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#013 Temporada

Consequences
Camila Cabello



Consequências

Escrita por Bea | Revisada por Songfics

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PARTE UM

  A luz colorida que corria pelo espaço como se busca-se por alguém caiu nos olhos de Mirian e a cegou. Passou um longo minuto vendo escuridão e pontos aleatórios de luz antes de começar a enxergar normalmente.
  Esse seria seu segundo grande aprendizado da noite, evitar olhar pros refletores. O primeiro era o de que Julia não cumpria horários. Haviam marcados às 19 no ponto de ônibus, e, como era a primeira vez que saia sozinha à noite, Mia já estava pronta às 18h30.
  Sentada ali no ponto sozinha, vendo os carros passarem de um lado para o outro e nada da sua amiga. Pensou seriamente em desistir. Mas, com quase uma hora de atraso, Lia chegou.
  O cabelo chanel voava contra os lábios vermelhos aveludados. O vestido branco, justo, de alcinha acentuava suas curvas em formação pelos seus recém-formados 16 anos.
  – Já estava voltando pra casa.
  – Monbiju - começou Lia, botando as mãos nos quadris - ficar gata desse jeito exige dedicação.
  Por sorte (ou puro planejamento) o ônibus chegou logo em seguida.
  No trajeto, por mais que estivessem se divertindo, Mia não conseguiu controlar o pensamento de que, comparada a Lia, sua calça jeans e blusa cigana pareciam sem graça e apagadas demais.Os ombros só se encolheram ainda mais quando chegaram ao local e haviam mais Lias que Mias.
  Era um espaço de terra aberto entre rodovias sem movimento, com jogos de luz em ambos os lados do palquinho improvisado pro DJ. As luzes que a cegaram.
  Passearam por todo o espaço até encontrar, no centro, o grupo de amigos já reunidos. De todos os nove, Mia era a única que ainda não tinha completado 16, e suspeitava que era a única que nunca havia ido a festas se não com os pais.
  Demorou a se soltar. Foi sendo puxada por Lia que começou a dançar.
  No limite da multidão, encostada numa guarita policial tomada pelos festeiros, Tori a observava dançar livre e solta com sua amiga. Os cabelos ao vento, o movimento sem jeito de seus quadris, o sorriso grande e iluminado, Perderam um pouco do equilíbrio e caíram na gargalhada. Foi nesse momento que seus olhos se encontraram. Tori umedeceu os lábios e cumprimentou Mia, erguendo a garrafa de bebida long neck que tinha em mãos. Mia, com o coração a mil, não sabia se assim estava por conta da dança ou da interação. Sentiu suas bochechas ferverem e abaixou os olhos depressa. Não demorou muito pra voltar a olhar; Tori ainda a encarava.
  – Vai?
  Um copo de plástico suado e cheio subiu na frente de seus olhos hipnotizados. Um dos meninos oferecia qualquer que fosse a bebida alcoolica que estavam tomando.
  – Eu nunca… Não sei se… - começou a se enrolar
  – Mia, por favor, chama “primeira vez” por um motivo. - Lia se meteu, pegando o copo e dando um golão ardido. Ela fez careta e gritou, colocando os braços para cima.
  Mia riu, vendo a amiga fazer caras e bocas ao virar o copo uma vez atrás da outra até o copo secar. Não lhe parecia nem um pouco divertido.
  Pouco tempo após, Mia sentiu um toque no seu ombro. A garota que a observava tinha lindos cabelos pretos e lisos, e exalava um cheiro bom amadeirado estando tão perto.
  Se aproximou um passo para falar mais próximo a seu ouvido: - Me chamo Tori. Como é seu nome?
  O coração de Mia batia tão forte àquele ponto que podia senti-lo na ponta dos dedos. Perguntou-se se Tori sentiria caso apertasse sua mão. Tori. Nome interessante, diferente. Combinava com seus olhos castanhos puxadinhos e os lábios finos rosados. Um tempo de silêncio prolongara tanto que esses mesmos olhos puxados se estreitaram ainda mais em confusão. Lia deu um leve empurrão nas costas da amiga para desentalar: - Mia!
  Tori sorriu.
  – Mia. - assentiu para si - Quer dar uma volta comigo, Mia?
  – - Eu não se- e recebeu outro empurrão. Olhou pra trás. Lia fazia sinal com a mão para que fosse, dizendo:
  – Não vá muito longe. Estaremos aqui.
  Os olhos esbugalhados diziam para aproveitar as oportunidades e desbravar o mundo sem-pais.
  – Ela vai estar bem protegida. - disse Tori, chamando com a cabeça para que Mia a acompanhasse.

PARTE DOIS

  Andavam sem pressa uma ao lado da outra em direção ao limite da festa. Tori tinha suas mãos nos bolsos laterais da jaqueta jeans sem mangas. Mia não tinha ideia do que fazer com as mãos.
  – Eu não lembro de ter te visto antes. - Tori puxou conversa.
  – É a primeira vez que saio de casa. Quer dizer, não, tipo, na vida primeira vez. Mas sem meus pais primeira vez, sabe?
  Tori sorriu, assentindo. Mesmo na luz amarela ruim podia ver a vermelhidão no nariz e bochechas de Mia.
  – Quantos anos você tem?
  – Quinze. - e se adiantou - Faço dezesseis em dois meses e alguns dias.
  – Vai me convidar pra sua festinha?
  – Você quer ir pro meu aniversário? - confusa.
  – De preferência como seu par.
  –  Mas eu nem te conheço. - riu Mia, e se condenou mentalmente por ter sido grossa.
  – Isso a gente resolve.
  Tori parou de caminhar. Mia já tinha dado dois passos quando notou e virou de frente para a outra garota. Tori, nesse momento, tirou a mão direita do bolso e passou as pontas dos dedos delicadamente pelo antebraço de Mia, que seguiu o movimento com os olhos marejados de antecipação, os lábios entreabertos, a respiração forte.
  Tori acariciou a palma de sua mão com dois dedos antes de segurar com leveza os dedos de Mia, fazendo com que ela engolisse em seco.
  Tori deu um passo à frente, matando o espaço entre elas. Subiu a mão esquerda até os cachos que escondiam a face de Mia e, propositalmente, tocou seu rosto ao afastar a mecha. A negra ergueu os olhos em direção aos olhos da morena.
  – Você é muito bonita. - murmurou.
  Ao que Mia só conseguiu responder com um grunhido nervoso que emulava uma pergunta. Tori sorriu, e disse: - Eu vou beijar você agora.
  Mia umedeceu os lábios. Um convite. Cada segundo até os lábios finalmente se tocarem parecia uma eternidade. Fechou os olhos quando finalmente aconteceu. Dois selinhos e a língua quente de Tori pediu passagem entre os lábios de Mia.
  E enquanto suas línguas se tocavam, uma corrente quente de energia corria o corpo de Mia, fazendo-a sentir calor e gotículas de suor brotarem. Tori segurou em seus quadris e uniu seus corpos, fazendo pressão nos polegares, causando aceleração nas correntes sanguíneas, pulsação em todo o corpo.
  Estava vidrada no teto do quarto, relembrando todas as sensações no colchão de baixo da bicama de Lia.
  A amiga rolou no colchão de cima até chegar na borda e encontrar s olhões esbugalhados de Mia.
  – Não consegue dormir?
  – Não. - respondeu Mia, mudando a direção dos olhos para a amiga - Ainda não.
  – Tá pensando nela? - ao que Mia assentiu - Você beijou uma garota. E daí? Não muda nada, você sabe, né?
  – Muda. O que isso quer dizer? Eu sou tipo lésbica agora? Minha mãe vai me matar! - puxou o lençol até a cabeça.
  – Não necessariamente. Tipo, pode ter sido uma coisa de uma vez só. Ou pode ser que você goste de meninos e meninas.
  Tirou o lençol dos olhos.
  – É, né? Vai ver foi só o clima da festa. Se ela fosse um cara podia ter sido bom igual.
  – Então foi bom, é? Hmmm, safada!
  – Vai dormir, Julia! - e empurrou a amiga sorridente.
  Nos dias que se passaram, Tori e Mia interagiram todo dia, o dia todo nas suas redes sociais. Iam dormir em chamadas de voz, davam “bom dia!” logo que acordavam, tomavam banho em chamada de voz. Contudo, sempre que questionada, Mia negava qualquer envolvimento além-amizade.
  Durante uma ligação, Tori perguntou:
  – Quando vou poder te ver de novo?
  – Eu não sei. Tenho estado ocupada. - Mentiu, estava de férias.
  Silêncio.
  – Você não quer me ver.
  – Por que tá dizendo isso?
  – Você não quer me ver. Pode dizer. Você é boa demais pra mim. Tá tudo bem. Eu vou deixar você em paz. Tenha um bom dia, Mia!
  – Não! - se exasperou - Espera. Podemos nos ver.
  – Hoje?
  – Claro, porque não. - encostou a testa na mesa.
  – Ótimo! - comemorou Tori.
  
  Quando o sol se pôs, o porteiro interfonou.Uma garota de nome Vitória queria subir.
  – Quem é? - perguntou a mãe.
  – Uma amiga.
  Sua mãe olhou desconfiada para a japinha de calça justa e jaqueta sem manga. Porém não fez comentários quanto a ficarem no quarto.
  – Que quartinho de boneca! - comentou Tori, investigando a decoração em rosa e branco.
  – Tem sido assim desde que me entendo por gente.
  Sentou-se na beira da cama.
  – Já pensou em mudar? - perguntou Tori, sentando-se ao lado de Mia - Não combina com você.
  – O que você acha que combina comigo.
  Tori riu, maliciosa.
  – Eu.
  Mia encolheu os ombros, envergonhada.
  – Não vai dizer nada? - insistiu Tori - Você não gosta de mim?
  – Não é isso, é que… Eu não… Você foi a primeira garota. Eu to confusa.
  – Você não me quer? - murmurou, acariciando a bochecha dela com o polegar.
  – Tori, meus pais! Eles- sussurrava
  – Shhhhh…

PARTE TRÊS

  No aniversário de 16 anos de Mia, ela e Tori já estavam juntas como casal. Ao menos para os amigos de ambas e família de Tori. Os pais de Mia, por outro lado, mostravam resistência em entender que aquela garota com quem Mia estava para cima e para baixo sempre que tinha disponibilidade era sua namorada. O pai por negligência, a mãe por pré-conceito.
  Já haviam conversado sobre isso, e era o maior peso que Mia carregava nas costas, o fato de não ter apresentado Tori como sua namorada pros pais.
  Na festa, com olhos puxados marejados, Tori deu uma caixinha pequena em camurça de presente. A mãe da aniversariante observava de longe enquanto a filha pulava no pescoço da “amiga” e botava o anel no dedo anelar.
  Mia se sentia nas nuvens. Tinha amigos incríveis, estava apaixonada e vivendo seu primeiro namoro com uma garota que também estava apaixonada por ela, tudo andava em paz. Na volta pra casa, no entanto, a mãe segurou forte sua mão e gritou:
  – Que merda é essa, Mirian?
  – Um anel. - respondeu, tentando evitar o que sabia que estava por vir.
  – Você acha que eu sou idiota? Hum? Eu vi quando aquela garota te deu esse anel, Mirian. Eu não quero mais essa amizade, me ouviu bem? Acabou!
  – Não.
  – O que foi que você disse?
  – Eu disse que não. Disse que não vou deixar de ver a Tori. Não vou deixar de ver a minha namorada.
  O estalo do tapa ecoou pela sala.
  – Eu não criei você pra virar sapatão. Passe agora pro seu quarto e pense nas consequências dos seus atos.
  Mia botou a mão na bochecha quente e correu pro quarto com lágrimas grossas escorrendo pelos dedos. Ligou para Tori, soluçando, e gemeu o acontecido o mais baixo que pode para não ser ouvida pelos pais.
  – Ela. não. vai. me. deixar. te. ver. nunca mais.
  E desabou em lágrimas.
  – Ei, calma. Tá tudo bem! Nós vamos dar um jeito.
  A partir daquele dia, Tori não existia mais na casa de Mia, o assunto não era tocado, e o relacionamento entre mãe e filha se tornou frio e distante. Mia fingia que estava tudo dentro das exigências, mas fugia toda semana para se encontrar com Tori.
  Outra festa aberta aconteceu na cidade e Mia pediu pra ir com sua melhor amiga. Sua mãe que sempre gostara de Lia permitiu, com a condição de confirmar com a garota antes de sair.
  Queria impressionar a namorada, aguçar seu interesse. Então vestiu sua saia mais curta e sua camisa com maior decote. Não era tanto, apenas uma gola v, mas era o que podia. Pintou os lábios de vermelho, os olhos de preto e soltou os cachos. Tori iria adorar!
  Não demorou a encontrar o grupo de amigos de Tori. Todos eles se vestiam com roupas pretas e jaquetas. Estavam sempre fumando e/ou com uma garrafa de bebida nas mãos. Caminhou confiante em direção a namorada. Sorriu largo quando seus olhos se encontraram, mas a reação não foi a esperada. Tori fechou a cara e caminhou com passos fortes até Mia,que mudou seu semblante alegre para confusão pura. Pegando-a pelo braço, Tori arrastou a namorada para um canto mais escuro.
  – Você tá me machucando! - reclamou Mia.
  – Que porra é essa, Mirian? - grunhiu, largando o braço da garota.
  – O que?
  – Essa roupa curta. Tá querendo mostrar seu corpo pra quem?
  – O que tem demais na minha roupa?
  – Tá parecendo uma vagabunda!
  – Mas Tori, eu-
  – Não quero saber. Quer saber? To nem aí. Dê pra quem quiser dá. Eu não namoro puta.
  – Você tá sendo irracional.
  – Que seja. - resmungou, deixando-a.
  Mia, confusa, não sabia o que fazer. Não sabia, na verdade, o que estava acontecendo. Puxou a saia para baixo com vergonha, a camisa pra cima, abraçou os cotovelos e caminhou timidamente até o grupo de Lia.
  – Oi! Cadê a Tori?
  – Eu quero ir embora.
  – O que aconteceu?
  – Eu só quero ir embora, tá bem? - fungou, seus olhos estavam começando a arder - Pode me chamar um carro?
  – Tá bem. - murmurou Lia, preocupada.
  Podia ver as manchas roxas nos lugares onde as pontas dos dedos de Tori fincaram. Chorou no chuveiro com qualquer música tocando alto pra não ser ouvida ou vista, botou camisas de manga longa pra ficar em casa.
  Na manhã seguinte acordou com uma ligação de Tori. Mandara 15 mensagens, mas dormindo não tinha como respondê-la.
  – Oi. - atendeu Mia, desnorteada.
  – Oi, eu te acordei? Desculpa, neném.
  – Tori, o que você quer?
  – Eu me arrependi. Eu não queria ter dito aquelas coisas todas. Você sabe, não é?
  – Não queria?
  – Não, meu amor. De jeito nenhum.
  – Tá bem. Foi só um mal entendido.

PARTE QUATRO

  Estavam entrando no sétimo mês de namoro. Mia começava a entrar no modo vestibular. Se sentia sobrecarregada, cheia de matéria atrasada e ainda tinha que lidar com seu namoro às escondidas. Via Lia na escola e era isso. Não tinha mais tempo pra passar com a melhor amiga, o tempo que a mãe lhe permitia de lazer dedicava a seu namoro. Afinal, o esconderijo já lhe dava menos tempo com ela, ter que dividir o tempo entre ela e sua melhor amiga não daria certo. Aliás, já passava mais tempo com Lia do que com Tori já que 8 horas por dia estava na escola.
  Até que chegou o aniversário de Lia. Então cancelou os planos pressupostos com Tori para celebrar os 17 anos de Julia. Tori não reagiu muito bem à notícia.
  – Você já passa tempo demais com essa garota.
  – Essa garota é minha melhor amiga, Tori.
  – Tanto faz! Você já não me dá mais atenção como antes. Agora desmarca comigo por sua amiga. Posso ver como sou importante pra você, Mirian.
  Durante a festa de Lia, ligou para saber como Tori estava, se já tinha se acalmado. A música alta dificultava escutar qualquer coisa que Tori estivesse dizendo, mas ela parecia totalmente sem paciência.
  – Onde você tá? - perguntou Mia.
  – Não te interessa. Divirta-se com sua amiga.
  Antes de dormir, Mia recebeu mensagem de Tori no celular. Empolgou-se. Talvez ela estivesse mais calma, com a cabeça no lugar. Abriu o aplicativo a espera de amor, e encontrou o contrário. Uma garota ruiva debaixo das cobertas com Tori dormindo ao seu lado, ambas pareciam estar nuas. Sua cabeça ficou quente no mesmo instante. Via um dos seus piores pesadelos tomando forma e não sabia como reagir.
  Confrontou-a, ligou e exigiu que fosse a seu encontro naquele instante. Tori chegou em sua moto, o semblante confuso de quem não faz idéia do que está acontecendo. Mia mostrou a foto no celular com o rosto vermelho e raivoso.
  – Como pode? E ainda me mandar foto?
  – Eu não te mandei isso.
  – Quem foi então?
  – Provavelmente, ela… - apontando pra garota na foto.
  – Quem é essa garota, Vitoria?
  – Gabi.
  – Gabi…
  – Minha ex.
  – Então essa foto é antiga? - seu peito subia e descia, a respiração forte no fervor do estresse.
  – Não.
  – E você me responde assim? Com essa calma?
  – O que você queria que eu fizesse? Esperasse você? - sem esperar que Mia respondesse, ela continuou - Você não me dá mais atenção, Mia. Eu tenho necessidades! Eu to sendo muito paciente, mas se você não me dá o que eu preciso eu vou acabar tendo que procurar em outro lugar.
  – Ah, agora é culpa é minha?
  – Parcialmente. - deu de ombros - Se você prefere suas amigas a mim, se você só me vê uma vez na semana, se a gente não transa, eu me sinto só. Eu sou uma pessoa que precisa de carinho e de atenção e você não tem me dado isso, tem?
  Mia fungou. Cruzou os braços abaixo dos seios e deu alguns passos de um lado para outro. Um pouco mais calma, disse:
  – Você sabe que eu to em período de vestibular.
  – Eu sei, eu sei. Tá tudo uma bagunça. Vem cá! - e a abraçou. - Tá tudo bem. Vai ficar tudo bem.
  Mia se aninhou no peito da namorada.
  Tori sabia que a tinha nas mãos quando completaram 1 ano juntas. Conseguia tudo o que queria, se livrava com facilidade das discussões, mas uma coisa ela ainda não tinha conseguido.
  Naquela noite seus pais saíram para comemorar um aniversário de um amigo em comum, então Tori convidou a namorada pra sua casa. Fez o jantar, arrumou a mesa, comprou flores e chocolate além do presente de um ano. Jantaram, tomaram vinho que Tori a convenceu a experimentar, dividiram um bombom de chocolate e se beijaram. Não como os beijos calmos porém apaixonados. Tori estava numa velocidade acima, forçando seu corpo contra o de Mia, tocando seu corpo sem escrúpulos. Mia a empurrou.
  – O que foi, amor?
  – O que você tá fazendo?
  – Amando você.
  Mia a olhou questionadora. Tori sabia muito bem o que estava sendo perguntado.
  – Olha, porque não abre seu presente?
  Ela concordou, desembrulhando o pacote. Quando viu o tecido de renda vermelho já desconfiava do que se tratava, ouviu-a sussurrar em seu ouvido quando tirou a lingerie por completo: “Por que não veste pra mim?”.
  Sentiu seu coração acelerar. Não sentia que estava pronta para qualquer forma de interação sexual. Mas assentiu ao ouvir que ela “só queria ver como ficava”.
  De frente ao espelho muitas vozes gritavam para que vestisse a roupa e fosse embora, mas saiu do banheiro mesmo assim, de lingerie vermelha, coração gelado.
  Tori umedeceu os lábios e foi em direção à namorada, passando sua mão sem permissão pelo corpo despido da namorada. Tori segurou em sua mão e, a passos lentos, a guiou para seu quarto. Deitou-a na cama, apertou suas coxas.
  Mia não estava pronta.
  Mia não estava pronta.
  Mia não estava pronta.
  Tori apertou seus seios.
  Tori apertou sua bunda.
  Tori invadiu sua calcinha.
  Pediu silenciosamente para que acabasse logo.
  Primeira vez não são necessariamente boas…. né?
  Passou horas no chuveiro quando chegou em casa após sua primeira vez, esfregando seu corpo mas ainda se sentindo suja. Não entendia como podia se sentir tão suja, não tinha feito nada demais pra sentir como se estivesse com várias camadas de sujeira. Suor e poeira de novo e de novo.
  O que tinha acontecido, afinal? Ela não queria que tivesse sido daquele jeito. Nem que tivesse sido de jeito nenhum. Não estava pronta. Mas também não disse não. Tori tem necessidades, que besteira ficar adiando. Estando juntas a tanto tempo é natural que isso aconteça uma hora. Pelo menos foi com alguém que a ama. Né?
  Ou não?
  Tori sabia que Mia não estava pronta. O que custava esperar só mais um pouco?
  Mas ela esperou tanto, não esperou? Um ano sem sexo pra quem já tem vida sexual ativa deve ser muito. Se bem que houve o incidente com Gabi então não foi um ano.
  “Lia”, digitou “preciso conversar”.
  Contou todos os acontecimentos da noite anterior e todos os seus pensamentos confusos. Lia desconfiava desde o problema na festa aberta que o relacionamento da amiga não fosse saudável. Conversou com ela sobre relações tóxicas, sobre relacionamento abusivo, sobre estupro e violência psicológica. Em todos eles havia um ponto que já havia acontecido entre elas. Mia refletiu, resolveu confrontar a namorada.
  O resultado?
  O estalo do tapa ecoou pela sala vazia.
  – Você tá me chamando de estupradora, Mirian? Como ousa?
  – Não foi o que eu disse. Eu só disse que eu não estava pronta, e esperava que você entendesse mas você se forçou em mim.
  Outro estalo. E mais um. Um empurrão e Mia estava no chão.
  – Por que você tá fazendo isso?
  – Pra você aprender a me respeitar.
  Tori a pegou pelo cabelo e a levantou do chão com agressividade.
  – Tori, para! Você tá me machucando.
  Ela ergueu o dedo na cara da refém, cuspindo ao dizer:
  – Isso é pra você nunca mais repetir.
  Mia ergueu as mãos pra tentar se defender e Tori empurrou suas mãos, jogando-a novamente no chão. Jogou o capacete de Mia contra a parede e bateu a porta atrás de si. Deixando-a no chão. Mia telefonou.
  – Lia, - miou - ela me bateu.
  – Eu to chegando.

PARTE 5

  Em toda festa, ela estava lá, observando-a. Em toda esquina Mia sentia um frio na nuca. Se alguém se aproximava, ela temia que a machucassem e então se fechava.
  Amar Tori foi energizante, foi selvagem, foi libertador.
  Mas amar Tori também fez cicatriz, escuridão, trouxe dor.
  Se é que isso é amor.

FIM