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#003 Temporada

Alphabet Boy
Melanie Martinez




Alphabeth Boy

Escrita por StrangeDemigod

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Capítulo Único

  Tragou o cigarro um pouco mais, expelindo a fumaça pelo nariz.
  A brisa gelada balançava seus cabelos para diversas direções.
  Por que caralhos ela estava ali?
  Ah, é claro.
  Tyler, seu querido irmão mais velho estava vindo para a cidade fazer uma visita.
  Uma maldita visita que duraria exatos sete dias.
  Ela mal aguentara quinze anos de sua vida com ele.
  Mais sete dias seriam um inferno.
  Terminou o cigarro, jogando-o no chão e pisando em cima dele, o apagando.
  Expeliu o resto de fumaça que estava em sua boca e, em seguida, se dirigiu para dentro do aeroporto.
  Andou por alguns minutos, até chegar na ala onde ele iria desembarcar.
  Cruzou os braços, vendo a figura dele aparecer entre as muitas pessoas que também desembarcavam.
  Os cabelos curtos, claros e perfeitamente arrumados, como sempre. Ele vestia um terno, apesar de a ocasião não exigir isso. Tudo do bom e do melhor.
  Sempre o perfeitinho.
  Oi, Margaret! - Sorriu, acenando para ela assim que a viu.
  Tyler. - Foi inexpressiva.
  Qual é? Não vai dar nem um abraço no seu “irmãozão”? - A pergunta dele fez ela olhar de cima a baixo com uma careta.
  Vamos logo. - Virou-se simplesmente e saiu andando.

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  Estacionou a moto em frente a residência aconchegante, mas não menos luxuosa. Vendo aquela casa completamente reformada em cores vivas, com grandes e altos portões de ferro e um jardim muito bem cuidado, lhe dava nojo.
  Mas por quê?
  Pelo simples fato de ter sido um presente dele.
  Mesmo o gesto tendo sido o melhor, ela sabia que nada que ele dava era de graça ou de bom grado.
  Principalmente se fosse algo para ela.
  Suspirou, abrindo a porta da frente da casa, escutando o barulho das panelas na cozinha. Seu irmão observava os cômodos enquanto insistia em andar sempre atrás dela.
  Revirou os olhos e andou rápido até a cozinha.
  Sua mãe estava de costas, concentrada em picar algo.
  Mãe! - Tyler chamou-a, que se virou rapidamente.
  Oh, meu filho.- Abraçou-o . - Você está tão diferente…
  Nos vimos faz apenas alguns meses, mãe. - Ele revirou os olhos, brincalhão.
  Mas ainda assim… Parece que toda a vez que te vejo, você está diferente. - Sorriu terna.
  Margaret observava a cena, sem humor.
  A mãe nunca fora assim consigo.
  Torceu a boca, em desprezo.
  O cheiro da comida veio até suas narinas, fazendo seu estômago roncar e ela querer vomitar. Engoliu em seco, indo para o armário das bebidas e pegando duas garrafas de whisky.
  Você não pretende beber, Margaret! - Ouviu a voz da mãe e virou-se para a mesma. - Principalmente agora que o almoço já está quase pronto.
  A garota permaneceu calada, olhando atentamente a mãe.
  Retirou a tampa de uma das garrafas e bebeu um gole, direto do bico.
  Os dois a sua frente a encararam incrédulos.
  Eu vou para o meu quarto, - disse baixo.
  Não vai almoçar, novamente? - Sua mãe suspirou. - Por favor, abra uma exceção, pelo menos hoje. Vamos almoçar como uma verdadeira família.
  Não somos uma família verdadeira desde a morte do papai. - E saiu do cômodo, bebendo o líquido marrom até chegar em seu quarto.

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  Deixou a garrafa cair ao lado da cama, produzindo um barulho oco.
  Sua cabeça rodava, mas ainda sentia que estava sóbria.
  Precisava de mais, mas não bebida.
  Algo mais forte e mais rápido.
  Ainda deitada, abriu a gaveta na cômoda ao lado da cama. Retirou uma pequena necessaire de lá e a abriu.
  Depois de debater o que queria, preferiu o que estava em sua mão direita. Guardou tudo, deixando apenas um pedaço de elástico e uma seringa para fora. Amarrou o elástico no braço e pulsionou a fossa cubital, sentindo a veia se destacar.
  Pegou a seringa na mão e aproximou a agulha da veia saltada.
  Foi interrompida por batidas na porta.
  Assustando-se, jogou a seringa e o elástico dentro da gaveta na cômoda e se levantou rapidamente, indo até a porta.
  Assim que a abriu, fez sua pior expressão, vendo seu irmão com a mão levantada e fechada em punho, provavelmente iria bater na porta mais uma vez.
  Ela permaneceu em silêncio, esperando que ele dissesse o motivo de estar ali.
  Não vai dizer nada? - ele indagou.
  Quem veio bater à minha porta foi você, Tyler. - Ela quase se enrolou toda para falar o nome dele. A bebida começava a dar seus sinais de efeito.
  Tyler arqueou uma sobrancelha, meio desconfiado.
  Você bebeu tudo aquilo? - Olhou-a nos olhos. Ela retribuiu por alguns míseros segundos, até desviar seus olhos para baixo.
  E por que você se importaria? - murmurou.
  Sou seu irmão, Meggie. - Ele tentou tocar no braço dela, mas Margaret deu um tapa na mão do irmão antes que ela chegasse perto de si.
  Um irmão se preocupa com sua irmã, zela por ela, e não a xinga, a bate ou a magoa, dizendo que ela nunca será como ele. Ao nível dele. - Ela fungou, sentindo algumas lágrimas se formarem nos cantos de seus olhos.
  Eu era uma criança idiota quando fiz isso, Meggie. - Tyler falou e ela riu de escárnio.
  Você era uma criança quando tirou minha virgindade? - O olhou, sem expressão. - Claro que não era, Tyler! - exclamou, sentindo um soluço preso no fundo de sua garganta. -Todas aquelas merdas que você me disse na frente de todos naquele maldito aeroporto, minutos antes de embarcar naquele avião, me magoaram! - Apontou, acusadora. - Você me humilhou!
  Meggie…- Ela bateu a mão contra a porta com força.
  PARE DE ME CHAMAR COM ESSE APELIDO ESTÚPIDO! - berrou, alterada. - Você nem deveria estar aqui! Eu estava bem, mas foi só saber que você ia fazer uma visita que tudo foi por água abaixo.- Negou com a cabeça freneticamente. - Só me faça um favor… Não fique atrás de mim, nem converse comigo. Você já falou demais. - Fechou a porta num baque, a trancando.
  Se encostou, sentindo as lágrimas, até então presas, escorrerem de seus olhos.
  Ainda em negação, foi para o banheiro, retirando todas as roupas pesadas pelo trajeto.
Pegou a outra garrafa de whisky, o pacote de cigarros e o isqueiro.
  Ligou a torneira, vendo a banheira se encher.
  Acendeu um cigarro e deu um trago longo, sentindo a fumaça preencher seus pulmões.
  Quando a banheira estava bem cheia, ela desligou a torneira e entrou na água.
  Tinha consciência de que sua face estava completamente borrada e estava pouco se importando para isso.
  Ela ficava desse mesmo jeito a cada cinco meses, durante uma semana inteira.
  Trancada no quarto, embebedando-se e fumando -às vezes, cheirando “uma”.
  Ou ia para o bar, embebedava-se e transava com um cara qualquer no banheiro.
  Ela sabia que se pudesse prever o futuro, teria feito outras escolhas.
  Nunca teria se tornado aquilo que era hoje.
  Mas quem poderia dizer que a pequena garota de longos cabelos louros e cacheados, com brilho em seu olhar se tornaria o que a sociedade chama de “puta qualquer”?
  Inevitavelmente, as malditas lembranças começaram a vir à tona.
  “O primeiro dia na escola nova.
  Ela tinha apenas oito anos.
  Ainda agarrada nas pernas da mãe, via as crianças pularem, correrem, rirem e brincarem.
  Sua mãe se despediu dela, sumindo de sua vista rapidamente.
  Nesse instante, ela fora puxada bruscamente e teve um encontro com o chão, ralando os joelhos, antebraços e mãos no processo.
  Ouviu as risadas e viu os dedos apontados, acusadores.
  Sentiu diversas bolinhas e aviõeszinhos de papel serem jogados contra seu corpo trêmulo.
  As lágrimas se formaram em seu rosto, mas ela não se permitiu chorar.
  Olhou para cima e encontrou um par de olhos verde-escuros a encarando.
  Me dê isso. - O pirulito foi arrancado de sua mão. - Não pense em contar nada para a mamãe, sua idiota. - Tyler disse, a olhando feio.
  E essa fora a primeira de muitas vezes.
  Tempos depois, Margaret descobriu um talento para se meter em encrencas.
  Mesmo que estas sempre fossem causadas pelo seu irmão mais velho.
  Perdeu as contas de quantas vezes fora parar na diretoria da escola, completamente suja. Seja por terra, suco ou comida.
  E quando chegava em casa, escutava as mais diversas broncas de sua mãe.
  Houve uma vez em que se atreveu a dizer à mãe o que o irmão fazia consigo.
  E o resultado não foi dos melhores…
  Você contou para a mamãe? - A voz de Tyler fez Margaret estremecer.
  S-Sim… - Uma falsa coragem se apossou dela e ela levantou a cabeça, encarando o irmão.
  Mas arrependeu-se amargamente.
  Os olhos dele estavam opacos, obscuros.
  Você não deveria ter feito isso. - A mão dele se fechou em um punho.
  Tyler… O que você… - Ele a interrompeu, segurando seu braço, a impedindo de se mexer.
  Shh... - Colocou o indicador sobre os lábios de Margaret. - Não vou fazer nada de ruim com você.
  Promete? - ela sussurrou.
  Mas é claro! - Ele sorriu, ficando atrás dela. - Sou seu irmãozão, não sou?
  Sim… - Ela assentiu, feliz.
  Então feche seus olhos. - Ela o fez, meio relutante.
  Segundos depois, sentiu sua perna arder em dor. Tremendo, ela olhou para a perna, vendo o sangue escorrer. Uma faca estava fincada ali.
  Quando foi gritar, uma mão tapou sua boca.
  T..er - Tentava chamá-lo.
  Cale-se! - ele ralhou. - Isso é para você aprender a não me dedurar nunca mais. - Dle a soltou e ela caiu no chão, chorando.

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  Sete anos se passaram.
  Ela nunca mais falou nada sobre ele para a mãe.
  E pareceu que, com o tempo, ele tornou-se melhor, mais responsável.
  Estava pronto para ir à faculdade de Stanford e cursar Direito.
  Mas, ele teria sua despedida.
  Uma festa entre os veteranos de saída e os novatos. Uma grande comemoração no grande ginásio da escola.
  Vamos, Meggie! Vai ser divertido. - Ele olhava a irmã deitada na pequena cama ao lado da dele, escrevendo algo.
  É uma perda de tempo. - Ela sequer deu ao trabalho de parar o que estava fazendo.
  Qual é! Você não quer ser popular? - Ele arqueou uma sobrancelha.
  Não sou do tipo que se preocupa com rótulos. - Deu de ombros.
  Você é impossível mesmo. - Ele cruzou os braços. - É uma completa criançona.
  Só porque não tenho interesse em ir nessa festa?- desviou seu olhar para ele. Tyler assentiu. - Você é um idiota, Tyler. - Ela revirou os olhos. - Merda! - Rabiscou o que havia feito e bufou.
  Parece até que você não sabe escrever. - Ele negou com a cabeça, fazendo uma anotação em cima do texto dela.
  Eu sei o ABC, Tyler. - Ela deu uma leve rosnada. - Você não precisa ficar me ensinando.
  Pois eu acho que não. - Circulou três palavras no texto que ela escrevia. - Preste mais atenção aqui. - Apontou.
  Me dê esse caderno. - Ela fez uma careta. - Eu posso me virar sozinha. - Retirou o caderno das mãos do irmão. Tyler apenas riu, levantando as mãos em rendição e se retirando do quarto.
  “Garoto idiota” - ela pensou.

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  Ela pedia a Deus para que lhe castigasse da próxima vez em que ela aceitasse ir numa festa como aquela.
  Sentia-se deslocada ali. Um casal se agarrava fazia minutos ao lado dela. Eles estavam quase transando em cima daquele sofá.
  Ela se levantou e desviou das pessoas suadas que dançavam, indo para o lado de fora.
  A noite estava fria, mas mais agradável do que ficar do lado de dentro.
  Pegou o celular em mãos, pronta para ligar para a mãe, quando o aparelho foi tomado de suas mãos.
  Ei! - exclamou, virando para o lado. - Me devolva! - Tentou pegar o aparelho.
  Estava ligando para a mamãe? - Tyler piscava, tentando enxergar a tela do celular.
  Sim, eu estava. - Ela conseguiu tirar o telefone das mãos dele. - ‘Tô indo embora. Essa festa já deu pra mim.
  Qual é! Mal são duas da manhã… - Ele a puxou pela cintura. - Vamos continuar curtindo mais um pouco…
  Você está bêbado, Tyler? - Tentava se desvencilhar dele.
  Só bebi um pouquinho… - Ele deu uma fungada no pescoço dela.
  Tyler, sai… Eu não sou as suas vadias. - Deu um empurrão nele.
  Tem razão, Meggie. - Segurou-a pelos ombros, a prendendo contra uma árvore. - Você é melhor do que elas.
  Me solte, Tyler! - pediu, se debatendo. Ele simplesmente sorriu, avançando contra ela, colando seus lábios.
  Ela gemeu, batendo contra o peito dele, querendo se soltar.
  Ignorando os socos, Tyler desceu suas mãos para as nádegas de Margaret. Ela continuava a bater contra ele, mas já estava ficando fraca.
  Ele introduziu a língua pelos lábios dela, agora segurando a nuca dela com força, forçando ainda mais.
  Margaret estava desnorteada. Tentava resistir, mas as carícias dele estavam enevoando sua mente.
  “Ele é seu irmão” - sua mente dizia.
  “Isso é bom” - seu corpo dizia.
  Ela não aguentou. Cedeu a ele, passando seus braços pelo pescoço dele, acariciando seus cabelos.
  Quem diria que ela teria seu primeiro beijo com o próprio irmão?
  Ah, Meggie... - Ele desceu os beijos para o pescoço dela. - Eu quero você…
  Tyler… - Ela iria contradizê-lo, mas acabou sendo interrompida quando ele apertou um dos seios dela. Ela gemeu alto.
  Tão entregue… - sussurrou ao pé do ouvido dela, massageando o seio dela, enquanto a ouvia gemer. - Seja minha…
  Ah, Tyler… Sou sua, - disse, com a mente enevoada. Mandando a sanidade para o espaço, Tyler a puxou para cima, fazendo-a entrelaçar as pernas ao redor de sua cintura, e a levou até o seu carro.

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  Margaret acordou em sua cama.
  Teria sido a noite passada um sonho?
  Colocou os pés no chão e se levantou, tendo de se apoiar na cômoda.
  O meio de suas pernas doía.
  Com as pernas bambas, ela se dirigiu ao banheiro, para tomar um banho.
  Saiu de lá revigorada. Trocou-se e desceu para tomar café.
  A mãe estava na mesa, comendo uma torrada.
  Onde está o Tyler? - indagou à mais velha.
  Ele se foi. - Ela tinha o olhar opaco.
  Se foi? Pra onde? - Margaret estava confusa.
  Para a faculdade. Ele deve de estar chegando ao aeroporto agora. - A mulher deu de ombros.
  Ele não iria assim, sem se despedir. - Margaret negou com a cabeça, se levantando.
  Aonde vai? - a mãe indagou.
  Vou atrás de respostas, - disse, pegando um casaco e correndo para a calçada, chamando um táxi.

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  Correu até a área de embarque, procurando por cabelos loiros no meio da multidão.
  Viu o irmão sentado em um dos bancos. Estava despreocupado.
  Tyler… - Chamou.
  O que faz aqui? - Ele olhou para cima.
  Você ia embora sem ao menos se despedir? - Ela deu um sorrisinho.
  Sim. - Ele estava sério. - Volte para casa, agora.
  Por que está sendo assim? - Margaret estava assustada.
  Ora, garota… O que pensou? Que eu fosse acordar ao seu lado, com carícias e tudo mais? - Ele se levantou, ficando perto dela. - Isso não é um filme, Margaret. É a vida real! - exclamou, chamando a atenção de alguns.
  Tyler, pare! - Margaret pediu. - Tem pessoas olhando.
  Perfeito! Assim elas podem ouvir. - Ele sorriu, sádico, segurando um braço e o queixo dela. - Preste atenção, Margaret… A noite passada não significou nada para mim. Eu só estava com vontade de traçar alguém. E você se entregou para mim como uma tola. Uma vadia tola. - O tom dele era frio. Margaret sentia seus olhos começarem a arder. - Ainda consigo escutar você gemer. Parecia uma puta. Na realidade, é isso que você é. Uma puta que dá para qualquer um!
  Tyler… - O rosto dela estava manchado pelas lágrimas. Ele permaneceu sério, a encarando. - EU TE ODEIO! - ela berrou, saindo as pressas dali, aos prantos.”

  Fora naquele dia que tivera sua primeira ressaca. E foi quando fizera sua primeira tatuagem.
  Margaret bebeu um gole da garrafa de whisky. A face estava contorcida em uma careta.
  Aquele maldito ainda se fazia de inocente perto dela.
  Ela até poderia ter superado. Mas guardar mágoa era inevitável.
  Terminou o cigarro, o apagando na água da banheira.
  Levantou-se e se secou, deixando a garrafa caída e ainda meio cheia perto da banheira.
  Foi para o quarto, trocando-se apenas com um conjunto de lingerie preto, e se colocou à frente do espelho.
  Os cabelos não eram mais inteiramente loiros, apenas metade. A outra metade era escura, o preto já estava desbotando.
  O corpo era magro. Seios médios, glúteos redondos, assim como as coxas.
  Os braços e pernas eram preenchidos por tatuagens diversas, mas todas com o mesmo significado.
  Estalou a língua, pouco se importando com a cara borrada e desceu vestida daquela maneira para a cozinha. Seu estômago roncava.
  Ao chegar, quis dar meia volta no mesmo instante.
  Tyler estava virado para o fogão, aparentemente retirando algo do forno.
  Margaret recuou silenciosamente, pronta para subir as escadas, mas foi notada.
  Vejo que saiu da toca, - ele comentou, agora apoiado no balcão central da cozinha tipicamente americana. A garota encolheu os ombros e se virou lentamente, evitando olhar para o rapaz. Tyler jogou uma maçã que pegara na fruteira na direção de Margaret, que pegou-a por puro reflexo.
  A garota observou a fruta de casca avermelhada e fez uma careta de nojo, colocando a maçã na fruteira novamente. Se dirigiu para a geladeira, sob o olhar do irmão.
  Pare de me olhar, - murmurou. Ela queria evitar uma conversa com ele.
  Para ter evitado a maçã, você deve ter vontade de algo mais específico, - ele falou, fazendo-a olhar por cima do ombro. Uma bandeja com biscoitos estava em cima do balcão.
  Biscoitos? - Ela sorriu irônica.
  Não são só biscoitos… - Tyler pegou um em mãos. - É a receita de biscoitos amanteigados do papai.
  Você achou aquela receita? - Ela se virou por completo, o encarando incrédula.
  Estava escondida entre as outras. - Deu de ombros. - Prove um.
  Margaret olhou os biscoitos. Seu estômago roncou e sua boca salivou. Quando foi pegar um, seu braço travou. Engolindo em seco, ela se afastou.
  “Não devo confiar nele. Não novamente.” - pensou, negando com a cabeça.
  Não, obrigada, - ela disse, de cabeça baixa.
  Ora, Maggie… Nem unzinho, bonequinha? - Tyler sussurrou ao pé do ouvido dela. Margaret prendeu o ar. - Era assim que ele te chamava, não é?
  Pare, idiota, - rosnou, balançando a cabeça em negação. - Você não tem o direito de me chamar assim! Só o papai me chamava assim! Você não é ele! - exclamou, o empurrando e saindo da cozinha em passos firmes, ouvindo os risos do irmão ficarem cada vez mais altos.
  Chegou ao quarto e bateu a porta, se encostando na mesma em seguida. Sentiu o peito doer, a garganta fechar e os olhos arderem.
  Não! Não iria chorar por ele novamente.
  Era hora de dar um basta em tudo aquilo.
  E ela tinha o plano perfeito arquitetado em sua cabeça.

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  A casa estava escura quando foi ouvido o barulho da porta da frente fechar.
  O rapaz procurou o interruptor e quando o achou, o apertou, esperando o local se iluminar. Mas isso não aconteceu.
  Acabara a energia na casa?
  Tateando o que conseguiu, encontrou algo cilíndrico. Uma lanterna.
  Ligou-a, conseguindo ver algo agora.
  E tomou um susto.
  A casa estava completamente revirada.
  Cacos de vidro dos porta retratos, a televisão quebrada no chão. O sofá virado, assim como a mesinha de centro. Os vasos despedaçados e as cortinas rasgadas.
  O que havia acontecido ali? Um assalto? Ainda havia alguém na casa?
  Notou que uma trilha de coisas levavam para a cozinha. Seguiu-a e iluminou a cozinha. Esta se encontrava na mais perfeita ordem. Olhou cada móvel e parou o olhar na geladeira.
  Se aproximou e notou que os imãs estavam alocados de modo que formavam uma palavra. M-A-R-G-A-R-E-T.
  Ele arregalou os olhos e se assustou, ouvindo o barulho de algo caindo no segundo andar da casa.
  Subiu as escadas, suando frio.
  Agora tudo o que era ouvido eram seus passos sobre o piso de madeira.
  De súbito, a lanterna se apagou.
  Merda… - ele disse, dando alguns tabefes na lanterna, para ver se ela voltava a funcionar.
  Sem sucesso.
  Olhou para todas as direções, tentando enxergar algo.
  A casa estava estranhamente tenebrosa.
  Engoliu em seco, dando um passo. Assustou-se quando a porta ao seu lado abriu-se. O grito ficou preso em sua garganta.
  Tyler… - uma voz cantarolou. Vinha de dentro do quarto.
  Ainda assustado, adentrou ao quarto. A porta atrás de si fechou-se sozinha. Ele tentou abri-la, inutilmente.
  Rosnou, querendo xingar, mas foi impedido por uma risada infantil atrás de si.
  Virou-se e viu o local. Todo iluminado por velas. Na cama que havia ali, estavam ursos de pelúcia e no chão, blocos de letras montáveis.
  Ele conhecia aquele cômodo! Era o quarto da sua irmã.
  Margaret? - chamou, esperando uma resposta.
  Príncipe Mandão… - Ouviu a voz dela.
  Onde você está? - Ele rodou os olhos, procurando a figura da irmã.
  Bem atrás de você, irmãozão! - Tyler sentiu suas costas serem arranhadas e deu um pulo para a frente.
  O que está acontecendo, Margaret? - Ele se virou para ela.
  Poxa! Nem pra me chamar de Meggie? - Ela fez um bico. - Vamos, vai! Eu até me vesti mais apropriadamente para você me chamar assim…- Ele olhou as vestimentas dela. O vestido rodado, cheio de babados e meias com desenhos de ursinhos. Os cabelos dela estavam presos em duas marias-chiquinhas. Tyler arqueou as sobrancelhas, olhando a irmã nos olhos. - Ah, vamos! Eu não pareço uma bonequinha?
  Margaret… Você está começando a me assustar… - Ele ergueu as mãos, se afastando.
  Mas eu não fiz nada… Ainda. - Ela se aproximou, lentamente. Tyler acabou tropeçando nos blocos no chão e caiu sobre a cama. Ainda confuso, sentiu seus pulsos serem presos na cabeceira da cama.
  Margaret! - Ele exclamou, puxando os pulsos, tentando se soltar.
  É inútil. - Agora, o tom infantil na voz dela sumira. - Eu bem que poderia te vendar, mas não teria graça. Você não conseguiria assistir.
  Assistir a que? - Tyler observava ela subindo em cima de si, se sentando em seu abdômen.
  O seu fim. - Margaret sorriu, pegando a faca para carnes em mãos.
  Margaret! Pare de brincadeiras! - ele exclamou, engolindo em seco.
  Não sei de onde você tirou essa ideia. - Ela analisou a faca. - Eu já estou bem grandinha para brincadeiras.
  Você não pretende me matar… - Ele começou a negar com a cabeça freneticamente.
  Você ainda duvida? - Ela tombou a cabeça para o lado.
  S-Se você fosse, já teria feito. - Riu, nervoso.
  Você é idiota. - Margaret revirou os olhos. - Eu vou realmente te matar, não se engane. - Deu de ombros. - Mas você deve de estar se perguntando “Por quê?” - Suspirou. - Bom, a resposta é muito simples… Você merece.
  Ah, claro! - Tyler riu. - Vamos! Deixe essa faca de lado, você pode se machucar! E me solte.
  Você insiste em achar que é uma brincadeira… Patético. - Margaret negou com a cabeça. - Eu sei muito bem como manusear uma faca. - Girou o instrumento entre os dedos habilmente. - Não sou uma criancinha, como você insiste em enxergar! - rosnou. - É por isso que você merece morrer! Você me machucou, não uma, mas diversas vezes. Eu fui tão tola por te perdoar. - Margaret queria chorar, de raiva. - Mas agora não. Foi a gota d’água, Tyler.
  Você é louca! - Tyler disse.
  Se eu sou louca, você é o quê? - perguntou. - O Príncipe Perfeitinho? Dono de tudo e todos? - As lágrimas borravam suas bochechas. - Não. Você não é. - Apontou a faca para o olho dele. - Está vendo essa cicatriz? - Indicou a perna. - Foi a primeira vez em que eu te perdoei. E eu não quero ver o que vai acontecer se eu te perdoar mais uma.- Limpou o rosto. Em seguida, segurou a faca com ambas as mãos. - Adeus, irmãozão.
  Marg… - Ele não conseguiu terminar.
  A faca adentrou no peito dele. Uma, duas, oito vezes. Os movimentos eram bruscos e raivosos. O sangue se espalhando pelo edredom, parede, chão e corpo da garota assassina.
  MONSTRO! - ela berrou, enterrando a faca uma última vez.
  Silêncio.
  Margaret sentia o sangue escorrendo por seu rosto e pingando. Sentiu os olhos arderem e começarem a lacrimejar mais uma vez. Saiu de cima do corpo inerte e caiu de costas, perto da cômoda.
  Respirava forte, sentindo os pulmões em brasa, como se tivesse corrido quilômetros.
  Um sorriso se abriu em seu rosto. Um grande sorriso.
  Começou a rir. Primeiro fraco, mas aumentou gradativamente.
  Ela estava livre, finalmente.
  Continuou a rir, sentindo o gosto do sangue em seus lábios.
  Estava livre, de fato.
  Mas sua sanidade?
  Morrera junto com seu querido Garoto do Alfabeto.

Fim