Everything's Fine
Escrito por Zã Nogueira | Revisado por Jacqueline
Entrei na cafeteira com nada na minha cabeça além do meu pedido. Recebi um sorriso caloroso da atendente, aquele rosto era familiar, teria ela estudado comigo no Ensino Médio? Sorri de volta e fiz meu pedido. Caminhei até o fundo do lugar, era costumeiro sentar a mesa perto da janela, ainda mais com fim do verão e o sol tímido entre as nuvens iluminando o local. Porém, a minha mesa habitual estava ocupada por uma de suas antigas frequentadoras.
- ? – Falei hesitante. Era a primeira vez que a via em um ano. Ela não havia mudado muito, os cabelos estavam mais curtos. Eu queria dizer que também era o mesmo, mas sabia que isso seria uma mentira.
- ? Oi! – Ela se levantou empolgada e me abraçou. Foi inevitável não relaxar sentindo-a em meus braços e com o perfume que ela exalava.
- Não sabia que você estava na cidade. – Eu disse me sentando em sua frente.
- Eu também achei que você não estava, liguei para Jess para dar feliz aniversário, mas o celular dela só dava fora de área.
- Ela perdeu o celular. De novo. – Eu disse sorridente. Havia algo em que não me deixava ficar sério, sempre tinha esse sorriso idiota na minha cara.
- Bom, agora eu já sei o que dar a ela. – sorriu. - E como foi a turnê?
- Incrível... E como está Seattle?
- Ah, você sabe, chuvosa... – deu de ombros, quebrando um cookie com as mãos. Ela havia se mudado para Seattle para trabalhar como assistente de uma produtora de marketing.
- Quem diria que uma típica garota do Arizona iria um dia se acostumar com a vida na cidade conhecida pelas chuvas. - Passei a mão pelos cabelos, sem jeito. Tanto tempo havia se passado e tudo o que eu conseguia pensar para falar era sobre as condições climáticas.
- Não sei se me acostumei na verdade. – Ela deu de ombros, voltando a sua atenção para o açucareiro em cima da mesa. – Sinto falta do Arizona. Sinto falta de vocês.
- Ah, nós vamos nos encontrar logo mais, Jess vai dar uma festa para comemorar o aniversário. Já que eu não comprei nenhum presente, você será o meu.
- Seria bom, faz tempo que não falo com ninguém.
- Verão passado, certo?
- Aquele verão poderia ter durado para sempre; – Ela sorriu saudosa e eu concordei, havia sido o melhor verão de nossas vidas.
Um ano parecia muito tempo, mas eram apenas esses dozes meses que haviam se passado. Muitas coisas haviam mudado, porém doze meses atrás, era minha.
Lembro-me dos planos que fazíamos e daquela viagem para Los Angeles junto aos nossos melhores amigos. Era início do verão, encaramos sete horas na estrada somente para podermos ir até a praia. Nós dois nos separamos do grupo por um momento, caminhando na beira da praia de mãos dadas. Foi aí que ela me falou do emprego em Seattle, de como era uma oportunidade única, ela nem havia se formado ainda e já tinha conseguido essa chance. Lembro-me perfeitamente daquele dia. Ela usava um vestido verde e eu sabia desde o momento que descemos da van que algo a perturbava. Ela havia dito que era só o calor, mas eu sentia que havia algo mais. Então era aquilo, ela estava me deixando.
- Quando você vai? – Disse tentando engolir o nó que estava preso em minha garganta.
- No fim do verão. – Ela respondeu e eu fiquei quieto. - ... Fala alguma coisa, por favor. – Ela mordeu o próprio lábio e passou a mão pelos cabelos. O que ela queria que eu falasse? Estávamos juntos há quase dois anos e em dez dias ela iria me abandonar. Dez dias e eu ficaria sozinho. fazia tudo parecer simples, era o futuro dela, eu não poderia pensar em prejudicá-lo, mas aqueles dois anos não significavam nada? Nem por um momento ela hesitou? Eu não era bom o suficiente para fazê-la ficar, concluí.
- Vamos aproveitar o tempo que nos resta, então! – Me esforcei para sorrir e fiquei grato ao notar que não havia sido em vão. Ela sorriu de volta e retornamos para perto dos nossos amigos. Naquela noite, enquanto voltávamos para o Arizona, adormeceu em meu colo e eu a observei tranquilamente. O que eu faria sem ela? era quem me deixava calmo, quem me fazia querer ser um cara melhor. Foi com ela que eu deixei de ser um garoto e passei a ser um homem, queria estar a sua altura. Não havia sido o suficiente. Encostei minha cabeça no banco e suspirei, teria que fazer esses dez dias valerem a pena. E tinham valido. Aquele fora o melhor verão de nossas vidas, principalmente aqueles últimos dez dias. E então ela se foi.
Agora aqui estávamos nós. No ano anterior ela estava partindo, agora estava visitando a cidade. Continuava linda, com o mesmo sorriso que havia me conquistado, com os mesmo olhos que eu sabia ler tão bem.
- Você quer dar uma volta? – Ela me perguntou e eu lembrei que a última vez que esta mesma frase havia saído de seus lábios, foi quando ela me contou de Seattle.
- Claro. – Nos levantamos, eu abri a porta para que ela saísse e caminhamos sem destino certo pela nossa cidade. Era como se o tempo tivesse parado e só agora as coisas haviam voltado ao normal. Os barulhos da cidade eram abafados pela gargalhada gostosa de , que ria de todas as coisas idiotas que eu contava, histórias de turnê e outras besteiras.
- Não acredito que perdi isso tudo. – Ela falou com certo desgosto. – Bom, não se pode ter tudo.
- E você está feliz?
- Agora estou. – entrelaçou seu braço ao meu e entramos na rua onde morávamos. Os pais dela continuavam no mesmo local, algumas casas de distância da onde eu morava com os meus. Caminhei com ela até sua casa, parando na porta da frente.
- Venho te buscar em duas horas.
- Hm, certo. – Ela disse. Coloquei minha mão em sua bochecha direita, trazendo seu rosto para perto de mim e beijando demoradamente a bochecha oposta. Olhei para ela que sorriu e pisquei em reposta, fazendo-a aumentar o sorriso. Coloquei as mãos no bolso do jeans e girei sobre meus calcanhares, começando a caminhar para casa. – ! – Ela me chamou e eu olhei para trás. – É bom estar de volta.
- Estou feliz que você esteja aqui. – Sorri. – Duas horas, esteja pronta, não é um casamento!
Ao chegar em casa, tomei um longo banho e foi então que me lembrei. Eu e havíamos começado a namorar oficialmente no dia do aniversário de Jess, três anos atrás. Quem sabe era a hora de relembra-la disto.
Duas horas e vinte minutos depois, estava comendo uma torta de maçã que a mãe de havia feito. Para variar, ela não estava pronta, mas tudo bem, fazia um bom tempo que eu não falava com os pais delas, que sempre foram muito legais comigo.
- Faz um bom tempo que não vejo você, seu cabelo está diferente. – A mãe dela disse me servindo da segunda fatia de torta.
- Estamos viajando bastante, sabe, com a banda.
- A falou que vocês estão fazendo sucesso e tocando no mundo todo. – O pai dela falou.
- E ela pergunta de você toda vez que liga para casa.
- Certo. – entrou rapidamente na cozinha. – Estamos indo agora, mamãe. – Ela me arrastou para fora da casa.
- Quer dizer que você pergunta de mim, é? – A empurrei levemente com o ombro enquanto caminhávamos as três ruas que nos separavam da casa de Jess.
- Cala a boca, eu me preocupo com você. – Ela me empurrou de volta, rindo.
Voltei a me aproximar dela, que passou o braço pelo meu ombro. Caminhamos em silêncio, o barulho do salto de contra o asfalto e os carros ao longe era as únicas coisas audíveis. Tentava construir sentenças em minha cabeça, mas as palavras perdiam o sentindo antes que eu conseguisse concluir meu raciocínio.
Chegamos à casa de Jess e eu decidi relaxar, Jess havia acabado de voltar para a minha vida, não precisava ter presa.
O sol estava nascendo quando saímos da casa de Jess. estava descalça, carregando os saltos na mão, enquanto fazíamos o caminho de volta ligeiramente cambaleantes. Ríamos relembrando da festa e de repente estávamos em frente à casa dela novamente.
- Bom, é aqui que me despeço, senhorita. – Fiz uma reverência exagerada, fazendo-a rir.
- Você não quer entrar?
- Está tarde... Quer dizer, cedo.
- Pode dormir aqui. – Ela sorriu e eu entendi. Ela estava me dando uma brecha, eu seria burro em não aceitar.
Subimos as escadas com cuidado e entramos no quarto dela. Assim que a porta se fechou, eu já estava com as mãos em sua cintura e a beijava com vontade. Por um ano eu imaginei se algum dia ela voltaria a ser minha e agora eu a tinha.
Acordei sentindo o meu corpo dolorido, talvez tenha me empolgado demais com naquela noite. Olhei para o lado e estava sozinho ali. Espreguicei-me e coloquei minhas roupas, descendo as escadas. Os pais de não pareciam surpresos em me ver ali, mas dei um sorriso envergonhado ao vê-los me encarando.
- Hm, bom dia.
- Tarde. – O pai dela me disse. – São três da tarde.
- Nossa, tudo isso! – Falei me sentindo muito desconfortável com aquela situação. – Onde está ?
- Já deve estar em Phoenix. – A mãe dela disse.
- Em Phoenix? O que ela está fazendo lá?
- Ela não te contou? está voltando para Seattle...
- Certo. – Eu disse atônito. – Tenho que ir, tenham um bom dia.
Eu estava decidido, tinha que ir até lá e dizer tudo o que deixei guardado por esses três anos e um dia, ela tinha que saber como eu realmente me sentia.
Entrei no aeroporto e olhei para aquela multidão de pessoas saindo e chegando, alheias ao meu motivo de estar ali parado, encarando o painel de partidas, procurando o voo que levaria para Seattle. Encontrei-o e sai correndo em direção ao portão sete. Quem sabe eu conseguiria falar com ela antes que ela embarcasse. Tentei ligar para o telefone dela mais uma vez, e desta vez ele não caiu na caixa de mensagens. Continuei correndo, parando bruscamente ao ouvi-la atender o celular.
- Onde você está?
- No aeroporto... Olha , eu sinto muito, tentei te—
- Onde você está? Eu to aqui te procurando!
- Aqui? Eu estou indo embarcar, acabaram de chamar meu voo.
- Me espere, por favor. – Desliguei e corri até o acesso aos portões de embarque e lá estava ela. Apreensiva, ela apertava a alça da bolsa em seu ombro, olhando para os lados, só notando a minha presença quando estava a passos de distância.
- ...
- Só me escuta. – Eu disse e sorri, tentando tranquiliza-la. – A gente se conhece a vida toda, praticamente. Lembro-me de quando o caminhão que trouxe a sua mudança passou pela minha casa e que eu corri para a rua ver quem estava chegando. A primeira coisa que eu vi foi a sua bicicleta e eu sabia que seriamos amigos. – Ela riu rolando os olhos. – E na primeira vez que você me chamou para ir a sua casa jogar Mortal Kombat, eu sabia que você não era como as outras meninas. Não foi muito depois disso que eu me apaixonei por você, mas naquela época, eu não sabia que era isso, eu só achava que você era muito importante pra mim, e você é. Depois de muitos anos, finalmente nós dois tomamos consciência do que sentíamos um pelo outro e nós éramos incríveis juntos. Eu não estou aqui para te pedir pra ficar, porque eu sei como isso é importante para você, o seu emprego, sua faculdade e tudo mais, só estou te lembrando de que nós fizemos planos e eu pretendo cumpri-los. Não importa quanto tempo se passe, eu vou continuar aqui, não quero nenhum outro alguém além de você. - me abraçou e eu a apertei em meus braços, beijando-a levemente nos lábios. – Agora vai, ou você vai perder o voo.
- Mas ...
- Vá! Não me faça te empurrar até lá – Disse sorridente e ela suspirou.
- Você é incrível.
- E você acha que eu não sei disso? – Ela deu uma risadinha e mordeu o lábio inferior. A mão dela estava entre as minhas e eu realmente não queria soltá-la, mas era hora de deixa-la ir. – Eu amo você.
- Eu também te amo. – Ela me beijou de volta e eu finalmente a soltei. ajeitou a bolsa no ombro e respirou fundo. - Volto assim que der. - Ela caminhou até a funcionária que verificava as passagens. Olhou para trás uma última vez e acenou. Eu acenei de volta e ela sumiu de minha vista, indo para a área de embarque.
Voltei para casa com a certeza que tudo daria certo, nós íamos dar um jeito. Ela era minha e eu dela, só teríamos que vencer essa distância. Tudo ficaria bem, sabia que não iriamos desistir, não de um amor como aquele.

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