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Ideia #085

Doada por Giu Viana

// A Ideia

E se em um mundo fantástico você fosse a diferente? A ridícula, a renegada, a vergonha da família? Até que por pura diversão do divino você é posta em uma missão para salvar à todos acompanhada de um dos melhores de sua geração. Rude, ignorante, essa seriam algumas de suas características caso uma delas não fosse saber fingir e mentir muito bem. Ele esconde um segredo que caso não seja solucionado irá colocar um fim em seus dias de glória e trará o bem só para você. Agora você tem uma escolha salva-lo de sua maldição ou ser o novo orgulho da família.


// Sugestões

--

// Notas

Qualquer dúvida ou ajuda é só me falar que adorarei ajudar 🙂




Cristais de Urânio – O Despertar

Escrito por Fe Camilo

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Prólogo

  Em 2050 o mundo se encaminhava para um caos cada vez mais generalizado. O aquecimento global causou uma catástrofe ambiental que reduziu drasticamente a produção de alimentos. Os países subdesenvolvidos foram os primeiros a sucumbir, populações inteiras morreram de fome ou em decorrência das guerras civis que aumentaram junto com as crises econômicas desses países; os poucos sobreviventes foram os que migraram.
  Os países em desenvolvimento foram os próximos, a biodiversidade se tornou praticamente inexistente, rios inteiros foram poluídos ou secaram e as secas incessantes impediam as plantações. Além disso, as guerras químicas e biológicas entre as grandes potências desencadearam constantes pandemias e epidemias que se espalharam pelo mundo, matando milhões de pessoas e afetando – principalmente – os países em desenvolvimento. Um processo migratório acelerado se iniciou e levou à uma superpopulação de países desenvolvidos.
  Por fim, como se todas as catástrofes já não fossem o suficiente, o desespero por sobreviver ainda que às custas de outras vidas deu início à uma guerra cibernética feroz para destruir outros países economicamente e assim usurpar seus recursos naturais que ainda restavam.
  Em meados de 2060 a escassez era tamanha que rações foram criadas em laboratório para manter as pessoas vivas por mais tempo. A tecnologia deixou de avançar, pois já não havia mão de obra e nem acesso fácil aos materiais necessários para produção em massa. As pessoas continuavam a morrer com novas doenças autoimunes que sequer davam tempo de ser estudadas.
  Porém, o que de fato determinou o que se acreditou ser o fim da humanidade foi o fato de que a infertilidade passou a ser a norma e poucos bebês vingavam no ventre de suas mães. A partir de 2065 não houve mais registros de recém-nascidos. Os seres humanos finalmente pareceram entender que o fim estava próximo e muitas seitas passaram a induzir centenas de pessoas a se suicidarem.
  Em 2075, quando 93% do mundo se tornara inabitável, os 7% restantes se encontravam concentrados nos lugares menos afetados pelas mudanças climáticas à oeste da Europa e no continente australiano. Nesse ano, foi registrado o nascimento de um bebê pela primeira vez em uma década, e alguns outros passaram a nascer depois dele.
  Esse fenômeno passou a chamar a atenção de cientistas, os quais acreditavam que a vida humana na Terra estava chegando ao fim. O acontecimento chamou atenção também de Marcel Leblanc, um bilionário cristão que tomou para si a obrigação de manter a humanidade vida através dessas crianças nascidas. Ele passa então a sequestrar todos os bebês e os leva para uma ilha privada no Oceano Pacífico a qual denomina ‘Blanc’, e crê ser a chance de iniciar uma nova população com os “escolhidos de Deus”.

“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal; dos que dizem que as trevas são luz e a luz trevas.” (Isaías, 5:20)

CAPÍTULO 1

  Lancei a escova sobre a penteadeira, desistindo inteiramente de tentar domar meus cabelos rebeldes. Eu já deveria ter me acostumado com o fato de que eles tinham vontade própria e não havia sentido algum em tentar ir contra sua natureza. Peguei a minha mochila sobre a cama e me certifiquei de que tinha tudo que precisava antes de me encaminhar até a porta e ali encostar meu ouvido, procurando distinguir as vozes do lado de fora.
  Aguardei impacientemente enquanto minha família terminava seu café da manhã, ao mesmo tempo que planejavam o restante do dia. Eles tinham uma espécie de ritual matinal que consistia em se sentarem todos à mesa e fazer as projeções de como seria o dia perfeito que teriam pela frente, minha irmã voltaria a se gabar do quanto era destaque em sua turma de Magia Florestal e meu pai – seguindo à deixa – reforçaria que o Pastor Wilson a elogiava constantemente e acreditava que ela teria um futuro brilhante pela frente. Enquanto isso, minha rotina era esperar no meu quarto até que saíssem para o “Preito da Aurora” e eu pudesse transitar pela casa sem ter de encarar seus olhares de desprezo em minha direção. Por mais estranho que possa parecer, era o cenário perfeito: eu os ignorava, eles me ignoravam e assim podiam todos fingir que eu não existia.
  Assim que ouvi o barulho da porta se fechando e a chave girando, pude finalmente sair do meu quarto, me apressando para pegar uma maçã e jogar dentro da bolsa, e uma banana para comer no caminho. Aguardei alguns minutos até que eles tivessem descido as escadas em direção à vila para só então abrir uma fresta da porta e dar uma espiada do lado de fora: não havia ninguém por perto. Coloquei a mochila nas costas e saí apressadamente da casa, mas no momento que coloquei a chave para trancar a porta um choque percorreu meu braço e um grito involuntário saiu da minha boca.
  Mordendo o lábio para conter todos os impropérios que quase saíam da minha boca, me abaixei para pegar a chave que havia caído no mesmo momento que ouvi a risada irritante daquele que só poderia ter sido o responsável pelo choque elétrico que eu havia levado: , também conhecido como meu inferno particular. Virei em sua direção com os olhos cerrados desejando mais do que tudo ter uma pedra para jogar no meio da sua cara estúpida.
  - Você precisava ver sua cara! – disse ainda rindo, como se me insultar e/ou machucar fosse seu passatempo predileto. Respirei fundo para conter a vontade de empurrá-lo escada abaixo e segui meu caminho bufando sem lhe dar mais nenhum segundo do meu tempo, embora minha mente insistisse em conjurar todas as formas possíveis que eu poderia revidar e fazê-lo sofrer.
  No fundo, eu sabia que jamais as colocaria em prática. Primeiro, porque simplesmente não fazia parte da minha natureza machucar ninguém, ou ao menos é o que eu havia me convencido depois de anos me acostumando a ser tratada dessa maneira. Segundo, porque eu não tinha o menor interesse de ser lançada ao mar depois de atacar o queridinho da vila novamente, aquele que todos os meninos queriam ser e todas as meninas queriam beijar.
  Ouvi seus passos atrás de mim, mas preferi manter-me focada em caminhar pela passagem que levava ao fundo da fileira de casas, me enfiando com facilidade no pequeno espaço que havia entre as casas e o barranco de terra que formava um muro de uma ponta à outra. pareceu desistir de me seguir e aproveitei para continuar me esgueirando pelo caminho, já acostumada com meu hábito diário.
  Assim que me aproximei do fundo da última casa, me pendurei na janela que ali havia e consegui impulso o suficiente para me lançar em uma das pedras que protuberavam do barranco, me esforçando para me segurar e continuar a escalada até o topo. Respirei aliviada ao me encontrar lá em cima, voltando a caminhar decidida até chegar no Cume da Bela Vista, de onde poderia ver a beleza do mar infindo à minha frente de um lado e a vila inteira do outro.
  Inspirei profundamente, fechando meus olhos e aproveitando a sensação de bem-estar que me envolvia, a brisa do mar adentrando minhas narinas. Aquele era meu lugar favorito em toda a ilha, aliás meu único lugar. O Cume havia sido muito popular há três décadas - bem antes de eu nascer - e as pessoas costumavam utilizar o local como um campo de treinamento até que um adolescente prodígio caiu lá de cima de maneira inexplicável e morreu. Desde então, o lugar foi apelidado de Cume da Morte e ninguém mais se atrevia a subir ali, preocupados demais em arriscar suas vidas preciosas, o que fazia ser o espaço perfeito para eu passar meus dias sem ser incomodada.
  Me sentei à sombra de uma árvore enquanto devorava a banana que havia trazido comigo, observando a vila abaixo. Encontrei facilmente os cabelos loiros de brilhando sob a luz do sol, ele parecia extremamente concentrado mexendo em algo que eu não conseguia enxergar dentro da sua mochila, o rosto sério e preocupado era bem atípico na sua feição geralmente pretensiosa. sempre foi extremamente talentoso, arrogante, metido a sabichão e – sendo bem honesta – cruel. Fazia questão de rebaixar a todos na sala para se colocar em evidência, como se a única maneira de mostrar o quão incrível era fosse fazendo todos os outros se sentirem como ratos de laboratório, e é claro que eu era um alvo especial dos seus ataques.
  Cerrei os olhos ao notar uma luz estranha emanar de sua mochila e um sorriso vitorioso aparecer em seus olhos azuis, em seguida se levantando rapidamente e correndo para se juntar à multidão que se reunia dentro do templo para o Preito da Aurora. Franzi minha testa em confusão, mas logo dei de ombros, provavelmente ele estava praticando algo novo que aprendera na escola, não era como se eu tivesse algo a ver com o que quer que ele fizesse. Graças a ele fui banida inteiramente da escola quando – depois de não aguentar mais seus ataques constantes – joguei um tubo de ensaio na sua cara que causou um corte em seu rosto, deixando uma cicatriz praticamente imperceptível.
  Me ocupei em abrir a minha mochila e pegar os meus materiais dali de dentro enquanto ouvia o sino do templo, o Preito estava prestes a começar. Todos da vila eram obrigados a se reunir lá todas as manhãs para fazer orações coletivas e individuais, além de renovar seus votos de devoção à vila e ao Criador. Um rito que precisava se repetir também ao fim da tarde no Preito do Poente. Espalhei minhas tintas sobre a grama à minha frente e montei meu cavalete improvisado, encaixando a tela sobre ele.
  Ouvi o último sino badalar no templo e o silêncio completo envolver toda a ilha. Eu me lembrava desse momento, de uma das últimas vezes que havia comparecido ao Preito: os cinco minutos de silêncio e orações individuais. Me recordava da sensação que tive, de estar completamente perdida, como se não pertencesse à massa de pessoas que fechavam os olhos e mergulhavam em suas preces silenciosas. Suspirei, dando de ombros e balançando a cabeça para dispersar os pensamentos negativos. Aquilo havia sido há muito tempo, quando ainda havia esperança de que um dia eu seria um deles.
  Agora eu já sabia exatamente quem eu era, uma pária, uma estranha no ninho que havia nascido na ilha Blanc, na vila daqueles que foram escolhidos por Deus para serem os últimos sobreviventes na Terra com seus poderes divinos, mas sem ser um deles. Diferente de todas as outras pessoas que ali nasciam, eu não tinha poder algum, como se o próprio Criador tivesse decidido que eu não era digna de seus dons, eu não era uma escolhida.

Capítulo 2

  Com tudo preparado ao meu redor, me concentrei em pensar na minha personagem favorita, primeiro pensando em seus traços marcantes e depois nas vestimentas coloridas que sempre faziam parte do seu estilo. Sorrindo largamente, consegui visualizar perfeitamente a silhueta sentada em uma cadeira de balanço, uma senhora de cabelos grisalhos quase sempre escondidos por turbantes, os olhos gentis contemplando a neta que brinca com uma boneca ao chão enquanto ouve sua vó contar sobre o lugar perfeito que seria seu lar.
  Se havia uma coisa que me trazia paz e serenidade em meio aquele lugar era minha imaginação fértil. Eu adorava desenhar desde criança, mesmo com a mamãe insistindo que era um talento completamente inútil e se recusando a me ajudar com os materiais para minhas pinturas. Mas nada me fazia tão feliz quanto fechar meus olhos e imaginar lugares e pessoas que jamais teria a oportunidade de conhecer, porém me faziam sentir menos solitária e parte de um universo muito mais incrível.
  Comecei a desenhar os primeiros traços de Connie sentada na cadeira enquanto imaginava exatamente o que ela falava para sua neta “um dia vamos desfrutar das frutas mais frescas e respirar do ar mais puro, minha pequena”. Eu a imaginava desde que era muito pequena, e a essa altura do campeonato já sabia muito dos seus gostos e já conseguira criar até mesmo uma família completa. Connie era tão real para mim que eu conseguia até mesmo ouvir sua voz rouca e grave, mas com um toque de amabilidade. Eu já tinha tantas pinturas dela que era como uma coleção, e todas as vezes que a via sobre a tela tentava imaginar como seria se ela fosse real e vivesse ali na ilha.
  Em meus pensamentos, ela me aceitaria exatamente como eu sou, e me daria amor e carinho mesmo eu não tendo poder algum. Ela se surpreenderia com minhas criações e o melhor presente do mundo seria ter uma de minhas pinturas. Segui concentrada em minha arte, esquecendo completamente do lugar e pessoas que me cercavam enquanto mergulhava no universo de Connie, uma senhora forte e imponente, grande líder que cuidava do seu povo e lutava para levá-los ao caminho da libertação, rumo a um lugar onde pudessem viver felizes, sãos e salvos.
  Estava tão compenetrada no que fazia que sequer notei os passos em minha direção até que eles estavam exatamente ao meu lado. E foi então que me virei assustada, dando de cara com o rosto infantil e nervoso de Viola. Ela me ofereceu a lancheira que carregava enquanto seu olhar desviava para minha pintura.
  - Mamãe pediu que eu lhe trouxesse. – explicou, ainda que fosse algo tão habitual que não necessitava qualquer explicação. Sorri agradecida.
  - Obrigada, Viola. Agradeça sua mãe por mim. – ela apenas assentiu antes de se aproximar mais do desenho. – Uau! Ela parece tão real. Quem é ela?
  - Connie. – respondi deixando o pincel de lado para dar atenção ao que havia na lancheira e imediatamente sendo atingida pelo cheiro intenso e delicioso do bolo de banana com canela. - Como você consegue fazer isso?
  Viola raramente vinha me trazer algo, muito provavelmente porque tinha certo medo do local, assim como todos os outros na vila. Normalmente sua mãe, Donna, preferia pedir que Maya me trouxesse seus lanches deliciosos. Mas todas as vezes que Viola aparecia parecia impressionada e confusa por minhas pinturas.
  - Sei lá, deve ser prática, eu acho. Quando você se dedica muito à alguma coisa, você acaba sendo muito boa nela, não é? Ou ao menos é isso que a Srta. Hellen dizia. – respondi me lembrando da alfabetizadora da ilha.
  - Ela ainda fala isso. – Viola concordou dando uma risadinha. – Mas ninguém mais por aqui consegue fazer isso.
  - Isso é porque todos estão ocupados demais fazendo algo útil. – deixei escapar sem perceber, logo tentando emendar com algo menos autodepreciativo – Mas eu gosto.
  - Eu gosto também, é lindo. – elogiou antes de se despedir. Acenei e sorri antes de vê-la caminhar com concentração no caminho de volta. Sua casa ficava localizada exatamente ao fim da fileira de casas por onde me esgueirava para chegar ali, e era justamente nela que eu me impulsionava para escalar barranco acima. Sorri, me lembrando do rosto preocupado de Donna quando me notou fazendo isso pela primeira vez, e como ela tentou me dissuadir da ideia, reforçando o perigo do Cume da Morte.
  Donna e sua família eram um dos poucos que me tratavam decentemente na ilha. A verdade é que a maioria dos habitantes eram simplesmente indiferentes à minha existência, o que para mim era o suficiente, ou ao menos muito melhor do que ser tratada como insistia em fazer. Por ser a merendeira oficial da escola, ela passava a maior parte do tempo em casa, cozinhando, e foi assim que ela notou como eu estava sempre escalando o barrando e passando o dia todo lá em cima. Quando notou que eu passava horas sem me alimentar e insistia em passar meu tempo daquela maneira, ela começou a pedir que uma de suas filhas me trouxesse um lanche todos os dias.
  Eu era extremamente grata à ela e sua família, não somente porque ela praticamente impedia que eu caísse em desnutrição ou por se importar mais comigo do que meus próprios pais, mas também pela forma gentil como sempre me tratavam, fazendo questão de mostrar que não achavam que havia nada de errado comigo. Terminei de comer os pedaços de bolo enviados com um sorriso de orelha a orelha, Donna realmente tinha mãos de fada e tudo que ela fazia era excepcionalmente delicioso. Limpei as mãos com um pouco de água da minha garrafa e logo voltei a me concentrar no desenho, determinada a terminar bem antes do pôr do sol para que pudesse ter tempo de secar antes que eu precisasse voltar para casa.

  O sol já estava bem mais baixo no céu quando finalmente me senti satisfeita com o resultado da pintura, então organizei todas elas e limpei o pincel antes de esperar até que pudesse guardar também a pintura. Decidi me sentar um pouco mais acima no cume, disposta a descansar um pouco enquanto observava a bela mistura de cores que pintavam o céu enquanto a tarde caía. Abaixei o olhar para observar os movimentos no centro da ilha, sabendo que logo todos se reuniriam no templo novamente.
  Tentei imaginar o que acontecia no momento, meu pai deveria estar ajudando o Pastor Wilson no sermão que teriam mais tarde e minha mãe na colheita do dia. Emma, minha adorada irmã, muito provavelmente estava se exibindo na escola com sua tentativa costumeira de mostrar sua dedicação. Os cabelos claros de chamaram minha atenção novamente, passeando pela praça com Dove em seu encalço. Ela sorria como se estivesse tendo o melhor momento do mundo – o que eu acho bem difícil considerando a pessoa ao seu lado – e ele permanecia com a pose indiferente de sempre. Os dois eram definitivamente o casal perfeito: era o demônio em pessoa e Dove, a filha do pastor, era um lobo em pele de cordeiro.
  Vê-la com seu sorriso aparentemente doce era como um gatilho para mim, era inevitável lembrar de quando pensei que ela fosse minha amiga. Eu deveria ter desconfiado desde o início que justamente a filha do pastor – que deveria me detestar ainda mais do que meus pais – fosse ser tão amável comigo. Demorei a perceber que ela só estava me usando para se aproximar do , descobrindo todas as minhas fraquezas para bolarem as melhores formas de me torturar. Nunca teria imaginado não fosse quando ele conseguiu acesso às minhas tintas que eu havia conseguido fazer com tanto trabalho, ainda inexperiente nessa nova tarefa. Aquele foi um dos piores dias da minha vida: descobri que a pessoa que eu acreditava ser minha melhor amiga era uma traidora, fiquei tão revoltada com a situação a ponto de jogar aquele maldito tubo de ensaio no garoto e ser expulsa da escola e, o pior de tudo, perdi todas as minhas tintas e fiquei uma semana sem conseguir fazer minhas pinturas.
  Senti um aperto no peito ao me relembrar o momento e desviei meu olhar, me levantando e terminando de ajeitar as coisas para voltar para casa. A pior coisa de ser uma pária social é que você simplesmente não tem muitas escolhas, você se adapta à realidade oferecida pelos outros e espera que isso seja o suficiente. Desci pelo mesmo caminho da manhã e deixei a lancheira sobre o parapeito da janela de Donna como habitual, depois corri para minha casa aproveitando que estava distraído o suficiente para não tentar pregar outra peça em mim. O meu plano noturno era simples: comer algo e tomar banho antes que minha família retornasse para casa e me trancar em meu quarto noite adentro.


  Nota da Autora: Hey, hey, hey, hey! (voz de Smurf-lily) rs
  Eu sei que essa att foi curtinha e tudo está bem paradão, mas achei importante contextualizar alguns personagens para que vocês entendam um pouco mais dessa galerinha “do bem” e da vida da PP. A partir da próxima, as coisas começam a pegar fogo hehehehehehe.

Capítulo 3

  Era uma sensação estranha, como se eu estivesse presa dentro de um aquário observando a cena à minha frente: uma sala grande toda de metal e pessoas passavam apressadas para todos os lados como se estivessem se preparando para algo muito importante. Usavam roupas diferentes das nossas, coletes grossos que pareciam acolchoados como para resistir ao impacto, e carregavam uns troços enormes que não conseguia nomear, mas causavam uma sensação estranha só de olhar. Eu sabia que estava sonhando e até pensei em me beliscar para forçar meu corpo a acordar, mas não conseguia me movimentar. Captei algumas palavras que eram ditas entre murmúrios como “estamos prontos”, “estamos muito próximos” e “fiquem atentos!”. Não conseguia entender o motivo, mas meu coração palpitava em nervosismo e antecipação pelo que estava por vir, seja lá o que fosse. Comecei a reparar nas feições dos transeuntes e notei que alguns usavam algo que parecia de plástico na cabeça, e mesmo os que estavam com o rosto descoberto eram desconhecidos completos, mas todos se vestiam de maneira parecida com aqueles que imaginava para o universo de Connie. Ouvi alguns passos mais firmes e vozes altas parecendo em discussão e desviei meu olhar reparando em dois rostos extremamente familiares: os netos gêmeos de Connie! Eu os havia desenhado uma única vez, em uma pintura na qual retratava a celebração pelo aniversário da matriarca, me lembrava de desenhar Nathan com um sorriso leve e amigável e Scott com uma personalidade taciturna se mantendo distante do restante da família. Era a primeira vez que eu chegava a sonhar com meus personagens, por isso demorei alguns segundos para me atentar sobre o que discutiam até ouvir a fala final de Scott: “nós vamos conquistar aquela ilha nem que seja a última coisa que eu faça, não importa o que tenhamos que fazer”. Nathan observou seu irmão sair com uma feição preocupada e me senti impelida a falar novamente, mas uma dor de cabeça lancinante me fez fechar os olhos em agonia e quando os abri, estava finalmente acordada.

  Olhei ao meu redor reparando que tudo estava exatamente como deixei antes de cochilar. Havia comido o lanche que trouxera para o almoço e decidi me recostar no tronco da árvore para descansar um pouco, o desenho que havia começado a fazer antes de dormir permanecia intacto no papel. Suspirei ainda um tanto atordoada, reparando que a rotina da vila seguia como se nada tivesse acontecido, e ainda assim não conseguia dissipar a sensação de que algo mudara.
  Me forcei a me levantar, espreguiçando meu corpo e balançando os membros para relaxar os músculos tensos. Tomei um gole de água e me aproximei do desenho, reparando no rosto ansioso de Connie que não deixara minha mente desde que acordei pela manhã. Tentava resgatar a imagem exata para voltar ao trabalho quando ouvi antes mesmo de ver o barulho estranho que parecia de uma turbina, e me virei instantaneamente. Não sei ao certo o que vi, uma coisa grande de metal que saía de dentro da água e se elevava cada vez mais, conforme se aproximava da costa. Imediatamente passei a correr para chegar à vila, quase caindo ladeira abaixo e arranhando boa parte do braço esquerdo no processo.
  Me movimentei o mais rápido que pude até o templo, fazendo um estardalhaço assim que abri a porta de supetão e chamando atenção das poucas pessoas presentes, incluindo aquele que procurava, Pastor Wilson.
  – Pastor! – exclamei apressadamente, praticamente atropelando as palavras – tem um negócio gigante se aproximando da costa da ilha. Acho que são invasores!
  Todos me olharam como se eu estivesse completamente doida, mas o Pastor Wilson pareceu acreditar em mim, pois logo saiu detrás do púlpito e veio em minha direção dando ordens para que chamassem os especialistas.
  ¬¬– Onde você os viu? – me questionou assim que estava próximo o suficiente.
  ¬¬– Eles estão do outro lado do Cume da Morte. – respondi baixinho, me sentindo extremamente autoconsciente ao sentir seu olhar sério sobre mim.
  – Aida, Hunter, venham comigo. Monroe, leve os especialistas até o Cume o mais rápido possível. – só então notei que meu pai estava ali, mas ele sequer me deu atenção. Os observei caminhar à frente, incerta se deveria segui-los ou não, mas quando notei que pegariam o caminho mais longo para chegar ao local, me vi obrigada a exclamar.
  ¬– Há um caminho mais rápido! – me arrependi assim que o olhar irritado do meu pai caiu sobre mim, mas Monroe – marido de Donna – sorriu me encorajando a continuar. - No corredor por detrás das casas, há um barranco que dá acesso direto ao cume. Alguém com poderes de ar pode levar todos em um instante.
  Pastor Wilson assentiu em concordância e fez um gesto para que eu liderasse o caminho, e mesmo sob o olhar de desaprovação do meu pai os levei até o local mencionado. Monroe utilizou de seu poder para levitar a si, o pastor e meu pai, enquanto eu ficava lá embaixo incerta do que fazer. É claro que eles não me levariam junto, não é como se eu pudesse ser de grande ajuda.
  – Como isso é possível, pastor? Achei que a ilha fosse impenetrável, como conseguiram passar pela barreira? – ouvi a voz do meu pai questionar assim que puderam constatar que eu dissera a verdade.
  – Isso não importa agora, Hunter. Precisamos impedi-los antes que avancem. – o pastor retrucou antes de notar que eles se distanciavam de onde estava. Notei os passos apressados dos especialistas seguindo em minha direção, e rapidamente saí do caminho, me esgueirando pela parede até o meu local de escalada habitual enquanto os observava serem levitados por Melinda, a especialista em ar.
  Eu lembrava claramente do rosto de cada um deles, e de suas personalidades. Os especialistas eram os professores da escola que todos os jovens frequentavam desde a tenra idade, eles eram chamados assim por terem dedicado suas vidas ao conhecimento acadêmico, tendo assim maior propriedade para propagar os ensinamentos necessários. Cada criança manifestava afinidade para algum elemento nos primeiros anos de vida, e assim eram direcionados aos cuidados de um especialista daquele elemento e treinavam até os dezessete anos, quando precisavam decidir como contribuiriam para a manutenção da vila. Mesmo não tendo manifestado afinidade por elemento algum, havia tido a permissão de frequentar a escola ao menos para entender o funcionamento de nossa sociedade e ter alguma noção de como poderia ser útil no futuro, porém desde o meu banimento eu havia sido taxada categoricamente como inútil.
  Consegui ficar parada em agonia pelo total de três minutos antes de começar a escalar barranco acima, curiosa demais para ver o que se desenrolava. Para minha surpresa não havia ninguém no cume, então corri até a ponta e observei em choque enquanto eles tentavam combater os invasores. Tudo acontecia tão rápido que era difícil acompanhar cada movimento, mas era perceptível que o nosso lado estava em menor número. Consegui contar ao menos trinta deles, ao menos quinze com capacetes, coletes e aqueles objetos longos em mãos que não conseguia nomear, mas logo entendi para que serviam: do buraco que havia ao fim do objeto saia o que parecia uma pedra super-rápida. Pastor Wilson foi o primeiro a cair ao ser atingido por uma dessas “pedras”, e logo em seguida Monroe também caía ao chão.
  Observei em choque e horror quando meu pai foi levitado por um deles e lançado contra o tronco de uma arma, em seguida uma corda flutuante voava em sua direção e se enrolava ao seu redor com um laço, o prendendo firmemente. Ele não parecia gravemente machucado, mas estava desacordado. Desviei minha atenção para os especialistas e notei que eles tentavam usar seus poderes, mas metade dos invasores pareciam ter poderes também e – para a surpresa de todos nós – eram muito mais rápidos e precisos em seus ataques. Orlando, o especialista em fogo, tentou lançar chama em um dos invasores, mas um vento absurdo o enviou de volta em sua direção e assim que o primeiro grito escapou seus lábios ao sentir a própria pele queimando; Norman estava ao seu lado o encharcando de água. Foi tempo de distração suficiente para serem atingidos pelas pedras velozes e tombarem ao chão.
  Agora sobravam apenas as mulheres e tentei manter a esperança ao notar que elas tinham um plano. Hellen, a especialista em terra e Audrey, a especialista em éter se juntaram e combinaram seus poderes fazendo com o que o chão tremesse abaixo dos invasores. Os que estavam com os objetos longos pareceram sofrer mais o impacto, tremendo como se tivessem levado um choque antes de caírem todos ao chão, desmaiados. Enquanto isso, Melinda corria na direção em que estava e levitava até o cume, seguindo flutuando até voltar à vila, provavelmente em busca de ajuda.
  Voltei meu olhar para a cena abaixo e arfei em choque ao notar que Hellen e Audrey estavam amarradas também, ambas ajoelhadas aos pés dos invasores que conversavam entre si, se organizando para o que viria a seguir, e foi então que reparei nas figuras com as quais havia sonhado mais cedo – Nathan e Scott – liderando o grupo. Não era possível. Como era possível que estivessem ali em carne e osso se eram simplesmente frutos da minha imaginação?
  Um grupo de dez outros invasores saíram de dentro do transporte em que chegaram, todos com os objetos longos, coletes e capacetes. Eles não perderam tempo em pegar os especialistas caídos e levá-los para dentro do veículo enquanto o restante do grupo se movimentava em direção ao cume. Olhei ao meu redor, procurando por um lugar para me esconder, mas eu sabia que não havia, então corri novamente pelo caminho em que havia subido, tentando tomar cuidado para não me machucar novamente.
  Assim que cheguei à vila notei a energia caótica do ambiente. Os líderes do conselho tomavam à frente se preparando para enfrentar os invasores enquanto as crianças e adolescentes eram levados ao templo, onde se isolariam até que os adultos resolvessem a situação. O medo era evidente no olhar de todos os presentes, muito provavelmente alertados por Melinda. Ninguém ali era apto a lutar, não quando vivíamos pacificamente uns com os outros, a possibilidade de invasão nunca sendo considerada. Notei a sombra acima de mim e percebi que os invasores já se encontravam ali, cogitei correr até o templo e me juntar aos outros jovens escondidos, mas as chances de conseguir tal feito eram ínfimas, então me escondi por detrás de uma das pilastras que separavam as casas uma das outras.
  Nathan e Scott permaneceram no topo do Cume, acompanhados dos que estavam com capacetes e os troços que atiravam pedras, os outros levitavam no ar e se preparavam para atacar. Bisbilhotei em direção ao centro da vila, reparando que os líderes do conselho mal tiveram a chance de realizar algum ataque quando foram lançados para dentro do chafariz gigante que ocupava boa parte do local, sendo forçados a mergulhar na água. Levei as duas mãos à minha boca para me impedir de fazer qualquer som enquanto observava horrorizada – junto aos outros moradores da ilha – enquanto eles lutavam para não morrerem afogados.
  – Scott, já chega, assim você irá matá-los. – ouvi Nathan argumentar com o irmão. Me escondi novamente por detrás da pilastra, atenta ao que falavam, talvez houvesse algo em suas falas que pudesse me dar qualquer insight sobre o que eram e o queriam.
  – Precisamos mostrar a eles que nós estamos no comando agora. Se eles nos temerem, sucumbirão mais facilmente. – contra-argumentou Scott, os olhos cerrados enquanto observava o terror que infringia na pequena população da ilha.
  Me esgueirei para analisar como as coisas estavam na praça central e reparei que todos permaneciam paralisados de medo. Os líderes perdiam as forças para lutar e seus corpos começavam a desistir da luta, e foi então que seus corpos foram levitados para fora da água e lançados no centro da vila para que todos os vissem se esforçando para recuperar o ar.
  ¬¬– Senhoras e senhores, considerem isso um aviso. – ouvi a voz de Scott reverberar por toda a vila. Olhei para cima, reparando que ele segurava um alto-falante nas mãos, e de repente a atenção de todos se concentrava nele. – Viemos em missão de paz. Ninguém foi gravemente ferido e assim pretendemos que continue, mas peço que não façam nada que possam se arrepender. A partir de agora, estamos tomando controle da ilha. Vocês devem seguir os nossos comandos e todos estão terminantemente proibidos de utilizar seus poderes. Por hora, sigam todos calmamente em direção ao templo e permaneçam lá sob vigia até segunda ordem.
  Por um segundo, imaginei que tudo se acalmaria, os moradores seguiriam as instruções dadas e logo teríamos respostas sobre o que de fato acontecia ali e o que os invasores pretendiam. Porém, no segundo seguinte notei Lewis – o pai de e um dos líderes do conselho que acabara de ser afogado – se rebelar em meio à multidão e lançar um objeto na direção de Scott, causando um corte em seu pescoço. Arfei em susto e imediatamente os olhos de Nathan se encontraram com os meus, me notando em meio ao meu esconderijo. O susto e medo de que me assolaram foi tamanho que imediatamente me lancei pela janela de uma das casas, sentindo o corte que havia feito mais cedo se intensificar e caindo de cara no chão. Tive apenas tempo de me esgueirar até a mesa e me esconder debaixo dela antes de ouvir o que pareciam ser as “pedras” lançadas dos objetos que os invasores carregavam.

CONTINUA...