A Sala De Espelhos

Escrita por Natty | Revisada por Andressa

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  No fundo de uma casa velha, com a pintura gasta e os móveis quase que totalmente destruídos, era lá que estava a sala de espelhos, aquele pequeno cubículo composto exclusivamente por espelhos que encontravam-se nas extremidades de cada parede. Neles estavam refletidas as expressões que meu rosto fazia, era aterrorizante. Eram tão incrivelmente perfeitos que captavam até mesmo as lágrimas cintilando nos cantos de meus olhos avermelhados.
  A imagem no espelho à minha frente tinha os mesmos cachos louros, os mesmos olhos azuis, os mesmos traços delicados que compunham o meu rosto, mas aquela não era eu. Em seus lábios cheios estava um sorriso maldoso, em seus olhos grandes uma expressão divertida, sua cabeça levemente curvada em minha direção, como uma cobra pronta para dar o bote. Aquele era o que mais causava pânico e medo em mim.
  Ao meu lado esquerdo a mesma face rosada carregava uma expressão assustada, receosa, como a de uma criança medrosa. Do espelho que compunha o lado direito da mesma sala eu via o meu rosto com uma expressão risonha, como uma menininha que acabara de voltar do parque de diversões. Em cada um dos espelhos uma expressão diferente, naquele atrás de mim estava a raiva.
  Estava com raiva por estar trancafiada ali, pulei da cadeira direto no espelho da frente, esmurrando-o com toda a força de me restava, havia perdido a conta de quanto tempo passei ali, até que pude ver meus braços imersos em sangue, e o espelho com nada mais que alguns poucos arranhões que logo sumiram. Desisti, cansada de lutar contra algo que eu nem sequer sabia o que era.
  Então eu a vi, a minha imagem com expressão maldosa parecia mais próxima, eu quase podia tocá-la. E então ela sorriu um sorriso vermelho, seus dentes retiveram sangue sobre eles, sangue vermelho e quente, sangue fresco. A figura da esquerda, a medrosa, emergiu do espelho e logo ela era tão real quanto eu. Aquela que sorria para mim, a da direita, agora estendia a sua mão para mim, tocando o meu ombro, um toque frio e gentil.
  Olhei-as inebriada, aquelas que eram tão iguais a mim e ao mesmo tempo tão diferentes. Elas assustavam-se com suas vozes sussurradas e suas diferentes expressões de um mesmo rosto, o meu rosto. Tudo o que eu conhecia definhara, morrera tão rapidamente quanto elas aproximavam-se de mim. Senti dentes roçarem suavemente pelo meu pescoço, logo fincando-se ali e sugando parte do meu sangue e logo eu não passava de uma vítima da minha própria loucura.
  Por um segundo eu teimei em acreditar que nada daquilo era real, que eu estava sã e salva, sentada na mesma cadeira de antes, apenas cochilando, mas quando a porta espelhada abriu-se revelando o rosto assustado de eu percebi que estava não apenas na minha loucura, mas sim na minha realidade. Aquelas que eu acreditava serem apenas imagens sorriram para ela, e então, rápidas como um raio, eu as vi dispersarem-se pelo quarto e fugir pela abertura da porta. Enquanto eu me afogava no meu próprio sangue, enquanto corria até mim. A última imagem diante de meus olhos fora o medo e o arrependimento queimando as órbitas de minha mãe.

FIM



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