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Temporada #033

Thought I have while lying in bed
The Maine

Esta história não possui capas prévias (:

Sem curiosidades para essa história no momento!

The Thought I Have While Lying In Bed

PARTE 1

  O efeito colateral é uma consequência. Pelo menos é o que dizem.
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  Uma consequência sobre uma determinada ingestão de algum medicamento que pode causar efeito paralelo ao esperado. Pode ser como tomar um vinho esperando ficar bêbado, mas ficar apenas com sono; ou então, fora dos fármacos, ir para uma festa, querendo se divertir e ser feliz, mas se sentir o oposto disso. E eu vivia esse efeito colateral da vida há muitos anos.
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  Não fazia muito tempo e estava em cima da mesa, dançando, enquanto eu a observava de longe, como sempre. Embora, na maioria das vezes, eu preferisse ficar em casa na companhia do meu silêncio, levá-la para sair acabava sendo como um refúgio, uma saída das próprias paredes carnívoras da minha residência. Ver que nela ainda existia tanta vida era um bom motivo para não viver a falta de tal dentro de mim, como se fosse uma razão mais do que suficiente, então eu a observava usando meu privilégio em estar tão perto de alguém como ela; como se fosse uma sessão de cinema e ela fosse o longa em cartaz. Fazê-la viver era o que me movia há muito tempo, bem mais do que qualquer remédio receitado por psiquiatra.
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   gostava de estar em locais cheios e badalados. Vivia o clichê da universitária baladeira que não tinha hora para chegar em casa no final de semana e dava um certo trabalho aos pais — geralmente ela saía da faculdade na sexta e ia direto para o meu apartamento, voltando na segunda-feira seguinte; muitas vezes eu tentei fazê-la seguir um caminho oposto do meu, nos afastar, e não tinha nada a ver com meu egoísmo em querer aproveitar a solidão da minha decepção com a vida sozinho, mas, sim, o bem dela. Porém, passados dois anos dela insistindo em mim, eu acabei reprogramando minha insuficiência para fazê-la feliz da forma como eu podia. Então descobri que também tinha os seus efeitos colaterais, o que me abriu os olhos para notar a razão do nosso match ser tão certo.
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  Viver ao lado dela e das suas cores misturadas acima da nuvem cinza, mesmo que eu me sentisse mal por não ser o príncipe tão encantado que sua família queria, era o motivo pelo qual ainda permanecia em pé, mesmo não sentindo minhas pernas.
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  — Está tudo bem, ?
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  Desviei o olhar da direção de para Mark ao ouvi-lo.
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  — Sim. Está. — apenas assenti, erguendo o copo quase vazio de uísque em um brinde e me endireitei, desencostando do balcão do bar. — Você tem isqueiro?
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  Mark sacou de seu bolso o objeto de fogo, estendendo para mim com certo receio.
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  — Não sei se ainda devo fazer isso para você.
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  — Relaxa, se marijuana não me matar, os medicamentos irão. — tomei da sua mão e coloquei o copo na superfície. — Nos vemos mais tarde.
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  — Vai deixá-la ali? Não vai chamá-la? — ele me questionou, segurando em meu braço quando estava passando ao seu lado.
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  — Eu nunca a convidei, Mark.
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  Me soltei e continuei a caminhar.
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  Minha intenção era ir direto aos fundos da Suburban’s, no lugar que quase ninguém ia porque a parte lateral parecia ser mais adequada e menos escondida, e dentro de uma casa noturna ninguém quer ficar escondido; o desejo é sempre estar no meio do público, com calor humano, obviamente. Entretanto, eu ansiava pelo contrário, a fobia de estar no meio de tanta gente não conseguia ser tão camuflada assim por muito tempo, por mais que eu colocasse meu foco somente em . Acredito que de tanto enxergá-la se divertindo e fazendo tudo o que seu consciente pedia de maneira desenfreada, acabava por me deixar com o sentimento maior de culpa.
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  Mas eu não podia controlá-la, certo? Tentei por longos meses a convencer de que a minha forma de viver era errada, que os vícios não eram legais perante a lei dos homens e espiritual, só que nunca foi suficiente. Também não ofereci; absolutamente nada do que ela fazia tinha influência direta minha, algo como “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Entretanto, era teimosa e lidar com os próprios desconcertos a fez criar o caos pessoal. E, diferente de mim, ela vivia como numa explosão de 4 de julho. Não à toa, estava em cima de uma mesa com suas amigas, dançando como se não houvesse o dia seguinte — inclusive, do contrário que manda o clichê, não bebia sem juízo algum, tudo o que fazia era em um estado são.
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  Sentei no banco isolado, assim que atravessei a rua sem saída atrás da boate. A Suburban’s pegava o quarteirão inteiro, então atrás dela era somente entrada de carga e descarga do próprio estabelecimento. Como a noite, em funcionamento, não tinha movimento de funcionários, ali era o melhor lugar para eu sentar e apreciar meu cigarro, tal qual o silêncio que as paredes com isolamento acústico me permitiam ter naquele breu da madrugada de céu estrelado. Sem vento forte, uma primavera agradável com apenas uma brisa gostosa, me permitindo acender sem muita demora, fazendo a seda queimar rapidamente, do jeito que deveria ser na ponta.
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  A primeira tragada me fez sentir os tais hormônios da felicidade completamente em rota de trabalho dentro do meu organismo. A endorfina que remédio nenhum foi capaz de produzir, perdendo apenas para — mas neste momento ela estava do lado de dentro e estava se tratando de um cigarro, obviamente não era uma explosão de felicidade tal qual a que ela me causava. Na segunda, senti meu corpo em combustão, como se o mar ansioso estivesse sendo acalmado pela erva medicinal mais eficaz que fluoxetina, ou lorazepam, ou citalopram… ou qualquer outro que já tenha sido enfiado em mim. Na ausência dela, cannabis era o meu calmante.
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  Fechei meus olhos, sentindo a brisa bater em meu rosto, já sem saber quantas tragadas tinha dado, apenas refletindo o que estava acelerado em meu coração, uma saudade de . Não consegui evitar o riso fraco e me soltei, deitando a cabeça para trás e pensando nela, na melhor produtora da minha serotonina, que estava lá dentro vivendo, sendo sua essência. E eu não queria que isso acabasse nunca, porque era prazeroso demais vê-la viver e conseguir lutar contra sua própria escuridão, sua própria dor, mesmo que isso causasse um estrago e fosse sufocada pelo que pessoas de fora achavam — mas a graça de era justamente a ignorância; se fazer de cega para se blindar do que poderia atingi-la diretamente em sua fraqueza e a afundar mais, era sexy e atraente demais.
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  Como uma utopia própria que eu não conseguiria alcançar. E talvez esse fosse meu egoísmo, porque ela me dava todas as chances de continuar, de querer viver, porém, inconscientemente, eu continuava cada vez mais distante de querer ser como ela.
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  Senti um peso em cima das minhas pernas e logo em seguida o cigarro foi tirado da minha mão. Não precisava abrir os olhos e me endireitar, sabia exatamente quem era. Então sorri, ainda na mesma posição, podendo sentir o perfume inebriante dela misturado com a fumaça da maconha. Com certeza me senti um cretino por isso fazer o meu corpo todo se estremecer, claro, um lado hipócrita difícil de evitar. Mas acontece que a partir do momento que a seda, enrolando e protegendo a erva, se prende entre meu indicador e o dedo médio, todos os meus sentidos e pensamentos passivos de um homem adulto e que tenta ser responsável ao menos pela única pessoa que importa, vão embora. Porque o trabalho conjunto dos produtores da minha utopia é tão quebrado, que ao invés de me fazerem feliz, eles me fazem hipócrita e mentiroso.
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  — Não vou reclamar de você fugir de mim como sempre faz… — disse baixo, tranquila, completamente diferente da pessoa que pouco tempo antes (e eu não tinha certeza quanto) estava em cima de uma mesa. — Vou só ficar aqui, quietinha, pra você.
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  Resmunguei uma sílaba longa ao sentir ela se ajeitar em cima do meu colo, com os joelhos dobrados nas laterais do meu corpo. A intensidade era maior do que normal, certamente.
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  — Tem outro? — ela perguntou, curvando seu corpo para se colar mais em mim e encaixar o rosto na curvatura do meu pescoço, com espaço suficiente para tragar o cigarro.
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  Suspirei lentamente, pesado, porém em uma leveza que só aquele momento proporcionava.
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  — Sim.
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  — Deixa eu adivinhar, está dentro do seu bolso…
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   me respondeu rouca, soltando a fumaça presa em mim e deslizando sua mão direita, que abraçava minha cintura, pelas minhas costas, no vão entre o meu corpo e o encosto do banco. Senti ela enfiar a mão dentro do meu bolso traseiro da jeans, me fazendo erguer o quadril para ajudá-la.
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  Era tudo em câmera lenta, mas parecia gostoso demais para eu querer acelerar o processo. De repente, a minha preocupação era única e exclusivamente estar ali com ela, colado, fundindo-se um no outro.
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  — … — me chamou, puxando a latinha média de dentro do bolso. Quando fez menção de se afastar, eu “acordei” em um estalo, abrindo os olhos e me endireitando com a mão em sua coluna, lhe sustentando para ficar firme ainda em meu colo.
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  Os olhos dela refletiam tanta coisa, que eu passaria uma vida olhando para eles. Mas o melhor de tudo, eles brilhavam tanto para mim, que eu podia me ver como se estivesse em uma constelação galáctica.
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  E era onde eu me perdia todas as vezes. Em ansiedade, em sentimentos depressivos, falta de vontade de viver, o desejo desenfreado pela automedicação, tudo, absolutamente todas as convicções que eu tinha do que poderia me fazer bem e feliz, se esvaindo quando ela me refletia.
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  — Acende pra mim? — me perguntou, baixinho, desdobrando os joelhos e passando as pernas em volta de mim, entrelaçando-as atrás do meu corpo.
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  Minha respiração estava pesada, difícil, meu foco era somente seus olhos e tudo o que fiz foi automático: colocar o cigarro entre os lábios, acender, puxar, prender e passar. E ela estava vidrada no que eu estava fazendo, em expectativa; para a minha não decepção, sua vontade era de me beijar, e foi o que fez assim que tomou o cigarro dos meus dedos, após passar a fumaça para sua direção.
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  O beijo não era somente entre nossas bocas, os corpos conversavam, se medicavam — ou pode-se dizer que se completavam como um tanque de gasolina em contato com uma simples faísca. Era como eu me sentia normalmente, mas parecia que o efeito conjunto era mais eficaz em me fazer ter outra sanidade.
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  A droga funcionava como uma única bala dentro da câmara, com boa mira e intencionada.
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  Doía, porque era uma decepção que não queria entregar a ela. Porém, eu estava preso demais nos meus péssimos hábitos.
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PARTE 2

  — Acho que você deveria mudar o tapete da porta.
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  Me virei para a direção de onde vinha a voz, me sentindo um pouco tonto pelo movimento, e mantive a mão no caminho da maçaneta. Encarei a mulher parada na porta ao lado esquerdo da minha, a vizinha nova.
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  — O quê? — minha resposta foi automática, eu não estava confuso igual o meu tom fez parecer.
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  — O tapete. Ele está… rasgado. Não limpa o pé corretamente e você vai levar toda a sujeira da rua para o seu ambiente.
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  Ela parecia decidida em me convencer do que estava falando e eu não tinha nem um pingo de vontade de estar ali, discutindo sobre um tapete velho que não havia sido eu a colocar na porta do meu apartamento. Tampouco estava interessado em mudar qualquer coisa. Mas seria grosseiro expor toda a verdade, além dela ser uma desconhecida e não ter responsabilidade nenhuma em ter de me ouvir falar sobre as ladainhas da minha vida preto e branco.
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  Apenas torci os lábios, demonstrando minha camuflagem para o tanto de coisas presas que poderiam sair se eu abrisse a boca para falar qualquer coisa, o tédio.
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  — Irei pensar sobre isso. — minha mão encontrou a maçaneta e eu empurrei a porta, entrando logo para não dar continuidade no assunto.
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  A sala estava do mesmo jeito que eu tinha deixado na noite anterior, antes de sair para o show. E, como sempre, D’arc veio me cumprimentar com seu jeito felino, passando por entre minhas pernas com seu rabo erguido e o miado de quem me dizia que queria comer, afinal era só isso que ela me pedia, comida, água e paz. Talvez fosse uma extensão do que eu era, até porque o que eu vejo no outro e que me incomoda está, na verdade, em mim.
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  — Eu deixei comida o suficiente para você, precisa parar de comer tudo de uma vez só. — me abaixei para passar a mão em seu pelo, tendo um breve momento dela me deixando lhe acariciar e dar carinho, até porque tinha um certo interesse em cima disso, D’arc queria comer. — Gosto que você não esconde o seu interesse.
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  Ela se sentou em minha frente e eu me levantei, me direcionando para o pote de sua ração na parede lateral à porta, abri o armário também no mesmo canto e tirei o pacote de ração, despejando no recipiente, sendo observado por uma devoradora de ratos e baratas que vivia em minha casa de graça, depois de ser deixada para trás por sua primeira humana. D’arc foi rapidamente para sua comida, não esquecendo seu miado em agradecimento. Pelo menos ela tentava demonstrar um pouco da educação que lhe fora dada quando era filhote.
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  Respirei fundo e finalmente me joguei no sofá, tirando de dentro da minha jaqueta os envelopes de cartas que peguei na caixa de correspondências. Joguei no espaço vazio ao meu lado, cansado demais para me importar com as contas a serem pagas no mês que se iniciava, sentindo meu corpo começar a se comprimir outra vez em menos de algumas horas. Como em um fluxo de idas e vindas, assim como as ondas do mar: quando recuava, era o momento em que eu me sentia anestesiado, para então retornar em sua altura absurda; por vezes se fazia como na praia, ondas mais levianas, em outras, me sentia em alto mar durante uma tempestade, completamente abatido pela água que nunca parava. Era cansativo não enxergar uma rota de fuga e não ver uma mínima cor, por menos intensa que fosse.
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  Cansativo se sentir cansado.
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  Me sentia em inércia; ainda que fosse uma propriedade geral de matéria, na condição em que estava há tempos se fazia impossível qualquer variação de velocidade. O modo automático não conseguia mais ser derrubado nem mesmo quando eu estava em cima dos palcos me apresentando, não tinha um sentido, uma linha de movimento sequer. Perdido em um labirinto, entregue à falta de saídas. E isso não era novo, não, pelo contrário, já durava tempo demais, porém agora soava diferente porque eu não conseguia mais encontrar nenhuma cor em nada, assim como eu tinha seis meses atrás. Estava abandonado depois da última tentativa de resgate, só que a partida de me fazia pensar se ela realmente tentou me salvar ou me acompanhar, querendo acreditar que não era uma forma de se auto preencher de algo que ela achava que eu poderia oferecer.
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  Um porém que me fazia ignorar todas as tentativas dos meus neurônios de gerar a culpa sobre ela. Na tentativa de encontrar o que ela poderia estar buscando no interesse de ficar comigo, eu não conseguia encontrar uma resposta, porque sabia que em mim não encontraria nada além de alguém sem coragem de andar pelos próprios pés. Antes dela, eu era pacato, sem perspectiva para nada, com total falta de um senso crítico em cima da minha própria rotina morta; vivia no desejo profundo de encontrar um ceifador, sabendo que a minha covardia me fazia continuar vivendo o ciclo interminável do desânimo. Bem, pelo menos eu acreditava que ela não era ignorante ou como uma das tantas outras pessoas com um vazio diferente do meu no mundo.
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  Quanto mais eu pensava sobre isso, maior era a minha angústia, gigante se tornava o meu pacote de medos e receios, incessante como minha ansiedade diária. Nem mesmo os flashes do sol das seis entrando pela janela da minha sala e batendo contra mim, esquentando mais o tecido das roupas de outono, pareciam ser uma faísca eficiente para me causar algum sentimento, porque nada era capaz de me preocupar ou causar qualquer movimento. Nem mesmo o oposto do positivo me atingia e minhas lágrimas, que ainda sobravam como uma população perdida no meio de uma ilha abandonada, caíam em forma de apelo.
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  Um apelo que não me causava mais nada, porque o meu tipo de vazio era o perigoso, daqueles que sugam tanto a ponto de não conseguir expelir, causando toda a instabilidade emocional, psíquica e física. Algo que nem mesmo Freud poderia desvendar.
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  Mas eu ainda não tinha coragem, tanto que minha única saída era clamar por algum comando que fosse possível me fazer tentar, mesmo sabendo que seria uma medida da covardia.
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  Não deveria ser tão difícil deixar de ser e estar cansado.
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  Todo e qualquer movimento deveria ser menos doloroso, menos complexo e com ruídos, não um extremo silêncio incompreensível. Eu deveria estar me perguntando em que lugar poderia comprar um novo tapete para minha porta, ou então ter me atentado a isso antes — o que não faria a vizinha interagir comigo sobre tal item e se fosse como a segunda face de Murphy: o que tiver de ser vai ser. De alguma forma, eu deveria estar me importando e não na briga impiedosa contra o montante de responsáveis pela incompreensão, mas eu conseguia sentir que quanto mais buscava as respostas que não consegui encontrar em anos, maior se tornava o abismo.
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  E continuava me cansando estar cansado.
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  Tirei minha jaqueta e puxei o monte de cartas, levantando e indo até o aparelho telefônico em cima do balcão que dividia o ambiente aberto entre cozinha e sala. Dei a volta enquanto ouvia as mensagens da caixa postal e abri a gaveta, pegando minha carteira de cigarros; felizmente, não precisaria bolar e me preocupar com o TOC sobre o alinhamento da seda com a erva dentro, estava tudo pronto. E enquanto Mark contava sobre sua última aula de piano com o professor no estúdio que estava trabalhando em Los Angeles, empolgado e ansioso pelo cumprimento da minha promessa de ir até ele e tentar trilhar esse caminho juntos, eu acendi o cigarro, tragando com todo o desejo e calmaria possíveis. A sensação da recreação começando a despontar.
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  Um pouco mais de áudio e ele estava me perguntando sobre os shows noturnos e como eu estava conseguindo me manter sozinho em Orlando. Pensei em anotar a resposta para enviar depois com um delicioso e gordo envelope de todos os boletos que estavam pagos, além do recibo do meu aluguel em dia e uma foto do pacote de ração de D’arc, a mais cara. Seria uma boa forma de mostrar que materialmente eu não tinha ausência de nada, na questão financeira, claro. Porém, eu não conseguia me sentir diferente de apático.
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  Não até o segundo recado.
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  — Ei, ? — suspirou e eu sabia que ela estava com vergonha, era o tom doce da voz dela que denunciava. — Eu espero que não tenha trocado o número de casa… Poderia te ligar ou mandar mensagem, sei disso, mas eu não tenho mais o seu número e… Sim, eu procurei pela agenda física. Uma velharia, não é mesmo? Talvez eu devesse agradecer minha avó.
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  Eu não sabia quantas vezes já havia tragado e o tanto de droga que continha em meu organismo, só tinha noção de que o vácuo constante deixou de ser linear por um momento, me fazendo sentir a primeira gota rolando pelas maçãs do meu rosto. O único momento que eu sentia dor era quando notava a ausência dela, ao ouvir sua voz em áudios que eu ainda tinha da nossa conversa nunca apagada, das fotos que eu via em minha galeria do celular, ou os vídeos que tínhamos de todo e qualquer cunho. Eu notava o peso em meu peito quando percebia que ela não era mais a pessoa que tanto me preenchia, e sim a que passou a ficar menos, me fazendo ter uma noção de que fora uma passagem tão depressa, tão rápida e que eu pouco aproveitei — e talvez por isso não quisesse de fato encontrar a razão da sua partida; se confessasse que fui usado para sua própria glorificação, poderia não doer tanto quanto a forma que a saudade dela tinha.
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  Sendo usado ou não, soava como se ainda tivesse tido um interesse. Uma origem, pelo menos.
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  — Enfim, eu tô te ligando para garantir que… na verdade, eu não sei o que quero garantir, para ser bem honesta. Só queria dizer que um piano ainda é algo muito fora da minha realidade de garota deixada de fora da herança — ela riu nervosa; eu sabia como isso doía, embora não assumisse que suas escolhas tivessem gerado um arrependimento pelas consequências alcançadas —, então eu achei que esse cartão poderia ser um bom começo.
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  Olhei para a pilha em cima da superfície e puxei rapidamente, buscando, atordoado, entre elas, algo com seu nome. Quando achei, sendo o último envelope, meu coração pareceu acordar pela primeira vez.
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  — Você dizia que o vácuo parecia ser seu lugar de maior conforto. E eu discordava. Acho que agora te entendo… Então essa é a minha forma de te agradecer pelo o que tivemos, pelo o que você me proporcionou — suspirou. — Porque se eu sou quem sou hoje, é graças a você e… também porque não fomos para sempre como achamos que seria. Eu espero, de coração, que você encontre seu conforto em outra constelação, outra galáxia… em outra fórmula física. Talvez Einstein, porque Newton e Murphy foram muito pessimistas… Se cuida, por favor.
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  Sem o famoso “neném”, ou a sua declaração final de como se sentia por mim. Uma simples mensagem confusa, com suspiros de alguém cansado e com culpa a ser aliviada. A que eu conhecia e que me manteve acordado até mesmo na inércia não era a mesma que estava me mandando um cartão estampado com uma galáxia e com um simples “Aposte em Einstein” numa declaração genérica. Ou talvez eu estivesse perdido demais para reconhecer quem um dia foi meu ponto de paz.
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  E isso estava gritando muito sobre o tipo de pessoa que me tornava a cada dia.
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