Entre Dois Mundos



Escrito por Nathara Santanna | Instagram
Revisado por Natashia Kitamura

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Capítulo Um

  Destino…
  Minha avó costumava sussurrar essa palavra em meu ouvido com um leve sorriso nos lábios, mesmo que eu tivesse feito algo errado. No vocabulário da minha avó, destino significava que tudo o que eu fiz, fazia parte dele.
  Sabe, eu cresci ouvindo que a vida é cheia de obstáculos, que durante o nosso período na Terra encontramos caminhos tempestuosos e claros, e que nossas escolhas dependiam unicamente de nós. Em todas as conversas que tive com minha avó, ela sempre deixou claro que o destino nos uniu, que eu era destinada a ficar com ela para sempre. Pode parecer um pouco egoísta da minha parte falar isso, mas minha avó nunca soube o peso que suas palavras carregavam, pois, de certa forma, suas palavras mostravam o quanto eu havia sido abandonada pelos meus pais, mesmo que ela nunca tenha dito isso.
  Fui descobrir os segredos da minha existência na escola. Até então eu achava supernormal ser criada pela minha avó. Meu avô, infelizmente, havia falecido há muito tempo, e não tive a chance de conhecê-lo. Porém, na escola, percebi que as crianças ao meu redor tinham um pai e uma mãe, ou dois pais, ou duas mães, e eu? Bom, eu tinha uma avó. Essa situação era algo que matutava na minha cabeça, “por que meus pais nunca apareceram?” Por outro lado, eu também não queria ser injusta com a minha avó e perguntar sobre eles. Afinal, ela nunca tinha falado sobre meus pais, e eu tinha medo de perguntar e magoá-la.
  Acho que foi por volta dos meus dez anos que eu criei coragem para falar sobre esse assunto com ela, até porque eu já estava maior e acreditava que poderia entender muito bem o motivo dos meus pais não viverem comigo. Sou grata por ela, que, mesmo com a minha pouca idade, foi sincera ao explicar o porquê de eles não fazerem parte da minha vida, e suas palavras eram claras como a neve “Seus pais eram adolescentes quando você nasceu, e eles não tinham maturidade de cuidar de você. Sinto muito.” Acho que essas palavras, quando você tem dez anos, são reconfortantes, mas, estando mais velha, agradeço mentalmente por ela nunca ter exposto a verdade nua e crua na minha cara.
  Não tardou até eu descobrir a verdade que minha avó tentava esconder. Meus pais abriram mão de me criarem. Eles seguiram com suas vidas como se eu não existisse. Eu sabia que não devia me importar com essa situação, mas era tão devastador saber que as pessoas que te colocaram no mundo não ligavam para você, me fazendo questionar, “Por que sentir falta de pessoas que eu nunca conheci?” Por muito tempo, eu senti ciúmes dos meus amigos e da família que eles tinham, pois, desde que me entendo por gente, sempre fui eu e minha avó. Essa inveja me consumiu por um tempo, e acho que isso foi combustível para o meu desejo de ir atrás deles.
  Talvez tenha sido aí que minha vida começou a desandar. As poucas informações que eu tinha dos meus pais era que eles tinham ido para faculdade e seguiram caminhos diferentes, ou seja, eles não ficaram juntos depois de me terem. Fui atrás de saber um pouco mais sobre suas vidas e descobri que os dois estavam muito bem-casados e com filhos. Lembra quando falei que minha vida começou a desandar depois de começar a procurar sobre meus pais? Bom… Quando descobrir quem era minha mãe, soube que meus avós maternos ainda viviam na minha cidade, e, com toda a esperança do mundo, bati em sua porta, apenas para ouvir que eles não tinham nenhuma ligação comigo e que esperavam que eu não fosse mais até a casa deles.
  Nunca falei para a minha avó as intenções que eu tinha em encontrar meus pais e tentar ter alguma ligação com eles. Tudo o que fiz foi por trás das costas dela, o que foi muito egoísmo da minha parte. Porém só fui entender mais sobre isso dois anos depois, quando completei dezesseis anos e tirei minha licença para dirigir. Eu e minha melhor amiga, null, fomos em busca dos meus pais. Para minha surpresa, minha mãe estava casada há algum tempo e era mãe de gêmeos. Ela exalava felicidade e não falou muito comigo, mas prometeu manter contato, se eu a considerasse tia, e não mãe. Meu pai por outro lado não foi encontrado, porém minha mãe informou que ele tinha se casado quatro anos antes, e que o mesmo tinha uma filha da minha idade.
  Um soco no meu estômago.
  Acredito que foi nesse dia que tudo o que eu idealizei caiu por vez, quando vi que, para os meus pais, eu tinha sido apenas algo que aconteceu em suas vidas e que facilmente foi descartada por eles como um brinquedo sem importância. O que aconteceu, fez eu ser grata a minha avó, por tudo o que ela fez por mim. Dona Camélia não tinha obrigações em me criar, muito menos me proporcionar educação, mas ela foi a única que esteve ao meu lado até hoje. Porém apesar de eu ser extremamente grata à minha avó, também virei um pouco rebelde depois de descobrir que meus pais não ligavam para mim. Na minha mente, ser uma pessoa correta em todos os aspectos faria com que meus pais voltassem para casa, mas, depois de tudo o que aconteceu, resolvi me rebelar e ser eu mesma. Vamos lá, eu nunca fui muito sortuda, e o peso do abandono que eu carregava em meu peito parecia nunca ser suprido pelo amor incondicional da minha avó.
  — Eu sei que essa notícia é chocante, null. — Eu havia sido chamada para a sala do diretor, crente que eu tinha feito alguma coisa fora dos padrões, mas nunca, nem um milhão de vezes eu poderia imaginar o real motivo de estar naquela sala. — Mas você precisa ser forte. — Suas palavras eram transmitidas em tom de conforto, mas pareciam apenas um zunido passando pelos meus ouvidos. Sinto muito, sua avó faleceu. Essas palavras ecoavam em minha mente sem parar.
  — Não me peça para ser forte. — Minha voz sai um pouco trêmula, deixando claro a minha vulnerabilidade. Eu não sabia o que sentir, e muito menos conseguia chorar, era como se eu estivesse presa em um pesadelo.
  — Tomei a liberdade de ligar para a pessoa mais próxima da sua lista de contato. — Ele parecia estar olhando minha ficha de registro naquele momento. — Infelizmente nenhum parente sanguíneo, além da sua avó está registrado. — Sr. Watson não parecia muito feliz. — Então entramos em contato com Dorothy, e ela irá buscá-la. — Tudo parecia estar passando em câmera lenta ao meu redor, a voz do diretor era quase robótica para eu entender, mas eu sabia que isso era apenas meu cérebro tentando absorver todas as informações de uma única vez.
  — Sabe me dizer se ela chegou a ir para o hospital? — Minha voz quebra e automaticamente olho para o chão.
  — Desculpe, null. Por eu não ser da família, não tive maiores informações. — OIho brevemente para ele e logo abaixo minha cabeça, mexendo em uma pelezinha que estava levantada em minha unha.
  — Tudo bem. — Solto um suspiro. Eu não sabia o que seria de mim a partir de hoje, minha avó sempre esteve ao meu lado durante esses anos, ela era minha família, e agora eu não tinha mais ninguém.
  Não sei quanto tempo passou, mas acredito que o Sr. Watson tenha me deixado sozinha naquela sala, imersa em pensamentos, pois, depois de um bom tempo, sinto uma mão pousar suavemente em meu ombro, fazendo com que eu me levantasse rapidamente, desconfiada.
  — null! — Dorothy e eu éramos as únicas naquela sala, seu rosto encharcado por lágrimas. Lágrimas essas que me fizeram sentir inveja, visto que eu não tinha derramado nem uma gota até o momento. — Sinto muito. — Suas palavras eram carregadas de sentimentos, e eu apenas a encaro, sem falar muita coisa.
  — Ainda não consigo acreditar… Minha avó… — Novamente minha voz se quebra, e tenho que pigarrear para que ela não volte a falhar.
  — Eu sei, meu bem. — Dorothy parecia não estar me contando tudo o que estava acontecendo, ou seja, ela acaba me deixando um pouco apreensiva.
  — O que será de mim? — Apesar da apreensão, não deixo de comentar com ela uma das minhas maiores preocupações e sinto Dorothy congelar em seu lugar.
  — Meu bem, agora que sua avó se foi, eles entraram em contato com o seu pai. — Paraliso. — Ele está vindo fazer a liberação do corpo, visto que você é menor de idade e não pode fazer isso.
  Meu pai. Eu tinha uma vaga lembrança dele, na realidade de uma foto que eu vi dele nas redes sociais, sua conta era privada, então eu tinha mandado uma solicitação de amizade para ele, que foi gentilmente recusada, ou seja, além da foto que eu tenho dele quando ele tinha uns dezessete anos, eu tinha uma foto de perfil de uma rede social com sua idade atual.
  — Não acho que ele realmente se importe. — Minha voz era quase inaudível, inflada pela amargura que eu sentia ao lembrar que ele existia.
  Ainda era impossível assimilar. Minha avó. A pessoa que me criou, que me viu crescer, já não estava mais nesse mundo. Parecia surreal o que estava acontecendo na minha vida, e minha mente não parava de trabalhar. Pensamentos a mil. Uma parte de mim ainda esperava que as pessoas ao meu redor recebessem uma ligação falando que tinha sido um engano, e que minha avó estava viva, e bem. Mas, por mais que eu quisesse que tudo não passasse de uma brincadeira de mal gosto, a ficha estava caindo. A data de hoje ficaria para sempre marcada em meu coração, manchada como uma memória de algo que jamais deveria acontecer, mesmo que o dia “D” chegasse para todos. Eu não estava preparada.
  Culpa é o que eu sinto, eu deveria ter percebido que algo não estava certo. Talvez se eu não tivesse acordado tarde, se eu não tivesse pulado o café da manhã, talvez, só talvez ela ainda estivesse viva.
  A morte da minha avó poderia ter sido evitada.
  A culpa era minha.
  — null, com o falecimento da sua avó, muita coisa mudou. — Prendo minha respiração, tentando entender onde Dorothy queria chegar com isso.
  — Claro que as coisas mudaram, agora sou eu contra o mundo. — Nada do que ela falasse iria fazer sentido nesse momento.
  — Acho que você não entendeu, seu pai será seu tutor legal até você completar dezoito anos. — Não fazia sentido uma pessoa que nunca se importou com você, e com a própria mãe aparecer de repente como se fosse o salvador da pátria. Pra mim ele não merecia meu respeito, não quando ele deixou tudo para trás e nunca se importou com as consequências dos seus atos.
  Como as coisas eram injustas, não é mesmo? Como que a justiça poderia confiar em um homem que nunca teve contato com a sua filha? Não era mais fácil eles darem a minha guarda para alguém que eu conhecia? E que convivia?
  — Dorothy… — As coisas não faziam sentido naquele momento. Eu não conseguia raciocinar e por conta disso eu não conseguia ser racional.
  — Apesar de tudo, Axel é seu pai. — Ela sorri para mim em meio às lágrimas. — Deixe que ele fale o que irá acontecer a seguir. — Dorothy afaga meus ombros. — Vamos para casa. — Ao ouvir essas palavras, meu coração se contrai ligeiramente.
  Casa.
  Eu não tinha mais uma casa.
  Nunca mais sentiria o conforto, ou o cheiro da minha avó novamente e saber disso, me matava internamente.
  Saindo da sala da diretoria, caminho silenciosamente ao lado de Dorothy. Meu celular não parava de vibrar, sinal de que as pessoas já estavam cientes sobre o falecimento da minha avó, porém, apesar de suas boas intenções em me dar os pêsames, eu não queria falar com ninguém e muito menos lidar com a morte da minha avó naquele momento. Entrar no carro de Dorothy, por exemplo, tinha sido um momento traumático, como a simples ideia de ir para minha casa, algo que eu amava fazer, passou a ser aterrorizador? Que tipo de ambiente eu encontraria ao atravessar as portas de um lar harmonioso? Era possível eu não me sentir confortável em um local que eu costumava viver? Talvez meu maior temor é chegar em casa e minha ficha finalmente cair, esse era meu lar, mas antes dele ser meu e da minha avó, ele era só dela. Aquele local era um reduto de memórias que ela construiu ao longo dos anos, minha avó era a luz da nossa casa, e agora, como seria? Meu pai jamais abandonaria sua casa, e muito menos sua família para ficar comigo nesta cidade.
  — null? — A voz de Dorothy me puxa para a realidade, e percebo que estamos paradas em frente à minha casa. — Chegamos. — A observo tirando seu cinto de segurança e aguardando eu fazer o mesmo.
  — Você irá ficar comigo até alguém chegar? — Eu tinha uma pequena esperança de que ela fosse ficar ao meu lado, pelo menos até meu pai chegar.
  — Sinto muito, meu bem. — Começo a murchar lentamente. — Eu tenho que resolver algumas questões que Axel pediu. — Uma parte de mim queria ser mesquinha e pedir para Dorothy ficar ao meu lado, mas eu não podia usar as pessoas a meu favor. — Tudo bem ficar sozinha?
  — Sim… — Mesmo com o coração na mão e sentindo a necessidade de ter alguém ao meu lado, engulo esse sentimento, afinal ninguém tinha obrigação de ficar.
  — E, null… se por acaso seu pai chegar antes de qualquer pessoa, você consegue ser boa para ele? — Fecho meus olhos com força, reprimindo qualquer sentimento.
  — Não posso garantir nada.
  A atitude de Dorothy é um tanto quanto indelicada. Era ultrajante ela me pedir para ser uma boa pessoa para o meu “pai”. Talvez as pessoas devessem ser mais cautelosas com suas palavras e compreensivas. Minha vida toda foi eu e minha avó, e não tinha como, de uma hora para outra, aceitar uma pessoa completamente estranha.
  Ao entrar em casa, sou surpreendida pelo cheiro familiar da comida da minha avó. Algo tão simples, que sempre me trouxe conforto, agora parecia me ferir profundamente. Sem perceber, meus pés percorrem o curto caminho até a nossa cozinha, como se quisesse encontrá-la como sempre, parada em frente ao fogão, fazendo algo gostoso para comermos. Mas, o cenário que encontro é totalmente diferente. Alguns itens de uso diário estavam espalhados pela cozinha, representando o que tinha acontecido anteriormente, minha avó jamais deixaria as coisas desorganizadas dessa maneira. De repente, ao olhar para essa cena, minha boca seca de repente, e um aperto no coração surge, sinal de que as lágrimas em algum momento cairiam.
  Porém nada vem.
  Estou seca.
  Vazia.
  Agora, em casa, a verdade que eu recusava aceitar me atinge com extrema brutalidade. Minha avó não vai voltar, ela morreu. O que estava feito, estava feito. Eu teria que aceitar que nunca mais me sentaria ao seu lado em um domingo à tarde para assistir TV enquanto comíamos morango, ou que brigaríamos pelo controle remoto novamente. A pessoa que sempre foi meu porto seguro, não estaria mais ao meu lado para me ver indo para faculdade, nunca iria ver a família que irei construir, ou estar ao lado dos filhos que escolhi ter.
  A pessoa que eu amei durante toda a minha vida não estava mais ao meu lado.
  Eu perdi minha avó.


  N/a: Olha eu aqui de novo! Agora com uma história original para vocês.
  Espero que gostem de “Entre dois mundos”. Para ser bem sincera, matutei por umas boas semanas o título dessa nova história, pois ela foi escrita lá em 2016/2017 e o título dela uma hora foi “Malia”, enquanto ainda era apenas um doc, e depois “Trent - Série Baxter” quando finalizei a história e transformei ela em PDF.
  Eu tenho um carinho imenso por essa história, ela foi a segunda história que eu finalizei em 2017, porém arquivei ela e nunca mais mexi. De uns tempos para cá, resolvi reorganizar todas as minhas histórias em ordem cronológica, e resolvi dar uma chance para ela.



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