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Ideia #22

Doada por Aura

Esta história terá 10 capítulos no total.

// A Ideia

Duas sociedade secretas que se odeiam profundamente. Os Corvos e as Harpias. No que parece uma brincadeira de cão e gato, tudo muda quando um poderoso inimigo se apresenta e agora eles precisam trabalhar juntos para impedi-lo. Mas isto é só uma distração, o verdadeiro vilão está dentro de uma das sociedades e ele quer controlar o livre arbítrio das pessoas, mas pra isso precisa encontrar a única pessoa que sabe sobre o artefato capaz disso: a protagonista.


// Sugestões

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// Notas

Inspirado em Romeu e Julieta e Assassin’s Creed. Enimies to Lovers, mas por favor, sem ser tóxico.




Corvos & Harpias

Doado por Aura
Escrito por vários autores

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Capítulo 1

Capítulo escrito por Lika.

  A universidade de Lynden não é uma das mais conhecidas no país, muito menos uma das mais frequentadas. É tampouco a primeira escolha de muitos. Mas para mim, ela sempre foi a única opção.
  Fundada em 1894, a universidade manteve-se impecavelmente original, tanto em sua estrutura quanto em seus segredos. Entre os tijolos escurecidos pela umidade de Washington, residem mistérios que apenas seletos alunos têm a oportunidade de desvendar.
  - !
  - Ah, pensando no diabo… - suspirei baixo, virando meus calcanhares para observar o garoto mais novo, que corria para me alcançar.
  Julien Hopper, filho de Casper e Juniper Hopper, herdeiro da empresa Hopper & Co. e o mais novo calouro da universidade de Lynden. Um perfil clássico, sem erros, e, portanto, meu novo afilhado.
  - Estive pensando o dia todo sobre o convite que você me fez ontem e bem…
  - Vou interrompê-lo por um momento, Hop. Preciso lembrá-lo de que as paredes têm ouvidos?
  - Tem razão - ele se calou rapidamente e seguiu ao meu lado.
  - Você tem período livre agora? Se importa de passar a tarde estudando comigo? - Questionei, sem esperar por uma resposta. Claro que ele concordaria.
  Caminhando a passos largos, fomos até o dormitório masculino, no prédio leste. Ao entrarmos na sala de convivência, os poucos alunos que estavam ali ergueram os olhos em minha direção e rapidamente reuniram seus pertences para deixar o recinto. Não demorou para que eu pudesse me acomodar em minha poltrona habitual. Hopper se sentou na cadeira ao lado e pigarreou:
  - Então, sobre o seu convite para o jantar formal de amanhã, terei de recusar. Não sei se você reparou, mas depois do desastre no último jogo de hockey, as pessoas desta universidade nem se dão ao trabalho de olhar para mim! Não quero ficar quatro horas dividindo o mesmo ambiente com aqueles que desejam minha cabeça em um prato de ouro.
  - Não seja tão dramático, Hop. Só se ganha ou se perde um jogo em time, não sozinho.
  - Falar é fácil…
  - Meu amigo... - Balancei a cabeça de leve, sentindo os fios escuros repousarem sob meus óculos, e me aproximei de Julien. - Pessoas importantes virão ao jantar de amanhã, especialmente para conhecê-lo. Devo lembrá-lo de que essas pessoas são muito mais relevantes do que jovens adultos que ainda preservam a mentalidade de ensino médio?
  - Não. Me recordo muito bem.
  - Então, deixe de lado esse medo leviano! Você mal irá se lembrar desse tal jogo de hockey quando os grandes magnatas de Seattle estiverem tomando drinks com você. De acordo?
  O garoto engoliu em seco e, após alguns momentos em silêncio, pareceu compreender o peso das palavras. Continuei meu argumento, preparando o famoso sorriso dos Harris:
  - Além do mais, você não estará só. Eu também serei obrigado a usar um terno por quatro horas. Se quiser, podemos sofrer em companhia.
  Julien relaxou os ombros e soltou um longo suspiro, concordando. Em seguida, seus olhos voltaram a brilhar, como se minhas palavras o tivessem mostrado seus desejos mais profundos.
  - Tem razão. Sabe, fico feliz de saber que você é meu padrinho e não o idiota do .
  - É, considere-se um homem de sorte, Hop. - Não pude deixar de sorrir, convencido. - Mas o que houve? O afilhado do já está pensando em desistir?
  - Bem que ele gostaria, mas Charlie tem um legado a carregar. Sinceramente, se eu estivesse na pele dele, não teria aguentado a tortura. Thomas deve ser o pior ser humano desta universidade!
  - Olha, você não está errado Hop, mas preciso fazer uma pequena correção. Existe sim alguém pior que Thomas . Ela se chama .

  "- é uma ? Não sabia que aquele brutamontes tinha uma irmã!
  - E ele não tem. - O mais velho desbloqueou o celular e mostrou uma foto para o amigo. - Ela é a prima de Thomas.
  - Nossa, é impossível imaginar que essa garota com olhos de boneca possa ser tão cruel quanto Thomas…
  - Pois é, acredite, Hop. pode ser muitas coisas, menos uma boneca inocente, como aparenta ser. Mas não se preocupe, ela não será seu problema por muito tempo. Nós dois nos formamos em maio."

  Um riso desdenhoso saiu de minha boca e minhas colegas de quarto trocaram olhares. , que estava sentada no tapete felpudo, fazendo as unhas, e mais próxima de mim, puxou um dos lados do meu fone de ouvido:
  - Algo interessante?
  - Só dois idiotas comentando sobre mim. Nada de novo, vindo dos Corvos.
  - Posso saber o motivo de você estar monitorando ? - espiou a tela, antes de voltar ao seu lugar. - Imagino que não seja somente para inflar seu ego.
  - Se ela precisasse disso, o que eu duvido muito, estaria ouvindo a conversa de outros garotos. - se juntou, deixando seu livro de lado. - Qual é a tarefa e quando vamos recebê-la?
  Mordi o lábio enquanto observava a imagem que a câmera, escondida em uma das prateleiras da sala de convivência do dormitório masculino, gravava. Por mais estranho que seja, observar os Corvos é uma atividade obrigatória e periódica - principalmente considerando que eles fazem o mesmo conosco.
  Mas nem sempre eu fui assim.
  Meu primeiro dia na faculdade foi um desastre: perdida em um campus pequeno, atrasada para a aula e pega de surpresa pela habitual chuva de Washington, estava prestes a mergulhar em lágrimas quando uma garota alta, de cachos bem definidos e postura impecável veio em minha direção. Ela carregava um grande guarda-chuva sob seu ombro e parecia desfilar a cada passo, como se seus movimentos fossem parte de uma dança. Não me recordo ao certo como nosso diálogo iniciou, mas lembro perfeitamente de ser enlaçada pela cadência de Rue Coleman e, principalmente, de não conseguir tirar os olhos de seu broche de Harpia, banhado em ouro e pendurado na lapela de seu blazer cinza.
  O resto é história.
  - Ainda não posso contar, mas digamos que está relacionado ao jantar de recepção dos calouros.
  - É uma resposta vaga, mas é uma resposta. - deu de ombros, parcialmente satisfeita.
  , e eu fomos recrutadas para as Harpias em nosso primeiro ano na universidade de Lynden. Nossa amizade foi instantânea e fazer parte da mesma sociedade secreta nos uniu ainda mais - sempre foi ótimo ter esse segredo em comum. Porém, devido ao sobrenome que carregamos, em nosso segundo ano na sociedade, fomos divididas em cargos, com uma hierarquia a ser seguida. Foi dessa forma que descobri a importância dos na universidade, no estado de Washington e onde quer que haja Corvos e Harpias de gerações anteriores.
  - Tudo bem, acho que terminei por hoje. - Fechei o computador, sentindo uma pontada de culpa. - Podemos ir até a cafeteria, conversar sobre assuntos menos importantes.
  - Como, por exemplo, o que vamos usar no jantar de amanhã? - bateu seus longos cílios pretos. - Se isso é parte da missão, então devemos nos vestir de forma adequada para tal ocasião.
  - Claro.
  - Ah, fala sério! - exclamou .
  Observei minhas melhores amigas por alguns instantes. sorria misteriosamente, com os lábios cor de pêssego e os olhos amendoados. Ela sabia de seu poder muito antes de se tornar uma Rapina - diferentemente de mim. Já me encarava, suas sobrancelhas grossas e bem delineadas erguidas, como se estudasse meus pensamentos. Um movimento típico de Celenas.
  Ser a líder das Rapinas exigia que eu mantivesse determinados assuntos em segredo, mas, apesar de tudo, minha maior lealdade era com as duas garotas sentadas à minha frente. Um leve movimento em meu lábio inferior fez sorrir, mostrando que ela havia decifrado o fluxo dos meus pensamentos:
  - Vamos, pode falar - ela incentivou. - Um segredo seu é um segredo nosso.
   mirou e em seguida se virou para mim, recitando a mesma frase. Esse era um costume nosso, um sinal de que podíamos confiar uma na outra.
  - Tudo bem. - Sorri, enigmática. - Aqui vai a dica. O artefato que estamos buscando há seis meses estará entre nós durante o evento.
   e suspiraram.
  - Pelo visto, não teremos que ir tão longe dessa vez para obtê-lo. - riu, satisfeita.

  Assim que me despedi de Hopper, ergui os olhos para um ponto específico da sala de convivência. Reluzindo atrás de um livro de história grega, encarei a lente da câmera usada pelas Harpias para nos vigiar. Era incrível como elas realmente acreditavam que nós não sabíamos da presença desse pequeno objeto em nosso recinto.
  Sem conseguir conter meu sorriso, peguei minha mochila e fui em direção ao único canto da sala onde a câmera não tinha visão. Decorando a parede de madeira escura, encarei o enorme tapete bordado com o símbolo da universidade. Discreto e muito eficiente, em minha humilde opinião.
  Me certifiquei de que estava sozinho e então puxei a decoração para o lado, revelando uma porta da mesma cor da parede, com um buraco circular. Rapidamente puxei meu relógio de bolso, unindo a face com um corvo entalhado no espaço da maçaneta. Assim que a porta cedeu ao meu toque, puxei o tapete de volta para o lugar, cobrindo meu corpo e a passagem secreta. Ao passar pelo batente, a porta se fechou com um clique. Liguei a lanterna do celular e desci as escadas de pedra tranquilamente. Quanto mais eu me afastava do mundo real, mais as vozes no final do corredor ficavam audíveis.
  - Amigos, vamos começar as apostas! Quantos de vocês acham que vamos faturar mais que as Harpias esse ano?
  - Com a nova diretoria, tenho total confiança. Aposto meu carro.
  - ? Você vai apostar seu G-Wagon?
  - Calma lá, eu não disse qual carro…
  - Pois eu tenho certeza de que elas serão muito mais competitivas esse ano. Sinto que vamos sofrer para conseguir os artefatos.
  - Quanto maior o desafio, melhor a recompensa - respondi alto, fazendo minha voz ecoar pelas paredes de pedra.
  Os seis Corvos presentes se viraram para me encarar, a maioria feliz em me ver, exceto pelo mais alto e forte de todos.
  - Thomas.
  - .
  Trocamos olhares frios. Para quebrar o clima, os burburinhos retomaram e , meu melhor amigo, veio em minha direção.
  - Soube que seu afilhado é promissor. - O loiro me puxou, nos afastando de Thomas. - Quando você ia me contar que conseguiu um herdeiro?
  - Assim que eu tivesse certeza de que ele aceitaria o convite. - Dei de ombros. - E o seu afilhado, qual o perfil dele?
  - Transferido de Harvard, filho único e cursando Jornalismo.
  - Mais um Arquivista para ajudá-lo, ? - sorri para o garoto que estava sentado à mesa, próximo de nós.
  - É o que me parece - ele respondeu animado, juntando-se à conversa. - Pelo currículo, será uma boa aquisição. Com as novas demandas, precisamos de mais Corvos nos bastidores. Sabem como é difícil encontrar peças-chave antes das Harpias? Aquela garota, , é um pé no saco.
  - Se vamos começar a citar nomes, gostaria de acrescentar o de . - passou a mão na nuca, claramente chateado. - Ela me deu uma surra na última missão em que nos encontramos. Mônaco, se não me engano. Sinto dores até hoje…
  - Nem me lembre desse dia - resmunguei desanimado, sendo acompanhado por e .
  Todos nós sofremos com essa missão.
  - Bem, mudando de assunto. Como estão os preparativos para o jantar? - perguntei.
   pigarreou e voltou a falar, enquanto colocava as mãos nos bolsos, procurando algo.
  - Todos os afilhados estão confirmados e os patronos também. Os antigos Corvos virão para a reunião após o jantar, que será realizada no salão nobre…
  - Mas o principal, é que o governador Peyton estará presente - interrompeu , finalmente encontrando o que precisava. - E ele estará usando o emblema de Guilherme I, dos Países Baixos.
   colocou um recorte de jornal em cima do tampo da mesa de mármore. A imagem mostrava um belo broche de prata, com linhas finas irradiando como um sol e que se uniam no centro, onde um enorme círculo destacava o símbolo do antigo rei: um corvo de asas abertas.
  - Esse artefato é datado de 1815 e estima-se que valha algo em torno de sessenta milhões de euros. - sorriu, orgulhoso.
  - Uau. - riu, incrédulo. - Fazia tempo que não recebíamos uma notícia dessas!
  - Mal posso esperar. - Falei, decorando cada detalhe do artefato. - Belo trabalho, garotos.

Capítulo 2

Capítulo escrito por Lika.

  Tradição é o principal pilar de uma sociedade e com as nossas não seria diferente. Todos os anos, durante o jantar de gala feito para receber os calouros, nós oficializamos a chegada de novos membros - suponho que os Corvos façam o mesmo, já que o evento é um belo pretexto para reunir novos, atuais e antigos integrantes de nossas sociedades secretas.
  A integração que fazemos com as Harpias recém-chegadas é simples: cada madrinha acompanha sua afilhada durante a noite, apresentando-a para a diretoria da sociedade - composta por alunas que se formaram no ano anterior - e para alumnis, as Harpias mais velhas, que decretam se a novata deve permanecer no grupo ou não.
  - Pode parecer assustador ouvindo dessa forma, mas prometo que, na realidade, é muito mais simples - falei, enquanto prendia o último grampo no penteado de Daisy.
  - Se você me escolheu, significa que tenho algo de especial… Só espero que as mais velhas vejam isso - ela sorriu, me observando no reflexo do espelho com certa idolatria.
  Coloquei uma última mecha de seu cabelo no lugar correto e me afastei da menina.
  - Vamos, está na hora - dei um sorriso mínimo e saí do quarto de Daisy.
   Dentre as coisas que Rue, minha madrinha, ensinou, a que mais me marcou foi essa: o distanciamento é a melhor forma de se manter a ordem. Uma líder deve ser acessível, quando necessário, mas não idolatrada. A devoção é poderosa, porém a decepção é ainda mais avassaladora.
  Apesar do meu silêncio, nossa caminhada até o salão de eventos não foi constrangedora, graças à presença de e sua afilhada, que - ainda bem - conversaram com Daisy pelo trajeto inteiro. Assim que entramos, vários olhares recaíram sobre nós e, em resposta, minha feição suavizou na forma como as pessoas gostam de me ver.
  - Aí está o sorriso que faz minhas noites valerem a pena! - a voz rouca de Ben chamou minha atenção. - Como vai, ?
  - Melhor agora - adocei a voz, encarando os olhos verdes do garoto. - E você, o que está fazendo aqui? Não imaginava vê-lo em um jantar formal, muito menos usando terno e gravata!
  Me fiz de desentendida e Ben mal percebeu. O homem afrouxou o nó do tecido ao redor de seu pescoço e deu de ombros:
  - Honestamente, essa não era a forma como eu gostaria de passar minha sexta-feira à noite, mas fui obrigado pelo meu pai. Supostamente, ele vai dar um grande discurso após o jantar e precisa da minha presença.
  - Seu pai? - franzi levemente as sobrancelhas.
  - Sim, meu pai é o governador Peyton - ele estufou o peito, orgulhoso.
  - Oh, como pude esquecer disso? - Inocentemente cobri minha boca. Ao meu lado, ria em silêncio, enquanto nossas afilhadas assistiam a cena atentamente. - De qualquer forma, foi muito bom revê-lo, Ben. Guarde uma dança para mim, sim?
  Ben assentiu rapidamente, me dando um abraço em seguida. Assim que nos separamos, fui com as outras garotas para a mesa de bebidas.
  - Nossa, você foi incrível! - a afilhada de sussurrou, impressionada.
  - não é nossa chefe por qualquer motivo - piscou para mim, bebericando seu Martini. - Vamos circular, parece que as mais velhas já chegaram.
  Segui o olhar de minha amiga, notando que várias das Harpias antigas estavam presentes, conversando umas com as outras. Percebi que o corpo de Daisy enrijeceu ao ouvir que o grande momento havia chegado e meu coração amoleceu por um breve instante. Decidi cruzar meu braço com o dela, pela primeira vez na noite, para nos guiar pelo caminho e a menina sorriu em agradecimento.
  - Confie em mim, você é especial e, se tudo der certo, será uma bela Rapina - sussurrei, para que somente a menina ouvisse.
  - Obrigada, - respondeu, entre um suspiro e outro.222

  Eu mal conseguia acreditar que Hop estava se saindo tão bem. O garoto era um talento nato, deveria ter o hábito de conversar com adultos desde o berço.
  - Não fazia ideia de que empresa de sua família também está envolvida com importação de vinhos! - Mark Watts, Corvo da turma de 98 e advogado de um dos maiores escritórios de Seattle, disse, surpreso, e brindou com Hopper.
  - Sim, senhor. Quando precisar de um Chardonnay de qualidade, pode me ligar - o garoto falou tranquilamente, mal se importando que uma garrafa vale duzentos dólares.
  - Ei, , bela escolha de afilhado - Mark olhou para mim, completamente satisfeito. - Vou comentar com os outros sobre Hopper. Se depender de mim, esse garoto já está dentro!
  - Fico feliz em ouvir isso, senhor Watts - ergui o meu copo em comemoração.
  Minha tarefa como padrinho estava feita, pelo menos por essa noite. Hopper se deu brilhantemente bem com todos, tanto com os antigos Corvos quanto com a diretoria.
  - Não disse que valeria a pena aparecer no evento? - bati meu ombro no dele, fazendo-o rir.
  - Foi muito melhor do que eu imaginava!
  - Estou orgulhoso de você, Hop, se saiu muito bem. Agora podemos aproveitar o resto do jantar - olhei ao redor, notando que a maioria dos convidados estava sentada em suas respectivas mesas, prontos para a refeição.
  Me virei para a mesa mais próxima de nós e olhei os tags com os nomes de cada pessoa, procurando nossos lugares marcados. O nome de Hop estava ali, mas, para minha surpresa, o meu não.
  - Aparentemente não aceitaram nosso pedido… - resmunguei, estranhando a disposição dos lugares.
  - Não se preocupe, . Eu vou sobreviver até o final da noite. Depois nos encontramos no salão nobre, que tal?
  Li novamente os nomes daquela mesa, percebendo que fora colocado ali, a duas cadeiras de Hopper. Suspirei, aceitando a situação, e assenti:
  - Nos vemos mais tarde. Qualquer problema, me ligue.
  - Pode deixar - ele sorriu, fazendo a covinha esquerda aparecer.
  Coloquei as mãos nos bolsos e saí andando pelo salão, à procura do meu nome. O lugar era espaçoso e estava muito bem decorado: mesas com toalha de linho branco, pratos de cerâmica novos, talheres de prata e taças de cristal. As paredes, que normalmente expunham os retratos dos antigos reitores, estavam livres para exaltar a beleza de sua arquitetura. Por fim, uma enorme pista de dança estava montada no centro, rodeada por músicos que tocavam uma harmonia de Alexandre Desplat - um cenário perfeitamente clássico, como toda cerimônia costumava ser.
  De longe, pude ver meu nome em uma das mesas próximas aos músicos. Fui em direção à ela, cortando o caminho pela pista de dança e, antes que eu pudesse chegar ao meu destino, uma mulher de vestido azul entrou na minha frente, colidindo com força contra meu corpo. Só não caímos na frente de todos presentes graças ao meu equilíbrio - uma benção!
  - Ei! - ela exclamou, grosseiramente. - Olhe por onde anda, idiota!
  - Como é? - falei, atordoado, ainda segurando a garota pelos braços. - Ah, mas é claro, só poderia ser você.
  Um gosto amargo surgiu em minha boca quando percebi quem era a pessoa que quase nos derrubou no chão. Rapidamente a soltei, sem me importar se ela se equilibraria por conta própria.
  A garota claramente estava nervosa, pois mal olhou para mim quando resmungou:
  - Sendo um cavalheiro como sempre, ? - sua voz soou sarcástica.
  - Se eu soubesse que era você, nem me daria o trabalho. - Puxei meu terno para baixo, arrumando-o. - Posso saber para que tanta pressa?
  - Obviamente isso não é da sua conta.
  - Só estou tentando criar um ambiente amigável por aqui, … Haja como um ser humano decente pelo menos uma vez em sua vida.
  - Isso é sua tentativa de ser amigável? - ela riu de forma anasalada. Antes que a garota pudesse completar sua resposta ácida, seu celular vibrou, indicando que uma mensagem havia chegado. A garota leu a notificação e rapidamente bloqueou a tela, não permitindo que eu desse uma olhada. - Cuide da sua vida, , ou vou forçá-lo a sair do meu caminho, assim como fiz em Mônaco.
  As lembranças das férias passadas me atingiram com força. havia me deixado inconsciente e abandonado no canto mais escuro do Casino de Monte Carlo, enquanto roubava de mim o artefato que disputamos na época.
  Apesar da vergonha, não me deixei abalar pela memória.
  Sem questionar, dei um passo para trás, abrindo espaço para que passasse e ela seguiu em frente, sem hesitar.
  Eu estava prestes a continuar o meu caminho, quando algo brilhante e pequeno chamou minha atenção. Caído no meio da pista de dança estava uma espécie de broche - um item nada comum, mas que para mim fez completo sentido.
  Me abaixei para pegar a réplica exata do emblema de Guilherme I, o artefato que os Corvos planejavam roubar nessa noite… E, pelo visto, as Harpias também.

  - Que ódio! - gritei, me apoiando na pia do banheiro. Eu estava sozinha, apenas meu reflexo me julgando. - Como pude ser tão burra?
  Encarei o espelho, observando minha aparência. Por fora, estava tudo perfeitamente belo: o vestido azul marcando as melhores partes do meu corpo, a maquiagem realçando meus olhos e o penteado sem um fio rebelde. Mas, por dentro, eu estava desmoronando.
  Fechei os olhos, tentando organizar meus pensamentos. Após o esbarrão em , eu perdi a peça chave que traria o sucesso para as Harpias nessa missão. E eu tenho certeza de que o item não passou despercebido pelo Corvo. Nesse momento, ele provavelmente está conversando com os outros membros da sua sociedade, arquitetando formas de roubar o artefato do governador antes de mim.
  Ignorando as batidas aceleradas do meu coração, fechei meus punhos com força ao redor da cerâmica fria da pia. Meu plano era tão simples… Eu só precisava flertar com Ben, esperar que ele me apresentasse para seu pai e então minhas mãos furtivas iriam trocar os broches sem que o homem percebesse. Seria sutil e executável se não fosse pelo fato de que eu perdi o objeto substituto.
  - Saia dessa, . Você não pode deixar aquele babaca com sorriso pretensioso vencer - falei em voz alta, tentando convencer a mim mesma. E com sucesso, pois, só de lembrar da forma como ele me tratou, senti o estômago embrulhar.
  Me ergui, engolindo em seco, e arrumei meu vestido. Esse artefato é um dos mais importantes - se não o único - dos últimos meses e se eu não posso tê-lo nesta noite, ninguém mais pode.
  Saindo a passos largos do banheiro, retornei ao salão e vasculhei todos os cantos à procura daquele garoto insuportável.
  Apoiado no balcão do bar, observava os convidados em silêncio. Rapidamente seus olhos repousaram em mim e, notando que eu estava marchando em sua direção, ele virou um gole de seu whisky e apoiou o copo vazio na bancada.
  Ao fundo, a música acelerou, passando de uma doce balada para tango. Sem falar nada, puxei para a pista de dança, colocando uma mão por trás de seu pescoço e a outra segurando firmemente a dele. não pareceu abalado e, para provar que também não estava de brincadeira, colocou a mão direita na base das minhas costas.
  - Você é uma mulher sem modos, não é mesmo? - resmungou, cinismo pesando em suas palavras. - Já é a segunda vez, só nesta noite, que nos encontramos desse jeito.
  - Você tem algo que me pertence, , e eu quero de volta - respondi, sem rodeios.
  O garoto sorriu ao escutar minha voz, mas o que realmente fez seus olhos brilharem foi a confirmação de que ele tinha algo importante e meu. Seguindo a música, o garoto nos guiou, dando passos cadenciados para frente.
  - Algo que lhe pertence? - se fez de desentendido, mas o sorriso ainda presente em seu rosto. - Não estou me lembrando…
  - Não seja infantil - estreitei os olhos. - Você sabe do que estou falando.
  - Se você está se referindo ao belo emblema de prata, que, como todos podem ver, está pendurado no bolso do terno do governador, então talvez eu saiba sim do que estamos discutindo.
   jogou meu corpo para trás, me segurando pelas costas, para que eu pudesse ter uma visão do governador, que estava de pé conversando com alguns professores. Reluzindo exatamente onde o garoto havia apontado, estava o broche do antigo monarca.
  Ao subir meu corpo, apertei com força o ombro de , fazendo-o ofegar.
  - Você está em desvantagem, , então é melhor desistir. - De surpresa, me rodou, fazendo meus cabelos esvoaçarem. - A derrota será menos vergonhosa dessa forma.
  - Ah, é? - Umedeci os lábios e notei que seus olhos foram direto para minha boca. Aproveitando seu momento de fraqueza, me aproximei de seu rosto e sussurrei: - Tem certeza?
  Interrompi os passos do homem e assumi o controle da dança. não pareceu se importar com isso, pois ainda mantinha sua concentração em meu rosto.
  Lentamente, desci meu olhar, do rosto de em direção a seu peito, e usei minha mão livre para acariciar seu corpo. Percebi que ele se enrijeceu ao sentir meu toque e fechou os olhos por poucos instantes - o suficiente para eu colocar minha mão na parte interna de seu paletó e pegar de volta a réplica do artefato.
  - Se isso é um jogo, - com os acordes finais da música, aproximei nossos rostos, até que as pontas dos narizes se tocassem -, então essa é a minha vitória.
  Deixei que minhas palavras tocassem os lábios de e então me afastei, dando passos para trás, para esconder o objeto reconquistado. manteve o contato visual por um bom tempo, seus olhos enevoados, até que - tarde demais - ele colocou a mão sob o lado esquerdo do peito, sentindo o vazio.
  Antes de sair do salão, não pude deixar de notar que um pequeno sorriso, muito diferente da marca registrada de , surgiu em seu rosto e isso fez meu coração, sutil e inadvertidamente, perder o compasso.

Capítulo 3

Capítulo escrito por Lika.

  Eu não iria deixar se safar tão facilmente. Admito, sua estratégia para recuperar a réplica do artefato foi eficiente e isso afetou levemente meu orgulho.
  Me encontrei com , que parecia exausto após apresentar seu afilhado para os antigos Corvos, e nos sentamos do lado de fora do salão de eventos. Ao ar livre, a noite estava em seus últimos momentos, o que significava que, logo, nós iríamos para a cerimônia de introdução dos novos membros.
  - Vi o pequeno show que você e aprontaram… Cuidado ao brincar com fogo, - falou, brincando com seu isqueiro.
  - Acredite em mim, foi ela quem começou.
  - Ah, isso não é novidade. Elas sempre provocam.
  Observei o campus, notando que algumas pessoas caminhavam pelos trechos iluminados pelos postes. A maioria parecia ir em direção à rua fora da universidade, dominada pelas fraternidades e irmandades que, provavelmente, estavam dando uma festa.
  - Às vezes sinto falta dessa vida - ele seguiu meu olhar, entendendo para onde meus pensamentos fugiram. - Ser um estudante comum, sem precisar me envolver com sociedades secretas e missões dadas por terceiros. Tem momentos em que me questiono se roubar itens valiosos vale a pena… Isso me faz especial? Me traz algum benefício?
  - Bem, as vantagens virão quando você se tornar um advogado ou quem sabe um político. No momento, podemos contar com o lucro que é dividido entre todos nós. Pelo menos é isso que a maioria dos Corvos pensam, quando decidem entrar na sociedade.
  - E você, o que pensou quando foi recrutado?
  - Para ser sincero, levei muito em conta a adrenalina - ri, sem graça. concordou comigo. - Privilégios vêm com o cargo, mas a verdadeira beleza de fazer parte de tudo isso está nas aventuras.
  - Viver como James Bond? É, posso concordar com isso.
  Nós dois rimos em silêncio. Fechei os olhos por alguns segundos, aproveitando a calmaria, mas então precisei voltar à realidade:
  - tem uma réplica do emblema de Guilherme I e ela planeja usá-lo como substituto, para que o governador não perceba o sumiço do verdadeiro artefato. Provavelmente ela está se preparando para pegar o objeto…
  - Então precisamos impedi-la - meu amigo me interrompeu, dizendo em voz alta o que eu estava pensando naquele exato momento.
  - Alguma ideia?
   mordeu o interior da bochecha, pensativo. Diferentemente de mim, ele era um Delta e por isso eu precisava de seu conselho - a força bruta é necessária em momentos como esse.
  - Podemos entrar em um conflito ou gerar um conflito - pensativo, o garoto chutou algumas pedras que estavam ao seu pé.
  - Criar um conflito para que o governador vá embora… É uma ideia interessante. Convenhamos, se nós não podemos ter o artefato, elas também não.
  - Já sei o que podemos fazer - levantou, com um sorriso maroto no rosto.
  Porém, antes que ele pudesse me contar seu plano, luzes vermelhas e azuis coloriram nossa visão e em seguida duas viaturas estacionaram na frente do prédio. Um policial saiu de um dos carros e veio em nossa direção, enquanto os outros rapidamente entraram, em direção ao evento.
  - Vocês são e Hawthorne? - o homem perguntou, colocando uma mão sob o coldre.
  - Somos - me levantei rapidamente e arrumei meu terno. - Aconteceu alguma coisa, senhor?
  - Preciso que vocês venham comigo para a delegacia.
  Senti o peso do olhar do meu amigo, mas mantive a atenção no homem fardado à minha frente. Em meu bolso, o celular vibrava. Era um péssimo momento para receber uma ligação, mas talvez aquele fosse um sinal de que algo muito errado estava acontecendo.
  - Não sei se entendi direito, senhor Frey - li o nome bordado na camisa do homem, tentando ser o mais cordial possível. - Por que o senhor precisa de nós?
  Antes que o policial pudesse explicar, os outros três oficiais saíram do prédio, trazendo consigo , , e - é claro - . Seguindo o grupo, vários dos convidados observavam a cena, curiosos.
  - Explicaremos tudo na delegacia, garotos. Agora vamos, por favor.
   limpou a garganta e abotoou seu terno. Ele seguiu as ordens e fez questão de ir na minha frente, me dando uma fração de segundos para olhar para a multidão e encontrar os olhos de Mark Watts, com quem havia conversado mais cedo. Nós precisaríamos de um advogado, mas mais ainda de um Corvo.

  - Vocês devem estar se perguntando o motivo de estarmos reunidos aqui, certo? Devem estar imaginando que houve algum engano…- Uma mulher, forte e alta, falava ao mesmo tempo que caminhava a passos lentos ao redor de nós.
  Estávamos em uma sala de interrogatório espaçosa, sentados em um círculo e um de costas para o outro e com algemas. Nas paredes, não havia nada além de câmeras e caixas de som. Sem espelhos falsos e impossibilitados de fazer contato visual com o outro.
  - Quem, em sã consciência, desconfiaria de um grupo de jovens seletos como vocês, não é mesmo? Pois bem, essas foram as perguntas que surgiram quando a Polícia de Lynden recebeu uma dica anônima sobre quem arquitetou os golpes e roubos milionários que ocorreram em nosso país e no exterior nos últimos meses.
  Minha reação natural seria fechar os olhos e respirar fundo, mas aqui, na sala de interrogatório, eu não poderia dar um sinal de fraqueza. A mulher - suponho que seja uma investigadora local - parou na frente do garoto ao meu lado, que ria em silêncio.
  - Algum problema senhor Hawthorne? - ela perguntou, sua voz era fria e sem um pingo de emoção.
  - Me desculpe, senhora…
  - Investigadora Olsen.
  - Me desculpe, investigadora Olsen - se corrigiu, com um tom de voz inocente e ao mesmo tempo seguro de si. - Mas a senhora não acha que tudo isso aqui é extremamente desrespeitoso? Nós não fizemos nada e estamos sendo tratados como criminosos.
  - Tenho que concordar com o garoto - se pronunciou. Pelo som de sua voz, percebi que ela estava do lado oposto do círculo. - Essas algemas estão me machucando.
  - Bem, esse é o protocolo. Só podemos retirar as algemas de vocês e liberá-los quando fizerem seu depoimento e sua inocência for provada…
  - Ou quando nosso advogado entrar em contato com vocês. - interrompeu a investigadora.
  Inevitavelmente, sorri ao ouvir aquilo. podia ser um completo idiota, mas não era burro. Ele tinha um instinto de sobrevivência tão forte quanto o meu.
  - E eu suponho que você tenha um belo advogado, não é mesmo, senhor ?
  - Evidentemente - ele respondeu e eu tenho certeza de que ele usou o seu famoso sorriso para finalizar sua fala.
  - Bem, antes que sejamos interrompidos, gostaria de dizer que crianças privilegiadas como vocês não são o primeiro perfil de criminosos que nos vem à mente, mas não significa que isso é impossível. Nós temos provas que condizem com a história que recebemos… Saibam que, se vocês cooperarem com a investigação, ainda podem ter o futuro brilhante que planejaram desde o momento em que nasceram.
  Ninguém abriu a boca. Todas as sociedades são secretas por um motivo - tanto os membros quanto os rivais se comprometem a manter o sigilo, visando a proteção desse sistema centenário. Uma chantagem como aquela não funcionaria, quando nós seis sabíamos que nossas sociedades nos protegeriam.
  Ficamos alguns minutos em silêncio, quando duas batidas ocas interromperam a investigadora:
  - Olsen, os advogados estão aqui - um policial falou atrás da porta.
  A mulher voltou a caminhar, parando na minha frente. Notei que ela tinha olheiras profundas, que não poderiam passar despercebidas. Sua roupa social e penteado eram bem feitos e seu salto alto de luxo. Ela não era uma oficial qualquer - deveria ter uma posição alta na hierarquia - o que significava que eles levaram à sério a informação anônima que receberam. Provavelmente começarão a nos investigar em breve.
  Meus pensamentos voltaram ao passado e lembrei de todas as missões que nós, Harpias, fizemos nos últimos meses. Não havia pontas soltas. Não deixamos vestígios para que a polícia ou qualquer civil nos denunciasse. Então o informante só poderia ser alguém de dentro de uma das sociedades.
  - Senhorita , tem algo a dizer?
  - No momento? Não senhora. Somente na presença de minha advogada.
  A mulher abriu um sorriso largo, como se esperasse que eu dissesse isso. Ela me encarou por um longo tempo e, relutante, saiu pela porta para conversar com nossos advogados.
  Finalmente pude soltar a respiração e chacoalhar o arrepio que subia em minha espinha.
  - Temos um traidor entre nós - falou primeiro, como se tivesse lido meus pensamentos.
  - Pensei na mesma coisa - concordou, levemente abalada. Ela não estava acostumada a entrar em campo. Seu treinamento não envolvia situações como a que nos encontrávamos agora. - Tudo aconteceu tão depressa…
  - Isso vai ser péssimo para nossa reputação - desabafou. - Espero que não tenham nos fotografado dentro da viatura.
  - , isso é o de menos - finalmente se pronunciou. - Mark vai limpar a nossa barra.
  - A nossa também? - arriscou e recebeu gargalhadas como resposta.
  - Até parece - implicou. - Você tem noção de quanto Mark Watts cobra por hora?
  - Eu não estava blefando quando falei sobre minha advogada. Tenho certeza que Rue nos ajudará, . - Eu cortei o barato dos Corvos. - Agora fiquem quietos. Podem estar nos ouvindo.
  - Ninguém está nos escutando, . - me respondeu grosseiramente. - Mas, infelizmente, estamos em uma encruzilhada.
  - O que quer dizer com isso? - perguntou.
  - A meu ver, temos duas opções: ou um grupo entrega o outro ou trabalhamos juntos.
  Virei o meu pescoço ao máximo e encarei , que se virou para me observar também. Diferentemente do que eu imaginei, o garoto não estava sentindo prazer em nos torturar com aquela ideia. Ele também estava sofrendo com isso.
  - Trabalhar juntos? Você está falando sério? - perguntei, ainda incrédula.
  - Ora, por que não? Temos mais neurônios que esses policiais e, juntos, possuímos inúmeros recursos. Podemos salvar nossa pele e ainda descobrir quem é o traidor entre nós.
  Engoli em seco e voltei a encarar a parede. A proposta dele não era ruim, mas os Corvos e as Harpias nunca trabalharam juntos. Sempre fomos rivais e estava em nosso sangue não gostar de garotos como .
  Porém, as duas sociedades realmente estavam em perigo. Se existe um informante dentro de um dos grupos, é apenas uma questão de tempo para que o impostor nos revele ao mundo. E com isso, é claro, virão as inúmeras prisões por crimes de colarinho branco.
  - Tudo bem. Podemos trabalhar juntos - respondi, ignorando os sons de e , que discordaram da minha decisão. - Mas precisamos discutir as regras dessa nova parceria.
  - Claro - respondeu, convencido.
  Antes que ele pudesse terminar de falar, Rue e um homem engravatado entraram na sala. Atrás deles, um oficial que segurava um molho de chaves foi na direção de , destrancando sua algema.
  - Vocês estão liberados, crianças - o homem engravatado, provavelmente o advogado dos Corvos, falou.
  - Vamos discutir os próximos passos com a investigadora Olsen - Rue completou, olhando para mim de forma afetuosa. - Voltem para a faculdade e descansem. Amanhã de manhã irei conversar com você, .
  - E eu com você, .
  Assim que o policial me liberou, respirei aliviada. Esperei os outros saírem da sala e, quando restou apenas Rue, fui até ela e a abracei. A mais velha deu dois tapinhas em minhas costas e me afastou:
  - Aqui não, . Vá para a faculdade. Te vejo amanhã - suas palavras eram duras, mas seu olhar não.
  Apertei a mão de minha antiga mentora, concordando com sua fala, e fui embora. Rue tinha razão, eu estava muito exposta na delegacia e qualquer movimento meu poderia se tornar uma arma contra todos nós…
  E falando em arma, subitamente me lembrei da réplica do emblema que eu estava prestes a roubar mais cedo. Antes de ser escoltada, eu havia escondido o objeto na barra de meu vestido. Evitei baixar meu olhar para onde o alfinete estava visível e caminhei como uma Rapina para fora daquele lugar - o que funcionou, pois nenhum policial perdeu um segundo olhando para o chão quando eu passei por eles.

  Eram quatro da manhã, mas, depois de uma noite como essa, seria impossível deitar em minha cama e dormir. e , por algum milagre, conseguiram esse feito. Os dois estavam debruçados sobre a mesa da sala de convivência, enquanto eu andava de um lado para o outro.
  Através da janela, notei que o campus estava deserto. Nem parecia que horas antes houve um jantar de recepção e a cerimônia de introdução dos novos Corvos - que acabou acontecendo sem nós três, pois a tradição não espera.
  Eu estava impaciente, mas me forcei a sentar no sofá em frente à lareira, que crepitava discretamente. Saber que você tem um alvo nas costas não é um sentimento muito agradável. De onde estava, olhei para o tapete que escondia a entrada para a caverna dos Corvos, mas resisti à tentação de entrar ali. Nós precisamos ter mais cuidado, agora que policiais e traidores estão entre nós.
  Ainda com o olhar viajando pela sala, lembrei da câmera que as Harpias usam para nos espionar. Talvez ela pudesse servir para algo. Fui até uma das estantes e peguei um caderno e uma caneta. Rabisquei com minha melhor letra e ergui o papel até a lente, na esperança de que também estivesse acordada.
  Não levou muito tempo para meu celular vibrar, indicando que eu havia recebido uma mensagem de texto de um número que não estava nos meus contatos.
  "O que você quer, ?", dizia a mensagem. Claramente, estava de olho em nós.
  "Precisamos discutir negócios", enviei de volta e aguardei a resposta.
  "Não podemos conversar por mensagem de texto. Nem telefonemas. Achei que isso fosse conhecimento básico"
  "Como você prefere conversar, então?"
  "Use a câmera"
  "E você me responde como? Telepatia?"
  "Com mensagens de sim ou não, idiota"

  Ela realmente me faria de bobo, erguendo o papel para a lente da câmera a cada cinco minutos?
  "Desculpe, foi grosseria da minha parte. Não quis te chamar de idiota, foi força do hábito"
  Sim, ela faria.
  Risquei no papel a seguinte pergunta: "Tem ideia de quem possa ser o informante?". Ergui a anotação para que ela pudesse ler e aguardei o celular vibrar.
  "Não"
  Mordi o lábio. Eu tampouco tinha ideia. Há anos vivemos em segredo, operando continuamente e sem deixar rastros. Não conseguia compreender o motivo, depois de tanto tempo de estabilidade, que levaria alguém a se rebelar e nos denunciar. Respirei fundo e escrevi no papel: "Nós realmente vamos trabalhar juntos para descobrir o impostor?".
  "Sim"
  Assenti, feliz por finalmente estarmos na mesma página. Olhei para a câmera, pensando na minha última pergunta para . Rabisquei o seguinte: "E vamos continuar fingindo que ainda nos odiamos para que o impostor não saiba que estamos atrás dele?".
  "Sim"
  Não pude conter meu sorriso e, logo, recebi outra mensagem de texto de :
  "Você só finge que me odeia? Pensava que era um sentimento verdadeiro…"
  Franzi o cenho, incerto de como responder aquilo. Me levantei e me aproximei da câmera. Em voz alta, decidi soltar a resposta ao ar. nunca saberia exatamente o que eu sentia, a menos que ela pudesse ler palavra por palavra saindo de meus lábios:
  - É claro que eu não te odeio de verdade. Isso seria impossível.

Capítulo 4

Capítulo escrito por Lika.

  Na manhã seguinte, fiz questão de ser a primeira pessoa na cafeteria. Escolhi a mesa mais afastada e comprei um café puro, tão quente que o vapor era visível à distância.
  Assim que alguns alunos entraram no local, arrumei minha postura e fiz questão de mostrar que a noite anterior não havia me abalado.
  Mesmo sentada no canto, todos me encararam descaradamente, mas, ao notar que nada havia mudado em mim, rapidamente deixaram de prestar atenção.
  Essa é uma das lições que aprendemos como Rapinas: em momentos de crise, nunca mostre ao mundo o que você realmente está sentindo.
  O sino da porta se fez audível quando Rue entrou na cafeteria. A mulher rapidamente vasculhou o recinto e trocou olhares comigo, satisfeita. Assim que ela se sentou em minha frente, empurrei levemente o pires e os olhos de Rue brilharam.
  - Você ainda se lembra do meu favorito.
  - Como eu poderia esquecer? - Sorri, timidamente.
  Apesar dela não ser mais a líder das Rapinas, Rue continuava tendo uma grande influência sobre mim.
  - Tenho muito orgulho de você, - a mulher bebericou o conteúdo de sua xícara. - Você lidou muito bem a situação ontem. E não estou falando apenas do que ocorreu na delegacia. Se não fosse por aquela interrupção inesperada, tenho certeza de que o artefato seria nosso.
  - Bem, tive uma grande professora - falei e Rue balançou a cabeça em negação, reprovando minha resposta. - Tudo bem, eu tenho um talento nato, também.
  A mulher riu melodicamente.
  - Isso soa muito melhor, - ela repousou a xícara na mesa e se aprumou. - Mas agora, tocando no assunto delicado, preciso passar informações jurídicas para você.
  - Estou ouvindo.
  - A investigadora Olsen está levando o caso à sério e, por isso, não vai desistir facilmente. Ela se limitou a dizer quais provas possui contra vocês e eu tenho confiança de que isso é um blefe. Sei que nenhuma Harpias deixa rastros, então esse não é o meu maior medo…
  - E qual é? - me curvei para frente, ansiosa.
  - Pela primeira vez, são os Corvos - Rue desdenhou. - O advogado deles, Mark, é muito bom. Mas talvez ele não seja suficiente para apagar o incêndio.
  - Eles deixaram algumas pontas soltas?
  - Quem dera se fosse apenas isso. Aparentemente, informações armazenadas no sistema dos Corvos foram vazadas e entregues diretamente para a polícia na carta anônima. Dentre elas, foram entregues planos de algumas missões, mas nada comprova que elas efetivamente tenham sido executadas.
  A mulher respirou fundo antes de voltar a falar:
  - Porém, com isso, o nome de vocês foi envolvido. Aqueles garotos tinham arquivos sobre cada uma de vocês.
  - Estavam montando nosso perfil? - Prendi a respiração, surpresa, mas logo me recompus. - E mesmo assim não nos venceram nas últimas missões. Patético.
  Rue assentiu, preocupada:
  - Isso é péssimo, . Não podemos deixar que eles arrastem vocês para o fundo do poço…
  - E o que nós podemos fazer para corrigir esse erro, que claramente não foi nosso? - Questionei, sentindo o corpo esquentar de raiva.
  - Mark e eu concordamos que precisamos orientá-los a manter um perfil mais discreto. Vocês serão afastados das atividades das sociedades, como forma de proteger os outros membros, e deverão participar de atividades universitárias para desviar a atenção dos investigadores. Vamos tentar convencê-los de que tudo foi uma grande brincadeira, um trote, por assim dizer.
  Precisei piscar algumas vezes, antes de assentir em concordância. Eu não conseguia acreditar que teria de ser afastada da sociedade - uma das coisas que eu mais gostava naquele lugar - por conta de uma falha de terceiros.
  Ao mesmo tempo, senti um soco no estômago ao lembrar que, com o afastamento, eu perderia a experiência de ser líder das Rapinas em meu último ano letivo.
  - Sei que essa não era a notícia que gostaria de escutar, mas, é a melhor que tenho a oferecer - Rue segurou minha mão, ao perceber que eu havia congelado, presa em meus pensamentos. - Como advogada, posso lhe assegurar que a polícia não possui provas substanciais para abrir um processo contra vocês.
  - Pelo menos estamos seguros… - sussurrei, ainda decepcionada.
  - E para se manter assim, precisam agir como jovens normais - Rue deu um leve sorriso. - Sei que é difícil sair assim, repentinamente, porém, em tempos de crise, não existem muitas opções.
  Assenti, em silêncio.
  Eu até podia ter concordado em trabalhar em equipe com na noite anterior, mas isso não significava que haveria paz entre nós. Pelo menos, não da minha parte.

  Mark havia feito uma reunião comigo, e e solicitado nosso afastamento temporário da sociedade. Também havia afirmado, relutantemente, que o motivo de todo o caos fora culpa dos Corvos.
  - O informante é um de nós - falou, incrédulo.
  Estávamos em nosso dormitório. deitado na cama e olhando para o teto, sentado na poltrona e alisando o cabelo e eu de pé, observando a janela.
  Realmente, foi um grande choque descobrir que o traidor era um Corvo e que nossas próprias informações foram usadas contra a sociedade. E contra as Harpias, também.
  - Tudo isso é uma grande piada - o loiro continuou a expressar seus pensamentos em voz alta. - Que palhaçada foi aquela?
  - Se você está se referindo ao pedido de Mark para nós frequentarmos festas e eventos universitários em nosso tempo afastados dos Corvos, você está completamente certo. - concordou, bufando. - Como ele pode esperar que nós vamos sentar e assistir o mundo desmoronar ao nosso redor?
  - E pior, ele quer que nosso espírito universitário seja aflorado. Como se isso fosse mostrar para a polícia que somos inocentes. - Completei, balançando a cabeça em negação. - É uma grande besteira.
  Ficamos em silêncio. Um sentimento estranho aflorou em mim, um misto de esclarecimento e rebeldia. Como líder dos Eloquentes, eu deveria acatar às ordens de um antigo Corvo, mas, se os líderes dos Deltas e Arquivistas concordassem comigo, talvez a ideia não fosse tão ruim.
  - Nós podemos seguir o conselho de Mark e ao mesmo tempo descobrir quem é o informante.
  - Mas ele disse que seríamos afastados da sociedade. - questionou, se levantando.
  - Porém, ele nunca disse que seríamos proibidos de continuar na ativa, usando apenas nossos próprios recursos
  - Realmente  - sorriu, concordando com meu raciocínio -, ele só aconselhou a não participar de atividades oficiais da sociedade. Nunca limitou missões feitas por apenas nós três.
  - Além disso, juntos, temos o necessário - me virei para observar meus amigos. - Um Arquivista, um Delta e um Eloquente.
  - E não esqueça do maior detalhe… - suspirou, perdendo o brilho no olhar. - Teremos a ajuda das Harpias também.

  - Você só pode estar de brincadeira comigo - resmungou, enquanto segurava um copo de raspadinha azul e usava o chapéu acolchoado em formato de cabeça de alce, o mascote da Universidade de Lynden. - Nós realmente precisamos ficar aqui por uma hora inteira?
  Estávamos em seis, subindo as escadas em direção ao estádio de hockey de Lynden. Ao nosso redor, vários alunos e torcedores usavam as cores da faculdade, animados pelo jogo que iniciaria em alguns minutos.
  - Isso é uma experiência universitária - respondeu. Ela usava uma enorme camiseta com o mascote estampado. -  E sei que há dois oficiais na arquibancada, então, sim, , vamos ficar aqui por uma hora.
  - Sobre o que vamos conversar durante esse tempo? - se sentou na primeira fileira, bem em frente ao painel que dava visão para o rinque.
  - Conversar? Por mim, podemos ficar em silêncio - respondeu, se sentando na ponta mais distante. Suas amigas ocuparam as cadeiras ao seu lado e eu peguei um lugar entre e .
  - Ótimo - respondi, sem olhar para a Harpia.
  O jogo estava prestes a começar de qualquer forma, então apenas cruzei os braços e esperei os jogadores iniciarem a partida.
  Vinte minutos se passaram e eu comecei sentir uma vibração nos bancos. Olhei para o lado e notei que vinham de , que tremia a perna. parecia igualmente incomodado, até que ele se esticou para olhar a garota e falou:
  - Pode parar com isso?
  - Esse silêncio está me matando e eu não entendo nada de hockey! Mal consigo enxergar a bola!
  - Disco, . É um disco! - elevou a voz.
  - Que seja. Vai me dizer que você não está com uma pulga atrás da orelha…
  - E por que eu estaria? - Ele franziu o cenho.
  - Pessoal, por favor, ajam normalmente. Os dois policiais a algumas fileiras atrás de nós estão nos observando - sussurrou.
  - Vocês não têm a menor ideia de quem pode ter vazado os dados? - ignorou o comentário da amiga e continuou a falar. - Claramente foi algum Corvo que não gosta de um dos três…
  Estudei as últimas palavras da garota. Eu também cheguei a essa mesma conclusão, enquanto repassava tudo que havia acontecido conosco, na madrugada do dia anterior. E apenas um Corvo me veio à mente.
  - Eu tenho um suspeito - falei, atraindo a atenção de todos. - Thomas McKale.
  Todos se viraram para observar a reação de , mas a menina não moveu um fio de cabelo ao ouvir meu palpite.
  - Quem diria! tem algo a dizer! - sarcástica, quebrou o silêncio. - E você tem algum fundamento para sua hipótese?
  - Bem, ele é um de nós e me odeia. Thomas têm acesso às informações arquivadas da sociedade e poderia muito bem ter feito algo do tipo…
  - Você realmente acha que Thomas prejudicaria a sua sociedade, sendo que a família dele tem um legado dentro dos Corvos? - pontuou, também defendendo a amiga. - E, mais importante ainda, você imagina que ele é tão egoísta a ponto de colocar em risco sua própria prima?
  - A resposta fácil é 'não' - falei, sem mudar o tom. Eu não daria a elas a satisfação de me ver admitindo estar errado. - Mas é a melhor que tenho até agora.
  - Talvez você tenha um ponto - finalmente se pronunciou, surpreendendo-nos com suas palavras.
  Me curvei para poder encarar a garota, que tinha os olhos vidrados no jogo. manteve sua postura, enquanto falou:
  - Somos primos, mas não necessariamente amigos. Atualmente temos uma relação cordial, mas nem sempre foi assim.
  Antes que ela pudesse continuar a história, o time de Lynden marcou um gol, finalizando a partida com um belo placar. e comemoraram, enquanto o resto de nós apenas se levantou para acompanhar a torcida ao redor.
  - Nossa missão de hoje está feita - falou, interrompendo abruptamente o fluxo de seus pensamentos. - Os dois policiais já devem ter reportado para a investigadora que fomos bons alunos. Podemos ir embora.
  - Espere… - falei acima do barulho da multidão, mas a garota não pareceu me ouvir.
   já havia dado as costas e ido em direção à saída. e trocaram olhares e foram atrás da amiga, sem se despedir de nós.
  - Sinto que tem algo de errado nessa história dos McKale - comentou.
  - Depois dessa, podemos ter certeza de que Thomas é nosso primeiro suspeito. Quando vamos começar a investigá-lo? - perguntou.
  - Amanhã - respondi, perdido em meus pensamentos.
  Saber que tem um passado obscuro com sua família fez meu estômago embrulhar. De alguma forma, meu instinto ansiava por protegê-la.

Capítulo 5

Capítulo escrito por Lika.

  Jogos fazem parte da vida de toda criança, mas, na casa dos , as brincadeiras eram levadas muito a sério.
  Judith , nossa bisavó, amava charadas e caça e - graças às atividades que propunha em toda reunião familiar - sua paixão foi passada para seus quatro bisnetos.
  Era nossa obrigação participar e desvendar os mistérios que a mais velha espalhava por sua mansão. Minha mãe e tias costumavam nos observar atentamente, como se os resultados da brincadeira significassem algo muito maior.
  A cada festa, apenas um de nós era vitorioso e os pontos eram continuamente somados. Apenas Judith poderia determinar o fim da competição.
  Nós éramos compostos por três garotos e uma garota. Os dois mais velhos, ao atingirem dezoito anos, desistiram de participar da corrida, juntos e durante a ceia de Natal. Me recordo claramente de como Judith passou a noite amargurada, mas, na manhã seguinte, apostou todas suas cartas em seus dois bisnetos mais novos - Thomas e eu. Foi nesta manhã, aos oito anos, que tive minha primeira vitória.
  Thomas, que nasceu dois meses antes de mim, sempre me tratou com inferioridade. Seus olhos verdes e bochechas cor de rosa - presentes em todos os homens da casa - não se assemelhavam nada comigo e isso lhe dava argumentos para inferir que eu não fazia parte da família.
  Eu realmente acreditava no que meu primo dizia sobre mim - até o momento em que o venci, no primeiro jogo em que apenas nós dois participamos.
  Desde então, Thomas se esforçou arduamente para ganhar os jogos, porém, todos os anos a vitória era minha. Nossa bisavó me parabenizava com doces e presentes, enquanto recebia Thomas com um olhar desapontado, como se ele fosse mais um de seus outros bisnetos.
  Com isso, a cada charada que eu decifrava, minha relação com Thomas esfriava - até que, um dia, sua inveja tomou conta de suas ações. As mãos de meu primo são fantasmas que ainda assombram a pele ao redor de meu pescoço. E, por uma ironia do destino, foi sua mãe quem permitiu que o ar voltasse aos meus pulmões.
  Depois desse dia, a família de meu primo se ausentou das reuniões anuais por anos a fio, retornando apenas quando a notícia do falecimento de Judith os alcançou.
  Na leitura da herança de nossa bisavó, os bens foram distribuídos igualmente entre os familiares, porém, dentre os bisnetos, eu recebi algo além do esperado: um broche de ouro em formato de uma ave, grande e majestosa.
  Acompanhando o presente, vinha uma carta com os seguintes dizeres:

  "Para minha doce ,
  tenho fé de que você será uma Rapina fenomenal.
  A melhor arma que você pode ter é si mesma
  -Sua bisavó, Judy”

  No fim do dia, Thomas veio se desculpar. Apesar dele ter ganhado músculos e altura, ele não se envergonhou e não escondeu seus sentimentos - e isso fez com que eu o perdoasse. Afinal, família é família.
  Suspirei fundo, passando as mãos sobre os olhos, e senti meu corpo pesar contra o colchão. Os raios que penetravam pelas cortinas reluziam diretamente em meu rosto, me obrigando a acordar e viver mais um dia como uma pessoa de interesse para a polícia de Lyden.
  Do outro lado do dormitório, pude escutar o som de gavetas sendo abertas e fechadas. e sussurravam, como se não quisessem me acordar:
  - Estou preocupada - escutei a voz de . - Já se passaram doze horas e ela não abriu a boca.
  - Dê tempo ao tempo, . Traumas não são compartilhados do dia para a noite! - respondeu rispidamente. - Agora, me ajude com o café da manhã, precisamos que ela esteja de bom humor quando ouvir a nossa proposta.
  Rapidamente me levantei e caminhei em direção à cozinha do apartamento, surpreendendo-as.
  - , nós te acordamos? - sorriu sem graça.
  - Não. Meu corpo queria levantar.
  - Vamos fazer panquecas - balançou a espátula no ar. - Quantas você vai querer?
  - Bem, depende de quão grave é a notícia que vocês querem me contar.
  As duas se entreolharam. Eu sabia que estava sendo dura, mas esse era meu papel como líder. abaixou o objeto e soltou o ar:
  - Olha, eu e estivemos conversando e, aparentemente, existem histórias sobre um artefato muito valioso…
  - As histórias são sobre o que o objeto pode realizar e, recentemente, alguns acontecimentos me levaram a pensar que, talvez, as lendas possam ser reais - completou, pegando o computador. - Esse é o cetro de Saint Edward, um rei inglês do século onze.
   me mostrou uma coletânea de desenhos e pinturas do objeto. O cetro era banhado em ouro e incrustado de pedras preciosas, alcançando cerca de um metro e vinte. Um artefato imponente, se ele realmente existir.
  - Tudo bem… E o que ele tem de tão importante para incitar a curiosidade de vocês? - perguntei, observando minhas amigas.
  - Aparentemente, esse objeto pode controlar o livre arbítrio - falou, confiante.
  - E pensamos que, como última alternativa, poderíamos usar na investigadora, para que ela encerre o caso.
  - Com isso, podemos voltar a trabalhar para a sociedade… Ter nossas vidas de volta - completei o raciocínio, mas ainda pensativa. - E como vocês esperam obter esse artefato, sem nosso sistema nem equipe?
  - É aí que entram os Corvos - respirando fundo, explicou. - Sei que os três garotos são os líderes dos subgrupos que compõem a sociedade deles. E, juntos, nós temos recursos, que, apesar de limitados, são suficientes para começar e finalizar uma missão.
  - Claro que não será fácil equilibrar a responsabilidade da missão e despistar os policiais, mas se dividirmos o grupo talvez haja uma chance de dar certo - falou, enfaticamente. - É um plano alternativo, caso as coisas piorem. Esperamos que você entenda, .
  Mordi o interior de minha bochecha. O artefato realmente seria de grande ajuda, caso as coisas fossem de mal a pior. Mas, estranhamente, algo me parecia errado naquele plano.
  Observei as duas: estava esperançosa e parecia saber do que falava. Eu sempre confiei em minhas amigas, então decidi ignorar a voz em minha cabeça e concordar com o plano delas.
  - Uma última coisa - questionei, antes de fechar o acordo. - Desde quando você tem pesquisado sobre esse artefato, ? Que eu saiba, o cetro nunca esteve na lista de missões das Harpias.
  A garota engoliu em seco, antes de responder:
  - Assim que voltamos do jogo de ontem, recebi uma mensagem anônima no celular. Ela continha apenas essa foto.
  A tela do aparelho de brilhava com a imagem do cetro, ao vivo e em cores, exposto na parede do castelo de Windsor, na Inglaterra.
  - Pode ser uma armadilha ou uma carta na manga - falou. - Mas, de qualquer maneira, precisamos desse artefato.

  Invadir dormitórios é algo básico para um Corvo. Nosso primeiro ano de treinamento consiste em destrancar portas, entrar em salas e obter informações, sem deixar pistas de que o local fora vigiado por um de nós.
  Porém, nunca havíamos feito isso no quarto de um membro de nossa sociedade.
  - Cara, por incrível que pareça, Thomas é um homem organizado - sussurrou, enquanto observava a gaveta de roupas de .
  - Ele também toma conta das próprias contas bancárias - falei, analisando a bancada, que continha inúmeras pastas sanfonadas ordenadas alfabeticamente. - E parece que ele tem uma pasta só para os recebimentos mensais das missões.
  Peguei a pasta intitulada "Corvos" e a abri. Nas primeiras abas, haviam recibos de missões que participamos nos últimos meses, porém, no final, me deparei com uma aba especialmente destinada para missões secretas. Franzi o cenho automaticamente, ao perceber como aquilo era suspeito.
  - Ei, , venha dar uma olhada nisso…
  O loiro rapidamente se juntou a mim, tendo a mesma reação ao analisar as folhas que dispersei sob a mesa.
  - Você trabalhou em alguma dessas tarefas? - perguntei, estudando as fotos de  vinte artefatos que havia encontrado na aba secreta.
  - Nunca vi esses objetos em minha vida - ele respondeu, abismado. - Você acha que Thomas estava trabalhando por fora da sociedade?
  - Talvez ele tenha montado seu próprio negócio, sem que o restante de nós soubesse - comentei.
  Uma das fotos chamou minha atenção. Era um objeto banhado em ouro e repleto de pedras brilhantes, que deveriam valer uma fortuna.
  - Trabalhar sozinho com certeza é mais lucrativo…
  Peguei a imagem do artefato e observei que, no verso, o nome do objeto estava escrito a lápis: "Cetro de Saint Edward". 
  - Sempre soube que Thomas era uma pedra em nosso sapato, mas nunca imaginei que ele poderia arquitetar algo desse tipo - comentou, fotografando com seu celular tudo que encontramos, para poder mostrar a mais tarde. - Talvez ele tenha conseguido contatos fora da sociedade graças ao seu sobrenome.
  - Você acha que está envolvida nesse esquema, também? - questionei, me afastando da bancada.
  - Me pergunto se a forma como ela reagiu ontem explica o que estamos vendo aqui - o loiro respondeu, incerto. - Será que eles eram parceiros e algo deu errado?
  Olhei ao redor do quarto, não encontrando nada muito interessante. Thomas era um típico jogador de futebol, mas sua reputação não se refletia sobre seu espaço - aparentemente, ele possui muitas camadas, além daquela que mostra ao mundo… Assim como . Quem sabe isso fosse algo comum entre os .
  - Honestamente, não sei o que esperar daquela garota, mas, pensando bem, não acho que ela esteja envolvida nisso tudo - apontei para as fotografias dos artefatos. - tem moral e lealdade, coisas que Thomas não possui.
  Antes que pudéssemos continuar o assunto, sons ocos ecoaram pelo corredor, indicando que o dono do apartamento havia retornado de seu treino matinal. me encarou, ansioso, e eu rapidamente coloquei as fotografias de volta para o lugar e guardei a pasta onde a havia encontrado. Apontei para a varanda e nós dois corremos para o pequeno cubículo, fechando a porta de vidro bem a tempo.
  Thomas jogou sua mala de treino no chão assim que entrou no dormitório, e pegou seu celular. O homem discou um número e começou a falar:
  - Acabei de receber a primeira parcela. Espero que o restante seja entregue, como prometido, nas próximas semanas.
  Houve uma pausa e Thomas parecia concentrado na chamada. fez alguns sinais com a mão, querendo expressar algo, mas eu não compreendi e voltei a prestar atenção na ligação.
  - Para que eu preciso do dinheiro? Ora, não sei se você soube, mas os Corvos estão sendo vigiados e eu não posso mais usar os computadores deles para realizar as minhas missões… Preciso de investimentos para continuar a desenvolver o meu próprio sistema.
   continuava inquieto. Franzi o cenho, tentando demonstrar que não estava compreendendo onde ele queria chegar. Até que o loiro apontou para baixo, diretamente onde uma lixeira repousava, aberta e com vários sacos pretos.
  Se estava inferindo que aquela seria a nossa forma de sair dali, ele só poderia estar de brincadeira comigo.
  - O cetro será nosso, não há com o que se preocupar. Viajo para Londres amanhã, pela noite. Em menos de setenta e duas horas o objeto estará em suas mãos - a voz de Thomas soava mais alta, conforme ele caminhava em nossa direção.
   não esperou duas vezes: assim que deu as costas para o vidro da varanda, o meu amigo saltou do parapeito, aterrisando perfeitamente na caçamba. O som de sua queda foi abafado pelos sacos. Encarei o loiro, vários metros abaixo de mim, e ele gesticulou para que eu o seguisse.
  Respirei fundo, mal acreditando no que eu me submeteria. Então, pulei pela varanda, caindo diretamente em um saco que - ainda bem - não estourou com o impacto.
  - Viu, não foi tão horrível assim - riu, me puxando para fora do lixo e dando uns tapinhas na minha roupa.
  - Isso que dá em seguir um Delta - resmunguei, tentando ignorar o chiclete que havia grudado na sola do meu tênis. - Vamos embora antes que alguém nos encontre.
  Assim que fechei a boca, percebi que era tarde demais. Um garoto jovem, usando o uniforme do time de hockey, vinha em nossa direção. Ele rapidamente guardou o celular e - ao nos ver - ergueu a mão que carregava um saco de lixo.
  - ! ! Não esperava encontrá-los por aqui, mas como é bom vê-los novamente!
  - Hop, meu amigo, há quanto tempo! - falei cordialmente, me afastando do objeto que acabamos de usar como rota de fuga. - Como vai? Muito ocupado ultimamente?
  - Nem me fale, . Ser um Arquivista é muito trabalhoso!
  - E quem assumiu o cargo de ? - entrou na conversa, guiando-nos para fora do corredor, onde o lixo era depositado.
  - Temporariamente, Thomas está comandando todos os subgrupos dos Corvos.
  Detive o impulso de arregalar meus olhos. estava comandando a sociedade, ao mesmo tempo que desenvolvia seu próprio negócio. Eram muitas vantagens obtidas em um curto período de tempo e também percebeu isso, pois questionou:
  - Nossa, que sorte a dele, não é mesmo? Desse jeito, ele vai assumir a diretoria da sociedade no próximo ano…
  - Pela forma como as coisas estão evoluindo, é muito provável - Hopper suspirou. - Uma pena, pois tenho certeza de que seria um líder melhor.
  Engoli em seco, colocando meu orgulho de lado. Desde meu primeiro dia como Corvo, eu sonhava em fazer parte da diretoria assim que me formasse da universidade. A sociedade era minha vida, mas, ultimamente, tudo estava de cabeça para baixo. Somente um ato fenomenal poderia me colocar de volta na corrida pelo cargo.
  - Bem, uma coisa de cada vez, não é mesmo? - ri, minimamente. - E como os Corvos estão? A polícia fez contato com mais alguém?
  - Estamos em alerta, mas ainda na ativa. Por enquanto, ninguém se tornou suspeito. Os únicos que estão em perigo são vocês.
   soltou uma risada anasalada, demonstrando que não havia gostado nem um pouco do que havia escutado. Para quebrar o clima, decidi cortar a conversa:
  - Certo, continuem assim. Se depender de nós três, logo mais estaremos com a ficha limpa e de volta à sociedade - dei um tapinha no ombro de Hop, que pareceu tenso ao sentir o meu toque. - Nós estamos indo, meu amigo, mas foi um prazer revê-lo! Espero que continue aprendendo com os Arquivistas. Tenho certeza de que fará sua família muito orgulhosa.
  Ao meu lado, assentiu em despedida e nós caminhamos em direção à rua, deixando o mais novo sozinho no corredor. Assim que nos afastamos do prédio leste, fomos para o parque no centro do campus, onde nos aguardava.
  - Por que demoraram tanto? - o moreno fechou o livro e nos encarou.
  - Temos muita coisa a discutir, meu caro amigo - se jogou ao lado de , abrindo seu celular para mostrar a imagem do cetro.
  - O que você sabe sobre esse artefato? - perguntei para .
  - Não muito… Mas, se esse for o cetro do antigo monarca inglês, então ele é um objeto extremamente valioso e poderoso.
  - Ótimo - esquentou as mãos. - Temos aí nossa primeira missão, fora da sociedade.
   nos encarou, incrédulo. Assenti, concordando com o que havia dito:
  - Muitas pessoas estão querendo esse artefato, o que o faz ser ainda mais valioso. Se conseguirmos o cetro antes de Thomas, teremos vantagem sobre ele.
  - E podemos trocar o artefato por sua confissão - completou. - Thomas é corrupto e ganhou muito com a nossa saída dos Corvos. Eu diria que esse é um motivo sólido para colocá-lo no topo da lista de suspeitos.
  - Tudo bem, então vamos precisar de passagens para Inglaterra - abriu sua mochila e pegou seu computador. - Mas como vamos fazer tudo isso e despistar os policiais ao mesmo tempo?
  Como se suas preces tivessem sido ouvidas, três garotas surgiram em nosso campo de visão. À frente, vinha , marchando em linha reta e em minha direção.
  - Não sei vocês, mas eu sinto que uma delas tem a resposta - sussurrou, parecendo estar se divertindo com aquilo.

Capítulo 6

Capítulo escrito por Lika.

  Nosso dormitório sempre foi espaçoso, pois a família de fazia questão de pagar por um que tivesse cozinha e banheiro individual. Porém, com seis pessoas, o lugar parecia pequeno demais para todos nós.
  Os Corvos ocupavam o nosso sofá, aparentando estar desconfortáveis com a situação, como se entrar em nosso ambiente fosse algo completamente estranho para eles. Para ser sincera, eu sentia o mesmo.
  - Então, vamos criar o plano? - quebrou o silêncio, trazendo consigo uma bandeja com água e salgadinhos. Apesar dela não gostar dos garotos, continuava sendo uma boa anfitriã.
  Sem rodeios, se esticou para pegar a comida. Observei e notei que ele mantinha o olhar no porta retrato, que ficava ao lado da televisão. Ali, havia uma foto de nós três em uma viagem que fizemos à praia.
  - Algo de errado? - me sentei na cadeira ao lado de e perguntei para ele, enquanto os outros conversavam sobre o plano que tinham em mente.
  - Eu nunca tive a oportunidade de vê-la assim - ele apontou para a fotografia.
  - De biquíni? - questionei, recebendo em troca um olhar sarcástico de .
  - Isso é óbvio - ele não se envergonhou e continuou: -, o que eu quis dizer é que nunca te vi leve, feliz, como nessa foto.
  Voltei a observar a imagem. Realmente, ele tinha razão. Desde que passei a participar das missões das Harpias, comecei a viver a vida mais intensamente. Querendo ou não, as tarefas são meu trabalho e nem sempre somos felizes vivendo dessa forma. Ser uma Harpia é uma enorme responsabilidade e guardar um grande segredo como esse exige muito de mim.
  - Quem sabe eu volte a ser assim durante nossa pequena viagem para Londres? - respondi, encostando meu ombro no dele.
   sorriu, entendendo o recado, e voltou a se concentrar na conversa de nossos amigos.
  - , esse é o plano mais inteligente que ouvi em toda minha vida! - falou, animada.
  - Até que não é terrível - amenizou, enrolando o dedo ao redor de uma mecha de seu cabelo. - Mas admito que ficar de fora da zona de ação é decepcionante.
  - Dessa vez tenho que concordar com - suspirou. - É uma pena que não vamos visitar a rainha.
  Troquei olhares confusos com , que parecia tão perdido quanto eu. Então, por nós dois, ele disse:
  - Será que vocês poderiam nos incluir na conversa e explicar o que é que estão falando?
   e se entreolharam e assentiu para que falasse:
  - O plano é o seguinte: nós quatro vamos ficar em Lynden, para manter as aparências. Enquanto isso, você e vão para Windsor roubar o artefato e trazê-lo de volta para cá.
  - Vamos alegar que vocês foram para Portland, de onde partirão para passar o feriado de Ação de Graças nas montanhas - completou a fala de minha amiga.
  Eu estava começando a digerir o plano, mas ainda havia algo que não saía de minha cabeça:
  - E como vocês vão explicar que eu e fizemos uma viagem juntos? Não seria suspeito duas pessoas que se odeiam fazendo algo desse tipo?
   prendeu a respiração, como se minha alegação tivesse socado seu estômago. Tentei ignorar a reação do garoto, afinal, as pessoas realmente sabiam da nossa rixa e - com certeza - a investigadora Olsen e o traidor também.
  - Essa é a parte delicada do plano - falou, atraindo nossa atenção. - A partir do que e escutaram no quarto de Thomas, sabemos que ele só viaja para Londres amanhã. Nós só conseguimos um voo para a madrugada de hoje, o que é ideal para o que vamos propor a vocês dois…
  - e , nós pensamos em dizer que vocês farão uma viagem de casal - finalmente disse o que eu queria ouvir.
  Sem pensar duas vezes, olhei para , que engasgou com a água, assim que ouvir a proposta de seu amigo.
  - E vocês realmente acham que essa ideia é boa? - perguntou, a voz falha. - Quem vai acreditar que viramos um casal do dia para a noite?
  - Honestamente? Muitas pessoas - respondeu, confiante. - Algumas vezes, duas pessoas que se odeiam muito, na verdade, escondem o amor pelo outro.
  Não consegui segurar minha risada. Todos me encararam, assustados, inclusive . Havia muita história entre nós dois. Seria difícil agir como se eu estivesse apaixonada por , ainda mais em um período de tempo tão curto.
  - Nossa, , assim você fere o meu ego - disse, com uma pitada de amargura em sua voz.
  - Me desculpe, mas esse plano é tão infantil…
  - É o melhor que temos - respondeu, sentindo-se ofendido.
   mordeu o lábio, provavelmente imaginando as possíveis repercussões, caso decidíssemos em seguir com a ideia.
  - Olha, acho que é um bom plano - após uns minutos, ele disse, me surpreendendo. Não imaginava que ele aceitaria algo como aquilo. - Vamos pegar todos de surpresa, inclusive Thomas. Isso pode abalá-lo e afetar seu desempenho em sua missão.
  - Elabore melhor o seu argumento - respondi, tentando de todas as formas fugir daquele plano.
  - Thomas me odeia e, pelo pouco que eu sei, não é seu fã, apesar do parentesco. Se ele pensar que somos um casal, isso pode deixá-lo com mais raiva ainda, o que o torna um agente vulnerável e, portanto, com menores chances de sucesso na tarefa.
  Desviei o olhar de e brinquei com a barra de minha saia. Vendo por esse ponto de vista, realmente era um plano interessante. Senti meu coração acelerar, só de imaginar sair de mãos dadas com . Será que havia verdade no que havia falado? O ódio realmente pode ser uma forma de disfarçar o amor?
  - Tudo bem, mas e quanto ao traidor, caso ele não seja Thomas? Ele não vai duvidar do nosso "relacionamento"?
  - Nós quatro vamos continuar agindo como universitários normais - esclareceu. - Logo, o traidor vai achar que aceitamos o afastamento das sociedades e que não estamos tentando descobrir sua identidade. No momento que ele der um deslize, nós vamos pegá-lo.
  - E também nos responsabilizamos por distrair os policiais - continuou. - Mas, para isso, vocês dois vão precisar arquitetar o plano para roubar o artefato por conta própria. Quanto menos nós soubermos, mais seguro será para vocês, caso a investigadora volte a nos interrogar.
  Assenti, compreendendo onde eles queriam chegar. Saber que e tinham confiança no plano me deu certa segurança. Troquei olhares com , que parecia tão convencido quanto eu.
  - Bem, se vamos começar um relacionamento falso e divulgar isso para toda a universidade, só há um lugar para se ir - falei, me levantando da cadeira e pegando a mão de .

  Se alguém me dissesse que um dia eu estaria de mãos dadas com caminhando ao redor do lago da universidade, eu não acreditaria.
  Pois bem, é exatamente isso que estou fazendo.
  O lago não é extenso e forma um círculo perfeito, bem no centro do campus. É comum os estudantes praticarem exercícios físicos no gramado e a maioria dos atletas inclui uma volta no lago em sua corrida matinal.
  Também é uma tradição fazer encontros por aqui e terminar com um beijo em cima da ponte que cruza as águas tranquilas.
  - Por que sua mão está tão suada? - sussurrou, levemente irritada.
  - Acabando com o romance tão cedo? - respondi, sem tirar o sorriso do rosto. - Estou nervoso, ok? Me dê um tempo…
  Nós tínhamos acabado de passar pelas líderes de torcida que treinavam seus passes de dança. Não deixei de notar que todas elas nos viram e começaram a comentar sobre nós. Estava torcendo para que uma delas tivesse tirado uma foto nossa e publicado no grupo da universidade - a principal fonte de fofoca dos alunos.
   também percebeu a atenção que as pessoas estavam nos dando, pois soltou minha mão e a repousou em sua cintura. Olhei para ela, surpreso:
  - Tire esse seu sorriso presunçoso do rosto, . Estamos só atuando, entendeu? E também fiz isso para deixar de sentir o seu suor em minha mão.
  - Sim, senhora - beijei o topo de sua cabeça e percebi que prendeu a respiração. - Agora, volte a fingir que me ama, porque vamos caminhar pela ponte.
   me encarou com seus olhos de boneca. Notei que sua confiança diminuiu, sendo substituída por insegurança. Perceber a repentina mudança de humor de me fez sentir mal, como se eu tivesse feito algo de errado.
  - Não precisamos nos beijar, se é isso que está te incomodando - falei, tirando minha mão de sua cintura e colocando-a em seu ombro.
  - Esse não é o problema - ela falou, voltando a nos guiar. - Só não imaginava que seria assim, de forma tão abrupta…
  Ficamos em silêncio, apenas escutando nossos passos sobre a grama. Tive uma ideia para deixar a situação mais confortável: se nós estamos em um encontro, então precisamos conhecer melhor um ao outro.
  - Me conte sua cor favorita - disse, enquanto olhava para o horizonte.
  - O quê? - ela riu, sem entender.
  - Estamos em um encontro, . Não sei se você sabe, mas os encontros servem para conhecer a pessoa com quem estamos.
  Ela respirou fundo e voltou a me observar. Agora, seus olhos transpareciam segurança, como se estivesse mais confortável e voltado a ser ela mesma. Não pude deixar de sentir um arrepio com aquilo.
  - Lilás é minha cor favorita - respondeu. - E a sua?
  - Branco.
  - Tem como você ser mais sem graça? - ela riu, me fazendo rir junto.
  - Eu sabia que você diria isso.
  - Pelo visto você já me conhece o suficiente - a garota comentou, mas logo se calou, como se uma lembrança tivesse passado pela sua cabeça.
  - Ei, o que foi agora? - perguntei, notando que a sensação agradável em meu corpo começou a desaparecer.
  - Você já me conhece, . Não precisamos de um encontro de mentira para isso - ela respondeu, seca.
  - Como assim?
  Assim que ganhamos distância das pessoas, paramos de caminhar e ficamos em baixo da sombra das árvores. se soltou de mim, ao perceber que ninguém nos observava ali, e voltou a falar:
  - Não se faça desentendido. Eu sei que os Corvos estavam montando o meu perfil. Não duvido nada de que você tenha sido o responsável por isso.
  - … - passei a mão pelo cabelo, levemente nervoso. Aquilo eram águas passadas, ela não podia me julgar por isso. - Não era nada pessoal. Essa é uma atividade comum em nossa sociedade, mas nunca imaginamos que poderia servir de arma contra vocês.
  - Se não era uma vantagem que tinham sobre nós, então para quê fazê-lo?
  - Você não percebeu que nos últimos vinte anos as Harpias tem saído por cima? Não quero admitir que vocês são melhores que nós, mas a competição é acirrada - suspirei, deixando meu orgulho de lado. - A ideia de estudar vocês era apenas uma forma de entender os nossos próprios pontos fracos.
  A menina ficou em silêncio, mas sem tirar os olhos dos meus. Nosso relacionamento sempre foi uma luta de egos, mas, agora que estamos no mesmo time, percebo que seríamos grandes amigos, caso a rivalidade entre as sociedades não existisse.
  - Tudo bem, assunto encerrado - ela falou, estendendo a mão. - Trégua?
  Suspirei aliviado. Meu coração voltou a acelerar e, para controlá-lo, precisei apertar a mão de .
  - Trégua.
  Por azar, assim que saímos debaixo da árvore, cruzamos com Ben Peyton, o filho do governador e capitão do time de futebol. Ao nos ver juntos, o garoto fechou a cara e chamou por :
  - E aí, ?
  - Oi, Ben! - ela adoçou a voz, de forma sutil. O lado Rapina de havia sido ativado. - Como vai?
  - Comigo está tudo certo, mas e você? Como ficou depois daquela noite maluca?
  Suponho que ele estava se referindo ao jantar de recepção dos calouros e da trágica interrupção do evento. Ao meu lado, a garota não se deixou abalar.
  - Sinceramente, estou bem. Foi um vexame para a polícia de Lynden, não para nós, certo, amor? - se virou para mim. Trocamos olhares cúmplices e eu logo compreendi o que ela estava tentando fazer.
  - Tem razão, querida - arrumei uma mecha de seu cabelo e me virei para Ben. - Desculpe, acho que não fomos apresentados. Eu sou , namorado de , é um prazer conhecê-lo.
  O brutamontes estreitou os olhos ao ouvir a palavra "namorado" e nem se deu ao trabalho de me cumprimentar de volta.
  - Não imaginava que você gostasse de engomadinhos como esse cara - Ben falou para , de forma agressiva. - Desde quando vocês estão juntos?
  - Alguns dias - ela deu de ombros.
  - Ao mesmo tempo que você estava comigo? - ele perguntou, erguendo as sobrancelhas. Seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho.
   assentiu. Eu sabia que era mentira, mas precisávamos convencê-lo de que nosso relacionamento era verdadeiro. Ben riu descrente e umedeceu seus lábios, provavelmente se preparando para criticar .
  Senti minha raiva crescer, mas, sendo um Eloquente, eu sabia como lidar com a situação. Pessoas como Ben Peyton lidam com as emoções a partir da irracionalidade. Já pessoas como eu sabem muito bem que a melhor forma de provocar o outro é através da cordialidade. Antes que ele pudesse falar qualquer besteira para , eu o interrompi:
  - Se você nos dá licença, temos um compromisso agora - dei um sorriso educado, que claramente enlouqueceu Ben. - Vamos?
  - Vamos - sorriu para mim, aliviada.
  Nos guiei para longe do garoto e, assim que conseguimos distância, falei:
  - Você tem um péssimo gosto, . Ficar uma vez com um cabeça de vento como Ben é uma coisa, mas fazer isso continuamente é tortura.
  - Não me culpe, . Garotas como eu precisam de noites com garotos como ele.
  - Como assim? - não pude deixar de ficar boquiaberto.
  - Quero dizer que eu fico muito envolvida com o mundo "Corvos e Harpias"… - ela respondeu e abaixou o tom de sua voz: - Garotos como você me enlouquecem, mas caras como Ben são simples. Eles não me dão dor de cabeça e fazem o que precisa ser feito.
  Engoli em seco, tentando absorver o que ela queria dizer com aquilo. Eu sabia que era charmoso, mas não tinha ideia do efeito que isso causava em … Não pude deixar de usar meu famoso sorriso, após dizer:
  - Então quer dizer que você já pensou em mim dessa forma?
   empalideceu, o que me fez ter certeza de que ela já havia sentido algo por mim. Me aproximei dela, segurando seu rosto pelo queixo, e sussurrei em seu ouvido:
  - Sabe de uma coisa? Um pouco de loucura não faz mal a ninguém.

  Nós não chegamos a finalizar o encontro na ponte, muito menos nos beijamos, mas a fofoca já havia se espalhado pelo campus. Ben fez questão de contar para o time de futebol sobre mim e e - com certeza - Thomas ficou sabendo do mais novo casal de Lynden.
  Nosso plano havia entrado em ação.
  Os Corvos acabaram dormindo em nossa sala, pois seria a forma mais fácil de levar eu e para o aeroporto.
  Assim que o relógio marcou uma da manhã, nós três pegamos a estrada.
  - Preparados? - perguntou, ao retirar a última mochila do porta malas e a entregar para seu amigo.
  - Claro - abraçou o outro. - Nos vemos em alguns dias, Hawthorne.
  - Assim espero, - sorriu.
  - Tentem ficar longe de problemas enquanto nós estivermos fora - eu disse e estendi a mão para cumprimentar o garoto.
   ignorou minha mão e partiu para um abraço:
  - E você, tente se soltar. Somos amigos agora.
  De forma desajeitada, retribui o abraço. Uma amizade com os Corvos? Temporariamente seria possível, mas a longo prazo não. A menos que as sociedades trabalhassem juntas e não uma contra a outra - algo que nunca iria acontecer.
  - Até logo, - falei, me soltando de seus braços.
  - Só voltem quando estiverem com o artefato - o loiro piscou para nós dois. - Ah, e aproveitem a lua de mel!
   deu um soco no braço do amigo, que, rindo, logo tratou de entrar no carro. Esperamos sumir de nossa visão para finalmente entrarmos no galpão.
  - Pronta para embarcar em nossa primeira missão juntos? - se virou para mim, mostrando seu famoso sorriso.
  - Pronta - Imitei o sorriso de , mas de uma forma forçada.
  - , nem tente me imitar. Esse sorriso é um charme exclusivo dos .
  Balancei a cabeça e, por hábito, revirei meus olhos. A viagem será longa, porém, sinto que não será o pesadelo que imaginei. Para ser sincera, será muito bom conhecer o verdadeiro .

Capítulo 7

Capítulo escrito por Lika.

  - Ei, , está acordada?
  Mantive a cadência em minha respiração e não movi um centímetro do meu corpo, na esperança de que me deixaria dormir em paz. Estávamos voando há duas horas e o garoto havia parado por um segundo.
  - Eu sei que você está - ele respondeu a si mesmo. - Consigo ver a veia em sua testa pulsando de raiva.
  Tirei a máscara dos meus olhos e virei para :
  - Não tem veia alguma em minha testa, . Quer parar de ser uma criança e dormir? Temos dois longos dias pela frente e duvido que teremos algum descanso.
   deu de ombros, voltando a olhar para frente, como se eu tivesse tocado em sua ferida.
  - Eu só queria saber se você tem alguma ideia de como vamos prosseguir com nosso plano…
  Respirei fundo, tentando ignorar o aperto em meu coração. Eu poderia dizer que aqui não era o melhor lugar para discutir isso e encerrar nossa conversa, mas ao olhar para o garoto - que parecia cansado e ao mesmo tempo ansioso demais para dormir - eu decidi dar atenção para .
  - Tudo bem - me abaixei para pegar o computador, guardado em minha mochila. - Vamos aproveitar as sete horas restantes para decidir o que fazer.
  Olhei ao nosso redor, me assegurando que todos os outros passageiros estavam dormindo. sorriu, grato, e se aproximou de mim, sussurrando em meu ouvido:
  - Eu tive algumas ideias… Talvez sejam ambiciosas demais.
  - Conte-me - tentei acalmar minha respiração, evitando virar meu rosto e encurtar a distância entre nossas bocas.
   estava próximo demais e, por algum motivo, eu não queria que ele se afastasse.
  - Pensei em solicitar que o castelo de Windsor faça um jantar em comemoração à chegada do duque e duquesa de Dover - ele falou, me tirando do devaneio.
  - E como faríamos isso? Com tão pouco tempo?
  - Eu vou me passar como Marc Ville, o assessor do duque de Dover. Entrarei em contato com Windsor e, sem dúvidas, eles irão aceitar realizar o evento. Direi que teremos um curto período na agenda e que o único dia em que a festa poderá acontecer é amanhã a noite.
  - , você realmente acha que eles vão acreditar nessa história? Como você vai fazer para que o verdadeiro Marc não saiba do que está acontecendo?
  - Na contramão, vamos entrar em contato com Marc, dizendo que o primeiro ministro canadense gostaria de conhecer o duque de Dover e sua esposa, o mais cedo possível. O assessor claramente não irá recusar o pedido e os três estarão fora do Reino Unido, enquanto nós passamos por eles.
  - Se você será o assessor, quem serei eu? - ergui a sobrancelha, tentando achar um furo no plano de .
  - Você será a filha dos duques. Abigail Bailey, herdeira do ducado de Dover. Como seus pais não puderam comparecer ao evento, você ficou responsável por representar a casa Bailey.
  - Obviamente, você inventou essa personagem - indaguei.
  - , sua desconfiança em relação às minhas habilidades é ofensiva - bufou, fingindo estar enfadado. - Abigail existe sim, mas ela abnegou o título e vive atualmente na Nova Zelândia, com seus cachorros.
  - E você realmente imagina que a equipe do castelo desconheça todas essas informações?
  - Claro que não. Não sei se você conhece uma ferramenta chamada internet, mas qualquer convidado que duvide de nossa identidade pode pesquisar as imagens dos verdadeiros duques de Dover.
  - E como vamos prosseguir com nosso plano dessa forma, espertinho?
   se esticou para pegar seu tablet. Ele abriu uma página inteiramente codificada e começou a digitar:
  - Pronto. Em poucos minutos, todas as fotos e notícias sobre os verdadeiros duques de Dover serão substituídas por informações falsas e fotos suas. Você é oficialmente Abigail. Bem, pelo menos por três dias.
  Fiquei boquiaberta com as habilidades de . O garoto estava concentrado, lendo os códigos brilhando na tela, e tinha o seu sorriso estampado no rosto:
  - Te impressionei?
  Ele se virou para mim, convencido.
  - Honestamente, sim - suspirei, sentindo minhas bochechas esquentarem.
   riu silenciosamente, contente consigo mesmo. Ele recostou na cadeira e, finalmente, fechou os olhos:
  - Agora sim, podemos dormir. Boa noite, .
  - Boa noite, - respondi, ainda atônita.

   e eu decidimos pagar uma diária no hotel mais próximo ao castelo, para podermos nos organizar para a missão. Tanto ela quanto eu havíamos separado um par de roupas sociais para trazer conosco - o que foi uma bela ideia, já que iríamos precisar disso para poder entrar no evento, que foi recebido de braços abertos pela equipe de Windsor.
  - O cetro de Saint Edward está exposto na parede da torre Edward III - a garota falou, apontando o local no mapa do castelo.
  - E o jantar será feito no salão da ala dos visitantes - continuei o pensamento, observando que um local era próximo ao outro. - Que sorte a nossa!
   sorriu para mim, colocando sua mão em meu ombro:
  - Seu plano é realmente impressionante, .
  - Só espero que nós possamos finalizá-lo com sucesso - olhei para ela, sentindo nervosismo invadir o meu corpo. - Você teve alguma notícia das outras Harpias?
  - Decidimos evitar o contato, para que a polícia não desconfie de nada. Eu só avisei que havíamos "chegado nas montanhas".
  - Entendo - assenti, pegando meu celular. - Acho que deveria fazer o mesmo.
   concordou e foi em direção ao seu vestido vermelho:
  - Vou começar a me arrumar, com licença.
  Enquanto eu digitava a mensagem para , escutei o chuveiro ser ligado. , sem querer, havia deixado uma fresta da porta do banheiro aberta. De onde eu estava sentado, conseguia ver o reflexo da garota.
  Me forcei a desviar o olhar, em respeito. Por mais que eu quisesse ceder às batidas do meu coração, precisava me concentrar na missão. Eu sou um Corvo e ela uma Harpia, não podemos ter um romance.
  A resposta de me trouxe de volta à realidade: "Boa sorte, irmão. Não pense demais, só aproveite".
  Respirei fundo e me levantei, indo em direção ao armário. Peguei meu terno e comecei a me trocar. Quem dera se essa viagem realmente fosse uma lua de mel e não uma missão para salvar a nossa pele e a das garotas.
  Assim que saiu do banheiro, não pude deixar de olhá-la dos pés à cabeça: ela parecia uma rainha.
  - Você está linda - sussurrei, me sentindo levemente apaixonado.
   rodopiou, deixando a saia de seu vestido voar. Ela estava feliz, realmente feliz.
  - Obrigada, - a menina sorriu, envergonhada. - Você também está muito bonito.
  - Nem parece que vamos roubar um artefato histórico, não é mesmo? - eu disse, arrancando uma risada dela.
  - Não mesmo.
  Um silêncio pairou entre nós. Mordi o lábio, incerto de como prosseguir. me encarou, com seus olhos de boneca, e isso fez meus pés tomarem vida própria, diminuindo a distância entre nós.
  - Incrível… - falei, sem pensar.
  - O que é incrível? - ela perguntou, erguendo sua sobrancelha esquerda.
  - O modo como você me atrai. Somos pólos opostos e é isso que nos une tão intensamente.
  Ela engoliu em seco, sem tirar os olhos dos meus. pareceu entender o que eu quis dizer, como se minhas palavras tivessem clareado seus pensamentos.
  - Sempre pensei que fossemos polos iguais e por isso nos repelimos. Mas, vendo dessa forma, acho que você está certo - passou a ponta de seus dedos sobre minha bochecha.
  Automaticamente, passei meu braço pela cintura da garota, colidindo nossos corpos. Repousei minha testa na dela e fechei os olhos, apreciando o perfume doce de .
  - Quem diria que um dia eu iria concordar com você? - ela falou, rindo levemente.
  - Espero que você também concorde com o que vou fazer agora…
  Como se ela soubesse o que estava por vir, fechou os olhos, aproximando nossas bocas com avidez. Senti uma onda de calor percorrer meu corpo, como se todas as peças finalmente tivessem encaixado em seu lugar. As mãos da garota traçaram caminhos perigosos que fizeram meu coração apertar. Guiei nossos corpos até a parede, onde pude apoiar o corpo de .
  Continuamos assim por um bom tempo, como se nós dois estivéssemos dando liberdade para todos os sentimentos reprimidos ao longo dos anos. Porém, antes que nós pudéssemos ir mais a fundo, o alarme em meu celular tocou, avisando que faltava apenas uma hora para o início do evento.
   suspirou, irritada, e eu me afastei, quebrando nossa conexão. Eu estava tão chateado quanto ela, mas, infelizmente, a vida real estava nos chamando de volta.
  - Me dê alguns minutos para retocar a maquiagem - a voz de havia endurecido, como se a Rapina dentro dela tivesse assumido o comando.
  Assenti, ainda anestesiado. Apesar de meus pensamentos estarem na missão, meu corpo ainda sentia a necessidade de ter o de por perto.
  - Maldita missão - bufei, me virando para pegar os apetrechos necessários.

  Entrar no castelo de Windsor foi mais simples do que imaginei. caminhava tranquilamente ao meu lado, portando-se como um assessor e não como meu amigo. Eu mantinha a postura de uma pessoa da realeza e meu sotaque inglês estava impecável - ninguém até o momento havia suspeitado de nós.
  Assim que fomos direcionados para o salão, onde o jantar seria servido, passamos pela torre Edward III. Nosso anfitrião explicou que aquela era a forma mais rápida de chegar até o prédio dos visitantes e essa informação foi essencial para nós: seria muito fácil sumir por alguns momentos e pegar o artefato.
  A passagem pela torre foi rápida, porém, nossos olhos recaíram diretamente sobre o cetro - que brilhava na parede, onde era exposto. Ali, não haviam câmeras, mas a sala era protegida por dois seguranças altos, um em cada porta.
  O funcionário do castelo nos deixou a sós no salão de jantar, onde apenas nós e os serventes estavam. A mesa estava posta, com pratos e talheres de ouro. A cadeira na ponta da mesa era a maior e mais confortável de todas - provavelmente pertencia à rainha.
  - Marc, se importa de ficar comigo enquanto os outros convidados não chegam? - perguntei, educadamente, notando que os serventes fingiam não prestar atenção no que eu falava.
  - Claro, senhorita Abigail - me respondeu, seu sotaque inglês tão impecável quanto o meu.
  Trocamos olhares cúmplices, aliviados por nosso plano estar caminhando como desejado. Alcancei uma taça de champanhe, mas, antes que pudesse virar o primeiro gole, o anfitrião retornou, sendo seguido por um homem alto e forte, vestido com terno militar branco. Em seu peito, reluziam várias condecorações.
  - Senhorita Bailey, este é o Major Johnson.
  - Abigail - o homem saudou, com um tom brincalhão na voz.
  Não pude deixar de prender a respiração ao reconhecer quem era o desconhecido caminhando em minha direção. Notei que havia desaparecido furtivamente, o que foi inteligente de sua parte, pois, dessa forma, Thomas não saberia que o garoto também estava aqui.
  Pelo menos nós temos essa carta na manga.

Capítulo 8

Capítulo escrito por Lika.

  Eu não imaginava que Thomas fosse tão sagaz a ponto de nos surpreender no evento que e eu praticamente inventamos.
  Eu e ele treinamos separadamente, desde quando fomos recrutados para os Corvos: Thomas se tornou um Delta e eu um Eloquente. Talvez, justamente por não imaginar que aquela pilha de músculos seria capaz de arquitetar um plano ainda mais inteligente que o meu, se tornou meu ponto cego.
  Torcendo para que eu tenha sido rápido o suficiente para que Thomas não tivesse me visto, fui em direção ao banheiro mais próximo da torre Edward III para dar seguimento à missão. Apesar de meu coração apertar ao deixar sozinha com seu primo, eu tinha completa noção de que ela saberia lidar com a situação.
  Ao entrar no banheiro, tranquei a porta e rapidamente me debrucei pela janela, saindo sorrateiramente do castelo.
  Antes, no quarto do hotel, eu havia estudado todos os pontos onde havia câmeras no terreno e, pensando nisso, tracei um caminho tortuoso até o labirinto de Windsor, silenciosamente e sob as sombras.
  Esperei, me certificando de que nenhum dos guardas vinha ao meu encontro, e então, agilmente, procurei por minha mala, que estava escondida o dia inteiro entre os galhos das moitas que compunham a parede verde do labirinto. Ainda bem que havia trazido dinheiro em espécie, pois, sem essa "ajuda", o jardineiro do castelo nunca concordaria em seguir com nosso pedido.
  Após confirmar que tudo o que eu precisava estava na mala, refiz o caminho de volta para o banheiro, onde a janela permanecia aberta. Ao retornar ao local, fechei o vidro e me escorei na parede, recuperando o fôlego. Teria de esperar ali, até o sino da capela bater, anunciando as oito horas da noite.
  Passados longos minutos, o sinal que eu precisava havia chegado: com o badalar dos sinos, a rainha Elizabeth II havia chegado ao jantar e, provavelmente, toda a atenção dos seguranças estava voltada à ela.
  Isso significava que era hora de roubar o artefato.

  Meu primo, fantasiado de militar, me encarou durante o jantar inteiro. Nós tínhamos completa noção de que um não poderia delatar o outro, pois ambos corriam risco de serem presos por roubo de identidade.
  Na ponta da mesa, a rainha Elizabeth II comia lentamente sua sopa. Todos os olhos estavam sobre nós, o que era perfeito, pois os seguranças estavam no salão e não na torre Edward III, onde eu esperava que estava.
  Se nosso plano corresse bem, iria furtar o cetro, escondê-lo na mala de violoncelo e trocar sua vestimenta pela de músico, se misturando à orquestra e saindo quando o grupo fosse liberado.
  Thomas tentava decifrar meus pensamentos, mas eu tinha certeza de que meu rosto não demonstrava absolutamente nada. Ao meu lado, um convidado começou a puxar um assunto qualquer. Eu respondi, agindo como Abigail, a herdeira do ducado de Dover. Meu primo fez o mesmo, quando o prefeito de Manchester perguntou algo para ele. Mesmo assim, nem eu nem ele quebramos o olhar um do outro.
  Nós dois estávamos agindo minuciosamente, do modo como fomos treinados, mas algo estava me incomodando. Como Thomas planejava roubar o artefato sozinho? Estaria ele agindo conforme seu plano?
  Assim que a rainha terminou seu jantar, todos os convidados deixaram seus talheres sobre a mesa, finalizando a refeição também. Elizabeth, em silêncio, saiu do salão, deixando os convidados mais à vontade. A maioria se levantou, indo para a pista de dança, onde a orquestra tocava.
  Antes que eu pudesse me retirar do evento, Thomas parou ao meu lado:
  - Concede uma dança, senhorita Bailey? - ele forçou o sotaque.
  Estreitei meus olhos, mas me levantei e aceitei o convite. Thomas colocou uma mão em meu ombro e a outra segurou minha mão:
  - O que você está fazendo aqui? - sussurrando para que apenas eu pudesse ouvir, ele falou, voltando à sua voz normal.
  - O mesmo que você, eu suponho - respondi friamente.
  - Eu pensei que você estava afastada das Harpias - Thomas riu, sarcasticamente. - Você não sabe respeitar as regras, não é mesmo, prima?
  - Olha quem fala - encarei seus olhos, notando que estavam opacos e sem vida. - Pelo menos eu preservo minha lealdade à sociedade.
  Minhas palavras acertaram Thomas com força. Ele apertou minha mão, fazendo meu corpo congelar. Tentei me lembrar de que ele não faria mal algum a mim, muito menos em um lugar lotado como o que estávamos.
  - Cuidado com o que fala, . Há muitas coisas das quais você não sabe.
  - Com quem você está trabalhando? - encerrei toda aquela brincadeira e fui direto ao assunto. - Quem está pagando por seus crimes fora da sociedade?
  - Você precisa ser muito ingênua para pensar que eu iria responder isso a você - o homem falou, cínico. - Não quero me gabar, mas meu patrocinador odeia tanto as Harpias quanto eu.
  Thomas sempre me viu como uma pessoa inferior, uma mulher inferior, e isso o fazia se sentir poderoso o suficiente para soltar pequenas dicas, como se eu não fosse captá-las. Porém, fazê-lo sentir dessa forma era exatamente o que eu queria: assim, ele indiretamente confirmava as minhas hipóteses.
  - E por qual motivo ele nos odeia?
  - Digamos que, assim como nós dois, ele tem problemas familiares que envolvem os Corvos e as Harpias.
  - E como vocês se conheceram?
  - Não precisei ir muito longe para encontrar uma pessoa igual a mim. Vocês Harpias possuem muitos inimigos, sabia?
  Como eu imaginava, seu patrocinador é um homem rico, com parentes que participaram e conheciam as sociedades secretas e que, atualmente, é um aluno da universidade de Lynden.
  Provavelmente, seria de grande ajuda para juntar as peças do quebra cabeça. E, pensando nele, desviei meu olhar de Thomas para a orquestra, no fundo do salão.
  Ali, parcialmente escondido atrás do instrumento musical, estava , acompanhando cada movimento meu. Ele parecia nervoso, como se a proximidade de meu primo o deixasse aflito.
  - Mas, voltando ao assunto, me conte: onde está o seu namoradinho?
  Engoli em seco, voltando a observar Thomas:
  - Que namorado?
  - Não se faça desentendida, . Estou falando de . Onde ele está?
  - Por que isso importa para você? - senti meu coração apertar, percebendo o perigo iminente.
  - Eu sei que ele já tem o cetro em sua posse. Os guardas do castelo podem ser burros, mas eu não.
  Mantive o ritmo de minha respiração, mas meu corpo retesou. Ao fundo, notei que estava se levantando, prestes a vir me socorrer. Balancei minimamente minha cabeça, sinalizando para que não fizesse nada.
  - Thomas, você sabia que é feio blefar? Eu estou agindo sozinha dessa vez, trate de aceitar isso…
  - Cale a boca, - o homem esbravejou, interrompendo a dança. Seu rosto estava vermelho de raiva.
  - Não fale assim comigo! - me soltei de Thomas, deixando o papel de Abigail de lado e voltando a ser eu mesma.
  O semblante de Thomas escureceu. Como se um novo plano tivesse se formado em sua cabeça, o homem agarrou meu braço com força e nos guiou para fora do salão. Os outros convidados, levemente embriagados, mal perceberam nossa movimentação.
  - Meu chefe não vai gostar nada disso, mas é a única forma de tirar de seu esconderijo.
  Senti meu corpo ser arrastado e as memórias da agressão que sofri na infância voltaram à tona. Minha respiração ficou irregular e meu coração queria sair pela boca. Os minutos pareceram horas, se misturando em borrões. Quando percebi, Thomas estava me levando para fora do castelo e me jogando no porta malas de um enorme carro.
  Eu não conseguia acreditar nisso, me recusava, para falar a verdade, mas eu estava servindo de dama em perigo.

  Quando me dei conta de que o brutamontes do estava arrastando contra sua vontade, saí correndo do evento. Todos os disfarces foram abandonados. Os seguranças só não conseguiram me barrar porque fui mais rápido que eles.
  Assim que cheguei ao pátio, só consegui ver os faróis do carro de Thomas se afastando com velocidade. Os dois haviam desaparecido.
  Senti meu estômago embrulhar e meu coração palpitar: eu havia perdido . Tentei limitar minha imaginação sobre o que Thomas faria com sua prima e tratei de voltar à realidade - eu precisava sair daqui. Se eu quisesse salvá-la, não poderia ser preso.
  Antes que os guardas me encontrassem, fui em direção ao labirinto de parede verde, onde havia escondido a mala contendo o cetro de Saint Edward - pelo menos isso foi um sucesso na nossa missão.
  Saindo de esguelha, fugi das terras do castelo, só parando ao encontrar um pequeno beco escuro no centro da cidade. Rapidamente, me livrei das roupas que usei no jantar..
  Ao chegar no quarto do hotel, notei como a escuridão e o silêncio eram enlouquecedores. Sem ali para conversar ou até mesmo importunar, percebi que minha vida tinha um grande vazio.
  Tratei de ligar para , sem pensar sobre a polícia ou qualquer outro problema que tínhamos em casa. Eu só precisava de um conselho amigo.
  - Alô? - A voz de meu amigo soou do outro lado da linha. - Está tudo bem?
  - Não, , não está nada bem - falei, derrotado.
  Eu podia ter o artefato em minhas mãos, mas, sem para dividir aquela conquista, o sentimento não era o mesmo.

Capítulo 9

Capítulo escrito por Lika.

  Assim que pude retomar meus sentidos, me vi presa em um jato particular, há milhares de quilômetros de distância da Inglaterra e de . Thomas tinha um jato particular e isso realmente me impressionou.
  Ele havia feito questão de me deixar livre pelo avião, na tentativa de mostrar que estava sob controle da situação. Além disso, ele havia pegado meu celular e enviado uma mensagem para , avisando que nós estávamos voltando para a universidade de Lynden, onde deveria nos encontrar… se quisesse me encontrar viva.
  - Jogar sujo sempre fez parte de sua vida, não é mesmo, Thomas? - falei, ao me sentar na poltrona à frente da dele.
  Meu primo bloqueou a tela do meu celular e o guardou no bolso interno de sua jaqueta. Notei que ele não estava em seu melhor estado: sua respiração estava descompassada e ele mordia os lábios com força, lutando para guardar os seus segredos.
  - Não sei se você conhece o termo, mas o que eu acabei de fazer foi um blefe. Não vou te matar, , apesar de querer muito fazer isso, nesse momento.
  - Você realmente acha que se importa com o meu bem estar? - questionei, dizendo coisas que faziam meu coração apertar. - Primo, eu tenho certeza de que o lado Corvo dele é mais forte do que qualquer outro sentimento.
  Thomas me encarou, levemente incerto, e voltei a argumentar:
  - É tolo da sua parte acreditar que viria atrás de nós… Pior ainda é achar que ele trocaria um artefato tão valioso por alguém como eu, sua inimiga.
  O homem virou um longo gole de seu uísque e lambeu os lábios, antes de falar:
  - Você não me engana, . Eu sei que, no fundo dessa casca grossa de Harpia, existe um lado humano, com sentimentos que não podem ser meticulosamente controlados. Consigo ver o amor que você tem por e sei que ele sente o mesmo. Isso é uma fraqueza a ser explorada.
  Engoli em seco ao ouvir aquelas palavras. Todas minhas defesas estavam desmoronando e Thomas sabia exatamente o que estava fazendo.
  - É por isso que eu tenho certeza absoluta de que estará em Lynden, assim como eu mandei. Ele vai me dar o cetro e, então, nós podemos partir em nossos caminhos separados.
  Fiquei alguns minutos em silêncio, processando tudo que ele havia dito. Involuntariamente, deixei uma fina lágrima escapar e Thomas notou, pois logo falou:
  - Não quero que você seja uma donzela em perigo - ele me ofereceu um lenço, que aceitei de bom grado. O homem respirou fundo, como se também estivesse cansado, e falou: - Sei que não concordamos em várias situações, mas, no fim das contas, somos uma família. Espero que perceba que eu não sou o vilão dessa história, .
  Ele se levantou e foi até a cabine do piloto, me deixando a sós. Fechei os olhos, tentando compreender o que havia acontecido e apenas um pensamento me veio à mente: talvez, me reconciliar com meu primo poderia ser a solução.

  Assim que o jato aterrissou, pegamos um carro que nos levou de volta à faculdade.
  Ao chegarmos na universidade de Lynden, parecia que eu havia entrado em um outro mundo: o gramado estava coberto de neve, haviam poucos alunos no campus - devido ao período de folga para a comemoração de Ação de Graças - e nenhuma viatura visível. O ambiente perfeito para crimes secretos.
  Thomas me guiou até o dormitório masculino, na ala leste. Ele me segurava pelo ombro, quando notei que havia nos guiado até a sala de estudos - onde nós Harpias costumávamos espionar os Corvos.
  - Então, finalmente conheci a central dos Corvos! - falei, tentando descontrair.
  - Como se você nunca tivesse visto antes - Thomas respondeu, com um leve sorriso no rosto. - Todos nós sabemos da existência daquilo.
  Ele apontou para a câmera, escondida na prateleira. Em resposta, dei de ombros, sentindo o gelo entre nós derreter aos poucos.
  - Vamos ser sinceros: onde está o verdadeiro covil de vocês?
  - Isso é segredo, . Se eu mostrar para você, é capaz de eu ser expulso da sociedade.
  - E não é isso que você quer? - perguntei honestamente, sem acusá-lo.
  - Não sei ao certo, ainda… Eu só quero abrir meu próprio negócio, parar de entregar grande parte do meu lucro para os Corvos mais velhos. Eles são sanguessugas e eu estou farto disso.
  Assenti, compreendendo o que Thomas queria dizer. Nas Harpias, nossos lucros também eram divididos para os membros atuais e antigos, mas, diferentemente dos Corvos, apenas uma pequena porcentagem ia para as alumnis.
  Após algum tempo em silêncio, Thomas se decidiu:
  - Quer saber de uma coisa? Vou te mostrar o nosso covil… Bem, a partir de agora, esse é o covil deles.
  Ele foi em direção ao enorme tapete, pendurado na parede de pedra mais distante da sala, e arrastou a decoração para o lado, revelando uma porta misteriosa. O homem ficou completamente de costas para mim, impedindo que eu visse como era feito para destrancar a porta. Em um piscar de olhos, uma passagem escura se abriu à nossa frente e Thomas começou a descer as escadas, sem esperar por mim.
  Eu poderia fugir e pedir ajuda, mas, como meu primo havia dito, não sou uma dama em perigo. Eu sou uma Harpia.
  Além disso, minha curiosidade falava mais alto que o sentimento de medo.
  Foi dessa forma que eu me vi ali, descendo as escadas de pedra, em direção à casa dos Corvos - um lugar onde eu definitivamente não era bem-vinda.

  No meu imaginário, o covil dos Corvos era um ambiente escuro, úmido e assustador, mas, na realidade, era uma sala ampla e moderna. No centro, uma mesa longa de vidro era rodeada por cadeiras vazias. Nas paredes, vários monitores brilhavam com fotos de artefatos e mapas antigos. O espaço era bonito e poderia facilmente ser confundido como uma sala de reuniões de um escritório comum.
  - Impressionada? - Thomas me tirou dos devaneios.
  - Não gosto de admitir isso, mas sim, estou realmente maravilhada.
  Me sentei na cadeira da ponta da mesa, analisando tudo ao meu redor. Meu primo se sentou ao lado e puxou meu celular de seu bolso:
  - Pelo visto, ainda não respondeu - a voz de Thomas soou angustiada.
  - Eu te disse que ele não seria capaz de abandonar seu lado Corvo por uma Harpia como eu.
  Mordi o interior de minha bochecha, tentando controlar a dor que apunhalou meu coração. Eu posso estar sendo dramática demais, mas, depois da montanha russa de emoções que vivi nos últimos dois dias, ninguém pode me julgar.
  Thomas começou a digitar uma mensagem em seu celular e, pelo que notei, ele pareceu preocupado.
  - Primo, acho que nós dois fomos derrotados desta vez. provavelmente está utilizando o artefato para livrar ele e os amigos dos policiais e, logo mais, terá vendido o cetro. Então, será que podemos acabar com toda essa brincadeira e seguir em frente?
  Ele pareceu me ouvir, pois parou o que fazia e se virou para me encarar. Thomas estava pensando o mesmo que eu: era um dos Corvos mais fiéis, seria impossível ele aceitar trocar um objeto valioso por uma garota.
  - Tudo bem, imagino que o dinheiro que eu tenha seja suficiente para desaparecer por um tempo e começar minha própria empresa em um lugar bem longe daqui - o homem suspirou, se levantando.
  - Você não vai continuar em Lynden? E os Corvos?
  - Prima, vou deixar os Corvos para . Afinal, ele sempre quis ser o líder da sociedade, não eu - o homem riu, se sentindo leve. - E, além disso, já consegui todos os créditos necessários para me formar.
  Respirei fundo e, deixando todo o passado de lado, estendi a mão para Thomas. Ele a apertou e deu um sorriso mínimo:
  - Foi um prazer duelar com você durante esses anos de sociedade. Espero que um dia me perdoe por tudo que fiz.
  - Um dia quem sabe… - eu sorri de volta para o homem, notando que o medo que eu sentia ao ter contato com Thomas havia diminuído. - Nos vemos em algum Natal?
  - Quem sabe…
  Meu primo se ergueu e falou, antes de desaparecer pelas escadas de pedra:
  - Se eu fosse você, sairia daqui o mais rápido possível, antes que o meu patrocinador chegue.
  Eu mal tive tempo de reagir, quando senti um objeto cilíndrico e gelado encostar em minha nuca. Thomas já havia sumido na escuridão e, pelo visto, o verdadeiro vilão da história havia chegado.

CONTINUA...