele dia. E talvez não fosse tão estranho assim. Afinal de contas, não era mais um bicho de sete cabeças.
  — Porque estava vendo a minha vida passar muito depressa. — Explicou, sem encará-la — Responsabilidades, viagens, dinheiro, pressão, restrições absurdas, várias coisas acontecendo ao mesmo tempo… Senti como se estivesse me tornando adulto muito rápido. Eu estava perdendo coisas, por mais que estivesse fazendo o que eu sempre quis. Foi aí que eu decidi guardar o máximo de memórias.
  Assentindo, se virou para ele, com um sorriso sugestivo.
  — Acredito que não divulga a maior parte delas, não é?
  Ele riu.
  — É meio óbvio — balançou a cabeça. — Essa ideia nasceu, acima de tudo, pra ser um acervo pessoal dos meus momentos favoritos. Não é qualquer um que vá aparecer, claro, mas todas as pessoas especiais que já passaram pela minha vida, que tiveram um significado. Algumas pessoas… — ele parou, baixando os olhos até os pés, perdendo o sorriso aos poucos — Às vezes, ter essa pilha de registros pode ser caro demais pra nossa saúde mental.
   prendeu a respiração e limpou a garganta. Tinha entendido, mais uma vez, que mesmo sem querer, sua enorme boca teimosa tinha dado voltas e voltas para chegarem ao mesmo assunto cruel. Ela passou as mãos pelo cobertor, umedecendo os lábios e retornando a outro torpor de seus próprios pensamentos.
  — Meu plano original não era mesmo tirar fotos de celebridades — começou, levando em consideração a oferta implícita sobre contar alguma coisa importante sobre si — Sabe aquelas imagens educativas que vemos nos livros de ciências? Ou naquelas revistas sobre vida selvagem, ilhas de recifes de corais, águas termais da Tailândia ou o processo de fabricação de uma inteligência artificial… Esse tipo de coisa.
  — O tipo de coisa que vemos na National Geographic?
   arregalou os olhos pela resposta inesperada. Ela gesticulou em confirmação, um pouco constrangida com a afirmação rápida.
  — É, a National Geographic — suspirou — Acho que eles mostram tudo que eu sempre quis mostrar: vida real remodelada em arte, transformada em sonho, fantasia. Não sei explicar como chamam. É sobre o contato com o mundo e tudo que acontece ao redor, que é onde existem milhões de histórias para contar. Nas pessoas, nas tribos, nas cascas das árvores, na terra das montanhas, na fauna local… Tenho vontade de ouvir todas elas.
   disse com uma voz pequena, baixa, temendo soar ridícula e sonhadora demais caso falasse mais alto. Quis desviar os olhos dele, que estavam cravados em seu rosto com atenção, suas respirações não fazendo ruído algum. Ele parecia estar fazendo uma pergunta com a sua expressão, mas não entendia qual era.
  — Estou te enchendo, não é? — ela riu fracamente, e Jungkook franziu a testa em negação — Antes que você me pergunte: sim, um dia eu vou tentar esse trabalho. Mas não queria apresentar meu currículo apenas com a graduação do Brasil e meu trabalho nada fidedigno na LA Parker. Por muito tempo, meu sonho era fazer o mestrado em Londres, mas… — agora foi sua vez de desviar os olhos para o teto, sendo invadida por lembranças dolorosas de um passado não tão distante assim — Enfim. A Coreia está sendo melhor do que eu esperava.
  — Muitos estrangeiros falam isso — ele deu de ombros, concordando. riu levemente — Mas acho que os chefões não iriam se importar se apenas mostrasse seu portfólio pessoal pra eles. Tornaria seu talento bem claro.
   balançou a cabeça com um não.
  — Não quero que eles vejam apenas talento. Quero que vejam interesse, dedicação. Quero que saibam que estou pronta e disposta — com um olhar de relance, ela voltou a olhar pela janela por alguns instantes — Preciso estudar mais, aprender algumas outras línguas e vencer mais alguns medos.
  Ele assentiu, vendo a boca dela se mexer para dizer mais algumas coisas que já não prestava mais atenção. Sua cabeça estava sendo teimosa em insistir para que continuasse olhando um pouco mais pra ela, só um pouco, antes de voltar para a realidade e se tocar de que era quem era e que ele jamais a acharia tão interessante quanto estava achando agora.
  Era totalmente abominável que, à medida que ia se deixando conhecê-la mais, se tornava mais perceptível o quanto ela se encaixava em várias categorias que ele achava admiráveis em uma mulher, e o fato de ter seus sonhos e planos definidos em um bloco organizado sem incluir terceiros era apenas o primeiro deles. Ela era uma alma solta, focada e independente. Interessante. Era aí que estava o problema.
  Mas era . E, por mais que naquele momento estivesse louco para que ela calasse a boca e voltassem a tirar as roupas e terminar o que começaram no outro quarto, precisaria de um bocado mais de tempo para deixar de associar seu nome ao buraco ainda aberto em seu coração, mesmo que a cada dia se tornasse mais fácil.
  — Você é peculiar, — disse ele após enxugar os pensamentos e a vontade de fazer mais perguntas.
   deu um puxão no cobertor, movendo-o até o peito.
  — Isso é bom ou ruim?
  Ele voltou a encarar o teto, no meio de Who Hurt You? em “you make me feel so primal and that's what I am, I'm just a man.”
  — Ainda não sei responder isso.
  Ela tentou sorrir, bem na hora em que Daniel Caesar cantava sobre bocetas e sexo selvagem, e isso talvez tenha acendido uma faísca de realidade necessária no cérebro de .
  — Podemos deixar essa história anônima, certo? — perguntou, agora um pouco nervosa, e talvez receosa por ter falado demais — Digo, sobre o que eu te contei…
  — Relaxa — ele virou os olhos novamente, interrompendo-a — Nada sobre você fica na minha cabeça por muito tempo.

⏩⏩⏩

   se apoiou na árvore, suada e ofegante.
    Era inexplicável o fato de ter conseguido sair com tamanha segurança do estádio, mas a verdade era que tinha apenas corrido. E corrido rápido, como uma profissional que não era. Correu do mesmo jeito de quando flagrou Jake Gyllenhaal em um clube de strip, apesar de ele ser mais lento do que aparentava.
    No meio da baderna, poucas pessoas a notaram passar, e mesmo se tivessem, ela já estaria longe antes que percebessem. Se existisse o mínimo de suspeita ao ver alguém correndo desenfreadamente para o lado de fora, não despertou o alerta nos homens de preto, que continuavam rindo e divagando pela entrada. Talvez fosse normal que os funcionários corressem para resolver alguma pendência ou problema que ocorria lá dentro.
    Porém, ainda não era totalmente seguro para que ela relaxasse. não devia ser a primeira paparazzi que invadia um evento daqueles, e certamente existia uma força-tarefa apenas para aquilo, que não demoraria a ser notificada. A essa hora, aqueles garotos já deviam estar surtando com a produção e seguranças loucos já estavam a postos para correr e pegá-la. Seria injusto da parte dela com Phil se se deixasse ser pega àquela altura do campeonato, quando o colega mesquinho tinha feito um ótimo trabalho para ajudá-la — parecia uma piada de mau gosto, mas era a verdade. Ela precisava sair dali.
    Achou sua bolsa no mesmo lugar e, sendo rápida, apenas passou o casaco preto com capuz por cima da roupa. Não dava tempo de se trocar. De longe, o gramado subitamente se iluminou quando bocas de lanternas conduzidas por uma aglomeração de smokings se aproximavam, e rapidamente correu pelo outro lado, se afastando o quando podia da arena.
    Quase foi atropelada ao tentar chamar um táxi. sabia que precisava manter a calma, mesmo que no fundo estivesse totalmente apavorada, ou desabaria no chão a qualquer minuto. Ela sentia seu sonho indo embora discretamente, além de ter de pagar aquela câmera e voltar para Los Angeles com as mãos vazias. Sua vontade era gritar e espernear, dar pelo menos mais dois chutes naquele cara e chorar logo em seguida. Tinha raiva de si mesma por ter sido pega, por ter acreditado naquele plano idiota, por ter se afobado e não avaliado as opções com um interesse mais clínico.
    Quando finalmente um táxi parou, ela recostou a cabeça no banco e fechou os olhos, fazendo o possível para não chorar de raiva e frustração. Tudo tinha dado errado. Sua mente se transportou para o apartamento que dividia com Candice, as velas, as plantas nos potes, os queimadores de incenso da amiga, o candelabro horroroso e elaborado da varanda, a mesa rústica que dominava a sala, as cortinas rendadas e, por fim, uma fotografia emoldurada de Henry Cavill. Tudo que estava prestes a ser perdido. Arruinado porque , sempre tão organizada, calculista e atenciosa com seus planos, se deixou levar por uma hipótese, uma possibilidade!
    Talvez porque odiasse tanto esse trabalho que não via a hora de largá-lo. De começar uma nova vida. De ter tudo que sempre quis.
    Chegando ao hotel, a garota largou tudo em cima da mesa, sentando-se na mesma, afundando a cabeça no colo, despida de qualquer orgulho e dignidade. Sentia tanta raiva que só queria gritar e, pela primeira vez, entendia o sentimento feroz que fazia as pessoas quebrarem coisas na parede. Mas já haviam coisas quebradas demais naquele quarto e não era só a câmera na bolsa.
    O toque do celular veio de dentro da sacola de papelão. não pretendia atender, não queria falar com ninguém, ainda mais se fosse James ou Phil. Tudo menos encarar James àquela altura do campeonato. Ela não lidaria bem com o fato de Hilary estar nesse exato momento quase em cima do palco, pegando quantas capas pudesse.
    Mas o telefone não parava de tocar, então ela o pegou, com raiva, e respirou aliviada por ser Candice.
    — Alô? ? — os barulhos atrás deixavam sua voz quase inaudível. — Onde você está? Você conseguiu? Voltou ao hotel?
    — Sim — respondeu, tentando ao máximo esconder a voz embargada.
    — Está tudo bem? — sabia que a amiga perceberia — Aconteceu alguma coisa? Tem mais seguranças do que o normal marchando ao redor do tapete vermelho, parecendo furiosos. Não me diga que…
    — Conversamos quando você chegar — a garota desligou o telefone sem se despedir, uma mania dos americanos que detestava, mas já estava acostumada.
    Ela precisava recuperar a compostura antes que Candice chegasse. Iria pensar no que diria a James. Tentaria não estragar tudo, não mais do que tinha estragado hoje.
    Surpreendentemente, não demorou nem duas horas para que Candice chegasse no quarto, com o batom retocado em um tom perigoso de ameixa, que fazia de sua boca um diamante pequeno e franzido sob o nariz levemente pontudo. Sua beleza nos flertes baratos eram uma arma poderosa para arrancar respostas. A loira pegou a amiga deitada na cama em posição fetal, com uma expressão distante.
    — Mas o que houve?! — ela levantou a voz, tirando os sapatos com certo estrondo.
    — Eu não consegui — murmurou, sem olhar pra ela — Eles me pegaram...
    — Eles quem? — Candice se abaixou na cama ao seu lado, lançando-lhe um olhar cortante, sondando as profundezas de suas palavras pela carência de respostas — Levanta primeiro, por favor, você tá me assustando…
    — Acabou tudo, Candy! — Lisa sentou-se depressa, assustando-a — Meu plano ridículo, sem noção e completamente idiota foi aniquilado e agora não tenho nada! Nem a capa e muito menos Londres!
    — Tá legal, você precisa se acalmar e me contar o que exatamente foi esse seu plano! — ela depositou a bolsa na mesinha ao lado da cama e se deixou cair pesadamente ao lado de .
    A história foi despejada em cima de Candice, que variou as expressões entre chocada e curiosa, enquanto contraía e abria as mãos várias vezes.
    — Você chutou um membro do BTS?! — Candice levou a mão à boca, mas parecia prestes a dar uma gargalhada — Eu jamais imaginei que você tinha esse lado agressivo! E ainda trombou com outro idol?! Essa sim deveria ser a matéria de capa!
    — Não começa, Candy… — não conseguia rir daquilo agora; talvez riria depois. Ou daqui há 10 anos — Eu estou acabada, não entendeu?! James vai me demitir e a vaca vai continuar lá, se esgueirando pelos bairros dos famosos e transando com empresários pra continuar recebendo informações, e ela nem sabe a diferença entre contraste e HDR, pelo amor de Deus!
    Candice mordeu o lábio inferior e revirou os olhos, como se estivesse refletindo.
    — Você disse que conseguiu tirar algumas fotos, não é? — concordou com a cabeça — Já tentou ver se o hardware pode ter sido salvo?
    A garota balançou a cabeça que não, e percebeu que, na verdade, não tinha feito nada. Desde que chegou ao quarto, foi uma tentativa sem fim de não chorar e pensar no pior, coisas que nunca fazia, enquanto sentia o ambiente parecer muito menor do que algumas horas atrás, entulhado de seus medos e preocupações. Invadir o VMA realmente mexeu com todos os seus nervos.
   Descarregou a bolsa, fazendo câmera e lente caírem separadamente. A lente estava acabada, então foi descartada para o lado. Não era a parte mais importante mesmo. abriu a entrada do cartão e tentou puxá-lo de lá, mas ele estava preso.
    Ela olhou para Candice com certo desespero. A loira pegou a câmera de sua mão, que ainda estava um pouco trêmula, por culpa de todo o estresse ainda presente e, em menos de dois minutos havia arrancado o cartão com certa força que possivelmente havia saído um pouco baqueado. Se ele não estava estragado, agora havia uma grande chance de estar.
    Depois, ela pegou o notebook com certo tremor. Ajeitou-o no colo e se sentou ao lado de Candy, conectando o cartão.
    Demorou mais do que o normal, mas quase soltou um urro de alívio ao ver as imagens aparecendo pouco a pouco no arquivo. Ela abriu uma a uma, verificando se realmente tinha tudo.
    — Puta que pariu! — Candice gritou, nem um pouco afável, fazendo a amiga colocar o dedo no ouvido enquanto pegava o notebook de seu colo — Você flagrou o Jungkook?!
    — O que?
    — Quer dizer que o Jungkook tem uma namorada?! — A loira levantou da cama, ainda com o laptop na mão.
    — Eu não…
    — Espera, foi ELE que quebrou sua câmera? — abriu a boca pra falar, mas não foi rápido o suficiente — Oh meu Deus, você CHUTOU as bolas de Jeon Jungkook??! Holy mother of God, isso aqui é melhor do que a premiação inteira!
    Ela dava pulinhos de excitação, e continuava sem entender nada.
    — Jung… quem?
    Candice virou-se depressa, arregalando os olhos.
    — Você tá brincando, não é? — negou com a cabeça e a amiga se deixou cair ao seu lado de novo — Caramba, você não faz mesmo o dever de casa, !
    Ela abriu um vídeo no YouTube, de uma performance ao vivo do Lotte Family Concert.
    — É esse — apontou para o que pôde reconhecer do garoto das fotos em meio a tanto movimento — Mas ele está um pouco diferente.
    — Eu vi, 300% mais gostoso — Candice deu um gritinho. — Não acredito que você conheceu o BTS primeiro do que eu!
    — Como se eu quisesse — revirou os olhos. Olhá-lo através de uma tela ainda era capaz de lhe causar repulsa e raiva. Ela ainda podia sentir aqueles dedos em seu braço. — Ei, esse é o outro… — apontou para outro ponto dançante veloz.
    Candice abriu a boca em surpresa.
    — Você chuta o JK, descobre que ele tem uma suposta namorada e ainda tromba com o V? Deus realmente tem seus favoritos…
    — Espera, não trombei com ele, foi com outro que nem ‘tá nesse vídeo. E que raio de nome é V?
    — O nome dele é Taehyung. Esse é o Jin, o RM, o Suga, o J-Hope e o Jimin — ela apontou para um de cada vez, apesar de irem e virem de cada lado do palco.
    , como sempre, deu de ombros, um pouco distante. Parte disso também foi por não ter visto o indivíduo do final.
    — Não sabia que gostava deles.
    — Todo mundo gosta deles, ! Eles estão em alta em todos os tópicos ultimamente, e… — ela se virou de frente para a amiga. — É por isso que seu emprego está garantido, porque isso com certeza vai ser capa! Por mais que eu não entenda uma única palavra, algum obcecado vai traduzir isso aqui bem rápida e então descobriremos que um dos caras mais cobiçados do momento está em um relacionamento! E por mais que ele negue até a morte, ainda vai gerar muito conteúdo até tudo passar. James vai dormir como um bebê depois dessa.
    Ela estava certa. deveria estar se sentindo aliviada. Seu emprego acabou de ser salvo, Londres voltou a ficar mais perto e, mesmo se Hilary flagrasse a Lady Gaga em um novo vestido de carne, sua matéria ainda conseguiria se sobressair.
    Então por que ela estava se sentindo tão incomodada?
    — Você não acha que eu posso conseguir algo melhor na after party? — falou em um tom cauteloso.
    — O que? — Candice riu — Essa matéria será a after party da nação! Seu trabalho deu certo, honey, então qual é o problema?
    Ela preferiu não dizer que, na verdade, estava sentindo uma leve pena do cara. Antes de ser flagrada, Jungkook parecia estar realmente sofrendo por causa da garota, e ela claramente iria se aproveitar disso. Não parecia certo, mesmo que ele fosse um boçal que a faria pagar uma fortuna por uma câmera nova.
    Se dissesse isso, talvez Candice não iria entender. Ela nunca entendeu o desconforto de em invadir a vida privada dos outros, sendo que aquele era exatamente o seu trabalho.
    — Nada… Não tem problema — Por fim, ela balançou a cabeça, afastando o assunto — Como foi a premiação?
    — Maravilhosa! Inclusive os meninos levaram vários prêmios. Vou te mostrar a performance…
    Ela foi ao YouTube de novo, mas não estava mais vendo. Ela tentava ignorar o sentimento de culpa e pensou — de novo — em Londres. Aquela matéria daria o que falar, mas Jungkook iria superar isso. Talvez nem terminasse qualquer namoro que estivesse tendo e finalmente se assumissem. Talvez aquilo nem fosse um namoro, por mais que tudo apontasse para essa conclusão. A garota bonita poderia receber algum hate por um tempo, como sempre acontecia, mas eles iriam superar. nem os conhecia e já desejava que ficassem bem, apesar do quão venenosa poderia ser a mídia.
    E isso a incluía. Porque se algo desse errado, ela seria a culpada.

❬📸💔❭

  O despertador soou naquela manhã em um toque diabolicamente positivo.
   foi a primeira a abrir os olhos. O barulho infernal vinha de debaixo de suas pernas, ou talvez de suas costas, não dava para ter certeza naquela imensidão de cobertores. Escorregou as mãos para procurá-lo, sonolenta, ainda com a visão embaçada, quando notou o peso em sua cintura e a outra respiração bem perto da sua.
  Jungkook dormia serenamente, com o braço apoiado em volta dela sem nenhuma inibição. Estava exatamente na mesma posição em que conversavam no dia anterior: de lado, frente um ao outro, mais perto do que se lembrava.
  Ela se afastou automaticamente, como se a mão dele pegasse fogo. O movimento foi tão brusco que o fez fazer uma careta de incômodo, somado ao barulho ainda insistente do despertador, que ainda buscava ao afastar as cobertas.
  — ? — Jungkook grunhiu, sentando-se devagar. Ela fez o mesmo, calando o barulho alto ao puxar o celular quase em seus pés, agora sentindo-se inteiramente desperta. — Que horas…
  Ele parou de falar, olhando em volta, ainda ouvindo um resquício de música ambiente com as luzes de planetas movimentando-se ao redor do Sol, tendo a mesma constatação que ela. Uma constatação pavorosa. Os dois tinham adormecido na mesma cama. De roupas.
    Mas que porra aconteceu com seu juízo, Jeon Jungkook?
  — Droga…
  — Sim! Uma droga! — ela resmungou, jogando as cobertas para os lados, levantando-se agitada — São 7:30, eu preciso ir…
  — Tudo bem, eu vou te levar.
  — Não! — respondeu rapidamente, virando-se em sua direção antes que saísse pela porta — Não precisa me levar. Já não basta tudo aquilo ontem à noite, e você ter se esquecido que tem um quarto muito maior e confortável no final do corredor? Posso pedir um Uber, não se preocupa — observou ela, na defensiva.
  Jungkook franziu os lábios, revirando os olhos. Seu cérebro ainda estava despertando, e seria bom se se lembrasse do momento exato em que dormiu para ter algum argumento, mas nada vinha. Apenas o rosto de nas luzes da via-láctea e depois o escuro da exaustão.
  — , foi um acidente. Um azar. Só isso. — balbuciou, se levantando. riu com incredulidade com aquela calmaria, cruzando os braços em frente ao peito, ainda movendo os pés em ansiedade.
  — Eu sei que foi. Eu só não… Não sei. Não era parte do acordo.
  Ela olhou para o chão, perdida, odiando as bochechas queimando de constrangimento. Jungkook fez um ruído vagamente inarticulado de assentimento, e revirou os olhos com certo tédio, se negando a se concentrar no assunto naquele momento.
  — Ei, olha aqui — ele pegou levemente na curva de seu cotovelo, virando-a para ele — Achei que nunca fosse ser cúmplice do seu discurso negacionista, mas podemos fingir que nada disso aconteceu. Beleza? Foi uma falha, um imprevisto, assim como toda aquela chuva de ontem, então tenta conviver com isso. Não foi nada demais. Ainda estamos vestidos, ‘tá vendo? E sem qualquer informação a mais do que isso.
   cerrou os olhos, encarando-o com descrença, como se gritasse: “É o quê?!”
  — Isso é o que deixa tudo mais esquisito, Jungkook! — trincou os dentes, bufando. Ela sentia raiva, frustração e tantas outras coisas que se misturavam em conclusão de um ceticismo exagerado de que aquilo foi um erro, o maior de todos, uma regra quebrada na vida de alguém que não era acostumada a quebrar muitas regras, e não entendia como ele não estava sentindo o mesmo.
  E a imagem do rosto dele tão perto do seu enquanto a abraçava inconscientemente a deixava ainda mais indignada.
  Ele coçou a cabeça e se aproximou um pouco, passando a língua pelo lábio inferior enquanto pensava.
  — Isso não vai acontecer de novo, . Nunca — disse sério, perto demais outra vez, com a intenção de se fazer entender — Agora dá pra parar de surtar e me deixar te levar pra casa que também preciso pegar um avião?
  A frase foi afiada e sem espaço para discussão. crispou os lábios, mas assentiu, desfazendo os vincos da testa e suavizando a expressão, como quem pedia desculpas à contragosto.
  — Vou pegar minhas coisas.
  E saiu rapidamente. Jungkook bufou, coçando os olhos. Agora sozinho, pensou em mil coisas e mil soluções que pudessem ter facilmente evitado aquilo. Xingou a si mesmo várias vezes, inquieto com a palavra acidente. Sempre foi cético em relação à essa palavra, porque a maldita ideia de sair do quarto e ir verificar se ela estava bem tinha sido totalmente consciente e intencional.
  Por fim, saiu para o corredor, andando até o quarto a passos pesados, não pensando na menor possibilidade de lhe oferecer o café-da-manhã, tendo plena certeza de que ela tampouco queria isso. Tudo que precisava era se livrar de imediatamente, antes que ela conturbasse ainda mais sua cabeça.

❬📸💔❭

  Jungkook escorregou os dedos pelo freio de mão, sem se desfazer do cinto de segurança. O motor continuou ligado, e o edifício de tijolos no norte de Seongdong-gu já estava devidamente à vista. esperava que uma Hyundai Palisade não chamasse tanta atenção naquela região, mesmo que fosse um carro impossível de se ignorar. Pensando nisso, ela rapidamente se desfez do cinto e segurou a caixa da Panasonic com mais força, mas antes de sair, soltou um suspiro pesado e se virou para o motorista.
  — Olha, me desculpa por ter falado daquele jeito — disse ela, passando os dedos pela alça da bolsa. Tinha ela desde que conseguia se lembrar, e estavam gastas pelo manuseio, o que era mais um motivo para não ser relacionada a absolutamente nada que envolvesse aquele carro — Sei que você foi lá no meio da noite porque queria ser legal e me ajudar, e meu susto por te ver ali de manhã não me deixou lembrar disso ou agradecer, então…
  — Para com isso — Jungkook interrompeu, estalando a língua em cansaço, mordendo o canto da bochecha, sentindo como se o compartimento do carro tivesse ficado mil vezes menor e mil vezes mais sufocante. Lembrar dos acontecimentos o deixava instantaneamente aborrecido, mesmo que fosse passageiro. Ele só queria que aquele assunto nunca mais fosse mencionado — Não aconteceu nada. Podemos decidir assim. A gente transa, . Nada vai mudar porque dormimos juntos como dois adolescentes. Não pensa demais nisso — era como se dissesse a si mesmo: não pense demais nisso, ficou maluco? E então, com um suspiro pesado, ele a encarou com o ar irônico e tedioso que era sua marca registrada, subindo o canto dos lábios em um sorriso miserável — Gosto de foder com você, , mas se ficar agitada desse jeito por causa dessas coisas, vou achar que ‘tá transformando em algo muito maior do que é.
   parou por alguns instantes, abrindo e fechando a boca com espanto, atordoada com a presunção e arrogância descaradas daquele cara.
  — Pois agora você que está pensando demais! — ralhou, abrindo a porta do carro de uma forma odiosamente atrapalhada, odiando as vozes internas que gritavam “Jesus, como sou ridícula por considerar que Jeon Jungkook se importa com alguma coisa quando nem se importa com suas próprias regras.” — Tenha uma boa viagem, Jeon.
  Ela forçou um sorriso e saiu de encontro à entrada do edifício, sem parar para observar o aceno debochado e o sorriso impressionante que vinha por debaixo daqueles óculos escuros. Um rosto feliz através do para-brisa. Feliz por tê-la irritado, como de praxe.
  Que ridículo pensar uma coisa dessas, dedilhou em sua cabeça enquanto abria a porta da frente. Sou perfeitamente capaz de foder sem me envolver. Aquele era Jeon Jungkook, o cara que tinha transformado minha vida em uma baderna, direta ou indiretamente.
    Isso não tinha a menor chance de acontecer.

[ 5 ] – You can't kid us and you couldn't trick anyone

Este capítulo está em processo de revisão.

"Você está perdida, só porque
Não foi tudo aquilo que você pensou que seria
Você é a fugitiva, mas você não sabe do que está fugindo."
— Old Yellow Bricks

  Tóquio em seus 32º beirava a uma insanidade.
  O ar-condicionado do camarim melhorava as coisas em 80%, mas Jungkook não sentia muita diferença. Pelo espelho, ele via as três garotas finalizando cabelo e maquiagem como se suas vidas dependessem disso. Ninguém iria culpá-las caso o calor levasse a maior vantagem e destruísse toda a produção. No fim de julho, o verão japonês passava da marca do agradável e não havia nada a ser feito sobre isso.
  Quando terminaram, Jungkook sorriu em agradecimento e esperou que se afastassem o bastante para que ele mesmo posicionasse o microfone de retorno in-ear nos ouvidos. Não era o caso para se sentir a pior pessoa do mundo por não deixarem tocar muito naquela região, mas hoje, especificamente hoje, não era um bom dia para ouvir conversas tão perto do seu tímpano.
  No momento em que terminou, analisou o figurino e os brincos e se colocou de pé, ouvindo Namjoon filosofar com as garotas que cuidavam de sua maquiagem sobre seus livros favoritos ao lado, alegando algo que parecia: Li num livro uma vez: “Os pobres são tristes porque são pobres — as garotas pararam por um momento em apreensão, e então ele continuou — e, no fim das contas, os ricos são tristes porque são ricos.” Dá pra refletir, não é?
  Taehyung tinha respondido a isso uma vez: Ei, eu sou rico e isso não me incomoda.
  Enquanto ajeitava o aparelho preso na cintura, Jimin se aproximou com a boca cheia de takoyaki e encostando o quadril na penteadeira.
  — Quer um pouco? — ele estendeu o recipiente quadrado de plástico. Jungkook apenas balançou a cabeça em negação — Tem certeza? Você não comeu nada desde ontem, pelo menos nada decente, e não comer nada com ressaca é pior ainda. E eles não fazem coisas desse tipo na Coreia, pelo menos não tão boas.
  — Eu não ‘tô com fome, relaxa — Com um tom incisivo, ele acrescentou: — E não conta isso pro Nam.
  Jimin deu de ombros.
  — Está bem, então. Mas tem certeza que não ‘tá evitando comer por causa dessa coisa aí na sua boca? — Ele rodopiou os dedos para o piercing metálico e novo no lábio esquerdo do amigo — Isso não ‘tá doendo?
  — Minha cabeça está doendo bem mais. — Jungkook murmurou, sentando-se de novo e recostando a cabeça para trás.
  — Claro, o que você queria? Mal chegamos ontem e já recebeu um convite daquela Sunny sei lá das quantas para irem beber e farrear, e ainda por cima, apareceu de manhã com um piercing novo feito em qualquer lugar duvidoso. E ainda não me chamou, o que te faz um amigo pior ainda.
  — Não ia ser só com a Sunny, para de falar besteira — Jungkook estreitou os olhos.
  — O que vocês estão falando da Sunny? — A voz de Hobi veio logo atrás.
  — Você também conhece a Sunny? — perguntou Jimin.
  — É a amiga do JK que encontra umas festas boas pra gente quando estamos aqui desde… Não sei, sempre? — Hobi levantou os ombros, e Jimin o olhou ainda mais confuso — Não lembra quando a gente teve que buscar ele naquela boate em Hokkaido há três anos? Tava fedendo a vodka e cigarro, o Namjoon ficou uma fera…
  — Não foi em Hokkaido — Jungkook interrompeu, na defensiva. Hoseok ergueu uma sobrancelha, desafiando-o a fazer isso. O garoto apenas estalou a língua e desviou os olhos — E isso tem muito tempo. E é a primeira vez que eu vejo Sunny desde aquela época.
  — Na verdade, você a viu no ano passado também. A diferença era que a Ali estava junto — Jimin sussurrou a última parte, olhando para os lados para não ser pego. Jungkook afiou o olhar em sua direção — De qualquer maneira, você só tem a cara de bonzinho. Seu namoro fez você voltar a ser um adolescente e criou uma nova vida para você, mas o bom filho à casa torna. E a sua é a cachorrada.
  Hoseok soltou uma gargalhada alta, enquanto Jungkook soltava uma risada perplexa, mas achou engraçado de qualquer jeito. Jimin esticou o braço para pegar um lenço em cima do tampo e limpar os dedos cheios de gordura.
  — Mas isso não é bem verdade. Ele continuou com alguns hábitos, a gente sempre pegava ele fumando na cobertura do dormitório porque ele escondia o maço embaixo daquele vaso de plantas…
  Jungkook calou Hoseok com um tapa no abdômen. Com os dentes trincados, ele girou os olhos para trás, mostrando o quanto Namjoon estava perto e sabia menos das aventuras do maknae do que pensava. O olhar dele para o mais velho era claro: “Se você continuar falando, eu vou ter que procurar outro emprego.”
  — Pelo menos ele não escondia embaixo do bonsai do hyung. — Sussurrou Jimin, e foi inevitável que as risadas não explodissem de novo, desta vez mais altas, que fez com que Jimin balançasse as mãos para Namjoon, deixando claro que não era nada.
  — Falando em esconder, a Yuju estava te procurando anteontem. Ela deu um jeito de aparecer na empresa antes que a chuva começasse, disse que foi resolver alguma coisa sobre a rescisão de contrato. Provavelmente, queria uma foda de despedida — Jimin riu, chutando levemente os calcanhares de Jungkook.
  — A Yuju? Nossa, ela não larga o osso mesmo — Hoseok balançou a cabeça, puxando o celular do bolso de trás — Soube que ela vai entrar em carreira solo agora. ‘Tá mais gata do que antes.
  — É, parece que esquecer o Jungkook não acontece do dia para a noite — Jimin deu uma cotovelada provocativa em Hobi,
  — Fala sério — Jungkook estalou a língua, revirando os olhos. Não demoraria mesmo muito tempo até que Yuju o procurasse de novo, depois de todas as frases emocionadas que havia dito da última vez que ficaram juntos — Não sei se ela queria ou não, mas felizmente eu já estava fazendo isso.
  Ele se referiu à visita inesperada de com um sorriso vitorioso, mas que logo tomou um traço diferente quando se lembrou de que aquela noite não se tratou apenas de sexo. Os dois amigos não pareceram notar a mudança sutil de expressão.
  — Não ‘tô nada surpreso com isso — disse Jimin, com um suspiro. — Bom, pelo menos ela não decidiu ir bater na sua porta, nem nada disso.
  — E por que não? Seria só mais uma tarefa pra ele — Hoseok deu de ombros, pegando o último pedaço de takoyaki. — Aposto que Yuju se convidaria pra foda dele. Três significa estabilidade na química periódica.
  — Eu não ia querer isso. — Jungkook voltou a ficar de pé, sentindo que todas aquelas luzes brancas e circulares batendo diretamente em seu rosto fariam sua dor de cabeça triplicar.
  O par de olhos dos amigos se viraram em descrença. Jungkook franziu o cenho, confuso com a reação.
  — O que foi?
  — Você disse que recusaria um ménage? — Jimin questionou, esquecendo-se por um momento de abaixar o tom de voz. Jungkook lançou um olhar de alerta, torcendo para que os staffs nos arredores do camarim não entendessem coreano.
  — Com a Yuju?
  — O que vocês pensam que eu sou? — Jungkook ergueu uma sobrancelha.
  — Já ouvi cada coisa que até Deus duvida… — Hoseok deu de ombros. Jimin riu nasalado.
  — Posso cobrir uma lista inteira de motivos até você encontrar sua resposta.
  — Ouviu? Como assim… Ah. — O revirar de olhos foi direcionado à Jimin, porque era difícil se esquecer de quando invadiu sua casa e deixou bem claro seu amplo conhecimento sobre a vida sexual dele e quem era sua maior fonte — Quer saber, não importa. Eu só não ia aceitar naquele dia. Ela ia corromper a minha foda, só isso.
  Houve um momento de silêncio enquanto Jimin continuava a esfregar os dedos. Jungkook não olhou mais para eles, mas sabia que estava sendo observado com os mesmos olhares inquietos. Aquela era uma conversa que eles já haviam tido antes, mas que era recheada de zombaria e risadas vindas dos dois lados. Jungkook realmente era um cara a quem não deveria se colocar a mão no fogo quando o assunto era galinhagem, mesmo que não demonstrasse muito, mas para quem se gabava para si mesmo que sua cama sempre tinha espaço para mais uma, aquela resposta fugia do padrão.
  Não admitir que, na verdade, queria que as reações de fossem para ele tornava seu comportamento ainda mais inseguro. Querendo ou não, ainda era sobre . A ideia de tê-la por perto por vários dias sem que eles fossem preenchidos por discussões e acusações não podia causar uma mudança significativa na forma como ele falava de outras mulheres, ia dar muito na telha. Ela não era única e jamais seria.
  — Com quem você estava, então? — Jimin perguntou depois de um tempo. Jungkook não virou a cabeça, apenas franziu o canto dos lábios em uma expressão desinteressada.
  — Ninguém relevante. — Não era uma mentira. Transar com não a tirava desse posto, que foi dado a ela desde que a viu pela primeira vez. Isso estava correto, com a palavra dita tantas e tantas vezes que não era mais necessário que dissesse de novo.
  — Se levou ela pro seu quarto, eu já vou duvidar disso.
  Jungkook riu em deboche. Ele poderia responder alguma coisa, mas um rapaz alto e magro se aproximou do grupo devagar, gesticulando com as mãos para a porta mais próxima em aviso para o começo do talk-show. Jimin entendeu a palavra três minutos e agradeceu, vendo o funcionário se afastar.
  Ele olhou uma última vez para os amigos e começou a seguir para fora, sem mais um pingo de vontade de continuar a conversa. Responder perguntas sobre carreira e futuro em rede nacional era melhor do que as perguntas que estava recebendo dos outros dois. Pelo amor de Deus, quando percebi a gente já ‘tava sem roupa, estar no meu quarto ou não era insignificante na hora, pensou, mordiscando o canto da bochecha, abordando para si mesmo o quanto era ridículo questionar a importância de só porque tinha sido a primeira garota a ficar pelada na sua cama nova.
  De qualquer forma, isso nunca aconteceria de novo.
  — Acho que seria legal ter metade da disposição e do sucesso que o JK tem pra essas coisas, sabe? — Hoseok comentou em voz baixa enquanto acompanhava Jimin para a mesma direção que o mais novo — Mas sou um cara que quer um relacionamento sério, então não ia conseguir alcançar esse patamar.
  Jimin pousou uma das mãos no ombro de Hobi, soltando um suspiro pesado.
  — Experimente ter o coração partido como fizeram com ele.

❬📸💔❭

  “Boa noite, como você está?”
  Jaehyun encarou a mensagem, parada há dois dias, e soltou um suspiro forte antes de digitar: “Bem. Só bastante ocupado.”
  Mentiroso.
  Quando avistou a cafeteria de luzes baixas na esquina da Magnificent Mile, ele pediu para que o taxista o deixasse a uma quadra antes. Suas roupas eram civis o bastante para se misturar, com o grande moletom cinza e o boné preto que escondia metade do rosto, mas andar por aí com roupas tão pesadas em pleno verão de Chicago não estava sendo o disfarce mais inteligente.
  O lugar era apertado e cheirava mais à tortillas do que café propriamente dito. Ele revirou os olhos com discrição ao notar que o ambiente era rodeado de vidro, mesmo que tenha explicado diversas vezes para Johnny que o encontro precisava ser em um lugar mais vazio e reservado possível, por razões óbvias. Aparentemente, ele conhecia menos a cidade do que aparentava.
  Por fim, Jaehyun sentou-se numa mesa nos fundos, ainda com a inevitável  janela de vidro em seus ombros, mas com a provável sorte de que o jardim de pinheiros ao lado não recebesse um trânsito de pessoas. Quando fez o pedido de um café expresso — algo pequeno, que acabaria rápido, assim como aquela conversa —, o sino acima da porta soou com a chegada de um novo cliente. Jaehyun virou a cabeça, mas logo voltou a desviá-la de novo. Não parecia com alguém que ele estivesse esperando, mas, mesmo assim, a garota caminhou serenamente até sua mesa, sentando-se no banco acolchoado à sua frente.
  O capuz escondia uma parte das bochechas, mas, quando o abaixou, viu uma Ali agora com cabelos avermelhados, sem os piercings nas orelhas e um boné quase igual ao seu. Os óculos escuros também finalizavam o visual, escondendo seus olhos esverdeados.
  — Pintar o cabelo te pareceu a melhor solução? — perguntou ele, olhando de esguelha para fora.
  — Vocês, idols, fazem isso o tempo todo e ninguém questiona se é melhor ou pior pra nada — ela esticou as mãos sobre a mesa, puxando a xícara de expresso sem encará-lo. Jaehyun ergueu uma sobrancelha, sem um pingo de surpresa. Afiada e desagrável como sempre.
  Com um movimento simples de mão, ele acenou para o garçom mais próximo, que entendeu o recado e se voltou para o balcão.
  — Você precisava ter marcado em um lugar desses? — Ali perguntou em voz baixa, mas furiosa, repousando um dos cotovelos em cima da mesa.
  — Você não poderia estar achando que eu ia sugerir o café do hotel ou coisa parecida — Jaehyun fez o possível para manter a voz calma, mas um traço de irritação se esgueirou nela.
  — Eca, não. — Ali fez uma careta — Mas um lugar menos público seria melhor.
  — Johnny é daqui e garantiu que esse lugar é confiável, ninguém vai aparecer. E com essa sua nova montagem, levaria um tempo considerável até te reconhecerem. Agora se nada disso for suficiente…
  — Eu não ia cair fora, Jaehyun — ela ergueu uma das sobrancelhas, em um tom óbvio. — Ainda tenho um pouco de orgulho. Não vou mais deixar que aqueles malditos paparazzis controlem a minha vida.
  Jaehyun passou a língua no lábio inferior, oferecendo um sorriso simpático ao garçom que depositou a mesma xícara de antes, talvez com uma dose dupla de expresso desta vez. Sua expressão devia estar entregando publicamente exatamente o que sentia: que um tempo com Ali Dalphin acabaria matando-o de estresse mais cedo ou mais tarde.
  — Vamos logo, Ali. Diz o que você quer.
  — Comprei uma passagem para Los Angeles para amanhã de manhã — informou. O rapaz continuou na mesma posição, esperando o resto — Não entendeu ainda? Descobri onde fica a revista que publicou a primeira breaking news que envolveu aquela foto minha e do Jungkook. O lugar se chama LA Parker e vou bater na porta daqueles desgraçados e dizer tudo o que precisam ouvir.
  Jaehyun soltou uma risada desacreditada. Ali franziu os lábios com insatisfação.
  — Você não pode estar falando sério.
  — Eu pareço estar brincando?
  — Você vê programas policiais demais, Ali — o rapaz acrescentou, com um movimento negativo com a cabeça. — Acho que é melhor passar a ver o jornal da noite ou qualquer coisa mais real. Qual vai ser o benefício de gastar saliva com essa gente a essa altura do campeonato?
  — Você não precisa me dizer pelo que eu devo lutar ou não — disparou ela, com o olhar cortante, decidido. — Desde que aquelas fotos saíram, tudo virou uma bagunça, Jaehyun. Eu perdi trabalhos, privacidade, ganhei uma popularidade venenosa e perdi o mais importante — o último item foi dito em tom mais baixo, com seus olhos indo em direção aos dedos sobre o tampo da mesa, que entrelaçavam entre si como um ato de nervosismo. Mostrava como ela era incapaz de dizer o nome dele duas vezes.
  Jaehyun riu outra vez, agora mais ácido e mais pasmo ainda do que antes.
  — Você está falando sério? Corta essa, Ali. Você sabe como foi na época. Ele ficou mais louco do que todo mundo, sofreu tanta pressão quanto você do público, da mídia e ainda mais da empresa. Sabe como quase o obrigaram a terminar tudo, não sabe? — ele argumentou, sem grande cuidado com as palavras. O assunto estava saturado. A falsa expressão inocente dela também. — O Bang queria inventar uma história louca de que você era casada, que não estava falando do Jungkook nas mensagens, mesmo que fosse óbvio, mas aquele cara não batia bem da cabeça. O JK negou tudo isso, ele lutou por vocês, enquanto você…
  — Eu estava apavorada! — Ali dobrou o resto de sua fisionomia melancólica e a jogou pelos ares. Agora suas sobrancelhas franzidas beiravam a uma clara indignação. Havia um amontoado de coisas a se dizer sobre aquele tópico que ficaram guardadas por muito tempo em sua garganta — Acha que é fácil ficar parada enquanto dizem coisas horríveis sobre você? Apenas pelo fato de namorar um cara mais novo, ou de outro país, ou com fama e dinheiro muito superiores que dão brecha para ser chamada de interesseira e tantas outras barbaridades que me davam nojo. Era como se me reduzissem a um relacionamento, como se todo o trabalho que fiz desde a adolescência se resumisse a uma foto de calendário de topless. Fora tantas outras fotos e material da nossa relação sendo vazado de um jeito totalmente invasivo. Me senti observada, agredida. Foi demais para mim. Aquela primeira foto foi só a primeira faísca de um incêndio. Eu amo o Jungkook, mas decidi que minha saúde mental era mais valiosa do que ele e precisei ficar um pouco longe até a poeira abaixar.
  Jaehyun bebeu um gole devagar do café, olhando para a garota com o semblante menos entediado. Os argumentos dela não eram novos, mas ouvir a verdade era mais convincente do que supor.
  — Eu acredito em você, Ali. Sei que não foi fácil pra ninguém, mas você se esqueceu de falar pra ele que seu tempo fora significava o fim — a palavra foi acentuada por Jaehyun, que usou o mesmo tom explícito que ela usava — Você foi dando esperanças de que tudo se resolveria, que só precisava de um tempo para pensar, mas ele ficou esperando. E sofreu muito quando suas fotos com aquele cara saíram, porque aí sim você conseguiu matá-lo. Com a espera, com o silêncio e com a traição.
  O aspecto de Jaehyun demonstrava todas as crenças que perpetuavam sua vida desde sempre. Ele não a encarava de forma fria ou dura, mas claramente fazia uma pergunta implícita com aqueles olhos: “Eu não entendo. Você sempre disse que o amava. Eu NÃO entendo.”
  Mas Ali sabia quão ingênua era a visão que o rapaz tinha sobre o amor em geral, então apenas assentiu e disse:
  — Eu sei. Eu vi as notícias.
  — Então por que tá querendo mexer nesse assunto de novo? — disse, cansado.
  — Porque estou com raiva, Jaehyun. Já estava com raiva no começo, mas estava com mais medo, mais frustrada, muitas coisas estavam na frente da raiva. Mas, pensando agora, eles usaram um momento feliz e importante da minha vida como uma arma. Eu que sempre fiz o possível para ser discreta, meu deus… — Jaehyun achou melhor ficar em silêncio. Se ela estivesse triste, ele se esforçaria para colocar a mão em sua cabeça ou qualquer atitude de consolo brega que se via em dramas, mas Ali não estava triste. E parecia não estar há algum tempo. — Já pensei em voltar pra Coréia, em voltar pra minha vida, e ver o Jungkook depois de tanto tempo me deixaria maluca de alegria, mas não consigo pisar lá antes de resolver isso, de enfrentar aqueles canalhas ou de colocá-los em seu devido lugar.
  Jaehyun inclinou a cabeça para a janela para espiar a estrada e o jardim de terra. A rua estreita naquela tarde de Chicago era silenciosa e pacífica, o que não combinava com o embrulho que ele sentia no estômago. Ele não precisava dizer a Ali o que estava observando, ou o que estava sentindo — também não podia. Porque o nome de não podia ser dito naquela conversa, em hipótese alguma, de nenhum dos lados da mesa.
  — Ali, vamos lá, se acalma. Eles são paparazzi no meio de Los Angeles, esse é o trabalho deles, entende? O que seria das prisões americanas se cada celebridade denunciasse uma foto sua sem autorização na capa dos sites e revistas? Não houve ameaças, ou agressões graves, ou nada mais pesado para que você possa usar como contra-ataque. Foi só uma foto, e a internet fez o resto. Você precisa desencanar.
  — Por favor. Vai me dizer que ele desencanou? — alfinetou ela, retórica. Jaehyun desviou os olhos — Duvido.
  Os dois acreditavam nisso.
  — Acredito que ele está tentando — afirmou o amigo, confiante. — Não acha que ele ficou tentado a armar todo esse circo que você ‘tá querendo fazer? Mas não daria certo, não valeria a pena, Ali. Vocês precisavam lidar com as coisas entre vocês. E ainda precisa ser assim. — Um suspiro trouxe seu tronco um pouco mais para a frente, onde fitou a nova garota de cabelos vermelhos e sem o habitual piercing nas sobrancelhas — Isso tudo é por causa dele, não é? — Ali abriu a boca para responder, mas Jaehyun estalou a língua e continuou: — Você não vai admitir, mas quer ele de volta.
  Uma ruga se formou entre as sobrancelhas de Ali quando ela desviou o olhar. Não para as plantas fabricadas e artificiais do jardim do estabelecimento em primeiro plano, mas para além delas, para a rua plana e sem fim, desembocando no trânsito corrido de verão, onde tinham plantas e árvores de verdade, com seus tufos de folhas envelhecidas e amareladas pelo calor. Tantas coisas eram capazes de sobreviver sem estar realmente vivas, mesmo depois de expostas a um fogo intenso, como as mesmas chamas que a separaram de Jungkook. E então, ela disse:
  — Não vou criar muitas expectativas, sei que ele provavelmente me odeia agora — declarou em um sussurro. — Eu nunca seria eu mesma se aguentasse mais do que já estava. Comecei a desconfiar de tudo e todos, até mesmo de mim, por coisas tão idiotas como estar deixando que ele pagasse a conta do restaurante ou cogitando a ideia de aceitar que morássemos juntos. Eram verdades absolutas que estavam sendo questionadas: eu era dele e ele era meu, então por que isso não parecia mais tão certo assim? — Ali admitiu com um meio sorriso triste, pesado. Era como se atestasse a presença de Jaehyun bem depois, quando virou-se de novo para ele e colocou as mãos nos bolsos largos e folgados — Sei que não sou mais dele agora, mas não quero voltar de mãos vazias. Quero descobrir quem tirou essas fotos, quem participou disso. Talvez uma garantia de que ela nunca mais consiga um emprego decente ou provas válidas da agressão ao Jungkook quando fugiu de lá possam fazer com que aquela merda de empresa se retrate e tome jeito.
  — Ali…
  — Não. Não me venha com os seus pretextos, eu sei que você sabe quem foi — ralhou a garota em defesa. Jaehyun mordeu o lábio inferior, sentindo-se em conflito — Ainda é muito duro de aceitar que vocês insistem em me esconder a cara e o nome da pessoa que praticamente arruinou meu relacionamento, minha amizade com os meninos e todos os meus planos a curto prazo. Você estava lá no dia, viu tudo que aconteceu, então como…
  — Eu já disse que eu não vi tudo. Eu cheguei no final, a garota já tinha se mandado — mentiu, esperando que o assunto se dissipasse. Em certos dias, ele se esquecia completamente dessa história, porque agora conhecia aquela garota perdida e assustada que tinha esbarrado com ele e saído correndo por aquele corredor estreito. E nada era o que parecia, nada foi o que foi, mas muitas pessoas ainda não entendiam isso. Também não queriam entender.
  — Você fica ridículo quando mente, Jeong Jaehyun — cuspiu Ali, novamente irritada. — Não entendo isso, mas francamente, não preciso de você pra ser minha fonte. Eu vou descobrir por conta própria. Nada é imune à influência do dinheiro, ainda mais os donos dessa carnificina do entretenimento.
  Ele quis concordar. Na verdade, já estava concordando com seu silêncio. Era fácil se esquecer que Ali Dalphin não era apenas conhecida como a figurinha carimbada do falecido desfile da Victoria Secret’s, mas, também, complementava uma das famílias executivas mais bem estruturadas e ricas da França, com nomes estampados em revistas de Enoturismo e em campanhas de Dom Pérignon. Era o poder suficiente para colocar uma simples revista de Los Angeles abaixo, com algum esforço inteligente. E, se fosse em qualquer outra época, Jaehyun não se importaria de deixar que uma mulher histérica fizesse o que bem entendesse com seu dinheiro.
  Mas estava no meio daquele fogo cruzado. E, se tudo que lhe contou fosse verdade, James não hesitaria nem por um segundo em entregar seu nome e então destruir toda a sanidade de Ali, ainda mais por saber que essa pessoa sempre esteve perto, de alguma maneira. Qualquer coisa que ele ousasse dizer que entregasse a garota o magoaria mais do que ele poderia admitir.
  — Você não vai achar nada lá. — Alertou, com precisão. Ali ergueu a testa em escárnio e perguntou:
  — É isso que você pensa? Como pode ter tanta certeza disso?
  Jaehyun ficou apreensivo. Duvidar de Ali nunca foi uma opção inteligente. Você nunca sabe quando ela poderia simplesmente usar o nome da família — para coisas boas e ruins — e dizer que estava seguindo sua intuição. Ali não sabia nada sobre dinheiro, apesar de ter um monte, mas sabia sobre pessoas, e principalmente o que elas queriam.
  — Tenho certeza que você deveria deixar esse assunto pra lá. — Agora o tom dele era mais urgente, mais claro. As paredes do dilema o encurralavam — Você não sabe como isso poderia fazer as pessoas olharem para você. Elas não se importam se você foi exposta ou o quanto se sentiu mal com isso. Você devia estar analisando propostas, fazendo suas fotos, passando um tempo com a família, voltando para o mestrado, qualquer coisa positiva que reerguesse a boa e velha Ali Dalphin pra mídia. Se quiser, posso conversar com o Jungkook de novo, podemos marcar um encontro, e vocês…
  — Se você não vai me ajudar, não precisa se dar ao trabalho de tentar me desmotivar.
  Ali bufou, puxando uma parte do capuz de volta para a cabeça, recolocando os óculos escuros, preparando-se para deixar a mesa. Jaehyun trincou os dentes e passou uma das mãos no rosto, pensando.
  — Espera, Ali — ele chamou antes que ela se levantasse. — Temos dois shows em Chicago hoje e amanhã, e depois vamos seguir direto para o Texas. Vou ter três dias de folga antes de pegar um avião para a Europa, então posso ir para Los Angeles com você.
  Ali retirou os óculos rápido, olhando-o com espanto misturado com desdém. Um coerente desdém.
  — Acha que sou alguma groupie versão k-pop? — Sua voz tinha um tom nítido de desprezo — Sei que as pessoas imaginam que eu te conheço, mas se nos verem juntos, acabou. Seria tudo que elas precisariam saber sobre a gente. Não quero um mal entendido desse tamanho na minha conta.
  — Seria muito mais fácil elas pensarem que sou um cachorrinho seu. Ou um plano B, o que é pior ainda — Jaehyun revirou os olhos, afastando da cabeça aquela hipótese e como seria se Jungkook visse uma coisa dessas — Escuta. Sei que pode ser difícil ouvir isso, mas para muitas pessoas, você é apenas o seu dinheiro. É tudo o que essa gente vê, até mesmo patrocinadores. Você só tem um nome. Querer despejar a sua raiva em busca de um pedido de desculpas ou uma retratação pessoal não vai ajudar, ainda mais estando sozinha. Quem tem muito dinheiro, geralmente também é muito burro. Eu posso te ajudar nisso.
  Ali disparou de volta:
  — Você acha que meus planos vão dar certo se eu abrir ainda mais margem para fofoca me expondo com outro idol bem no ninho de cobras? Neste caso, não vai ser só eu que vou quebrar a cara…
  — Acho que você deveria se tirar um pouco do foco dessa situação. Eles estão mais preocupados com o JK, estão malucos pra ter qualquer material que possam pescar alguma reação minimamente anormal dele. E foi o que aconteceu depois das suas fotos naquele barco — Ali baixou os olhos, enquanto o rapaz movia a xícara vazia para o centro da mesa — Você está tão mal quanto ele, mas agora ele parece estar se recuperando, entende? Não ficou mais tão interessante para as manchetes. E o seu nome já ‘tá esquecido por um tempo, depois daquela confusão. É a sua chance, se quiser mesmo fazer isso.
  Ele sentenciou, como uma última vez. Se ela quisesse mesmo isso, ele a acompanharia. Pelo último fio de esperança, Jeong sabia que as maiores chances seriam de Ali chegar à LA Parker e se deparar com um chefe mesquinho que apoiou a cilada para cima de , que realmente tirou as fotos naquele dia, mas teve o material roubado pela colega. O nome de não passaria de um fantasma na agência, um rabisco em uma foto ou outra há muito distantes. Ali se decepcionaria e voltaria para casa, e a história finalmente teria um fim.
  E algo no fundo, bem no fundo de Jaehyun, gritava por uma confirmação. Ver com os próprios olhos a versão de ganhando rostos e cenários. Ela merecia isso: um voto de confiança, mesmo com todos que ele já havia dado.
  Por fim, Ali o encarou firmemente enquanto refletia, voltando a colocar os óculos escuros devagar e limpando a garganta antes de dizer:
  — Ainda acho que não preciso da sua ajuda, mas você pode me mostrar o caminho — e então, sem aviso, jogou algumas notas na mesa e se colocou de pé. — Te vejo no Texas.

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  Jimin arremessou no chão uma garrafa de cerveja que estava na prateleira ao lado dele. O barulho que ela fez no concreto assustou todos os outros amigos no lugar, mas apenas por um instante mínimo, até que voltassem a rir e se concentrar na animação do baterista, que agora formava um duo com o guitarrista em um interlúdio eletrizante entre uma música e outra.
  Jungkook voltou o olhar em direção ao palco, sentindo os ombros de Taehyung baterem contra os seus, e outra pessoa pulando às suas costas, mas essas coisas pareciam distantes, diminutivas, enquanto ria à toa com o efeito do álcool e identificava a vibração do som em cada parte de seus braços. A cabine vip do Summer Sonic brandia em luzes azuis e amarelas, fumaça artificial e também expelida de cigarros e gritos e pés que tremiam as paredes. O palco principal estava longe, bem longe, mas a sensação era de que Foo Fighters estava tocando bem embaixo de seu nariz.
  Era engraçado como Hobi balançava os braços para cima sem conhecer uma música sequer, e como Namjoon conseguia manter uma conversa parcialmente séria em algum canto do ambiente com outros dois caras mais velhos, mesmo diante do caos barulhento e insano. As luzes escapando das spotlights longínquas rodavam e se misturavam em várias cores de acordo com o ritmo, e quando Dave Grohl cantou “If everything could ever feel this real forever, If anything could ever be this good again”, elas explodiram em fogos e papel prateado com um feixe grosso de brilho escarlate que era impressionante demais para que ele mesmo se mantivesse parado como estava. Imediatamente, Jeon pegou o celular e tirou fotos de um jeito grogue, dando vários cliques até se certificar que tinha pegado o suficiente e, então, apertou em mais alguns botões aleatórios que não eram totalmente focalizados pelos olhos bêbados.
  — Não finja que você sabe fazer isso — uma voz feminina soprou na base de seus ouvidos, ao mesmo tempo em que braços rodearam seu quadril e o puxaram para mais perto.
  O rapaz se virou para a garota baixa de cabelos escuros e mechas em cor-de-rosa, maquiagem brilhante nos olhos e botas que quase alcançavam a barra do vestido preto até o meio da coxa. Um piercing prateado decorava a metade esquerda do nariz e um longo palito em prata e amarelo brilhava de sua língua quando sorriu para ele. Jungkook balançou a cabeça e retribuiu o sorriso, pegando em seu queixo delicadamente e se aproximando de seu nariz.
  — Não venha até aqui me dizer o que eu sei ou não sei fazer, Sunny — ele piscou um dos olhos e a soltou, mas os braços dela não saíram de sua cintura.
  — Uh, ficou marrento de novo. Tem algo a ver com essa sua nova aquisição que te deixou ainda mais gato? — Os dedos dela demarcaram os lábios dele, parando por mais um tempo no lugar da perfuração. Jungkook apenas revirou os olhos com desinteresse pelos elogios, bebendo um grande gole da garrafa nas mãos, já quase no fim. — Que cara é essa? Até parece que não sabe que ficou nos trendings topics porque apareceu com essa belezinha na Tetsuko. Aquela performance deu o que falar.
  — A culpa disso é sua. — Ele estreitou os olhos de um jeito brincalhão — Mas pelo menos fiquei nos trendings por causa de um piercing, e não por causa de alguma confusão que você me meteu.
  Sunny desatou uma gargalhada perplexa, enquanto o amigo vasculhava o lugar bagunçado em busca de mais uma garrafa cheia.
  — Você vem menos do que eu gostaria para Tóquio, e eu não consigo pisar no seu país sem ter que me enfiar em reuniões e compromissos, então é o mínimo que posso fazer quando nos vemos: te colocar pra dançar — Sunny atestou o fato com um levantar de ombros. — Isso e outra coisa também… — Ela se impulsionou para a frente, em direção à boca do garoto, que já estava há centímetros da sua.
  Acordando no último segundo, Jungkook se afastou há dois passos para trás, se livrando do sorriso anterior e repuxando os lábios em uma expressão de aborrecimento.
  — Porra, Sunny, não fode… — murmurou, virando-se para o outro lado, procurando agora qualquer bebida que estivesse cheia o suficiente.
  — O que ‘tá acontecendo com você? Virou careta?
  — Sabe que eu não gosto de beijar. — Respondeu, puxando outra garrafa do meio de uma bolsa térmica com todo o gelo derretido. Era de uma marca diferente e provavelmente de uma porcentagem de álcool diferente, e isso certamente renderia uma dose extra de dor de cabeça para amanhã, mas Sunny já estava conseguindo adiantar isso agora.
  — Você nunca ligou de me beijar, mesmo com essa regra idiota. E francamente, não beijar na boca e chupar uma boceta como você faz, cadê a coerência? — Ela ergueu uma sobrancelha e não obteve resposta. Jungkook disse a si mesmo para cair fora, para não dizer mais nada, se é que tinha o que dizer — O que aconteceu?
  — Não aconteceu nada, você ‘tá viajando.
  — Ainda a loira vagaba? — Sunny revirou os olhos e também não recebeu uma resposta. Respirando fundo, ela puxou a garrafa das mãos dele, bebendo em seu lugar — Você é tão previsível.
  — Só não quero foder com o clima da festa, como você ‘tá se esforçando tanto para fazer — ele agarrou a cerveja de novo e deu um leve puxão nas bochechas da garota antes de andar novamente para a outra metade do lounge, onde a iluminação era mais azul do que amarela e onde os drinks eram doces e pegavam fogo.
  Sunny viu o garoto se afastar como mais uma constatação óbvia do que ele escondia embaixo de toda aquela roupa preta e os sorrisos irônicos: perdido. Ele estava mais perdido do que sequer imaginava.
  Caminhando em sua direção novamente, ela estalou os dedos para o barman em um gesto especial que significava uma bebida específica e acrescentou para o amigo:
  — Para de fingir que você tem algum orgulho, Jeon.
  Tão logo disse isso, um “pop up” de notificação surgiu entre os dois, um ruído que tinha conseguido se sobressair diante de toda a barulheira do palco principal, que agora recebia uma banda local que fazia um cover de The Clash com Should I Stay or Should I Go.
  Levou um tempo até que Jungkook percebesse que a vibração viera de seus bolsos e, quando viu o nome responsável pela nova mensagem, soube que não era justo que ela mandasse qualquer coisa para ele hoje. Não no estado em que estava, não aleatoriamente desse jeito. Pela hora, ela já deveria estar dormindo há muito.
  Mesmo assim, ele abriu a mensagem rapidamente e descobriu que ela estava apenas respondendo o que ele tinha mandado. Meio zonzo, ele identificou a foto do palco distante com todos os efeitos fototécnicos, com as luzes e as explosões e escreveu embaixo: “Pra você que com certeza diria que isso daria uma bela foto.
   respondeu: “Então o BTS se enfia em festivais de verão nas horas vagas?
  “Bela foto, inclusive. Você ainda leva jeito.
  Ironicamente, isso o fez sorrir.
  — Quem é essa aí agora? — A voz de Sunny o trouxe de volta, e ele guardou o celular, como se a mensagem nunca tivesse existido. Mesmo que tivesse iniciado a conversa, aquilo não parecia muito certo. Mas não estava arrependido.
  — Nada, ninguém importante.
  Sunny voltou-se para o balcão iluminado e pegou a bebida em verde fluorescente que a deixaria ligada pelo resto da noite.
  — A garota nada importante quer participar da nossa farra hoje? — perguntou com malícia, puxando o líquido pelo canudo. Os sinais de Sunny eram sempre explícitos e sem brechas para dúvidas. Era impossível que qualquer mínimo interesse por ela desaparecesse totalmente, mas Jungkook olhava para a amiga com mais bom-humor do que desejo. — Pelo menos eu vou beijá-la.
  — Sinto te decepcionar, mas ela não está aqui.
  — E você ‘tá sorrindo desse jeito com mensagens de alguém que está há quilômetros de distância daqui? Deus do céu, Jeon, já vi isso antes…
  Ela riu de um jeito divertido, mas a expressão de Jungkook se fechou novamente em uma faísca de raiva, algo que beirou de novo ao desgosto, o que não acontecia com frequência quando estava com Sunny.
  — Hoje você ‘tá falando muita merda.
  Ela ergueu uma sobrancelha, provocativa.
  — Normalmente digo as verdades na sua cara, mas hoje você parece estar muito sensível para recebê-las. Alguma coisa sobrenatural ‘tá afetando a sua energia ultimamente? — A garota arrastou as botas para perto dele, falando em um tom mais baixo: — Estou falando sério, Jungkook, se você se apaixonar de novo, eu não vou estar lá pra juntar os cacos dessa vez.
  Rindo outra vez, Jungkook se afastou da amiga, balançando a cabeça em negação e desejando que a banda tocasse mais alto, que soltassem mais fogos, que quebrassem alguma rede elétrica que derrubaria os sinais de telefones e todas as demais luzes da região.
  — Não vou te ouvir…
  — Mas, apesar disso, você de coração partido fode como um animal, é tenebroso e muito gostoso, posso reconsiderar quando lembro disso. — Continuou ela, dando de ombros — Vamos, esse é o momento ideal pra eu saber o nome da próxima.
  — Jesus, Sunny, ela é só uma trepa casual, não é nada demais. Não tem exclusividade e não vai durar por muito mais tempo. — Finalizou ele, como um ponto final no assunto, mas Jungkook nunca dava um ponto final em uma conversa com Sunny. Mesmo que o tópico estivesse indo por aquele caminho de amor e relacionamentos que já tinha sido debatido várias vezes entre os dois, a resposta sempre era a mesma: Jeon Jungkook achava que não conseguiria se conectar com mais ninguém, e caso encerrado. Não era discutível.
  — Então ela é fixa?
  Jungkook engoliu grande parte da cerveja, assentindo.
  — De certa forma, sim.
  — Ela é gostosa?
  — Pra caralho.
  — Eu quero ela — Sunny piscou um dos olhos. JK soltou uma risada alta — O que foi? Imagine só nós três, jazz americano e aquela sua piscina…
  — Não. — cortou ele com uma risada, virando-se para o palco de novo, observando a banda agora gritar God Save the Queen que não parecia em nada com Sex Pistols. A grade que o colocava acima da multidão balançava como um tremor. Ele viu Sunny se aproximar ao seu lado com um sorriso sugestivo embaixo daquelas luzes azuis e verdes que desenhavam um hematoma em seu rosto — Definitivamente não.
  A garota franziu o cenho, vendo quando o amigo andou mais alguns passos até se sentar em uma das poltronas do lounge e fixar o olhar no palco. A estrutura do festival era digna de toda a sua reputação. Um dos blocos se estendia até o meio da multidão e as grades de metal, que geralmente ajudavam a plateia a manter certa distância, eram tênues e dispersas, sem muita segurança, o que adiantava os planos que as atrações guardavam para o final: gritar e pular para o público, tendo o corpo carregado perigosamente até o fim do espaço.
  Que vibe. Que processo intenso e marcante seria ver isso ao vivo pela primeira vez. Jungkook imaginou se algum dia poderia fazer a mesma coisa, mesmo que fosse apenas entre os amigos em um pequeno karaokê. Seria mais fácil ir parar no hospital depois, mas todas as loucuras valem o risco.
  Sunny encontrou-o ali, mexendo os pés no ritmo da bateria, sentado pacificamente com sua própria companhia, o que não acontecia há pelo menos três anos, quando apresentou Ali Dalphin como sua namorada e transmutou sua personalidade desapegada em um idiota apaixonado. Ele realmente a amava, pensou ela. Amava muito, e por isso doeu tanto quando descobriu que algo muito importante poderia ser arrancado dele sem socos ou pontapés.
  Imaginar aquilo a deixava doente. Ela parecia ser legal e uma ótima parceira. As aparências enganam e as primeiras impressões não significam merda nenhuma.
  Então, sentando-se ao lado dele, sacudiu os cabelos coloridos e estalou a língua em uma expressão pensativa.
  — Definitivamente não — ela imitou sua voz de antes, e os olhos de Jungkook se abriram de um jeito cômico — Eu não sei se você está sendo guloso ou se tá com medo de misturar as coisas de novo.
  Estava claro que Sunny não pretendia desistir do interrogatório tão cedo, e raciocinar não era bem o caminho que a mente de Jungkook parecia querer seguir. Dando uma risada sem fôlego, ele manteve sua boca encostada no vidro da garrafa, bebendo por mais tempo que o normal e esperando que ela trocasse o assunto, mas o rosto dela estava de tocaia, aguardando uma resposta.
  — Que coisas, Sunny? Até você com essa agora? — Era uma pergunta indignada, cansada. Ele curvou as costas para poder ver dentro de seus olhos, tornando a voz mais firme: — Eu só não quero envolver essa garota nos meus assuntos particulares, e pretendo permanecer assim. Se quiser uma loucura desse nível, tenho certeza que todos os caras do seu país e do meu adorariam realizar com você, mesmo que você prefira garotas.
  — Mulheres são deliciosas, você não acha?
  — Não poderia concordar mais.
  Sunny sorriu e, sem esperar um consentimento, beijou a boca de Jungkook em um ato rápido, mas preciso. A cabeça dele estava girando demais para impedir ou perceber alguma coisa desta vez. Mas notou que beijar com aquele novo presente metálico nos lábios não era tão horrível assim.
  — Você também é delicioso, Jeon. Espero que se apaixone de novo e que ela quebre seu coração pra que eu possa receber uma visita inesperada e não tenha forças pra levantar de manhã. — Com uma piscadinha, ela se levantou. Com as luzes mudando gradativamente para um tom de vermelho vivo, a parte de cima de seu vestido se mostrou mais transparente, fazendo um reflexo explícito nos piercings do mamilo — Vou pegar outra bebida. Pense na proposta até eu voltar!
  A primeira reação dele foi revirar os olhos e voltar ao que estava tentando prestar atenção no início: os covers diversos de punk rock e os pratos da bateria sofrendo as consequências da adrenalina de Smells Like Teen Spirit.
  No entanto, toda a sua concentração estava indo embora à medida que percebeu como Sunny tinha conseguido perturbar sua paz com as insinuações ridículas, e conseguir mexer com sua mente bêbada do jeito que estava só podia ser um feito digno de Sunny Shiraishi. Deslizando as mãos para o bolso, ele puxou o celular novamente, sem nenhuma intenção de ver alguma coisa, mas quando desbloqueou a tela, a última mensagem dela ainda estava ali. Ele observou que pelo menos 20 minutos haviam se passado e ela com certeza não estaria esperando uma resposta.
  Mesmo assim, ele digitou: “Nunca se deve desperdiçar a última noite da viagem.”
  Ele bloqueou o telefone e o jogou no colo, apoiando os cotovelos nos joelhos quando os acordes de Baby, I Love You começaram a soar. E porra, aquela música era boa, muito boa. Mesmo que o fizesse se lembrar de situações pessoais e frases que jurou nunca mais dizer.
  O celular vibrou em sua perna direita e Jungkook largou a cerveja no chão aos seus pés, pegando-o agora com as duas mãos rapidamente.
  : “É nessas horas que você precisa de um instagram. Suas fotos fariam sucesso.”
  Jungkook sorriu, sentindo aquilo como um elogio pessoal, mesmo que já o tivesse escutado um zilhão de vezes de várias pessoas diferentes. Pegando a cerveja novamente, ele cogitou a ideia de desligar o celular e voltar para o meio da multidão e continuar no seu plano particular de encher a cara pelo resto da noite, mas quando viu, já estava preparando uma resposta:
  Jungkook: “Se você está dizendo, posso pensar no assunto, .”, e então continuou: “Mas você também não tem Instagram.”
   :“Só estou tentando te ajudar a se aproximar mais do seu fandom. O que EU postaria no Instagram?”
   Jungkook: “Fotos suas?? Acho que é pra isso que serve.”
  : “Eu sei, mas ‘fotos suas’ em lugares legais, fazendo coisas legais. Minha vida não é tão interessante a esse ponto, mas você se daria muito bem.”
  Ele quis responder algo como “eu sei que sou incrível e tenho uma vida incrível”, mas era tão mentira e tão fantasioso que preferiu responder o que estava entulhando sua mente naquele exato momento ao reparar em seu nome gravado no Kakao.
  Jungkook: “Nunca vi nenhuma foto sua. Por que você nunca tira fotos?”
  Um silêncio do outro lado. Jungkook pousou o celular no colo de novo, sabendo que não deveria fazer as coisas daquele jeito, mas quando uma nova mensagem chegou, todos os pensamentos lógicos desapareciam.
  : “Fala sério, vou falar para o Jimin te buscar.”
  Jungkook: “Jimin não está aguentando ele mesmo agora. E selfie, sabe como tirar? Ou o celular é moderno demais pra você?”
  : “Acho que você não quer uma selfie.”
  Jungkook: “Não faz sentido eu pedir outra coisa, . Já vi o que tem por baixo desses jeans. E estou tão bêbado agora que posso perder esse celular em qualquer lugar e todo mundo veria também, e isso me deixaria extremamente incomodado.”
  : “Eu ficaria incomodada se postassem no onlyfans e ganhassem dinheiro às minhas custas, sabe como eu sou ambiciosa, isso é inaceitável.” — “Eu mesma posso postar lá.”
  Jungkook não viu quando puxou uma perna para cima e moveu os ombros em uma risada espontânea. Também não compreendeu porque estava digitando a frase “A selfie já estava de bom tamanho porque seria legal te ver”, mas percebeu o que estava fazendo antes de apertar o envio, apagando toda a frase em um estalo de consciência. O que ele tinha na cabeça? Queria vê-la? De onde tinha saído isso?
  Anuindo com a cabeça, ele bloqueou o telefone, puxando a bebida novamente e terminando com ela em poucos minutos. Ele queria que aquilo acabasse; a sobriedade. Queria que fosse ontem, quando ele e Sunny dançaram e transtornaram ouvindo o pior da música eletrônica em algum pub fechado de Sapporo e o nome de não passou nem na esquina de sua cabeça. Agora, a figura de sua imagem parecia estar atrás dele, observando de algum lugar, esperando para ser lembrada. Por que diabos isso estava acontecendo?
  E por que diabos ele ainda não tinha desligado esse celular?
  Quando um cover muito bem adaptado de Sublime começou a cantar o clássico I Love My Dog, Jungkook achou que era a oportunidade perfeita de beber mais. Mas a batida era legal, e ele fechou os olhos por um minuto para apreciar a letra, que era divertida e o fazia lembrar de outros planos que existiram e que foram engavetados. Era visível suas íris se movendo por baixo da pele fina das pálpebras, um sonhador acordado.
  E então, com um movimento ágil, ele deslizou as mãos para o aparelho de novo.
  Jungkook: “Estou pensando em adotar um cachorro. O que você acha?”
  A boca de Jungkook se abriu enquanto balbuciava a pergunta digitada, uma pergunta que não fazia muito sentido a ser feita para ela.
  : “Gostei da ideia. Você precisa mesmo de uma companhia naquela casa enorme. Mas só se chamá-lo de Bam.”
  Jungkook: “Bam? Que nome ridículo. Jamais chamaria meu cachorro de Bam.”
  : “Rabugento. Coitadinho do Bam.”
  Uma risada alta escapou de sua garganta. A música parecia um pouco mais longe agora, indo embora aos poucos à medida que os covers terminavam e a outra atração se preparava para começar. Sem olhar para frente, Jungkook reconheceu a voz grave de Rivers Cuomo, preparado para eletrizar a multidão com as melhores músicas do Weezer.
  Mas outra agitação veio do apetrecho em suas mãos, agora não mais como uma notificação de . Agora o nome de Jaehyun o encarava da tela, chamando-o para uma ligação cara a cara.
  Ele tampouco entendeu, mas apertou no verde, levantando-se de onde estava e se afastando para o mais longe possível do barulho.
   — JK? Tá me ouvindo?
  — Nenhuma médium me disse que seu plano hoje era atrapalhar a minha festa — respondeu, coçando um dos olhos para parecer mais desperto. Ouviu a risada do amigo, que estava em um fundo claro e amadeirado de quarto de hotel, com os cabelos molhados de pós banho e suas habituais camisetas pretas de La La Land — Quanto tempo, Jeong! Por onde você anda agora?
   — Estou em Chicago. Que barulheira é essa? É aquele festival que você disse que estava indo lá no grupo do Kakao?
  — Belo plano, não é? — Jungkook deu de ombros, recostando-se na parede mais próxima — O Summer Sonic calhou de acontecer em Tóquio no último dia da viagem, e não em Osaka. Eles tocaram covers de Ramones, você iria gostar.
  — Sim, mas se não tocaram Sex Pistols até agora, eu te aconselho a ir embora o quanto antes.
  O garoto riu, passando uma das mãos no cabelo.
  — Eu preciso estar de volta até às cinco. Vamos voltar para a Coreia amanhã de manhã.
  — Legal, legal… — o tom de voz diminuiu, e ele não olhava mais para Jungkook. A força como coçava o nariz e olhava para todos os cantos indicava que ele estava nervoso.
  — Ei, qual é o problema? — Jungkook franziu o cenho — ‘Tô estupidamente bêbado agora, mas cadê suas piadinhas sobre eu ser irresponsável por pegar um avião de ressaca e curtir numa festa dessas correndo risco de ser pego ou todas essas coisas sérias e ridículas que você sempre fala?
  Havia algo de ameaçador e frio naqueles olhos quando finalmente o encararam do outro lado da tela, algo agitado, indefinível. Era algo que tomava Jaehyun completamente quando estava prestes a dar más notícias.
  — Eu… Acho que só te liguei pra te falar uma coisa. — Jungkook enrugou a testa. Jaehyun respirava fundo, tentando manter a atenção na chamada, com um rosto drasticamente sério — Na verdade, não é nada demais. Eu só preciso que você saiba que, independente de qualquer coisa que aconteça, ou de qualquer coisa que veja, não é o que parece. Você sabe de quem eu gosto, não sabe?
  Jungkook sentiu um embrulho no estômago. Por um instante, era como se estivesse percebendo com quem estava falando antes e com quem estava falando agora, e como as duas pessoas estavam relacionadas. Terrivelmente relacionadas, em um compromisso implícito que pesava para os dois lados. Uma situação arriscada que ele podia escolher rejeitar, mas não rejeitou.
  Por fim, limpou a garganta e respondeu:
  — Eu não ‘tô entendendo. Do que você está falando?
  Após um momento de hesitação, Jaehyun balançou a cabeça e continuou.
  — Não é nada grave. Eu só quero que você se lembre que eu tenho uma pessoa que eu gosto. E nós dois somos amigos há bastante tempo, desde que você apareceu na audição com Yugyeom e nós já trocamos cumprimentos com os punhos, e sei que posso ser fechado e reservado em muitas ocasiões, mas sempre tentei ser honesto com você. Eu confio em você. Agora eu só preciso que você confie em mim também — sua voz despencou em algumas oitavas, e ele suspirou fundo antes de perguntar: — Você confia em mim?
  Jungkook abriu a boca para responder, mas algo estava agarrado em sua garganta. Um desconforto corroía seu estômago, causando um frio na barriga, e de repente estava difícil encarar o amigo, que não tinha problemas em ser sincero, enquanto Jungkook segurava todas as verdades do mundo dentro de si.
  — Confio. Claro que eu confio, eu só não tô entendendo…
  — Eu gosto da , JK. Sei que você sabe disso, sei que ela também sabe, mas preciso que você continue sabendo. Independente do que possa aparecer depois, ou de qualquer coisa que possa acontecer, você sabe que gosto dela. Mesmo que eu não esteja sendo merecedor de nada disso agora.
  Jungkook juntou as sobrancelhas, ainda mais confuso, ainda mais desconfortável e ainda mais perturbado. As palavras que pensou em dizer imediatamente queriam avançar, mas eram bloqueadas pelo caminho contrário, pelo indício de um sentimento de culpa. Não, você merece, claro que merece, você é o único que a merece, então por que está agindo assim?!
  A respiração de Jungkook parou e ele quis desesperadamente terminar aquela conversa.
  — O que ‘tá pegando, Jaehyun? — Seus dentes trincaram em mais uma sessão de impaciência do dia. Em sua defesa, aquela grosseria através da tela estava sendo totalmente sem intenção, relapsa demais para que seu eu bêbado notasse — Não quero ser estúpido, mas não dou a mínima para o que você sente pela . Não ligo para os sentimentos dela também, ou em qual pé da relação vocês estão. Se está preocupado com o que eu vou achar por causa de todo aquele lance, vou te responder que não acho nada. Não precisa reforçar essas coisas pra mim, eu entendo…
  Jaehyun deu de cara com os olhos estreitos e uma expressão dura de Jungkook. Ele parecia genuinamente estressado com a pergunta, mesmo que ela tivesse sido feita sem qualquer motivo para tal, mas não era hora de tentar forçar uma propaganda positiva sobre goela abaixo do amigo agora. Na verdade, ele não precisava fazer nada disso, só não sabia disso ainda.
  Ele assentiu, aparentando estar mais calmo, e Jungkook desviou os olhos, lutando contra a vontade abrasadora de desligar a chamada e se questionar em qual grande merda estava se metendo agora.
  — Tudo bem, eu não preciso mesmo, você com certeza já sabia disso. É só que a é uma garota muito especial e sinto que não tô fazendo as coisas direito, então, se eu não puder dizer a ela o que eu sinto algum dia, pelo menos deixei outra pessoa saber.
  Alguma coisa murchou dentro de Jungkook. Algo que sugou toda a cor de seu rosto e o deixou pálido como o mês de janeiro, condensando seus demais sentimentos em um grão de poeira e deixando apenas uma coisa livre: Culpa. Era esse sentimento que crescia e crescia, e se espalhava como poeira em seus calcanhares. E raiva. Principalmente a raiva.
  É, outra pessoa. Eu. A pessoa que tá transando com ela, acabando com toda aquela inocência encubada que você se interessou, destruindo um código de honra de amigos que nem existe nessa merda, mas que você tá fazendo parecer que existe Jaehyun, que droga, que porra, por que tinha que falar isso logo pra mim?!
  — Por que quis me contar isso? — A voz dele parecia estar sendo prensada, diminuída. Os olhos de Jaehyun eram escuros e pequenos, mas estavam alertas. Jungkook não conseguia ver nenhuma mentira neles, apenas mistério. Um olhar que escondia coisas, não que mentia coisas. Como ele fazia, como tinha feito no último mês.
  — Não sei. Porque tinha que ser você.
  Os ombros dele se levantaram na resposta simples. Os lábios de Jungkook se grudaram, ficaram menores, as sobrancelhas parando no mesmo lugar enquanto tudo em seu peito queimava. Ele quis cuspir as palavras que se amontoavam em sua boca, as que diriam exatamente o que a raiva queria: Tinha que ser eu? O que você tem na cabeça? Por que tem que ser eu a pessoa que precisa andar por aí imaginando você e juntos? Me diga porquê.
  Ele jamais deixaria que essas palavras passassem. Com um suspiro, o garoto apenas assentiu e umedeceu os lábios.
  — Tudo bem, esquisitão. Vou me lembrar disso. Você sempre sabe o que está fazendo — o rosto de Jungkook estava virado para a plateia, o palco, a massa iluminada de pessoas que agora pulavam freneticamente ao som de Buddy Holly — Você pode gostar de quem quiser. Mesmo que essa pessoa seja .
  Jaehyun não desviou o olhar. Um sorriso singelo brotou de seus lábios.
  — Valeu, JK. Você não precisava aceitar nada disso, mas tenho certeza que um dia vai entender. E quem sabe você deixe essa implicância de lado — disse ele, porque tinha de dizê-lo. — Eu vou nessa, vou te deixar curtir o resto da sua festa. Não se esqueça de tomar um café bem forte antes de entrar no avião.
  A voz de Jungkook soou distante:
  — Eu vou.
  Quando a ligação se encerrou, Jungkook recostou a cabeça subitamente na parede logo atrás, olhando para o céu em busca de acelerar seus pensamentos em potência máxima e se livrar deles o mais rápido possível. Tinha muita coisa povoando sua consciência no momento, e todas elas soavam como raiva, culpa, desprezo e mais raiva. Uma junção de vacilos dentro de uma nuvem de terra que agora explodiu, jogando arrependimento para todos os lados. Sério, que tipo de idiota você é? Com tantas garotas disponíveis por aí, você foi entrar num lance casual justo com ? Sério isso, ?! Qual é a porra do seu problema? O que eu tinha na cabeça quando fui concordar com essa ideia maluca?!
  Um grunhido vinha de debaixo de sua garganta. Uma vontade incontrolável de querer voltar no tempo e nunca ter ido atrás dela naquele estacionamento idiota daquela festa idiota, nunca ter dado brecha para sentir aquele gosto estupidamente viciante e, mesmo se acontecesse, nunca ter feito a idiotice de se aproximar dela depois daquilo, nunca, jamais. Como se consertava uma coisa dessas?
  Teoricamente, não havia o que consertar. Ele e tinham uma relação com data de validade, e era mais do que óbvio que ela não precisava aprender mais coisa alguma no quesito de deixar um cara louco, já que tinha conseguido implantar em Jungkook um tesão maluco que o deixava com vontade de fodê-la todos os dias; sem compromisso, sem exclusividade, sem beijo, sem intimidade e todas essas coisas que foram exigências mínimas para que aquilo desse certo. Não tinha sentimento e nem envolvimento, então por que ele estava se sentindo como um ser humano de bosta em cima de uma vala rasa?
  O coração golpeava seu peito quando constatou: não fazia sentido. Não fez desde o início. era lógica e racional e sabia separar as coisas — amor e tesão eram duas estradas diferentes —, mas Jaehyun não era exatamente desse jeito e isso tornava Jungkook como uma peça aleatória no meio dos dois. Uma participação desnecessária. Alguém que seria esquecido no final e ainda correria o risco de ganhar a inimizade de um amigo importante.
  Durante a ligação, ele sentiu o perigo e o desejo de gritar para Jaehyun tudo que ele achava sobre , mas isso seria uma insanidade porque teria de admitir que ela realmente não era tão ruim assim e que gostava de foder com ela mais do que imaginou que fosse gostar.
    “E daí se é gostosa? Essa palhaçada já deu.”
  Quando os passos de Sunny aceleraram para chegar ao lado do garoto, Jungkook sentiu aqueles olhos o seguindo, avaliando se ele estava em um estado de torpor bêbado ou com um problema mais sério que o deixava com a cabeça tombada para cima em uma sessão odiosa de autopiedade.
  — Jungkook? ‘Tá tudo bem? — perguntou ela, puxando um de seus braços até que ele descolasse da parede — O que aconteceu?
  Ele piscou os olhos algumas vezes e balançou a cabeça em negação.
  — Nada. Trouxe as bebidas?
  Ela estendeu o drink, agora azulado, e ele o pegou sem perguntas, entornando-o goela abaixo, sentindo labaredas de fogo passearem por sua garganta. A careta foi inevitável.
  — Uau. Achei que não gostasse de misturar as coisas, Jeon, mas acabou de beber vodka com rum.
  — Acho que já misturei várias coisas hoje, o que seria mais uma? — deu de ombros, voltando à expressão desinteressada, inclinando a cabeça para o palco — Podemos misturar mais algumas hoje também, se você quiser.
  Sunny juntou as sobrancelhas, confusa com a sugestão.
  — Você está dizendo que…
  — Hoje você pode me levar pra onde quiser — ele afirmou, perto de seu rosto — E com quem você quiser.
  Os olhos de Sunny se iluminaram, mas carregavam um leve tom de desconfiança. Ela mordeu o lábio inferior, avaliando o tronco do garoto, ainda áspera com o comportamento repentino.
  — O que aconteceu enquanto estive fora?
  Jungkook riu com embaraço e pousou uma mão em sua bochecha.
  — Vou pegar uma cerveja e podemos dar o fora desse lugar agora. Me espera no estacionamento.
  O peso daquele olhar pareceu uma promessa mais substancial do futuro do que qualquer coisa que uma médium pudesse lhe dizer. Sunny não teve nenhuma chance de responder. Quando viu, Jungkook já se afastava para a multidão ao lounge, coçando os olhos e jogando os pensamentos para fora, para o outro lado do planeta.
  O celular vibrou nos seus bolsos mais uma vez e, desta vez, ele o desligou imediatamente, convencido de que o ligaria apenas quando pisasse na Coreia e que só falaria com de novo quando fosse para colocar um fim naquela coisa entre eles que não tinha nome.
  Amanhã seria um ótimo dia. O último dia.

[ 6 ] – Your past-times consisted of the strange, and twisted and deranged

Este capítulo está em processo de revisão.

"A próxima vez que eu vi meu próprio reflexo
Foi no caminho para te encontrar
Pensando em desculpas para adiar."
— Crying Lightning

  A câmera era melhor do que esperava.
  Por dois dias corridos, sua concentração estava quase que inteiramente nos comandos daquela máquina, reuniões extras de planejamento com Yoona — que se mostrava um pouco mais agradável quando o assunto era estritamente sobre trabalho — e em testar opções e mais opções de conceitos. Pelo que via, o trabalho de criar exigia bem mais do que pensava. Às vezes, ela conseguia conceber duas opções diferentes, mas no fim do dia elas passavam por tantas alterações que viravam uma terceira opção, e seguir por esse outro caminho requereria que largasse as duas primeiras. Era difícil. Mas, com a cabeça no modo de pensadora analítica, era fácil se distrair e não pensar em outras coisas.
  Mas nenhuma cabeça ficava nesse modo 24 horas por dia.
  No sábado, depois de engolir o espaguete caseiro de Candice no almoço, que devia ser a única coisa que a amiga sabia fazer com ingredientes, ela já afundava o rosto no celular de novo, falando com Yoona sobre a próxima demonstração que ainda teria que ser corrigida antes de executada. Candice tinha prometido 3 vezes que a faria voltar para o flip se a pegasse mexendo no celular na hora das refeições de novo, e na noite passada bem que tentou isso, mas hoje era diferente: se Candice pegasse seu celular daquele jeito súbito de novo, ela não se depararia apenas com mensagens de Yoona, e sim com uma conversa divertida com um Jungkook bêbado que não faria o menor sentido.
  Aquilo ainda não estava fazendo sentido.
  Mas tinha uma coisa que ela não veria: as mensagens de Jaehyun. Isso tampouco estava fazendo sentido.
  Pelo menos tinha passado um tempo considerável da vida aprendendo a ignorar as emoções que adiantavam coisas sem fatos comprovados, mas Candice não era bem assim. Ela taxaria Jaehyun como algum tipo de babaca e dormiria muito bem à noite.
  Voltando ao quarto, abriu as cortinas para deixar a luz do sol entrar. Era incrível como depois de tanta chuva de um cenário clássico de dilúvio dos tempos bíblicos, o céu azul sorria por aí como se nada tivesse acontecido. Ele superava as tragédias como ninguém.
  O dia estava bonito. O verão na Coreia significava vento fresco e frutas coloridas expostas nas bancadas. Candice tinha comprado uma cesta cheia delas para enfeitar o meio da mesa, mas o calor acabava com a metade antes que conseguissem comer tudo. Para ajudar, tinha puxado uma maçã e levado ao quarto — aqui elas eram particularmente grandes e muito vermelhas —, mesmo que não fosse a melhor hora para isso. Lá dentro, ela posicionou a Panasonic em cima da cômoda de madeira ao lado da porta, enquadrando a imagem exata da janela do outro lado, onde um galho grande de uma árvore com folhas muito verdes passava timidamente pela lateral da abertura. O mesmo cenário, no outono, devia ser ainda mais lindo, com as folhas caindo e grudando no vidro. suspirou e abriu o notebook ao seu lado, conectando os cabos que projetaram a imagem na tela, que captaram primeiramente seu busto, até que focasse a lente para a frente. Uma música suave tocava ao fundo, continuando de onde tinha parado quando ela o fechou na noite passada. ergueu o corpo, chegando para trás e atestando a qualidade e filtro da imagem. Era linda, vintage e exatamente do jeito que procurava. Ela se lembraria de dizer obrigada à Jungkook mais uma vez.
  Para testar a questão da luz e a dinâmica do espaço, se colocou no meio do quarto, entre a janela e a filmadora. Na tela de demonstração, a reprodução mostrava uma garota de pé, vestida de camiseta larga e shorts de moletom com os pés descalços enquanto seu rabo de cavalo era torto e com muitos fios rebeldes saindo por aí. A luz batia contra seu corpo, deixando-o um pouco apagado e escurecido na imagem, mas ainda era nítida o bastante. Fazendo movimentos com o corpo, mexeu os braços, as pernas, andou em círculos, pulou, temendo que a falta de luz frontal permanecesse até em movimentos bruscos, e foi o que houve. Ela finalmente parou, com as mãos na cintura, pensando em como corrigir a questão da luz natural sem precisar de focos de lâmpadas estratégicas e mudança brusca de cenários.
  Quando Pied Piper começou a tocar, seus pensamentos estavam longe, seus pés se arrastavam devagar de um lado a outro e ela cantarolava para conseguir pensar. Não era exatamente certo dizer que conseguia pensar enquanto enxotava barulhos de fora pra dentro da cabeça, mas não era inteiramente errado, também. gostava de como as músicas deles soavam. Às vezes acontecia de movimentar o corpo sozinha, trazer um braço aqui e outro ali, andar mais rápido e mais lento, sendo o máximo de dançar que conseguia fazer. Dava até pra rir sozinha, se estivesse concentrada demais. Dava pra se lembrar da risada ridícula que Jungkook fazia quando Hobi falava alguma coisa engraçada, de como ele devia estar rindo ontem quando falou do cachorro, como ria no final de uma transa quando ela gozava mesmo depois de ter dito que não faria isso, e de como ele deixava de rir bruscamente quando estava bêbado. Parecia diferente da educação que mostrava em entrevistas e programas de variedades, diferente da educação de Jaehyun. Quando Jungkook era educado, isso o tornava poderoso. Quando Jaehyun era educado, ele estava concedendo poder. A gentileza era a mesma, porém mostrada de formas totalmente diferentes. A de Jungkook geralmente não aparecia muito, e quem percebesse com certeza negaria.
  Garoto estranho. Quem diria.
  Quando parou, se observava da tela do computador quase do mesmo jeito que havia começado: as mãos nos quadris, o cabelo agora ainda mais bagunçado, tanto pelo vento que entrava da janela quanto pela dança esquisita, e ponderou que aquele enquadramento contra a janela, contra o céu azul e contra o verde das árvores poderia ter algum ganho, mesmo que a pessoa principal não aparecesse. Bem, nem tudo era sobre as pessoas. Nem tudo precisava se tratar sobre aparecer.
  Aproximando-se para trocá-la de lugar, ela parou um pouco para observar a si própria. Colocando uma mão no rosto, tentou ajeitar o cabelo rebelde e imaginou por um segundo na proposta recebida no dia anterior. "Selfie? Pra quê? Ele só pode estar maluco."
  Parecia certo ignorar aquele pedido e seguir com suas tarefas. Porque não ficava na frente das câmeras. Nunca. Existiam esses dois tipos de pessoas e ela estava no time que trabalhava atrás delas, e estava tudo certo com isso.
  — Não vou tirar uma selfie, Jeon Jungkook. Vai sonhando — ela murmurou para sua própria imagem, enquanto se abaixava para focar melhor em seu rosto. Era totalmente comum e nada tão grandioso pra aparecer na TV ou revistas. Podia ser bonita, mas gente bonita existia em cada esquina e o próprio conceito de beleza mudava de região para região. Beleza era algo abstrato, não absoluto. Por que as pessoas se importavam tanto com isso?
  O desgraçado só podia querer uma selfie pra zombar ainda mais dela, é claro.
  O torpor de seu reflexo foi interrompido por Candice abrindo a porta, olhando dela para a câmera na cômoda, como se tentasse entender o que estava acontecendo.
  — Interrompi alguma coisa? — perguntou, encostando um dos ombros no batente.
  — Não, eu só estava testando a luz — e tendo uma crise existencial sobre selfies, mas essa resposta era patética. Ela começou a arrumar os cabelos, fechando a tela do computador.
  — A luz vermelha estava piscando. Não vai perder a gravação? — Candice chegou mais perto, apontando para onde a luz vermelha piscava temerosamente há pouco.
  — Estava gravando? — sussurrou, mas depois deu de ombros e estalou a língua — Não importa, não vou usar esse filme. O que você quer pedir?
  — Não posso entrar no seu quarto sem querer pedir alguma coisa?
  — Você está usando brilho labial e seus cachos estão finalizados, com quem acha que está falando? — ergueu uma sobrancelha e desligou a Panasonic.
  — Tá legal, você sempre sabe de tudo. Lembra que o Yoongi chega hoje, não lembra? — ela abriu um grande sorriso animado. assentiu levemente com a cabeça, concentrando-se em guardar a máquina dentro da caixa.
  — E você me deixa esquecer?
  — Pois bem. Vista uma roupa e vamos às compras! — Candice colocou uma das mãos no ombro da amiga, puxando-a para a frente, falando daquele jeito de quem não estava te dando uma escolha.
  — Ei, calma aí — se soltou dos braços, levantando as mãos em defesa — Compras de que?
  — Compras, , oras! O que eu vou fazer até a hora de ele chegar? No caso, ele já está chegando, mas tem um compromisso a tarde toda, alguma coisa sobre reuniões com a ONU e essas...
  — Eles vão em uma reunião com a ONU? — interrompeu, com os olhos ligeiramente arregalados. Candice concordou com a cabeça, mostrando um sorriso.
  — É, não é demais? A revista queria fazer uma matéria sobre isso, mas a mídia nos acha fútil demais pro assunto. Enfim, como se precisássemos ter um selo New York Times pra falar de outra coisa que não seja a cor do batom da Angelina Jolie. Bando de desgraçados — ela grunhiu para si mesma enquanto pensou, em um lapso momento, em como Jungkook deveria estar cansado e com uma ressaca tenebrosa para ter que enfrentar mais um dia cheio de trabalho depois de um avião. E parecia que ele realmente tinha perdido seu telefone em algum lugar daquele festival — Mas isso não importa. Nós duas vamos sair nesse dia lindo e vamos pra Gangnam agora mesmo.
  — Gangnam? Tá maluca? Tenho certeza que nós duas não precisamos de nada que tenha em Gangnam.
  — Não estou te pedindo pra comprar uma casa e nem nada disso, . Vamos só comprar umas blusinhas, quem sabe aquela base nova da MAC.
  — As coisas de lá custam o preço muito aproximado de uma casa — choramingou, e Candice lançou seu melhor olhar afiado.
  — Sei que você é pão dura, mas já tá exagerando. Anda, hoje é sábado, e não vou deixar que você se afunde em trabalho na porra de um sábado, . Vai pro banho que vou te esperar na sala.
  — Candy...
  — Prefere que eu escolha as suas roupas? — Candice levantou uma sobrancelha, naquela expressão clássica de Candice Chaperman que gotejava veneno, mesmo que ela não abrisse a boca. repuxou os lábios e bufou, sendo vencida completamente por aquela abordagem infalível. Tudo menos ser a boneca de Candice. Isso sempre causava problemas.
  — Vou querer um milkshake de pistache — avisou, caminhando até o banheiro.

❬📸💔❭

  Os preços não eram exatamente os de uma casa, mas de uma Mercedes? Chegava bem perto.
  Três horas se passaram enquanto Candice migrava de uma vitrine a outra, com os dois braços cheios de sacolas e depositando nos de o que não cabia mais nos seus. Entre vestidos, sapatos e bolsas, a garota chegou à conclusão que os olhos de Candice se atraíam mais por cores do que por modelos e que em nenhum momento pareciam focar nos zeros embaixo. Que, a propósito, eram muitos em qualquer esquina de Gangnam. Aquele bairro era o próprio antagonista do salário mínimo, que, mesmo sendo bom e quase suficiente naquele país, precisava da estima de ser visto nas ruas de lojas e perfumarias, em busca de alguma validação pelo olhar das pessoas, nem que seja pra comprar uma escova de dentes.
  A aprovação que Gangnam trazia, mesmo que, no fundo, não importasse tanto assim, parecia que valia mais. Era o próprio Hamptons na Coreia, e todo mundo já tinha visto uma série assim.
  Candice Chaperman sempre teve muito dinheiro, mas também tinha muita inconsequência, o que quase sempre acabava não fechando a conta no fim do mês, o que fazia o senhor Chaperman receber uma ligação muito meiga nas altas montanhas do Canadá.
  Independente disso, Candice era a pessoa mais desapegada de avareza que já conheceu. A amiga muito dava e muito recebia, o que a deixava pensativa às vezes sobre toda a questão de guardar cada centavo, mas quando conseguisse alcançar tudo que desejava, poderia se tornar também um tipo de pessoa diferente para oferecer uma melhor versão de si mesma para o mundo, que ainda não incluía o dom da generosidade excessiva.
  Distraída, não se atentou ao letreiro da próxima loja, já que tudo parecia a mesma coisa, com cores e adornos que boxeavam seus olhos com luzes piscantes e cheiros fortes, e Candice ficava animada com qualquer coisa que fosse brilhante e chamativa demais. As vendedoras, com um olhar gordo e esticado sobre as várias bolsas das garotas, puseram seu melhor sorriso enquanto as cumprimentavam, e Candice fez sua melhor jogada de cabelo para conseguir ser paparicada do jeito que sempre quis ser. Com um olhar em volta, viu toalhas e pantufas antes de uma das funcionárias tocar em seu braço e indicar o caminho até poltronas grandes e confortáveis, que foram um alívio para os seus pés. Em poucos minutos, uma delas retornava com uma arara móvel, exibindo diversos cabides como um leque, carregando os conjuntos de lingeries mais lindos e escandalosos que ela já tinha visto.
  — Fala sério... — murmurou quando viu Candice dar um gritinho de satisfação e acariciar a arara, examinando cada peça com atenção — Você não comprou lingeries novas tipo na semana passada?
  — Sim, mas não eram tão bonitas quanto essas — a garota respondeu sem desviar os olhos. Aquilo era verdadeiro, totalmente condizente com o comportamento consumista de Chaperman. revirou os olhos, encostando a cabeça para trás — E tem mais... — Candice se abaixou um pouco para não ser ouvida pelas mulheres do outro lado — Vou ver Yoongi hoje. Ele merece uma surpresinha.
  — Se for comprar uma lingerie nova a cada vez que ele viaja, não vamos conseguir pagar o aluguel.
  — Não começa, sabe que é meu ponto fraco — ela choramingou, e balançou a cabeça em negação. Recuperando-se rápido, Candice pegou um modelo em roxo e outro em amarelo — O que acha desses?
   ponderou um pouco entre os dois, sabendo que não adiantaria ficar quieta ou mentir porque Candice perceberia qualquer resposta minimamente falsa; um resultado de como era a convivência com ela.
  — O amarelo combina com o seu cabelo. Mas o roxo combina com ele, então fica a seu critério — respondeu severamente e deu de ombros. Candice pareceu pensar, franzindo o cenho.
  — Acho que preto combina com ele.
  — Não, preto combina mais com…
  Ela não terminou a frase. Candice ergueu uma sobrancelha, esperando a resposta.
  — Quem?
   abriu a boca e se sentiu enganada por si mesma. Engoliu em seco, e balançou as mãos no ar, como se não fosse relevante.
  — Não importa, por que não tenta aquele azul escuro?
  — Boa ideia! — Candice largou os outros dois, puxando o modelo indicado e se esquecendo dos lábios ligeiramente trêmulos de há alguns segundos atrás. Mentir era uma merda. Parecia transformar sua voz em vidro; fria e quebradiça. Apesar disso, não precisava se preocupar. Tudo que ela disse poderia facilmente se aplicar a outra pessoa. Todo mundo gosta de preto, oras.
  Candice sumiu no provador por alguns minutos enquanto a cortesia de bolo com café era servida aos montes na mesa ao lado de , que recusava tudo com muita diligência porque ela com certeza não compraria nem um lenço naquele lugar. Enquanto isso, seu celular apitava com novas mensagens de Yoona trazendo relatórios do andamento da criação da proposta que fariam na próxima semana, com Yoona sendo a diretora de arte e sendo a diretora de fotografia. Era algo impensável, maluco, que transformaria seu nome em mais do que as letrinhas miúdas abaixo das fotos dos photoshoots; era algo novo. Se desse certo, portas realmente iriam se abrir e ela não sabia como se preparar para isso. Qualquer pessoa viva ficaria com medo e eufórica ao mesmo tempo.
  Fora Yoona, não havia nenhuma mensagem de mais ninguém que ela esperava; nem Jaehyun, nem Jungkook. Não que realmente esperasse uma mensagem de Jungkook, mas responder os outros era sempre educado, não era?
  Com Candice de volta, veio a esperança de finalmente ir embora e de finalmente continuar redigindo seu trabalho, mas a garota foi direto para a arara de novo, falando alto com uma das vendedoras em prontidão sobre um outro tom de azul que não fosse tão parecido com preto. baixou os olhos, e quando ergueu o queixo de novo, Candice puxava mais dois modelos, um de cada lado.
  — Qual desses?
   largou o celular no colo, olhando com atenção. Um deles era vermelho vivo, com detalhes em dourado que passavam em fitas pelo bojo do sutiã, e uma linha grossa era costurada pela calcinha minúscula, deixando o conjunto inteiro como um pedaço flamejante de pano. O outro era preto, fino e elegante. Transparente na maior parte dos seios e também na calcinha, com detalhes em renda muito bem caprichados e florais. Uma choker estava pendurada bem no meio do cabide, revelando o detalhe adicional da peça, que era prendida bem no meio da barriga e para destacar os seios. Na ponta do cabide, uma outra alça estava presa, que não sabia do que se tratava, mas era tanto preto, renda e couro que ela sentiu um arrepio leve na base da nuca, como se a roupa a intimidasse mais do que qualquer pessoa viva.
  — E então? — Candice voltou a perguntar, e limpou a garganta antes de responder, se desfazendo da adrenalina irracional que a imagem lhe trouxe.
  — O preto. É bem bonito.
  Candice observou a peça com um vinco na testa, encarando dela para como se as duas não combinassem, mas logo abriu seu melhor sorriso e suspirou.
  — Pois bem. Vou ficar com o vermelho então — ela se aproximou de , depositando a peça preta em seu colo — E essa é a sua.
   piscou os olhos para a garota, completamente confusa, levantando-se da poltrona com o tecido nas mãos.
  — Minha?! — ela subiu um tom ínfimo da voz, olhando para os lados enquanto se agitava — Do que você tá falando? Por que eu ia querer uma coisa dessas?
  — Não precisa nervosa, eu sou sua melhor amiga e estou só ajudando você.
  — Ajudando? Como uma calcinha e um sutiã de... — ela pausou, buscando a etiqueta de preço e se segurando pra não soltar um grito — 1 milhão de wons, porra, Candy! Como 3 meses do nosso aluguel podem estar me ajudando?
   arfou em descontentamento. As mulheres ao redor cochicharam entre si, mais tranquilas do que se esperava. Bem, qualquer um já deve ter discutido naquele mesmo lugar por causa dos mesmos motivos.
  — Porque você precisa sair com alguém. Ou melhor dizendo: você precisa urgentemente transar — Candice sussurrou, em um tom óbvio, como se estivesse dizendo algo para que ninguém mais poderia dizer.
  A garota franziu os lábios, lançando um olhar duro para a amiga enquanto soltava a respiração devagar, colocando o dedo indicador na testa enquanto pensava.
  "Essa não. Isso agora não."
  — Candy, que papo é esse? — ela perguntou, devagar e apreensiva.
  — Não me venha com joguinhos e alguma besteira para me enfiar goela abaixo. Acha que eu não percebi nada, ? Por quanto tempo achou que esconderia isso de mim?
   tentou engolir, mas nem a saliva conseguiria passar pelo bolo que formou em sua garganta na hora. Ela agradeceu por não ter aceitado nenhum daqueles doces ridículos e fofos da loja porque todos eles estariam fazendo uma festa agora em seu estômago completamente contraído, implorando para sair.
  — O-o que... Do que você está falando? — ela gaguejou, o que era péssimo porque Candice não era tão tonta e ela não era tão boa mentirosa quanto pensou que estava sendo no último mês. Não quando Candy parecia estar sendo tão específica.
  Os olhos dela se estreitaram. Várias situações passaram voando pela cabeça de com as possíveis possibilidades do flagrante: A chave esquecida de Jungkook, o cheiro de seu perfume que não saía a tempo das paredes até o primeiro horário da manhã, os chupões na base do pescoço e, às vezes, nos ombros; os barulhos estranhos que podiam escapar de seu quarto na madrugada; os passos da madrugada; a expressão de serenidade de na manhã seguinte porque gozar realmente fazia maravilhas com as pessoas, ou...
  — Não se faça de desentendida, sabe bem do que estou falando — Candice disse mais afiada, e se aproximou um pouco mais da amiga. se preparou pra explicar, mas pensando bem, ela corria bem mais rápido do que Candice naqueles saltos — Sei que nosso querido Jeong Jaehyun tá agindo ultimamente como um belo tesourinho lapidado e decidiu ignorar suas mensagens.
  Uma carga do tamanho daquele shopping flutuou ligeiramente para fora dos ombros de , que soltou a respiração em alívio, que passou despercebido por Candice. Ela estava falando de Jaehyun, é claro, não seja idiota, como ela descobriria de Jungkook?
  — Ah... Isso... — Foi a melhor resposta que conseguiu dar, já que o sangue ainda estava esfriando — Não tem nada demais, Candy, ele tá em turnê, não deve poder ficar mandando mensagens o dia todo.
  — Corta essa, , esse garoto te mandava relatórios fofos com fotos dele por e-mail, e-mail! Quem tem esse maldito hábito hoje em dia? E agora com a praticidade de um celular, ele resolveu ignorar tudo? Quando as coisas ficam mais fáceis, ele perde o interesse, é isso? — ela grunhiu, e queria dizer alguma coisa que a fizesse se acalmar, mas não tinha. Ela tinha jogado os fatos sobre a mesa e eles estavam bem expostos, todo o conjunto deles.
  — Eu não sei, pode estar acontecendo alguma coisa — ela disse em voz baixa, porque aquela possibilidade já tinha ido e vindo várias vezes, mas parecia algo difícil de imaginar, e às vezes ridículo, mas não era impossível.
  O tom dela não demonstrava acusação, muito pelo contrário. Demonstrava compreensão. Não se exigia algo de alguém quando você ainda não estava disposta a dar de volta.
  — Deve estar comendo umas americanas por lá, é o mínimo. Você não se preocupa com isso? — perguntou com insolência. se mexeu em seu lugar, incomodada com o tom.
  — Não, Candy, por que eu faria isso? Nós não temos nada.
  — Mas você gosta dele, e estavam naquela fase de beijos e abraços...
  — E daí? Gostar de alguém não é compromisso. E nem sei se teremos um — arqueou as sobrancelhas, em um tom específico que vedava todo discurso romântico de Candice, que não vivia exatamente o que falava, mas tinha uma mente muito mais sonhadora em relacionamentos do que — Agora será que nós podemos...
  — É exatamente por isso que você precisa dela! — Candice a interrompeu, empurrando o conjunto novamente para — Olha, eu não quero me meter entre você e Jaehyun, sei que ele é um cara legal e que provavelmente tem o mesmo pensamento frio que você quando o assunto é se jogar e se divertir, mas esse lance tá muito incerto e muito instável, nada te impede de aproveitar a vida e descobrir novos sabores enquanto ele não volta. E um segredo não mata ninguém, essa é a magia de não se colocar uma aliança de compromisso.
  — Compromissos não são definidos por anéis, Candy.
  — Eu sei, acha que eu nunca vi Out of Africa? Compromisso é sentimento, conexão, pertencimento, é separar o cérebro do coração e ver que as duas coisas pensam na mesma pessoa. É uma coisa de louco, , desse tipo que só acontece uma vez na vida, tenho certeza. Mas isso não quer dizer que, pra se jogar no meio dessa selva romântica, você precise viver num regime celibatário.
   soltou uma risada perplexa, sacudindo a cabeça
  — Descobrir novos sabores pra você é sair e transar com qualquer um?
  — Eca, não qualquer um, é lógico. Mas transar, sim! Francamente, quando você vai relaxar e abrir essas pernas pra algum homem te deixar gozar de verdade? Vai por mim, é incrível!
  O espaço entre as duas caiu em um silêncio mortal. Candice olhava fixamente para a amiga, convicta do argumento. mordeu o lábio, passando uma das mãos no rosto enquanto pensava em uma forma de acabar a conversa que não incluísse dizer: é, Candice, sei muito bem os benefícios de abrir as pernas para deixar um cara me fazer gozar, ando fazendo muito isso ultimamente, sabia? Mas infelizmente não posso te contar porque ou você me mataria, ou mataria ele ou se mataria porque tenho total consciência de que eu poderia estar trocando fluidos corporais com qualquer cidadão que resida no planeta Terra, menos com o cara que me humilhou, quebrou minha câmera e pensou várias e várias vezes em me dar um belo boicote desde que me viu nesse país, mas olha só, infelizmente ele era tão gostoso quanto era desagradável. Agora podemos ir embora?
  De qualquer forma, Candice ainda estava encarando.
  — Estamos mesmo falando disso?
  — Claro que estamos. Olha pra você, . Tão linda, tão inteligente, competente e prestativa, esses coreanos são lerdos mas não são loucos. Você está num país novo com uma aura nova, pode muito bem começar a conhecer outros caras.
  — Eu não quero conhecer ninguém, Candy. Tô bem do jeito que estou.
  — Como alguém fica bem quando só transou uma vez na vida quando estava prestes a se formar na faculdade?
   olhou fixamente para as próprias mãos, que ainda seguravam o tecido. Era fácil se esquecer do quanto Candice sabia sobre a sua vida, das situações agradáveis às desagradáveis, quando sua vida andava sempre tão parada. Não poder compartilhar a montanha russa que andava vivendo atualmente com um cara do seu ciclo social era mais sufocante a cada vez que focava nisso.
  Mas não tinha necessidade de se abrir sobre algo que não duraria para sempre.
  Candice se aproximou de com um suspiro.
  — , você precisa dar a volta por cima. Desde aquela confusão por causa das fotos, houve uma virada muito brusca na sua vida, mas às vezes situações inesperadas nos pegam e a vida guarda coisas ainda melhores. E não se esqueça: karma is a bitch! Você não fez nada de errado e exatamente por isso precisa aproveitar — ela puxou seus pulsos para cima, balançando a lingerie na frente de seu nariz — E essas coisinhas só ajudam a acelerar o processo. Trepar também é um jeito de recomeçar!
  — Candy! — enfiou o rosto nas mãos, porque a voz de Candice passava facilmente do ponto em lugares públicos — Dá pra gente falar disso em casa? Por favor.
  — Tudo bem... — Candice deu um suspiro contido — Mas o que você acha do Gook-do?
  — O quê?! — abriu bem os olhos.
  — É, meu assistente! Você lembra dele? O coitado tá passando um período de especialização longo demais em Xangai mas vai estar de voltar daqui há duas semanas, o que você acha de um jantar, um cinema, uma coisinha bem brega que combine com essa belezinha aqui... — ela voltou a apontar para a roupa, que aproveitou para largar de vez em suas mãos, com os dentes cerrados.
  — Eu não vou sair com o seu estagiário, Candy, pelo amor de Deus. E eu não quero uma lingerie, nem encontros, nem preciso transar com ninguém desconhecido. Vou te esperar lá fora, não demora.
  — , qual é, todo mundo precisa transar, é biológico! Eu aceitaria se você saísse da seca com qualquer um que quisesse, até mesmo com aquele idiota do Phil.
  — O Phil?! Sério isso, de todas as pessoas?
  — O que foi? Achei que essa seria sua forma de agradecê-lo depois do plano no VMA.
  — Um plano que deu ridiculamente errado, não teve o que agradecer.
  — Não por culpa sua, . Foi tudo culpa daquela vaca e culpa daquele escroto do James que com certeza também estava transando com ela.
  — Dá pra parar de ficar falando a palavra transar sem parar enquanto segura essa coisa? — olhou para os lados, percebendo a atenção redobrada das curiosas de pé enquanto as duas garotas continuavam discutindo em frente ao provador.
  Candice verificou os olhares, dando de ombros.
  — Estamos falando em inglês.
  — Você acha mesmo que numa loja dessas as vendedoras não entendem inglês? — disse em tom óbvio, que foi confirmado quando Candice virou a cabeça e viu a vendedora desviar os olhos na mesma hora, pega em flagrante.
  Candice suspirou, dando um sorriso forçado enquanto se voltava para , que ainda encarava o pedaço de pano com certo temor, mas odiava admitir como se sentia tentada por todo aquele preto.
  — Tudo bem, mas eu falo sério. Você é incrível e prometeu se reerguer quando entrou naquele avião. Sei que mudar seus planos de uma vida foi um baque, mas a vida continua babe, já cantava meu macho e companhia. Tá na hora de se reinventar, redescobrir a mulher incrível que tem aí dentro dessas roupas horríveis — ela fez careta para a camiseta simples e os jeans claros de . A garota suspirou, apertando um pouco mais os olhos para aquela peça e a encarando com reflexão, se imaginando dentro dela por alguns instantes, e sentindo um certo poder  — Já ouviu falar de encontro às cegas? É bem comum por aqui, posso te arrumar um e...
  — Deus do céu, não — bufou, largando a roupa nos braços de Candice, acordando em um estado aterrorizado da imaginação — Estou com fome, podemos ir embora? E esquecer esse assunto de uma vez, por favor, sim?
   bufou, começando a caminhar para a entrada.
  — , espera! — Candice disse um pouco mais alto, mas foi completamente ignorada — Eu ainda nem falei dos benefícios à saúde.
   desapareceu pela porta, pensando seriamente que obrigaria Candice a pagar um jantar com filé mignon depois de todo aquele papel dentro da loja, e somando com a tarde inteira envolvida com gastos supérfluos a que foi submetida. Ridículo, era isso que o discurso de Candice era, completamente ridículo.
  Candice muitas vezes chamava para sessões de tarô conjuntas, ou ainda frequentar praças públicas onde existiam mulheres sentadas em toalhas coloridas que diziam saber interpretar os sonhos e tantas outras situações que só podiam ter 100% a ver com Candice Chaperman e 0% de , mas raramente Candy usava seus dons de meter em ocasiões inusitadas e ela ficava tão incomodada com isso.
  É só uma lingerie. Por que senti que se passasse mais um minuto ali, aquela coisa me atacaria?
    E pior: por que eu QUERIA isso?
  Que besteira. A origem daquele medo e desejo misturados não fazia sentido nenhum.
   nunca pensou em conhecer alguém. As pessoas que faziam parte de seu ciclo simplesmente tinham vindo, aparecido sem avisar, postas ali por puro acaso. Se relacionar intimamente com elas era ainda mais difícil, então era confortável ficar onde estava e mantendo o que já tinha em vez de sair e desbravar sentimentos e pessoas desconhecidas que poderiam ser legais, mas também poderiam não ser.
  Muita gente que parecia legal já tinha passado por essa estrada e acabavam empurrando-a para o precipício abaixo no fim.
  A questão do sexo era a mesma linha. Existiu Tomás, que pareceu muito legal e divertido ao dar uma atenção a mais para a garota quieta da biblioteca da universidade e chamá-la pra uma festa de república onde ela não conhecia ninguém, apenas pra conseguir beijá-la, pagar de atencioso e puxar suas mãos até o quarto no segundo andar, onde teve a pior primeira vez de todas as primeiras vezes porque meter e gozar em menos de 10 minutos não era uma foda de verdade, e nunca mais ligar ou mandar mensagens ou até mesmo cumprimentar pelos corredores não chegava nem perto de uma relação, ou a intenção de uma. Era ridículo como as pessoas eram interesseiras e babacas, e em como garotos se atraem pelo difícil e negligenciavam o famigerado fácil, que nem era tão fácil assim. Não foi nada fácil aceitar o convite de Tomás, não foi fácil sair para uma festa quando ela guardava cada centavo e não foi fácil deixá-lo fazer o que fez, mas gente egoísta só via o que queria ver.
  Existiu Phil, que já se mostrou como um tremendo babaca desde o primeiro cumprimento, e que era o exemplo perfeito do que esperava que existisse por aí: homens como Phil, preocupados apenas com bocetas fáceis e sem dor de cabeça, dispostos a qualquer ação minimamente gentil para conseguirem alcançar o emocional frágil de uma garota e pegarem o que queriam. Ele não era muito diferente de Tomás, mas tinha o diferencial de ser sincero. Ninguém ia pra cama com Phil esperando café da manhã e ligações posteriores. Quem caía nessa, estava caindo com consciência.
   ponderou muito em cair com consciência, mas toda a merda aconteceu antes e Phil não moveu um único dedo pra fazer alguma propaganda benéfica ao seu favor. Claro, por que faria? Ela o negou até o último segundo.
  Existiu Jaehyun, o primeiro que desestabilizou todo o conceito já bem estabilizado que tinha sobre homens no geral. Era gentil de verdade, atencioso de verdade, divertido e meigo. Um tipo que ela já tinha encontrado, mas sempre era melhor não arriscar. Ela também pensou que não era bom arriscar quando se tratava de Jaehyun no começo, mas em momentos de grande fragilidade, era fácil deixar seu coração vulnerável a pessoas que te apoiavam. E ele estava ali, na hora certa, quando tudo estava desmoronando, dizendo que acreditava nela e que estava tudo bem ter o mundo contra si. A verdade nunca errava nosso endereço, independente da velocidade que viria.
  Um cara que fazia se sentir tão confiante, tão aberta e tão disposta a lhe fazer bem seria o primeiro a quem ela realmente quisesse dar tudo. E nessa pressa de querer isso, travar completamente no meio do caminho. Ela queria Jaehyun, queria de verdade, e queria tanto que entrou no modo de perfeccionismo e sentiu pavor da possibilidade de que ele descobrisse seus defeitos e sua falta de experiência. Isso não a tornava autêntica, muito pelo contrário, isso a afastava totalmente da verdadeira , que não escondia seu verdadeiro eu pra agradar um cara, mas eram atitudes que tomava sem perceber. Jung Jaehyun era perfeito, ela só queria que ele a visse da mesma maneira.
  E então existe Jungkook. Não tinha muito o que falar sobre Jungkook. Ele era como uma junção de todos os caras anteriores: babaca, sincero, gentil e com o bônus de ser completamente odioso. Nesse quesito, sabia separar as coisas; Jungkook era um cara legal, só não tinha sido um cara legal com ela. E depois de Tomás, era praticamente uma distorção de princípios se envolver com um cara que abertamente gostava do difícil, mas era muito mais apaixonado pelo fácil. Talvez porque tudo para ele fosse fácil, ainda mais quando precisava ter uma mulher na cama, e quem diabos diria que uma delas seria ? Nunca. Jamais. Até hoje ela se tocava de que a ficha ainda estava presa por uma pontinha, sem cair totalmente.
  Jungkook era uma bagunça, e ainda era complicado pensar que o odiava, mas tinha cada vez mais vontade de arrancar as roupas na frente dele e receber aquele olhar de admiração e luxúria. Era como se sentir livre e poderosa, desejada, não importava pelos olhos de quem fosse. E com ele, não existia a necessidade de parecer perfeita e adorável, como uma garota devia ser pra ficar com Jaehyun. Jungkook não era como Jaehyun, nem chegava perto disso. Ele não prestava para as coisas que ela almejava com Jaehyun. Mas era um cara que despertava algo vivo e selvagem dentro de , algo verdadeiro, como se estivesse ali sempre, em estado de hibernação. Se esse era o tipo de maravilha que Candice disse que o sexo fazia, podia dizer que entendia MUITO bem do que ela falava.
  E toda a roupa e a imposição que ela trazia remetiam diretamente a ele, como se sentisse os pensamentos de . Bizarro, ridículo. Excitante também, mas ridículo. Tão perturbador que a fez ficar pensando como seria entrar dentro dela e tomar o controle da situação.
  Como Jungkook se sentiria sendo o cordeiro em vez do lobo?

⏩⏩⏩

  Hilary sentou-se afastada novamente na volta para Los Angeles, não que ou Candice dessem importância para isso. A ruiva sorriu maliciosamente ao encará-las e voltou a virar para frente, o que foi bizarro. já se preparou para dormir de novo até o caminho para LA, mas não sabia se conseguiria. A noite passada não foi nada fácil. Os destroços da câmera estavam guardados em uma bolsa separada. Ela tentaria argumentar com James que o equipamento só havia quebrado porque tinha dado defeito na hora de seu plano, o que não era mentira. jamais saía de casa com menos de 100% de bateria.
  As palavras de Jungkook iam e vinham de sua mente, e a impossibilitavam de dormir. Ficavam pairando por vários instantes, junto com sua expressão triste ao encarar o celular. O que podia estar acontecendo entre aqueles dois?
  O avião pousou e ela saiu para a área de desembarque com Candice. Era quase noite, mas ela sabia que não se livraria de mostrar o material a James antes que pudesse ter a chance de pisar em casa.
  Fez questão de pegar um generoso copo de café assim que pisou na empresa. Ao final do expediente, não havia quase ninguém por lá. Candice entrou primeiro na sala e levou pelo menos meia hora para mostrar toda a cobertura completa que havia feito sobre o evento. não duvidava que o trabalho estivesse impecável. Ela olhou ao redor e não vi Hilary em lugar nenhum — talvez ela tivesse preferências em mostrar o trabalho amanhã. Por um momento, desejou que ela tivesse se saído melhor no trabalho e que James não publicasse sua capa, mas isso era impossível. Mesmo que o flagrante sobre Jungkook não estampasse a capa do mês, a partir do momento que James colocasse os olhos naquilo, iria pro ar.
  A garota foi ao banheiro e jogou uma água no rosto, agradecendo pelo café tê-la deixado mais desperta. Quando voltou para o escritório, viu uma Candice abrindo bruscamente a porta da sala de James, olhando para todos os lados.
  ! — ela gritou, balançando os braços — Entra aqui agora!
  A amiga a olhou confusa, mas prontamente pegou suas coisas e entrou. James estava de pé, escorado em sua mesa e Hilary estava em uma das cadeiras à sua frente, lançando-lhe um sorriso venenoso.
  Olhou para Candice e teve certeza de que nunca a viu tão vermelha.
  — Ela vai te mostrar! Eu estou te dizendo, essa matéria é dela, essa vaca a roubou! — Candice gritou para James, afastando a mão para o alto. Mas o que estava acontecendo?
  , quero que me mostre o que conseguiu em NY — James falou para .
  Ela olhou para todos na sala e foi até a mesa do chefe. O clima estava estranho e pesado, e que horas Hilary havia entrado?! Colocou a câmera e a bolsa na superfície, lançando um olhar sem graça para ele.
  — Tive problemas técnicos — apontou para o objeto estragado — A câmera estava defeituosa, a bateria deve estar viciada, ela descarregou no meio do meu plano. Mas consegui um bom material.
  Ele levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Ela pegou o notebook, que já estava com o cartão e abriu a pasta do arquivo.
  E não havia absolutamente nada.
   olhou para James, depois para Candice. Ela estava com um olhar assassino.
  — E então, ? — James insistiu, mas parecia retórico. Ele sabia que ela não tinha nada.
  — James, eu… — ela tentou dizer, apertando em todos os botões, colocando e tirando o cartão novamente — Eu juro, estava aqui…
  — Você não tem nada — ele afirmou, não era uma pergunta. Um desespero silencioso começou a tomá-la. havia revisado tudo, estava tudo certo, para onde haviam ido os arquivos?
  — Eu estou te dizendo, ela tem os arquivos! Ela me mostrou em primeira mão — Candice havia colocado as palmas em cima da superfície da mesa, rosnando para James — Essa vaca não flagrou o JK no set, ela nem faz ideia do que passou pra conseguir essa foto!
  Confusa, olhou para Hilary. Ela estava a calmaria em pessoa, com um olhar tranquilo, despreocupado. Olhou para o notebook à frente dela e puxou-o bruscamente no automático, olhando o conteúdo.
  Todas as fotos que estavam no seu cartão apareceram ali, absolutamente cada uma delas. As fotos de perfil de Jungkook, as fotos da garota em excelente qualidade e até a conversa do aplicativo. olhou para ela, ignorando o fato de James ter se levantado.
  — O que é isso? Essas fotos são minhas! — aumentou o tom de voz, e não havia nada mais explícito para demonstrar sua raiva — Como você conseguiu isso?!
  — Já chega, — James tirou os óculos. Surpreendentemente, ele estava calmo como um buda. Parecia que já esperava sua reação — Você foi a NY e não conseguiu nada, já havíamos conversado sobre o que aconteceria sobre isso…
  — James, eu invadi a porra do VMA! Nunca corri tanto risco de ser presa na minha vida, eu tirei essas fotos! Hilary não estava em lugar nenhum, ela deu um jeito de roubar esses arquivos, ela…
  — Quer mesmo que eu acredite que você invadiu uma premiação? — um vinco se formou em sua testa e soube claramente que ele não acreditava em uma palavra do que ela disse — E outra, as câmeras passam por uma revisão semanal, você bem sabe disso. Nenhuma delas disponibilizadas a vocês pra viagem foram defeituosas, o que me faz pensar que você deu um jeito nisso para explicar a sua falta de material hoje.
  — O que?! — e Candice gritaram ao mesmo tempo.
  — Você perdeu a cabeça! — Candice rosnou.
  — Como pode falar isso? Eu jamais estragaria uma câmera do escritório de propósito pra explicar uma falta de competência! E sim, eu invadi uma premiação porque estava levando a sério esse trabalho como nunca levei antes, eu estava pensando o tempo todo na sua carta de recomendação e no meu mestrado!
  James desviou os olhos.
  , do que está falando? Eu nunca te prometi carta alguma.
  O queixo dela caiu. Candice já estava arrancando os cabelos de ódio e Hilary soltou uma risadinha. Se não estivesse tão estática, a faria engolir a própria língua.
  — Bom, eu tinha dito que quem trouxesse a melhor capa ficaria com o emprego. Hilary me trouxe um material excelente, e você… Sinto muito, mas vou ter que demiti-la. Não só pela falta do trabalho que eu pedi, mas pela falta de profissionalismo em relação aos seus colegas e por danificar propositalmente o material de trabalho. Em consideração a todo o seu tempo aqui, não vou pedir que pague pelo conserto.
  Ela achou que explodiria ao ouvir isso, mas não o fez. James era um cretino e havia mentido pra ela. Hilary havia roubado seu material de maneira inescrupulosa, e ela não podia conter o nojo que sentia dos dois. Não acreditava que tinha arriscado sua carreira — ou a chance de ter uma — e sua dignidade por acreditar em uma promessa vazia.
   sempre teve dificuldade em confiar nas pessoas. Até Candice, que era o mais próximo de uma família que ela tinha, não sabia de todos os detalhes a seu respeito. Achava melhor assim. Não queria ninguém invadindo a complexidade do seu mundo, e, mesmo perseguindo celebridades em busca de algo pessoal a relatar, ela sabia que uma foto não dizia quem a pessoa realmente era. Mas isso não significava que as pessoas tentariam dizer.
   jogou o notebook com força em cima da mesa, fazendo Hilary chiar. Lançou um olhar de desprezo para os dois, em seguida jogando seu crachá no chão.
  — Te vejo em casa, Candice — saiu o mais rápido que pode, sem se importar com os protestos e bate boca que ela ainda iria manter com James e Hilary.
  Ela queria chorar, mas não iria conseguir. Tudo que queria era chegar em casa e se afundar nas cobertas. Não foi a primeira vez que sofreu uma injustiça. Talvez fosse a primeira vez que ela havia sido tão descarada, maldosa e inescrupulosa. Mas James havia lhe vendido um sonho falso, recheado de mentiras, e ela não conseguia chorar por isso. Não conseguia remoer o mau caratismo dos outros, ainda mais de terceiros. Ela choraria se fosse ela a pessoa que tivesse mentido e enganado.
  Mas ainda estava entorpecida com toda a situação, como se a ficha ainda não tivesse caído. Ela queria se distrair refazendo seus passos, tentando adivinhar em que maldita hora Hilary havia roubado seu material e como foi estúpida de não ter percebido. Mas nem sentir raiva parecia fazer sentido agora, já que James havia comprado o papo dela. E não seria mais responsável por nada daquilo.
  Entrou no apartamento e pegou uma das cervejas de Candice, não se importando quando teria de pagar. Se fosse pensar sobre aquelas coisas agora, iria enlouquecer. Não queria se desesperar, mesmo que estivesse tentada a isso. Teria de procurar um emprego novo assim que o sol nascesse. Um que ela não precise tirar foto de pessoas alheias e observar suas vidas sendo distorcidas por puro entretenimento.
  Candice chegou pouco tempo depois e parecia bem irritada.
  — Você acredita que aquela vagabunda confessou que roubou seus arquivos no hotel ontem e ainda por cima te sabotou?! — ela espumava de raiva, jogando a bolsa no sofá e vindo ao encontro de na cozinha — Ela trocou a bateria da sua câmera para que você não conseguisse fazer absolutamente nada, as fotos do Jungkook foram um presente, ela disse com essas palavras! — ela grunhiu, sentando-se — Claro que ela não teve a decência de falar na frente daquele tapado do James, mas eu a encurralei no banheiro depois e ela contou tudo, timtim por timtim! Eu tô com tanto ódio! — ela puxou um cigarro escondido dentro do vaso de flores artificiais no centro da mesa.
   a encarou  como uma advertência, mas por fim balançou as mãos, como se estivesse dando-lhe permissão. Ela havia sido uma boa madrinha de reabilitação até agora, mas hoje não estava afim de impedir nada. Candice tragou o cigarro, ainda ofegante pela raiva.
  — Se ela aparecer na minha frente amanhã, eu juro que vou…
  — Candy, pode se acalmar. Eu já estou melhor.
  — Como você pode estar melhor?! Esses dois te sacanearam, ! Você se arriscou nesse maldito trabalho pra no final ter tudo roubado por aquela songa monga desgraçada, e James ainda ter mentido sobre sua carta, e Londres…
  — Eu não quero falar de Londres — falou, cabisbaixa — Na verdade, eu não quero falar de nada disso. O tempo que eu vou gastar reclamando e me remoendo é o tempo que eu preciso pra procurar um emprego novo.
  — Eu posso te ajudar nisso! O meu pai…
  — Candy, não! Já conversamos sobre isso. Posso fazer as coisas sozinha. Eu vou ficar bem, eu te garanto.
  Candice encarou a amiga cheia de pena, mas não se importou. Pegou a cerveja e lhe desejou boa noite antes de ir para o quarto.

❬📸💔❭

  — E dizem que ele fez uma tatuagem nova, não é legal? — Candy disse ao largar os sapatos na soleira da porta, como bem enraizado na rotina. soltou um sorriso fraco, tendo consciência de que não precisava mesmo ter redes sociais para saber das últimas novidades sobre Jungkook — Eles estão tentando tirar fotos da entrada da Casa Azul, mas quem essas Armys de 12 anos pensam que são? Francamente.
  — Você não faria a mesma coisa?
  — Eu me esconderia melhor — ela piscou um dos olhos, largando uma das bolsas em cima do sofá — Mas agora vou ter que usar minhas melhores habilidades para me infiltrar naquela casa enorme e puxar aquele homem pelo colarinho. O que você vai fazer hoje?
  — Com certeza não ficar imaginando isso — suspirou, largando todas as bolsas que marcavam seus braços. A única coisa que a pertencia no meio de todos os objetos era uma cordinha de suporte para câmeras analógicas. Foi uma bela pechincha, nos limites de Gangnam.
  — Que deprimente, ! Olha, tem um cara lá na redação… — Candice começou e voltou o rosto ligeiramente, cerrando os olhos para que ela parasse onde estava. Candy entendeu o recado, levantando as mãos em rendição — Tudo bem, vou tomar o meu banho.
  Candice seguiu pelo corredor, enquanto passava as mãos pelo rosto e tentava pensar em como agora se livraria daquela insistência, que já havia estado uma vez e se livrado — não era como se Candy nunca tivesse tentado arrumar alguém pra ela. Mas, daquela vez, era diferente porque não estava exatamente sem ninguém. Não que ela e Jungkook tivessem algum compromisso, muito menos ela e Jaehyun, mas a área sexual de sua vida estava preenchida e isso é o que importava.
  Quando Candice voltou à sala depois de algum tempo, travou onde estava na arrumação rápida da prateleira industrial, onde guardava as caixas das câmeras. O perfume foi o primeiro a atingi-la, e depois toda a imponência de Candice Chaperman em uma vestido vermelho que, por mais que fosse simples, se transformava em luxo naquele corpo escultural. Era como se só ela existisse naquela sala, e não passasse de uma sombra. Não era como se não fosse verdade, e não era como se se importasse, só era um fato e pronto. Estando naqueles saltos, ela ficaria uma cabeça mais alta que Yoongi, mas com certeza o deixaria mais jovem. E estando deitados...
  — O que você achou? — ela deu uma voltinha, os saltos batucando no piso. sorriu, vendo o brilho dos brincos enormes fazer um reflexo na janela.
  — Você está perfeita, Candice. Uma verdadeira gata selvagem — fez um sinal de OK com os dedos, algo também muito usado nas sessões de photoshoot, e Candy suspirou, olhando para o espelho da sala que tinha sido instalado ali por ela mesma, que postava fotos de seus looks empresariais no Instagram diariamente.
  — Gata selvagem?! Eu sou uma leoa — ela deu mais uma piscadinha e puxou o telefone que vibrava na bolsa. Com um gritinho, começou a caminhar para a porta — Vou nessa, babe! Te vejo amanhã! Ou não — ela destrancou a porta e se preparou para sair, mas virou-se para trás novamente — E não se esqueça: novas possibilidades! Ampliar visões! Sair da concha! E nunca se esqueça: eu amo você!
  Com um beijinho no ar, ela fechou a porta e seus saltos puderam ser ouvidos do corredor.
   permaneceu parada, com as sobrancelhas juntas misturadas com um sorriso, sibilando para si mesma enquanto andava até o banheiro: O que é essa garota? Que maluca…
  Quando saiu de seu próprio banho, ela abriu a porta do quarto e se preparou para puxar alguma roupa confortável do fundo da gaveta quando viu um pacote de chocolates em cima de sua cômoda, os mesmos chocolates recheados que Candice sabia que ela amava. Ela estalou a língua, deixando um sorriso escapar, sem pensar em algum interesse interno que poderia morar ali. Sem ainda ter se virado para a cama e ver o outro pacote embrulhado em papel manteiga dentro de uma caixa cor-de-rosa.
  A mesma caixa que estampava o nome da loja de lingeries de mais cedo. Não tinha como não reconhecer, o nome piscava em dourado, parecendo um soco. O sorriso de diminuiu, gelando seu rosto. Ela trincou os dentes, abrindo a caixa, dando de cara com o conjunto em preto, aquele que ela tinha encarado mais cedo, aquele que parecia falar com ela e vibrar algo dentro de seu peito.
  Maldita. Como pude acreditar que Candice sairia de lá de mãos vazias?
   fechou a caixa rápido, colocando-a em cima da escrivaninha, desviando os olhos e pensando em invadir o quarto de Candice e jogar a caixa em qualquer espaço, planejando uma bela discussão quando ela voltasse.
  Mas então, a vontade de olhar mais um pouco a fez ficar de frente com o embrulho, encarando aquela coisa que já estava ali, implorando para ser provada. Experimentada.
  Que mal faria uma espiada rápida? E depois ela devolveria para Candice.

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  Jungkook afrouxou a gravata imediatamente quando saiu para a brisa quente de Seul.
  A cabeça doía menos do que antes, graças ao monte de aspirina que Namjoon tinha conseguido, com uma cara nada satisfeita para o garoto, mas sem nenhuma surpresa com isso. Já era esperado que Japão significava Sunny e que Sunny significava ressaca, e não havia nada a ser feito sobre isso. Mas a noite de ontem pareceu ter sido um pouco mais intensa do que as demais porque Jungkook estava mais calado do que nunca.
  Fora que não tinha tocado no celular, e nem dado muita conversa que não fosse sobre o trabalho e a reunião que teriam logo mais na Casa Azul. Como um evento importante, Jungkook se martirizou ainda mais por não ter pegado mais leve na vodka e se lembrou de todos os seus anos de experiência em fingir sobriedade quando estava morrendo por dentro. Só assim conseguiu passar por todas as horas naquela sala oval sem grandes problemas, pelo menos externamente. Ele ouviu as perguntas de Yoongi em tom preocupado, e garantiu mais uma vez que tudo daria certo.
  Pelo menos era Namjoon que iria discursar, ele só precisava ficar de pé.
  Ao contrário do que parecia, a irresponsabilidade de Jungkook não era mais tão comum como quando migrou de um adolescente para um adulto rápido demais. Agora, ele sempre bebia pensando no dia de amanhã, falava e se portava com plena consciência de que milhões de pessoas estavam olhando e agia com sensatez quando sua vida pessoal estava envolvida. Mas depois da conversa com Jaehyun, as coisas ficaram um pouco atribuladas demais. Mais do que o normal, de um jeito totalmente perturbado. Bêbados não deveriam se sentir tão culpados, e bêbados não deviam tomar decisões, essa era a mais nova lição tirada do dia anterior.
  Lá fora, ele andava com os olhos para baixo, colocando as mãos nos bolsos enquanto pensava em chegar em casa e não fazer absolutamente nada até que decidisse ligar aquele telefone de novo. Ou até que decidisse fazer o que tinha que ser feito.
  — Você ainda tá um lixo, não importa quanto de perfume tenha passado — Taehyung murmurou enquanto caminhava ao seu lado, sem olhá-lo. Haviam fotógrafos entulhando as calçadas, e isso significava que, mais do que nunca, Jungkook precisava estar alerta a todos os olhos postos em cima de si, mas os flashes pioravam sua dor de cabeça e ele estava pouco se importando se aparecia nas fotos com a expressão nítida de mau-humor depois. Todo mundo tem dias ruins, entenderam, gente? Dias de merda acontecem, não importa quais sejam os motivos.
  — Obrigado por avisar — ele resmungou com ironia, e sentiu o braço de Tae passar pelos seus ombros, colando sua boca em seu ouvido em seguida:
  — Dê uma risada agora para que não pensem que você perdeu um parente ou coisa parecida ou vou mandar o Nam fazer isso pessoalmente — dava pra sentir o amigo sorrindo, mesmo sem olhar pra ele. Jungkook virou a cabeça para Tae de imediato, abrindo um sorriso forçado, mas que pela prática de anos, pareceu sincero e absoluto. O carro já estava chegando, só mais um pouco, mais um pouco e então ele poderia fechar a cara em paz.
  — Você tá agindo como um perfeito filho da puta que sempre foi.
  — Eu sei, é o meu charme — Taehyung sorriu e finalmente andou na frente para entrar na enorme van preta e brilhante, fechando a porta logo depois de Jungkook, calando todos os flashes da rua.
  — O que você tem hoje? — Jin perguntou com um cutucão de ombros enquanto os outros se ajeitavam. Jungkook apenas balançou a cabeça, como se não importasse.
  — Nada, só a ressaca — ele murmurou, sem mais um comentário sequer, e encostou a cabeça para cima, sentindo a dor de cabeça passar, mas outra coisa muito mais cansativa ainda continuar ali.
  — Ressacas não te deixam com essa cara de cu. No que você se meteu agora?
  — Não me meti em nada, hyung, é sério. Só preciso de água quente e 12 horas de sono.
  — Hmmm. Água quente é sempre uma boa — Jin falava com o nariz grudado no celular, e um toque em seu ombro o fez pegar um outro e deslizar para o colo do maknae — Aqui, seu telefone estava quase caindo da sua mala. Desde quando você anda por aí sem bateria?
  — Não tá sem bateria, só tá desligado.
  — E desde quando você desliga essa coisa? Ele é quase um terceiro braço seu.
   "Pra você ver como eu estou fodido, e nem sei direito o porquê", Jungkook pensou, traçando um sorriso fino nos lábios e encarando o telefone apagado antes de guardá-lo no bolso da frente do blazer.
  Alguma hora aquela coisa seria ligada e alguma hora ele teria que enfrentar o que estava do outro lado da tela, ou melhor, do outro lado da cidade. Mas por agora, ele realmente só queria um banho e um pouco de paz.

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  A rota para casa não veio de imediato.
  A van estacionou exatamente na entrada exclusiva da Hybe, não operante em um sábado à noite, mas esse tipo de coisa nunca era aplicável ao BTS. Jungkook desceu logo depois de Jimin, murmurando algumas palavras em voz baixa com o manager, que indicou a mesma Hyundai Palisade preta estacionada junto com os outros, onde todo o roteiro e programação da próxima semana seriam entregues nas mãos dos sete em breve, que se preparariam para outra viagem à Califórnia no próximo mês. Jungkook assentiu, agradecendo as informações e se despediu de um jeito rápido de todos, que recebiam as mesmas informações individualmente.
  Antes de entrar no carro, ele viu Yoongi quase bater os joelhos nos pneus de trás do seu próprio, concentrado no seu telefone em um sorriso pleno e enorme, um que Jungkook nem sabia que ele era capaz de dar. Algo o dizia que sabia exatamente com quem ele estava falando, e aquilo piorou ainda mais sua dor de cabeça.
  Jungkook recostou a cabeça no banco do motorista por alguns instantes antes de partir. O celular estava jogado no banco do carona, e ele pensou seriamente em ligá-lo e deixar que qualquer mensagem chegasse. Se ela o estava procurando, ele saberia, mesmo que não sabia se queria mesmo saber aquilo. devia estar ocupada, vivendo a vida dela, concentrada nos projetos, trabalhos e seus sonhos incríveis que não abriam espaço pra mais ninguém. Ela não estaria pensando nele, nem em encontrá-lo hoje. Isso era bom, era legal; assim ficaria mais fácil quando ele terminasse tudo aquilo.
  Mas precisava ser hoje?
  Não. Hoje não. Estou cansado, exausto, e vou me preocupar com o que eu estou fazendo com meu pau amanhã. Só amanhã.
  Ele arrancou com o carro, buzinando na saída para uma despedida mútua e entrou na avenida de Yongsan-gu.
  O trânsito não estava cheio, somado com seus pensamentos ridículos e ilógicos. Jungkook apertou no aparelho de som para ligá-lo, esperando que a música encurtasse o caminho e ocupasse sua cabeça com coisas que não o fizessem pensar que era um filho da puta completo e estava em algum lugar daquelas duas pequenas ruas que acabava de passar que desembocariam em Seongdong-gu, sentada em sua cama enquanto lia um livro acadêmico ou tirava e colocava peças de uma câmera, como a perfeita nerd que era.
  O problema é que parecia fácil se esquecer de coisas óbvias e cotidianas quando sua mente estava uma bagunça. Ele não se lembrava de que sua conta do Spotify era a mesma para todas as suas saídas de som e quando a melodia soou, a voz de Daniel Caesar encheu o carro na melhor parte de Transform.

Don't be a fool, baby I know you've changed
  It's in my nature and it's okay (it's okay)
  And I'll be your goddess and you a part of me
  Lay down your pride, lay down with me

  Ele parou por um momento e soltou uma risada sarcástica, pensando em quantas vezes esse álbum deve ter repetido naquela noite até que acordassem e que ele não pararia enquanto JK não mudasse de som, e ele deveria fazer isso agora mesmo porque Daniel agora parecia combinar muito com noites chuvosas, luzes de galáxia e .
  Mas que merda, o que era isso?
  Ele socou o dedo no off com tanta força que se houvesse algo solto no carro, certamente cairia e quebraria. Apoiou um cotovelo na base da janela, passando um dos dedos no lábio inferior, concentrando-se na estrada e pensando apenas em Itaewon. Itaewon que não chegava nunca, Itaewon que tinha sua casa nova, sua piscina, seu estúdio, seus filmes ruins e o quarto de hóspedes bagunçado. Itaewon que não era longe de Seongdong-gu, não era tão longe assim…
  Jungkook bufou, voltando um olhar acusador para si mesmo pelo retrovisor, pensando que não adiantaria de merda nenhuma voltar para casa para dormir quando aquele assunto não permitiria isso de jeito nenhum.
  Então, com um grunhido, ele virou o volante para a outra pista, cantando os pneus enquanto dava meia volta e seguia em direção ao bairro vizinho.

[ 7 ] – What came first, the chicken or the dickhead?

"Sono segmentado colhe recompensas de pensamentos desajustados
﹝...﹞
Você foi amordaçado, confinado e desorientado em um conto
Arrastando-se envolto num suspiro."
— 🖤🎵🎧🎤

   se encarou no espelho, um pouco atordoada. Ela sempre achou que seus olhos fossem seu atributo mais confiável, mas era como se genuinamente visse o reflexo de outra pessoa.
    Outra pessoa que vestia uma lingerie com choker e cinta liga, que pegava até o meio das coxas e a deixava totalmente deslumbrante, energicamente misteriosa, um reflexo do que um dia pareceu ser .
  Sentir um frio na barriga foi inevitável, assim como a vontade de correr e tirar aquilo, como se o globo inteiro do planeta estivesse observando. Era absurdo, supostamente inimaginável, porque coisas assim não tinham nada a ver com ela e ponto final. Não importava o quanto ficasse bonito, ela nunca usaria isso.
  Mas estava sozinha. E sendo invadida por reflexões sobre seu próprio eu, achando que soubesse exatamente tudo sobre si, mas aquele reflexo dizia totalmente o contrário. Por que não admira essa nova imagem um pouco mais? Sem medo, não vai te morder, caramba! Você é gostosa!
  A maldita voz de Candice estava ali, junto com toda aquela renda.
  A no espelho era imaginária e nada similar à da vida real. Mas aquela mulher passava um ar tão poderoso e sexy que ela precisou fincar os pés e girar a perna para uma olhada de perfil. Com os cabelos soltos e ainda um pouco molhados pelos ombros, a imagem parecia ainda mais bonita, e sem ninguém olhando, também parecia confiante, selvagem. Era a personificação daquela personalidade que ela guardava dentro de si, aquela que se revelava com Jungkook, a mulher ardente e intensa que não sabia que poderia existir.
  Ela estava bonita. Pela primeira vez, sentiu como se entendesse a expressão dele quando a olhava.
  Se ele ao menos estivesse aqui...
  O barulho alto da campainha da frente a fez tremer de susto e ela arfou, puxando o roupão em cima da cama e vestindo-o com rapidez, como se tivesse sido pega em flagrante.
  — Candy? — perguntou para o corredor enquanto amarrava as duas cordas. Seu rosto estava queimando, constrangida com o próprio reflexo e mais constrangida ainda por saber que caiu na tramoia de Candice.
  O barulho soou de novo, desta vez com mais energia, e ela soube que não era Candice porque era impossível que a amiga tivesse esquecido a chave em algum lugar e resolvesse voltar para buscar quando ia dormir fora – sem uma data de retorno, mesmo que ela não admitisse. Com um grunhido, abriu a porta com agitação, ignorando o rosto ardendo e topando com o cara de terno encostado no batente.
  — Jungkook. — Ela respirou fundo, franzindo o cenho com a aparição. Alguma coisa quente caminhou em todo seu abdômen, descendo por todo o trajeto até o quadril ao vê-lo, algo de outro mundo e extremamente inconveniente de se acontecer naquela hora. Ele estava tão... — Piercing legal. Não esperava vê-lo aqui hoje.
  — Nem eu — respondeu em tom seco e baixo, com a fisionomia mais séria do que nunca. — Cheguei hoje à tarde, eu e os...
  — Eu sei, Candice não saiu para jantar com os amigos.— Ela deu de ombros, demonstrando como ele não precisava oferecer nenhuma satisfação. Ele assentiu, olhando para baixo. — Acho melhor você entrar, descobri que tem uma Army de 60 anos no final do corredor que vigia nossa correspondência e jura ter visto membros do BTS entrando e saindo daqui de dentro — inclinou o queixo para dentro da casa, indicando que ele saísse da soleira e entrasse. Jungkook anuviou a expressão, apenas apertando os lábios e entrando rapidamente no local —, ela só não sabe dizer quais deles são, e jurou pra Candice que foi mais de um, mas Candy disse que ela é bem idosa e não sabe...
  — ... — Jungkook a interrompeu, a voz repentinamente abafada, as mãos que não saíam dos bolsos para não ficar visível o quanto ele pressionava os dedos. — A gente precisa conversar.
  O tom ligeiramente sério dele não passou despercebido, mas não gostava de adiantar coisas então apenas assentiu, cruzando os braços na frente do corpo, ainda agitada por usar o que estava usando por baixo daquele roupão grosso, como se Jungkook fosse ser capaz de olhar através do tecido.
  — Tudo bem — concordou ela, começando a caminhar para o corredor. — Só vou trocar de roupa...
  — Não precisa, vai ser rápido. — Ele a parou antes que ela alcançasse o destino. A luz da sala era baixa, e viu algo naqueles olhos muito escuros, parecia com uma sombra de indecisão. — Não vou demorar muito.
  — Bem, eu também não. — Ao levantar os ombros, ela voltou a andar. — Pode me esperar lá dentro, Candice ainda pode ter esquecido as chaves ou os brincos novos.
  Sem esperar resposta, ela alcançou o banheiro rapidamente, colocando as duas mãos na cabeça em uma atitude ligeiramente perdida. Por que ele tinha que aparecer agora?! Isso não era justo, não quando todos aqueles pensamentos malucos ainda estavam ali.
  Respirando fundo, olhou em torno do cômodo, procurando os pijamas que guardava dentro das cestas de crochê que Candice havia comprado de uma liquidação, ou na mesma prateleira onde guardavam toalhas, já que morava com uma mulher que era a desorganização em pessoa e colocava coisas onde era mais fácil de pegar, mas não havia nada. Nem mesmo uma camiseta, nem suas calças de moletom de flanelas que Candy já tinha jurado que jogaria no lixo.
  E existia a terrível possibilidade de duas coisas: ou Candice tinha decidido o dia errado para ser proativa e colocar a roupa para lavar ou ela realmente jogou o pijama favorito de na lixeira mais próxima.
  Desgraçada. Candice Chaperman ativava a abolição do réu primário de qualquer ser humano racional.
  Se estivesse com o celular ali, ela certamente ligaria e gritaria todos os palavrões que evitava no dia-a-dia, mas não estava. Ele estava perfeitamente apoiado na mesa de cabeceira, dentro do quarto. O quarto onde Jungkook estava, ou pelo menos deveria estar, com aquela cara séria que nunca tinha visto.
  Apoiando as mãos na pia, ela tentou se lembrar de uma última esperança em entrar no quarto de Candice e pegar alguma coisa para vestir, mas isso já era demais. Era um desespero sem fundamento. Que mal faria em ir falar com ele desse jeito? Toda a montagem erótica estava por baixo do algodão, e não por cima, não seja uma lunática.
  Toda a montagem que ainda estava causando arrepios. Arrepios que vinham da expectativa, antecipação, seja lá do que.
  Ok, não tinha nada demais. Ele só queria conversar. Depois poderia ir embora e ela tiraria aquela coisa. Com aquela expressão, ele certamente estava exausto e não iria estender o que não precisava ser estendido.
  Abrindo a porta, viu que a sala estava vazia e apagada e, há alguns metros, seguiu para a luz amarelada e fraca que escapava do próprio quarto.
  Jungkook estava sentado na beirada da cama, com os dois cotovelos apoiados nos joelhos enquanto uma das mãos se enterrava no cabelo, mantendo os fios para cima. Uma das pernas tremia levemente em clara ansiedade, tão leve que passaria despercebida, mas bem nítida para quem convivia minimamente com ele.
  Quando a ouviu entrar, ele se levantou de imediato, arrumando o cabelo, tentando esconder a imagem de perturbação anterior. Sua garganta emitiu um ruído antes de falar.
  — Não ia trocar de roupa? — perguntou, apontando um dedo reto para o roupão. 
  — É, esqueci que não estavam lá. — fechou a porta lentamente, vasculhando o ambiente em busca da localização do pijama mais próximo. — Então… O que é?
  Seus dois braços se cruzaram na frente do peito, a voz entregando sua pressa. Era melhor que ele falasse e concluísse o assunto de uma vez do que retirá-lo do quarto para se trocar e parecer ainda mais suspeita.
  Jungkook ergueu as sobrancelhas, como se esperasse outra resposta.
  — O que foi? — ela perguntou.
  — Não vai se trocar aqui? Aquela coisa de bolinhas que você usa deve estar naquela primeira gaveta — ele disse com incerteza, mas com a estranha constatação de que sabia coisas demais sobre aquele quarto e coisas demais sobre .
  Ela apenas forçou uma risada curta e continuou:
  — Ah… Não precisa, posso te ouvir primeiro, faço isso depois. Então…
  O sinal de suas mãos era para que ele prosseguisse com o assunto. Jungkook pressionou os dedos de novo dentro dos bolsos, pensando, pensando, pensando…
  — É, eu só… — e nada saía. Ele não era péssimo com questões diretas e específicas, então alguma coisa estava terrivelmente errada. Avaliando a garota parada perto da porta, parecia ser a hora certa para dizer, mas sua boca de repente soltou: — Não tá com vergonha de mim, não é?
   abriu bem os olhos, de um jeito pasmo. Então, para não parecer tão atingida – ou culpada –, abriu um ligeiro sorriso divertido.
  — Não é nada disso, Jeon. Você não disse que é rápido? Não quero te atrasar. — Ela balançou os ombros, despreocupada, mesmo que no fundo soubesse que estava estranha. Jungkook sabia que ela estava mentindo, mas não pretendia insistir. O motivo de estar ali ainda não tinha sido resolvido.
  Com um suspiro, assumiu um semblante estranhamente sábio e disse:
  — Tá legal, eu… Eu tive uma conv… — parou de novo, franzindo o cenho para algo que levou toda a sua atenção fácil demais. — Isso é uma choker?
   levou uma das mãos ao pescoço instantaneamente, sentindo mais uma vez o rosto ser incendiado.
  — Q-quê? Não! — Ela firmou os dedos em volta do algodão, puxando-o até cobrir a área que escapava do roupão, a feição apavorada. — Não é nada.
  A reação foi suficiente para que soubesse que ela escondia algo, e perceber isso o fez parar e ficar encarando por um minuto inteiro, mantendo a testa enrugada e o olhar desconfiado que o deixava 10 anos mais velho. E isso pareceu mais interessante do que a conversa.
  — Você tá bem estranha hoje…
  — Bom, você também — ela retrucou, esperando espantar o assunto, e viu quando o maxilar do rapaz trincou e seus olhos piscaram e desviaram com nervosismo. — E não quero informações sobre isso, mas e então, você está mais interessado na choker ou em dizer logo o que veio fazer aqui?
  Uma de suas sobrancelhas foi de encontro à testa. A frase soou rude de propósito para afugentar a atenção dele sobre ela, tendo o efeito totalmente contrário. Jungkook não se importava com palavras afiadas, mas se importava com comportamentos, e odiou-se por dentro por não ir direto ao ponto, por travar em algo que sempre foi fácil, simples, e que estava sendo empurrada para mais longe a cada segundo.
  Jesus, era só dizer que não se encontrariam mais, qual era a dificuldade? Poderia ter feito isso até mesmo pelo telefone, caso estivesse ligado.
  Mas então, quando pensou que não se encontrariam mais era análogo a um nunca mais ficariam juntos, um sorriso idiota brotou de seus lábios, daquele tipo que se dá para esconder um sentimento desconfortável. Tudo que estava sentindo era desconfortável. E ao vê-la daquele jeito ligeiramente irritada, foi como um convite a afugentar primeiro esses sentimentos, e depois falar o que precisava. 
  — Chokers são legais. Vi um monte delas no festival ontem. É isso que estava fazendo? Experimentando um novo estilo? — Ele se aproximou a um passo, sem intenção de parecer interessado, soando apenas como o debochado e implicante que sempre era. — Cansou dos seus jeans de uma lavagem e suas camisetas listradas? Sempre achei que te davam um ar universitário, mas se você prefere inovar, tenho uma amiga que entende dessas coisas, posso ligar e descobrir…
  — Quer parar com isso? — respondeu, estreitando os olhos pela zombaria. — Você também está usando algo diferente daquelas coisas largas e pretas de sempre e não estou questionando.
  — É que infelizmente não posso usar meu “saco de batatas” na frente do presidente, uma pena — declarou com ironia, mas também usando um tom friamente educado. sacudiu a cabeça. — E ternos não são nada alternativos. Agora você usando isso me parece uma garota que vou encontrar em cima de um skate no parque Ttukseom.
  — Ah, isso seria ótimo, eu com certeza te atacaria com ele.
  — Engraçadinha. Ele fica perto do rio Han, você precisaria tomar cuidado com aquelas grades, elas são reforçadas pra suicidas e não para acidentes mobilísticos.
   cerrou os dentes com aquele olhar e aquele sorriso venenoso. O que ele estava fazendo? Tinha ficado maluco?
  — Beleza, Jeon, quanto te devo pela dica e pelo papo inútil? É para isso que você veio hoje? Me irritar?
  Na verdade, não precisava de muito para ficar irritada quando tentava desesperadamente lutar contra a vontade de mandá-lo embora e a vontade de arrancar aquela gravata. Conflito era uma coisa realmente irritante.
  De pé, ele baixou os cantos dos lábios e disse, desentendido:
  — Te irritar? Vinte palavras agora te irritam? — Era impossível ignorar o quanto os olhos dela crepitavam, e o quanto seus dedos ainda apertavam o algodão na área do pescoço, e o quanto suas bochechas também coravam levemente. Mas que porra, é só uma choker, não é um crime!
  Por fim, Jungkook suspirou, dando-se por vencido, sabendo que estava se afastando do assunto de novo. Era só dizer uma frase e então, fim. entenderia, ele lhe desejaria boa noite e poderia finalmente dormir depois de gastar míseros 20 wons em uma garrafa de soju. Só isso.
  Suspirando, ele tentou novamente:
  — Tudo bem, foi mal, eu vou…
  — Senta! — disse em um estalo, a língua sendo mais rápida do que a razão, sentindo o rosto em chamas logo depois, mas sem querer voltar atrás. Jungkook franziu o cenho enquanto ela o encarava com firmeza. Havia um monte de perguntas naquele olhar, e repuxou os lábios quando disse: — Vou te mostrar o que é. — Jungkook soltou uma risada.
  — , qual é, eu estava brincando…
  — Senta logo!
  Ele enrugou a testa, ainda confuso, pensando em contestar, mas se lembrando logo depois como podia ser extremamente teimosa. Revirando os olhos, ele perdeu o sorriso e se sentou, percebendo que tinha dado brecha para que ela também postergasse o assunto e assim nunca chegaria ao fim daquilo.
  Ele só a deixaria mostrar, e então poderia voltar ao tópico principal e definitivo. 
  — Tudo bem, o que é? Eu preciso…
   desamarrou as cordas do roupão em um movimento ágil, em um impulso de coragem, deixando que a peça caísse em torno de seus pés.
  Jungkook olhou primeiro a peça enrolada no chão. Então, de cima para baixo, levantou os olhos devagar pelos tornozelos, joelhos, as coxas com a cinta, a renda da calcinha, o abdômen com as tiras, e os seios bem desenhados no sutiã quase à mostra pelo tecido transparente, parando no rosto da garota imóvel, descendo o olhar mais rápido de novo e subindo mais uma vez.
  Ele parecia mais do que chocado. Parecia petrificado.
  — O que você achou? — perguntou, estranhamente relaxada. Duvidou que fosse por causa da roupa; parecia mais ser por causa daquele olhar dele, o mesmo que desejou receber.
  Jungkook aparentou um estado de delay e ergueu as costas, limpando a garganta duas vezes antes de conseguir dizer:
  — É... — Arfou, esfregando uma mão nos joelhos. — E-ela é... bem bonita…
  Alguma coisa naquela reação foi inesperada para . A boca dele abria e fechava, sem dizer mais nada. Os olhos não sabiam onde olhar primeiro. Ele parecia pequeno, indefeso, uma presa, pela primeira vez na vida. E isso despertou algo insano dentro dela.
  — Você não consegue dizer o que achou? — Ela inclinou a cabeça para o lado, falando de forma aveludada e baixa, olhando-o firmemente nos olhos.
  — O que...
  — Precisa de ajuda para se decidir? — Ao se aproximar de JK, ele ergueu ainda mais as costas, sentindo a garganta fechar, as palavras sumirem porque ainda não tinha tido o tempo de processar a imagem de . Os joelhos dela se ergueram lentamente até o meio de suas pernas, chegando perto do ponto que crescia, mas sem tocá-lo imediatamente.
  — ... — Jungkook tinha a voz subitamente enclausurada. Ele olhou para baixo, acompanhando o joelho dela ir de encontro à sua ereção, sentindo-se traído, literalmente traído por seu próprio corpo. Ele não sabia em que momento tinha vacilado. Se foi assim que as roupas caíram, se estava acontecendo agora, não sabia de nada porque seu cérebro tinha apagado completamente.
  — Você sempre foi ruim de respostas, Jeon. Pelo menos na hora certa — ela zombou, agora massageando lentamente seu pau por cima da calça social macia, sentindo que ele pulsava mais a cada respiração, e sentindo dentro de si também o prazer de ver o rosto dele completamente perdido.
  Era esse olhar, exatamente esse que estava falando.
  O garoto levou as mãos incontroláveis até uma de suas coxas, agarrando-a como se se forçasse a se contentar apenas com aquilo. O que você está fazendo, seu idiota? Você precisa se levantar agora e ir embora, agora mesmo, entendeu? Ei!
  — Isso é jogo sujo, … — Sua garganta estava seca e as palavras arranhavam para sair. Sua respiração era um silvo de controle; tesão, desejo, uma vontade louca de parar as conversas e ter o que estava louco para ter desde que a deixou na porta de casa antes da viagem. Mas ainda tinha aquele algo, a vozinha no cérebro que ainda tentava puxá-lo de volta, perdendo força a cada minuto.
  — Tem razão, você queria conversar. Peço desculpas. — Ela afastou sua coxa erguida, antes presa nas mãos dele, deixando-o nitidamente atordoado, quebrando o processo de hipnose. Antes que tivesse tempo de algum protesto, passou as duas pernas por seus quadris, encaixando-se em seu colo. — Acha que desse jeito podemos conversar?
  O movimento repentino fez com que Jungkook mordesse o lábio inferior com força, desejando de repente que algum telefone tocasse. Quando ela levou uma das mãos à sua gravata junto com os lábios até seu pescoço de forma rápida, mas eficaz, ele desejou que Candice realmente esquecesse qualquer coisa e voltasse.
  — Porra — ele sussurrou em descontentamento, quase uma súplica. Suas mãos pareciam estar sendo atadas por correntes invisíveis para que não se mexesse e tocasse nela. Quando começou a fazer pequenos movimentos em seu quadril, Jungkook desejou que todo o BTS batesse naquela porta e o arrancasse dali de qualquer jeito, de todas as formas, porque se encostasse nela, nenhuma dessas tentativas seriam o suficiente para tirá-lo dali.
  Ele estava enlouquecido, e via isso com muita clareza.
  Sua gravata escapou de seu pescoço em um piscar de olhos, enquanto ela ainda se mexia deliciosamente devagar.
  — Deixou suas respostas desagradáveis no Japão? Achei que fosse melhor do que isso, JK. — Ela enrolou o tecido na palma da mão enquanto ainda se mexia, puxando o queixo dele para mais perto e tornando as palavras mais abafadas. Jungkook tinha o maxilar cerrado, os olhos duros com a visão aterradora, despejando tesão aos quatro ventos, e seus dedos na cintura da garota se apertaram até puxá-la para mais perto com um só braço, deixando um grunhido escapar. 
  — Sinta se eu quero conversar agora, . — Ele ergueu o quadril para pressioná-lo contra ela, que arfou quando teve o corpo movido com força, e mordeu o lábio como gesto automático. Jungkook não conseguia tirar os olhos disso; dela, dos movimentos, da roupa preta que a tinha transformado em um tipo de divindade. Ele já estava ficando louco, e se ninguém de fora impedisse, não haveria mais nada a ser feito porque ele já estava completamente entregue.
  Um sorriso cretino escapou de . Ela sentiu o hálito dele em seu pescoço, na curva de seu pescoço, causando sensações inebriantes, mesmo que ainda notasse que ele ainda parecia retraído, forçando-se a ir devagar.
  — Achei que você diria isso — ela respondeu no meio dos beijos, afastando o rosto dele devagar, encarando-o de cima com luxúria e desejo, sentindo-o cada vez mais desesperado entre as pernas —, mas hoje você vai ter que esperar.
  Ele soltou uma risada seca pela garganta, sentindo-se tão aturdido quanto antes, um estado que não passaria nunca enquanto o cheiro dela estivesse tão próximo. Uma ponta de raiva saiu daquele sorriso. Raiva dele, que já devia ter falado o que queria há muito e estar nesse momento se preparando para dormir; raiva porque sua cabeça de cima não estava funcionando de jeito nenhum, e ele nem se lembrava do discurso que havia preparado antes de estacionar; raiva dela por estar brincando daquele jeito, imponente e sedutora como a porra da gostosa que sempre foi, mas que ficava um milhão de vezes mais quando sabia disso.
  Porra, , não acredito que decidiu descobrir isso hoje, logo hoje…
  — Quer me torturar logo hoje? Quando estou a ponto de explodir só de olhar para você nessa roupa… — As palavras saíram naturalmente, meio perdidas pela dormência, enquanto ele mantinha os olhos cravados naquele corpo que ainda se mexia em cima dele. Os mamilos estavam quase expostos pela luz amarelada do abajur. A cinta roçava em suas pernas e o fazia querer arrancá-la com os dentes. Era como sentir um incêndio se aproximando, uma explosão, e ele mal havia se mexido.
  O sorriso dela parecia o prato principal. Sempre era. Quando gozava, era melhor ainda. E ele já tinha aceitado que não sairia dali enquanto ela não gozasse.
  — Entendo, Jeon. Mas quero te mostrar uma coisa primeiro. — Ela mordeu os lábios novamente e levou os dedos à sua camisa de botões. Jungkook sentia a pele arrepiar em cada ponto que suas unhas roçavam no peito.
  — Não sei se tô em condições de mais surpresas hoje, acho que você entende… — ele grunhiu, desviando os olhos para cima quando sentiu ela deslizar devagar sobre seu pau, que já gritava por liberdade, assim como ela fazia com seu peito enquanto abria sua camisa. Em um movimento mais rápido, ela desceu o blazer, jogando-o no chão, e quando tirou a camisa branca, Jungkook voltou a contornar os braços ao redor dela, com necessidade, mas sendo afastado de novo.
  — Calma… Muito apressado — ela disse em deboche, imitando a frase dele, fazendo-o ficar com ainda mais raiva. — Só tentei uma coisa enquanto você esteve fora.
  — O que você tentou? — ele perguntou em voz baixa e desnorteada de novo. Não conseguia se livrar dessa loucura. Ele parecia um garoto.
  — Quando vi sua foto com essa nova aquisição aqui… Fiquei pensando em algumas coisas… — Com um dedo, ela acariciou tórax dele com delicadeza, e o outro foi direto para o piercing no lábio, alisando-o com leveza. — Que seria legal poder experimentá-lo… — Ela aproximou os lábios de seu nariz e sussurrou bem baixo quando disse: — Bem aqui.
  Com um dedo, acariciou seu próprio clítoris por cima da renda, fazendo movimentos lentos enquanto ainda sentia o pulsar de Jungkook nas costas das mãos. A imagem o trouxe um estado caótico de pane total. Quando viu não desviar o olhar enquanto encaminhava o dedo para a lateral da calcinha, enfiando os mesmos para se enterrarem ali dentro, foi como se alguém o tivesse golpeado no rosto.
  — Puta que pariu… — Ele estava derrotado. Suas mãos voaram para a cintura dela, as pernas, os ombros, qualquer lugar onde pudesse tocá-la, que pudesse dispersar um pouco do sangue concentrado em uma só região dentro da calça antes que fizesse algo louco, algo que estava queimando por dentro, ardendo. Maluco. Ele estava maluco.
   afastou suas mãos novamente, olhando-o de uma forma que nunca viu; autoridade. Autoridade cretina, como a dele. Alguém que claramente estava controlando a situação e ele não podia fazer nada além de obedecer.
  — As mãos, Jeon. Mantenha as mãos bem paradas — ela disse naquele mesmo tom terrivelmente sexy, torturante, tantos outros adjetivos que ele não conseguia se lembrar. Ela continuou os movimentos em sua própria boceta por alguns segundos, até levar as mãos lentamente ao seu cinto, fazendo tudo só piorar.
  — … — A voz dele não lhe pertencia mais. Agora era apenas a de um garoto implorando. abriu seu cinto, conseguindo controlar a respiração igualmente elevada e igualmente intensa, querendo juntar seus corpos tanto quanto ele, mas incapaz de ignorar a parte da diversão. E tudo que estava morando no rosto de Jungkook naquele momento.
  — Talvez você possa me dizer se está certo. Afinal, essa é sua função — ela disse divertida, abrindo o primeiro botão de sua calça, e então o segundo, até visualizar a elevação bem marcada por baixo dela. Ele mal a escutava direito. Precisava se concentrar em deixar as mãos quietas.
  — Dizem que fica melhor em movimento… — Ela voltou a concentrar seu centro bem em cima do pau quase exposto, agora nitidamente puxando a calcinha para o lado, firmando as pernas em sua volta enquanto deslizava os dedos em seu clitóris sozinha, mordendo o canto dos lábios com um sorriso travesso.
  Não era justo…
  — Porra, você vai me matar… — o gemido saiu, abafado e castigado. Era uma nuvem imensa de tesão pairando ao seu redor, roubando sua sanidade. Toda a sua energia estava concentrada dentro de suas calças onde ele queria que fosse libertada.
  — Você ainda não me disse se está certo, mas pelo visto não preciso de uma resposta.
  — Seria delicioso te ver fazendo isso para mim se eu não estivesse tão maluco, mas hoje, … — Seus dentes rasparam entre si quando a viu soltar um pequeno gemido. Aquilo só piorava. Tudo piorava. Era uma tentação absurda, covarde. Ele precisava se enterrar naquela mulher agora ou alguém precisava tirá-la de cima dele agora mesmo.
  — Pode deixar, vou resolver o seu problema. Ou você vai resolver o meu. — E então, tirou os dedos de dentro de si e os enfiou na boca de Jungkook. Ele chupou seu gosto sem desviar os olhos, enquanto ela sorria abertamente pela amostra do quanto ele estava fora de controle.
   Filha da puta. Desgraçada.
  Mudança de planos: se alguém ousasse tirar de perto dele naquela noite, seria a última coisa que faria na vida.
  Ela se levantou antes que ele pudesse avançar de novo. Porém, como um magnetismo, ele fez o mesmo, indo até ela, agora de pé, pegando em sua cintura como se sua vida dependesse disso, beijando seu pescoço com fúria, com desespero, explorando seu corpo com desejo angustiante. Qualquer pensamento lógico estava muito bem longe dali, evaporado como fumaça.
   agarrou seus ombros, respirando pela boca, sentindo o corpo dele colado junto ao seu com a mente zonza, querendo ficar ali para sempre. Ficar e permanecer. Ela sentiu as mãos dele agarrarem seus seios, os dedos agarrarem sua bunda com vontade e um aperto descomunal ao seu redor que quase tirava seus pés do chão. Ela se viu tentada a simplesmente deixá-lo, simplesmente se entregar a toda lascívia sólida…
  Mas ela o afastou de novo, ofegante, os dois formando um par no limite da combustão. Os olhos de Jungkook brilhavam em frenesi, e nada mais importava a não ser .
  — Mãos à parte, Jungkook. Está saindo da brincadeira — ela disse, mantendo o tom de voz mais perto do normal. Jungkook era a própria expressão da ansiedade. Seus ombros eram caídos, os cabelos estavam a própria bagunça e seu pau latejava tanto que abriria um rombo na roupa. Ele a viu se aproximar de novo, com um olhar tão ou mais safado que antes, dedilhando a frente de sua calça. Jungkook sabia que ela queria tanto quanto ele, mas entendia o propósito da brincadeira. A porra do propósito.
  — Vai me fazer implorar? — Ele trincou os dentes, não acreditando que estava perguntando aquilo, e odiou ainda mais o sorriso arteiro da garota.
  — Experimenta. — Ela aproximou seus dedos de novo da perfuração, e Jungkook passou a língua quando alcançaram o meio dos lábios, sofrendo um golpe de energia vingativa.
  — Filha da puta — ele resmungou em voz baixa, ainda atento aos dedos da mulher, sentindo que ela acariciava todo o seu pau com lentidão, com crueldade. — Por favor. Seja lá o que você queira, tudo bem, só… — Com ódio, ele grunhiu, não acreditando que tinha dito aquilo, que disse com tanta sinceridade e que diria de novo se precisasse. abriu um sorriso maléfico, os lábios inferiores sendo puxados pelos dentes e então, com destreza, aproximou-se do nariz dele, sibilando:
  — Resposta satisfatória.
  E então, em um movimento, ela desarmou toda a calça de Jungkook, puxando-a para baixo, deixando que seu pau estonteante pulasse para fora, erguido para cima em prontidão. O peito dele se agitou em expectativa. As veias em seu braço já estavam aparentes com o esforço que os deixava parados. mordeu os lábios ao empurrá-lo para a cama novamente, onde o garoto caiu, e chegou para cima de imediato. De joelhos, engatinhou até ele lentamente, com aquele olhar novo que o deixava completamente desarmado. Jungkook não conseguiu se mexer. Encaixando-se em cima dele de novo, ela pegou em seu cabelo, depositando um beijo com a língua em seu pescoço, o que fez a mente de Jungkook girar em 360 graus, deixando-o tonto. Suas mãos a agarraram, e sua boca foi direto ao colo dela, abaixando a metade do sutiã enquanto chupava um dos mamilos enquanto ela se mexia em cima do seu pau agora totalmente livre.
  — Porra, … — Detestava usar seu primeiro nome. Parecia um menino, um menino implorando. Mas como poderia agir diferente? — Porra, que gostosa…
  Ele se empertigou no lugar, sem saber o que fazer primeiro com tanta informação sobre naquela roupa que queria rasgar e ao mesmo tempo admirar ainda mais. A garota se afastou, deixando-o bobo de novo, confuso e desorientado, até ficar ajoelhada em frente a ele, abaixando os olhos para a alça jogada em um ombro, um seio de fora, com alguns fios de costura escapando.
  1 milhão de wons não pareciam valer muita coisa, na verdade.
  Com um suspiro, arrancou a peça lentamente, junto com a tira que atravessava seu abdome e a choker no pescoço, e sorriu com satisfação.
  — Era isso que você queria fazer? — Ela jogou o sutiã para ele, que pegou antes que tocasse seu peito. A imagem era impiedosa, dolorosa. Aquela não podia ser . Ou podia, mas seria perigoso se fosse, muito perigoso.
  — Você não faz ideia do que eu quero fazer com você agora — ele disse com a voz dura, baixa. Podia não implorar em voz alta, mas seus olhos já diziam tudo. Por favor, , quantas vezes mais vai me fazer ficar assim? Por favor.
  A garota riu. Era o que queria sentir, afinal de contas: satisfação. Queria aquele olhar, queria o desejo ultrapassando todos os limites. Queria aquelas ideias libertinas, a confiança que não sabia que tinha. Apoiando-se nas mãos, ela ficou de quatro até se virar e se exibir, empinando a bunda em perfil onde a cinta ligada à peça contornava suas curvas e as deixava ainda mais perfeitas e evidentes.
  Ele não sabia o que dizer, mas também não precisou. De costas, ela se colocou em cima dele de novo, e sentiu quando a boca dele espalhou beijos e mordidas furiosas em suas costas, enquanto apertava sua bunda e distribuía palmadas e apertos rítmicos enquanto ela se mexia. A sensação de adrenalina voltava ao corpo de pouco a pouco enquanto recebia os tapas deliciosos. A sensação de querer entregar tudo que queria, fazer o que quisesse e pedir o que quisesse para se satisfazer.
  E foi assim que pegou o pau dele em suas mãos e, com um pequeno beijo em cima, abocanhou com vontade, empinando-se inteira para o rosto dele, envolvendo-o com destreza até o fundo.
  Jungkook soltou um arquejo agudo. Seus olhos se fecharam imediatamente, aproveitando o momento com os movimentos da boca e da língua da mulher, seguidos por suas mãos o masturbando ao mesmo tempo que quase se esqueceu que a bunda dela estava erguida para cima, e sua boceta estava à disposição em seu rosto.
  — Caralho, então era isso que você queria esse tempo todo… — Ele soltou uma risada fraca em meio à respiração pesada, dando um tapa forte na região, fazendo soltar um gemido, mas sem descansar as mãos de seu pau. Ele levou os dedos até a calcinha dela para arrancá-la de uma vez, baixando-a até o meio das coxas e não perdendo mais tempo ao puxá-la mais para cima e enterrar a língua em sua boceta, completamente molhada e gostosa como ele imaginava, levando-o ao paraíso mais do que o oral que recebia, mais do que os beijos que ela distribuiu em seu pescoço.
   arqueou os ombros, perdendo um pouco a concentração e a força nos braços enquanto Jungkook parecia estar se enfiando inteiro dentro dela, mesmo que estivesse usando apenas a língua. Sentir o elemento novo de metal raspando em sua pele foi tão magnífico quanto pensou. O movimento parecia ser o bastante para que ela desestruturasse e soltasse o pau dele de sua boca, ainda o masturbando com a mão, mas agora fechando os olhos e movendo os quadris para senti-lo na região. Deus, era melhor, muito melhor do que imaginar como seria. Os gemidos escapavam com força de sua garganta e chupá-lo não iria adiantar nada, muito menos se ele continuasse com aquilo. Jungkook era um cara faminto por sua boceta, segurando em suas duas nádegas com firmeza enquanto chupava e mordiscava sua vulva, seu clitóris e suas paredes, que com certeza estavam pingando na boca dele e não existia nada melhor do que isso.
  Droga, ele queria fazê-la gozar cedo demais.
  — Jungkook… N… — ela tentou dizer, mas agora sentiu os dedos dele começarem a trabalhar ao redor de seu clitóris, o que a fez soltar uma expiração pesada, enfiando e saindo, assim como sua língua agora dançava não só na boceta, mas também para cima, cima e baixo, repetidamente, chupando ambas as partes, com desejo descomunal.
   precisava voltar a se concentrar em seu pau erguido, e o devorou novamente, passando a língua livre em suas laterais enquanto recebia mais um tapa, fazendo-a soltar mais um gemido. Golpe sujo, sujo. Ela se dedicava em rebolar em seu rosto, sentindo a língua dançar ainda mais, fazendo-a fechar os olhos pelo prazer colossal. Ele a deixaria tão louca se continuasse que a faria estender ainda mais a noite.
  Compensar. Os dois pensavam em compensar e não faziam ideia disso.
  Quando sentiu algo querendo se quebrar dentro dela, automaticamente levantou as costas e se afastou para o outro lado da cama, passando um dos dedos pelo canto da boca enquanto ele respirava acelerado, também passando a língua pelos lábios, não querendo perder nenhuma gota dela. suspirou, encarando o homem com desejo, aqueles olhos que a possuíam só de estarem abertos, e sentindo um gelo no estômago.
  — Não pense que vai fugir de gozar tão fácil assim, . — A voz dele estava entrecortada, lutando para sair de forma coesa. O rosto tinha as evidências dela, e seu sorriso agora era grande e proposital. Mesquinho como sempre.
   mordeu o lábio, ainda sentindo o gosto dele em sua boca, mas também a selvageria avassaladora a tomando com pressa.
  — Agora. Quero você agora, Jeon.
  Era uma ordem. Jungkook nunca teve tanta certeza do quanto ela estava mandando.
  Sem hesitar, ele jogou os braços para a última gaveta da mesa da cabeceira, o lugar já conhecido e separado onde tinha depositado as camisinhas que gostava no fundo, bem no fundo por pura paranoia de sobre Candice. Ele puxou uma imediatamente, colocando-a com as mãos ágeis e mal tinha terminado quando a garota se dispôs em cima de seu pau, ainda virada de costas, onde ele imediatamente segurou em sua bunda para posicioná-la corretamente.
   se encaixou nele de uma vez só, jogando os braços para trás, deixando-os ao lado do tronco dele, e sentando uma, duas e três vezes até que ele colocasse os dedos em seu clitóris e os movesse rápido, fazendo-a soltar um gemido agudo e ofegante, quicando com mais precisão e com mais velocidade. Tudo queimava dentro dela. Senti-lo ali era como um alívio, como se estivesse esperando desde que ele tinha ido, e nem soubesse disso. Seus olhos se fechavam, o furor a tomava de uma forma magistral e tudo que conseguia fazer era continuar em seu próprio ritmo até que o prazer se acumulasse e saísse por inteiro ali mesmo.
  Jungkook soltou um resmungo, dizendo palavras incompreensíveis enquanto erguia um pouco mais as costas e apertava sua cintura, puxando seu cabelo para trás para que ela tombasse a cabeça em seu ombro.
  — Fica parada… — ele disse na base de sua orelha, e então se enterrou dentro dela por baixo, esfregando seus dedos em sua boceta enquanto soltava um gemido que pareceu um grito.
  — Jungkook! — Ela mesma tapou a própria boca, enquanto o escândalo do rapaz continuou: meter por baixo com força, com diligência, com muito ímpeto. Ele sabia o que ela queria sem que ela pedisse. E queria velocidade e destreza, e não demoraria muito para que gozasse. — Jungkook… Porra… — ela choramingou, guardando a respiração, o corpo inteiro estremecendo por cima dele, o barulho de suas partes se chocando em um estrondo. Era algo surreal, a sensação dele ali dentro era como se agora sim estivesse se sentindo uma mulher de verdade.
   sentiu os espasmos vindo desde o interior de seu ventre, inundando tudo corrente abaixo, saindo junto com seu gemido seco e alto, invadindo todas as suas partes e todo o seu ser. Sua mente girou enquanto ele diminuía o ritmo até parar, sem sair de dentro dela. Ele respirava pesadamente, o suor tomando conta de suas testas e de suas costas. Ele sempre esperava que ela gozasse primeiro. Hoje era o que ela realmente queria, mas a noite ainda estava começando.
  Antes que ele arqueasse as costas para se mexer, mudou de posição, agora virando-se de frente para ele, ainda sentindo o pau dele tão ereto quanto o começo da noite, e viu o rapaz ofegante observar os joelhos dela se levantarem enquanto se apoiava em cima dele com os pés em posição ao lado de seu tronco.
  — Caralho, … — ele arfou, o peito subindo e descendo ao ver o que ela pretendia. Jungkook abriu mais as pernas para que ela chegasse mais perto, mantendo agora suas mãos em sua cintura, que começou a se mexer antes que ele dissesse qualquer outra coisa.
  Ela sentou em movimentos rápidos desde o início. Jungkook soltou um rosnado alto, não desviando os olhos enquanto ela investia com força, os joelhos erguidos para a frente e o cabelo caindo sobre o rosto. Puxando-os para trás, ele aproximou suas testas enquanto espalmava suas nádegas mais uma vez, que batiam de encontro às suas coxas enquanto mordia o lábio e mantinha o ritmo perfeitamente bem, perfeitamente deliciosa e perfeitamente…
  Linda. Ela era a visão do paraíso. E a língua de Jungkook parecia solta demais naquele momento, mas ficaria ali a noite toda, a noite toda, a noite inteira, que se fodam as regras.
  — Você é maravilhosa… — ele disse em meio ao tesão, passando um dedo em seus lábios, que foram abocanhados por ela e sua língua travessa. Jungkook trincou os dentes, travando sua cintura para que ele mesmo socasse por baixo, desta vez com a outra mão em sua nuca, que foi puxada por ela em seguida para que ele segurasse seu pescoço com firmeza, não com força.
  — JK… — ela gemeu enquanto tinha o corpo chacoalhado pelas estocadas, a mão em sua garganta deixando-a ainda mais agitada, a ponto de tentar sentar de encontro aos arremates dele. Seus lábios estavam avermelhados, os olhos pulsando de libido, o desejo escancarado no rosto. — Assim eu vou…
  — Sei que vai, meu bem. — Ele golpeou com mais força enquanto o rosto de descia até sua testa, e os dois se olhavam firmemente enquanto sentiam o pulsar quente no estômago. segurou nos antebraços de Jungkook que estavam em sua garganta enquanto deixava que ele terminasse o serviço, padecendo de tremores característicos na perna que adiantavam o orgasmo.
  — Mas ainda não — ele murmurou bem perto de sua boca e a tirou de cima, movendo-a para o lado para que se deitasse e, em seguida, colocando-se atrás dela.
  — Qual é o seu problema, idiota? — ela choramingou, com raiva pela interrupção, enquanto ele segurou uma de suas pernas para cima, sem sair de dentro.
  — Vou melhorar as coisas, , só isso… 
  Era lógico pensar que hoje não era um dia em que Jeon tomaria o controle de alguma coisa. Mas seria inaceitável não a fazer chegar ao clímax com o melhor que ele podia oferecer. Apoiando-se nos cotovelos e curvando o corpo o lado, recebeu a primeira estocada bem fundo, que lhe tirou um gemido agudo, e as próximas depois desta também arrancaram uma sequência de barulhos desconexos sem pudor e sem a preocupação de serem ouvidos. Uma outra experiência sonora que ampliava toda a atmosfera carnal. Era muito diferente de receber aquele mesmo tratamento nas madrugadas secretas, onde ele socava com força e ela tinha de manter o silêncio sufocado para que Candice não escutasse do quarto ao lado.
  — Não para… — ela tentou dizer, sentindo-o se mover lá dentro com precisão, cada vez mais potente, queimando sua pele descontroladamente. Com as mãos firmes em sua perna esticada, ele a passou para cima da curva de seu cotovelo, colando ainda mais seus corpos pelas costas, pousando um dedo em sua bochecha para acariciá-la, resultando em fechando os olhos, sentindo a pele ser incinerada por aquele toque ridículo. Os gemidos deliciosos e desesperados que escapavam dela só o deixavam com ainda mais vontade de agarrar qualquer parte de seu corpo, puxá-la cada vez mais para perto, e essa era uma sensação da mais impertinente! Aquela mulher certamente fazia aquilo de propósito, só podia ser de propósito...
  — Vou gozar… Jungkook, n… — Estava vindo mais rápido do que imaginou. Imediatamente, ele diminuiu os movimentos, metendo mais devagar e mais profundo. 
  — Porra, . — Sua voz era rouca, quase um rosnado. Ele afastou uma metade de suas nádegas para que entrasse com mais empenho. O grito sufocado de fez com que ela fechasse os olhos e se perdesse naquela voz extremamente sexy, sentindo o corpo inteiro se arrepiar quando o sentia raspando devagar, entrando e saindo, com o queixo ainda apoiado em uma mão dele, que segurava seu rosto e o acariciava com estranho carinho. Aquilo era uma passagem nova para a loucura, onde Jungkook estava embaralhando sua mente e a preenchendo por inteiro. Cada respiração sua era um gemido, porque era humanamente impossível se manter calada diante da viagem alucinógena que aquele homem era capaz de fornecer. 
  — Quero sentir você gozando assim… É mais gostoso. — Seu hálito explorou todo o rosto de e, de repente, ele o puxou para mais perto, frente a frente com seu nariz. Por instinto, a mulher passou os braços pela nuca do rapaz, mesclando suas respirações em uma só, trazendo ainda mais calor e mais suor para ambos no mísero espaço entre suas bocas. Um enlace íntimo demais que não foi notado em momento nenhum, ou completamente ignorado. Então, plenamente encantado, ele sussurrou: — Goza para mim, .
  Um beijo forte foi deixado em seu rosto enquanto ela agarrou uma parte de seu cabelo, repetindo palavras ilógicas que se transformavam em gemidos, com os olhos entreabertos e o corpo desejando atravessá-lo. Cada movimento seu concordava com ele, se entregava à sensação narcótica do fogo que queimava devagar, mas vivo, muito vivo, assim como os beijos de Jungkook em seu rosto. Ele a atingia a uma velocidade mediana, deixando-a em súplica, erguendo o corpo cada vez mais para cima para poder observá-la, ainda cultuando o rosto da garota com os seus lábios. Mordiscou seu queixo, seu lóbulo, bochechas e testa, repetindo as palavras sujas e safadas de sempre, mas em um tom aveludado, totalmente admirado. Era como se ela tivesse o total controle sobre o corpo dele desde o começo, sabe-se lá como. Mandando sem mandar, fazendo-o querer dar o seu melhor e se entregar por completo por ela, que consequentemente o faria feliz e realizado. Ali, uma conexão surgia entre os arremates e a expectativa sexual, e Jungkook estava mais hipnotizado do que nunca pela imagem mais vulnerável de .
  Dentro da imersão, ela finalmente estremeceu o corpo inteiro em um orgasmo incontrolável, contorcendo-se junto dele, experimentando uma corrente de choque quando liberou o prazer avassalador, mais forte que antes, mordendo os lábios de um jeito manhoso que por um momento não fizeram com que ele também gozasse.
  — Minha nossa… — ofegou como se tivesse corrido uma maratona, as pernas tremendo levemente, mesmo estando deitada. A cabeça estava apoiada nos braços dele, que também tinha saído de dentro dela e fitava o teto, recuperando o fôlego. Os dois sendo um dueto sem forças e sem rumo.
  — Tá feliz agora? — disse ele, com a voz descontínua, exaurida. Sua energia estava abaixo do normal, mesmo que uma corrente de sangue insistente ainda se mantivesse em seu pau, implorando a autorização de saída do que estava preso, pateticamente resguardado porque ele não importava naquela noite, ele era o plano B, era a maior prioridade e teria tudo que quisesse, e ele não fazia ideia de que horas eram… — Sempre disse que não preciso te rasgar inteira para que você goze bem gostoso como fez agora.
  Ela soltou uma risada, sentindo os fios presos na testa, o calor do verão sendo vivenciado em capacidade total só por estar no mesmo quarto que Jungkook. Depois, se virou de lado, apoiando a cabeça na palma de uma das mãos.
  — Mas eu gosto de foder assim. — O sorriso agora era cínico. — Você também não gosta? De uma coisa mais… — ela se aproximou de sua boca, sibilando: — rude? — E então desceu os beijos pelo pescoço dele e pela curva de sua clavícula. Jungkook fechou os olhos, pegando-a pela nuca com determinação, mordendo os lábios com apetite novamente.
  — … — arfou, com a voz já fraca novamente pela excitação. Qualquer mísero toque dessa garota fazia estragos inimagináveis e instantâneos. — Sossega, cacete. Acabou de gozar.
  — Mas você ainda não gozou. — Ela lhe lançou um olhar sugestivo. Jungkook estreitou os olhos, tentando compreender.
  — Você não…
  Sem mais espera, ergueu o corpo, pondo-se por cima de novo, desta vez com as pernas bem abertas e os joelhos bem erguidos, apoiando as mãos para trás ao lado das coxas dele, encaixando-se em seu pau devagar, fazendo-o soltar um arquejo forte e erguer as costas para a frente, sem perder nenhum segundo da imagem.
  — Caralho, ... — Sua voz era carregada de fúria. De antecipação. De todas as coisas pecaminosas do mundo que moravam no meio daquelas pernas. — Desse jeito vou gozar só de olhar para você.
  A postura dela fornecia uma visão clara do encaixe de seus corpos, onde se movimentava inicialmente devagar e jogava a cabeça para trás, deixando seu corpo ainda mais em evidência sob a luz fraca do abajur. O peito dele era esmurrado pela exaltação, pelo anseio. A sensação agitada do sangue correndo, o suor demarcando todas as partes do corpo dela. Ele não demoraria, e queria gozar com ela naquela posição.
  — Ele é todo seu, . Pode fazer o que quiser — murmurou em devaneio, apertando a cintura dela, que desatou em movimentos. mordiscou os lábios e obedeceu, sentando com mais velocidade, gemendo de olhos fechados em seu próprio mundo. Jungkook apertou ainda mais as duas extremidades de seu quadril, olhando-a com adoração, vendo a forma como seu pau deslizava para dentro e fora dela, e em como a garota ainda estava extremamente molhada mesmo depois de dois orgasmos, e como aquela feição desalinhada o deixava tão alucinado desde a primeira vez que a viu dentro daquele carro.
  Era insuportável admitir que tinha um diferencial difícil de explicar e o quanto ele buscava isso agora inconscientemente nas outras, mesmo que sempre pregasse que sexo era sempre sexo. Fingia não ver a verdade: nunca teve garota alguma que quisesse tanto satisfazer, que quisesse tanto admirar com aquele semblante descontraído no rosto, independentemente de qualquer coisa.
  Era nessas horas que se lembrava do quanto a odiava, porque não era justo. Mas depois odiava muito mais a si mesmo por ter se submetido a tudo aquilo e agora estava tão fodido que era incapaz de largar.
  Era errôneo dizer que ela era como uma droga porque – Jungkook descobriu com o tempo – ela não era tão destrutiva como pensava. estava mais para pílulas para dormir: inofensivas no começo, usadas primeiramente para uma ajuda temporária e quando você vê, já não consegue mais viver sem elas.
  Essa era a foda com . Só isso. Só isso.
  E isso sim era uma droga!
  Ela o estocava tão fundo que ele trincou os dentes e segurou os gemidos altos à medida que ela ia mais rápido, disposta a fazê-lo gozar. Quando Jungkook sentiu a vista embaçar, o peito ficar mais quente e as pernas adiantarem os espasmos, ele sabia que estava chegando.
  — Vou gozar… — murmurou com a voz estrangulada, apertando um dos seios dela e mantendo o olhar em seu corpo, e então para o seu rosto travesso com os lábios vermelhos enquanto ela quicava com mais força. —
  — Só se for em mim, Jeon — ela pediu em voz melódica, provocativa, juntando suas testas enquanto não diminuía o ritmo.
  Jungkook agora apertava suas costas, respirando arduamente pela boca, segurando e segurando e segurando.
  — Onde você quer? — Agarrou o cabelo da garota com força, sentindo vir cada vez mais, um estouro vertiginoso e violento, se ela continuasse falando…
  — Você sabe… — Ela juntou as sobrancelhas quando fazia o último esforço, sentindo o suor molhar seus ombros. Jungkook respirou fundo antes de prender a respiração e dizer:
  — Agora.
   saiu imediatamente de seu colo ao mesmo tempo em que ele se levantou, livrando-se da camisinha e masturbando-se enquanto ela já se colocava de joelhos na beirada da cama, com aquele mesmo sorriso ordinário que o faria gozar ainda mais rápido.
  A irrupção veio, atingindo o colo e os seios de , fazendo Jungkook soltar um urro atenuado de alívio quando tudo finalmente saiu. Pela primeira vez, se sentiu verdadeiramente exaurido. A garota passou a língua nos respingos que pegaram em sua bochecha, e passou um dedo entre os seios, onde o esperma tinha se misturado com o suor, igualmente colocando-o na boca. Tudo isso sem tirar os olhos dele.
  Porra, que garota perfeita. Ridiculamente perfeita. Odiosamente perfeita.
  Zonzo, ele desabou na cama, tentando recuperar o fôlego perdido de todo aquele sexo desgovernado. Com os olhos fechados, sentiu quando ela deitou ao seu lado, se achegando em seu peito e desenhando uma linha sedutora em sua pele úmida do tórax, que subia e descia pelo esforço.
  — Preciso de uns minutos, — murmurou, ignorando a pele arrepiada pelo toque. soltou uma risadinha.
  — Eu sei, não tô fazendo nada…
  Ele agarrou seus dedos antes que traçassem outra rota e abriu os olhos, encarando-a com o sorriso miserável que tinha sido minado até aquele momento.
  — Mais alguns minutos… E vou te fazer a mulher mais realizada dessa cidade hoje à noite.

📸💔

  Os primórdios da luz do dia já avançavam para dentro do quarto quando Jungkook liberou um grunhido agudo da garganta, a boca colada nos ombros da garota de costas, tão próxima a ponto de perceber os detalhes de sua presença duradoura ali: as marcas vermelhas dos chupões espalhados pela região, fora os que estavam distribuídos pela parte frontal e no restante de seu corpo. Parecia nunca ser o bastante. Era como se quisesse deixar seu próprio nome impresso na pele dela, algo que a marcasse por um longo tempo.
  Posse era um conceito ridículo e retrógrado, mas quando estava nos braços de Jungkook, era dele, ainda que por algumas horas.
  As mãos dela também tinham feito um ótimo serviço em grifar sua visita. Jungkook sentia a ardência nas costas e na base da nuca onde as unhas tinham se fincado e arranhado, arrancando sangue em algumas partes, e constatou que teria que malhar com uma camiseta maior naquela semana. Quando se retirou de dentro dela de novo depois de gozar, se sentiu vinte vezes mais cansado do que quando pensou que estava cansado. Estava exausto, moído, totalmente desorientado depois de gastar a última cota de energia que havia sobrado.
  Ele depositou mais um beijo em seu ombro e suas costas antes de se virar para cima, esgotado, ouvindo ela fazer o mesmo, envolvendo cada um de seus dedos nos dele sem perceber, enquanto também voltava ao rumo. Jungkook não percebeu o toque, senão provavelmente já estaria acrescentando aos ouvidos de as primeiras críticas do dia. Ou talvez não tivesse nenhuma força para isso, já que nem sabia direito onde estava.
  — Se eu soubesse que você queria tanto que eu fodesse sua bunda, era só ter me pedido primeiro. — Suspirou, afastando o cabelo molhado da testa, sentindo um leve frescor entrando pela janela.
  A garota soltou uma risada.
  — Quis deixar o melhor para o final. Não prefere assim?
  — Melhor seria se eu não estivesse tão cansado, . Da próxima vez vai ser a primeira coisa que vamos fazer, e não a última.
   desatou uma gargalhada insinuante, e tossiu uma vez, voltando a rir novamente, fazendo-o abrir os olhos e visualizá-la daquela direção; o cabelo espalhado em um caos completo pelo travesseiro, o suor ainda escorrendo pela lateral da testa, o sorriso e o corpo agora começando a ser banhado pela luz pálida que entrava pelas frestas da cortina. 
  A manhã. Aquela era de manhã e Jungkook entendeu completamente por que tinha dito sempre em alto e bom tom: sem manhãs.
  Mas que merda…
  — Do jeito que arruinou minha roupa nova, você não parecia nada cansado. Como vou contar isso para Candice?
  O rosto de Jungkook se desanuviou e ele o desviou novamente, ainda um pouco arfante.
  — Você arruinou minha cabeça primeiro, . Parabéns, onde fica essa maldita loja? Vou comprar ela inteira para você.
  — Não fala isso nem brincando. — balançou a cabeça e ficou de pé, caminhando até a mesma cômoda onde a Panasonic ainda estava repousada, ao lado do relógio digital que havia comprado na Califórnia no ano passado pela falta de um celular decente com despertador. Eram 5:30 da manhã.
  Ela encarou Jungkook por sobre o ombro, onde o garoto agora erguia o corpo para se sentar. Ela anunciou as horas e os dois ficaram em silêncio por um momento embaraçado. Era como se dissesse timidamente com os olhos um “e agora?”, mas foi o mais perto que chegou de falar sobre o assunto, pois logo depois tratou de endireitar a postura e arrumar o máximo dos cabelos quando disse:
  — Preciso de um banho. Você cansado é pior do que quando está com disposição, é impressionante — fez a piada e o constrangimento foi assassinado, com Jungkook rindo pelo nariz e revirando os olhos, fazendo o mundo ficar certo de novo. Não foque nas horas, , pelo menos vocês não dormiram, isso é o que importa, nenhuma regra foi quebrada hoje! Não dormiram! — Que horas você pretende ir?
  — Quando eu conseguir andar de novo, dá para esperar, não é? — Ele encostou a cabeça na cabeceira, sentindo os braços doloridos, assim como as pernas, e sentiria ainda mais depois que dormisse.
  — Claro, Jeon. — Ela deu de ombros, virando-se para a porta. — Mas se dormir, vou te acordar do pior jeito.
  Ela encarou explicitamente seu pau fora de atividade, totalmente morto como Jungkook, que sabia perfeitamente que se fechasse os olhos naquele momento, tinha toda a chance do mundo de pegar no sono, e ninguém queria isso.
  — Essa roupa te deixa tão safada assim e você não quer que eu te compre outras? — Ele arqueou as sobrancelhas de forma divertida, e revirou os olhos com o sorriso, voltando-se para fora de novo. No entanto, ela freou seus passos antes de chegar ao batente e se virou para ele.
  — Ah, quase ia me esquecendo. Você tinha algo para me falar, não é?
  O sorriso no rosto dele diminuiu gradativamente com a pergunta. Todo o relaxamento de seus músculos começou a ir embora, agora se retesando em um estado de alerta. Ele engoliu em seco, desviando os olhos dela, a boca entreaberta para responder, mas não sabendo ao certo o que diria.
  Ele nem se lembrava mais do que tinha ido fazer ali. Algo como: É, vim aqui para dizer para nunca mais fazermos o que acabamos de fazer a noite toda, mas toda a minha credibilidade já foi para o espaço.
  E falar agora não adiantaria de nada. Mesmo que a conversa com Jaehyun começasse a voltar à memória.
    Hoje não, tá legal? Hoje não.
  Engolindo em seco, ele coçou a cabeça e respondeu:
  — Não era nada importante. Outro dia eu falo.
  E observou seu lábio tremer minimamente quando disse isso, mas não falou nada. Apenas concordou com a cabeça.
  — Tudo bem, então. — Ela saiu pela porta e, ao chegar no corredor, parou por um momento de novo, de costas para o quarto, ouvindo atentamente seu lado corajoso e ousado falar mais uma vez, pedindo para fazer mais uma tentativa naquele dia, apenas mais uma.
  Colocando a cabeça para dentro do quarto, encontrou Jungkook com a dele tombada para trás e o antebraço cobrindo os olhos, como se estivesse refletindo, parcialmente relaxado e totalmente transparente e lindo com a luz do dia que entrava cada vez mais e batia nos lençóis bagunçados aos seus pés.
  — Caso te interesse… — quando disse, ele ergueu o corpo para a frente em um pequeno susto. Umedecendo os lábios, sugeriu, confiante e despojada: — Vou deixar a porta aberta.
  Com um último olhar intenso e extremamente atraente, ela voltou-se para a saída de vez e entrou no banheiro a alguns metros.
  Jungkook permaneceu parado, sentindo algo incômodo e quente no peito. Era parecido com um pico de adrenalina rápida, quando se sentia medo diante de uma situação nova, por mínima que fosse. Quando o coração faz um movimento errado e logo depois se recupera. Ele sentiu o corpo arder de uma forma diferente e isso o aborreceu. Qual é, , você é maluca? Que ideia estúpida é essa de me chamar para um banho? Posso fazer isso sozinho, você também pode, então… Então…
    Então…
  E toda a culpa de alguns segundos atrás tinha subitamente desaparecido de novo, dando lugar a uma nova excitação.
  — Que se foda.
  E se colocou de pé, andando a passos largos para o outro cômodo, onde o chuveiro já estava ligado e saudava sua nova companhia.

[ 8 ] – One of those games you're gonna lose

"Um daqueles jogos que você vai perder
Mas você quer jogar, só para ter certeza
﹝...﹞
E estou deslocado e não estou ficando mais sábio
Me sinto como o Sundance Kid atrás de um sintetizador
E eu tentei ontem à noite guardar sua risada
Como uma chave debaixo do tapete
Mas parece que nunca está lá quando queremos."
🖤🎵🎧🎤

  A hora mais importante não chegava nunca.
   inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto tentava relaxar. Aquela dor incômoda sempre aparecia nos piores momentos, mesmo em seus dias finais. A tortura aguda em forma de uma cólica terrível que já durava por três dias, o que muitas vezes a impedia de pensar direito. Não dava exatamente para fazer isso também quando Yoona não parava de falar um minuto sequer do seu lado, passando e repassando os mesmos tópicos que tinham sido abordados todos os dias da última semana – inclusive, a informação inútil de que tinha comprado um terrier. Sua parceira tratava o assunto como vital, ignorando o fato de que também estava levando tão a sério quanto ela, talvez até mais. Se o projeto fosse recusado, seria visto como um sinal, e um sinal nada bom: Como a desistência de seu sonho, ou mais um adiamento dele, e nenhuma das duas opções eram satisfatórias.
  — E precisamos dizer que as alternativas variam e que podem ser adaptadas a qualquer hora, tudo bem? Mas não importa o que sugiram, nossa ideia é a base e não vamos negociar conceitos radicais, pelo menos não dentro do nosso. Você trouxe o portfólio?
  — Claro. — ajeitou a postura novamente, pegando a pasta na bolsa e apontando para o pen drive muito bem guardado na palma da mão. Yoona abriu a pasta no colo, mesmo já tendo feito a mesma coisa há 30 minutos atrás. Era impossível medir quem estava mais nervosa. Seria melhor que alguém as distraísse com qualquer assunto desnecessário, como as funcionárias da limpeza que falavam sobre pelos nas pernas e essas coisas.
  — Uau — a garota soltou um grande suspiro, alisando a imagem das tartarugas marinhas completando sua jornada até o mar de Malibu —, nunca tinha notado, mas essa foto é simplesmente incrível. Aliás, todas são. Parece uma série de TV. — Ela parecia admirada. soltou um pequeno sorriso. — Você é muito talentosa, . Isso me deixa ainda mais confiante. Onde trabalhava mesmo na América?
   piscou os olhos e abaixou a cabeça por um momento.
  — Era um trabalho independente. — Não era uma resposta muito digna, mas não importava, Yoona não perceberia isso.
  — Legal! Vendia suas fotos para alguma revista? — perguntou de novo, e limpou a garganta.
  — Basicamente — sussurrou. Com um suspiro, Yoona se afastou da parede e apontou com o queixo para o material em suas mãos.
  — Mas não essas, não é?
   esboçou um sorriso de canto, assentindo levemente.
  — Não, não essas.
  E por esse motivo, elas nem deveriam estar aqui, pensou. Era pessoal demais para ser apresentado em uma pequena reunião. Não tinha nada a ver com o conceito que pensaram. Yoona havia pedido um portfólio simples de seus últimos trabalhos recentes, nada mais. Mas simplesmente trouxe a pasta que guardava no fundo do armário.
  Ponto para Jungkook. Ele a fez ficar pensando que as fotos eram boas o suficiente depois daqueles elogios baratos em sua casa e agora ela estava ali, pensando que impressionaria alguém com seu olhar razoavelmente sensível. Se tudo desse errado, ela tinha carta branca para odiá-lo por uma semana inteira.
  — Ei, vocês. — Uma mulher de meia idade colocou a cabeça para fora, encarando as duas garotas sentadas nas poltronas. — Podem entrar agora.
   olhou imediatamente para Yoona. Era agora. Não dava mais tempo de voltar para casa. Não dava mais tempo nem de fingir um desmaio. Agora ela só tinha como se levantar e manter aquela turbulência de nervosismo em silêncio. Agarrando a Panasonic, desviou os olhos e tentou respirar pelo diafragma.
  Você se deve essa, . Pode dar certo e pode não dar. Não aja como uma amadora. Não aja como se ainda estivesse na Califórnia.
  As duas se levantaram ao mesmo tempo, permanecendo paradas por um minuto inteiro antes de Yoona dizer, em voz baixa e hesitante:
  — Você começa?
  — Como quiser — respondeu , e deu seus primeiros passos para dentro da sala.

📸💔

   afundou o hashi no arroz, mexeu na sopa, encarou a carne borbulhando no centro da mesa, suspirou, engoliu uma ponta do kimchi e repetiu todos os movimentos de novo. A comida parecia estar gostosa, mas não tinha como ter certeza absoluta disso quando sua atenção estava tão desfalcada do presente, e seu corpo ainda se recuperava gradativamente de mais uma sessão de dor pélvica tremenda, misturada com ombros tensionados pela espera infinita de uma resposta.
  Fazia dois dias desde a apresentação com Yoona. E, a cada brecha, aquela coisa silenciosa de ansiedade a fazia querer voltar para cama toda vez que acordava, mesmo que ela não faria isso, nunca. Era traumatizante demais acreditar em promessas, ainda mais acreditar em algo que era puramente um teste. Se ela recebesse um não, pelo menos podia dizer que já estava esperando por isso.
  Quando estendeu a mão para pegar o copo de água, sua mente estava tão aérea que seus dedos esbarraram no metal e a metade do líquido caiu sobre a mesa, molhando parte das unhas de Candice logo à frente. Seu celular não estava ali, o que foi um alívio. pareceu ter acordado de seu devaneio, puxando o copo e murmurando um pedido de desculpas.
  Ela ouviu a amiga bufar em tom cansado e irritado.
  — Fala sério, ! — Candice revirou os olhos, e parecia saber exatamente o que diria. — Não quero brigar sobre isso de novo, mas vou te levar ao médico por causa dessas malditas dores. Olha como você fica, já passou da hora.
   revirou os olhos enquanto puxava um guardanapo do centro da mesa.
  — Já falei que não precisa. Por que eu iria ao médico por causa de uma cólica?
  — Não é uma cólica comum! Faz 3 dias que você fica capegando pelos lugares, por mais que disfarce bem, fora essa palidez doente e essas olheiras de quem não tem uma noite de sono decente há eras. Já viu seus lábios? Parece aquela garota de Lost. Se tivesse um médico por aqui, iria te oferecer uma consulta de graça por puro desespero — ao dizer isso, ela realmente olhou ao redor do restaurante. manteve a concentração na limpeza de seu estrago. — Você parou de tomar seu remédio, não é?
  Ela entortou a boca em busca de uma resposta convincente, ou qualquer coisa que fizesse Candice esquecer do assunto e não agir por conta própria, que com certeza incluiria ligações desnecessárias e caronas no meio do expediente.
  — Eles não vendem aquele remédio por aqui — respondeu, e Candice baixou seus próprios hashi, levantando os ombros com uma expressão enorme de “e daí?”.
  — E isso lá é um problema?! Pois então vamos procurar outro por aqui. Não acredito que não foi atrás de outro anticoncepcional desde que pisamos nesse país porque “não é o mesmo”.
  — Não tive tempo para nada disso, Candy. Essas coisas precisam de exames, idas e vindas ao hospital, testes e perguntas, fora que ainda não sei me deslocar muito bem por essa cidade enorme sem pedir informação a cada esquina. Mas juro que vou dar um jeito no mês que vem, antes do próximo ciclo, eu só…
  Candice não estava mais olhando para ela. Com os dedos rápidos, digitou algo no celular e voltou a baixá-lo na mesa, pegando seus palitos de metal de volta.
  — Já era, acabei de fazer isso.
  Algo dentro de estufou até fazê-la arquear as costas, aumentando o tom de voz sem querer:
  — Você fez o quê? — A surpresa tirou sua capacidade de perguntar qualquer coisa devidamente. De repente, ela nem parecia mais tão faminta como quando chegou ali.
  — Marquei uma consulta com meu ginecologista para você. Ele é ótimo, um dos melhores de Seul, o plano de saúde da Vogue quase não deu para cobri-lo, é sério. Eles são mais miseráveis do que eu pensava, fico carente com a falta de inclusão dos meus procedimentos estéticos — ela respondeu sem a menor preocupação do estado espantado de . — Mas fiz isso porque não quero mais te ver mancando pela casa de madrugada com suas náuseas e emitindo essa energia negra de dor e sofrimento. Você vai ao médico e ponto final.
   pressionou os lábios, olhando para Candice com um leve aborrecimento. Ela pensou nas órbitas escuras dos olhos esqueléticos daquela carta da Morte no tarô, o tipo de coisa que Candice gostava de guardar na penteadeira do quarto, e pensou que fazia sentido colocá-la para funcionar naquela amizade: aprender a se desprender das coisas, começando por Candice Chaperman e seu cuidado excessivo.
  É claro que não faria nada disso. Não era de hoje que sabia perfeitamente seu papel na vida da amiga: uma irmã mais nova, uma confidente e um tesouro, como vivia repetindo.
  Optando por não discutir, ela apenas apoiou um cotovelo na mesa e olhou para um inseto que zunia na janela ao lado de seus ombros. O jeito como Candice reparava em alguns mínimos detalhes apenas superficialmente tornavam-na esperta, mas não o suficiente. Se reparasse melhor, perceberia que mais coisas deixavam acordada à noite, e isso incluía o projeto, seu futuro, sexo esporádico e mensagens não respondidas de um cara que estava do outro lado do oceano.
  Esta última situação estava azucrinando mais do que o zunido daquela coisa na janela, e tomando um certo tamanho que não deveria tomar de jeito nenhum.
  Mas logo recuperou a postura, comendo sua refeição em vez de simplesmente olhar para ela e torcendo para ter o mínimo de adrenalina para enfrentar uma aula de duas horas durante a tarde e se afundar na cama o mais cedo possível.
  Candice bufou novamente, alheia aos verdadeiros pensamentos de , que estavam bem longe dali.
  — Você poderia agir como um ser humano normal e me agradecer por isso. Eu me preocupo com você.
   mastigou devagar, estreitando os olhos.
  — Claro, obrigada por ser sempre tão enxerida, Chaperman. Deveria me agradecer também por jogar os cigarros que esconde no porta-luvas do carro fora.
  Os olhos de Candice abriram mais que o necessário. Antes que pudesse responder qualquer coisa, uma vibração estrondosa partiu do bolso de trás de , que suspirou e puxou-o para fora, achando ser um momento mais do que útil para atender e não ouvir as explicações gaguejadas de Candy sobre seus hábitos autodestrutivos.
  Mas quando viu o nome do remetente de sua notificação, era melhor ter ignorado o toque.
  Se estava pálida antes, agora sua cor tinha mudado para verde. Era como se uma mosca tivesse pousado em seu cérebro. Os dedos se enrijeceram em volta do aparelho e um grande nó se formou na garganta.
  Candice levou um minuto inteiro para reparar no estado anormal da garota.
  — O que foi? Isso é uma crise nova? Parece que vai desmaiar.
  — C-Candice… É um e-mail… — Ela não continuou. Seus lábios tremiam ligeiramente, mas Candice apenas arqueou uma sobrancelha.
  — Sim? Que foi? É um spam? Clonaram seu cartão de crédito? Links da deep Web?
  — É da Hybe.
  A outra endureceu o corpo imediatamente. Agora seu rosto estava parecido com o de : estático, apreensivo. Não sabia o que sentir. Quanto mais ficava ali, mais considerava a ideia de que poderia fechar o celular e fingir que não viu nada.
  — O que tá esperando? Abre logo! — grunhiu Candice.
  — Não consigo.
  — Como assim?
   queria explicar, mas provavelmente não conseguiria, então apenas não tentou.
  O resultado importava mais do que pensou. Ela estava sendo tomada por emoções sabotadoras que sempre eram contidas, mas ali, agora, pareciam infestar todo aquele espaço.
  Abrindo ainda mais os olhos, ela estendeu o telefone para a loira do outro lado, dizendo com a voz falha:
  — Abre você.
  — Mas…
  — Abre logo! É da proposta. Só abre.
  Candice engoliu em seco e inclinou-se para ler o conteúdo. Sua expressão era claramente a mesma: surpresa, cabisbaixa. Fez entender tudo antes que dissesse uma palavra.
  — , eu sinto muito… — falou cuidadosamente. sentiu o peito afundar, os olhos agora se cravando no piso, vendo a sombra daquele inseto no vidro, que agora parecia um monstro elegante no chão.
  Ela deveria saber. Talento não é a única coisa que dita sucesso, em nenhum lugar do mundo. De qualquer forma, seu status não passava de uma novata, com ideias mirabolantes e razoáveis, igual as mais de três mil pessoas que estavam tentando a vida nessa indústria. Era novata porque não podia simplesmente revelar seu antigo trabalho. Que agência coreana contrataria uma ex-paparazzi? Eles eram uma analogia de sasaengs, pelo amor de deus!
  Pensar nisso fez toda a alegria dela desaparecer mais ainda.
  — Acho que não vamos mais tomar sorvete assistindo a documentários por um tempo.
   precisou de um momento para erguer a cabeça e franzir o cenho.
  — Porque imagino que o trabalho de uma diretora de fotografia vá te roubar definitivamente de mim! — Sorrindo, Candice virou o celular. — Parece que estou falando com a mais nova aquisição do full album do TXT!
   paralisou, pegando o celular automaticamente com o coração na boca, sentindo algo rastejar por sua nuca em um suor frio. Ela leu e releu a mensagem, os olhos girando para cima e para baixo, para a frente e para trás, certificando-se de ter entendido cada palavra, cada caractere. Era difícil até se mexer. Parecia algo inacreditável demais.
  Quando sentiu os braços de Candice em volta de seus ombros, foi como receber o apito da vida real.
  — Parabéns, ! Eu sabia que você conseguiria, eu nunca duvidei, nem por um segundo! — Ela a apertava com tanta força que normalmente tinha que fazer um esforço para escalar para fora da constrição, mas naquele momento, tudo parecia tão dormente que isso não importava.
  — Não acredito… — Sua voz era tão baixa e facilmente afogada pelas felicitações de Candice. Ela continuava lendo o e-mail, e as mensagens de Yoona começaram a chegar sem parar, em uma mistura de emojis e pontos de exclamação. Tudo que conseguia se atentar agora era nos dizeres do corpo do email: “Gostamos muito do conceito analógico… [...] O efeito da Panasonic foi engenhoso e inteligente… [...] Quantas cenas você estaria disposta a criar?”.
  Era como se todas as luzes da cidade estivessem formando uma sombra ligeira de seu corpo inteiro. Um destaque inesperado, mas essencial, imprescindível. teria o nome estampado junto com uma das maiores empresas de entretenimento coreano da atualidade, e a responsabilidade não a assustava nem um pouco.
  — Você é genial, ! Você merece, precisamos comemorar! — Agora Candice levantava seu corpo curvo, que ainda parecia meio mole, tanto pelos abraços apertados quanto pela notícia. — Seu primeiro contrato com uma agência! Minha nossa! Vou ligar agora mesmo e dizer que não vou trabalhar amanhã.
   se deixou sorrir, mas achava que já estava fazendo isso há um tempo. Os olhos de Candice brilhavam tanto que a faziam acreditar que não estava sonhando.
  — Sim, preciso… Nós precisamos, e vamos! Deus, não sei nem o que dizer! — Arfou, sentindo os dedos frágeis segurarem o celular com mais força. — Tenho que ir para lá agora, não tenho?
  — Vou levá-la o mais rápido possível! — Com um gritinho, Candice se virou saltitante até o caixa, sem receber qualquer advertência sobre pagar a conta sozinha.
  Agora parada, soltou uma risada mais alta, ainda encarando o celular. Duas narrativas coexistiam em sua cabeça. Uma era a imagem real: seu currículo com o nome da Hybe, a denominação “diretora” em letras altas e todas as portas que poderiam ser abertas com aquilo. A subida próspera e o início de uma carreira, quem sabe. Uma carreira alheia a invasões de privacidade e destruição de relacionamentos felizes.
  A outra era uma imagem falsa, uma possibilidade: Jill Tiefenthaler ou Mara Dell, os grandes nomes da National Geographic, descobrirem o novo álbum no ar, se interessarem pelas imagens que ainda nem existiam, mas que já dava vida na imaginação, encontrarem o contato dela e todo o processo que se seguiria até que seu nome fosse inserido na equipe que sonhava estar antes mesmo de aprender a fotografar.
  Em um segundo, ela deu logo um jeito de fazer essas ilusões desaparecerem, ficando apenas com a imagem real. Sonhos podiam ser uma arma mortal para quem se esquecia de usar o lado racional.
  Seu coração pulsava de tanta felicidade que abriu a conversa dele sem perceber, digitando a novidade sem pensar duas vezes. Mas então, antes que apertasse o botão de enviar, ela encarou a data da última mensagem respondida, muito tempo atrás.
  Sentiu a pele ser tomada por um arrepio ridículo de constrangimento e apagou toda a linha da mensagem em um impulso horrorizado. Não vou perturbá-lo com esse tipo de coisa, não vou, não vou.
  Era louco pensar que mandaria uma mensagem para Jaehyun imediatamente naquela situação, e que as asas das borboletas bateriam com força em seu estômago quando ele respondesse. Mas agora, isso não parecia muito pertinente. não aparentava mais ser um elemento válido que mantinha Jeong Jaehyun entretido – muito menos interessado.
  Mas tinha outra pessoa a quem pudesse contar. Pensando bem, esta fazia até mais sentido. E em vez de borboletas batendo asas, ela sentiu seu coração bater ainda mais rápido pela empolgação quando digitou:
    “Parece que vou ter que alugar sua Panasonic por mais um tempo! 🥳

📸💔

  O Texas inteiro parecia estar gritando do lado de fora quando Jaehyun entrou no camarim compartilhado, retirando os in-ears dos ouvidos e pegando sua garrafa de água por conta própria.
  O suor tomava sua testa e nuca, junto com a adrenalina de praxe que sentia a cada performance. As últimas eram sempre as mais agitadas, demoradas e, pela grande liberação de endorfina, também mais prazerosas.
  Dabin entrou logo em seguida, trazendo seu sorriso tímido e estendendo o celular apitando para o rapaz.
  — É um número desconhecido. Preciso bloqueá-lo?
  Ela estava insegura de novo. Uma staff com mais experiência não precisaria perguntar uma coisa daquelas, mas, na situação específica, foi melhor que perguntasse.
  Jaehyun tomou o telefone e leu a mensagem seguida de duas ligações perdidas, agora sentindo a garganta apertada e obstruída.
    “Sabe onde fica o meu hotel, não sabe? Estou esperando.”
  Engolindo em seco, ele apenas bloqueia a tela e o coloca em cima da penteadeira.
  — Obrigado, Dabin, não precisa se preocupar. Não é nada demais.
  A mulher concordou e observou quando ele se retirou rapidamente para os fundos, direto para os chuveiros improvisados e seus demais pertences guardados.
  Quando voltou, depois de um tempo, ele ainda secava os cabelos apressadamente enquanto começava a juntar seus pequenos objetos espalhados pela penteadeira, ou até mesmo no chão, como quando se trocava com menos de 5 minutos para a próxima entrada e não se atentava com a integridade dos adornos. No momento seguinte, o camarim não estava mais vazio, e distraidamente ele conseguiu ouvir seu nome ser chamado:
  — Jae?
  A voz de Taeyong soou logo atrás dele, com um timbre extravagante e inicialmente irreconhecível. Jaehyun não se virou imediatamente.
  — Mandou bem hoje, Jaehyun. Você está tão bom que estou quase mediando seu próximo solo para já.
  Jaehyun acabava de mover seu carregador de celular para dentro de uma mochila quando disse:
  — Ainda não terminei de escrever a música, você sabe.
  — Eu sei, mas isso é uma questão de tempo. Do jeito que eu acho que você tá apaixonado.
  — Jaehyun apaixonado? Essa é nova. — Johnny soltou uma risada alegre e desacreditada, quase alçando voo. Parecia ter acabado de tomar uma garrafa inteira de soju. Aliás, duas garrafas.
  Ele não reagiu ao comentário. Apenas estreitou os olhos por cima do ombro e continuou focado na tarefa.
  — Você é cego? Não vê o jeito que ele fica idiota quando alguém só toca no nome de ? — Taeyong tocou no nome, e isso fez com que Jaehyun travasse os dedos no zíper. Cara, que merda, você não consegue segurar a língua?, disse ele através do espelho para o líder, revirando os olhos pela frustração. — Eu não disse?
  Johnny fez cara de quem não tinha entendido. Ouviram-se três passos bem próximos da porta, o chão estalando como um tiro, mas ninguém mais entrou, o que foi um alívio, porque Johnny era a melhor pessoa para criar um show inconveniente de zombarias.
  — ? A fotógrafa? — A pergunta de Johnny foi respondida com um assentir de cabeça de Taeyong. Jaehyun permaneceu calado, respirando fundo em busca de coisas essenciais que coubessem em um espaço pequeno de uma bolsa e nada que envolvesse falar daquele assunto agora, naquele momento, não quando estava evitando pensar em e de como andava sendo um tremendo idiota no seu ridículo tratamento de silêncio. — Isso é sério?
  E então, Johnny caminhou até ele e puxou a corrente de prata que Jaehyun se preparava para guardar no bolso da frente, fazendo o amigo grunhir.
  — O que tá fazendo?!
  — Claro, por que não pensei nisso antes? É com ela que foi se encontrar aquele dia?
  — O quê? — perguntou Taeyong. — Que dia?
  Jaehyun empurrou Johnny para o lado até puxar os sapatos de debaixo da poltrona e desabou em cima dela tão forte que o suporte quase quebrou, começando a calçar seus tênis em silêncio.
  — O dia que me perguntou da cafeteria em Chicago. Você saiu por algumas horas, disse que ia encontrar alguém, pediu um lugar discreto. — Johnny frisou a última palavra com um sorriso sugestivo. Taeyong sufocou uma risada. Jaehyun comprimiu os lábios, desejando que ele bebesse mais algumas garrafas naquela noite e deixasse o corpo cair com tudo sobre a madeira daquele hotel e só acordasse no fim da turnê.
  — Não era ninguém importante, e está na Coreia, vão querer mesmo fritar a cabeça com esse assunto?
  — Mas foi um encontro casual ou…
  — Não enche, Taeyong. — Ele ergueu o olhar duro ao responder. Não queria falar do assunto, era óbvio. Ele só servia para lembrar de suas atitudes desagradáveis, e que ele acreditava que precisavam ser tomadas. Só por garantia, antes de chegar ao hotel de Ali Dalphin dentro de um carro alugado, ele procuraria esse sentimento de culpa no escuro e o esmagaria mais uma vez para que não interferisse em seus planos.
  Merda. Como esmagaria algo que não parava de crescer?, pensou de novo.
  Taeyong ergueu os braços em defesa pela resposta ríspida, puxando os cantos da boca para baixo de um jeito cômico.
  — Eu não ligo com quem você sai, acha que eu sou idiota? Juro. Só tome cuidado com as câmeras, você sabe. Seria bem ruim se algo desse errado por aqui.
  — Claro, eu sei disso — murmurou, puxando o último cadarço e se levantando em seguida, tirando a corrente das mãos de Johnny e conferindo os últimos itens da pequena bagagem. — Tenho algumas coisas no hotel, mas você pode dar um jeito nisso, não é? Pelos velhos tempos. — Com um tapinha nos ombros de Johnny, ele começou a caminhar para a porta.
  — Que tipo de coisas? E para onde você vai? — A pergunta também era redirecionada para Taeyong, que normalmente sabia tudo e mais um pouco de todos os membros – tinha que saber. A resposta do líder foi apenas um giro de palma no ar e Jaehyun suspirou, tentando não gesticular tanto com as mãos e fazer algo que demonstrasse que estava nervoso.
  — Vou para Los Angeles por um momento. Volto em 2 dias, não se preocupe.
  — Uau. Eu gosto de LA. Por que não me convidou? — Johnny torceu as sobrancelhas. Taeyong o lançou seu melhor olhar de “você precisa que as pessoas desenhem para você sempre? Sério?”.
  Jaehyun não sabia dizer como se sentia ao passar uma impressão tão errada para os amigos.
  — Talvez uma próxima vez.
  Antes que Johnny pudesse perguntar de novo, Taeyong falou na frente:
  — Claro, claro, vai logo. E não se esqueça que semana que vem sai o anúncio da extensão da turnê.
  A culpa de merda voltou com tudo, rastejando sempre a centímetros dele. A mídia ainda não sabia que os 2 meses de turnê do NCT 127 iriam se transformar em 3, ou até mesmo 4, se resolvessem dar uma passadinha na América do Sul. As malditas bilheterias estavam indo estupidamente bem, o público tomava cada assento disponível das arenas e só o que se lia era esgotado, esgotado, esgotado. Lógico que a SM se aproveitaria disso.
  E ficaria sabendo disso por um site na internet, e não por ele.
  Ela ainda estava esperando por ele? Era difícil acreditar nisso quando, em poucos dias, passou de “um futuro namorado promissor” para “cara esquisito além da salvação”.
  Ele se vira para Taeyong, limpando a garganta antes de dizer:
  — Beleza. Vejo vocês depois.

📸💔

   bateu o copo com força na mesa, fazendo careta para a mistura forte que, sinceramente, era melhor não saber. Pelo menos o copo ficou inteiro. Aquela noite tinha começado com doses em copos pequenos de shot, depois passando para canecas grandes com formato de asas que se quebraram muito fácil e, agora, Yoona deu um jeito de conseguir utensílios de plástico de algum lugar da recepção do pub. Ou seja lá onde era aquela sala privativa em que estavam bebendo.
  Quando se pisa em um lugar cheio de luzes negras e com um grande tablado em frente a uma enorme tela projetada de um data show escondido na parede com microfones despencando de um suporte, só podia ser um pub. Um pub com seu famigerado karaokê.
  Não havia um único lugar nesse país que não tivesse karaokês.
  Candice e Yoona vibraram em palmas e gritos enquanto jogava a cabeça para trás, forçando a náusea a passar e ficar bem quieta onde estava, no fundo do estômago.
  — Muito bem, ! Era isso que a gente queria! Eu sabia que você no fundo era boa de beber! Agora vamos, mais uma! — Yoona puxou mais recipiente descartável, juntando a cerveja e o soju na mistura coreana mais famosa do mundo.
  — Não sei… Devo? — ela perguntou grogue, rindo de um jeito desnorteado, balançando a cabeça para enxergar a bebida embaixo daquelas luzes escuras. — Yoona. Isso… — apontou para o lado do copo, onde não tinha nada — isso aqui é broxante. Cadê minha tangerina?
  — O quê?! — demandou Yoona. Candice soltou uma gargalhada alta. — Isso é soju e cerveja, não um drink de garotas frescas, cadê o seu…
  — Eu quero a tangerina! Minha tangerinaa! — Ela bateu a palma da mão na mesa, juntando as sobrancelhas em uma expressão raivosa. — Candy, fala para ela!
  — Que cacete! Cadê a porra dessa tangerina? — Candice tropeçou até a mesa ao lado, pegando a fruta já meio descascada e jogando no colo de , que gemeu e depois soltou outra risada alta.
  Quando puxou um gomo e jogou dentro da bebida, sua expressão foi de eufórica para frustrada em menos de um minuto.
  — Ah. — Suspirou tristemente, baixando os ombros. — Não ficou bonito como eu esperava.
  — Ah, Deus! — Yoona bufou, virando sua própria bebida. Candice grunhiu, espalmando a mesa com força, que já parecia frágil o bastante.
  — , ou você bebe isso ou vou te dar um motivo pior para beber! Anda logo.
  Com um piparote, ergueu um pouco o tronco, um pouco desengonçada, e sentiu o piso molhado por debaixo dos pés protegidos apenas com meias.
  — Não gosto quando manda em mim, Chaperman.
  — Mas hoje nós temos que comemorar! Vocês duas são as mulheres mais fodas dessa cidade hoje! E mais importante: você vai ganhar um crachá! Agora vamos, mais uma!
   a encarou de um jeito débil, como se sua mente bêbada não tivesse conseguido captar todas as palavras, mas captaram as mais importantes porque logo em seguida ela enlaçou os dedos ao redor do copo e puxou o pedaço de tangerina para fora, lançando-a no cesto de lixo ao lado da porta fechada.
  Bem, pelo menos aquilo parecia uma lata de lixo.
  — Você está certa! — gritou, estendendo o plástico para a frente. — Agora!
  As três garotas gritaram palavras incompreensíveis e, então, com um movimento rítmico, viraram seus copos garganta adentro, esboçando as mesmas caretas depois e soltando as mesmas risadas altas.
  Era genuinamente um momento feliz. Só de pensar que suas noites viradas e seu lixo do quarto transbordando de papéis amassados de ideias e mais ideias descartadas chegaram naquele resultado de hoje, ela merecia ter uma noite divertida e completamente transtornada.
  Depois de mais algumas doses, era como se aquela sala particular não fosse mais uma sala, e sim uma fenda onde cada uma das 3 estava viajando em seu próprio universo. não fazia ideia de que horas eram, e isso não importava. Quando se levantou da cadeira, cambaleou até o palco, rindo de nada, pensando de forma assustadoramente consciente que estava gastando uma fortuna naquele lugar e não tinha usufruído de tudo.
  Quem pensava em uma coisa dessas naquele estado de embriaguez?
  De qualquer forma, quando alcançou a plataforma, ela puxou o microfone e encarou a tela projetada, que exibia uma foto muito bonita de uma praia com areias brancas e céu azul.
  — Não consigo me lembrar da música… — murmurou para si mesma. Então, virou-se para as garotas na mesa, gritando no alto falante ligado. — Ei! Preciso de uma música!
  — Que música? — Yoona gritou de volta. Candice riu e moveu as palmas no ar.
  — Canta qualquer coisa!
   continuou parada, e esperou que elas a dessem uma resposta específica, mas isso não aconteceria. Revirando os olhos, apoiou um braço mole no suporte, estalando a língua com força no agudo do microfone.
  — Uma. Música! Qual é mesmo o nome daquela mús… — Ela parou, os olhos se abrindo exponencialmente até soltar um sorriso. — Lembrei! Lembrei!
  Com os dedos rápidos e mais um tropeço, caminhou até a tela touch e quadradaonde digitou o nome da música, com vários erros que foram consertados pelo corretor automático. Em um minuto, as luzes não eram mais apenas baixas e azuis, mas vários pontinhos coloridos em rosa e roxo tomaram as paredes quando a melodia de Euphoria começou a ecoar pelo ambiente inteiro.
   deu um gritinho, engatando seu canto em uma desafinação terrível, mas ninguém ligava. Yoona e Candice berraram seu apoio seguido de mais uma dose extra de soju.
  — Vai, , arrasa! Não importa que esteja parecendo um gato apanhando, você ainda está linda! — Candice gritou enquanto Yoona gargalhava e colocava os pés em cima da mesa, recostando-se no banco acolchoado.
   mexeu o corpo de um jeito desengonçado, vocalizando a melodia de uma forma totalmente torta e errada, mas feliz, porque aquela era a primeira música que veio à sua cabeça para cantar.
  Como a música daquele imbecil podia ser a primeira quando existia, sei lá, Daniel Caesar como escolha?
  A porra de Daniel Caesar.
  Yoona vibrava tanto quanto a garota no palco, levantando as mãos no clímax do refrão, rindo quando cambaleou para o lado e se segurou a tempo no suporte.
  — Ela é uma garota e tanto, não é? — comentou, falando mais alto pelo som que tomava o lugar.
  Candice bebeu mais um gole farto de soju. Quando finalmente falou, deixou de olhar para e se virou para Yoona com convicção:
  — E como! E merece tudo que está acontecendo com ela. Na verdade, vocês duas merecem. — Ela ergueu o copo plástico para Yoona, que logo brindou com o seu. — Mas é que o caminho para chegar aqui foi tão fodido que quero beijar e abraçar o Bang, por mais ranço que eu tenha.
  — Todo mundo tem ranço de CEOs de agências de entretenimento, isso não é novidade. Mas dessa vez até eu me surpreendi. Qual é, desde quando duas novatas apresentam uma proposta e não as mandam caírem fora? Ainda mais uma estrangeira. O povo desse país pensa que tudo que vem de fora é maconha ou pornografia.
  Candice deu de ombros. Seu próprio dia-a-dia mostrava essa dura realidade por si só. Ela nunca esperou que fosse ser vista como uma mulher vulgar só por ter um fenótipo diferente, mas também nunca se preocupou em dar alguma importância para isso.
  — Ele deve estar a ponto de renunciar, vai saber. Foi a chance que ele viu de ter algo novo antes de finalmente se mandar.
  — E nós realmente vamos fazer algo novo! Vamos fazer algo novo, ! — Yoona gritou e cantou mais alto, agora pulando na segunda metade da canção. — Ela é demais! Nada disso teria acontecido sem o talento dessa garota. Há quanto tempo se conhecem mesmo?
  Candice riu, estreitando os olhos enquanto tentava se lembrar.
  — Hmm… Desde que vi esse rostinho nada sorridente em Los Angeles. Deve ter uns 4 anos. Vi uma foto dessa garota de um lugar chamado Bahia e me apaixonei, assim como o dono da revista, que logo convocou ela para o serviço. Foi tiro e queda. Amo ela como alguém da minha família.
  — Daebak! Você também trabalhava em uma revista? Que legal, fazia photoshoots?
  — Que? Não… — As próximas palavras de Candice são interrompidas por um grito agudo e desafinado de no vocal contínuo de “euphoriaaaa” que fez as amigas cruzarem as sobrancelhas. Mas serviu para puxar Candice por um instante para a vida real e se tocar da pergunta que Yoona fazia. A garota ainda esperava uma resposta, e ela não tinha certeza de como falar sem revelar coisas demais. Por fim, abanou as mãos novamente no ar e decidiu dispersar o assunto. — Essa garota sempre foi muito centrada no trabalho. É o que importa. Nada tira o foco dela, é sério.
  — Verdade? Nem o namorado?
  — Namorado?! — Candice engasgou com a resposta.
  — É, esses dias quando almoçamos juntos, ela estava trocando mensagens com um Jeong e…
  — Argh! Ela não namora aquele protótipo de príncipe encantado do Jeong Jaehyun! Fala sério! Não depois de tudo que ele anda fazendo… — Um estrondo cadenciado surgiu de novo das paredes, trazendo de volta a luz azul e escura com os pontos brilhantes dançando no teto enquanto o som pesado de Punch começava, e o rosto de Jaehyun surgia junto de Taeyong e os demais do 127 nas roupas de couro como uma coincidência terrível. Outra coisa terrível era ter recomeçado a cantar de novo.
  Candice revirou os olhos e Yoona encarou o MV que passava na parede com as letras embaixo ao mesmo tempo em que olhava para gritando animada. Ela abriu a boca em um ‘o’ perfeito, tendo a súbita certeza de que Candice não podia estar mentindo sobre isso.
  — Espera, está dizendo que anda mesmo se encontrando e trocando mensagens com Jaehyun do NCT?
  — Bem…
  — Jeong Jaehyun, o cara que é tipo top 5 da Coreia? Quietinho, fofo, moda dândi e cavalheiro? Minha nossa! — Ela vibrou, incapaz de acreditar no que ouviu. — Desde quando isso está acontecendo? Até onde eles foram? Deram as mãos, abraços? Beijo…
  Candice avançou para perto da garota, tapando sua boca imediatamente com uma mão enquanto colocava o indicador na frente dos lábios.
  — Shiu! Fala baixo, ela vai nos ouvir! — disse, gritando, mesmo que fosse impossível que escutasse alguma coisa naquela batida ensurdecedora de Punch. — Ela não pode saber que te contei isso, aliás, ninguém pode…
  — Então é verdade! Puta merda! — Era difícil abafar qualquer entusiasmo naquele lugar apertado, mas Yoona teve sucesso em cobrir a própria boca antes que Candice fizesse. — Não acredito que ela tá namorando um idol escondido, como vocês duas são sortudas!
  — É, e não é nada fácil, sabia? Tem a multidão, essas fãs malditas que reclamam na internet, sasaengs que compram staffs, e… espera aí, você disse duas?
  — Você está namorando com alguém do BTS, não está? — Yoona ergueu uma sobrancelha, como se fosse algo totalmente e claramente óbvio.
  Candice paralisou por um momento, sentindo a música ao redor de repente ficar mais baixa. Sua primeira reação de desespero soava como balançar Yoona enquanto perguntava: quem te contou? Quem diabos te contou uma coisa dessas?
  — Vamos lá, pode me dizer, sei que você está saindo com um deles! Quem é? Posso tentar adivinhar? É o Namjoon, não é? Apostei com Seojun que era, mas não…
  — Shiu! Do que está falando? Não! — Candy interrompeu novamente, os olhos arregalados de susto. — N-não é isso, eu não tenho namorado! Quem te disse uma coisa dessas? Vocês desse país não podem dar um beijinho de língua que já intitulam como namoro?
  — Então está só dormindo com ele?
  Candice esperou quase um minuto inteiro para começar a rir, mais desperta do que jamais esteve depois de tanta tequila, pensando que se fosse embora agora poderia se livrar daquelas perguntas, mas infelizmente Yoona iria junto com ela. E então, as duas estavam rindo de novo, Candice com mais sinceridade do que o começo, porque reparando agora, a risada de Yoona era engraçada. Parecia o Muttley daquele desenho, Corrida Maluca.
  — Ei, do que vocês estão rindo? Quero participar! — se infiltrou no meio das duas no banco, deixando que o ciúme se infiltrasse na sua voz de uma forma divertida. Candice passou os braços por seus ombros, puxando-a para um abraço desajeitado.
  — Não é da sua conta, , só estou fazendo novas amigas.
  — Amigas, gostei! Sabe, , nós estávamos falando de você e do…
  — Agora é a minha vez de cantar! — Candice gritou, falando de forma mais fria do que se esperava e virando mais uma grande dose de soju porque talvez não estivesse tão bêbada assim quanto gostaria. O assunto anterior se dispersou como uma nuvem, e e Yoona gritaram a plenos pulmões quando a loira se ergueu no palco.
  — Qual eu canto?
  — Aquela! Candy, canta aquela! — gritou, batendo as duas mãos na mesa, tentando cantarolar a melodia da música que saiu mais como um ruído desconexo.
  Candice aguardou alguns segundos até soltar um grito pelo microfone e dar um pulinho de felicidade ao se lembrar. Imediatamente, correu até o aparelho e selecionou MAGO do Gfriend para tocar.
  — Essa música! Eu amo essa música desde que pisei aqui, e eu vou cantar!
  — Isso, vai, Candy! — e Yoona gritaram.
  Quando a música começou, já era muito claro que não tinha como ser a pessoa neutra que não queria favorecer ninguém. Candice era um milhão de vezes melhor do que as duas garotas na sala, tanto em timbre quanto em dança, mesmo que estivesse em cima de um salto de 10cm. E ainda, coincidentemente, usava uma calça flare muito parecida com a que Sowon usava no MV.
  O problema era quando Candice tentou fazer a parte de Sowon na coreografia.
  Ao levantar um pouco mais a perna, seu corpo se desequilibrou para o lado, sendo escorado pelo aparelho de som. Yoona explodiu em uma risada, e sufocou uma enquanto bebia mais uma dose do que quer estivesse na mesa. Quando Candice se virou, estava rindo tanto quanto as amigas enquanto a música rolava.
  — Eu consigo, você vai ver…
  Ela voltou a tentar fazer os passos, e reparou por um momento a garota linda de cabelos longos pretos e mechas em verde do MV. O rosto não lhe era estranho. O nome estava na ponta da língua.
  — Minha nossa, muitas garotas sortudas essa noite — Yoona murmurou, balançando a cabeça enquanto bebia mais um grande gole. sentiu a cabeça girar quando se virou para a garota, fazendo uma expressão de quem não tinha entendido. — Ninguém nunca te disse?! Olha ali — apontou para o MV passando na tela —, a garota linda de mechas no pole dance? Yuju. Pegação mais do que confirmada do Jungkook. Mas aquela loira maravilhosa no vestido brilhante? Eunha. Foi uma noite certeira do JK, e com certeza uma do Hoseok também. A Yerin acho que saiu com o Taehyung uma vez, mas ela não é bem o tipo dele…
  O grito de Candice dispersou a atenção das duas. Ela quase caiu de novo, e estava rindo ainda mais. balançou a cabeça, com um esforço visível para gritar para a amiga, sentindo os músculos ainda mais moles.
  — Você está bêbada demais e não temos um pole dance, cacete! — gritou, se atentando ainda mais à moça do pole que, na cena nova em questão, estava em cima de um globo brilhante gigante, no melhor estilo Miley em Wrecking Ball. Ela era tão estonteante que precisou parar uns segundos e recostar no banco, se recompondo de uma constatação estranha para se ter no momento.
  Acho que ele é mais louco do que eu pensei. Acho não, tenho certeza. Porque como pode gostar tanto de transar comigo se já transou com uma mulher dessas?! Ela não tem cara de quem tem uma experiência mediana ou trava para novas posições. Na verdade, ela parecia ser o tipo de mulher que não gostava de parecer qualquer outra coisa que não totalmente selvagem e decidida, o tipo que faz os caras se rastejarem aos seus pés.
    Será que eu vou ser assim um dia?
    Jaehyun vai me ver assim um dia?
    Jaehyun vai querer me ver? Falaria comigo depois que chegasse à Coreia? Se não falasse, isso sim seria decididamente cruel. Jungkook conversaria com ele sobre isso?
    Jungkook se afastaria também? Sumiria por um tempo? Vou estar trabalhando na Hybe até lá?
    Ele continuaria falando comigo depois que Jaehyun voltasse? Ou toda essa loucura não tem mesmo importância e tanto faz?
    Bom, não o vejo falando com Yuju por aí. Nem com garota nenhuma.
    Meu Deus, estou bêbada.
  Mais um grunhido de Candice veio quando tentou levantar as duas mãos para cima no refrão, deixando seus pés livres para sofrerem mais um tropeço, que a aproximou da margem do palanque.
   bufou, voltando à realidade.
  — Já falei para tomar cuidado!
  Em vez de responder, Candice balançou os braços, mais animada do que nunca com a música.
  — Você quer ver a melhor parte? Eu sei a melhor parte!
  — Cacete, pelo menos tira esses saltos, você vai…
  E então, Candice girou os quadris para balançá-los ao modo das meninas quando, em um passo em falso, seus pés desencontraram o resto da plataforma e seu corpo se desequilibrou em direção ao nada, caindo com tudo no chão, há quase um metro e meio de altura. Seu berro foi intensificado pelo microfone ainda em mãos.
  Algo atingiu o peito de , mas não era desespero. Foi seu copo pela metade que caiu com tudo em cima de seu peito quando os pés de Candice bateram na base da mesa, balançando e desequilibrando tudo em cima.
  — Porra, Candice! Puta que pariu! Vai se foder! — grunhiu, se levantando ao mesmo tempo que Yoona, que colocava as mãos na boca para não rir. Revirando os olhos, se aproximou da amiga no chão a passos lentos e grogues, encontrando a loira caída a plenas gargalhadas.
  — Você tá xingando em português de novo! — Candice balançou a cabeça enquanto ria.
  — Foda-se! Olha o que você fez! Caiu igual uma jaca! Por isso não posso te levar a qualquer lugar comigo! — disse enquanto se abaixava, o que pareceu mais um tropeço e a gravidade fazendo o resto do serviço.
  — Uma o quê? — Yoona perguntou.
  — Uma jaca!
  Um minuto de silêncio perdurou por um momento, enquanto as luzes faziam esculturas nos rostos das garotas até que todas elas de repente explodiram em gargalhadas altas e tremendas. Yoona se debruçou sobre as bordas do palco, fechando os olhos de tanto rir enquanto empurrava de forma debilóide os ombros de Candice, que ainda permanecia deitada no mesmo lugar.
  — Jaca! — repetiu ela, sentindo as lágrimas no canto dos olhos enquanto era empurrada.
  — Caramba, Candice, levanta daí, a noite mal começou — murmurou, agora balançando os joelhos para chutar as pernas da amiga.
  — Acho que não consigo levantar — ela respondeu, soltando um gemido forte quando tentou se mover. — Acho que quebrei o pé.
  — ‘Foot’ o quê? — se aproximou, fazendo uma careta. — Repete, essa palavra é engraçada.
  — Acho que precisamos de um hospital — Yoona grunhiu, totalmente aérea. — Hos.Pi.Tal. Falei certo? Em inglês, essa merda de língua que todo mundo precisa saber…
  — Fala sério, não acredito… — assumiu um semblante duro, mas que não durou por muito tempo porque toda a atmosfera era muito mais engraçada do que preocupante. O álcool mudava a percepção sobre toda uma situação. A fuga da realidade era real. Saber que Candice caiu de uma altura significativa e com força considerável, provavelmente batendo a cabeça e quebrando o pé, não parecia tão desesperador assim; e nem um motivo forte de compaixão. Só era hilário. — Hospital, certo. Onde está o telefone? Temos que ligar…
  — Não! Não quero hospital, a noite mal começou! , não!
  — Shiu! Escuta! Vamos roubar as bebidas e levar na ambulância. — deu uma piscadinha antes de gargalhar de novo e se levantar aos tropeços, precisando se segurar no palanque e observou a mesa, com alguns copos caídos e o chão molhado, sem fazer ideia de onde estava sua bolsa, ou a bolsa de Candice, ou a bolsa de qualquer pessoa que tivesse trazido uma bolsa. — Telefone! Onde você está? Telefone… cadê o telefone?
  — Que telefone? — Yoona fechava o olho devagar, mas sem tirar o sorriso do rosto.
  — Eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, stop telephoning me... — Candice cantarolou, e por mais que estivesse bêbada, ainda poderia dividir um microfone com Lady Gaga.
   inspirou pesadamente e soltou o ar de leve, sentindo a visão embaçada e a cabeça ainda mais zonza.
  — Telefone, dá para parar com isso e aparecer? Não posso perder um presente tão caro, dá para entender? Não esse. Vem cá…
  — Que presente? Você disse que comprou… — Candice tentou se mover de novo, mas o gemido de dor a fez voltar a se deitar. — À vista! Você comprou à vista! Nem acreditei nisso, mas comprou! Você comprou, não é?
  — Claro que comprei, Chaperman, assim como você compra seus cigarros! Tem orgulho disso? — caminhou até o corpo da amiga e pulou por cima dele e das pernas de Yoona até chegar à porta pesada à prova de som, tentando abri-la com sua força ridiculamente inferior. — Vou buscar um telefone! Vocês! A fofoqueira e a fumante, não saiam daqui! Ouviram? Não saiam!
  Após uma pausa, as três riram de novo e conseguiu puxar a porta com mais força, saindo para fora aos tropeços.
  O corredor era enorme, para não dizer o quanto era estreito. não precisou pensar muito para adivinhar que já era noite, ou algo parecido com isso. Arrastando os pés pela superfície lisa, ela começou a gritar e bater nas outras portas adjacentes.
  — Ei! Tem algum telefone aí? Minha amiga se estabacou no chão feito uma jaca! Uma jaca! — A gargalhada veio de novo, e ela ficou impossibilitada de dizer mais alguma coisa ao se lembrar da palavra. Também não percebeu que estava falando em português e que ninguém jamais ouviria suas batidas quando lá dentro o som estava nas alturas. — Já viram uma jaca cair? Ela se quebrou toda, ei…
  Avançando por mais alguns metros, ela tropeçou de vez e foi ao chão em uma parada completa. Sentiu os joelhos arranharem junto com os cotovelos, mas quem diria, ela também acabou de cair como uma jaca. E isso era ainda mais engraçado!
  Um homem surgiu do fim do corredor de portas, se aproximando da garota no chão com rapidez.
  — Meu Deus! Você está bem? — perguntou enquanto se abaixava ao lado dela. tentou enxergá-lo pelos olhos quase fechados, e só conseguiu ver que ele usava uma boina brega e um colete cheio de botões dourados, igual a um segurança.
  — Eu sim, mas ela não! Acho que ela quebrou o pé. — E riu de novo.
  — O quê? Eu não falo a sua língua, moça. — Ele gesticulou com as mãos enquanto tentava explicar. Ela revirou os olhos, apoiando-se no joelho flexionado do homem para conseguir levantar o tronco.
  — Oh merda! — Ela estalou a língua e voltou ao vocabulário coreano, falando mais devagar desta vez e se aproximando dele para sussurrar: — Minha amiga quebrou o pé, e vamos roubar bebidas para levar na ambulância. Pode chamar uma para nós, por favor?

📸💔

  Jungkook encarou a embalagem de novo pelo canto do olho.
  O silêncio no estúdio estava tendo o efeito completamente contrário ao que servia. Ele devia estar tão concentrado quanto Yoongi, sentado do outro lado da mesa, encarando sua partitura com os olhos cravados na letra, balançando os lápis entre os dedos de forma totalmente focada, mas não.
  O papel de Jungkook continuava em branco. As outras folhas rasgadas espalhadas pelo tampo não tinham nada além de rabiscos toscos. Até mesmo a pasta com o cronograma de seus próximos compromissos estava intocada, sem a fila de post-its coloridos que ele mesmo colocava quando os avaliava melhor.
  Mas aquela embalagem de papelão com o café e seu celular logo ao lado pareciam encará-lo com certa raiva. Raiva por estarem sendo completamente ignorados.
  — JK! — Uma bola de papel atingiu sua bochecha direita. Jungkook ergueu a cabeça com um susto. — Ouviu alguma coisa que eu disse?
  — Não, desculpa. — Ele ajeitou a postura, limpando a garganta rapidamente, uma atitude que era associada totalmente a segredos e culpa. — O que você disse?
  — Acha que esse trecho vai ficar bom em uma harmonização entre você e o Jin? É uma opção mais melódica, mas o álbum novo vai mostrar mais nossas raízes familiares e individualistas. Ou foi algo assim que Namjoon disse na reunião daquele dia. — Ele estendeu o caderno para o garoto. Jungkook passou os olhos rapidamente por cima, assentindo com a cabeça, sem prestar atenção totalmente.
  — Claro, vai ficar ótimo — respondeu, fitando a caixa novamente enquanto voltava o olhar para o papel em branco.
  Yoongi acompanhou aquele olhar e, vendo que ele não tinha qualquer interesse em confessar por conta própria, baixou o papel e expirou pesadamente.
  — Qual é o problema? É só jogar fora. — Apontou para o café embalado, em um tom explícito. — Se não ia aguentar tomar tanto café, por que comprou um segundo? — Agora ele inclinou o queixo para recipiente vazio ao lado do cotovelo estendido de Jungkook, que engoliu em seco e deu uma risada engasgada.
  — Achei que demoraríamos demais aqui. Estamos fazendo isso desde o quê? Meio dia? — Ele balançou os ombros, indiferente. — Talvez eu ainda tome, vamos continuar.
  — O gelo já derreteu há horas, deve estar horrível.
  — Eu ainda posso tomar — Jungkook respondeu entre os dentes. Yoongi ergueu uma sobrancelha, sem muito interesse em tentar desvendar os comportamentos estranhos de Jungkook àquela hora. Eles andavam bem recorrentes nos últimos dias.
  Por fim, o garoto suspirou, aliviado pela desistência de Yoongi em continuar. Sabia perfeitamente que o lugar daquele café não era ali, do seu lado na mesa, mas no final, sua boca e culpa o traíram e ele acabou recuando a segundos de chamar alguém. Qualquer pessoa que levasse a bebida para a nova diretora de fotografia do CB do TXT, com um bilhete em post it escrito com os devidos parabéns.
  Àquela altura, o bilhete e as palavras tinham escorrido junto com a água na caixa. A prova clara do quanto ele era covarde e temia mais coisas do que pensava.
  Uma garota que você conhece é aprovada em uma parada foda e tudo que você consegue é pedir para alguém lhe entregar um café? Ah, vire homem, por favor.
  Desde que saiu da casa dela há alguns dias, depois de uma noite inteira de frenesi e um banho matinal, parecia um ultraje passar a evitar , mas era exatamente o que ele estava fazendo: evitando. Sentindo culpa. Sentindo como se tivesse tatuado “filho da puta” bem em cima da testa.
  Tinha que admitir: ele estava ficando louco. Alguma merda estava muito errada e não pareciam nem existir culpados para apaziguar esse inferno astral. Porque era completamente inadmissível o jeito como ficou naquela noite, o controle que deixou pensar que tinha ou ser tomado por um desejo tão grande que não conseguia mover as pernas para ir embora.
  Ele arrancou mais uma folha, murmurando algo incompreensível enquanto sacudia o cesto de lixo com mais uma bola de papel. Estava louco. Era a única explicação. A ligação de Jaehyun continuava sendo um sinal e esse lance entre ele e precisava acabar urgentemente, antes que ele se fodesse ainda mais, como querer continuar se encontrando com ela por mais tempo, e só a ideia já soava ridícula. Não tinha nem que ser cogitada.
  — Você preparou alguma coisa, não é? — Yoongi cortou seus pensamentos, inclinando o queixo para a folha desbotada e o caderno habitual de Jungkook logo ao lado.
  Ele apenas respondeu, em voz baixa:
  — Ainda não está pronto.
  Yoongi franziu os lábios.
  — Entendo. Mas se continuar fingindo que aquele caderno não existe, nunca vai ficar pronto.
  Tinha um adesivo colado em frente ao caderno fechado, intitulado de “Motosserra”. Parecia estranho para a maioria, mas o significado oculto fazia sentido para Jungkook. Todas as letras que escreveu ali, que eram quase como um diário, eram palavras que lhe cortavam o coração a cada vez que relia – quando decidia fazer esse tipo de coisa. Tão destrutivas quanto uma motosserra de verdade.
  — Tá me espionando agora?
  — Pior que não. Mas quando você deixa de fazer algo que antes era tão comum, é estranho de qualquer maneira. Sabe que não precisa se sentir pressionado a entregar algo bom, não sabe?
  — Também não quero entregar algo ruim.
  — É só entregar algo seu. Como não entendeu isso ainda? — Yoongi falou com paciência, mas frisando o tom óbvio da voz.
  Jungkook revirou os olhos e ficou calado, puxando o celular e reiterando ainda mais o quanto algo estranho estava acontecendo. Admitindo: ele não era um cara com muitos problemas graves; muitas coisas em sua vida ganharam uma importância mais cedo do que na vida de outros caras da sua idade, mas isso não era um incômodo. Mas se sentir em uma corda bamba, preso em um dilema insensato por causa de uma garota que nem gostava era insano. E era cada vez mais difícil esconder a exasperação de sua voz se alguém se atrevesse a tocar no assunto.
  A tentação de tinha se estendido para o celular, porque era absurdo a forma como tinha vontade de responder qualquer mísera mensagem que ela mandava, mesmo que não fosse nada importante. Depois daquele dia, sua frequência telefônica diminuiu bruscamente porque aquela pontada de culpa não saía de sua cabeça. E, mesmo que estivesse estranho com ela, não parecia estar ajudando na missão de afastá-la. Estranho não significava nada. Ela continuava mandando mensagens esporádicas.
  Inclusive hoje, quando falou da Panasonic. Quando ele entendeu tudo bem rápido e ficou mais contente do que pensou que ficaria. Quando foi correndo comprar um café e pediu dois de uma vez, porque não tinha certeza de qual sabor ela gostava. Quando chegou no estúdio de novo e olhou o pacote com um súbito pesar, como se aqueles dois copos estivessem desafiando-o a fazer o que pretendia fazer. “Expresso com canela e expresso com baunilha, qual ela gostaria mais? Será que gostaria dos dois? Será que jogaria um deles no lixo? Será que o agradeceria? Ou…”
  E travou. Aquilo era ridículo. O que poderia interpretar daquela besteira? O que pensaria que ele queria dizer? Não era nem um pouco prudente sair comprando cafés para alguém toda vez que assinavam um contrato.
  — Algum problema agora? — perguntou Yoongi, um pouco menos ansioso por uma resposta. Jungkook balançou a cabeça em negação, bloqueando o aparelho.
  — Nada, nenhum. Só uma matéria sobre os benefícios de se fazer um detox dos eletrônicos.
  Foi a única resposta plausível que não fosse: eu não sei, cara, acho que estou meio maluco. De repente, desaprendi a me controlar. Desaprendi a dar um fora em alguém, ou até dizer não. Eu não sei o que te dizer.
  Yoongi riu, como se tivesse escutado os pensamentos do garoto.
  — Quem faz detox, quer se livrar de alguma coisa. Ou fugir. É o seu caso?
  — Não, não é.
  Sua voz saiu estranha, mas Yoongi apenas estreitou os olhos e deixou que Jungkook acreditasse que tinha sido convincente. As tentativas de Min terminaram quando uma vibração intensa cobriu a mesa grande, vindas de seu telefone. Ele observou o número de apenas 3 dígitos e ponderou por alguns segundos antes de atender.
  — Alô… — respondeu, cauteloso, voltando a se concentrar no papel, mas parou logo em seguida e arqueou todo o corpo. — O quê?! Onde? Quebrado?
  Jungkook prestou atenção no momento em que Yoongi arrastou a cadeira para trás com força, levantando-se apressado.
  — Segundo número de emergência? Quem é o primeiro? — ele perguntou enquanto tateava o sofá para pegar casaco e chaves. — Ah, o primeiro está aí. Minha nossa, tudo bem, estou indo.
  Ele desligou, agora começando a limpar o máximo possível de sua bagunça de papéis da mesa.
  — O que houve? Finalmente descobriram uma filha sua perdida por aí? — Jungkook perguntou com ironia, sem tirar os olhos do papel em branco, que agora era rascunho para um desenho aleatório.
  Yoongi bufou, um tanto desorientado.
  — A Candice… Parece que ela caiu de um palco no karaokê, quebrou o pé e bateu a cabeça, e agora está no hospital com a e uma tal de Yoona e elas…
  — ?! — Jungkook largou a caneta. As coisas pareciam um pouco maiores agora, e nada tinha a ver com Candice ter Yoongi como número de emergência. — Aquela desmiolada se machucou também?
  — Não sei, parece que as três estão completamente alucinadas e não vão sair de lá sozinhas sem a liberação de alguém sóbrio. Talvez elas só precisem de um hambúrguer, vai saber. Vou lá.
  Yoongi começou a se afastar para a porta.
  — Espera, vai conseguir lidar com as três sozinho?
  — Bom, eu não…
  Jungkook revirou os olhos, fechando a pasta e puxando suas chaves.
  — Vamos lá.
  Yoongi franziu o cenho enquanto o garoto se aproximava, desconfiando que ele não sabia bem o que estava dizendo. Jungkook reparou na atitude e revirou os olhos mais uma vez.
  — Eu ia para casa mesmo depois daqui, então… Sei lá, parece ser engraçado. Vamos, eu dirijo.
  — JK, você não precisa…
  — E perder a tropeçando nas próprias pernas? Sem chance. Anda, conheço um atalho para fugir do trânsito. Vamos chegar em 10 minutos.
  Confuso, Yoongi o seguiu, apagando as luzes ao sair.

CONTINUA...



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