Because I'm Stupid

Escrito por Nicki Snows | Editado por Mariana

Tamanho da fonte: |


  Terminei de cantar mais uma música e fiquei dedilhando no violão, na esperança de conseguir mais algumas moedas naquele fim de tarde, mas notei que por mais um dia eu estava sendo ignorado em meio ao vai e vem dos trabalhadores, porém não me entristeço, pois eu amo o que faço e sem arrependimentos. Conseguir arrancar um sorriso da criançada do bairro é algo quase impossível, mas de alguma forma, eu me sentia satisfeito em diverti-los com meu violão.
  Num momento de distração, olhando à minha frente, avistei a moça por quem eu espero encontrar todos os dias, enquanto estou pelas ruas. Ela havia se mudado para o meu bairro recentemente e desde então, namora o rapaz mais cobiçado pelas moças da vizinhança, pois por onde ele passa, há uma onda sonora de suspiros. Além de pertencer a uma família de posses, ainda tem boa aparência. Apenas com estes fatos, minhas chances são reduzidas drasticamente. Mas eu posso entender; não tenho família, não tenho dinheiro, não tenho casa luxuosa, não tenho carro... E eu poderia estender essa lista por mais mil anos, ainda não seria a pessoa por quem ela se interessaria, ainda que não tivesse namorado.
  A minha frustração é vê-la sempre acompanhada de seu namorado, não que eu torça pela infelicidade dos dois, eu não tenho esse direito e nem desejo o mal a eles. Eu apenas sinto que... O problema está aí, eu sinto. Sinto algo por ela, não sei como explicar, visto que é difícil até de compreender, e por mais improvável que a situação pareça, dentro do meu coração, há uma esperança inexplicável de que eu ainda terei a chance de me aproximar dela. Só preciso ter paciência, pois a espera parece torturante, mas é necessária.
  Deixando de pensar na moça, percebi que a noite foi caindo, deixando-me preocupado, pois olhei para o chapéu à minha frente e percebi que ainda estava vazio. Os últimos dias estão sendo mais difíceis que todos os outros juntos. Confesso que os dias de eventos na cidade são os mais lucrativos, muitos turistas hospedam-se pelo bairro, procurando por diversão e eu tento proporcioná-los o máximo do meu talento e eles me recompensam com generosidade, digamos assim, mas a vida é desta forma, você dá e recebe, e precisamos ter consciência que tudo é uma troca de favores.
  — Ei, xará – olhei à minha frente, deparando-me com o rapaz que eu acabara de ver entre carícias com a moça.
  — Pois não?! – Respondi normalmente.
  — Poderia cantar alguma música para a minha namorada? – Ergui uma sobrancelha. — Na verdade, poderia me emprestar a sua voz?
  — Você quer que eu te empreste a minha voz? – Ele ergueu os ombros e assentiu — Isso é loucura!
  — Amigo, eu estou prestes a pedir minha namorando em casamento, você quer estragar esse momento mágico? – Indagou-me num tom de tristeza e eu comecei a me odiar por estar pensando no assunto.
  — As chances de dar certo são mínimas!
  — Não se preocupe, eu te pagarei bem por isso.
  — A questão não é o dinheiro, mas... – Calei-me quando percebi que se tratava do namorado da moça a quem eu iria me referir. — Como você fará para eu me esconder? Essas pessoas passam por aqui todos os dias, elas me conhecem.
  — Apenas relaxe a sua garganta por enquanto, do resto cuido eu. – Ele saiu caminhando e eu suspirei arrependido.
  — Meu jovem, eu ouvi tudo – um senhor, dono da banca de jornal próxima à cafeteria da praça, chamou a minha atenção, aproximando-se — E eu sugiro que não aja dessa forma, pois não será assim que você irá conquistar àquela garota.
  — Mas o que eu poderia fazer?
  — Pare de agir como um bocó. – Arqueei as sobrancelhas e ele riu — Acha que fazendo o que está prestes a fazer a moça irá perceber a sua existência?
  — Não, mas...
  — Mas o quê? – Ele bebeu um gole de seu café e olhou-me — Tenho experiência no assunto, meu caro. Sou velho, mas ainda estou sã, sei o que falo.
  — Não quero atrapalhar a felicidade do casal. – Pensei um pouco — Além do mais, eu preciso do dinheiro.
  — Felicidade? – Eu assenti — Bem, creio que ela pense estar feliz ao lado dele, mas talvez não o conheça tão bem para ter a felicidade como garantia na vida.
  — O que o senhor está insinuando?
  — Ele teve uma noiva e a largou por ser um mau-caráter. – Meus olhos quase saltaram do rosto — Não gostava da moça por ela ser de peso avantajado, disse que se sentiria envergonhado em apresentá-la à sociedade como sua futura esposa.
  — Apenas por essa razão? – O senhor assentiu suspirando e bebendo um gole deu seu café. Indignei-me com tamanha insensibilidade da parte do rapaz para com a antiga noiva. — Então ele é um tremendo canalha!
  — Pelo qual você entregará a moça que tanto admira.
  — E-eu... – O senhor riu mais uma vez — Como eu a faria me notar se ela só tem olhos para aquele indigno? Ela nem sabe sobre meus sentimentos.
  — Pare de choramingar e se faça ser notado! – Ele bateu com o jornal em meu crânio e encarou-me — Quando tiver oportunidade, aproxime-se dela, seja gentil, faça-a rir, seja verdadeiro, tente conquistá-la pela amizade. Seja um bom amigo.
  — Para eu ser um de seus padrinhos de casamento? Não, obrigado.
  — Filho, entenda uma coisa; um bom relacionamento começa a partir de uma bela amizade. – Ele olhava-me firme, passando-me confiança em suas palavras. — Agora eu preciso voltar para a banca, não posso deixar meu aprendiz sozinho por muito tempo.
  — Agradeço pelos conselhos, senhor.
  — Em outra hora nós conversaremos melhor. – Eu assenti, sorrindo levemente — Até mais, meu jovem.
  — Até.
  Dar ouvidos a voz da experiência é ser sábio, e eu não quero ser tolo e ainda perder a chance de conhecer a mais bela jovem por quem eu já me encantei. E se for necessário ser mais firme em meus pensamentos, então eu serei.
  — Encontrei alguns biombos antigos na loja do meu amigo, estavam prestes a serem jogados no lixo. – O rapaz retornou, arrumando os objetos ao meu lado — Escute a minha ideia genial, você conseguirá esconder-se atrás de um destes, então irá cantar em alto e bom som. – Rolei meus olhos, um pouco irritado — E o melhor vem agora, estes biombos serão parte do cenário do pedido de casamento mais encantador que esta cidade já presenciou. – Olhou-me, empolgado — Não acha criativo?
  — Eu prefiro manter-me calado até o momento da cantoria, preciso poupar minha voz. – Respondi de forma rápida, levantando-me de meu banquinho.
  — Certo, vou deixá-lo à vontade para prepara-se. – Assenti, afastando-me. Tomei um gole da água que eu sempre carregava em minha garrafa.
  Observei a movimentação dos curiosos que se aglomeravam em frente aos biombos, com certeza estavam ali prontos para assistir ao espetáculo, se é que eu posso chamar assim essa farsa, na qual eu irei participar.
  O pior nem é pensar no quanto eu estarei sendo um boboca, mas é ter a certeza que eu estarei sendo um boboca, entregando de bom grado a dama pela qual tomou meus pensamentos.

  — Já está tudo pronto para começarmos o evento – o rapaz aproximou-se de mim, avisando-me empolgado. — Vá para a parte traseira de um dos biombos e dê-me o seu violão. – Esbugalhei os olhos, respirando fundo.
  — Amigo...
  — Fique despreocupado, aprendi a tocar quando criança. Não irei desafiná-lo, menos ainda arrebentarei as cordas. – Eu permaneci apreensivo. — Por que está tão desconfiado? É apenas um violão.
  — É a minha ferramenta de trabalho, sem ela eu não tenho o meu sustento.
  — O quanto você recebe diariamente sendo artista de rua? – Eu ri de nervoso por estar tento essa conversa com o rapaz.
  — O suficiente para sobreviver. – Sabia que mentir não é o correto, mas não deixaria àquele homem tentar humilhar-me.
  — Duvido – encarei-o, erguendo a minha sobrancelha — Caso contrário, não estaria disposto a receber mais pelo empréstimo de sua voz.
  — Há de reconhecer que dinheiro é sempre muito bem-vindo. – Ele assentiu ainda de nariz erguido — E sim, o preço da minha bela voz é alto.
  — Uma lástima que os demais não pensem da mesma forma, não concorda? – Segurei-me para não partir para a violência, engolindo aquelas palavras a seco. — Acredito que não ser reconhecido pelo que faz de melhor na vida deva ser, no mínimo... – Ele parou para pensar um pouco, olhando ao nosso redor e voltando seu olhar para mim — Deprimente.
  — Responda-me você já que conhece bem esse sentimento. – Ele pigarreou, ajeitando sua roupa.
  — Como ousa?
  — Não conseguirá humilhar-me apenas por possuir riquezas, que na realidade pertencem ao seu pai.
  — Sou o herdeiro legítimo.
  — É verdade, porém só poderá desfrutar de sua herança após a morte de seu pai. – Encarei-o — A menos que você o extermine.
  — Eu jamais faria tamanha crueldade! – Eu conseguia ver a ira em seus olhos.
  — Não sei, não. Ao que parece, você é especialista em crueldades. – Ele arqueou as sobrancelhas — Romper o noivado pelo motivo que foi é um ato de extrema insensibilidade.
  — O que você sabe sobre isso?
  — O suficiente para afirmar que você fará outra moça sofrer por ser um canalha. – Mal terminei a minha fala e o rapaz direcionou-me um soco no olho esquerdo. — Não suporta ouvir a verdade?
  — Não de uma criatura como você que mal tem o que comer. – Eu ri fraco, claramente irritando-o.
  — Mesmo que falte o alimento em minha mesa, eu estarei transbordando dignidade por onde quer que eu passe. – Pigarreei, olhando-o firme. Estava preparando-me para os próximos golpes vindos dele. — Oh, perdoe-me pela franqueza, sei que você jamais poderá desfrutar desta sensação.
  Sem que eu tivesse tempo de reagir, fui golpeado duramente por ele. Vi a aglomeração de pessoas aproximando-se ainda mais, porém nem uma alma moveu-se para ajudar-me.
  — Brandon, solte-o! – Ouvi uma voz feminina interceder por mim, mas não pareceu adiantar, já que os golpes vindos dele tornavam-se mais fortes a cada palavra torpe que me eram proferidas. — Brandon! – Era ela, a moça que roubara os meus olhares por tempos.
  — Deixe o garoto em paz, imediatamente! – Foi a vez do senhor dono da banca de tentar me ajudar. Usou o restante de suas forças em minha defesa, ferindo o agressor com o nunchaku.
  — Velho intrometido – esqueceu-me largado no chão e virou-se ao senhor — Saia daqui. O meu assunto não é contigo.
  — Acontece que quando você mexeu com aquele jovem ali – ele apontou para mim — O assuntou se tornou um problema meu também.
  — É só o que me faltava, um velho metido a jovem querer me enfrentar. – O rapaz desdenhou do senhor, arrancando altas gargalhadas da multidão. — Ora, por um acaso foi treinado por Lee Fan? Pois se quer saber, eu sou o bisneto dele e herdei muitas de suas habilidades.
  — Seu bisavô foi o meu primeiro e único mestre, com ele aprendi principalmente a ter domínio sobre meus sentimentos. – O senhor suspirou fundo, parecia emocionado — Por isso venci todas as lutas que participei, durante toda a minha vida.
  — Só não venceu a luta pelo coração de minha avó.
  — Não foi necessário, o coração de Yasu sempre me pertenceu.
  — E, no entanto, ela casou-se com outro.
  — A vida não é como os romances que a maioria das moças leem, meu jovem. – O senhor parecia realmente afetado pelas palavras do rapaz, mesmo tentando não transparecer — Há decisões que são tomadas por nós sem o nosso consentimento.
  — Se a minha avó o amasse, teria lutado por esse amor.
  — Ela até quis – o rapaz se surpreendeu com a notícia — Mas eu não poderia permitir que Yasu se prejudicasse por minha causa.
  — Então você a entregou para casar-se com meu avô? – O senhor assentiu. — Que tipo de ser humano faz isso?
  — O tipo ajuizado. – A moça respondeu ao namorado num tom firme, claramente brava com o rapaz.
  — Não, o tipo covarde mesmo. – Ele respondeu, encarando o senhor.
  — Olha quem resolveu falar em covardia. – O senhor riu um pouco, mas enfraquecido começou uma tosse tão forte que o deixou sem ar.
  Mesmo sentindo as dores dos golpes que sofri, levantei-me do chão rapidamente, amparando-o em meu banquinho.
  — Tome esta água fresca – a moça o entregou um copo de barro cheio d’água — O senhor parece fraco, precisa descansar.
  — Não vai mais bancar o jovem lutador? Estava tão cheio de si. – O rapaz o provocara — A sua idade é avançada, não queira dar uma de valente.
  — Brandon, cale a sua boca e saia daqui! – A moça o ordenou.
  — Não antes de você ver e ouvir a surpresa que eu te preparei. – Ele encarou-me, fazendo sinal com as mãos para eu me esconder atrás do biombo.
  — Não conte mais comigo. – Eu disse firme e ele franziu a testa — Depois do que você fez com aquele senhor, eu jamais te serviria. Nem por todo dinheiro do mundo.
  — Do que ele está falando, Brandon?
  — Seu namorado iria pagar o jovem aqui para cantar no lugar dele. – O senhor desmascarou-o, e as pessoas começaram com os bochichos, irritando o rapaz. — Ele iria pedi-la em casamento.
  — Seu velho linguarudo! – O rapaz já ia se aproximando do senhor, quando eu a moça nos colocamos à sua frente. — O que é? Resolveu reagir à surra que eu te dei agora? – Direcionou seu olhar para mim.
  — Seu comportamento só me prova o quanto eu estava errada sobre você. – A moça disse, deixando escapar algumas lágrimas em seu rosto — Eu jamais me casaria com alguém tão desrespeitoso quanto você!
  — , você sabe que o meu sentimento por você...
  — Não é verdadeiro. Sim, eu sei. – Ela apenas secou seu rosto e encarou-o — Apenas finja que nunca me conheceu e eu farei o mesmo.
  — Eu não posso! – Ele coçou a cabeça — , por favor, me escute.
  — Por esta noite, deixe-me longe de sua presença. – Ela respirou fundo. — Preciso colocar os meus pensamentos em ordem.
  — Tudo bem, mas eu te levarei em casa.
  — Não, preocupe-se apenas em afastar-se de mim, por favor. – O rapaz surpreendeu-se com a rapidez da resposta da moça.
  — Mas...
  — Por favor, Brandon. – A contragosto, o rapaz assentiu e afastou-se de nós, reclamando com algumas pessoas ao nosso redor. A moça virou-se para o senhor, com um olhar terno e sorriu a ele — O senhor tem alguém com quem possamos deixá-lo?
  — Na verdade não, vivi só durante toda a minha vida. – Levantou-se com cuidado, recebendo a minha ajuda e a entregando o copo, já vazio — Mas não se preocupe, eu sei me cuidar.
  — Com todo respeito, senhor, mas não creio que seja prudente deixá-lo sozinho neste estado. – Eu disse com sinceridade — O senhor precisa de cuidados e eu o ajudarei.
  — Sim, eu concordo e me ofereço como voluntária também. – Ela sorriu docemente — Pode contar com a minha ajuda.
  — Agradeço a preocupação, mas não será necessário vocês pararem suas vidas por minha causa. – Ele me olhou — Você precisa ganhar a vida por essas ruas fazendo a sua arte, não queira ter mais uma preocupação na vida por causa de um velho teimoso como eu.
  — Senhor, eu faço questão de ajudá-lo, seria um prazer para mim.
  — Eu também sei que você sempre está por aqui tentando expandir o seu trabalho e eu não quero que você pare. – A moça disse e eu ergui minhas sobrancelhas — A sua música traz paz e alegria a crianças do bairro, e a mim também.
  — Mas você sempre ficava tão distante...
  — Como sabe disso? – Ela descansou uma de suas mãos na cintura, parecia surpresa.
  — Bem, vivo todos os dias a mesma rotina, então sempre tenho a mesma visão de tudo que acontece nessa praça. – Eu não queria dizer, mas a verdade é que eu sempre a observava, de longe. A parte ruim era vê-la trocando carícias com seu namorado.
  — Tem razão, você é como o vigia do bairro. – Ela soltou uma risada fraca, levando-me a encantar-me ainda mais por seu sorriso — A verdade é que eu sempre planejava um jeito de estar perto da sua música, mesmo sem Brandon perceber e acredite, eu conseguia.
  — Ah claro, a minha música. – Respondi um tanto decepcionado. Ela não iria querer a minha presença tendo a de seu namorado por perto. Mas pelo menos minha música a agrada, é um ponto positivo.
  — Meus jovens, eu irei deixá-los conversando por esta noite. Sinto-me cansado e vou aproveitar a indisposição para deitar-me. – O senhor disse, com a voz meio rouca, devido às tosses.
  — Eu o acompanho. – Ela disse, fazendo o senhor assentir.
  — Jovem, sei que está um tanto machucado pelos golpes que sofreu, mas vá até a minha banca e dispense o meu ajudante por hoje, por gentileza. – Eu sorri em aprovação — Pegue a chave da loja com ele e me traga.
  — Tudo bem, eu vou agora mesmo.
  Quando me virei para pegar meu banquinho, vi meu violão quebrado a alguns metros de distância, sabia que era obra de Brandon, por vingança. Senti meus olhos marejarem ao ver meu instrumento de trabalho em pedaços, foram anos de companheirismo e muitas lutas junto ao meu velho amigo, além das muitas lembranças. Com toda certeza, deixará saudades.

  No caminho à banca de jornal, fiquei pensando em como e quando teria condições de comprar outro violão, pois eu já não estava nos meus melhores dias de recebimento e o que eu ganho não daria para eu comprar um novo instrumento. A menos que eu deixasse de comer para economizar, e essa ideia é perigosa, porém tentadora, contudo eu não sobreviveria para ter um violão novo, então descartei esse pensamento.
  — Oi, boa noite – cumprimentei ao menino que estava limpando algumas fileiras de revistas — Eu só vim avisar que você pode ir para casa.
  — O senhor Hashida mandou você? – Ele parecia desconfiado.
  — Sim, ele não estava se sentindo bem e foi para casa repousar.
  — Deve ser pela tosse que ele está apresentando há alguns dias. – Ouvi atentamente ao menino — Senhor Hashida é muito teimoso e por isso não se cuida.
  — Agora ele terá os cuidados certos. – O menino assentiu — Ele também te dispensou por hoje e pediu a chave da loja.
  — Tudo bem – ele retirou a chave do bolso de sua calça e entregou-me — Diga a ele que eu desejo melhoras.
  — Pode deixar! – O garoto cumprimentou-me novamente e deixou-me fechando a banca.
  Rapidamente, retornei à praça e depois de perguntar a algumas pessoas onde o senhor Hashida morava, encontrei sua residência. Não tão luxuosa, com decorações típicas de um asiático que mantém os costumes e tradições de seus ancestrais. Muito gelada também para um senhor de idade avançada como ele.
  Tomei a liberdade de entrar em seu quarto, muito organizado e cheio de equipamentos de suas artes marciais, porém com uma janela enorme, que dava passagem a um vento nada favorável à sua saúde já debilitada.
  — Ah, você chegou. – aproximou-se de mim com uma cumbuquinha de cerâmica em mãos — Ele dormiu há pouquíssimo tempo.
  — Eu fechei a loja e trouxe a chave como o senhor Hashida havia pedido. – Pendurei o objeto ao lado da porta — Ele se alimentou?
  — Fiz uma sopinha fortalecedora, mas ele não tomou tudo. Mesmo assim fiz um suco de mirtilo e ele tomou um pouco, até sobrou. Se você quiser, ainda tem na jarra. – Assenti.
  — Agradeço muito a sua boa vontade em ajudá-lo.
  — Sinto que é um pedido de desculpas pelo mau comportamento de Brandon, sinto-me envergonhada por suas atitudes e até um tanto culpada.
  — Você não tem culpa de nada, não o obrigou a agir daquela maneira.
  — Sim, mas eu me sentiria melhor ajudando. – Ela sorriu, ainda com o olhar triste. — E com o tempo que eu gastaria pensando em Brandon eu faço uma boa ação. Eu sei que ele agiu muito mal, mas eu ainda gosto demais dele.
  — Entendo. – Senti-me um tanto incomodado por ouvi-la falar daquela forma de seu namorado, mas eu não tinha esse direito.
  — Bem, agora eu preciso ir, já que você está aqui com o senhor Hashida, sinto-me aliviada.
  — Eu te acompanho.
  — Agradeço o cavalheirismo, mas prefiro que você fique com ele. – Ela sorriu — A minha casa fica bem pertinho daqui, vou rápido. E você também está dolorido, fique e descanse.
  — Mas pelo horário...
  — Está tudo bem, amanhã eu vou para a faculdade pela manhã, mas à tarde venho direto para cá e você pode ir trabalhar sossegado.
  — Se assim você prefere, combinado.
  — Boa noite, então. – Ela saiu cuidadosa para não fazer barulho, já eu fiquei observando-a pela janela até a mesma desaparecer do meu campo de visão.
  Fui ao quarto para me certificar de que o senhor Hashida estava dormindo bem e retirei mais um cobertor de seu armário, o cobrindo de forma que o deixasse bem aquecido.
  Saí do quarto direto para a cozinha, sabia que não era correto procurar assim por comida na casa das pessoas, mas a fome incomodou-me de forma insuportável e eu fiz um sanduíche simples, alimentando-me junto com o suco de mirtilo que fizera.
  Voltei ao quarto para observar senhor Hashida e aparentemente, ele estava bem. Aproveitei o bom descanso dele para deitar-me ao seu lado, no chão e tentar dormir até ser acordado por ele.

  — Bom dia, meu rapaz. – Eu abri meus olhos lentamente, sentindo a claridade incomodar minha visão — Parece que ontem eu dei trabalho para dois jovens. – Olhei para senhor Hashida, que sorria de lado.
  — Não foi trabalho algum, nós apenas nos preocupamos com o senhor. – Levantei-me, espreguiçando-me um pouco. — Aliás, o senhor não devia estar se esforçando. – Ele abanou uma mão no ar, bebericando o café com a outra.
  — Bobagem! Sempre cuidei de mim mesmo, sozinho. – Suspirei, sabia que ele continuaria se esforçando sem necessidade. — Este velho que vos fala é vaso ruim, não quebra. Mas, ainda que se quebre, não fará falta a ninguém.
  — Por favor, não diga isso – Ele pausou o seu próximo gole no café e olhou-me surpreso — Sempre te vejo na banca de jornal, e nunca tivemos uma aproximação maior, mas ontem o senhor arriscou sua saúde já debilitada por minha causa, e sem motivo algum, eu não poderia desampará-lo depois desse gesto. – Olhei-o com os olhos marejados e o mesmo encarou-me — Não tenho mais família no mundo, todos já se foram. Porém, o senhor é o mais próximo do que eu poderia chamar de parente.
  — Meu jovem, eu...
  — Afeiçoei-me ao senhor – ele sorriu de forma discreta — E gostaria que agora fosse a minha família.
  — Meu caro rapaz – levantou-se do assento no chão, com certa dificuldade e segurou-se em mim, apertando-me em um abraço. — A partir de agora, serei o seu avô.
  Deixei-me envolver num abraço apertado que há tempos eu não recebia, escorei minha face em seu ombro e fechei meus olhos, era como abraçar o meu falecido avô. A falta da família sempre foi um problema interno que eu não gostava de expor, sabia que todos eles estariam em um melhor lugar. Mas ficar à mercê de si mesmo aos 17 anos de idade foi o meu maior desafio, e até hoje carrego um buraco imenso em meu coração chamado saudade. Não creio que ele será preenchido algum dia, mas a dimensão dele diminuirá, eu tenho certeza.

  À tarde foi aproximando-se e eu ouvi algumas batidas na porta. Deixei senhor Hashida escolhendo a sua próxima carta a ser jogada e logicamente, olhando todo o meu jogo, e atendi a , sabia que se tratava dela.
  — Oi, como estão? – Ela adentrou a casa com algumas sacolas em mãos. — Comprei alguns alimentos para te fortalecer, o senhor parece meio anêmico.
  — Não precisava se incomodar, mas agradeço. – Senhor Hashida disse, enquanto mostrava que venceu o jogo. Ficou sorrindo vitorioso. — Essas bolsas parecem pesadas, ajude-a a carregá-las. – Dei-me conta de minha indelicadeza e assenti freneticamente, fazendo rir.
  — Deixe-me te ajudar – levei as sacolas até a cozinha.
  — Bem, a partir de agora eu já posso ficar com o senhor Hashida, enquanto você trabalha. – Ela disse retirando alguns copos de cima da mesa e colocando-os na pia.
  — Difícil será fazer as minhas apresentações sem meu violão.
  — É verdade, eu sinto tanto pelo que Brandon fez. – Ela disse melancólica.
  — Ainda ficará com ele? – Perguntei curioso e olhou-me surpresa. — Desculpe-me a intromissão.
  — Eu ainda não sei o que farei, mas não vejo mais Brandon como alguém com quem eu queira estar. – Eu assenti — Não depois de ontem, nunca o vi agindo daquela forma.
  — Algumas pessoas sabem disfarçar muito bem quem realmente é, mas uma hora ou outra a máscara cai. Sempre cai. – Senhor Hashida disse sincero.
  — É verdade. – Ela limpou uma lágrima de seu rosto — Eu o conheci há pouco tempo, mas tínhamos um relacionamento muito bom e verdadeiro.
  — Ele não te contou sobre a noiva que teve? – Ela arregalou os olhos e senhor Hashida suspirou forte.
  — Bem, eu os deixarei a sós para conversarem melhor e tentarei trabalhar com o que tenho mesmo; a minha voz. – Saí da casa, deparando-me com Brandon.
  — Por que a minha noiva está num lugar como este – disse com desdém, apontando para a casa — Na companhia de pessoas como você e daquele velho, a quem eu surraria se não fosse pelo impedimento dela?
  — Por que não pergunta para ela?
  — Porque ela não me dá ouvidos.
  — Bem, se ela está te evitando é porque tem motivo.
  — Eu sei. – Ele bufou — Mas, talvez se você...
  — Não te ajudarei quanto a isso. – Tentei passar, mas ele impediu-me.
  — Eu já estou te entendendo – respirei fundo — Você não quer me ajudar porque gosta de .
  — E se for isso? – Eu arqueei as sobrancelhas e ele puxou-me pelo colarinho da camisa, furioso.
  — Garanto que você se arrependerá!
  — Brandon? – correu em nossa direção e ele soltou-me. — O que está fazendo aqui?
  — , eu peço que me ouça.
  — Eu não quero mais saber de você, Brandon. – Seu rosto se encharcou de lágrimas — Não quero mais ouvir as suas mentiras, a sua voz.
  — , por que está agindo assim? Que foi que te contaram?
  — A verdade sobre você.
  — O quê? Você me conhece, sabe tudo sobre a minha pessoa – ele disse cínico — Ainda assim acredita neles?
  — Eu achei que te conhecia, mas não. – Ela disse, secando as lágrimas. — Porém, agora que realmente o conheço, quero você longe da minha vida.
  — Mas, e quanto a tudo que vivemos juntos?
  — Que caia tudo no mar do esquecimento. – O rapaz arregalou os olhos — Saia daqui, Brandon. Saia agora! – Ela me abraçou, desmanchando-se em lágrimas e eu a acudi. Brandon olhou-me com tanta fúria, que pelo seu olhar consegui sentir a raiva que o possuía.
  Ele saiu apontando para mim como sinal de vingança, mas eu me mantive firme, mesmo que internamente estivesse intimidado. Não sei do que ele é capaz.
  Apertei em meus braços e fechei os olhos, sentindo o aroma que emanava de seu cabelo. Que sensação boa era tê-la tão próxima a mim!
  Seu choro era controlado, porém ela parecia tão enfraquecida devido a ele. E me corta o coração saber que suas lágrimas são de tristeza, ainda mais por um rapaz que não a merece. Nunca mereceu.
  Repentinamente, ela afastou-se de mim, secando o seu rosto nas próprias mãos.
  — Desculpe-me pela melancolia. – Pediu cabisbaixa, parecia envergonhada.
  — Não se desculpe por isso, foi um prazer tê-la... – Arregalei os olhos, dando-me conta de que me entregaria, por um deslize da afobação — Acudido.
  — Você deve saber como é gostar e iludir-se por alguém.
  — Ah sim, sobre isso eu tenho bastante conhecimento. – Eu disse com firmeza.
  — Achei que ele fosse diferente do que as pessoas costumavam dizer. Eu quis acreditar nisso, mas não. – Ela respirou fundo — A minha mãe estava certa.
  — Eu lamento por você ter que passar por isso, eu sei o quanto é ruim ser machucado por alguém – ela levantou seu olhar — Porém, Brandon demonstra gostar de você.
  — Ele sempre foi bom para mim, mas tudo foi uma farsa.
  — Pelo que parece, o sentimento dele por você não foi. – Estava me odiando por dizer estas palavras, mas não queria ver pior. E a verdade é que Brandon sempre demonstrou gostar dela.
  — É por isso que a dor se torna maior. – Ela suspirou forte — Mas eu quero superar tudo isso.
  — Por que não entramos agora e tomamos um chá junto com o senhor Hashida.
  — Então, eu preciso trabalhar, mas...
  — Seria egoísmo da minha parte pedir que você fique? – Seu olhar emanava tristeza, porém ao mesmo tempo doçura — Sua companhia me deixou mais disposta, talvez eu me sinta melhor com você por perto.
  — Bem, eu estou mesmo sem o meu violão, então, sem problemas. – Ela sorriu, alongando seu braço para pegar em minha mão.
  — Adoraria que você se tornasse meu amigo.
  — Eu também. – Respondi num tom de decepção, mas sem deixar transparecer.
  — A propósito, qual é o seu nome?
  — . – Sorri de lado.
  Adentramos a casa, encontrando senhor Hashida quase sem respiração, devido às fortes tosses.
  — Senhor Hashida?! – correu até ele, ajudando-o a se firmar. — O senhor tem algum nebulizador?
  — Sim, no meu quarto, ao lado da cama. – Respondeu com dificuldade.
  — Eu pego. – Corri até o quarto e peguei o objeto, voltando à sala e ligando-o imediatamente. — Aqui. – O ajudei a segurar a máscara.
  — Temos que levá-lo ao hospital, o senhor parece bem debilitado. – Disse , preocupada.
  — Hoje não, minha jovem. – Disse retirando a máscara, mas eu a coloquei de volta ao seu rosto. tocou a testa de senhor Hashida e olhou-me triste.
  — Bem, parece que o senhor está com febre – Ela pensou um pouco — Mas farei um chá de limão com mel para o senhor sentir-se melhor.
  — Agradeço, minha jovem.
  — Tudo bem, apenas pare de tirar a máscara de seu rosto. O senhor precisa fazer essa nebulização. – Ela olhou-me e eu assenti. Levantou-se indo para a cozinha.

  À noite aproximava-se e eu fiquei por minutos observando a respiração de senhor Hashida, que parecia não ter melhorado, o que estava me deixando preocupado.
   veio com uma bandeja, sentando-se à nossa frente. Serviu senhor Hashida em uma pequena cumbuquinha de barro, e logo após, serviu-me também.
  — Está muito bom, no ponto em que eu gosto. – Ele disse sorridente.
  — Fico feliz que o senhor tenha gostado. – Ela sorriu de volta e olhou-me curiosa — E você, , gostou?
  — Sim, está delicioso. – Respondi sincero.
  — Quero agradecer a ajuda de vocês, meus jovens – direcionamos o nosso olhar a ele — Tenho estado muito doente e sinceramente, não sei como faria para sobreviver daqui para frente. Mas então, vocês surgiram em minha como anjos e estão me tratando como se eu fosse o avô de vocês.
  — Fazemos tudo com amor e para nós dois, o senhor é sim o nosso avô. – tirou as palavras de minha boca.
  — Não se preocupe com nada, te ajudaremos em tudo que precisar.
  — Agradecido estou, meus jovens, mas agora preciso descansar. – Bebeu mais alguns goles do chá e pegou a cumbuquinha de suas mãos. — Sinto-me como se um caminhão me esmagasse.
  — Tudo bem, eu o levarei para o quarto. – O ajudei a levantar-se do chão e o apoiei até chegarmos à cama. Um imenso colchão fino de tão gasto, talvez seja isso que tenha causado o resfriado. Ajudei-o a deitar-se confortavelmente e fechei a grande janela, que fazia com que o vento gelado da noite invadisse o quarto, mais um motivo que poderia ter levado ele a se adoentar.
  — Boa noite, meu neto. – Ele disse, já de olhos fechados. Meu coração encheu-se de alegria ao ouvi-lo e eu sorri, involuntariamente.
  — Boa noite, meu avô. – Apaguei a luz e saí do quarto, encontrando deitada no chão. — Você...
  — Vou dormir aqui esta noite, já avisei aos meus pais. – Surpreendi-me com suas palavras e riu — Você parece surpreso.
  — Um pouco – confessei — Mas a cama no chão de senhor Hashida é bem extensa, cabe você também.
  — Tudo bem, daqui a pouco eu vou. – Assenti — Você já vai dormir?
  — Não, eu ainda estou sem sono. – Sentei-me ao seu lado e ela depositou sua cabeça em meu colo.
  — Estou curiosa.
  — Sobre o quê? – Franzi a testa.
  — Você. – Arqueei as sobrancelhas, incrédulo e olhei para seu rosto, que se mantinha frente à TV. — Conte-me sobre você.
  — O que você quer saber?
  — Tudo.
  — Bem, eu tentarei resumir, pois foram muitos acontecimentos. – Olhei para o teto, lembrando-me de tudo. — Eu morava com os meus pais e meus avós, eles sempre foram ótimos para mim. Meu pai era pescador e minha mãe cozinheira, minha avó ajudava minha mãe a cuidar de mim e meu avô tinha sua loja de móveis, que ele mesmo fabricava.
  — Vocês eram muitos unidos, eu presumo.
  — Sim, nós éramos. – Sorri ao lembrar dos nossos momentos juntos.
  — Vocês tiveram dificuldades? Eu digo, financeiramente?
  — Sim, havia tempo que meu pai não conseguia fazer boas pescas e os compradores não negociavam com ele, era quando a minha mãe com a ajuda da minha avó abaixavam o preço das refeições que vendiam, na esperança de lucrarem o suficiente para manter a casa, junto com o que meu avô ganhava.
  — Mas nem sempre as vendas eram boas, não é mesmo?
  — Sim, tanto da comida quanto dos móveis. – ajeitou-se no chão. — Mas sempre mantivemos a fé e a família unida, independente do que acontecia. Foi assim que conseguimos sobreviver.
  — E como vocês estão agora?
  — Meus pais faleceram em um acidente de carro ainda na minha infância – ela olhou-me de olhos arregalados — Desde então eu vivi com os meus avós.
  — Eu sinto muito, . Muito mesmo. – olhava-me com ternura, enquanto seus olhos estavam marejados. — E quanto aos seus avós?
  — Há poucos anos o meu avô adoeceu de um mal que nenhum médico descobriu o que era, e a enfermidade o levou a morte. – parecia ainda mais comovida. — Meses depois, perdi a minha avó. Ela nunca havia superado a morte dos meus pais, e quando o meu avô se foi, ela entrou em uma profunda tristeza e nem comer mais conseguia. – Apertei meus olhos, sentindo-os prestes a derramarem um mar de lágrimas. — Eu lembro que levava ela ao psiquiatra toda semana, mas já não tínhamos mais dinheiro para continuar com os tratamentos, mesmo eu tentando continuar o trabalho do meu pai e do meu avô. Precisamos vender o barco do meu pai para tratar do meu avô, e depois a loja dele para tratar da minha avó, mas não adiantou. Ela piorou tanto que seu estômago não aceitava mais alimentos sólidos, então a internaram e em uma semana, ela partiu. O médico disse que a sua idade avançada agravou ainda mais a situação. – Segurei-me para não chorar, não queria acordar senhor Hashida, também não queria ficar tão emotivo, não naquele momento. — Eu pedia tanto para ela tentar melhorar, tentar se alimentar, tentar reagir, pelo menos por mim. Mas eu via que ela não aguentava mais lutar contra a tristeza, e eu parei de pedir isso, foi quando ela descansou... Para sempre.
  — Sua avó foi uma mulher extremamente forte, e ela tentou ser ainda mais. E você via o quanto ela tentava, mas já estava sem forças. Sua avó aguentou até onde pode, mas tentou até o fim manter-se firme, por você, . – Assenti, suspirando. — E a sua sensibilidade em perceber isso, e tomar a dura decisão de deixa-la partir foi a prova do quanto você a amava.
  — É, acho que sim. – Não consegui mais segurar e chorei fortemente, lembrando-me do quão duro foi o golpe de perder a última peça que dava forma ao meu coração, a última parte da minha família, a minha avó que eu tanto amei.   — Oh, levantou-se e abraçou-me como se não fosse haver um amanhã. E só Deus sabe se realmente haveria! — Meu coração está em mil pedaços por ouvir toda sua história, e vê-lo assim me faz querer te abraçar para nunca mais soltá-lo. – Senti-me confortado como nunca antes. É sempre muito difícil lembrar da minha família e não me sentir só, e conviver com a saudade é terrível. — Saiba que seus pais foram verdadeiros heróis, fizeram de tudo durante a vida para não desamparar você. Seus avós também, mesmo com a idade avançada, não hesitaram em cuidar de você. Mas depois eles precisaram dos seus cuidados, e você retribuiu isso a eles. Você foi um bom filho e um ótimo neto enquanto pôde ser, e eu o admiro muito por isso. – Ela beijou-me na bochecha e eu abri meus olhos, respirando-fundo.
  — Desculpe-me por exceder-me, eu não costumo expor-me desta forma. Ainda mais quando o assunto é relacionado à minha família.
  — Não se desculpe por isso – Afastou-se um pouco para olhar-me — Eu que te agradeço por confiar em mim para compartilhar sua história, sinto-me honrada. – Sorri fraco — Depois de tudo que contou-me, acho que preciso demonstrar mais o meu amor por minha família.
  — Faça isso. – A incentivei — Eu fiquei sozinho no mundo aos 17 anos e hoje tenho 23. Foi difícil sobreviver em meio a tudo que aconteceu e ainda ser empurrado à vida adulta um pouco mais cedo, porém sem ajuda. E foi assim que me tornei artista de rua e desde então, sobrevivo disso.
  — Ainda passa por dificuldades?
  — Às vezes – a olhei simples — Não são todos os dias que consigo o suficiente para comprar comida.
  — Você deixou os estudos?
  — Não, eu consegui terminar o colegial. Só não consegui uma bolsa de estudos para a faculdade até hoje. – Pigarreei — Mas precisava tentar trabalhar durante o dia, quem sabe pela noite eu juntava alguma quantia considerável.
  — Você conseguia?
  — Raramente – suspirei — Mas quando sim, eu tentava guardar um pouco para no futuro entrar numa universidade. Porém, eu precisava pagar contas de luz, água, gás, além da comida...
  — Ninguém te ajudou? – Perguntou-me num tom de indignação.
  — Algumas pessoas ajudavam-me com roupas usadas de seus filhos e alguns mantimentos essenciais. – Ela assentiu — Até hoje agradeço a Deus por ter colocado estas pessoas em meu caminho, senão assim, tudo teria sido mais difícil.
  — Você em algum momento revoltou-se com tudo que te aconteceu?
  — Já sim, por muitas vezes. – Abaixei meu olhar — Mas então eu olho pela janela do meu quarto e avisto alguns moradores de rua perambulando durante a noite. No sol, debaixo dos bancos da praça refugiam-se; na chuva debaixo das marquises das lojas e edifícios; nos dias quentes refrescam-se de hora em hora na fonte de água que embeleza a praça; nos dias frios, encolhem-se perto dos fundos da padaria, lá é sempre quente, e à noite, cobrem-se com os pedaços de pano que saem direto da loja de tecidos para o lixo; para se alimentarem, esperam ansiosamente pela remessa de pães queimados quem saem da padaria; de frutas apodrecidas que saem da feirinha; de alimentos e produtos que saem do mercadinho com validade vencida; de pratos prontos ou lanches que não agradaram aos clientes, e que saem de restaurantes e lanchonetes; tudo isso vai diretamente para o lixo e é de lá que eles conseguem se alimentar, quando não são enxotados pelos funcionários. – Levantei o olhar — Depois de observar tudo isso, eu olho ao meu redor e tento enxergar o lado bom; ainda tenho a casa dos meus avós, então tenho um teto que me cobre da chuva e do sol. Tenho água fresca para hidratar-me e matar minha sede em dias quentes e cobertores confortáveis para aquecer-me em dias frios. Não tenho a geladeira cheia e às vezes, durmo sem ter o que sustente o meu estômago, mas consigo alimentar-me, de alguma forma. Àquelas pessoas a quem me refiro têm motivos para reclamar, e ainda assim são gratas. Por que eu, tendo pouco mais que elas, ainda reclamo? – engoliu o seco, estava sem resposta. — Consegue entender agora o nosso pensamento? Nós podemos até ter mais que eles, mas para nós não é o suficiente, sempre queremos mais. E nessa busca pelo mais, esquecemos de sermos gratos pelo que já conquistamos.
  — Estou sentindo-me tão mal agora. – Ela encolheu-se. — Eu tenho tudo o que quero, e talvez por isso não dou valor ao esforço dos meus pais para proporcionar-me tudo isso. Sou tão ingrata quanto egoísta, por vezes eu não quis abrir mão de coisas que nem me serviriam mais, coisas que eu podia ter doado, mas não quis me desapegar.
  — Não se sinta tão culpada por isso, é da natureza humana sermos assim. – Assentiu — Mas sempre podemos parar para refletir em como estamos agindo, melhorar na área em que estamos errando e combater a nós mesmos fazendo o que é certo, o bem.
  — Você tem razão – ela sorriu — Amanhã mesmo pedirei aos colaboradores da nossa casa que separem tudo que não usamos mais ou que nem mesmo utilizamos e farei doações. – Sorri largamente ao ouvi-la, meu coração encheu-se de alegria. — Pedirei também que preparem refeições para quem receber as doações, e que deem alguns mantimentos para cada um. – ficava cada vez mais empolgada. — Nossa, , isso será trabalhoso... Você me ajuda organizar tudo?
  — Claro, conte comigo! – Sorrimos — Está vendo, apenas em pensar assim você já está sendo grata e generosa, e isso é ótimo. – Ela alargou o seu sorriso — Sua ajuda ao senhor Hashida também é levada em consideração.
  — Eu faço de coração. Ainda tenho o meu avô paterno e materno, mas senhor Hashida é como o avô que a vida me deu. – Eu assenti, ainda sorrindo. — Obrigada por esta conversa, . Você é um rapaz simples e muito sábio, além de admirável e muito bonito. – Eu não quis demonstrar, mas estava explodindo internamente de felicidade por ouvir palavras tão sinceras a meu respeito, e saindo da boca de . — Eu o quero para sempre por perto. – Abraçou-me involuntariamente.
  — Eu também, te quero para sempre ao meu lado. – Eu disse com tanta sinceridade que a deixei envergonhada, mesmo que sem intenção. — Vamos dormir? – Tentei desviar a conversa.
  — Sim, agora estou com sono. – Levantei-me, ajudando-a a também levantar-se.
   levou a bandeja para a pia e apagou a luz do cômodo. A esperei ir para o quarto e apaguei a luz da sala. Entramos no quarto cuidadosamente, e pediu para dormir na outra ponta, sobrando-me apenas o meio da cama.
  Não demorei para entregar-me ao sono.

  — ?! – Acordei assustado — Não acredito que estava dormindo até agora!
  — Que horas são?
  — Hora de levantar. – abriu as janelas rapidamente, dando lugar a uma claridade que sensibilizou meus olhos. — Levante-se. – Ela puxou de mim a coberta que me cobria e a guardou.
  — , por que está tão brava?
  — Senhor Hashida sentiu-se mal, novamente. – Levantei-me em um pulo.
  — E como ele está?
  — Nada bem. – Apertei os olhos, respirando fundo. — Deixei-o na sala, fazendo sua nebulização. Comprei para ele um novo inalador, espero que o ajude.
  — Estou sentindo-me culpado.
  — Não fique, você não tem culpa de nada. – Assenti em concordância, mas ainda me sentia culpado. — Porém, se ele piorar, devemos leva-lo ao hospital, ainda que ele não queira.
  — Tudo bem.
  — Eu te trouxe um presente. – Ela foi até a sala. Franzi a testa desconfiado, não estava acreditando no que acabara de ouvir. — Tome. – Ela adentrou o quarto com um violão caríssimo e muito conceitual na atualidade.
  — , eu...
  — Não recuse – ela suspirou — Encontrei-me com Brandon hoje e ele contou-me o que fez com seu antigo violão.
  — , eu agradeço muito, mas não precisava ter feito isso por dó. – Ela franziu a testa — Eu juntaria dinheiro para comprar em breve.
  — Não te presenteei por dó, mas sim porque você merece. – Levantei meu olhar até sua face — Brandon não tinha o direito de destruir seu instrumento de trabalho apenas porque estava com raiva.
  — Ele precisaria de um motivo maior? – Ela parou para pensar e começou a rir. — Estou brincando, eu gostei muito do presente, obrigado. – deu uma corridinha para abraçar-me.
  — Fico tão feliz que tenha gostado! – Disse animada.
  — Você tem um bom gosto. – Repentinamente, afastou-se do abraço.
  — Brandon sempre me dizia o mesmo. – Ela parecia entristecida.
  — Vocês encontraram-se hoje – ela assentiu — Resolveram-se?
  — Infelizmente, não. – Sua voz estava embargada — Mas eu ainda gosto muito dele. – Meu coração apertou-se ao ouvi-la, mas mantive-me firme.
  — É compreensível. – olhou-me.
  — Que voz triste é essa?
  — Triste? Eu estou muito feliz, você deu-me um presente incrível. – Tentei desviar o assunto — E agora eu poderei continuar trabalhando como antes. – Ela forçou um sorriso.
  — Eu vou ficar na sala com o senhor Hashida, prefiro não deixar ele sozinho por muito tempo.
  — Tudo bem.
  Quando eu estava prestes a adentrar o banheiro, ouvi me gritar desesperadamente e corri até a sala. Senhor Hashida estava caído no chão, e não conseguia o levantar. A ajudei a colocá-lo sentado na almofada, pois sua casa não possuía sofá, e tentamos acordá-lo, mas sem sucesso.
   ligou para um dos motoristas de sua residência nos buscar.

  — Eu sabia que não devia deixa-lo sozinho. – dizia nervosa.
  — Não foi culpa nossa. Não foi culpa sua! – Eu tentava acalmá-la a cada segundo.
  Ouvimos uma buzinada, sabíamos que era o motorista e imediatamente, carregamos senhor Hashida até a entrada da casa.
  — Permita que eu o ajude, senhorita . – O motorista disse, referindo-se a mim e saiu do carro rapidamente, dividindo o peso do corpo comigo.
  — Cuidado, por favor. – pedia descontroladamente. — Cuidado com ele.
  Colocamos senhor Hashida entre eu e ela, para o segurarmos durante o trajeto. pediu para que o motorista nos levasse até o hospital do pai dela, e ele a obedeceu prontamente.

  Chegamos ao hospital e gritou pedindo por uma maca, os enfermeiros aglomeraram-se em volta de senhor Hashida e um homem que aparentava beirar seus 45 anos nos parou na porta do quarto.
  — Filha, o que aconteceu? – Abraçou .
  — Eu não sei, ele estava fazendo a inalação normalmente e nós dois estávamos conversando no quarto – O homem olhou-me e eu sorri de lado — Então quando eu voltei à sala, senhor Hashida já estava desacordado.
  — Você não o examinou? – O homem perguntou incrédulo e negou com a cabeça — Nem mesmo fez os primeiros socorros?
  — Não. – Ela bufou — Eu fiquei muito nervosa, não consegui pensar em nada além de trazê-lo ao hospital.
  — Minha filha, você não pode descontrolar-se desta forma, precisa ser firme. – O homem dizia com sinceridade — Você verá muitos casos parecidos ou até piores, que levam a óbito. Terá casos que você acompanhará desde o começo, mas que não haverá solução, e nessas horas você precisará lidar bem com isso.
  — Pai, eu sei, mas desde o começo da faculdade eu disse que não queria continuar cursando Medicina.
  — Sim, e eu repito o que disse: isto é apenas uma fase de rejeição que irá passar. – respirou fundo — Daqui a pouco você se apaixonará por essa vida corrida, porém satisfatória, de ser uma médica.
  — Vocação para isso ela já tem. – Eu disse sincero.
  — É verdade. – O homem concordou. — Não irá apresentar-me o seu amigo?
  — Esse é o , ele é aquele artista de rua que sempre fica na Praça do Sono, lembra?
  — Sim, eu me lembro. Você já tocou How Deep Is Your Love algumas vezes. – Ele disse empolgado. — How deep is your love, how deep is your love? I really mean to learn. ‘Cause we're living in a world of fools breaking us down, when they all should let us be. We belong to you and me. – Ele cantarolou não se importando com os olhares curiosos das pessoas ao nosso redor.
  — Da da da da da... – Cantarolamos em uma só voz.
  — Ah, ouvir essa música traz-me tantas lembranças boas com a mãe de . – Ele disse realmente emocionado. — E quando você toca, nós dançamos na sacada da nossa casa.
  — É sempre um prazer poder expressar-me através da música, e se a minha arte causa bons sentimentos a vocês, sinto que estou seguindo o caminho certo. – Ele sorriu largamente, concordando.
  — Não se esqueçam que aqui é um hospital, e o senhor Hashida está no quarto esperando por atendimento.
  — Fique tranquila, ele está com os enfermeiros e com toda certeza, algum médico já está cuidando dele.
  — Mas eu gostaria que você cuidasse dele, pessoalmente.
  — Tudo bem, eu já volto com notícias. – O homem ajeitou seu jaleco branquíssimo, retornando à sua postura anterior e retirou-se.
  — , eu sei que o meu pai é muito legal, mas estamos aqui pelo senhor Hashida. – Ela disse meio brava.
  — Perdoe-me pela empolgação. – Ela assentiu, assentando-se em um dos bancos na área de espera. — Você quer água?
  — Não, só quero que você fique aqui comigo, estou muito aflita. – Sentei-me ao seu lado e ela pegou em minhas mãos. A olhei tentando memorizar esse momento, ainda que não fosse na intenção e circunstância que eu gostaria. — Agradeço muito por estar sendo um amigo tão bom para mim. – Eu sorri de lado.
  Todas as vezes em que aproximava-se de mim era motivo para o meu coração acelerar e a respiração ficar falha, apesar de sempre conseguir disfarçar o nervosismo. Mas, logo em seguida, vem a decepção por saber que ela me enxerga apenas como um amigo.
  Eu realmente sou um bocó, bem como o senhor Hashida, sabiamente, disse. Por mais que eu aviste várias e belíssimas moças durante o dia inteiro, não consigo enxergar nenhuma além de . E a pior parte está no fato dela só ter olhos para Brandon, é só nele que ela fala e pensa.
  Eu nem mesmo devo estar em alguma parte de seu pensamento durante o dia e com certeza, nem imagina o que o meu coração sente por ela. Mas eu continuo pensando nela, até em meus sonhos e com isso, meu coração a cada dia se machuca mais.
  Definitivamente, sofrer por um sentimento não correspondido é uma das situações mais desagradáveis que o ser humano vive!

  Depois de bastante tempo de espera, o pai da apareceu, nos chamando até o corredor.
  — Vocês sabiam que ele não estava bem?
  — Nós sabíamos que ele estava resfriado e com muita dificuldade de respirar.
  — Verdade, ele não consegue respirar sem ajuda e tosse o tempo inteiro. – disse — Teve febre também.
  — Na verdade, ele teve uma gripe que não foi tratada e agora está com uma pneumonia tão forte que precisará ficar internado para ser tratado corretamente. Mas há outros fatores que também podem ter levado a isso.
  — Acha que a idade influenciou?
  — O avanço da idade é sempre um motivo mais forte para se cuidar melhor. – Assentimos. — Precisamos fazer alguns exames para termos certeza, mas ao que parece, ele também está com anemia e se for confirmada, o cuidado com ele será maior.
  — Senhor Hashida não se alimentava bem, só queria tomar chá ou suco, e nem bebia tudo.
  — Também abandonava a sopa pela metade. – disse preocupada — Se com a nossa presença ele mal se alimentava, imagine sozinho.
  — A pneumonia também tira a vitalidade da pessoa e diminuiu o apetite, então essa fraqueza pode ser causada pela doença. Mas a idade contribui. – Ouvia atentamente as palavras do homem — Ele fumava ou algo assim?
  — Nunca vimos nada do tipo na casa dele. – Parei para pensar um pouco — Mas ele dorme num colchão muito fino que fica no chão mesmo e no quarto dele há uma janela enorme que ele sempre deixa aberta e entra um vento muito gelado.
  — Essas podem ter sido a causa da gripe. – O homem disse, pensativo — De qualquer maneira, senhor Hashida ficará alguns dias internado aqui para tratarmos dele e certificarmo-nos de que sua saúde está sendo restaurada.
  — Vocês precisarão dos documentos dele?
  — Para fazermos o cadastro dele aqui no hospital, assim ele já recebe uma fichinha e sempre que precisar, poderá consultar-se. – Eu assenti, agradecido — E fiquem tranquilos, não cobrarei nada por isso.
  — Fico muito agradecido, ele é como um avô para mim. – O homem sorriu. — Já posso vê-lo?
  — Acredito que sim. Ele já foi medicado e agora tentaremos estabilizar sua frequência respiratória. – Assenti — Mas ele ainda está desacordado, porém descansando.
  — Tudo bem.
  — Também quero vê-lo. – disse firme.
  — Sigam-me.
  Caminhamos pelo corredor e paramos frente à um quarto. Adentramos logo após o médico e avistamos senhor Hashida dormindo, com alguns aparelhos conectados a ele. Aproximamo-nos dele e o observamos de olhos marejados.
  Estava sentindo-me muito triste por vê-lo tão frágil, parecia que eu estava assistindo ao meu avô novamente, enquanto definhava no hospital. As lembranças eram fortes e dolorosas.
   segurou minha mão e entreolhamo-nos, notando o olhar de tristeza um do outro. Algumas lágrimas escaparam de seus olhos, fazendo-me abraça-la fortemente, e mesmo que eu estivesse ali por senhor Hashida, não conseguia deixar de lado a sensação boa que era tê-la envolvida em meus braços e sentir o perfume de seu cabelo.
  Porém, eu não queria ser egoísta, desejava incansavelmente pela melhora de senhor Hashida e pedia a Deus por sua cura.

  Estava saindo de minha casa, rumo à Praça do Sono para mais um dia de trabalho, quando avistei ao longe e Brandon conversando. Ela sorria de forma tão doce, que pareciam estar entendendo-se com ele.
  Senti-me um tanto frustrado, todas as minhas investidas foram em vão e ela só me vê como um amigo legal. Continuo sendo um bocó por passar os meus dias pensando nela, enquanto ela passa os seus pensando em Brandon.
  Desviei o meu olhar para a banca de jornal de senhor Hashida, seu ajudante continuava trabalhando duro e apesar de muito jovem, o rapaz é responsável. Continuei o meu caminho e sentei-me no banquinho, posicionei o violão e comecei a dedilha-lo, e como mágica, a melodia acalmava o meu coração aflito e ansioso.
  — , não me ouviu chamando-o? – surgiu à minha frente, segurando seu material acadêmico. Parecia empolgada.
  — Bem, eu só vi você conversando com Brandon.
  — Em primeiro lugar, eu quero informá-lo que as nossas doações foram muito bem aproveitadas e eu estou orgulhosa do nosso trabalho duro. – Fiquei feliz em saber que pessoas foram beneficiadas por um gesto nobre da parte de — E em segundo lugar, você não vai acreditar no que eu pedi a Brandon. – Arqueei a sobrancelha, curioso — Ele disse que sua avó está na cidade, então eu o pedi que a levasse para visitar senhor Hashida.
  — O quê? – Surpreendi-me e ela riu — Como ele reagiu?
  — Não gostou muito no começo, mas depois cedeu.
  — Imagino o porquê...
  — – continuei olhando ao meu redor — Você está agindo estranho comigo, está distante.
  — Impressão sua, eu estou normal.
  — Então olhe para mim. – A olhei rápido, desviando o olhar para o violão.
  — Estou trabalhando agora, . – Comecei a tocar mais alto.
  — Tudo bem, não quero o atrapalhar.
  — Você não me atrapalha nunca. – Parei de tocar e a olhei — Desculpe-me pela indelicadeza.
  — Está desculpado. – Ela sorriu. — Eu entendo, você está nervoso pelos últimos acontecimentos.
  — Entretanto, isso não me dá o direito de tratar alguém com indelicadeza, ainda mais você, a pessoa pela qual eu tenho profunda admiração.
  — Certo. – Ela soltou um meio sorriso — Eu estou indo para casa agora, preciso alimentar-me e tomar um banho – assenti — Mas, se quiser ir comigo ao hospital e ver o reencontro de senhor Hashida com a senhora Yasu, encontre-me em frente ao meu portão às 14h30.
  — Te encontro mais tarde. – Ela assentiu e retirou-se.
  Como eu sou idiota! não tem culpa alguma por não ter conhecimento sobre os meus sentimentos por ela, na verdade, a culpa é totalmente minha. Já devia ter contado toda a verdade, mas como sou um covarde, estou vendo-a prestes e reatar o namoro com Brandon e nem mesmo dizer a ela o que sinto eu consigo.
  Sinto que estou perdendo aquilo nunca tive...

  13h58, terminei de cantar a última música do dia e recebi uma quantia generosa de uma senhora turista.
  — A sua música é boa.
  — Obrigado, senhora. Realizo o meu trabalho com amor.
  — Eu já percebi. – Sorri satisfeito — E se quer um conselho, continue desta forma. Você ainda realizará muitos dos seus sonhos, persista desta maneira.
  — Agradeço o conselho, senhora. – Ela sorriu, cumprimentando-me e retirou-se.
  Peguei o chapéu do chão e o cobri com meu casaco, levantei meu banquinho e fui para casa. Tomei um banho rápido e comi um sanduíche do dia anterior, ainda estava delicioso.
  Saí pelas ruas rumo à casa da e ela já me esperava no portão.
  — Estou atrasado?
  — Não, eu só queria passar um tempinho a mais com você, já que estamos um tanto afastados ultimamente.
  — Então, sobre isso eu...
  — Senhorita , já podemos ir? – O motorista perguntou, atrapalhando-me no meu raro momento de coragem. Obrigado mesmo, amigo!
  — Sim, vamos. – Ela direcionou-se ao carro, enquanto o motorista abria a porta. — Não seja tímido, . Entre.
  Seguimos um caminho tranquilo e proveitoso na presença um do outro, mal percebemos que já havíamos chegado ao nosso destino final.
  — Obrigada, Harvard. – disse ao motorista e saímos do carro. — Estou tão ansiosa por esse reencontro.
  — Acredito que senhor Hashida ficará muito contente.
  Adentramos o hospital e encontramos o pai da anotando algo em sua prancheta.
  — Ainda usando a prancheta?
  — Qual é o problema? Sempre achei mais prático e além do mais, gosto de escrever. – Ele sorriu, parando a sua escrita.
  — Nem vai adivinhar o que viemos fazer aqui hoje? – Perguntou , toda sorridente.
  — Com certeza não vieram visitar a mim. – O homem respondeu simples, continuando sua escrita. revirou os olhos, fazendo-me rir.
  — Eu sei que é obvio que viemos visitar o senhor Hashida – o homem balançou a cabeça de um lado para outro, concordando — Mas hoje ele receberá uma visita especial.
  — Mais especial que vocês? – Nós assentimos — Vocês não pagaram para alguma meretriz vir e...
  — Não! Claro que não. – respondeu mais que depressa, o interrompendo e eu só conseguia rir. — Isso aqui é um hospital.
  — Nem digo por este motivo, mas pelo estado clínico dele jamais teria fôlego para uma aventura assim – o homem parou para pensar — Por enquanto.
  — Pai, eu jamais faria isso! – Afirmou num tom bravo.
  — Eu sei, querida. – Ele riu sozinho — Mas então, de quem será a ilustre visita?
  — Na verdade, um amor da juventude de senhor Hashida virá visita-lo hoje. – Respondi por que já estava em seu limite.
  — Ah, isso irá ajuda-lo muito! – Ele animou-se ainda mais — Apesar de senhor Hashida ainda sentir dificuldade em respirar sozinho, ao longo dos dias, sua melhora foi muito significante. Os medicamentos estão fazendo o efeito esperado.
  — Isso é ótimo. – suspirou, olhando para a porta — Vejam, ela chegou.
  Uma senhora de boa aparência e muita classe entrara no hospital, acompanhada de Brandon, que segurava em seu braço.
  — Boa tarde a todos. – Ela cumprimentou-nos, sorridente — Espero não estar muito atrasada.
  — Na verdade, chegou na hora exata. – O pai de disse, ajeitando o seu jaleco — Acompanhem-me.
  — Estou tão nervosa que sinto as minhas mãos suarem. – Senhora Yasu confessou, nos fazendo rir.
  — Ficar tão nervosa na sua idade não é bom, vó. – Brandon disse preocupado.
  — Não se preocupe, se ela ter um infarto estaremos aqui para socorre-la. – O pai da disse rindo, deixando Brandon irritado. — Você precisa relaxar um pouco, meu jovem. Aliás, tanto estresse na sua idade também não é bom. – Disse, enquanto abria a porta do quarto.
  — Senhor Hashida, temos uma visita especial para o senhor hoje. – correu até ele, tampando sua visão.
  — Existe visita mais especial que a de vocês? – Perguntou ele, inocentemente.
  — Talvez a minha... – Senhora Yasu disse.
  — Essa voz eu reconheceria em qualquer lugar.
  — Responda o senhor mesmo. – destampou os olhos de senhor Hashida e afastou-se, dando espaço para ele e senhora Yasu.
  — Não pode ser! – Estava estático e incrédulo — Yasu?! É você mesmo?
  — Sim. – Ela respondeu emocionada e ele tentou levantar-se da cama — Não se esforce tanto, você precisa descansar. – Disse o impedindo.
  — Não consigo acreditar que depois de...
  — 40 anos – ela completou.
  — Sim, depois de 40 anos estamos nos reencontrando. – Senhor Hashida dizia emocionado e todos no quarto comoviam-se com sua felicidade. — Eu achei que isso nunca mais seria possível.
  — Mas aqui estamos nós. – Ela respondeu, sorridente e ele segurou uma de suas mãos, a beijando. — Você continua sendo um doce cavalheiro.
  — E você continua tão linda quanto no dia em que eu te vi pela primeira vez.
  — E galanteador. – Ela sorriu, envergonhada. — Lembro-me de estar dançando no Festival do Santuário Kasuga e sentia algum olhar que me incomodava, e não era o da população. Então, quando a dança terminou você veio falar comigo, mas o meu pai me observava de longe e eu tentei evitar contato contigo.
  — Era difícil, marcávamos de nos encontrar por cartas que nossos amigos traziam até nós. – Senhor Hashida lembrava, rindo fraco. — Nos escondíamos tanto do senhor Lee Fan.
  — Ah, meu pai era muito rígido. – Ela suspirou — Arranjou um noivo para mim que eu nem conhecia.
  — Foi difícil chegar até você, esse rapaz não te deixava sozinha por um minuto.
  — Porque ele sabia que eu gostava de você – Ela disse com simplicidade — E por isso não me deixava respirar.
  — E o que aconteceu com ele? – Senhor Hashida perguntou curioso.
  — Faleceu há quase 10 anos.
  — Eu sinto...
  — Não sinta. – Surpreendemo-nos com sua resposta — Eu aprendi a respeitá-lo como marido e pai dos meus filhos, mas nunca o amei.
  — Vó, por que está dizendo isso tão friamente? – Brandon revoltou-se.
  — Porque é a verdade, meu neto – Ela desviou o olhar para ele — É a mais pura verdade. – Brandon saiu do quarto, claramente chateado.
  — Brandon, espere! – saiu correndo atrás dele e eu senti-me um bobo por ainda estar ali.
  — Eu vou deixá-los a sós para conversarem melhor. – Eu disse — Aproveitem a companhia um do outro.
  — Sei o que está pensando, mas não desista agora, meu jovem – Senhor Hashida aconselhou-me.
  — Eu penso o mesmo, continue investindo. — O pai de concordou e eu senti-me confuso.
  — Como assim, o senhor já sabe?
  — Só não percebe o jeito que você olha para aquela mocinha quem realmente não entende do assunto. – Senhora Yasu respondeu-me, deixando-me envergonhado. — Ela parece ser uma menina romântica, invista em um jantar.
  — Ah, eu não tenho dinheiro suficiente para isso.
  — Não precisa leva-la a um restaurante caro, faça o jantar em sua casa. – Disse simples — Use o que você tem e se for bom nisso, cozinhe para ela. – Arqueei as sobrancelhas, pensando melhor no assunto — As mulheres adoram homens que cozinham, elas os consideram sexys.
  — Isso é realmente interessante. – Sorri de lado — Mas, e quanto a Brandon?
  — É exatamente igual ao avô, e por eu saber disso, estou dizendo que o futuro daquela menina será melhor com alguém sensível e romântico como você.
  — Agradeço os conselhos, tentarei coloca-los em prática. – Eu respondi sincero — Mas eu realmente preciso ir para casa agora.
  — Eu te acompanho até a porta. – Disse o pai da , também se retirando do quarto.   Saí do local, passando pelo corredor sem olhar para e Brandon.
  — – olhei para trás e estava vindo em minha direção — Já vai embora?
  — Sim, e-eu – tentei encontrar as palavras certas para a desculpa perfeita — Preciso organizar algumas coisas em casa.
  — Mas você ficou tão pouco.
  — Eu quero deixar senhor Hashida aproveitar a companhia da amada. – Suspirei — Sei como ninguém o que é reprimir um sentimento.
  — O que quer dizer? O que aconteceu?
  — Nada. – Forcei um sorriso — Só pensei alto demais.
  — Você está muito estranho, . – Ela disse num tom melancólico — Por favor, conte-me o que está deixando você aflito.
  — Jante comigo amanhã e eu te conto tudo. – O que estava acontecendo comigo? Eu não usava a esperteza com frequência, mas aproveitei a oportunidade para pôr os conselhos que recebi em prática.
  — Sem esconder-me nada?
  — Nada mesmo.
  — Tudo bem. – Ela sorriu fofa — Será um encontro?
  — Bem – engoli o seco.
  — Estou brincando contigo. – Ela soltou uma risada gostosa — Mas onde iremos jantar?
  — Em minha casa, às 19h00.
  — Hum, que aconchegante. – Nós rimos — Finalmente, eu irei adentrar a sua casa. Só a conheço de vista.
  — Sim. – Eu sorri bobo — Então, nos vemos amanhã.
  — Quer que eu peça a Harvard que te leve?
  — Não será necessário, mas agradeço. – Sorri em agradecimento.
  — Então eu vou caminhando com você, só preciso...
  — – a parei — Não precisa fazer isso se não quiser.
  — Eu não tenho mais o que fazer aqui.
  — Você não estava com Brandon?
  — Sim, estávamos conversando sobre nós. – Engoli o seco — Mas eu não tenho certeza de nada. Não gosto de falar sobre isso.
  — Tudo bem, desculpe-me.
  — Ei casal! – O pai de chamou-nos, fazendo Brandon irritar-se. — Já estão de saída?
  — Sim, nós daremos um passeio para aproveitar o dia.
  — Como assim, ? – Brandon indagou surpreso. — Você disse que falaria rapidamente com ele e depois continuaríamos a nossa conversa.
  — Mas não está sentindo-se bem, eu farei companhia a ele.
  — O quê? Vocês estão saindo a passeio. – Indignou-se Brandon. — Se não está bem, aqui é o lugar certo para ele.
  — Ele não precisa de um médico, mas sim de uma amiga que o ouça e o entenda. – Brandon cruzou os braços e riu.
  — Bem se ele precisa apenas de uma amiga e nada além disso, o acompanhe sim. Por que não? – Continuou rindo, provocando-me.
  Por um instante, senti-me chateado e até envergonhado, mas eu não queria deixar que Brandon continuasse zombando de mim.
  — Não se preocupe tanto comigo, Brandon. Afinal, se eu precisar de algo mais, me dará assistência. – Dei uma piscadela para ele e o pai da riu fortemente. Brandon veio em minha direção irado e eu realmente pensei que levaria outra surra dele, porém o pai da chamou um dos seguranças, que o impediu.
  — Se querem disputar pela minha filha, que façam isso lá fora.
  — Pai?! – deu um gritinho histérico.
  — O que é? Vocês estão em um hospital, ora! – Ele disse como se esta fosse a sua única preocupação.
  — Tudo bem, perdoem-me. – Brandon ergueu as mãos em sinal de rendição e tornou a sentar-se na área de espera.
  — Está cada vez mais difícil tolerar o seu comportamento, Brandon – o disse, deixando-o cabisbaixo e pensativo. — vamos ir caminhando, aproveitamos para tomar sorvete e conversar um pouco. – Disse animada e eu sorri largamente.
   é como os grãos de açúcar adoçando o café amargo que é a minha vida. Todas as vezes que eu estou perto dela é como se as minhas feridas não existissem, apenas as cicatrizes, que são escondidas pela alegria contagiante que ela transmite.

  Depois de um tempo caminhando até a sorveteria, sentamo-nos em um dos bancos da praça e ali ficamos por um tempo.
  — Então, diga-me.
  — O quê? – Deliciei-me com meu sorvete.
  — Você está gostando de alguma garota? – Engasguei-me — Ai meu Deus! – Ela deu umas tapas em minhas costas.
  — De onde você tirou essa ideia? – Tossi um pouco.
  — Bem, você distanciou-se de mim, talvez por estar apaixonado.
  — Você também percebeu? – Meus olhos arregalaram-se e ela assentiu. — Desculpe-me, eu queria ter contado a você de outra forma, mas...
  — Tudo bem, .
  — Está tudo bem mesmo? – Ela ergueu a sobrancelha e assentiu — Digo, você não sentiu nada diferente ao saber disso? – Eu sorri largamente.
  — Claro que senti, estou muito feliz por você! – Franzi a testa, confuso. — E quem é a felizarda que ganhou seu coração? – Meu sorriso desfez-se no mesmo instante e eu engoli o seco.
  — , eu preciso ir para casa agora, nos vemos amanhã. – Levantei-me rápido e saí dali o mais rápido que pude.
  — Espera, , o que houve? – Ouvi sua voz em tom alto e preocupado, mas não quis dar explicações do quão idiota sou. Ela já sabe disso.

  Cheguei a minha casa trancando a porta e jogando-me no sofá empoeirado, deixando todas as lágrimas que eu guardava cair de uma só vez. Todos menos percebem tudo que eu sinto por ela, e eu não sei se é tão difícil assim notar, já que sou péssimo em disfarçar meus sentimentos.
  Essa aflição irá terminar, amanhã mesmo. Terá fim!

  Passei o resto da tarde arrumando a casa. Não que eu fosse um rapaz bagunceiro e sujo, mas não dei a devida atenção ao meu lar nos últimos dias e a casa ficou muito empoeirada, o que não fazia bem a minha saúde. Também quero impressionar , então preciso caprichar em cada detalhe.
  E depois de tirar quase todos os móveis do lugar e retirando toda a sujeira que me incomodava, tomei um banho longo e quente para esquecer os pensamentos perturbadores por alguns minutos e relaxar.
  Comi os bolinhos de arroz que sobraram da noite anterior e dei-me por satisfeito, não estava mesmo com tanta fome. Dirigi-me ao meu quarto e atirei-me na cama, depois de apagar as luzes da casa. Não tardei meu sono, estava mesmo muito cansado. Precisava de uma noite bem descansada.

  6h15 meu despertador gritou incansavelmente até eu levantar-me e o calar. Mais um dia de luta para sobreviver, mais um leão a ser morto.
  Não havia mais pó de café na dispensa, então tive que requentar o café da manhã anterior e bebê-lo generosamente, para não ter dor de cabeça durante o dia. Comi dois pães que já beiravam a velhice, conseguindo satisfazer o meu estômago faminto.
  Observei a geladeira e a dispensa, pensava no que preparar para e teria que ser algo fácil de fazer, assim eu não correria tanto risco de decepcioná-la na cozinha. Sim, eu quero ser um homem sexy e se não for por cozinhar bem, então por nada mais.
  Peguei minha bolsa d’agua e um copo de barro, guardando-o no chapéu. Apanhei meu banquinho e o meu violão, saindo rumo à Praça das Moedas. Queria fazer um percurso diferente e talvez conseguir mais reconhecimento ali, já que eu não me apresentava fora da Praça do Sono com frequência.
  Ajeitei-me no banco e afinei algumas cordas do violão. Tocando-as logo após, comecei a cantar More Than Words e no início da música já fui recebendo alguns trocados e pelo que pude observar no chapéu, a manhã seria bem produtiva.
  Notei que uma menininha estava olhando muito para o meu chapéu, afinal estava enchendo-se de algumas pratas, então o puxei e o prendi entre os meus pés. Foi quando ela me olhou, muito irritada e saiu correndo em direção à Esquina do Pecado. Continuei com minha cantoria em sequência e quando dei por mim, o sol já estava dando lugar a lua.
  Peguei os meus pertences e escondendo bem meu chapéu por baixo do casaco, passei no mercadinho, que fica na Pracinha dos Amores, para comprar alguns ingredientes. Logo após, fui no WestFruit, pois queria fazer o suco da própria fruta, e segui para minha casa.
  Já cheguei ao meu lar retirando as notas do chapéu e guardando-as em lugar seguro. Logo após, fui para a cozinha, logo cozinhei o macarrão e o deixei escorrendo, enquanto cozinhava os brócolis. Preparei o molho branco e despejei o macarrão em uma travessa de barro, a que minha avó usava em ocasiões especiais. Fiz o mesmo com os brócolis, despejando-os por cima do macarrão.
  Sem demora, aprontei o suco de maracujá sem deixa-lo melado, porém não tão amargo. E, por fim, entornei o molho por cima do macarrão, deixando a aparência da comida espetacular.
  Levei uma mesa de dois lugares de madeira para o terraço e a cobri com um pano de cetim vermelho que a minha avó sempre usava no Natal, limpei as duas cadeiras que a acompanhava e coloquei algumas mudas de tulipas amarelas com tons de vermelho dentro de uma moringa fina de cerâmica pintada. Depenei algumas flores amarelas e joguei as pétalas por cima do pano espalhado sobre a mesa. Voltei à cozinha e peguei o porta-velas de papel branco e amarelo junto com as velas simples, coloquei sobre a mesa já as ascendendo. Novamente eu retornei à cozinha para pegar os pratos e copos de porcelana branca que minha mãe havia ganhado como presente de casamento de sua guardiã, e os talheres, não esquecendo do guardanapo. Ajeitei tudo sobre a mesa, mas senti que ainda faltava algo. Lembrei-me da comida e retornei à cozinha para pegar a travessa de macarrão, deixando-a na lateral da mesa junto com a jarra de suco.
  Pendurei alguns pisca-piscas brancos pelas paredes e coloquei algumas almofadas por cima de um pano que estiquei no chão, e estava feito. Aos meus olhos, tudo era perfeito e estava pondo fé que se encantaria com a decoração.
  Saí do terraço e direcionei-me ao banheiro, tomando um banho muito rápido. A noite estava fria, então coloquei uma calça azul escura, com o meu tênis branco e sobretudo marrom escondendo o suéter branco que havia por baixo dele. Dei uma leve penteada no cabelo e encharquei-me de perfume. Olhei-me no espelho e gostei do que vi.   Ouvi algumas batidas na porta, presumi que seria . Corri até a entrada para destrancar a porta, mas tinha esquecido a chave.
  — Só um momento, . – Olhei no bolso da calça que eu estava usando na praça e nada, fiz questão de olhar também na mesinha de centro e dentro do jarro de flores que estava cheio apenas de chaveiros, deixei-o cair sem intenção, mas também não encontrei nada. — Já estou indo.
  — Está tudo bem? – Ela perguntou num tom preocupado e curioso.
  — Sim. – Olhei em cima da geladeira, encontrando a chave. Corri até a porta, destrancando-a e deparei-me com uma ainda mais bela que de costume. — Você está incrivelmente mais linda! – Ela vestia uma calça jeans justa, com uma bota amarronzada juntamente com uma jaqueta num tom mais claro que o calçado e escondendo o pescoço num cachecol quadriculado rosa.
  — Obrigada, . – Ela sorriu envergonhada — Você também está ainda mais lindo e charmoso. Assim eu não conseguirei resistir.
  — Então está dando certo. – Eu disse num sussurro.
  — O que disse?
  — Entre e sinta-se à vontade – A dei passagem.
  — Eu trouxe pão de mel recheado para nos deliciarmos depois do jantar. – Entregou-me um prato cheio.
  — Ah, não acredito! – Bati a mão na testa — Eu sabia que estava esquecendo de algo.
  — Bem, não se desespere sem motivo, agora nós temos uma sobremesa. – Disse divertida e deu uma piscadela. — Oh , sua casa é uma graça! – Ela olhou ao redor — Tão meiga e aconchegante, traz uma paz imensa. É como um pedacinho do céu. – Olhou-me sorrindo admirada.
  — Que bom que gostou, estava mesmo preocupado com sua opinião sobre o meu lar.
  — Não sem por qual motivo, ora. – Ri fraco.
  — Bem, vamos ao terraço. – Sugeri, estendendo a mão para ela, que a segurou, acompanhando-me.
  — Meu Deus! ?! – Foi tudo que ela conseguiu dizer ao chegar no terraço e ver o lugar decorado.
  — Espero que esse espanto seja bom. – Brinquei, colocando o prato sobre a mesa.
  — É sim, eu amei tudo. Sem tirar nem pôr. – Ela sorriu, olhando para a mesa — Nunca ninguém fez algo assim para mim antes, nem mesmo Brandon. – Disse emocionada.
  — Você merece! – alargou o sorriso e eu senti-me levemente incomodado por ela, sem perceber, dizer o nome de Brandon, mas não queria focar nisso. Estava sentindo como se o tempo tivesse parado naquele momento e observa-la sorrindo é como observar uma barra de chocolate, dá gosto só de olhar.
  — O aroma da comida está maravilhoso. – Retornei à minha realidade assim que ouvi .
  — Então, vamos nos deliciar. – Eu disse, fazendo-a assentir e puxei a cadeira para ela assentar-se. — Espero que goste, fiz tudo pensando em você com muito carinho.
  — Tenho certeza que amarei – ela sorriu, enquanto eu a servia.
  Parecia que o meu coração iria explodir de tanta felicidade que eu sentia por ter esse momento com , que para mim era de grande importância.
  — Ah meu Deus! – Eu disse assim que pus a comida na boca. — Não acredito que a comida está fria.
  — Não, ela está em uma ótima temperatura. Eu não gosto da comida pelando de tão quente.
  — É sério? – Perguntei desconfiado.
  — Sim. – Ela deu mais algumas garfadas — E está uma delícia, assim como os homens que cozinham. — Arregalei os meus olhos e ela manteve a cabeça baixa, envergonhada — Apenas finja que não ouviu.
  — Só consigo ouvir o seu estômago pedindo por mais macarrão. – Nós rimos e quando eu estava prestes a servi-la mais, um porta-velas começou a tomar fogo.
  — Ah minha nossa! – Levantamo-nos sem saber o que fazer — O que faremos?
  — Eu não sei. – Disse desesperado e como uma luz, a jarra de suco brilhou para mim e eu joguei o líquido por cima da vela, que se apagou assim como o seu suporte.
  — Ainda bem que nada grave aconteceu.
  — Sim, mas eu estraguei tudo – confessei num tom decepcionado — Desculpe-me.
  — Não se desculpe por nada, está tudo bem. Ainda temos o resto da noite para aproveitar. – A olhei de forma mais intensa e ela sorriu. — Vamos atacar o pão de mel.
  Depois do pequeno susto, e eu passamos um bom tempo deitados por cima das almofadas, conversando enquanto devorávamos a sobremesa e ao mesmo tempo admirávamos a lua que fez questão de encher-se cooperando para que a noite se tornasse ainda mais especial.
  — chamou-me e eu murmurei como resposta — Vai me contar agora quem ganhou seu coração?
  — Posso te mostrar. – Virei-me em sua direção.
  — Como? – Ela perguntou curiosa. Aproximei-me de sua face, a olhando intensamente — – não a dei tempo para impedir-me, a beijei carinhosamente, porém com certa urgência.
  Inicialmente, estava resistente, mas aos poucos foi cedendo ao beijo e passamos minutos sem desgrudar-nos. Até que ela me deu uma leve empurrada e eu entendi que ela precisava respirar.
  — – afastando-me, a olhei com a mesma intensidade — Por que você fez isso?
  — Como assim? Eu achei que você queria tanto quanto eu.
  — Espera, a moça por quem você se apaixonou...
  — Sim, é você! – Afirmei com veemência.
  — O quê?
  — Só você não percebeu, ? – Ela pesou o olhar e eu sentei-me. — Sinto-me envergonhado agora.
  — Não se sinta, essas coisas acontecem.
  — Me sinto sim, eu criei expectativas e pesquisei formas de como fazer você me notar, mas agora descubro que foi tudo em vão.
  — Não me culpe por isso, eu não estava sabendo de nada e nunca te dei algum tipo de esperança em relação a nós dois, além de amizade. – Suas palavras bateram em meu peito como um punhal sendo cravado nele. Mas era a verdade, e eu precisava aceitar.
  — Tem razão. – Levantei-me ainda mais envergonhado. — Desculpe-me te fazer passar por tudo isso.
  — Não, – ela levantou-se e passou a mão em meu rosto — Perdoe-me pela rispidez, você não merece isso.
  — Tudo bem, talvez assim eu deixe de ser um bocó. – Prendi as lágrimas que queriam escapar-me.
  — Não diga isso, por favor. – abraçou-me e eu senti ainda mais tristeza após o seu gesto. Descobriu que sou um iludido e ainda sente dó da minha pessoa. — Eu nunca imaginaria, sempre te vi como um amigo. Ainda não estava curada de Brandon e, por falar nele, nos encontramos hoje pela manhã, depois que saí mais cedo da faculdade.
  — Eu realmente preciso saber disso e agora?
  — Sim, não quero que você saiba por outros, eu mesmo preciso te contar. – Franzi a testa, estava ainda mais trêmulo de tanto nervoso que eu estava passando. — Brandon contou-me toda verdade sobre sua noiva abandonada, sobre seu comportamento antes e depois de conhecer-me e arrependeu-se de tudo que fez de mau.
  — E você o perdoou, eu imagino – rolei os olhos.
  — Sim, e – ela hesitou em continuar — Eu aceitei o seu pedido de casamento, mesmo que sem a cantoria. – Arregalei os olhos, incrédulo. Meu coração estava destruído.
  — O quê? – Ainda estava estático.
  — Desculpe-me, eu teria contado assim que cheguei se soubesse da sua intenção. Mas achei que você notaria o anel de noivado em meu dedo. – Olhei para sua mão e foi aí que a minha ficha caiu.
  — Você mesma perguntou-me se era um encontro e nem me deu tempo para responder.
  — Porque eu estava brincando.
  — Você não percebeu as luzes, a mesa, as velas, o clima? – Indaguei um tanto irritado.
  — Sim, mas achei que fizesse parte de alguma brincadeira.
  — Brincadeira? Você notou que eu estava diferente contigo.
  — Sim, distanciou-se de mim, achei até que estivesse namorando. – A olhei dentro dos olhos.
  — Eu afastei-me para não sofrer mais com esse sentimento reprimido, e quando finalmente tomei coragem de expor-me a você e contar toda a verdade, sinto-me como um daqueles adolescentes que chegam na garota mais bonita da escola e a convida ao baile, mas ela recusa porque foi convidada antes pelo capitão do time de basquete e o mais popular do colégio, e então seus amigos babacas começam a zombar do garoto e a menina mesmo sentindo dó, não faz nada para impedir a humilhação que ele estava passando. — Ela engoliu o seco, encarando-me sem jeito — A diferença entre eu e esse garoto é que não tem ninguém zombando de mim, por enquanto.
  — E o que você quer que eu faça, hein? Espera que eu termine com Brandon para ficar com você? – Seu tom de voz elevou-se — Eu não sei se você sabe, mas eu amo o Brandon. Ah, talvez você só tenha se esquecido ou se fez de desentendido mesmo, mas permita que eu repita as minhas palavras: “Eu amo o Brandon”.
  — Se a sua intenção é fazer-me sentir-me pior, parabéns – bati palmas para ela, irritando-a ainda mais — Você conseguiu.
  — Não seja infantil, enfrente isso com a cabeça erguida. – Engoli o seco. — Sei que você está sentindo-se triste e frustrado, mas vai passar. Acredite em mim, sempre passa.
  — Ah, obrigado pelas palavras de consolo, servirão muito agora. Ainda mais vindas de você. – Eu disse, profundamente chateado.
  — , descul...
  — Não precisa se desculpar por nada, você está certa. A culpa desta situação é toda minha. – Suspirei forte — Eu tenho consciência disso.
  — Bem, posso usar o seu telefone? – Ela respirou fundo — Quero pedir para Harvard vir me buscar. – Eu assenti.
  — Vamos até a sala – ela seguiu-me até o telefone, que fica ao lado da porta, pendurado na parede. — Aqui está.
  Deixei-a à vontade para fazer sua ligação enquanto eu ia ao banheiro, precisava lavar o meu rosto e respirar um pouco longe dela.
  — – chamou-me mansamente e eu tornei à sala — Ninguém atende o telefone em minha casa, terei que ir sozinha mesmo.
  — De jeito nenhum, eu te levo em minha bicicleta.
  — Tem certeza?
  — Sim, eu jamais te deixaria ir sozinha neste horário. – Ela assentiu — Eu não tenho carro, mas tenho a bicicleta que pertenceu a meu avô e garanto que é mais rápida que nós dois caminhando a pé.
  Ouvimos uma trovoada e encolheu-se.
  — Eu morro de medo da tempestade.
  — Melhor não perdermos mais tempo, vamos antes que a chuva caia.
  Peguei minha chave e tranquei a porta, tirei a bicicleta do corredor e a levei até a rua. Subi nela e logo em seguida montou na garupa, rapidamente eu dei início as pedaladas, mas a chuva começou a cair e nos alcançou antes mesmo de passarmos pela Praça do Sono.
  Tentei pedalar mais rápido ainda e finalmente, chegamos a casa de .
  — Você não quer entrar e trocar-se? Depois eu peço para Harvard te levar em casa.
  — Não obrigado, eu chego em casa rápido. – Ouvimos o estouro de um raio que caiu por perto.
  — , está chovendo muito, é perigoso. – A olhei ainda chateado pelos acontecimentos — Por favor, entre.
  A segui até a porta de entrada e lá um dos funcionários da casa nos cobriu com toalhas que mais pareciam cobertores. O pai de olhou-nos confuso de dentro da casa.
  — Mas o que foi que aconteceu com vocês? Por que estão chegando a essa hora e tão molhados. – Ele abriu os braços e franziu a testa.
  — Por que está chovendo e nos molhamos no caminho? – o respondeu devolvendo a pergunta.
  — O quê? Está chovendo? – Entreolhamo-nos descrentes do que estávamos ouvindo e ele aproximou-se da porta — Minha nossa, é verdade! – Ele disse, surpreendido. — Entrem logo e tirem essa roupa.
  — Louise, pode preparar um banho quente para no quarto de hóspedes, por gentileza? – pediu a uma jovem senhora — Não esqueça de levar roupas secas para ele, certo? – A senhora assentiu. — Obrigada.
  — Não se preocupe comigo, eu vou para casa assim que a chuva cessar.
  — Não, você irá trocar-se e depois Harvard te leva. – disse firme — Agora eu preciso de um banho. – Retirou-se, provavelmente para o seu quarto.
  — Depois do banho, você pode tocar alguma música antes de ir embora? – O pai de indagou animado.
  — Claro, com o maior prazer.
  — É uma pena que a minha esposa não esteja aqui para ouvi-lo, ela foi visitar a mãe que está adoentada.
  — Eu entendo. – Ele assentiu.
  — Jovenzinho – a jovem senhora chamou-me — Acompanhe-me, por favor.
  Pedi licença ao pai de e a acompanhei, um tanto sem jeito por estar ali, não queria incomodar. A casa é tão luxuosa que até senti-me importante por estar em um lugar tão clássico. Só o quarto para o qual a jovem senhora guiou-me é do tamanho de toda minha casa, e não, não é exagero de minha parte.
  — Seu banho já está pronto e sua roupa está sobre a cama – ela apontou — Precisando de algo, é só chamar.
  — Muito obrigado, senhora e desculpe-me pelo incômodo.
  — Os amigos de são sempre bem-vindos e muito bem tratados aqui. – Ela sorriu simpática e retirou-se.
  Rapidamente, segui para o banheiro e retirei a roupa molhada, deixando-a pendurada na parede e mergulhei meu corpo na água quente da banheira, o sentindo relaxar aos poucos.
  Perdi um pouco a noção do tempo e só dei-me conta de que estava a um período considerável dentro da banheira quando bateram na porta.
  — , está tudo bem? – Ouvi a voz da e levantei-me rapidamente, logo secando o meu corpo.
  — Sim, eu já estou saindo. – Enrolei-me na toalha e fui até a cama para pegar a roupa seca, e a vesti. Saí do quarto, deparando-me com .
  — A água estava boa, não é mesmo?
  — Muito, obrigado. – Ela sorriu de lado. — O que eu faço com a roupa molhada?
  — Louise irá lava-la e depois eu te devolvo.
  — Eu não quero causar incômodo.
  — E não causará. – Assenti — Agora vamos descer, meu pai está te esperando, ansiosamente.
  Apesar das coisas que dissemos um para o outro e de toda chateação que houve, eu não estava desconfortável ao lado de e ela também parecia estar bem relaxada, como se nada tivesse acontecido.
  — , pedi a Clóvis para pegar meu violão na sala de música. – O pai da disse, animado. — Vocês estão com fome?
  — Nós já jantamos. – Eu disse por nós.
  — Ah, aí está – o senhor vinha carregando o violão e o entregou ao pai da — Obrigado, Clóvis.
  — Teremos um show exclusivo? – indagou brincalhona, enquanto seu pai entregava-me o violão — Que bom, porque sua música traz paz e é disso que eu preciso agora. – Retribuí ao seu olhar na mesma intensidade.
  — Bem, vocês têm alguma preferência?
  — Eu queria que você cantasse uma...
  — Não pai, deixe que escolha – continuei a olhando — Ele deve ter uma música perfeita para o momento.
  — Sim, eu tenho. E ela descreve bem a minha vida nesse momento, porque eu sou um idiota. – Respondi, já começando a tocar.
  Mesmo que a dor em meu coração fosse imensa, eu precisava tocar com toda minha alma e cantar uma verdade sobre a minha vida, sobre que se passa dentro de mim. Não consigo pensar em forma melhor de expressar-me senão através da música, e esta é a que diz tudo sobre os meus sentimentos por .
  Quando menos esperei, abri os meus olhos e a vi emocionada, sendo amparada pelo pai. Minha voz embargou um pouco, eu também estava sensibilizado e a minha vontade de derramar-me em lágrimas era grande, mas eu queria finalizar a melodia. Eu precisava cantar cada palavra, sem tirar nem pôr, pois era esse o meu grito de libertação, era o meu desabafo.
  Assim que eu terminei de tocar a última nota, encarou-me enquanto ainda chorava e saiu correndo, sendo seguida pela jovem senhora, que estava preocupada.
  — Depois dessa declaração e desabafo em forma de música, agora ela finalmente caiu em si. – Disse o pai de .
  — Eu contei a ela quando ainda estávamos em minha casa.
  — E então ela te contou que está noiva de Brandon?
  — Sim, até mostrou-me o anel.
  — E mesmo sabendo disso, você teve a ousadia de cantar essa canção para ela? – Eu assenti com o olhar baixo.
  — Ah, vocês jovens são uns bocós mesmo! – O pai dela disse, suspirando forte.
  — Eu realmente sou. – Confessei mais para mim mesmo.
  — Mas tudo bem, eu também já fui um. Todos nós passamos por esta fase. – Ele deu umas batidas em meu ombro — E você foi muito corajoso em fazer isso.
  — Não, eu só fui idiota, mais uma vez.
  — Eu estava na torcida por você, sem brincadeira. Não gosto desse tal de Brandon. – Franzi a testa, o olhando descrente — Mas dei o meu consentimento para este noivado, pois ela me afirmou com veemência que ama esse rapaz e eu sei que não leva jeito para ser mentirosa.
  — Pelo menos Brandon tem um carro, ela não precisará mais molhar-se na chuva.
  — Ela nunca precisou disso, – o homem riu fraco. — Mas a questão é que você não está entendendo a situação. nunca se importou com o que Brandon tem ou deixa de ter materialmente, o que ela tem é um sentimento verdadeiro por esse rapaz. E pelo que pude perceber, ele também tem por ela.
  — O senhor tem razão, ele sempre demonstrou gostar dela para valer. – Confessei, mesmo que fosse tortura dizer estas palavras.
  — Ela não deixou de ficar contigo porque você tem uma condição financeira menor que a dela, jamais faria algo do tipo. – Engoli o seco — Mas porque nunca olhou para você com olhar além de amizade e sempre fala de você com muito carinho, como se enxergasse em você o irmão que ela não teve.
  — Eu entendo. De verdade, eu entendo. – Ele assentiu com o olhar brando e eu o entreguei o violão. — Preciso ir agora.
  — Vou pedir que Harvard o leve até em casa.
  — Não será nece...
  — Eu faço questão! – Ele disse firme, já chamando o motorista — Harvard, leve esse rapaz para casa e guarde a bicicleta dele, por gentileza.
  — Sim, senhor. – Harvard o reverenciou — Com licença, senhor. – O homem foi buscar a bicicleta.
  — Muito obrigado por tudo, senhor. – Assentiu. — Mas agora eu tenho um coração ferido para cuidar.
  — E eu uma filha chorosa para consolar. – Nós rimos fraco e ele abraçou-me — Se cuide, rapaz.
  Saiu caminhando pela casa e eu saí, encontrando o motorista a minha espera. Ficamos em silêncio durante o caminho, pois eu sentia-me mais confortável assim.
  Quando cheguei a minha rua e o agradeci pela gentileza, e ele apenas assentiu com a mão no chapéu, que mais parecia um quepe militar e retirou-se.
  Destranquei a porta e adentrei a casa logo sentindo a solidão e tristeza batendo em meu peito como um chumbo esmagando-me.
  Tirei o tênis e deitei no sofá tentando dormir, não queria mesmo ficar acordado para pensar em minha dor. Logo fui tomado pelo sono.

  No dia seguinte, quando estava prestes a fazer minha refeição da manhã, percebi que a casa estava sem energia. Peguei certa quantia do meu esconderijo e guardei no bolso, pagaria as contas atrasadas finalmente. Alimentei rapidamente e saí com o meu banquinho e chapéu debaixo de um braço, carregando o violão e guarda-chuva no outro. Passei pela banca para comprar um jornal e o ajudante de senhor Hashida deu-me a notícia de que ele saíra do hospital e iria preparar-se para casar com senhora Yasu. Fiquei alegre pela notícia.
  Ajeitei-me no centro da praça, colocando o guarda-chuva aberto por dentro do meu casaco, pondo o chapéu no chão posicionado para cima e sentando-me no banquinho, começando a tocar a primeira música do dia.
  Uma senhora que eu já havia visto antes parou à minha frente e quando a música terminou, privilegiou-me com as palmas.
  — Bravo, bravíssimo! – Dizia admirada, continuando com as palmas.
  — Muito obrigado, senhora.
  — Lembra-se de mim?
  — Sim, a senhora turista que me doou uma quantia muito generosa. – Ela sorriu encabulada. — Pagarei minhas contas hoje porque Deus a enviou, no momento certo, para me ajudar.
  — Eu não te doei àquelas pratas, mas o retribuí conforme a sua necessidade, a alegria que você nos traz quando toca as suas músicas. – Sorri satisfeito — E vejo que você é muito esforçado. Em um dia chuvoso como hoje, poderia tirar o dia de folga, porém está aqui nos agraciando como seu dom.
  — Eu amo o que faço, e sinto-me satisfeito em saber que a minha música faz tanto bem a quem passa aqui pela praça.
  — E é exatamente por isso que eu te presenteio com uma bolsa integral para o curso de Música na Universidade de Exodus. – Meus olhos quase saltaram de meu rosto, não pude acreditar no que acabara de ouvir.
  — Senhora, com todo respeito, não brinque desta maneira com os meus sentimentos. – Ela olhou-me surpresa. — Sei que...
  — Sei que é difícil de acreditar quando depois de muitas lutas, uma benção simplesmente nos chega desta forma surpreendente. Contudo, eu não estou brincando com os seus sentimentos, meu jovem. E falo sério quando digo que você viajará comigo para Telespark e só sairá de lá sendo quando for um profissional formado em Música.
  — E-eu não consigo acreditar! – Cocei a minha cabeça, freneticamente. Não conseguia ficar parado — Como a senhora conseguiu?
  — Sou herdeira e diretora da Universidade de Exodus, talvez você nunca tenha ouvido falar, ela fica fora do país. – Assenti, ainda incrédulo. — Depois que vi o seu bom desempenho e esforço trabalhando aqui, não pensei duas vezes em te dar essa oportunidade.
  — Senhora – a abracei com delicadeza — Muito, muito obrigado. Nem sei como poderia retribuir ao que a senhora está fazendo por mim. – Afastei-me para olhá-la.
  — Tirando boas notas e perseverando até o fim do curso.
  — Eu não irei decepcioná-la! – Afirmei com veemência.
  — Sei que não. – Ela sorriu largamente — Bem, agora preciso voltar ao meu quarto, mas daqui a um mês nós viajaremos. Resolva todas as suas pendências durante esse tempo e aproveite os últimos momentos aqui no bairro.
  — Como eu já disse e torno a dizer: Deus a enviou, no momento certo, para me ajudar.
  — Então agradeça a Ele por isso. – Disse ainda enquanto sorria e deixou-me sozinho no centro da praça.
  Tentei conter-me para não fazer nenhuma bizarrice no calor da emoção, mas tudo que consegui fazer para expressar a minha felicidade foi ajoelhar no chão da praça e gritar em alto e bom som: “OBRIGADO, MEU DEUS!”.

  Um mês depois...
  Sexta-feira, 19h45, senhora Yasu estava entrando na igreja acompanhada pelo neto, Brandon, que a entregou no altar a senhor Hashida. O sorriso largo e brilho nos olhos do casal só indicava o quanto a noite estava sendo especial para eles e os convidados igualmente demonstravam a felicidade em vê-los ali comemorando o primeiro beijo como marido e mulher.
  Foi um presente ser o padrinho deles, juntamente com . Estávamos muito felizes por eles, que depois de 40 anos finalmente puderam ficar juntos.
  Em meio a festa, chamo os noivos e convido e Brandon, juntamente com os seus pais para um lugar mais reservado, era a hora de partir.
  — Estou indo embora agora.
  — Mas a festa só está começando. – O pai da disse animado.
  — Recebi uma bolsa integral para o curso de Música na Universidade de Exodus.
  — E onde fica isso? – Senhor Hashida perguntou desconfiado.
  — Em Telespark.
  — Mas que lugar é esse? – Vez da senhora Yasu perguntar, parecia preocupada.
  — É fora daqui. – A mãe da disse.
  — Parece nome de outro planeta. – Disse Brandon, num tom curioso.
  — Realmente, parece coisa de outro mundo. – Vez do pai da — Só não deixem eles invadirem o nosso bairro, pelo menos por enquanto. Ainda tenho que ver a minha filha formada. – Nós soltamos gargalhadas altas e ele beijou a bochecha de .
  — A questão é que estou partindo agora para pegar o próximo voo.
  — Voo? Como assim? – aproximou-se incrédula — Você irá nos deixar mesmo?
  — Não para sempre.
  — Isso é uma benção, jovem – senhora Yasu disse, segurando o meu rosto — Agarre esta oportunidade com toda a sua força e só a solte quando sentir que essa etapa foi concluída. – Beijou a minha bochecha e deu lugar para senhor Hashida.
  — Meu neto ficará longe de mim? – Ele perguntou num tom melancólico, mas sem deixar a expressão séria para trás.
  — Eu prometo visita-lo sempre que puder.
  — Se não fizer isso, deixará aqui um velho com uma parte do coração destroçada. – Abraçou-me tão forte que senti dor na costela — E não se esqueça do quando você é importante para mim, seu bocó! – Emocionei-me com tamanho sentimento que ela tinha por mim, era confortante saber que alguém sentiria muito a minha falta... E eu a dele.
  — Ah, jovem bocó – o pai de aproximou-se junto com a esposa — Sentiremos muito a sua falta aqui, mas faça um bom trabalho lá, hein. – Abraçou-me, bagunçando o meu cabelo.
  — E se cuide naquele lugar, querido. – Vez da mãe da abraçar-me.
  — Ei irmão, acabe com todos os caras lá. – Brandon disse, apertando minha mão.
  — Brandon?! – deu um gritinho histérico.
  — Eu quero dizer com a inteligência dele. – Explicou-se, fazendo-nos rir.
  — Farei isso se você prometer que fará de a moça mais feliz do bairro. – Ele assentiu e deixou escapar um sorriso.
  — aproximou-se novamente e abraçou-me forte, fazendo-me sentir o perfume que emanava de seu cabelo. — Sentirei tanto a sua falta! – Apertou-me ainda mais e eu não consegui segurar minhas lágrimas. — Só quero que saiba que você será sempre o meu amigo bocó – nós rimos alto — Que me traz calma e alegria apenas pela sua companhia e paz com a sua música.
  — Agradeço a todos por tudo que já fizeram por mim e peço perdão se algum dia eu errei com algum de vocês. – Olhei diretamente para e ela riu fraco, afastando-se de mim. — Tudo que eu consigo sentir agora é felicidade e só quero dizer uma última coisa – ouvi uma buzinada e olhei para trás, avistando o carro da generosa senhora esperando-me. Senti mais algumas lágrimas caindo dos meus olhos e olhei para todos naquele momento — Até breve.
  Saí da festa sem olhar para trás, talvez não conseguisse prosseguir, mesmo que já estivesse decidido. Mas, entrei no carro com a certeza de que as vezes é necessário enfrentar certas dores, até mesmo as que deixam feridas profundas, para quando chegar o tempo da cicatrização, aquela marca ser alvo de orgulho. Sim, orgulho. Pois em meio a tantas dificuldades, eu consegui passar por todas elas. Enfrentei-as mesmo com medo do que haveria de vir, lutei mesmo sem forças, e até machuquei-me com alguns golpes da vida, mas no fim de tudo isso, eu venci.



Comentários da autora


Nota da autora: Quase... Mas quase mesmo, que essa fic não saiu. Tive um bloqueio muito forte e o que eu já tinha escrito, perdi. Depois consegui recuperar e continuei escrevendo, e aqui está. Mas, não vou mentir, foi bem difícil começá-la, continuá-la e finalizá-la. Por isso quero agradecer MUITO a Deus pela inspiração, que tenho certeza, veio dEle! Minha mãe também me ajudou bastante, tanto que a ideia do jantar foi dela. Meu pai também me deu um help na conclusão. E como sempre, a Pâms me ajudou demais, obrigada mana! <3
Espero, do fundo do meu coração, que essa história traga a vocês uma mensagem significante e positiva...
A todos, BJoo <3

Lembrem-se: "TUDO coopera para o bem daqueles quem amam a Deus..." [Romanos 8.28]