
Entre Dois Mundos
Escrito por Nathara Santanna | Instagram
Revisado por Natashia Kitamura
Capítulo Um
Destino…
Minha avó costumava sussurrar essa palavra em meu ouvido com um leve sorriso nos lábios, mesmo que eu tivesse feito algo errado. No vocabulário da minha avó, destino significava que tudo o que eu fiz, fazia parte dele.
Sabe, eu cresci ouvindo que a vida é cheia de obstáculos, que durante o nosso período na Terra encontramos caminhos tempestuosos e claros, e que nossas escolhas dependiam unicamente de nós. Em todas as conversas que tive com minha avó, ela sempre deixou claro que o destino nos uniu, que eu era destinada a ficar com ela para sempre. Pode parecer um pouco egoísta da minha parte falar isso, mas minha avó nunca soube o peso que suas palavras carregavam, pois, de certa forma, suas palavras mostravam o quanto eu havia sido abandonada pelos meus pais, mesmo que ela nunca tenha dito isso.
Fui descobrir os segredos da minha existência na escola. Até então eu achava supernormal ser criada pela minha avó. Meu avô, infelizmente, havia falecido há muito tempo, e não tive a chance de conhecê-lo. Porém, na escola, percebi que as crianças ao meu redor tinham um pai e uma mãe, ou dois pais, ou duas mães, e eu? Bom, eu tinha uma avó. Essa situação era algo que matutava na minha cabeça, “por que meus pais nunca apareceram?” Por outro lado, eu também não queria ser injusta com a minha avó e perguntar sobre eles. Afinal, ela nunca tinha falado sobre meus pais, e eu tinha medo de perguntar e magoá-la.
Acho que foi por volta dos meus dez anos que eu criei coragem para falar sobre esse assunto com ela, até porque eu já estava maior e acreditava que poderia entender muito bem o motivo dos meus pais não viverem comigo. Sou grata por ela, que, mesmo com a minha pouca idade, foi sincera ao explicar o porquê de eles não fazerem parte da minha vida, e suas palavras eram claras como a neve “Seus pais eram adolescentes quando você nasceu, e eles não tinham maturidade de cuidar de você. Sinto muito.” Acho que essas palavras, quando você tem dez anos, são reconfortantes, mas, estando mais velha, agradeço mentalmente por ela nunca ter exposto a verdade nua e crua na minha cara.
Não tardou até eu descobrir a verdade que minha avó tentava esconder. Meus pais abriram mão de me criarem. Eles seguiram com suas vidas como se eu não existisse. Eu sabia que não devia me importar com essa situação, mas era tão devastador saber que as pessoas que te colocaram no mundo não ligavam para você, me fazendo questionar, “Por que sentir falta de pessoas que eu nunca conheci?” Por muito tempo, eu senti ciúmes dos meus amigos e da família que eles tinham, pois, desde que me entendo por gente, sempre fui eu e minha avó. Essa inveja me consumiu por um tempo, e acho que isso foi combustível para o meu desejo de ir atrás deles.
Talvez tenha sido aí que minha vida começou a desandar. As poucas informações que eu tinha dos meus pais era que eles tinham ido para faculdade e seguiram caminhos diferentes, ou seja, eles não ficaram juntos depois de me terem. Fui atrás de saber um pouco mais sobre suas vidas e descobri que os dois estavam muito bem-casados e com filhos. Lembra quando falei que minha vida começou a desandar depois de começar a procurar sobre meus pais? Bom… Quando descobrir quem era minha mãe, soube que meus avós maternos ainda viviam na minha cidade, e, com toda a esperança do mundo, bati em sua porta, apenas para ouvir que eles não tinham nenhuma ligação comigo e que esperavam que eu não fosse mais até a casa deles.
Nunca falei para a minha avó as intenções que eu tinha em encontrar meus pais e tentar ter alguma ligação com eles. Tudo o que fiz foi por trás das costas dela, o que foi muito egoísmo da minha parte. Porém só fui entender mais sobre isso dois anos depois, quando completei dezesseis anos e tirei minha licença para dirigir. Eu e minha melhor amiga, null, fomos em busca dos meus pais. Para minha surpresa, minha mãe estava casada há algum tempo e era mãe de gêmeos. Ela exalava felicidade e não falou muito comigo, mas prometeu manter contato, se eu a considerasse tia, e não mãe. Meu pai por outro lado não foi encontrado, porém minha mãe informou que ele tinha se casado quatro anos antes, e que o mesmo tinha uma filha da minha idade.
Um soco no meu estômago.
Acredito que foi nesse dia que tudo o que eu idealizei caiu por vez, quando vi que, para os meus pais, eu tinha sido apenas algo que aconteceu em suas vidas e que facilmente foi descartada por eles como um brinquedo sem importância. O que aconteceu, fez eu ser grata a minha avó, por tudo o que ela fez por mim. Dona Camélia não tinha obrigações em me criar, muito menos me proporcionar educação, mas ela foi a única que esteve ao meu lado até hoje. Porém apesar de eu ser extremamente grata à minha avó, também virei um pouco rebelde depois de descobrir que meus pais não ligavam para mim. Na minha mente, ser uma pessoa correta em todos os aspectos faria com que meus pais voltassem para casa, mas, depois de tudo o que aconteceu, resolvi me rebelar e ser eu mesma. Vamos lá, eu nunca fui muito sortuda, e o peso do abandono que eu carregava em meu peito parecia nunca ser suprido pelo amor incondicional da minha avó.
— Eu sei que essa notícia é chocante, null. — Eu havia sido chamada para a sala do diretor, crente que eu tinha feito alguma coisa fora dos padrões, mas nunca, nem um milhão de vezes eu poderia imaginar o real motivo de estar naquela sala. — Mas você precisa ser forte. — Suas palavras eram transmitidas em tom de conforto, mas pareciam apenas um zunido passando pelos meus ouvidos. Sinto muito, sua avó faleceu. Essas palavras ecoavam em minha mente sem parar.
— Não me peça para ser forte. — Minha voz sai um pouco trêmula, deixando claro a minha vulnerabilidade. Eu não sabia o que sentir, e muito menos conseguia chorar, era como se eu estivesse presa em um pesadelo.
— Tomei a liberdade de ligar para a pessoa mais próxima da sua lista de contato. — Ele parecia estar olhando minha ficha de registro naquele momento. — Infelizmente nenhum parente sanguíneo, além da sua avó está registrado. — Sr. Watson não parecia muito feliz. — Então entramos em contato com Dorothy, e ela irá buscá-la. — Tudo parecia estar passando em câmera lenta ao meu redor, a voz do diretor era quase robótica para eu entender, mas eu sabia que isso era apenas meu cérebro tentando absorver todas as informações de uma única vez.
— Sabe me dizer se ela chegou a ir para o hospital? — Minha voz quebra e automaticamente olho para o chão.
— Desculpe, null. Por eu não ser da família, não tive maiores informações. — OIho brevemente para ele e logo abaixo minha cabeça, mexendo em uma pelezinha que estava levantada em minha unha.
— Tudo bem. — Solto um suspiro. Eu não sabia o que seria de mim a partir de hoje, minha avó sempre esteve ao meu lado durante esses anos, ela era minha família, e agora eu não tinha mais ninguém.
Não sei quanto tempo passou, mas acredito que o Sr. Watson tenha me deixado sozinha naquela sala, imersa em pensamentos, pois, depois de um bom tempo, sinto uma mão pousar suavemente em meu ombro, fazendo com que eu me levantasse rapidamente, desconfiada.
— null! — Dorothy e eu éramos as únicas naquela sala, seu rosto encharcado por lágrimas. Lágrimas essas que me fizeram sentir inveja, visto que eu não tinha derramado nem uma gota até o momento. — Sinto muito. — Suas palavras eram carregadas de sentimentos, e eu apenas a encaro, sem falar muita coisa.
— Ainda não consigo acreditar… Minha avó… — Novamente minha voz se quebra, e tenho que pigarrear para que ela não volte a falhar.
— Eu sei, meu bem. — Dorothy parecia não estar me contando tudo o que estava acontecendo, ou seja, ela acaba me deixando um pouco apreensiva.
— O que será de mim? — Apesar da apreensão, não deixo de comentar com ela uma das minhas maiores preocupações e sinto Dorothy congelar em seu lugar.
— Meu bem, agora que sua avó se foi, eles entraram em contato com o seu pai. — Paraliso. — Ele está vindo fazer a liberação do corpo, visto que você é menor de idade e não pode fazer isso.
Meu pai. Eu tinha uma vaga lembrança dele, na realidade de uma foto que eu vi dele nas redes sociais, sua conta era privada, então eu tinha mandado uma solicitação de amizade para ele, que foi gentilmente recusada, ou seja, além da foto que eu tenho dele quando ele tinha uns dezessete anos, eu tinha uma foto de perfil de uma rede social com sua idade atual.
— Não acho que ele realmente se importe. — Minha voz era quase inaudível, inflada pela amargura que eu sentia ao lembrar que ele existia.
Ainda era impossível assimilar. Minha avó. A pessoa que me criou, que me viu crescer, já não estava mais nesse mundo. Parecia surreal o que estava acontecendo na minha vida, e minha mente não parava de trabalhar. Pensamentos a mil. Uma parte de mim ainda esperava que as pessoas ao meu redor recebessem uma ligação falando que tinha sido um engano, e que minha avó estava viva, e bem. Mas, por mais que eu quisesse que tudo não passasse de uma brincadeira de mal gosto, a ficha estava caindo. A data de hoje ficaria para sempre marcada em meu coração, manchada como uma memória de algo que jamais deveria acontecer, mesmo que o dia “D” chegasse para todos. Eu não estava preparada.
Culpa é o que eu sinto, eu deveria ter percebido que algo não estava certo. Talvez se eu não tivesse acordado tarde, se eu não tivesse pulado o café da manhã, talvez, só talvez ela ainda estivesse viva.
A morte da minha avó poderia ter sido evitada.
A culpa era minha.
— null, com o falecimento da sua avó, muita coisa mudou. — Prendo minha respiração, tentando entender onde Dorothy queria chegar com isso.
— Claro que as coisas mudaram, agora sou eu contra o mundo. — Nada do que ela falasse iria fazer sentido nesse momento.
— Acho que você não entendeu, seu pai será seu tutor legal até você completar dezoito anos. — Não fazia sentido uma pessoa que nunca se importou com você, e com a própria mãe aparecer de repente como se fosse o salvador da pátria. Pra mim ele não merecia meu respeito, não quando ele deixou tudo para trás e nunca se importou com as consequências dos seus atos.
Como as coisas eram injustas, não é mesmo? Como que a justiça poderia confiar em um homem que nunca teve contato com a sua filha? Não era mais fácil eles darem a minha guarda para alguém que eu conhecia? E que convivia?
— Dorothy… — As coisas não faziam sentido naquele momento. Eu não conseguia raciocinar e por conta disso eu não conseguia ser racional.
— Apesar de tudo, Axel é seu pai. — Ela sorri para mim em meio às lágrimas. — Deixe que ele fale o que irá acontecer a seguir. — Dorothy afaga meus ombros. — Vamos para casa. — Ao ouvir essas palavras, meu coração se contrai ligeiramente.
Casa.
Eu não tinha mais uma casa.
Nunca mais sentiria o conforto, ou o cheiro da minha avó novamente e saber disso, me matava internamente.
Saindo da sala da diretoria, caminho silenciosamente ao lado de Dorothy. Meu celular não parava de vibrar, sinal de que as pessoas já estavam cientes sobre o falecimento da minha avó, porém, apesar de suas boas intenções em me dar os pêsames, eu não queria falar com ninguém e muito menos lidar com a morte da minha avó naquele momento. Entrar no carro de Dorothy, por exemplo, tinha sido um momento traumático, como a simples ideia de ir para minha casa, algo que eu amava fazer, passou a ser aterrorizador? Que tipo de ambiente eu encontraria ao atravessar as portas de um lar harmonioso? Era possível eu não me sentir confortável em um local que eu costumava viver? Talvez meu maior temor é chegar em casa e minha ficha finalmente cair, esse era meu lar, mas antes dele ser meu e da minha avó, ele era só dela. Aquele local era um reduto de memórias que ela construiu ao longo dos anos, minha avó era a luz da nossa casa, e agora, como seria? Meu pai jamais abandonaria sua casa, e muito menos sua família para ficar comigo nesta cidade.
— null? — A voz de Dorothy me puxa para a realidade, e percebo que estamos paradas em frente à minha casa. — Chegamos. — A observo tirando seu cinto de segurança e aguardando eu fazer o mesmo.
— Você irá ficar comigo até alguém chegar? — Eu tinha uma pequena esperança de que ela fosse ficar ao meu lado, pelo menos até meu pai chegar.
— Sinto muito, meu bem. — Começo a murchar lentamente. — Eu tenho que resolver algumas questões que Axel pediu. — Uma parte de mim queria ser mesquinha e pedir para Dorothy ficar ao meu lado, mas eu não podia usar as pessoas a meu favor. — Tudo bem ficar sozinha?
— Sim… — Mesmo com o coração na mão e sentindo a necessidade de ter alguém ao meu lado, engulo esse sentimento, afinal ninguém tinha obrigação de ficar.
— E, null… se por acaso seu pai chegar antes de qualquer pessoa, você consegue ser boa para ele? — Fecho meus olhos com força, reprimindo qualquer sentimento.
— Não posso garantir nada.
A atitude de Dorothy é um tanto quanto indelicada. Era ultrajante ela me pedir para ser uma boa pessoa para o meu “pai”. Talvez as pessoas devessem ser mais cautelosas com suas palavras e compreensivas. Minha vida toda foi eu e minha avó, e não tinha como, de uma hora para outra, aceitar uma pessoa completamente estranha.
Ao entrar em casa, sou surpreendida pelo cheiro familiar da comida da minha avó. Algo tão simples, que sempre me trouxe conforto, agora parecia me ferir profundamente. Sem perceber, meus pés percorrem o curto caminho até a nossa cozinha, como se quisesse encontrá-la como sempre, parada em frente ao fogão, fazendo algo gostoso para comermos. Mas, o cenário que encontro é totalmente diferente. Alguns itens de uso diário estavam espalhados pela cozinha, representando o que tinha acontecido anteriormente, minha avó jamais deixaria as coisas desorganizadas dessa maneira. De repente, ao olhar para essa cena, minha boca seca de repente, e um aperto no coração surge, sinal de que as lágrimas em algum momento cairiam.
Porém nada vem.
Estou seca.
Vazia.
Agora, em casa, a verdade que eu recusava aceitar me atinge com extrema brutalidade. Minha avó não vai voltar, ela morreu. O que estava feito, estava feito. Eu teria que aceitar que nunca mais me sentaria ao seu lado em um domingo à tarde para assistir TV enquanto comíamos morango, ou que brigaríamos pelo controle remoto novamente. A pessoa que sempre foi meu porto seguro, não estaria mais ao meu lado para me ver indo para faculdade, nunca iria ver a família que irei construir, ou estar ao lado dos filhos que escolhi ter.
A pessoa que eu amei durante toda a minha vida não estava mais ao meu lado.
Eu perdi minha avó.
N/a: Olha eu aqui de novo! Agora com uma história original para vocês.
Espero que gostem de “Entre dois mundos”. Para ser bem sincera, matutei por umas boas semanas o título dessa nova história, pois ela foi escrita lá em 2016/2017 e o título dela uma hora foi “Malia”, enquanto ainda era apenas um doc, e depois “Trent - Série Baxter” quando finalizei a história e transformei ela em PDF.
Eu tenho um carinho imenso por essa história, ela foi a segunda história que eu finalizei em 2017, porém arquivei ela e nunca mais mexi. De uns tempos para cá, resolvi reorganizar todas as minhas histórias em ordem cronológica, e resolvi dar uma chance para ela.
Capítulo Dois
Me agacho no chão da cozinha, deixando toda a dor que eu estava sentindo ser libertada, e mesmo assim, nada veio, nenhuma gota de lágrima derramada. Nada. Era como se existisse algo bloqueando todas as minhas emoções, as impedindo de serem expostas. Eu tinha que estar chorando, mas não conseguia. E isso era devastador.
Nunca fui uma pessoa que se deixou levar por sentimentos, eu nunca chorei na frente dos outros e muito menos demonstrei fraqueza para essas pessoas, e não, isso não fazia parte da criação que minha avó me deu, pelo contrário. Minha terapeuta sempre falou para expor meus sentimentos, e não guardar nada para mim, todavia eu tenho esse sentimento de não querer incomodar as pessoas, e que elas não têm nada a ver com meus problemas, então minha avó nunca soube o que se passava realmente comigo.
Estou tão imersa em pensamentos, que não me dou conta que alguém tinha entrado em nossa casa. Isso era um perigo, a minha falta de atenção, mas eu estava tão focada em me manter sã, que não me importei com mais nada.
— Vejo que você já foi liberada. — Sinto um arrepio em minha espinha ao escutar uma voz firme atrás de mim.
— Axel. — Sussurro o nome do meu pai.
— Então você sabe quem sou eu. — Ele dá um sorriso de lado, e me levanto rapidamente. — null. —Apesar de Axel sorrir, suas feições não demonstravam uma emoção sequer.
Essa era a primeira vez que eu estava na presença do meu pai, e ele era exatamente como minha avó tinha descrito.
Ele tinha um olhar impassível e era frio como o gelo. Pensei que ela tinha exagerado com essas características, mas o vendo ali, parado na minha frente, eu tive a certeza de que ela tinha mentido para não me assustar. Meu pai era astuto e intrigante, quase assustador.
— Pensei que você iria direto para minha avó. — Dorothy tinha dito que Axel iria fazer a liberação do corpo da minha avó, porém ela não tinha dito sobre ele vir primeiro para cá. Eu não estava preparada para vê-lo tão cedo.
— null. — Meu nome em sua boca era falado sem nenhuma emoção, seco, distante demais. — Moro há pouco menos de uma hora daqui. — Observo meu pai cruzando os braços. — Assim que me ligaram, saí imediatamente para resolver o que tinha que ser resolvido. — Ele não precisava me explicar, mas pelo menos ele tinha sido legal a esse ponto.
— Veio sozinho? — Não era segredo para mim que ele era casado, e essa pergunta acaba escapando dos meus lábios em um tom que eu não tinha desejado.
— Já que sou filho único da minha mãe. — Suas palavras eram como lâminas afiadas. Engulo em seco. — Vim fazer a liberação do corpo. — Axel parecia calmo, e sua calma me deixa aflita. Minhas mãos suam à medida que ele coloca as dele no bolso, de forma mais casual possível e me encara. — E não, não vim sozinho. Na realidade minha esposa já está a caminho, ela foi buscar nossa filha na escola.
— Claro. — Dou o meu melhor e sorrio. — Vou para o meu quarto. Preciso me preparar. — Começo a caminhar para fora da cozinha.
— null... — A voz seca de Axel preenche o ambiente. — Temos que conversar. — Eu não queria ter que conversar com ele, muito menos queria saber o motivo dessa conversa.
— Isso pode esperar, não é? — Eu não estava me sentindo confortável em sua presença, e muito menos queria estar aqui quando sua esposa chegasse.
— Não. — Sua voz é firme, quase que autoritária, o que me faz ceder.
— Ok. — Tento manter uma boa distância entre Axel e eu.
— Eu serei breve, não precisa se sentar. — Acho que ele percebeu que eu estava indo me sentar em um dos sofás que tínhamos na sala depois de caminhar para fora da cozinha.
Observo meu pai com um pouco de atenção. Ele usava um terno e a julgar pelo caimento, ele tinha sido feito sob medida para Axel. Seu cabelo estava perfeitamente alinhado, demonstrando que ele tinha controle sobretudo ao seu redor. Axel realmente tinha uma vibe de CEO.
— Claro, como você desejar. — Solto um suspiro.
— Você deverá arrumar suas coisas, pois irá se mudar comigo. — Arregalo meus olhos, completamente chocada com a bomba que Axel solta de repente. Eu não estava preparada para essa notícia, quer dizer, eu sabia que alguma coisa poderia acontecer, pois, Dorothy tinha dito que ele era meu tutor legal agora, mas eu esperava que na primeira oportunidade, ele iria falar que eu estava nesse mundo por conta própria apesar de suas obrigações.
— Por um momento achei que você iria pedir para eu me emancipar, sabe não acreditava que você fosse querer uma intrusa na sua casa. — Tento não parecer amargurada, mas era uma missão impossível.
— Eu já fui adolescente, e sei muito bem como vocês podem agir. — Sua voz é firme novamente, e me encolho um pouco.
— Só porque você fez coisas da qual não se orgulha, não quer dizer que eu, ou os outros somos assim. — Eu não sabia se era uma boa ideia desafiá-lo, mas quem teve um filho quando adolescente não fui eu, e sim ele.
— null… Assim como você eu também não estou feliz com essa notícia de você ter que morar comigo. — Ele continua em pé, os braços cruzados, me encarando como se estivesse pensando em alguma opção para me descartar. — Minha mãe era sua responsável legal, e agora sua guarda passa para mim.
Meu coração volta a se comprimir com a pequena menção a minha avó. O ar parecia mais difícil de ser respirado, e um por momento minha visão escurece. Continuo escutando Axel falando de fundo, mas nada parecia querer me fazer voltar à realidade. Quando volto a mim, olho para Axel, buscando qualquer sinal de pesar em suas feições, mas tudo o que eu conseguia ver era a indiferença estampada em seu rosto.
— Pensei que minha mãe viria. — Não que eu contasse muito com isso, mas entre ela e meu pai, se eu concordasse em chamá-la de tia, talvez tivesse um lugar mais acolhedor para morar.
— Não sei qual foi a história que minha mãe contou enquanto você crescia, mas aqui vai a realidade. Sua mãe assinou uma documentação renunciando toda a responsabilidade de você assim que nasceu, null. — Novamente suas palavras vêm sem nenhuma piedade, como se ele quisesse me ferir mesmo.
Minha avó nunca mencionou os motivos reais dos meus pais terem me deixado com ela, mas era claro que não tinha sido por eles serem adolescentes. Provavelmente, vovó tenha falado isso naquela época para não me magoar, mas era óbvio que com o tempo eu iria perceber que as coisas não eram como ela falava e muito menos como eu imaginava. Claro que minha avó não tinha culpa disso, afinal, acredito que ela apenas queria me fazer sentir bem com toda a situação que envolvia meu nascimento.
— Você não está tão longe. — Fecho minhas mãos com força, a ponto de sentir minhas unhas cravarem na minha pele. A realidade é que meus pais não deveriam ter direito sob a minha guarda, independente do falecimento da minha avó.
— E é aí que você se engana. — Meu pai se move um pouco, apenas para mudar sua postura. — Minha mãe e eu sempre tivemos um acordo, ela tinha medo de que pelo fato de ser uma pessoa velha, pudesse morrer antes de você ser maior de idade. — Prendo minha respiração com o rumo que essa conversa estava levando. — E por causa disso eu assinei um termo em que, em caso de morte, eu assumiria sua guarda até você completar dezoito anos. — Seus olhos se encontram com o meu. Choque. Esse era o sentimento que eu tinha nesse momento. Era como se eu fosse um empréstimo, uma dívida que ele tinha passado adiante, mas que agora estava sendo forçado a assumir novamente.
— Então eu sou um fardo que você terá que aguentar até completar dezoito anos. — A raiva toma conta de mim. Não era algo que eu conseguiria controlar no momento e por conta disso o tom da minha voz se eleva para quase um grito. — Sua família sabe que eu existo? — Eu podia sentir meu rosto quente, sinal de que eu estava vermelha.
— Paige sempre soube de você. — Sua voz parecia distante. — Ela não ficou muito feliz pelo fato de eu estar tendo uma filha, mas aceitou. — Axel encara seu relógio. — Espero que você respeite minha família, elas não são como você.
Um nó se formou em meu peito. Como eu conseguiria sobreviver durante um ano com essa pessoa? Ou melhor com a família dele? Eu sempre me considerei uma intrusa, mas agora os níveis foram atualizados de uma maneira que eu não tinha certeza se saberia lidar.
— Sua mãe acabou de morrer, você poderia ter um pouco de compaixão e empatia? — Minha voz falha um pouco, mas seu olhar não muda.
— Sempre serei grato pela minha mãe assumir a responsabilidade de alguém que ela não tinha nenhuma obrigação de criar. — Fecho meus olhos com força, tentando relevar tudo o que ele está falando nesse momento por causa da minha avó. — Pode ir para o seu quarto.
Não espero muito, afinal se eu ficasse mais um pouco sob a sua presença, com certeza eu falaria algo que iria me arrepender depois. Subo as escadas com passos pesados, pensando em mil formas de ignorar Axel pelo resto do dia, e principalmente, pelo resto do ano. Ele era um estranho. Nunca tinha visto meu pai e agora agradeço ao universo por isso nunca ter acontecido. A ideia de chamar Axel de “pai” era completamente ridícula. Tudo o que ele falou ou expressou até o momento era o retrato perfeito sobre o que ele achava de mim, e nada do que eu fizesse iria fazê-lo mudar de ideia.
Meus pais deixavam claro em suas atitudes que eu não era bem-vinda. Ambos tinham filhos, porém nunca tive a oportunidade de conhecê-los, pois, eu fazer parte de suas vidas nunca foi um plano para eles. Porém o destino gostava de brincar com a minha cara, e agora eu me via presa ao meu pai por causa de um acordo que ele e minha avó fizeram há dezessete anos.
Deitada na minha cama, minha mente continua girando, pensando em maneiras de me livrar do meu pai ou do fato de ter que conviver com a sua família. Eu não precisava disso em minha vida, apesar de crescer pedindo por isso. Além do mais, nunca esperei muito deles, não quando cresci e percebi que eles não me queriam em suas vidas, mas saber que tanto o meu pai e minha mãe abriram mão da minha guarda assim que eu nasci e nunca olharam para trás, magoou, porque agora eu tinha a confirmação.
— null. — Ouço uma leve batida na porta do meu quarto, Dorothy aparecendo em seguida.
— Acho que eu peguei no sono. — Me levanto, levemente desorientada. — Que horas já são? — Noto que ela já estava vestindo roupas pretas, e percebo que não troquei de roupa desde que cheguei.
— Está na hora de você se despedir. — Ela entra em meu quarto, se aproximando da minha cama. — Sei que você está em uma situação difícil, mas está na hora. — Dorothy vai até o meu guarda-roupa e começa a mexer nele. Ela já tinha feito isso incontáveis vezes, pois, Dori e minha avó eram amigas de longa data. Ouço um resmungo vindo dela, e logo vejo um vestido preto em suas mãos. Ele não era o mais elegante que eu tinha, muito menos o mais bonito, porém era a única peça no meu guarda-roupa que eu tinha certeza ser apropriado para a ocasião.
Seus olhos me encaram com expectativa, eu sabia que ela estava ansiosa e queria me ajudar, mas na minha atual situação, nada do que eu ou os outros fizesse iria resolver o meu problema, e acho que esse é o motivo de eu engolir todos os meus sentimentos novamente e passo a me perguntar, o que deixaria minha avó orgulhosa?
A realidade é que eu não tinha uma resposta para a minha pergunta. E muito menos sabia como me despedir de uma pessoa que esteve presente em minha vida nos últimos dezessete anos. A dor estava ali, presente, porém eu apenas não conseguia expressar ela para os outros. A culpa por não conseguir chorar me consumia, eu deveria estar chorando, quebrando alguma coisa, mas nada acontecia. Era como se ocorresse uma falta de conexão com meus sentimentos, como se eles estivessem presos a sete chaves, impedindo que eu os libertasse.
Sinto uma leve falta de ar. O quarto parecia um pouco mais escuro que o normal, sendo iluminado apenas pela luz que saía da pequena fresta entre a minha janela e a cortina. Um silêncio toma conta do local, as coisas ao meu redor ainda pareciam difíceis de serem assimiladas, e dou o meu melhor para pegar o vestido em cima da minha cama e ir até o banheiro para me trocar, não querendo tomar tempo das pessoas que tinham ido até o local que o funeral estava acontecendo.
Puxo o ar novamente, sentindo uma dor em meu peito. Meus dedos estavam trêmulos, mas eu não sabia se era pela falta de alimentação, ou porque eu estava indo me despedir da minha avó. Tento repetir algumas vezes que tudo iria ficar bem, mas a quem eu estava enganando? A mim mesma? Saber que essa troca de roupa, que deveria ser simples, significava me despedir eternamente da minha avó me deixava aflita, entretanto, eu não tinha mais o que fazer.
Chegou a hora de dizer adeus.
— Você ficou bonita. — Dorothy estava me esperando do lado de fora do meu quarto. — Vamos descer, precisamos cumprimentar as pessoas que estão chegando.
Até onde eu lembro, nós não tínhamos muitos familiares, ou pelo menos foi isso que eu pensei a minha vida toda. Ao descer as escadas acompanhada de Dorothy, sou surpreendida por alguns rostos nada familiares. Acabo chamando um pouco de atenção, atenção essa que eu não queria no momento, e os olhares que recebo não são nada amigáveis, era como se essas pessoas estivessem me julgando.
Era estranho saber que de certa forma me conheciam, mas porque minha avó nunca tinha falado deles para mim? Lembro da última vez que perguntei se minha avó tinha irmãos, ela desconversou e falou que não tinha mais contato com eles, porém ao ver essa quantidade de pessoas desconhecidas, apenas descobri que minha avó mentiu em algumas coisas relacionadas a nossas vidas.
— Precisamos descer. — Dorothy me desperta dos pensamentos, segurando minha mão com mais firmeza. — null, apenas lembre-se de ser uma boa pessoa, seu pai não é tão ruim quanto você imagina, e essa é a sua família. — Respiro profundamente.
— Eu não quero ter que ir embora…
— null, está na hora de você aceitar que algumas coisas mudaram e que esse é o seu novo cenário. Seja uma pessoa boa. — Ela força um sorriso para mim, suas palavras soando um pouco vazias.
— Claro… — Eu estava exausta, e não tinha mais forças para lutar, por isso tento forçar um sorriso. — Irei tentar o meu melhor.
Descemos a escada em completo silêncio, as pessoas naquela casa pareciam ter perdido o interesse em mim e voltam a fazer o que estavam fazendo antes. O velório seria em uma capela a duas ruas da minha casa, Dorothy comentou que Axel não queria um velório dentro de casa, pois isso impediria que novos compradores se interessassem pelo local. Minha avó acabou de morrer e ele já está pensando em lucros.
Ignoro todos ao meu redor, e Dorothy vai até a capela ao meu lado, prestando todo o suporte que eu precisava naquele momento. Minha melhor amiga estava viajando e eu sabia que ela não chegaria a tempo para estar ao meu lado, o que me restava era me apoiar em pessoas que eu acreditava quererem o meu bem.
Conforme nos aproximamos da capela, percebi que a rua estava com alguns carros estacionados e que o local não estava tão vazio. A quantidade de pessoas do bairro que vieram prestar condolências e se despedir da minha avó era muito grande, me deixando um pouco aliviada em finalmente poder ver rostos conhecidos.
Chegar ao local e não encontrar Axel, foi um alívio. Finalmente pude me sentir um pouco mais segura, talvez isso se dá pelo fato de eu estar cercada por pessoas que eu conhecia. Então, forço um sorriso leve para eles, mesmo que eu esteja despedaçada por dentro, pois era isso que minha avó iria querer. Conforme fui caminhando para dentro da capela, as palavras de conforto que recebo durante todo o meu percurso pareciam penetrar dentro do meu peito, o deixando ainda mais pesado.
Aqueles que conheciam minha avó, sabiam o quão simples ela era. Dona Camélia sempre brincava ao falar que não queria pessoas em seu velório chorando, pelo contrário, ela queria que as pessoas lembrassem os bons momentos que viveram com ela, assim como queria todos com um sorriso no rosto. Porém, para mim seu desejo era muito difícil de ser realizado. Conforme vou chegando mais perto do local onde estava o caixão da minha avó, mais as pessoas pareciam me apoiar. Foi com eles que eu cresci, e ter todos ao meu redor naquele momento de despedida me deu forças para chegar até a minha avó.
Paro em frente ao caixão e prendo minha respiração por um momento. O local estava silencioso, como se todos que estavam naquele lugar entendessem a minha dor. Instintivamente, estendo minha mão e tocando a dela, sua pele que antes era quente como o fogo, agora era fria como o gelo. Seu olhar sereno é o que me pega desprevenida, ela parecia em paz, como se estivesse apenas dormindo delicadamente e isso faz com que a realidade me atinge com força. Minha avó não fazia mais parte desse mundo.
Minha cabeça começa a latejar, e de repente sinto que as coisas ao meu redor começam a embaçar. Tento de certa forma focar em algum ponto específico, para ver se consigo fazer as coisas voltarem ao normal, mas o som das pessoas ao meu redor começa a se tornam distantes. Com as mãos trêmulas, tento me apoiar em Dorothy, mas nada do que tentava fazer parecia estar surtindo efeito. Minha respiração, que eu estava conseguindo controlar até o momento, se torna irregular, me causando uma onda de pânico pelo fato do ar não entrar e muito menos sair. De repente, sinto uma onda de calor invadindo meu corpo, fazendo com que a sensação de falta de ar piorasse ainda mais.
Eu estava entrando em pânico.
Eu estava ficando sem ar.
Sem pensar duas vezes, começo a correr entre as pessoas que estavam naquele local.
Eu precisava sair dali.
Agora.
N/A: Sei que esse capítulo foi um pouco monótono assim como o primeiro, mas eles são importantes para a construção da nossa personagem principal, e essencial para o desenrolar dos próximos capítulos.
A história já está finalizada, mas pelo fato de ter sido escrita lá em 2016, muita coisa mudou então estou editando algumas coisas, no entanto não prometo que vocês não irão passar raiva com alguns acontecimentos, afinal, eles são importantes para todos os personagens e a construção deles como adolescentes.
Capítulo Três
Eu sabia que as pessoas que ficaram para trás iriam compreender meus motivos para sair daquele lugar, porém eu não tinha certeza se Axel iria tolerar minha atitude. Não que eu ligasse muito para o que ele pensava, mas assim como Dorothy disse, eu teria que mais cedo ou mais tarde aprender a lidar com ele.
Depois de sair de lá, me sinto um pouco melhor. Minha respiração já havia voltado ao normal, e minha mão não estava mais dormente, sinal de que eu consegui recuperar meus sentidos. Talvez a pressão tenha sido muito grande para eu lidar, afinal ver minha avó dentro de um caixão nunca passou pela minha cabeça.
— null? — Eu estava de cabeça baixa, então não vejo quem está me chamando, apenas os pés da pessoa, e a julgar pelo par de sapatos que ela usava, a pessoa tinha muito dinheiro.
— Sim? — Ao levantar minha cabeça, encaro uma garota loira de olhos extremamente azuis me olhando. Parecia um pouco confuso para mim uma pessoa que eu nunca tenha visto na minha vida me cumprimentar, porém lembro momentaneamente das pessoas que estavam na casa da minha avó e que eu não tinha ideia de quem eram.
— Acertei, não é mesmo? — A garota continuava parada na minha frente, e passo a encará-la com mais atenção. — null… — Ela cruza os braços, e continua me encarando.
Um sinal de alerta brota na minha mente. Eu nunca tinha visto essa garota em toda a minha vida e era um pouco estranho ela saber quem eu era. Minha avó também nunca mencionou uma palavra sobre uma garota da minha idade, então talvez ela fosse apenas a neta de alguém que veio prestar suas condolências.
— Você é…? — Minha fala sai um pouco arrastada.
— A vida é engraçada né? — Seu sorriso é alinhado e seus dentes perfeitamente brancos. — Pode não parecer, mas eu sei muito sobre você, null.
— E como você saberia? — Pergunto.
— Sou Payton, filha de Paige e Axel… — Prendo minha respiração, era tudo o que eu precisava no momento, ter que lidar com a filha de Axel.
— Interessante, não sabia que ele tinha adotado alguém da minha idade. — Eu sabia que meu pai tinha se casado há quatro anos, e que desse casamento, ele tinha uma filha da minha idade. Automaticamente, presumo que ele tenha adotado a filha de sua esposa.
— De onde você tirou isso? — Payton não parecia muito feliz com o que eu tinha dito. — Eu sou filha de Axel e Paige. — Não entendo muito bem aonde ela queria chegar com essa afirmação, pois para mim não fazia sentido.
— Para você ser filha de Axel, ele teria que ter ficado com a minha mãe e a sua. — O entendimento vai caindo, até que me dou conta do inevitável.
— Na realidade, meu pai e minha mãe namoravam nessa época. — Tento absorver suas palavras. — Depois que eles tiveram uma briga, meu pai dormiu com sua mãe e o resto já sabemos. — Em nenhum momento ela se refere a Axel como nosso pai, apenas como o pai dela. — No fim eu sou a filha legítima do meu pai, enquanto você não passa de uma filha bastarda dele. — Suas palavras são atiradas sem piedade, e acabam sendo um balde de água fria.
— Minha avó… — Eu estava tão chocada que não conseguia formular nenhuma pergunta.
— Minha avó. — Payton frisa muito bem. — Sempre soube de mim. Ela participou de todos os momentos da minha vida, mas ainda sim estou chateada pelo fato dela ter passado mais tempo com você do que comigo. — Payton se senta ao meu lado.
— Como? — Tento puxar em minha memória qualquer indício dessa interação da minha avó com a família do meu pai, mas nada vem em mente.
— A vida da vovó não era apenas baseada em você. — Presto atenção em suas palavras. — Quando ela conseguia se livrar de você, a primeira pessoa que ela procurava era meu pai e minha mãe, vovó estava muito triste em não me ver crescer como ela queria.
— Não acha que você está sendo egoísta? — Pergunto.
— Egoísta? Eu? — Paige parecia chocada com a minha pergunta, mas ela não percebia que o tempo todo ela estava me diminuindo.
— Sim, você.
— Desculpe, null. Porém eu perdi de ter minha avó ao meu lado por sua casa.
Eu estava chocada. Cada palavra que saia da boca de Payton, minha irmã, parecia surreal. Eu não queria acreditar nessa história que ela me contou, no fundo eu acreditava que suas palavras pudessem estar sendo expostas dessa forma por conta do ciúme de saber que eu iria viver com sua família, mas à medida que eu a encarava, mas verdade eu via em suas palavras.
— Eu não tenho culpa se ela preferiu estar ao meu lado. — Me levanto, não querendo mais estar na companhia dela. — E outra, bastarda? Por que você acha isso? — Murmuro. Essa era uma palavra tão forte para ser dita que eu teria vergonha de sugerir que minha própria irmã era bastarda.
— Meu pai e minha mãe são casados, meu pai assumiu a responsabilidade dos atos dele e esteve ao lado da minha mãe e ao meu lado desde que eu nasci, e para você? O que sobrou? É o nome do meu pai que consta na sua certidão de nascimento? — Suas perguntas são como navalhas afiadas. — Você não sabe de nada, porque você não é importante para gente, muito menos faz parte da nossa família.
— Isso é um absurdo. — Eu tinha certeza de que cada palavra que saiu da boca de Payton era com o intuito de me magoar, e talvez ela tenha conseguido, eu só não daria o braço a torcer. — Não faz sentido o que você está falando.
Olhando com mais atenção para Payton, percebo que ela tinha muitas semelhanças com Axel, nosso pai.
— Você irá entender, mais cedo ou mais tarde, que nunca deveria ter nascido. — Ela se aproxima de mim. — Espero que você entenda que nem eu e nem minha mãe gostamos do fato de você ir morar com a gente, e estamos apenas aceitando isso por consideração a minha avó. — Engulo em seco, sentindo um nó se formar em minha garganta.
Nesse momento, com a adrenalina mais baixa do recente acontecimento, a raiva começa a subir dentro de mim. Minha avó sempre soube da filha de Axel e aparentemente conviveu com eles ao mesmo tempo em que me criava. Vovó que sempre soube da dor que sentia pela falta dos meus pais, escondeu de mim uma parte da minha vida.
— Eu não quero fazer parte da sua vida… — E eu realmente não queria, tudo o que eu mais desejava era ficar na minha cidade, cercada por pessoas que eu conhecia.
— Infelizmente para nós, você terá. — Payton parecia irritada. — Você pode fazer um favor para mim? — Fico chocada ao ouvir ela me pedir um favor, a garota desde o momento que chegou me metralhou de informações da qual não solicitei, e agora queria me pedir um favor? — Já que você irá permanecer calada irei considerar isso como um sim, só quero pedir que você não apareça mais na capela hoje, deixe que eu e minha mãe soframos um pouco a perda da minha avó e sogra dela, não queremos uma intrusa em um momento tão familiar. — Suas palavras eram calculadas e frias, elas carregam tanta frieza que me sinto levemente vulnerável. Ela se afasta, sem esperar minha resposta e caminha em direção à capela. De longe é possível ver duas pessoas nos encarando, e logo tenho a confirmação de ser Axel e Paige, a esposa dele. Os dois estavam esperando Payton se reunir com eles e isso me machuca profundamente. Essa cena era meu sonho, um sonho que nunca fui capaz de realizar. Meu pai, uma pessoa que sempre esperei ser presente na minha vida, estava ocupado demais sendo um pai para a minha irmã.
Tento não me aproximar da capela, eu estava me sentindo traída e não queria estar no mesmo ambiente que eles, não quando eu poderia ser humilhada novamente e escutar palavras das quais eu não estava preparada para ouvir. Por isso observo de longe as pessoas que iam chegando na capela. Eles pareciam felizes, o som das conversas paralelas era alto. E eu fico ali, parada, incapaz de lidar com as informações que Payton despejou em mim. Suas palavras martelavam em minha mente, “você não devia ter nascido”.
Meu pai encarava minha irmã com uma afeição que em nenhum momento me olhou, ele abre os braços para abraçá-la, um gesto tão natural vindo da parte dele que me atinge em cheio. O chão aos meus pais parecia desaparecer. Isso não era justo. Não era justo saber que meus irmãos recebiam tanto amor e carinho dos meus pais e enquanto tudo o que eu recebia era desprezo. Tudo o que eu tinha eram as memórias que criei com minha avó, e parecia que até isso querem tirar de mim.
Talvez eu tenha chamado a atenção das pessoas que estavam naquele local, pois Axel lança um olhar em minha direção, um olhar discreto, mas que indicava que apesar de eu estar ali, eu não fazia parte daquela família. Inconscientemente dou alguns passos para trás, tentando manter meu autocontrole. Meu corpo parecia se tornar mais pesado, e a adrenalina começa a se esvair.
Eu estava esgotada.
Eu precisava sair dali. Eu não era bem-vinda, mesmo sendo neta de Dona Camélia.
Solto um suspiro e dou meia volta. Decidida a voltar para a casa da minha avó e aproveitar os últimos momentos que teria naquele lugar. Enquanto ando, um misto de sentimentos como tristeza e raiva tomam conta de mim.
— null? — Escuto uma voz familiar me chamando.
Olho por cima do ombro e vejo Zane vindo em minha direção, seu olhar parecia preocupado. Fecho meus olhos, tudo o que eu não queria no momento era ter que lidar com Zane, mas novamente o destino parecia me odiar.
— Zane… — Eu não queria quebrar na frente dele.
— Tentei te ligar, mas a chamada estava caindo na caixa postal. — Ele se aproxima rapidamente e me abraça. — Como você está? — A pergunta era meio óbvia, e a resposta mais ainda, porém Zane nunca foi muito inteligente.
Apesar de não querer lidar com ele no momento, Zane era a pessoa mais próxima de um amigo que eu tinha no momento, então apenas balanço minha cabeça, não conseguindo encontrar palavras para descrever o que eu estava sentindo, e continuo o abraçando.
— null, você sabe que pode chorar, estou aqui. — Zane afaga minhas costas, mesmo assim minhas lágrimas insistem em não descer. — Sei que as coisas não estão boas no momento, falei com meus pais, você pode ficar um tempo na nossa casa até Evie chegar.
— Zane, eu vou embora. — Ele desfaz o abraço e me encara, um pouco chocado.
— Como assim?
— Axel apareceu. — Solto um suspiro. — Vou morar com ele.
— Isso é ótimo! Você sempre quis morar com seus pais. — Zane estava feliz, mas era porque ele não tinha ideia da humilhação que passei desde aquele momento.
— Eu preciso de um tempo. — Recobro minha força.
— Vou acompanhar você até em casa. — Zane começa a caminhar comigo novamente. Eu apenas aceito sua ajuda, e caminhamos lado a lado até chegar em casa. Zane parecia curioso, mas agradeço o fato dele não me fazer perguntas.
Paramos em frente à minha casa, e a observo um pouco mais, logo ela seria vendida e eu não sabia o que iria acontecer. Algumas casas ao redor que seguiram o mesmo destino de venda, foram demolidas e em seus lugares prédios foram erguidos, ou seja, talvez essa fosse a última vez que eu iria pisar nesse local.
— Quer que entre com você? — Zane quebra o silêncio e olha para mim.
— Acho que preciso fazer isso sozinha. — Forço um sorriso ao olhar para ele.
— Tudo bem… — Ele parecia hesitar um pouco. — Irei até a capela e logo volto. — Agradeço com um olhar. E logo caminho até a entrada da minha “casa”.
Abro a porta e entro. As pessoas que estavam por ali param de falar e começam a me encarar, novamente, pessoas que eu não tinha ideia de quem eram. Resolvo voltar a ignorar essas pessoas, e subo as escadas lentamente. Cada degrau parecia ser um obstáculo em meio aquele silêncio criado pelos desconhecidos.
Chegando no meu quarto, me sento na cama, e volto a encarar o nada. O dia de hoje tinha sido marcado por um turbilhão de emoções e eu podia sentir um peso avassalador alojado em meu peito, mas mesmo assim as lágrimas teimam em não cair, fazendo com que toda a angústia fique presa dentro de mim. Perdida no tempo, olho pela janela do meu quarto e percebo que o cinza do céu estava se tornando mais intenso, indicando que já estava ficando tarde. Meus dedos brincam com o lençol enquanto tento refletir sobre tudo o que aconteceu hoje. As palavras do meu pai, as palavras da minha irmã, tudo isso atormentando minha mente. Eu estava me sentindo perdida. Claro que eu sabia que existiam diversas formas de se lidar com o luto, porém a ausência de lágrimas me deixava com uma sensação de ingratidão, de culpa.
Escuto som de passos vindo do corredor, e logo alguém batendo na minha porta. Acreditando ser Zane, peço para a pessoa entrar.
— Payton? — Fico confusa ao vê-la parada na minha porta, ela não tinha pedido tempo para ficar com a minha avó?
Ela entra no quarto e fecha a porta, sem se importar em ser muito educada comigo.
— Sim, null. Sou eu. — A julgar pelo tom de sua voz, minha irmã parecia um tanto quanto arrependida.
— Pensei que você iria ficar na capela, velando o corpo da nossa avó. — Tento quebrar o silêncio que se formou.
— Sim... Mas durante o meu tempo na capela, percebi que tinha algo para te falar. — Seria muito inocente pensar que ela iria me pedir desculpas por tudo que ela falou antes?
— E o que seria, Payton? — Pergunto.
— Você roubou minha avó de mim. — Ela dá um passo se aproximando. — Em todos os momentos que ela esteve comigo, você deu um jeito de estragar. — Eu estava paralisada, chocada demais para falar alguma coisa. — null, você não pertence a minha família e eu irei fazer você se arrepender amargamente todos os dias por ter nascido.
O peso em meu peito se intensifica. Por que as pessoas estavam fazendo isso comigo? Por que ninguém conseguia respeitar minha dor, meu luto? Eu estava me sentindo tão cansada disso, e por mais que eu tentasse me manter sã até o dia acabar, eu podia sentir que tudo que eu estava guardando para mim até agora, estava começando a desmoronar.
De repente, todo o ar que demorei para conquistar, parecia ser sugado do meu quarto. Minhas mãos voltam a tremer e minha visão começa a embaçar, fazendo que eu me levante assustada da minha cama. Ando de um lado para o outro no meu quarto, sabendo que eu estava perdendo o controle mais uma vez. Minha cabeça estava uma bagunça, eu não sabia como direcionar meus pensamentos, e tudo piora quando eu paro na frente do espelho.
Ver minha imagem e a maneira que eu estava naquele momento, fazia eu sentir repulsa de mim mesma e sou tomada novamente por uma avalanche de sentimentos.
Meus pais não me amavam.
Minha avó se foi.
Eu era uma bastarda.
Uma intrusa.
Num lapso de raiva, dou um soco no espelho. O som do vidro se estilhaçando no chão, logo sinto uma dor aguda em minha mão. O que foi que eu fiz? Tento não me mexer muito, os cacos do espelho estavam espalhados pelo chão do meu quarto, e eu parecia tão quebrada quanto eles naquele momento.
— null! — Carter estava do outro lado do meu quarto, parado em frente a minha porta. — Não se mexa. — Balanço minha cabeça, as lágrimas finalmente surgindo.
— O que você fez? — Era perceptível a preocupação estampada em sua voz, mas eu continuava em choque, nenhuma palavra saia da minha boca.
Serei eternamente grata por Carter não esperar uma resposta minha, ele simplesmente atravessa meu quarto e me segura com firmeza, fazendo questão de tomar cuidado para eu não me machucar ainda mais.
Mas talvez o que ele não tinha ideia era de que eu já estava quebrada.
N/A: Prontos para algumas reviravoltas na vida da Malia? Já aviso com antecedência, não odeiem ela, mas se odiarem, odeiam com carinho haha.
Então é isso, nos vemos nas próximas atts.
Capítulo Quatro
Fazia alguns dias desde o funeral da minha avó.
Não compareci.
Na realidade as situações se entrelaçaram e eu não consegui suportar a pressão de estar em um local infestado de pessoas que não queriam o meu bem. Eu também não conseguia encarar as pessoas conhecidas, não depois de eu ter quebrado o espelho do meu quarto em um surto de raiva. Outra situação que ainda rondava minha mente eram as palavras de Payton, ela tinha dito que minha avó sempre soube dela, e que inclusive fazia parte ativamente da vida da minha irmã e eu apenas me senti traída. Para aqueles que não me entendiam, achavam que eu estava com ciúmes, ou pior, que eu tinha enlouquecido, mas a realidade era que eu apenas estava chateada. Carter tinha chegado no momento certo para me tirar de casa naquela noite. Diferente de Zane, ele era o meu melhor amigo junto de Evie, e eu sabia que ele iria me proteger, mesmo que fosse de mim mesma.
Lembro que estava em completo choque, segurando um pano que estava enrolado em minha mão, quando Carter avista Zane e pede que ele nos leve ao hospital. Meu pai, se é que devo chamá-lo assim, estava entrando em casa quando saímos e apenas me encarou, como se estivesse pensando o que fazer comigo. Essas situações me fizeram refletir sobre os caminhos que eu deveria tomar a partir de agora, afinal, tirando as pessoas que eu conhecia e confiava, não sobrava mais ninguém na minha vida.
Sentada na cozinha, observo atentamente a casa se esvaziando aos poucos. Axel tinha permitido eu ficar aqui até a semana acabar e depois disso eu teria que me mudar para a casa dele. Era triste ver as memórias que construí com a minha avó ao longo dos anos sendo desmanchada, porém essa era a minha realidade no momento. Até onde sei, Axel já tinha um possível comprador para casa, o que tornava tudo ainda mais difícil de assimilar. Eu me recusava a aceitar a mudança para casa dele, e apesar de saber que meus amigos me abrigaram em suas casas caso eu precisasse, esse não era um fardo que eles deveriam carregar, muito menos os seus pais.
Soltei um suspiro e tentei pegar a caneca de café que eu tinha deixado na bancada da cozinha, ignorando o latejar da minha mão machucada. Axel tinha contratado um pessoal para buscar as minhas coisas, e eles eram as pessoas que estavam me segurando um pouco mais aqui, porém eu sabia que assim que eles terminassem com a última caixa do meu quarto, eu teria que ir para a casa de Axel.
— Ei estranha, como você está? — Carter aparece na cozinha segurando uma caixa de donuts.
— Carter… — Meu amigo estava exercendo bem o seu papel, ele tinha não só assumido o seu posto de amigo, como também assumiu o posto de Evie naquele momento. — Eu sei que você tem mais coisas para fazer, não precisa vir para cá o tempo todo.
— Somos amigos a quanto tempo? — Ele abre a caixa de donuts e coloca em cima da bancada.
— A bastante. — Pego uma donuts e logo mergulho em meu café.
— Estranho, não é? — Carter dá uma mordida em seu donuts. — Parece que foi ontem que estávamos reunidos aqui com nossos amigos.
— Não faz nem uma semana que minha avó morreu e Axel deu um jeito de esvaziar a casa. — Sinto um aperto em meu peito. Meu pai não tinha dirigido mais do que duas palavras para mim desde o dia em que sai machucada de casa.
— Eu não sei quem é pior, o seu pai, ou a sua madrasta. — Carter se inclina e afaga meu braço.
— Essa casa é a única parte da vida de Axel que ele consegue se livrar no momento, para o desespero dele, temos um ano pela frente juntos. — Solto uma risada amarga.
— O que você disse faz sentido.
— Às vezes eu sinto que minha avó está desaparecendo junto da casa. — Minha voz falha pela segunda vez.
— null, sua avó nunca irá desaparecer, ela sempre estará viva em suas memórias. — As palavras de Carter trazem um pouco de conforto para mim.
— Obrigada por ter ficado. — Seguro sua mão e sorrio.
— Dependendo de mim, sempre estarei. — Balanço minha cabeça em sinal de gratidão e logo volto a encarar as caixas espalhadas pelos cômodos que eu tinha visão.
— Essa cidade vai ficar tão vazia sem você. — Olho para Carter.
— A gente animava as coisas por aqui. — Solto um suspiro. Tudo o que eu vivi se tornariam apenas memórias, pois, logo eu estaria cercada de pessoas ricas e completamente mimadas.
— Como você acha que vai ser? — Tento imaginar rapidamente o que seria de mim a partir do momento que eu entrasse na vida de Axel, Paige e Payton definitivamente, e muitos cenários rondam a minha mente.
— Espero que eu não seja a próxima cinderela. — Murmuro.
— Acho que não, Axel tem a aparência de uma pessoa que vive de aparências. — Concordo. Meu pai assim como sua esposa e filha se vestiam de forma impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, sem contar as roupas de marca que eles usavam e faziam questão de deixar exposto.
— Seja como for, hoje é meu último dia aqui. — Encaro Carter.
— Tem certeza de que você vai ficar bem? — Ele me pergunta.
— Eu tenho que ficar. — Tomo um gole do meu café — Provavelmente terei que trabalhar também, então isso significa que eu não vou passar tanto tempo na casa deles.
— Sim. Talvez ocupar a sua mente irá fazer o tempo passar mais rápido. — Sinto o peso da realidade mais uma vez sob meus ombros.
— Você tem razão, acho que só assim eu não irei me sentir sozinha. — Confesso, olhando para Carter.
— null, não preciso dizer que você sempre terá um lugar aqui, não é mesmo? E tenho certeza de que a primeira coisa que Evie vai fazer quando chegar em casa é ir atrás de você. — Minha amiga tinha se sentido culpada pelo fato de não poder estar ao meu lado no enterro da minha avó, mas eu jamais iria fazer ela voltar de uma viagem que os pais dela lutaram para fazer.
— Evie tem que entender que não é culpa dela não estar comigo. — Sussurro.
— Sabe como ela é. — Reviro meus olhos, afinal minha amiga era um pouco dramática.
— Senhorita, essa é a última caixa. — Nossa conversa é interrompida.
— Claro, podem ir. — Sinto um aperto em meu peito e olho para Carter.
— Está na hora? — Ele me pergunta.
— Uhum. — Me levanto da cadeira e vou até a pia para lavar minha xícara. — Axel disse que assim que carregassem minhas coisas era para eu ir pra casa dele.
— Isso é péssimo, pensei que pelo menos ele iria deixar você ficar o final de semana. — Abro um pequeno sorriso.
— Axel disse que eu preciso me preparar para a escola nova, e aprender sobre as regras da casa.
— Que ridículo. — Cruzo meus braços.
— Você não tem ideia. — Novamente olhei ao redor da casa, a maioria das coisas Axel deu para adoção, outras ele deixou na casa para o próximo morador.
— Eu te levo até o carro. — Carter passa o braço pelo meu ombro, e caminhamos juntos até a porta.
— Não acredito que isso está acontecendo.
— Vai ficar tudo bem. — Carter sorri para mim e tento pegar um pouquinho da sua confiança para mim.
— Espero. — Paro na frente do meu carro, e logo abraço meu amigo. — Se tudo der certo, na próxima semana eu venho visitar vocês. — Sorrio.
— Assim esperamos.
Entro no carro, e logo dou partida. Não adiantava eu tentar postergar mais algum tempo, eu precisava encarar a realidade que seria morar com meu pai e sua família.
O caminho para a casa de Axel levava cerca de uma hora e meia de carro. Pelo menos a distância não seria um empecilho para eu visitar meus amigos. O condomínio dele ficava localizado em Venice Beach, um pouquinho interessante, pois, eu poderia ir para a praia quando tivesse vontade. O condomínio tinha cara de nenhuma casa valer menos que dez milhões. Sério! Eu pesquisei e esse lugar era muito valorizado.Conforme dirijo, percebo que o local era cercado por mansões de tirar o fôlego, com jardins impecáveis e carros importados estacionados na frente das casas. Agora entendo o motivo de Payton e sua mãe estarem impecavelmente vestidas. E isso me deixa desconfortável. Eles eram ricos. E nunca pensaram em ajudar minha avó.
Nós morávamos em uma casa simples e além de tudo lutamos para pagar as despesas médicas da vovó, enquanto Axel vivia em um condomínio repleto de mansões caríssimas. Isso me irritava, ainda mais pelo fato de que vovó trabalhou tanto, para que, no fim, o filho dela vivesse uma vida de príncipe sem ao menos cuidar dela.
Conforme me aproximo da casa de Axel, a ansiedade vai atingindo seu maior nível. Eu não sabia se ele estaria me esperando, na realidade eu não sabia o que esperar, mas rezo para que pelo menos Axel tenha um pingo de decência e espere por mim, o que para minha surpresa ele estava fazendo.
Axel estava parado na calçada em frente a sua casa, de braços cruzados, vestindo um terno e olhando para o relógio. Ele estava impaciente, e eu tinha certeza de que sairia como culpada.
Estaciono o carro e conto até dez para normalizar minha respiração. Antes de sair do carro, peço novamente para que tudo dê certo.
— Finalmente. — Meu pai fala sem nenhum entusiasmo. — Por um momento achei que você tinha desistido. — No fundo talvez ele apenas quisesse que eu fizesse isso.
— Era o que eu mais queria. — Murmuro, tentando a todo custo manter minha voz firme.
O silêncio desconfortável que surge entre nós é gritante. Ele fazia questão de esconder que não estava satisfeito com a minha presença, e o fato de que nem Paige e nem Payton tinham vindo me receber falava muito sobre a situação.
— Não tenho muito tempo, então vou ser direto. — Axel ainda mantém uma distância entre nós. — Espero que você siga as regras desta casa e principalmente que respeite minha família, quanto menos você falar, melhor. Não quero confusões.
— Certo. — É a única coisa que consigo pronunciar de tão chocada que fiquei.
Meu pai me encara em completo silêncio por mais alguns segundos antes de dar as costas para mim.
— Payton irá mostrar onde você vai ficar. — Ele olha de canto e me chama para segui-lo.
Não sigo Axel de imediato, não quando eu tinha algumas malas para retirar do meu carro. Eu não sabia o que esperar de Payton, não quando ela foi extremamente rude comigo em nosso último encontro, mas tento não pensar muito nisso enquanto carrego minhas malas para dentro de casa.
— Finalmente a princesa chegou. — Payton aparece no batente da porta. — Gostou da minha casa? — Percebo que na primeira oportunidade que minha irmã tem, ela faz questão de deixar claro que aquele lugar pertencia a ela, não a mim.
— Sim, Paige. — Dou um sorriso amarelo, e um passo para frente. Percebo que na primeira oportunidade que Payton tem, ela faz questão de deixar claro o que ela tinha. – Legal, não é mesmo? – reviro meus olhos, e mesmo que não quisesse fazer isso, era impossível.
— Sua casa é realmente bonita. — Forço um sorriso e dou um passo para frente. A casa era ainda maior do que parecia quando parei na sua frente, e fico um pouco mais chocada ao entrar no local. Eu esperava tolamente que Payton fosse ser um pouco mais compreensiva comigo, afinal eu não estava ali porque queria, e sim por ter sido obrigada.
— Deve estar sendo péssimo para você, não é mesmo? Saber que irá viver como uma intrusa aqui a partir de hoje. — Tento ignorar cada palavra que sai da boca de Payton. Eu não queria arrumar confusão, não quando eu acabei de chegar e por saber que mesmo tendo razão, eu sairia como a errada da história.
— Ah… Vejo que você chegou, null. — Paige se aproxima de nós. — Payton, por que você não leva null para o local que ela irá ficar? — Sinto uma onda de alívio tomando conta do meu corpo. — Você já pode levar suas malas junto, meus empregados não irão ajudá-la, sinto muito.
— Claro, apenas me leve para o meu quarto e levo minhas malas até lá. — Acho que falo alguma coisa errada, visto que Paige e Payton começam a rir.
— Payton irá mostrar para você. — Aquela mulher me olha da cabeça aos pés.
— Vamos lá que eu ainda preciso encontrar meus amigos. — Minha irmã estava impaciente, mas não era minha culpa se Axel deu a missão para ela me mostrar a casa.
Ela não me espera, começa a andar para mais dentro da casa e tenho que me virar nos trinta para poder pegar todas as minhas malas. Começo a seguir o ritmo de Payton e estranho o fato de estarmos indo para a parte de trás da casa e me pergunto mentalmente sobre o local que eles iriam me colocar para viver.
Tenho que admitir que fiquei surpresa pelo fato de não morar na casa principal, isso me surpreendeu um pouco, mas também era algo previsível. Axel e sua família não estavam felizes em me ter por ali, mas não permitir que eu ficasse na casa principal era um exagero. Uma parte de mim, mesmo que soubesse que seria difícil esse convívio, queria que Axel se sentisse culpado sobre ter me largado quando bebê e se sentisse culpado sobre o que aconteceu com a minha avó, mas no fim, a culpa era a última coisa que ele sentia.
Conforme andamos pelos arredores da casa, Payton falava sobre como a vida dela era perfeita e como eu teria que me acostumar em ver isso diariamente. Novamente, minha irmã fala sobre si mesma, o que me incomodava um pouco e não por eu sentir ciúmes, mas sim por tudo o que eu e minha avó passamos nos últimos anos, apesar de vovó saber o estilo de vida que eles tinham e nunca ter exigido nada.
— Ali é onde você irá morar. — Ela aponta para uma pequena casa no final do terreno, próxima a piscina. — Obrigada por ter feito eu perder o meu local de confraternização com meus amigos. — Payton puxa meu braço. — Vamos logo, quero te deixar lá para eu poder sair. — Puxo minha respiração, tentando manter toda a calma do mundo.
— Vocês podiam ter me dado apenas um quarto. — Murmuro.
— E ter você na nossa casa? Não basta ter você no mesmo terreno, agora você queria viver conosco? Comer conosco? Acorda pra vida! — O rosto vermelho de Payton indicava que ela estava irritada. — Eu conheço muito bem o seu tipo, null. Se faz inocente, mas por dentro deve estar querendo todo o dinheiro dos meus pais.
— Dinheiro não é a chave da felicidade. — Resmungo.
— É aí que você se engana. Mais cedo ou mais tarde, você irá se corromper por ele. — Payton muda rapidamente de humor.
— Olha Payton, eu odeio esse tipo de rivalidade que você está criando. Então que tal cada uma ficar na sua? — Eu não gostava dessa situação, esse não tinha sido o jeito que minha avó me criou e se eu pudesse evitar toda essa briga eu evitaria.
Eu já estava me sentindo a pior pessoa do mundo. Depois do que aconteceu no velório da minha avó eu pensei muito sobre o que eu iria fazer a partir do momento que eu pisasse meus pés na casa de Axel, e eu tinha decidido que apesar de todo o meu ressentimento, eu não iria reclamar, eu apenas iria relevar todas as ofensas, afinal eu só ficaria um ano aqui, e a preocupação sobre o que seria de mim depois que Axel me expulsasse daqui era maior do que ficar brigando com Payton.
— Entre e aproveite a sua nova vida, irmã. — Ela não concorda e nem discorda do meu pedido, então prefiro considerar que ela irá ficar na dela e me deixar na minha.
Payton abre a porta da casa que eu iria ficar e me deixa sozinha. Ela não me fala sobre o local e sobre o que eu deveria fazer, não, Payton apenas me larga lá e vai embora.
A primeira impressão que tenho ao entrar naquela casa era que ali eu teria tudo o que precisava para viver. A casa tinha uma cozinha e sala conjugadas e logo mais a frente um corredor com três portas, que eu acreditava ser um quarto e um banheiro, a outra eu não tinha ideia do que era. Aquele lugar parecia ter saído diretamente se uma série de tv e por mais que eu “quisesse” ficar na casa principal, ter um lugar para ficar sozinha seria realmente bom. Ali era pequeno, mas era aconchegante, limpo e muito bem iluminado. Os móveis tinham cores claras e combinavam muito bem com o piso e as cores da parede. Paro no corredor e encaro a primeira porta, ficando surpresa ao abri-lo e dar de cara com um banheiro muito bem equipado. Ao abrir a segunda porta, me deparo com uma espécie de escritório, e a última porta era onde estava meu quarto.
Ao entrar nele, fico boquiaberta. O quarto era simples, mas apesar disso parecia glamoroso, os móveis eram novos, diferentes do que eu tinha no meu quarto anterior, que além de pequeno, os móveis eram de segunda mão.
Sinto algumas lágrimas caindo. Agora eu conseguia chorar facilmente, apesar de não demonstrar isso para as pessoas. Eu precisava por meus pensamentos em ordem. Na noite passada eu não tinha dormido bem, e me despedir da casa em que vivi com a minha avó não tinha sido muito fácil.
— null? — Seco minhas lágrimas rapidamente ao ouvir a voz de Axel.
— O que você quer? — Pergunto ao sair do quarto, rezando para ele não perceber que eu estava chorando.
— Preciso passar as outras regras da casa para você. — Ele se senta no sofá e acena para eu fazer o mesmo.
— Sei que você é uma pessoa ocupada, então pode falar. — Eu não queria parecer mal-educada, e tenho certeza de que nesse momento minha avó deve estar me xingando seja lá aonde ela esteja.
— Para você continuar vivendo aqui, terá que seguir algumas regras. — Ele conduz a conversa de forma neutra. — Você deve manter esse lugar limpo, ninguém irá limpar para você, chegar bêbada em casa está fora de cogitação, e por último e não menos importante, você precisa arrumar um emprego. Meu dinheiro não é seu dinheiro, então terá que se sustentar. — Axel enumera todas as suas regras estúpidas de uma forma totalmente calma.
— Eu trabalho desde o ano passado, o dinheiro sempre foi apertado, então eu tinha que ajudar a vovó com as contas de casa. — Eu queria cutucá-lo, fazer Axel se sentir um lixo, mas minhas palavras não surtem nenhum efeito.
— Então não teremos problemas. — Ele se levanta do sofá. — Aliás, a única coisa que você não irá precisar pagar é a sua escola. — Cansada, apenas concordo com seus termos e espero ansiosamente que ele me deixe sozinha. — Ah, e antes que eu esqueça, entrar naquela casa está fora de cogitação, ou seja, você não come com a gente, você não convive com a gente. — Axel logo aponta para a pequena cozinha. — Espero que isso seja necessário para você se virar. — Engulo tudo o que queria falar para ele e apenas sorri, esperando ele ir embora.
Volto para o meu quarto e começo a desfazer minhas malas, ponderando se eu tirava tudo ou deixava algumas coisas nela. Eu não sabia o que poderia acontecer, talvez Axel pudesse se arrepender de me deixar ficar nessa casa e me expulsasse, ou sei lá, mudasse de ideia e mandasse eu ficar em um quarto da casa principal, isso me fez pensar que não desfazer toda a minha mala ajudaria a agilizar o processo de mudança caso necessário.
Assim que arrumei todas as minhas coisas, olho pela janela e percebo que o tempo estava bom para dar uma volta, além do mais eu precisava encontrar um emprego. Pego minha bolsa que deixei em cima da cama e as chaves do meu carro em cima da bancada da cozinha. O sol brilhava com certa intensidade, e sinto minhas energias se recarregando.
As ruas do condomínio não eram tão movimentadas como eu achei que fossem, eu pensei que veria pessoas com pranchas e bicicletas por aqui, mas tudo o que vejo são palmeiras altas e casas com uma estrutura extravagante. Saio com meu carro, atraindo olhares de algumas poucas pessoas que estavam na rua. Eu sabia que meu carro não era caro, muito menos o modelo do ano, mas ele servia ao seu propósito que era me permitir ter um meio de locomoção.
Dirijo até o comércio local, e estaciono o meu carro em uma vaga disponível. Acredito que aqui seria o melhor lugar para encontrar um emprego, afinal além da movimentação das pessoas locais, Venice Beach recebe muitos turistas ao longo do ano. Esse lugar era incrível, as lojas eram todas coloridas e algumas tinham letreiros chamativos. Os cafés eram algo fora de sério, em cada esquina tinha um e a tentação de entrar e aproveitar um simples café me atormentava. Por estarmos quase no final da tarde, percebo que alguns bares estavam começando a abrir, e noto também alguns estúdios de tatuagem por ali, mas o que me chama a atenção mesmo é um brechó, paro na frente dele e namoro sua vitrine, me perguntando por um momento se ali eles não estariam procurando alguém para trabalhar. Porém não existia nenhum indício de procura-se naquele local, e eu não queria incomodar as pessoas, então continuo meu caminho.
O comércio em Venice era completamente diversificado, e isso me deixou feliz, pois, senti que se eu precisasse de algo, encontraria aqui. Achei engraçado também a quantidade de lojas de artigos de surfe e skate, mas era algo de se esperar, visto que tínhamos a praia e uma pista de skate próximos. O cheiro de comida também era algo que me deixou surpresa, o ar tinha uma mistura de cheiros que deixa você com vontade de experimentar tudo o que vê pela frente.
De repente, parei de frente para o calçadão, e tiro meus tênis, que mal faria eu ir até a praia? Que mal faria eu reconectar minhas energias? Nenhum, certo? O cheiro da maresia e os sons das ondas quebrando fazem eu me sentir aliviada. Deixo que meus pés se afundam na areia quente e observo a movimentação das pessoas no mar. Além dos banhistas, havia muitos surfistas. O ambiente perfeito para um fim de tarde.
Eu tinha colocado um biquíni antes de sair de casa, mas não tinha certeza se eu conseguiria aproveitar um pouco desse lugar, mas pela primeira vez desde a morte da minha avó, eu me permiti fazer algo que eu gostava. Assim que encontrei um lugar perfeito para ficar, tiro minha blusa e o short que estava tomando todo o cuidado do mundo para não machucar ainda mais a ferida em minha mão, e fico apenas de biquíni.
Sinto uma leve brisa batendo em meu rosto e fecho meus olhos, aproveitando o momento. Isso era o que eu precisava para limpar minha mente e me reconectar comigo mesma. Tento não pensar no emprego que eu teria que procurar, tento não pensar na minha conta bancária que não estava a das melhores e tento não pensar na próxima semana, principalmente na nova escola que terei que estudar pelo resto do ano, eu tento apenas aproveitar esse momento como se nada pudesse me fazer mal ou me ferir.
— Olha a bola! — Escuto uma voz grave antes de sentir algo batendo em meu corpo. Quando me viro, vejo uma pessoa correndo em minha direção se desculpando. Apenas fecho meus olhos e tento ignorar essa situação, eu merecia um bom tempo, eu não iria me estressar.
N/A: Olá... queria muito saber o que vocês estão achando da história. A partir desse capítulo algumas coisas irão acontecer, então assim, alguns personagens vocês irão amar, mas também vai ter aqueles personagens que vocês vão odiar. Mas novamente, isso tudo faz parte da construção de todos eles.
Capítulo Cinco
Acordei me sentindo extremamente cansada. Era possível ver pela fresta da minha cortina que o sol brilhava com intensidade, os pássaros cantavam enquanto tento a todo custo abafar o som que eles emitem, tampando minha cabeça com o travesseiro, mas apesar do cansaço que eu sentia, eu sabia que tinha responsabilidades logo pela manhã.
Me forço a sair da cama, ir para uma escola nova não estava nos meus planos, mas eu não tinha muito o que fazer. Axel podia ao menos ter me deixado acostumar com esse estilo de vida, não que o estilo de vida dele e de sua família se aplicassem a mim, mas o fato de ter que estudar em uma escola com pessoas socialmente falando, diferentes de mim, me deixava com náuseas. Saindo do quarto, me surpreendo com uma mulher que eu nunca tinha visto na minha vida, parada na sala de estar. Ela não parecia muito feliz em me ver ali, e sua postura era totalmente séria. Nas suas mãos, percebo que ela tinha meu uniforme perfeitamente passado, e ao lado de seus pés, um par de tênis totalmente novos.
— Vejo que você acordou. — Sua voz era rude, será que todos os funcionários de Axel eram assim com as pessoas, ou esse tratamento seria apenas para mim? — O senhor Miller pediu para eu trazer seu uniforme e entregar o endereço da sua escola. — Ela largou meu uniforme no sofá, e me entrega um papel, saindo em seguida.
Era evidente depois desse comportamento, que realmente as pessoas que estavam ali me odiavam, mas não vou negar, por um momento achei que eles iriam ser as pessoas mais normais naquele lugar e me tratar bem. Me enganei. Tentando ignorar toda essa situação, pego meu uniforme de cima do sofá e vou para o meu quarto me trocar. Eu tinha acordado atrasada e sabia que não era nenhum pouco legal chegar em cima do laço no meu primeiro dia de aula.
Depois de dedicar um tempo para me arrumar, vou até a mesa que deixei meu computador e pego minha bolsa, checando para ver se estava tudo ok. Saindo novamente do meu quarto, pego uma maçã que eu tinha comprado no dia anterior para comer durante o meu intervalo, e em seguida pego a chave do meu carro.
Comecei a caminhar lentamente pela saída que Axel me pediu para usar, ele e sua esposa se mantinham firmes com a decisão de eu não poder usar outras áreas comuns da casa, e isso incluía a saída principal daquele lugar, então o que me restava era o usar a saída que os funcionários usavam em maioria para retirar as coisas de casa sem serem vistos na rua principal, ou seja, para chegar até o lugar que eu deixei meu carro estacionado, eu tinha que dar uma volta no quarteirão todo, isso porque o acesso que eu tinha para a rua, não passava carro, apenas pedestres. Porém para a minha surpresa, quando chego para pegar meu carro, ele não estava lá. Mando uma mensagem em pânico para Axel, perguntado se ele sabia onde o carro poderia estar, e meu pai simplesmente fala que o veículo tinha sido rebocado mais cedo por estar estacionado de forma irregular. Um belo tapa na minha cara. Meu pai em nenhum momento avisou que eu não poderia estacionar na frente da sua casa, e eu burra acreditei que poderia, e agora eu não tinha nem tempo de buscar meu carro e muito menos pegar um ônibus, apesar de ser a forma mais econômica para chegar na escola no momento.
Abro minha bolsa e tiro minha carteira de dentro dela, checando o quanto de dinheiro eu ainda tinha. A primeira opção seria pegar um ônibus e chegar atrasada na escola e a segunda seria pegar um táxi e não ter o que comer daqui a dois dias. Suspiro. Eu não queria causar uma má impressão na escola, mesmo não querendo ir, então pensei mais um pouco e decidi que ir de táxi até a escola não sairia tão caro e eu poderia passar no cartão de crédito.
Tenho que caminhar um pouco e sair do condomínio para finalmente pegar um táxi e durante todo o meu trajeto até a escola a única coisa que penso era que os culpados pelo meu carro ter sido rebocado tinham sido Axel e sua família, isso se ele não tivesse feito a ligação.
Demorei um pouco, mas finalmente consegui chegar na escola, e o melhor, a tempo para minha primeira aula.
Paro em frente a escola, e fico boquiaberta com o tamanho dela, tenho certeza de que a minha escola anterior não tinha nem metade do tamanho dessa aqui, e automaticamente me repreendo recordando que eu não pertenço a esse lugar, porém eu não podia deixar de observar o quanto de riqueza a escola exalava. E é quando meus olhos pararam no estacionamento, que entendo rapidamente o motivo do meu carro ter sido rebocado justo no meu primeiro dia de aula. Axel tinha feito de propósito, ele com certeza tinha chamado o guincho, e por tabela acabou me ferrando ao me deixar sem dinheiro para as próximas semanas. A sensação que tenho novamente é de traição, mas por que me senti traída pelo meu pai? Sendo que ele nunca se importou com alguma coisa relacionada a minha vida? Outro ponto que devo mencionar é que no momento que meus pés tocam o pátio da escola, todos, sem exceção, pareciam me encarar. Olhares repugnantes são dirigidos a mim, como se eu fosse uma estranha, como se eu não pertencesse àquele lugar… Bom, eles não estavam tão errados sobre isso.
— Você parece meio perdida… — Uma pessoa para ao meu lado, e arregalo meus olhos ao perceber quem era. — Garota da bola. — Ele solta uma risadinha.
— Parece que foi ontem que você me acertou e não teve nem a decência de se desculpar. — Coloco minhas mãos no bolso de trás da calça. Eu não queria parecer muito gentil.
— Desculpe, não tive a oportunidade de fazer isso, você estava preocupada demais fugindo. — Algo em seu sorriso me incomodava um pouco. — Sou Tyler, e você…?
— null. — Minha voz soa um pouco mais baixa do que eu poderia imaginar.
— Ah… Você é a irmã da Payton. — O encaro sem entender muito bem.
— E como você saberia…?
— Payton espalhou pela escola toda que a “irmã”. — Ele faz aspas no ar. — Iria começar na escola e não era para ninguém falar com ela. — Tyler explica de uma forma tão natural que nem parecia que eu era a pessoa que todo mundo deveria evitar.
— Como se eu já não tivesse problemas suficientes, agora tenho que lidar com pessoas me ignorando. — Começo a caminhar para longe dali, eu precisava encontrar a diretoria e não iria ficar perdendo tempo com coisas banais como essa.
— Ei! Espere. — Tyler parecia não estar muito satisfeito com suas poucas palavras, porque ele grita bem alto para todo mundo ouvir e depois corre em minha direção.
— Acho que não vai ser legal para você ficar perto de mim. — Eu já tinha problemas suficientes na minha vida, e levar alguém para o buraco comigo não era uma opção.
— Payton não é uma rainha, e eu muito menos o súdito dela. — Sorrio levemente, talvez o primeiro sorriso sincero que dou desde que vim morar com meu pai.
— Sabe, estou precisando achar a diretoria, você consegue me ajudar? — Tudo o que eu tinha era um papel com um mapa, e eu não tinha muito tempo até o sinal bater.
Sem esperar, Tyler pega minha mão e começa a me guiar pela escola, falando um pouco sobre ela. Ele também parecia ser uma pessoa muito conhecida e querida pelas pessoas, porque Tyler era parado a cada minuto para falar com alguém, enquanto eu continuava sendo ignorada pelas pessoas, chegando a conclusão de que as palavras da minha irmã eram poderosas, pois era como se eu fosse invisível aos seus olhos. Outra coisa bem perceptível é que além de ter muitos surfistas na escola, alguns estudantes pareciam levar muito a sério esse lance de futebol americano.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Tyler me puxa para um grupo de jogadores que estavam acompanhados de algumas cheers.
— Acho muito importante você conhecer uma pessoa, apenas para não nos confundir por aí. — Encaro Tyler sem entender muito bem aonde ele queria chegar, porém quando o garoto que estava de costas para mim vira, entendo o que ele queria dizer. — null, esse é Trent, Trent essa é a null. — Ele aponta para mim e para seu irmão algumas vezes e eu arregalo os olhos. Beleza que eles eram gêmeos, mas o nível de semelhança dos dois era incrível. A única coisa que entregava a diferença entre os dois, era que Tyler tinha o cabelo um pouco mais comprido que Trent. Meus olhos automaticamente se conectam com os de Trent, fazendo eu me sentir levemente hipnotizada com seus olhos azul piscina. — Na realidade, foi ele quem atingiu você com a bola na praia… — Fico sem reação, e apenas dou um aceno para ele.
— Interessante, null… Como a irmã de Payton? — Trent me encara dos pés à cabeça. — Você gosta de brincar com fogo, não é mesmo irmão? — Sua voz soa um pouco arrastada, mas era visível a diversão nela.
— Não sou eu quem tem que lidar com ela diariamente. — Encaro os dois sem entender muito bem. — Trent e Payton são namorados, logo você e Trent são cunhados. — Ele parecia se divertir um pouco com a situação.
— Depois não diga que não avisei. — Trent nos encara, e dou de ombros. Eu não tinha nada a ver com essa história.
— Cuide de sua namorada. — Tyler agarra meus ombros. — Vamos, null.
— Seja bem-vinda ao inferno, null. — Arregalo meus olhos, Trent parecia não ter nenhuma vergonha, visto que ele berra para toda a escola ouvir. Mal sabe ele que eu já vivo em um.
Tento dispersar meus pensamentos. Payton realmente tinha decidido que iria fazer da minha vida um inferno, talvez isso fosse apenas o reflexo de inferioridade que ela sentia, e talvez o medo de ser substituída por mim, mas a realidade era que eu não queria nada disso, eu não queria sua vida, eu apenas queria minha casa, meus amigos, minha avó.
Percebo minha irmã se aproximando como um furacão do grupo que estávamos a poucos segundos atrás. Ela não parecia feliz, e acho que Tyler entende perfeitamente o meu ponto de vista, pois ele solta uma risada alta antes de voltar a me guiar pelo prédio principal.
Observo com mais atenção, e à medida que andamos pelo prédio, tenho certeza de que ele foi minuciosamente planejado. As janelas de vidro se estendiam do teto ao chão, e ao mesmo tempo em que existia essa vibe praiana, também tínhamos um ar moderno e poderoso. Fico ainda mais chocada ao perceber que o chão era revestido de mármore branco, devidamente ilustrado. As paredes tinham algumas decorações como quadros e plantas. Acredito que eles tinham arrumado um jeito de estampar a “elite” muito bem em cada pedaço daquele lugar.
A diretoria não seria diferente. No final do corredor havia uma porta de madeira escura, um contraste entre o antigo e o moderno que eu tinha encontrado até agora, e acima dela, uma placa dourada indicando que ali ficava a diretoria. Sendo bem sincera, nem se eu quisesse eu teria encontrado esse lugar sozinha.
Eu não queria tomar mais tempo de Tyler, por isso agradeço a ajuda e aviso que a partir dali eu me virava sozinha.
— Posso ajudar? — Assim que abro a porta, a voz da recepcionista me surpreende.
— Sim… Eu vim pegar meu horário. — Me sinto levemente hesitante.
— E seu nome é…? — Parecia que ela realmente estava entretida, pois, a recepcionista começa a grifar algo em um papel.
— null… Miller. — Hesito ainda mais ao falar meu sobrenome.
— Claro. — Percebo que ela começa a mexer em uns papéis e depois me estende uma folha, fazendo contato comigo pela primeira vez. — Seus horários estão aqui, com base em suas matérias anteriores. Sua primeira aula será aplicada na ala sul, sala 304. Seu professor já está ciente da sua chegada.
— Certo. — Aceno.
— Você também terá que usar uma tag de identificação. — Ela me entrega a tag com meu nome gravado, e faço uma careta, estranhando o fato de realmente ter que usar isso.
Pego os papéis e agradeço com um leve aceno, porém logo próxima a saída, lembro que não tenho ideia de onde ficava a ala sul daquele lugar.
— Com licença… — Acredito que a minha presença ali esteja incomodando-a, pois, a mesma bufa antes de me olhar.
— O que foi agora?
— Consegue me falar onde fica a ala sul? — Mordo minha boca, me repreendendo mentalmente por estar me sentindo assim.
— Apenas siga reto, vire à esquerda, suba as escadas e vire à direita. — Tento absorver essa informação enquanto saio da secretaria novamente. — O que você está fazendo aqui? — Parado, próximo a saída, estava Tyler, escorado na parede, aparentemente me esperando.
— A escola é grande demais, sabia que você poderia se perder. — Ele solta uma risada.
— Não estou aqui pra fazer amizades, quero acabar o ano sem incômodos. — Apesar de ser grata por ele ter me ajudado anteriormente, envolver mais pessoas na minha vida não era um plano.
— null, esse sou eu fazendo você não ter incômodos pelo resto do ano. — Tyler começa a me seguir. — Sua irmã não é a melhor pessoa do mundo, e eu sei que ela vai tentar te derrubar…
— Fazendo as pessoas não falarem comigo? Não estamos no primário, eu consigo lidar com essa situação. — Continuo caminhando, seguindo a orientação da secretária a risco.
— Não quero ser o cara que fala mal de uma garota, e se minha mãe estivesse ouvindo essa conversa, ela seria a primeira pessoa a puxar minha orelha, porém isso se trata de sobrevivência. — Me sinto um pouco impaciente com essa conversa, mas não queria ser uma pessoa mal-humorada e tratá-lo mal.
— Tyler… Eu realmente não ligo para o que ela irá fazer. — Apesar de não me surpreender com a má índole da minha irmã, eu não tinha paciência para lidar com ela e sua infantilidade.
— Sei que isso parece ser inconveniente da minha parte, mas eu já vi pessoas mais fortes que você caindo. — Tudo bem, ele conseguiu minha atenção, que se dane a primeira aula.
— Fale. — Cruzo os braços.
— Payton pode parecer estar sendo amigável. — Não consigo segurar uma risada, da onde ela estava sendo legal? — Mas a realidade é que ela é uma víbora.
— Pelo visto, você conhece muito bem a índole dela.
— Tem um tempo que ela e meu irmão namoram, mas nossa família conhece a sua família há algum tempo. — isso quer dizer que tanto ele, quanto o irmão dele sabiam muito bem sobre a minha situação. Que vergonha.
— Então seu irmão não é tão bom assim, visto que ele está com uma pessoa como ela. — Não preciso olhar para o lado para saber que ele estava me acompanhando.
— Acredite, existem coisas que nem eu entendo. — Tyler segura meu braço. — Esse lugar é uma guerra de ego, se você não é aceita, eles irão te julgar, te prejudicar e fazer você desistir. — Fico um pouco assustada com suas palavras.
— Então, aparentemente as pessoas acham que vivem em um filme? — Pergunto.
— Tipo isso. — Paramos em frente a sala, e arregalo os olhos. Eu não tinha me dado conta de que ele estava me guiando o tempo todo enquanto falávamos. — Espero que possamos nos dar bem no futuro. — Tyler acena para mim e entra na sala rapidamente, me deixando para trás sem entender nada.
Balanço minha cabeça novamente para dispersar os pensamentos e tento focar em entrar na sala de aula. As pessoas aqui realmente pareciam estar em uma competição sem fim. Essa competição mesclava beleza, notas, e falsidade, exatamente igual a um filme.
Pensando bem, eu não queria ter que fazer parte disso tudo. E por mim eu teria ficado na casa que morei com minha avó, e perto dos meus amigos, mas infelizmente Axel não cedeu. E vejo agora que as coisas não seriam tão fáceis como pensei, beleza que eu sabia que não seria tão fácil, porém não imaginei nem um segundo que seria assim. Eu não quero me fazer de coitada, e muito menos fazer as pessoas sentirem pena de mim, mas me pergunto qual a necessidade que Axel teve de me trazer até aqui, fazer eu mudar de vida e ter que viver desse jeito. Seus empregados aparentemente me odiavam, as pessoas da escola me odiavam, e meu pai, sim, meu pai também me odiava.
Encarando a porta, penso se eu realmente tinha que entrar para assistir essa aula. A carga emocional não estava boa, e eu estava começando a me sentir um pouco mal.
Talvez pelo ambiente ser ruim.
Tóxico.
Aparentemente, os alunos tinham poder e mandavam naquela escola. O dinheiro, falando mais alto.
Respiro fundo, e entro.
— Com licença. — Tento ser o mais educada possível, já bastava os alunos me odiarem, não queria que os professores seguissem com o mesmo pensamento de ódio.
— Pode entrar. — O professor não desvia o olhar do quadro. — Encontre um lugar e se sente, você já está atrasada.
Faço o que ele pede, e encontro um lugar vago no final da sala. As pessoas pareciam me encarar ainda mais, e à medida que vou para o final da sala, escuto sussurros e piadinhas. Abro meu caderno assim que sento e dou o meu melhor para ignorar esse burburinho. Eu sabia aonde minha irmã queria chegar. Ela queria me fazer sentir sufocada com essa situação, ela queria fazer eu sair correndo de sua vida, e da vida das pessoas próximas a ela, porém Payton não iria conseguir, eu era mais forte que isso.
Parece uma eternidade até que todo mundo fique quieto. E pelo canto do olho, observo uma pessoa se aproximando, arregalo meus olhos quando percebo que ele estava se sentando ao meu lado. Trent, sorri para mim despreocupadamente, como se o fato dele estar ali fosse normal.
— Olá, estranha. — Trent se inclina em minha direção, sua voz não passando de um sussurro.
— Por que você está sentado aqui? — Eu ainda estava incrédula.
Trent dá de ombros e sorri novamente, agora me encarando com mais intensidade. Acho que ele tinha um parafuso a menos assim como seu irmão, porque não era possível ele estar me encarando abertamente em uma sala cheia de alunos que aparentemente eram devotos a namorada dele, minha irmã.
— Não ligue para eles. — Trent apoia o queixo na mão e sorri para mim.
— Meu plano era não chamar muita atenção, você e seu irmão aparentemente não entendem isso. — Suspiro.
— Relaxa. Amanhã eles irão encontrar outra pessoa para odiar. — Seu sorriso era tão tranquilo, contrastando com seu olhar de raposa.
— Você sempre vê positivismo nas coisas? — Pergunto.
— Não muito, mas eu gosto de irritar as pessoas, e sabe como irritar uma pessoa? Agindo dessa forma. — Ele ri, e não consigo evitar uma risada também. — Irritar meu irmão e Payton estão no topo da minha lista.
— Você sabe que não sou um caso de caridade, certo? — Falo baixinho. Antes que ele pudesse responder, o professor se vira para a turma dando as instruções.
— Abram o livro na página 26. Vamos falar um pouco sobre a literatura contemporânea.
— Acho que você não deve ter tido tempo de comprar seus livros, não se preocupe, irei compartilhar com você. — Trent pisca para mim.
Um sinal de alerta paira sobre meus olhos, mas resolvo ignorar.
Isso não iria fazer mal.
Nada iria acontecer.
N/A: Oii gente, como vocês estão? Atualização saiu um pouquinho tarde esse mês, espero que vocês gostem.
Capítulo Seis
Dez dias...
Parecia uma eternidade, mas se passaram apenas dez dias desde que eu me mudei para a casa de Axel, ou para a casa da piscina, para ser mais exata, e por incrível que pareça o tratamento seguia o mesmo, ninguém desta casa falava comigo, e na escola as coisas não melhoraram, na realidade ficaram ainda mais caóticas, tudo porque eu sem querer acabei discutindo com a melhor amiga de Payton, Trix. Eu sei que tinha dito para mim mesma que eu não iria me envolver em nenhuma confusão enquanto estivesse por aqui, mas a atitude de Trix tinha sido tão baixa que automaticamente me vi brigando com ela.
Mas sendo bem sincera, não era nenhuma dessas situações que me deixavam chateada, pelo contrário, o que me deixava chateada era Payton continuar lutando com unhas e dentes para me fazer a vilã dessa história, mesmo essa não sendo minha intenção. Então, somando isso e também a convivência forçada com Axel e sua família, tudo se tornava ainda mais estranho. No entanto eu não sei nem se deveria chamar isso de convivência, visto que ninguém falava comigo naquela casa. Para piorar ainda mais a minha situação, algumas pessoas do círculo de Axel também já estavam sabendo sobre mim, e de certa forma isso estava deixando a vida da família do meu pai agitada, e não no bom sentido.
Situações como essa só me fazem lembrar ainda mais da minha avó, e sobre como as coisas seriam mais simples na minha vida se ela ainda estivesse viva. Com a minha avó, eu não teria tantas preocupações. Eu não estaria me preocupando sobre estar ficando sem dinheiro, ou sobre como eu teria que começar a me preparar para o que aconteceria quando Axel me expulsasse dessa casa. Essas e outras preocupações estavam cada vez mais presentes no meu dia a dia e até mesmo impedindo que eu tivesse uma boa noite de sono.
Antes que eu pudesse me afundar ainda mais nas minhas lamentações e sobre como minha vida estava indo ladeira a baixo em menos de um mês, sou puxada de volta a realidade de um forma abrupta.
— null! — Minha irmã abre a porta de casa sem bater. O barulho que se segue me deixando assustada.
— Ao que devo sua visita repentina? — Tento me recuperar do susto que eu havia levado.
— Temos um problema. — Cruzo meus braços e a encaro, tentando entender o que mais ela iria usar como desculpas para me atormentar.
— E qual seria esse problema?
— Nesse final de semana você terá que desocupar a casa. — As palavras que saem da boca da minha irmã não faziam nenhum sentindo. Parecia que tudo o que eu tinha acabado de escutar era fruto da minha imaginação.
— E você espera que eu fique onde? — Pergunto ainda tentando assimilar tudo.
— Sinceramente? Não me importo, apenas preciso que você saia de casa nesse final de semana.
Fico estática. Eu sabia que Payton não tinha nenhum pingo de remorso por tudo que fez pra mim até agora, mas eu apenas fico ali, parada, encarando minha irmã, esperando que isso fosse uma brincadeira de mal gosto, o que obviamente não seria.
Ela não se importava realmente se eu teria um lugar para ficar, pois tudo o que importava para ela era eu desocupar essa casa para o final de semana.
— Posso pelo menos saber o motivo? — Pergunto.
— Desde quando eu preciso dar alguma justificativa para você? Apenas preciso que você desocupe a casa, volte na segunda. — Ela continua repetindo suas palavras, sem ao menos me falar o motivo de eu ter que sair tão repentinamente.
— Olha, Payton, acho que isso não vai rolar, eu não tenho onde ficar. — Cruzo meus braços e tento manter a maior calma do mundo enquanto falo com ela.
— Você é idiota? Ou se faz? — Payton começa a berrar de repente, me pegando de surpresa. — Qual a parte do “você tem que sairdessa casa nesse final de semana” você ainda não entendeu? Estou pouco me fudendo para onde você vai dormir.
Sinto meu corpo todo enriquecer, os gritos de Payton acabaram atraindo alguns olhares para a casa da piscina, e a julgar pela expressão dos funcionários, todos apoiavam Payton e me olhavam com desprezo.
— Você venceu, Payton… — Meus olhos começam a arder, e eu sabia que a qualquer momento eu poderia acabar chorando. — Seja lá o motivo de você precisar dessa casa para o final de semana, faça bomaproveito.
Fico surpresa por conseguir manter minha voz firme, embora no fundo eu apenas quisesse chorar. Eu estava ficando de saco cheio desse tratamento que eu vinha recebendo de todo mundo, e para piorar, uma das pessoas que deveriam me proteger, parecia colocar mais lenha na fogueira.
— Acho que sua ficha finalmente está caindo, não é mesmo? — Payton solta uma risada cruel, mas disfarçada com um semblante fofo. — Seu lugar não é aqui. — O olhar dela é frio e calculista. — Essa casa não é sua, e todas as vezes em que eu der uma festa, ela será feita aqui, então comece a se acostumar com o fato de ficar mais fora dessa casa do que dentro.
Respiro fundo e tento me manter calma, porque tudo o que eu queria nesse momento era bater em Payton, mas eu sabia que se eu cedesse, as coisas só iriam ficar ruins para o meu lado, principalmente quando muitos funcionários estão vendo o espetáculo de dela sem interferir.
— Axel está sabendo disso? — Minha voz sai um pouco alterada.
— Sim? — Ela sorri debochadamente para mim.
Começo a sentir a raiva borbulhando dentro de mim, então fecho meus olhos e respiro fundo, fazendo uma contagem. Quando sinto que eu poderia conversar novamente como uma pessoa civilizada, abro os olhos e não encontro Payton na sala.
Ela tinha me deixado sozinha.
Caminhando para meu quarto, começo a pensar em uma alternativa. Eu não tinha onde ficar. Ir para um hotel sairia caro demais, e esse não era um dinheiro que eu poderia gastar no momento. Minha mãos tremiam de raiva e tudo o que eu queria no momento era jogar alguma coisa na parede para ver se esse sentimento passava, mas novamente lembro que não estou em casa. Por um momento pensei em ligar para Evie ou Zane, mas eu não queria incomodar meus amigos, eles deveriam estar ocupados com alguma atividade extracurricular que faziam nos finais de semana, então a minha única alternativa era achar um lugar para ficar sábado e domingo, e hoje, penso.
Eu precisava sair por um momento dessa casa, aliviar minha mente, por isso acabo pegando meu notebook e indo até a cafeteria que eu vinha frequentando nos últimos dias. O local tinha se tornado em partes o meu refúgio, principalmente quando acontecia algo em casa. Talvez seja o ambiente aconchegante que tenha me cativado, ou talvez tenha sido o cheirinho de café recém passado que me fez ficar.
Como o lugar era perto, eu sempre ia a pé.
Assim que chego, abro a porta, e o pequeno sino acima da porta toca suavemente, indicando que alguém tinha entrado. O ambiente, como eu imaginava, cheirava a café recém passado, e automaticamente eu já estava começando a me sentir mais calma.
— Pensei que você não viria hoje. — A calorosa voz de Genevieve preenche o ambiente. A senhora se aproxima de mim com um sorriso enorme nos lábios, seus cabelos que outra hora haviam sido coloridos, estavam presos em um coque impecavelmente branco.
— Eu também pensei. — Falo um pouco sem graça. — Porém problemas surgiram. — Genevieve me guia para uma mesa.
— Ah querida… — Era estranho eu achar que de certa forma ela me entendia, mesmo sem eu falar muito? — Vou trazer algo para você comer, e dessa vez é por conta da casa. — Eu iria protestar, mas sou recebida com um olhar penetrante dela, que me fez ficar quieta rapidamente.
Tiro meu notebook da bolsa, e espero ele conectar na internet. Eu precisava arrumar um emprego, porém não poderia ser algo que comprometesse a minha vida escolar, afinal, eu precisava ter uma boa média caso eu quisesse ir para alguma universidade.
— null? — Me viro para saber quem estava me chamando e dou de cara com Tyler. Ele parecia estar completamente alheio as pessoas ao seu redor, seu sorriso despreocupado e o cabelo bagunçado, mostravam que ele tinha acabado de voltar da praia.
— Tyler… — Sinto um alívio percorrendo meu corpo, ele tinha se mostrado uma pessoa legal nas últimas semanas, principalmente quando ninguém na escola parecia querer falar comigo.
— Como você sabia que era eu? — Ele parecia levemente ofendido, e se eu não soubesse algumas diferenças entre ele e o irmão, eu poderia dizer que tinha errado, mas era impossível disso acontecer.
— Você não tem covinhas. Trent têm. — Volto meus olhos para a tela do meu computador.
— E depois as pessoas falam que eu e Trent somos idênticos. — Ele revira os olhos e praticamente se joga na cadeira à minha frente.
— Seu comportamento é de uma criança de três anos. — Murmuro.
— O que eu posso fazer? Eu sou adorável até fazendo birra. — Coloco a mão no meu rosto, chocada quando vejo Tyler abrindo os braços e chamando uma atenção indesejada para a gente.
— Eu não usaria essa palavra para descrever você. — Retruco, entredentes enquanto reviro meus olhos.
— Você tem certeza? — Tyler se inclina na mesa, apoiando o queixo em sua mão e piscando os olhos para mim.
Eu queria muito poder bater nele nesse momento, mas não demora muito para eu soltar uma leve risada.
— Tudo bem, Tyler, você é muito carismático. — Abano o ar, esperando que ele me deixasse em paz.
— Muito obrigada, você melhorou meu dia. — Ele coloca a mão no coração, o que faz eu revirar ainda mais meus olhos.
— Você se acha muito. — Observo pelo canto dos olhos que Genevieve se aproximava.
— Errado, eu sei aproveitar a vida. — Ele começa a rir. — Sei que é recente, mas talvez você devesse fazer isso.
Fico em silêncio. Tyler tinha um ponto, mas no fundo eu achava que se eu seguisse em frente, eu estaria manchando a memória da minha avó, ainda mais quando eu avacalhei muito com ela desde que descobri que meus pais tinham uma família.
— Vamos ver como as coisas irão se desenrolar. — Murmuro.
— Gostei de ouvir isso. — Ele começa a bater palmas, e eu apenas baixei minha cabeça, envergonhada.
— Tyler, você está envergonhando a null. — Genevieve vem ao meu socorro e sorrio aliviada para ela.
— Obrigada. — Ela tinha trago muito mais coisas do que eu imaginaria, deixando tudo na mesa e saindo com um sorriso nos lábios.
De certa forma eu me sentia mal quando ela fazia isso, mas eu não sabia como abordar esse assunto com ela. Genevieve tinha sido uma benção na minha vida, principalmente nas primeiras semanas que estive aqui, e ainda mais quando Payton cortou a luz da minha casa e eu não tinha como fazer comida.
— Você parece cansada. — Tyler tinha um poder de saber quando as pessoas não estavam bem, e geralmente eu não saia ilesa dessa observação pessoal que ele faz.
— Problemas. — Murmuro antes de dar um gole no meu café.
— Quem sabe eu possa te ajudar. — Ele se inclina ainda mais na mesa, se aproximando de mim.
— Payton irá dar uma festa nesse final de semana. — Escuto Tyler soltando um xingamento.
— Não me diga que vai ser na casa da piscina… — Eu tinha contado para Tyler que eu não morava na casa principal e sim na casa da piscina, o que era estranho de eu falar, pois eu conhecia Tyler a pouco tempo, mas essa era uma das habilidades dele, fazer você falar quando você menos espera.— Isso é ridículo. — Ele bufa. — Payton realmente não tem limites. — Tento disfarçar minha frustração, não queria mais uma pessoa irritada com Payton, já bastava eu. — Qual é o plano?
— Acho que vou ligar para a Evie, ou para o Zane…
— Nem pensar, você pode ficar na minha casa. — Uma risada escapou dos meus lábios.
— Não acho que essa seja uma boa ideia, Tyler. — Cruzo meus braços.
— Assim você me ofende. — Ele coloca as mãos no peito e novamente faz drama.
— Eu preciso falar os motivos? — Ergo minha sobrancelha.
— Qual é, achei que a gente já tinha passado da fase de você achar que eu estou afim de você. — Ele solta uma risada.
— Tyler… Você sabe que não é isso. Só acho estranho estar lá. — Dou de ombros.
— Você não teve a oportunidade de conhecer minha mãe ainda, ela adora visitas, e null, caso você não vá, ela irá fazer eu lavar toda a louça no final de semana. — Começo a rir. — Tenha piedade de mim.
— Seu irmão não vai curtir…
— Trent não tem que curtir nada. — Tudo o que ganho é uma expressão exagerada de Tyler que deixava bem claro que não teria desculpas.
— Tem certeza de que a sua mãe não vai achar ruim? — Eu estava começando a me arrepender de estar aceitando essa ideia, mas se eu fosse para a casa da Evie ou do Zane eu teria que gastar combustível.
— Minha mãe é a única mulher da casa, tenho certeza de que ela vai adorar ter você lá. — Me coço levemente para perguntar sobre Payton, mas me detenho.
— Beleza, você venceu. — Solto um suspiro e concordo com a sua ideia.
— Se quiser, você já pode ir para minha casa hoje mesmo…
— Tyler, as vezes você me assusta, sabia?
— Por quê? — Ele me pergunta.
— Você é intenso demais. — Mordo meu lábio. — A propósito, o que eu vou falar para a sua mãe? Que eu fui expulsa de casa pelo final de semana, ou que eu sou só mais uma garota que você está levando pra casa? — A careta que Tyler faz arranca uma risada sincera minha.
— Primeiro que minha mãe não é cega. Segundo, quantas vezes eu vou ter que falar que você não faz meu tipo. — Agora é a minha vez de ser dramática.
— Vou te falar que fiquei curiosa para saber qual é o seu tipo. — Eu não me considerava uma pessoa feia, na realidade eu me achava muito bonita, então o tipo do Tyler devia ser perfeito.
— Quando você tiver a oportunidade de ver, saberá.
Continuamos comendo em silêncio, e assim que terminamos, Tyler faz questão de ir comigo até a casa de Axel para eu pegar minhas coisas. Chegando lá, a casa estava em completo silêncio, mostrando que Payton e suas amigas ainda não estavam por ali. Com medo delas fazerem alguma coisa com os meus pertences, me certifico de guardar todos os itens de valor dentro do meu quarto e trancá-lo. Por sorte, eu tinha trocado a fechadura recentemente e eu sabia que para eles entrarem ali, apenas se arrombasse a porta.
Assim que termino de organizar minhas coisas, pego uma pequena bolsa e coloco algumas roupas e produtos de higienepessoal para levar, afinal eu não queria ser mais indelicada do que já estava sendo. Levamos cerca de quinze minutos para chegar na casa dos gêmeos e eu estava um pouco nervosa por isso, pois eu não tinha noção do que a mãe deles iria pensar de mim.
— Estou em casa. — Tyler abre a porta e começa a berrar para que pudesse ser ouvido.
— Querido, que bom que você chegou. — Uma mulher com aproximadamente quarenta e poucos anos entra na minha visão periférica. — Você deve ser a famosa null. — Fico um pouco apreensiva sobre o que ela tinha ouvido falar sobre mim.
— Quem está aí? — Escuto a voz de Trent vindo do corredor e arregalo meus olhos ao ver ele sem camisa na minha frente.
— Eu? — Falo um pouco sem graça.
— O que você está fazendo aqui? — Ele pergunta, me encarando dos pés à cabeça.
— Sua namorada vai dar uma festa e expulsou null de casa. — Tyler não me dá tempo para eu mesma explicar a situação.
— Terminei com ela hoje, então você deve se referir a Payton como ex-namorada. — Trent parecia meio seco ao se referir a um término de namoro, porém essa não era a minha história para eu me meter. — Vai ficar aonde?
— Hmm… Aqui? — Mordo o canto da minha boca.
— Aqui? — A voz de Trent soa arrastada, fazendo cócegas em minha orelhas. Ele parecia estar se divertindo com a situação.
Involuntariamente mordo o canto da boca, o olhar que ele me dá era um pouco diferente dos olhares que eu costumava receber e por um momento esqueço de como respirar.
— Isso mesmo que você escutou, ela vai ficar aqui. — Agradeço mentalmente por Tyler quebrar o clima silencioso que surgiu.
A mãe dos meninos parecia se divertir com a situação, pois ela começou a rir de uma forma tão casual que me deixou impactada. Mas diferente dela, eu não conseguia relaxar e muito menos ser casual, não quando os olhos de Trent estavam cravados em mim, como se ele fosse um predador e eu a presa.
Eu não queria encarar ele de volta, afinal, Trent era o namorado da minha irmã, ou talvez ex, e essa situação por si só já tornava tudo ainda mais complicado. Mas sem querer eu acabei sustentando seu olhar e pela primeira vez vi o quão parecidos e diferentes os gêmeos eram.
Enquanto Tyler tinha uma aura leve e meio bobão, Trent era o completo oposto.
Trent era um lobo, que observava suas presas de longe, sempre à espreita, esperando o momento certo para atacar.
Em nenhum momento ele desviou seu olhar, apenas continuou me encarando com tamanha intensidade que fez o ar ao meu redor pesar. Ele tinha um olhar frio, como se carregasse toda a dor do mundo e por um momento me senti completa.
Era quase como se nos dividíssemos a mesma dor. Como se pudéssemos nos entender de forma silenciosa.
Seus olhos me encaram de cima a baixo novamente, só que dessa vez sem pressa. Suas sobrancelhas por um momento se franzem como se existe algo o desafiando, e logo sinto meu rosto começar a arder. Era como se o tempo tivesse desacelerado. E tudo piora quando ele balança seus cabelos molhados, fazendo com que pequenas gotas de água caíssem pelo seu peito descoberto.
Sinto meus lábios secos e por um momento não consigo pensar em nada além daquele momento. Parecia que Trent sabia muito bem que eu estava tendo pensamentos nada bons, pois ele solta uma risadinha enquanto tento a todo custo quebrar o contato visual.
Desvio o olhar rapidamente, ignorando o fato do local ter ficado quente de repente. Pare com isso, null. Penso comigo mesma, o cara era irmão de uma das poucas pessoas que estendeu a mão para mim desde que cheguei aqui, sem contar que Trent é namorado, ou ex, minha mente repete, de Payton.
— Acho que é o destino a gente se esbarrar em momentos inesperados. — Ele comenta, e é possível ver um pequeno sorriso brotando em seus lábios.
Trent tinha essa voz rouca e eu nunca percebi?
Foco, null. Foco.
— Queria dizer que é intencional, apenas para inflar seu ego, no entanto, é apenas o acaso. — Falo baixinho, não queria que me interpretassem mal, mas eu não queria abrir margem para que Trent achasse que eu estava fazendo isso de propósito.
— Não enche, Trent. — Tyler interrompe a conversa, dando um leve empurrão no irmão. — null é como minha irmã mais nova.
— Tem certeza? — Observo os dois com atenção, tentando entender alguma coisa.
— Que tal você levar suas coisas para o quarto de hóspedes? — Acho que não foi a única a perceber que alguma coisa estava rolando entre os dois, por isso a mãe deles intervém e me salva dessa situação.
— Claro. — Eu falo apressadamente.
— Eu te ajudo. — Assim que seguro a alça da minha mala, Trent brota do meu lado.
Semicerrei meus olhos, tentando entender aonde ele queria chegar com essa gentileza, afinal, não tinha sido ele o próprio a me dar boas-vindas ao inferno?
— Não precisa, eu posso fazer isso sozinha. — Tento não olhar diretamente para ele, então eu olho por cima do ombro, e falo brevemente.
— Mas eu insisto. — Respiro fundo. Ele realmente queria que eu entrasse nesse jogo?
De forma proposital, quando Trent vai tirar a bolsa da minha mão, ele faz questão de deixar seus dedos tocarem os meus brevemente. Não vou negar, uma corrente elétrica passa sobre nós, porém, Trent era o namorado, ou ex da minha irmã e por mais que eu quisesse ferrar com a vida dela, eu ainda não tinha chegado ao extremo.
O silêncio me incomodava um pouco, e me sinto levemente traída por Tyler ter me abandonado com o irmão dele sem nem um esforço, mas empurro esse sentimento para o local mais escuro da minha alma.
Trent, para de repente e abre a porta de um quarto, que eu acredito ser o quarto de hóspedes e colocou a minha mala em frente a cama.
— Pretende ficar por quanto tempo? — Ele mantém a voz baixa, evidenciando a sua rouquidão.
— Pelo final de semana? — Mordo o canto da minha boca, indecisa sobre o que realmente falar.
— Certo, se precisar de algo, é só chamar. — Trent me encara.
— Obrigada. — Falo baixinho.
— Ah, null… — O observo parar no meio do quarto. — A hora que Payton descobrir que você está aqui, considere sua vida acabada. — Arregalo meus olhos, mas não pela ameaça de perder tudo, mas sim pela naturalidade que Trent fala sobre o assunto.
Solto o ar que tinha prendido, sem nem ao menos perceber e coloco a mão em meu peito. Meu coração batia de forma descompensada.
Céus, aonde foi que me meti?
Capítulo Sete
Sinto um peso sair das minhas costas assim que Trent se retira do quarto, porém meu coração continua batendo de forma descompensada. Arrisco falar que eu não entendia muito bem aonde Trent queria chegar, ainda mais agora que ele e Payton não estavam mais juntos. Sendo bem sincera, senti que de certa forma ele estivesse usando um tom de flerte para falar comigo, embora eu tenha tido sucesso em ignorar isso. Acho que existia algo ali que falava muito sobre como Trent era, mas eu não queria dar bola pra isso, ainda mais pelo fato de saber que minha vida já estava uma merda completa sem o envolvimento dele, imagina como ficaria se me deixasse envolver?
— null — Escuto um leve bater na porta que me trás de volta para a realidade.
Era Betsy, a mãe dos meninos. Ela parecia ser uma pessoa incrível, e acolhedora, como eu podia muito bem distinguir pelo tom de voz que ela usava comigo.
— Sim? — Observo quando ela coloca a cabeça para dentro do quarto.
— O jantar já está quase pronto, que tal se juntar a nós? — Eu estava me sentindo um pouco tímida. Uma coisa era eu ficar na casa de Evie ou Zane, outra era eu ficar na casa de Tyler, afinal, fazia poucas semanas desde que o conheci, porém ele não era um completo desconhecido, certo? Afinal, o tio deles era sócio do meu pai, então não tinha perigo de eles me matarem e desovarem o meu corpo por ai.
— Claro. — Respondo sorrindo.
Desço as escadas ao lado de Betsy e logo sou surpreendida por um aroma delicioso.
Isso lembrava a casa.
Tento empurrar esses sentimentos de volta e não me deixar levar pela situação. As pessoas ao meu redor não tinham nada haver com o que eu passava e muito menos com o que eu sentia, e eu não gostaria de ser um fardo para ninguém, muito menos a garota que foi abandonada pelo seus pais e perdeu a família quando sua avó morreu.
Paro de repente, quando uma cena me prende. Trent aparece no meu campo de visão, encostado na parede, falando ao telefone e gesticulando muito. Era como se alguém estivesse irritando Trent, e ele fazendo de tudo para acabar com a pessoa.
Dou um sorriso de lado.
A cena estava um pouco engraçada vista de fora, mas eu podia ver que coisas não estavam muito boas para o lado dele.
— Finalmente. — Tyler parecia feliz em me ver e eu apenas balancei a cabeça, desistindo de entender ele por completo. — Achei que você ia se trancar no quarto e ignorar todo mundo.
— Eu sou educada demais para fazer isso. — Reviro meus olhos.
— Você acha que ela iria perder uma das melhores comidas que ela já experimentou na vida?
Betsy que tinha ido até a cozinha aparece do nada e bate na cabeça de Tyler, me arrancando uma risada sincera. Era um pouco estranho ouvir o som da minha risada e principalmente, me sentir acolhida, pois, desde a morte da minha avó, eu não tinha me sentindo tão à vontade em um lugar. Ainda mais em um lugar desconhecido.
— Minha mãe tem razão. — Trent desencosta da parede e guarda o celular no bolso, se aproximando da gente.
— Vamos! Vamos. — Ela começa a nos guiar para a sala de jantar. A mesa já estava toda organizada e me sinto um pouco mal por não ter ajudado em nada.
— Isso parece incrível. — Nem parecia que Tyler e eu tínhamos acabado de comer, pois minha boca salivava.
— Hoje é seu dia de sorte, fiz o prato favorito de Tyler e um dos únicos que posso te dar certeza que deu certo.
Solto uma risadinha, apesar da idade ela parecia muito jovem, o que me deixa muito surpresa.
— Minha mãe faz tudo parecer muito simples. — Tyler resmunga enquanto se serve.
— Você sabe cozinhar, null?
Solto um gemido frustrado.
— Nem um pouco.
— E quem cozinhava para você?
A pergunta é feita com muita naturalidade, porém o peso que recai sobre mim é tão tenso que sinto minha garganta apertar rapidamente.
— Minha avó. — Em uma tentativa falha de responder, minha voz soa um pouco rouca.
Um silêncio desconfortável surge e eu me arrependo na hora. Não era culpa das pessoas que minha avó tinha morrido, e ninguém precisava andar sobre ovos comigo, afinal, era a minha vida, não a deles.
— Mãe! — Arregalo meus olhos quando escuto a voz de Tyler e Trent, os dois pareciam um pouco chocados com a pergunta da mãe deles, como se ela tivesse falado algo de errado.
— Mil desculpas. — Aos poucos vejo o olhar de Betsy mudando, primeiro eu acho que ela tinha ficado chocada com a repreensão dos seus filhos e isso acaba arrancando uma risada involuntária minha, depois seu olhar muda para o de uma pessoa arrependida.
— Não precisa se desculpar, Betsy. — Pisco para ela, tentando resgatar um ambiente agradável novamente.
— Como podemos ver, minha mãe não tem muito filtro. — Tyler é o primeiro a tentar quebrar o silêncio que voltou a se instalar entre nós. — Então irei tirar você de perto dela, troque de lugar comigo.
O único problema de trocar de lugar com Tyler, era que eu teria que sentar ao lado de Trent, e não sei se queria fazer isso no momento.
— Isso não é necessário. — Tento inutilmente argumentar com ele, porém o mesmo já estava me puxando da cadeira e me afastando de Betsy.
— Você sabe que eu ainda posso dar uma surra em você, não é mesmo?
Escuto Betsy resmungando mais um pouco, e agradeço mentalmente pelo clima estar voltando ao normal.
— Como podemos perceber, minha mãe está muito feliz sobre ter outra garota na casa. — Trent me encara profundamente e tento entender aonde ele queria chegar com isso tudo.
— Deve ser péssimo morar com dois garotos. — Penso um pouco em como a minha avó sofreu morando comigo, uma garota, então imagina para Betsy que vive com dois garotos que devem fazer o dobro de arte que eu fazia.
— Ainda bem que existem pessoas que me entendem. — Betsy parecia um pouco cansada, então apenas aceno com a cabeça.
— Quando você ver minha mãe irritada, aí você pode correr. — Olho para Trent, ele parecia um pouco sexy com o cabelo jogado todo para trás.
— Isso porque você testa todos os limites dela. — Tyler parecia satisfeito, e dava para perceber de certa forma que ele era o filho favorito.
— Então você é o garoto de ouro? — Provoquei um pouco, arqueando a sobrancelha e encarando Tyler.
— A perfeição é um dom. — Solto uma risada com a prepotência de Tyler.
— Você sabe que se eu fizesse um esforço, eu seria o cara de ouro. — Trent solta uma risada seca quando responde a provocação de Tyler, e apenas fico olhando de um para o outro, esperando a próxima resposta.
— O que você está fazendo aqui ainda? Não tinha uma festa para ir?
— Estou pensando se vale a pena ou não ir para essa festa. — Trent apoia o rosto em suas mãos.
— Isso quer dizer que você vai para a festa de Payton? — Ergo uma sobrancelha.
— Não é muito cedo para sentir ciúmes, boneca?
Bufo.
— Cala a boca.
— Que tal você vir aqui calar? — Quando abro a boca para falar, somos interrompidos por Betsy.
— Gente… — Sua voz é arrastada, mas o tom era claro. — Não briguem.
— Quando terminarmos, o que você vai querer fazer? — Tyler muda de assunto, como se ele não tivesse semeado a discórdia antes.
Dissimulado.
— Não faço ideia. — Por mim eu me enfiaria debaixo das cobertas e dormiria até tarde, no entanto, tenho que lembrar que não estava em casa, e iria fazer o que estivesse ao meu alcance para ser educada.
— Então irei ensinar sobre futebol americano para você. — Ele fala, mas acho que meu olhar era bem explicativo. — Tudo bem… Relaxa. Estou brincando.
Eu não sabia muito bem até onde era tudo brincadeira e qual o momento que a verdade tomava conta das palavras de Tyler, afinal, ele era assim o tempo todo.
— Pera ai! — Acho que essa era a primeira vez que eu via Trent chocado com alguma coisa. — Você não conhece futebol americano? — Ele me perguntou, incrédulo demais. — Em que mundo você vive?
— Não curto muito, acho um jogo violento demais. — Dou de ombros. — Além de que, na minha antiga escola, lacrosse tinha mais destaque.
— Violento? Mal posso esperar para te apresentar rúgbi. Isso sim é violento, nós utilizamos proteção para jogar. — O encaro, com uma resposta na ponta da língua, porém seus olhos rapidamente se fixam nos meus, e seu sorriso torto faz com que eu fique muda por um instante.
— Não estou interessada. — Mantenho meu olhar.
— Talvez você só precise de uma pessoa como eu na sua vida. — Ele continua sussurrando, deixando sua voz rouca bem evidente.
— Ou talvez você só precise respeitar a decisão dos outros. — Escuto Tyler e Betsy rindo ao meu lado.
Por um momento o olhar de Trent muda, e isso é o suficiente para eu perceber que tanto ele, quanto eu estávamos entrando em um jogo perigoso demais para sair depois.
— Você já achou um trabalho? — Tyler muda de assunto.
— Ainda não, então estou pensando em dar alguma monitoria para alunos de fora da nossa escola. — Até porque eu tinha total ciência de que ninguém iria me escolher como tutora, não com Payton no meu pé o tempo todo.
— Então você é inteligente. — Reviro meus olhos. — Se isso serve de consolo, Payton não é. — O encaro novamente. Sei que minha irmã não é a melhor pessoa do mundo, mas também não é legal sair por aí comparando as pessoas como Trent está fazendo, o que me deixa um pouco irritada.
— Eu acho bom você levantar dessa mesa e tirar todos os pratos, além de lavar a louça. — Minha cabeça vira rapidamente e encaro Betsy, ela não parecia nada feliz. — Esse é o seu castigo por ficar comparando duas garotas. Você sabe que eu odeio isso. — Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios, principalmente quando vejo Trent baixando a cabeça e fazendo exatamente o que a mãe dele pediu para ser feito.
— Desculpe se eu ofendi você, só queria falar que minhas notas não são tão boas assim, e que talvez você possa me ajudar. — Ele resmunga passando por mim.
— Não se preocupe, null. Meu irmão é assim mesmo.
Eu sabia que esse lance de comparações era chato, inclusive, eu já tinha feito isso entre Tyler e Trent, mesmo não achando certo, então para me redimir, me levanto e ajudo Trent a retirar os pratos da mesa.
— Meu filho é ruim em todas as matérias, se você puder ajudá-lo, eu ficaria muito feliz.
Não sei muito bem o que falar para ela nesse momento, então apenas aceno com a cabeça e me concentro em retirar a louça da mesa, levando para a cozinha em seguida.
— Então… O que você fazia na sua antiga escola? — Trent me pergunta enquanto lavava a louça.
— Prefere a verdade ou quer que eu minta? — Pergunto.
— A verdade, sempre. — Por um momento sinto que Trent estava me analisando através de seus olhos.
— Eu costumava fazer parte do teatro. — Solto uma risada ao perceber sua incredulidade.
— E por que não tentou entrar no teatro da nossa escola? — Ele me pergunta.
— Porque isso fez parte de uma vida que eu não tenho mais, e acredito que não seja mais o momento para mim. — Dou de ombros.
— Então você se sente perdida. — Prendo minha respiração.
— Talvez… Só acho que todos nós temos um pouco de escuridão conosco, alguns mais que outros.
— Isso é verdade, e a julgar por tudo o que você tem passado, acredito que você esteja lá, não é mesmo? No seu lado mais obscuro.
Fico chocada com a análise que ele faz, afinal, de certo modo Trent não está errado em falar essas coisas, pelo contrário. Automaticamente seguro minha mão machucada. Ela já estava melhor, porém ela era a lembrança do meu descontrole, da minha recaída. De certa forma, esses lapsos aparecem em momentos que estou bem, o que me deixa ainda mais irritada, porque esse sentimento não é uma escolha minha. E nada disso iria sumir da noite pro dia, especialmente porque Payton não iria permitir que isso acontecesse, pois ela tinha assumido a responsabilidade de acabar com a minha vida, seja ela social ou pessoal. Eu não gosto desse lance de rivalidade, e odeio comparações, porém chegamos em um momento que minha irmã fica espalhando um monte de coisas sobre a minha atual situação e um dos motivos de eu ter me mudado para a casa do pai dela, como se isso validasse o poder de Payton sobre o que fazer com a minha vida e claro sempre deixando claro que Axel é o pai dela, e não o meu.
A notícia de que eu não era bem vinda na casa dela correu solta pela escola e todo mundo me olhava como se eu fosse uma forasteira. Além de que espalhou para todos sobre como eu mendigava a atenção do pai dela, e quão problemática eu era. Na realidade essas coisas não me atingiram profundamente, mas tenho que admitir que eu fiquei muito chateada com a situação, pois as pessoas naquela escola me olham como se eu fosse louca, e isso feria meu ego de diferentes formas. Porém eu entendia o motivo de Payton estar fazendo isso. Ela era o tipo de garota que gostava de ter o controle de todos à sua volta.
— Eu me perdi quando minha avó morreu. — Era estranho eu estar me abrindo com alguém, e mais estranho ainda me abrir com o ex-namorado da minha irmã, que poderia voltar com ela a qualquer momento e falar sobre a minha vulnerabilidade com ela.
— Payton comentou algo do gênero com os amigos. — Trent dispara suas palavras em um tom baixo, me fazendo inclinar um pouco mais para perto de para entender o que ele falava. — E algumas outras coisas.
Reviro meus olhos, não é como se eu não tivesse escutado o burburinho das pessoas ao meu redor, porém escutar que existiam muito mais coisas que minha irmã estava falando por aí faz com que eu sinta um frio no estômago.
As pessoas não me conheciam, e minha personalidade estava sendo posta em xeque por alguém que não sabia nem um pouco sobre a minha realidade, e isso era muito chato, entretanto, era algo que eu já deveria esperar, ainda mais vindo de Payton.
— Não convivo muito com a minha irmã, mas o pouco que vi foi que ela quer acabar com a minha vida.
— Eu não posso prometer nada, mas se você quiser, posso ser seu porto seguro. — Tento ao máximo segurar minha risada, mas não consigo.
Bato com a mão na minha testa enquanto solto uma risada sincera, por um momento penso se Tyler e Trent não trocaram de lugar, porque impossível essas palavras estarem saindo da boca de Trent, não quando ele namorava com a minha irmã literalmente até ontem.
— Desculpe desapontá-lo, mas eu não preciso de nenhum porto seguro. — Continuei rindo.
Eu tive bastante tempo para pensar sobre a minha situação atual e a única certeza que eu tinha era que assim que me tornasse maior de idade, eu iria dar o pé dessa cidade, e o mais importante, para bem longe de Axel e sua família. Então me envolver demais com as pessoas não era uma opção, pois, muitas vezes, ao criar laços, você se sente confortável demais e com isso você acaba desistindo das suas ideias.
E eu não quero ser essa pessoa.
— Vou tentar respeitar sua decisão. — Observo Trent colocar a mão no coração e joga a cabeça para trás fazendo um som engraçado.
— Obrigada. — Eu não me via na obrigação de ter que explicar para ele meus motivos, então apenas dei de ombros e continuei secando a louça.
— Sabe de uma coisa, null? — Ele para de fazer o que estava fazendo, e o observo arrumando o cabelo calmamente que caia sobre seus olhos antes de me olhar. — Você pode achar que tem o controle supremo da sua vida aqui no presente, mas se lembre que você não sabe o que o futuro te reserva. — Sua voz soa lenta e rouca ao mesmo tempo, fazendo com que eu prendesse a minha respiração por um momento.
Vamos lá, tenho que admitir que tudo em Trent Baxter grita cuidado. E aparentemente ele sabia muito bem o que falar e principalmente, quando falar.
— Você é do tipo observador. — Chego a uma conclusão. — Por que me sinto intrigada com isso? — Sussurro a última parte como se não existisse mais ninguém ao meu redor.
— Ei… — Antes que eu pudesse ter uma resposta de Trent, Tyler entra na cozinha. — Parker ligou, disse pra você apressar sua bunda e ir para a festa.
Mesmo Trent falando que tinha terminado com Payton, era estranho saber que ele iria em uma festa que ela estava dando e, na realidade, era ainda mais estranho Betsy deixar seu filho ir sabendo que ele é menor de idade e vai beber, e pior ainda era saber que meu pai, a pessoa que tinha dito para eu não fazer merda, estar compactuando com uma festa regada de bebidas e menores de idade.
Eu não sou santa e já bebi muito nas festas que eu fui, então a minha única crítica aqui é saber que nossos pais estão liberando isso de uma forma tão normal.
— Festa da Payton? — Pergunto, batendo na mesma tecla, mas acho que meu tom de voz soa um pouco acusatório porque até os meninos ficam surpresos.
— Eu terminei com ela, mas isso não quer dizer que não posso participar das festas que ela dá. — Arregalo meus olhos com a indiferença de Trent.
— Isso parece ser tão contraditório. — Suspiro. — De todo modo, não fale que estou aqui.
— Relaxa, boneca. Seu segredo está bem guardado comigo. — O observando dando de ombros.
— Mais cedo ou mais tarde você irá ver como a mente do meu irmão funciona. — Tyler comenta, rindo da situação.
— Só não acho que as pessoas podem definir onde e quando eu devo fazer alguma coisa. — Fico surpresa com sua atitude, mas não falo nada.
— Você e Payton têm um relacionamento tóxico, admita. — Vejo os dois tendo uma leve discussão e resolvo não me meter
Como um clima pode mudar rapidamente do nada?
— Ty, você sabe muito bem o motivo do meu relacionamento com a Payton. — Sinto cheiro de confusão, e me senti bem curiosa para saber o tal motivo, porém eu não iria ser invasiva e perguntar.
— Por que você não vai se arrumar e Tyler e eu terminamos por aqui? — Me intrometo antes das coisas ficarem mais calorosas entre eles.
— Isso é um tom de preocupação em sua voz, boneca? — Reviro meus olhos com sua pergunta, mesmo que ele tenha a feito em tom de brincadeira, decido estabelecer limites entre a gente.
— Acredito que eu não tenha motivos para me preocupar com você. — Respondo rapidamente, o encarando nos olhos, para ele entender que eu não estava brincando.
— Trent, só vai. Não quero o Parker me irritando porque você não está lá. — Solto uma risada sincera ao ver Tyler empurrando Trent para a saída da cozinha.
— Tudo bem. Tudo bem. — Trent levanta as mãos em rendição, mas para em frente a saída da cozinha.— A gente se vê mais tarde, null. — Ele pisca para mim, e finjo estar tendo ansia de vomito com sua atitude.
No primeiro momento que ele desapareceu da cozinha, voltei a secar o restante da louça que faltava. E sem que eu percebesse, Tyler se encosta na bancada e começa a me observar. Quando me dei conta do que ele estava fazendo, paro e coloco a mão na minha cintura, sustentando seu olhar.
— Meu irmão é complicado…
— Percebi.
— Porém ele não é uma pessoa ruim… — Eu tinha pensando que voltar a secar a louça iria fazer Tyler mudar de assunto, no entanto eu me enganei. — Só que ele gosta de jogar com as pessoas e é péssimo em evitar encrencas. — Acho que entendi aonde Tyler queria chegar, por isso me pronuncio rapidamente.
— Quero deixar as coisas bem claras, eu não irei entrar em nenhum jogo com o seu irmão. — Eu estava convicta de que isso jamais aconteceria.
Mas Tyler parecia achar minhas palavras engraçadas, porque ele continuou rindo baixinho, em seguida me deixando sozinha.
Ficar sozinha por um momento tinha sido reconfortante, eu estava tão acostumada com o silêncio da minha casa, que estar em lugar com pessoas falando o tempo todo me deixavam um pouco tímida, porém eu não queria ser indelicada, então assim que eu termino de secar a louça, eu volto para a sala de estar. Observo um pouco calada a dinâmica de Betsy com seus filhos, filho na realidade, porque apenas Tyler estava na sala com ela quando voltei.
— Terminei a louça. — Eu não sabia muito bem como interromper os dois, então tento ser o mais sutil possível.
— Sente-se aqui, querida. — Faço o que Betsy pede e me sento ao seu lado.
Era tão estranho ver a dinâmica familiar deles, a mãe dos meninos parecia tão aberta, tão brincalhona que não parecia ser mãe, e sim irmã.
Arrisco dizer que de todas as mães que eu conheci, todas eram mais rígidas e controladoras, até mesmo as mães dos meus melhores amigos tinham algumas peculiares, então ver uma pessoa como ela agindo dessa forma com os filhos era novidade para mim.
— Eu irei dormir, porque amanhã tenho plantão. — Betsy anuncia, enquanto encara Tyler e eu. — Irei dar um voto de confiança para vocês dois. — Ela aponta para nós. — Não durmam tarde. — Por um momento a encaro, tentando entender o que ela queria falar com esse voto de confiança.
Tyler ao meu lado dá de ombros como se não fosse nada demais as palavras de sua mãe.
— Isso foi estranho. — Solto uma risada.
— Minha mãe falou isso só pra descontrair, ela confia em mim. — Ele parecia ainda mais relaxado que sua mãe.
— Ainda assim é estranho. — Balanço minha cabeça para dispersar meus pensamentos.
— Seria estranho se ela começasse a falar sobre proteção. — A careta que ele faz acaba me fazendo soltar uma risadinha.
— Você ganhou. — Relaxo um pouco. — O que vamos fazer agora? Estou zero sono.
— Podemos assistir alguma coisa. — Ele parecia animado.
— Desde que não seja nenhum filme de terror. — Dou de ombros.
— Você quem manda.
— A pequena sereia? — Fiz beicinho, tentando convencê-lo de assistir comigo.
— Tudo bem. — Ele cede.
E foi assim que ao invés de assistirmos a qualquer outra coisa, estávamos os dois deitados no sofá assistindo um dos meus desenhos favoritos.
Capítulo Oito
Desperto em uma cama quentinha e reconfortante. Por um momento, antes de abrir meus olhos, deixo a textura macia dos lençóis acariciar minha pele. A luz que vinha da rua tentava fazer seu serviço ao embrenhar-se pelas cortinas, criando uma leve sombra dos galhos da árvore que ficavam próximas a casa. Ao começar a me espreguiçar e abrir meus olhos, tento me situar para saber onde eu estava e confesso que demorei um pouco para entender que eu não estava no quarto de hóspedes que Betsy havia me cedido. Pelo contrário, o quarto parecia maior e a cama mais confortável. Percebo que o cheiro no ar era diferente, quase como uma mistura amadeirada com amaciante de bebê.
Saio lentamente da cama, tentando inutilmente pensar sobre como eu havia parado ali naquele quarto, e não consigo lembrar de nada. Na realidade, eu lembro de Tyler e eu estarmos assistindo A pequena sereia e depois disso eu tenho certeza de que apaguei.
Típico.
Eu sempre adormeci quando assistia filmes de noite.
Solto um suspiro, enquanto tento dispersar meu sono. Eu sabia que existia uma probabilidade altíssima de eu ter adormecido, mas a pergunta que ficava era: quem me trouxe para esse quarto?
Ao me sentar de forma mais confortável na cama, encaro ao redor, e a resposta veio rapidamente.
Trent…
Vou falar que me sinto um pouco surpresa ao perceber que o quarto dele era organizado demais para um garoto. Eu, por exemplo, conseguia manter minhas coisas organizadas por prazo de validade, nunca passava de dois dias até as minhas coisas estarem um caos e parecendo um campo de batalha. Mas o quarto dele? Tudo estava em perfeita ordem, sendo a única coisa bagunçada ali, a cama que eu dormi.
O quarto dele era uma surpresa, literalmente. Ele tinha muita personalidade, mas o que me deixava surpresa era a quantidade de fotos que Trent tinha colada na parede. Curiosa, me levanto da cama e me aproximo para vê-las melhor.
Seu mural era uma mistura de jogadores de futebol americano, paisagens da cidade e fotos dele com a sua família. Ali tinha muitas fotos dos gêmeos juntos e em momentos diferentes da vida deles, jogando futebol americano, em viagens com seus pais, e até mesmo várias fotos com os colegas dele que eu julgava serem do time, mas devo ressaltar que de todas essas fotos que eu estava vendo, uma em específico capturou minha atenção.
Trent estava sentado em uma arquibancada vazia, encarando o céu noturno. Sua expressão mostrava vulnerabilidade, algo totalmente diferente do charme despreocupado que ele exalava todos os dias.
Por um momento sinto sua dor. De certa forma eu e ele compartilhamos algo.
A solidão...
— Eu também gosto dessa foto. — Estremeço levemente ao ouvir a voz de Trent no pé do meu ouvido e rapidamente me viro para encará-lo.
Fico surpresa. Ele estava com o cabelo um pouco bagunçado, mostrando que ele também tinha acabado de acordar. Eu não queria parecer uma stalker, por isso tento me afastar do mural e dele.
— Desculpe.
Eu não esperava que minha voz soasse tão baixa, ou tão vulnerável, mas isso de certa forma parecia divertir Trent, pois ele dá um leve sorriso de lado enquanto me encara.
— Não precisa se desculpar, eu gosto de ser apreciado. — Reviro meus olhos e me viro para sair do quarto quando eu sem querer me desequilibro. — Droga.
— Não precisa ficar nervosa do meu lado.
Ignoro as palavras que saem da sua boca, pois tudo o que eu sentia no momento era uma dor insuportável no meu pé.
— Acho que machuquei meu pé. — Dou alguns pulinhos até me sentar em sua cama.
— Deixa eu ver. — De repente eu vejo preocupação em seus olhos e Trent examinando meu pé para ver o que poderia ter acontecido. — Acho que foi só uma torção mesmo.
Parecia uma eternidade, Trent tomou todo o cuidado do mundo para examinar meu pé sem me causar mais dores, e de certa forma eu achei isso um pouco fofo.
— Então…?
— Você vai ficar bem. — Ele sorri. — Apenas uma torção leve.
— Ótimo. — Tento me levantar, mas sou impedida pelas suas mãos.
— Acho melhor eu pegar uma bolsa de gelo para colocar no seu tornozelo.
— Acho que isso não é necessário, eu tenho que arrumar seu quarto.
— Não precisa, eu gosto do que vejo.
— E o que você vê?
Estávamos tão perto um do outro que eu podia sentir sua respiração quente batendo em meu rosto. Se controle, null. Esse não é seu foco.
— Minha cama e você, elas combinam.
— Trent… — chamo seu nome baixinho. — Você sabe ser um pé no saco. — Dou um leve tapa em seu peito desnudo.
— Agradeça por eu ter colocado você para dormir aqui, ou senão você ia seguir o mesmo caminho do meu irmão.
— E qual seria?
— Dormir no sofá.
Bufo.
Aparentemente, Tyler também tinha dormido no meio do filme.
— Sabe… — resolvo mudar de assunto. — Você e Tyler são parecidos com seu pai.
— As pessoas costumavam falar isso. Mas apesar de nós parecermos fisicamente com ele, o temperamento é o da nossa mãe. — Tento puxar algum momento que isso possa parecer verdade, mas nada me vem à mente.
A mãe dos gêmeos era tão calma que parecia sacanagem Trent falar que eles tinham o temperamento dela.
— Isso é estranho. — Solto uma risada e fico surpresa. Parecia que eu conseguia sorrir mais perto dos meninos.
— O que seria estranho?
— Você falando que a sua personalidade e a de Tyler são parecidas com a da sua mãe. — Dou de ombros.
— Isso é porque ela quis causar uma boa impressão. Então vou logo avisando para você, a hora que minha mãe sentir que você está em casa, ela vai mostrar a sua verdadeira personalidade.
— Certo. — Eu não tinha certeza se teria uma próxima vez na casa deles, mas prefiro não falar sobre isso.
— Vamos comer.
— Não estou com fome — minto. Na realidade eu estava com um pouco de fome, porém eu não queria parecer um incômodo para eles.
— Você realmente vai perder o café da manhã que eu e Tyler preparamos? — Eu iria negar novamente, porém meu estômago ronca. — Acho que essa é a resposta que eu estava esperando. — Ele estende a mão para eu pegar. — Irei ajudar você.
Inclino um pouco para frente, olhando para o meu tornozelo. Não parecia tão ruim quanto eu imaginava, então acredito que eu não precisaria da ajuda dele para andar. Na realidade eu tinha que manter uma certa distância dele, isso era para o meu próprio bem. Porém, antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, Trent me pega no colo.
— Trent. — Tento não gritar, então eu apenas o repreendo, mantendo minha voz baixa.
Eu tinha que manter distância dele, mas isso não parecia uma distância saudável. Minha pele fazia contato direto com a sua pele, e por um momento consigo inalar seu cheiro.
Aquele perfume amadeirado de antes.
— O que foi? Está com medo. — Suas palavras soam debochadas.
— Só me põe no chão — peço. — Não acho que seja necessário me carregar por aí.
— Mas você está machucada e minha mãe ensinou que eu sempre devo ser um cavalheiro com as mulheres. — Semicerrei meus olhos enquanto tento segurar minha língua. — Fale o que você quer falar.
— Um cavalheiro, né? Sua mãe realmente sabe como o filho é? — Prendo um sorriso ao ver que eu o atingi.
— Minha mãe conhece bem o filho. — Ele não parecia hesitar ao falar, o que me deixa um pouco surpresa.
— Refresque minha mente, Trent. — Involuntariamente meu dedo desliza pelo seu braço desnudo. — Não foi você quem deu boas vindas ao inferno recentemente?
Vejo um sorriso surgindo em seus lábios.
— E isso não é cavalheirismo? — Sua pergunta arranca uma boa risada minha.
— Nem um pouco, isso está mais para um bem-vinda a guerra de egos, cuidado por onde pisa, você pode ser atingida — falo rapidamente.
— Um ponto para null. — Ele toca ligeiramente meu nariz e começa a se mover.
O caminho todo até a cozinha, Trent manteve os braços fortemente colados em mim, numa tentativa de não me deixar cair. Achei fofo essa preocupação dele para eu não me machucar ainda mais, então eu apenas acabei aceitando.
No entanto, eu não seria eu mesma se não tentasse provocar as pessoas ao meu redor, e com ele não seria diferente. Então, inclino meu corpo um pouco mais para o lado e solto levemente as mãos que envolviam o pescoço de Trent.
— Não me teste, null. — Ele reage, me segurando ainda mais apertado.
— Ué? — Antes que eu pudesse tentar brincar novamente com ele, seus braços me apertam ainda mais. E vou dizer, ele era quente, muito quente e minha respiração dá uma leve vacilada com isso.
— Você realmente quer brincar? — Nossos rostos novamente ficam próximos um do outro.
Próximos demais.
Tão próximos que eu pude ver seus olhos brilhando e sua mandíbula tensionada.
— Depende… — Eu já estava começando a me arrepender de ter começado essa brincadeira.
Trent solta uma risada. Uma risada baixa e não responde de imediato, ele apenas me encara por mais alguns segundos antes de me soltar levemente e me pegar com todo o cuidado do mundo.
Eu fico surpresa. Isso tinha sido muito repentino.
— Trent… — Antes eu sabia o que estava fazendo e sabia que eu não iria me soltar o suficiente para cair, mas dessa vez tinha sido diferente, Trent realmente tinha me soltado e eu pensei que iria cair.
— Parece que eu ainda tenho um bom reflexo — murmura ele, se inclinando ainda mais para perto de mim. — Você gostou?
Eu não tenho uma resposta para a sua pergunta. Tudo que me vem à mente é minha irmã, ex-namorada dele, e logo sou tomada por um banho de água fria. O que eu estava fazendo?
Ele solta uma risada, me trazendo de volta à realidade.
— Trent… Me coloque no chão. — Até então eu estava brincando, sem pensar muito no que eu estava fazendo, mas agora eu tinha que parar.
— Claro que não… — Ele continua me carregando para a cozinha, e entra na mesma berrando. — Mãe… Aconteceu um acidente e a princesa se machucou.
Ele aponta para meu pé e sinto minhas bochechas queimando. Eu nunca tinha sido tratada dessa forma antes, ainda mais por pessoas que eu mal conhecia.
Betsy para o que estava fazendo e nos encara com um misto de diversão. Eu pensei que ela não estaria em casa, afinal, ela tinha dito que precisava dormir, pois ela teria um plantão.
— Limites, irmão. Limites. — Percebo Tyler bufando e o vejo cruzando os braços.
— Desde quando eu tenho? — Trent solta uma risada antes de me pôr no chão.
— Cuidado. — Betsy para tudo o que está fazendo e se aproxima de mim. — Deixe-me ver seu pé. — Me sento em uma cadeira e a deixo examinar.
E acho que foi nesse momento, vendo a dinâmica dos três e como eles lidavam comigo, que percebi que eu jamais teria chance de manter uma distância saudável de Trent Baxter, isso porque a pequena família dele me conquistou.
— Está tudo bem. — Eu já estava conseguindo mover meu pé, apesar de ele ainda estar um pouco dolorido, mas era algo que eu podia suportar.
— Você precisa tomar cuidado, null. — Ela se levanta. — Não queremos outro tipo de fratura.
— Pode deixar. — Eu não tinha como argumentar muito, então apenas desisto de falar alguma coisa.
— Fique sentada, os meninos irão servir seu café da manhã. — Seu tom era claro, não haveria discussões sobre isso.
Me remexi na cadeira. Eu não queria confundir meus sentimentos, entretanto, eu estava bem mexida com toda a atenção que eu estava recebendo. Me sentir acolhida por alguém era algo que eu estava procurando desde que cheguei, e foi algo que não tive, principalmente do meu pai e de sua família. Porém, por mais que eu estivesse mexida com tudo isso, eu jamais poderia baixar minha guarda. Ainda mais sabendo que na maioria das vezes as boas intenções apareciam por conta da pena.
— Esse é o jeito da minha mãe, não leve muito a sério — resmunga Tyler para mim, assim que percebe meu desconforto.
O sinal de alerta piscando em minha mente. E antes que eu pudesse falar alguma coisa, Betsy coloca um prato cheio de comida na minha frente.
— Espero que você goste. — O aroma quente preenche o ar, no meu prato, algumas panquecas empilhadas e frutas ao lado, tudo perfeitamente empratados.
— Obrigada. — Sorrio. Eu jamais iria querer parecer ser uma pessoa ingrata, mesmo se um dia eu soubesse que eles estavam fazendo isso por pena.
Depois do café da manhã, ajudei os meninos a organizarem a cozinha e com isso acabo percebendo que eu já tinha estendido demais a minha estadia na casa deles, e mesmo com o aviso de Payton sobre eu ficar longe o final de semana todo de casa, eu decidi voltar.
Eu tinha conseguido fazer com que Tyler e Trent concordassem em não contar para ninguém sobre eu ter ficado na casa deles por uma noite. Sinceramente, eu sabia que não tinha nada a esconder, mas não queria dar mais munição para Payton usar contra a minha pessoa. Principalmente agora que ela e Trent terminaram o namoro.
Quanto menos ela soubesse onde eu fiquei, melhor seria a minha vida.
Ao chegar no condomínio, faço exatamente o que Axel me pedia para fazer todos os dias e vou logo entrando pelos fundos da casa. Eu tinha que tomar cuidado para não ser vista por ninguém da casa principal, outra ordem do meu pai, e por isso tento passar da forma mais discreta possível pelo jardim lateral.
Conforme vou andando, percebo que a casa estava um caos. Os copos estavam jogados no chão, assim como algumas garrafas jogadas pelo quintal. Ou seja, a festa tinha sido longa e, como posso ver, as pessoas tinham deixado muita sujeira para trás. Aligeiro meus passos, eu não queria ter que ser a responsável por limpar essa bagunça, então quanto mais rápido eu chegasse na casa da piscina, menos possibilidade de ter que fazer algo que eu não quisesse. Porém, como nem tudo são flores, ao abrir a porta da minha casa me deparo com uma situação pior do que a do lado de fora.
Minha casa, apesar de não ser minha, estava um completo caos.
Afundo no pequeno sofá que tinha na minha sala e tento ao máximo não tocar nos lugares sujos daquele lugar. Mas sabe o que é pior? É a sensação de saber que a limpeza desse lugar iria ser jogada toda para mim.
Respiro fundo.
Faltavam apenas oito meses para eu me livrar desse lugar.
Oito meses para eu dar o pé da escola e da casa de Axel e sua família.
Fecho meus olhos por um momento e tento pensar no que eu poderia tirar de proveito dessa situação, mas nada me vem à mente. Porque no fundo eu sabia, eu não tinha nascido para ser feliz, pelo contrário.
— Onde você esteve? — De repente ouço a voz de Axel atrás de mim.
— Estive fora, assim como Payton pediu. — Eu já tinha tanta coisa para fazer nessa casa que eu já não tinha mais energia para lidar com meu pai.
— Passou a noite em um hotel, ou com alguém? — Uma raiva começa a crescer dentro de mim, não existia preocupação em sua voz, pelo contrário, eu podia sentir o vazio de suas palavras ecoando pela minha mente.
— Isso realmente interessa? — pergunto. Eu estava começando a ficar de saco cheio disso tudo. — Sua filha preciosa me expulsou de casa para fazer a festinha dela, você ao menos se importou em saber como eu estava? — Cruzo meus braços e observo meu pai em completo silêncio.
— Você é tão mesquinha. — Choque percorre pelo meu rosto. Claro que as palavras que ele iria pronunciar não seriam de apoio para mim, pelo contrário. — Payton precisava da casa.
Ri, sem humor.
— Mesquinha? Eu? — Estava sendo difícil para eu processar suas palavras.
— Ela precisou da casa por um dia, você está nela há semanas. — Prendo minha respiração. — Não me importo com o que você faz da sua vida, mas espero que você siga as regras desta casa.
— Regras que são aplicadas apenas para mim? — Reúno toda a minha vontade de retrucar.
— Se você aparecer grávida, considere-se expulsa desse lugar. — Suas palavras são rígidas.
Sinto que o chão estava sumindo dos meus pés. Se um dia eu pensei que eu pudesse ter algum tipo de relação com meu pai, hoje eu tenho certeza de que jamais teria.
— Isso não é justo comigo, você nunca esteve presente na minha vida, você ao menos se perguntou se eu estava em um lugar seguro? — pergunto.
— Nunca estive presente na sua vida, pois essa nunca foi minha intenção. — Um soco doeria menos.
Como minha vida ia de 0 a 100 tão rápido?
— Então é isso, você só está me deixando aqui por pena…
— Eu não diria pena, eu diria dever a minha mãe. — Sinto meu sangue ferver.
Eu queria gritar, mas não daria esse gosto para ele. E para que isso não acontecesse, me viro e caminho rapidamente para o meu quarto.
Quando entro, finalmente percebo o cheiro de álcool que impregna o ar. Meu quarto estava uma bagunça, mostrando que alguém tinha estado lá dentro. Rapidamente começo a mexer nas minhas coisas, para saber se tudo estava ali, e quanto mais eu mexia, mais desesperada eu ficava.
Meu corpo gela.
Minha pulseira.
Eu nunca usava essa pulseira com medo de perdê-la e agora ela tinha sumido.
Beleza que talvez eu tenha sido ingênua o suficiente ao pensar que ninguém entraria no meu quarto apenas pelo fato de eu ter trocado a fechadura, porém eu jamais pensaria que pegariam algo de valor. Preocupada, começo a mexer novamente em tudo no meu quarto. Eu poderia ter colocado ela em algum lugar e ter esquecido, certo?
Errado. Ela não está aqui. De repente sinto minha cabeça começar a girar. Aquela pulseira era o único pertence da minha avó que ficou comigo e agora até ela se foi.
Saio do quarto com uma leve esperança de poder encontrar ela em qualquer outro lugar, no entanto, parecia que o universo estava alinhado para conspirar contra a minha pessoa. Até porque, encostada no sofá da minha sala de forma totalmente despretensiosa, estava Payton.
— O que você está fazendo aqui?
Minha irmã parecia perdida em seu próprio mundo, e quando me olha, um sorriso surge em seus lábios.
— O quê?
— Por que você permitiu que pessoas estranhas entrassem no meu quarto? — Eu queria gritar com ela, mas me controlei, pois no fundo eu sabia que eu seria a maior culpada.
— Agora eu tenho que controlar as pessoas? — Fecho meus olhos e conto até dez.
— Payton, minha… — Minha voz para no caminho assim que eu vejo algo reluzindo no braço da minha irmã. — Foi você…
— Que perseguição, o que foi agora? — Minha irmã cruza os braços, me encarando como se eu fosse louca.
— Não se faça de idiota! — Sinto minha respiração ficar mais acelerada. — A pulseira, Payton! Você pegou no meu quarto e está usando deliberadamente como se fosse sua — palavras furiosas saem da minha boca.
— Pare de agir como se o mundo girasse ao seu redor.
— É você quem não tem o direito de usar algo que é meu.
Sem me dar conta, avanço em direção a Payton, puxando o braço dela no processo. Porém, minha irmã acaba me empurrando, e meu desequilíbrio acaba levando eu e ela para o chão.
— Cala a boca. — Sinto a adrenalina tomar conta do meu corpo, eu estava com tanta raiva que em um piscar de olhos, nós estávamos rolando no chão e literalmente saindo no soco.
— Sua mimada! — grito enquanto acertava um tapa em sua cara. Payton se joga para cima de mim, enquanto sinto ela agarrando meu cabelo e dando um forte puxão. Minha primeira reação foi usar minhas unhas a meu favor, por isso eu a arranho com toda a minha força.
— Chega! — Escuto um berro e por um momento fico estática, dando brecha para o tapa que eu tinha acabado de levar. A voz do meu pai preenche o ambiente, seu olhar furioso sendo lançado diretamente para mim. — O que está acontecendo aqui? — O observo ajudando Payton a se levantar.
— Minha pulseira. — Eu estava ofegante. — Ela pegou a minha pulseira.
— Sua pulseira? — Sua expressão gélida estava ali novamente. — Isso daqui foi presente da minha mãe para Payton assim que ela nasceu.
Sinto o chão se abrindo aos meus pés.
— O quê?
— Você sempre achando que era a única na vida da vovó. — Minha irmã, apesar da péssima aparência, tinha um sorriso nos lábios. Um sorriso que beirava ao triunfo.
— Axel, você está inventando tudo isso apenas para defendê-la. — O primeiro estágio surge. Negação.
— Não estou mentindo, null. Minha mãe realmente deu essa pulseira para Payton assim que ela nasceu, existem duas delas, uma da minha filha, outra da minha mãe. — Ele solta um suspiro enquanto me explica. — Essa pulseira, significa o amor e união de neta e avó.
Suas palavras são afiadas.
Meu peito se aperta de vergonha. Eu sempre pensei que fosse importante para alguém, até hoje.
— O mundo, null, não gira em torno de você. Pare de sempre tentar ser uma vítima, isso está ficando cansativo demais.
Suas palavras são duras.
— Eu nunca me fiz de vítima — rebato, enquanto tento me fazer de forte na frente deles.
— Desde o dia que você chegou aqui você tem se feito de vítima. Sempre age como se todos estivessem contra você, mas a realidade é que ninguém se importa. — Sinto um nó em minha garganta. Eu queria poder falar algo, mas naquele momento não consigo dizer nada.
Aos olhos do meu pai, e de sua família, eu era um problema.
— Vá para o seu quarto, Payton. — Axel se vira e fala com a minha irmã, sua voz soa extremamente doce. Ele espera que ela saia de casa para voltar a me encarar. — Eu já tenho problemas demais para resolver, não preciso de mais um.
— Então por que não me deixou ficar na minha cidade? — Se eu fosse um fardo, seria muito mais fácil para ele me abandonar logo de início.
— Porque não houve escolha.
Meu pai não espera que eu fale mais nada. Apenas vira as costas e saí daquela casa como se nada mais importasse, a não ser sua família.
CONTINUA...
N/A: Oii gente, primeiramente feliz ano novo, segundo, quero muito a opinião de vocês. Deixo Trent e Tyler fixos, ou vocês preferem ler com algum fav? Me falem.
Essa att foium pouco curtinha, mas intensa. Então se preparem...
Até a próxima.