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The Beauty And The Beast

1. Valentine’s Tales

Londres – 1847

  Estava eu naquele momento me sentindo como um pedaço de carne vindo do abate, nunca havia imaginado que faria parte de um casamento arranjado, menos ainda para pagar as dívidas do meu pai. Eu não sabia muito sobre o tal homem com quem havia me casado, só o tinha visto uma única vez, no altar de frente para o padre.
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  Difícil digerir tudo o que estava acontecendo comigo, há pouco menos de dois meses eu estava sonhando com o pedido que Lorde Ulrich Meagher, o Conde de Limerick faria ao meu pai, após um ano me cortejando. Seria um jantar histórico para mim, até o cardápio estava decidido e muito bem escolhido, porém, meu pai desfez os laços de cordialidade que mantinha com o conde e sua família. Sem dar as menores explicações para mim e para Lorde Ulrich, não pude mais vê-lo ou sequer mencionar seu nome, até que meu pai anunciou que eu me casaria com um burguês. Não conseguia entender que brincadeira o destino estava fazendo, para que meu pai tomasse uma decisão tão insensata para meu futuro.
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  Desde sempre, nobres e burgueses não se misturavam em circunstâncias matrimoniais, e era aquilo que estava acontecendo em minha família. Eu, uma nobre de família tradicional, me casando com um burguês, que poucos o tinham visto, mas que todos sabiam qual era seu nome e a dimensão de seu sobrenome.
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   Winchester, o homem que a partir desde momento seria meu marido, não sabia nada sobre ele, só o que havia ouvido escondida atrás da porta. Ele de uma família desconhecida, foi adotado quando criança por um açougueiro, após a esposa insistir muito, pois ela era doente e ambos não tinham filhos.
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  O que me deixava ainda mais contrariada por ter que contrair este matrimônio com ele, era todo aquele mistério que envolvia seu passado enigmático que ninguém conhecia, nem mesmo seus pais adotivos. Misturado à sua fixação pela minha família, ou por mim, era estranho entender que ele havia emprestado tanto dinheiro ao meu pai, devido suas dívidas de jogo, com a única condição de se casar comigo.
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  — Que futuro este lugar me reserva? — sussurrei para mim mesma após a criada sair do quarto.
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  Olhei para as paredes daquele frio lugar, era o quarto principal da Wincher Hall, uma mansão que ele havia mandado construir há três anos desde que voltou para Londres. Tinha um estilo clássico misturado ao neogótico, que estava se tornando muito presente na arquitetura atual.
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  Eu já estava sentindo falta do Lewis Castle, onde nasci e fui criada, minhas memórias naquele pequeno castelo em Derbyshire estariam sempre presentes, dos momentos mais pequenos aos mais memoráveis. Virei minha face para baixo e olhei para a camisola de seda branca com bordados em meu corpo, eu havia escolhido e importado aquele tecido da China, há um tempo, fazia parte do enxoval que preparei desde a minha infância.
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  Respirei fundo passando a mão naquele tecido, imaginando como seria aquela primeira noite com ele. O pouco que consegui observar nos pequenos momentos que estivemos juntos, desde o altar até o nosso almoço íntimo de celebração pelo casamento, para a família e amigos mais próximos, parecia uma pessoa reservada e extremamente silencioso.
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  Eu conseguia ouvir mais a voz de seus pais e parentes, burgueses barulhentos, do que os poucos movimentos de minha família. Mas ele estava sempre com seu olhar fixo em mim, mesmo às vezes estando ao meu lado, o que me deixou incomodada e envergonhada por ter aqueles olhos profundos e intensos voltados para mim.
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  — Lady Lewis. — disse aquela voz grossa vindo da porta, em um tom forte que me fez arrepiar.
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  — Sim. — eu me virei com suavidade e o olhei.
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  Ele adentrou mais um pouco e fechou a porta, senti meu coração pulsar um pouco mais forte, mas mantive minha respiração tranquila e suave. estava vestido com um robe azul marinho no estilo kimono, bordado com linhas prateadas, formando alguns arabescos; pelo que tinha escutado de sua mãe, aquele era um presente de casamento que ele tinha ganhado de um amigo, nobre japonês.
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  Tentei não encará-lo, mas parecia que seu olhar em mim era como um ímã que atraía meu olhar para ele na mesma proporção. Respirei fundo, precisava deixar minha mente vazia para aquele momento, minha mãe tinha me explicado algumas coisas sobre minha primeira noite com o marido.
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  Mas nada conseguia tirar de meus pensamentos como um garoto adotado havia se tornado um dos homens mais ricos de Londres. Ele possuía influência até mesmo sobre muitos nobres e conhecia muitas famílias estrangeiras, principalmente no oriente. Era notório sua inteligência e perspicácia para os negócios, seu modo silencioso o permitia observar mais as pessoas e situações ao seu redor. Acho que se eu o conhecesse, certamente ele despertaria um certo interesse de minha parte, mas não naquela situação em que eu estava sendo colocada. Entretanto, tinha que admitir, era um homem interessante, apesar de ser um burguês, capaz de arrancar olhares e suspiros em algumas mulheres, o que aconteceu com minhas primas em nosso almoço de casamento.
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  — Espero que esteja se sentindo confortável. — disse ele dando alguns passos até mim.
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  — Na medida do possível, senhor. — mantive meu olhar baixo.
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  — Diga-me o que posso fazer para que se sinta melhor. — ele parou em minha frente, certamente mantinha seu olhar em mim.
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  — Infelizmente, nada. — respirei fundo. — Apenas faça o que o senhor deve fazer.
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  Fechei meu olhos esperando, aquela era a hora em que nosso matrimônio enfim seria consumado e seríamos um do outro para sempre. Ele tocou em meus cabelos, escorregando seus dedos suavemente até minha face, senti um breve arrepio em meu corpo, suas mãos estavam quentes e surpreendentemente eram macias para um burguês.
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  — Não. — disse ele dando um passo para trás, retirando sua mão de meu rosto. — Não a forçaria a fazer tal coisa, sei que não era eu com quem gostaria de estar agora.
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  — E… — abri meus olhos e o olhei. — Acaso tenho outra escolha? Meu pai possui uma grande dívida com o senhor, este momento deve acontecer.
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  — Não foi de sua escolha, então…
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  — Meu senhor, meu pai não me obrigou, apesar do compromisso que ele possuía com o senhor, mas concordei com este matrimônio por minha livre e espontânea vontade, apesar de jamais me imaginar casando por dinheiro.
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  — Eu também jamais queria que fosse assim, gostaria de te libertar, mas não consigo imaginá-la nos braços de outro homem, não suportaria. — disse ele num tom frustrado e um pouco baixo. — Porém, como sabemos, esta é a única forma de um matrimônio entre burgueses e nobres acontecer.
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  O que ele queria dizer com aquilo? Que tinha mesmo a intenção de forçar este casamento com seu dinheiro?
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  — Senhor, como pode dizer essas palavras? — eu estava confusa com sua afirmação perante mim. — Como o senhor pode ter estes sentimentos, se nem mesmo me conhece?
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  — Talvez eu a conheça mais do que imagina. — ele deu um passo para frente e tocou novamente em minha face. — Em um passado distante e esquecido, talvez de uma realidade que tenha se tornado um sonho para… Lady .
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  Eu não sabia o que dizer, nem imaginava se o que ele dizia fazia algum sentido para mim, respirei fundo sentindo sua mão descer até meu ombro, ele foi se aproximando mais de mim até que seus lábios tocaram meu pescoço. Senti um breve arrepio em meu corpo todo, naquele momento meu coração começou a acelerar, eu não sabia se estava mesmo preparada para o que aconteceria depois.
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  — Permita-me fazê-la se lembrar daquele passado… — sussurrou ele em meu ouvido.
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  — Senhor Winches… — fui interrompida por um leve beijo dele, que fez com que meu corpo meio trêmulo se aquecesse.
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  — Minha lady — ele tocou em minha camisola fazendo a alça do lado direito cair do meu ombro e beijou novamente meu pescoço —, permita-me amá-la sem reservas?
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  Eu fechei meus olhos sem saber como reagir a sua voz doce e envolvente. Logo senti seu corpo junto ao meu, seus beijos começaram de forma gradativa a se intensificar, o que fazia com que meus pensamentos começassem a ficar desordenados e incontroláveis. Quando mais ele pedia permissão para em amar, mais eu queria entender de onde vinha todo aquele sentimento que parecia cada vez mais sincero.
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  Eu não imaginava que seria assim, não imaginava que a muralha que tinha construído em volta de mim e do meu coração seria derrubada com apenas uma pergunta. “Permita-me amá-la sem reservas?” Sempre que ele sussurrava em meu ouvido, sentia meu corpo ceder ainda mais de forma automática, e isso me fazia perguntar o que estava acontecendo comigo.
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  Externamente meu corpo estava em sincronia com o dele, respondendo ao seu chamado de forma automática, internamente eu estava me sentindo ainda mais aquecida e inesperadamente amada. Era um sentimento novo para mim, paixão, amor ou apenas prazer? Não, o que eu estava sentindo era a mistura tudo aquilo e ainda mais, tinha uma pitada de descoberta, o que me fazia querer entender o que ele realmente representaria para mim a partir daquele momento.
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  Eu estava permitindo, o que imaginei sobre meu casamento no início já havia sido jogado no mar do esquecimento, estava se tornando algo além do que somente um enigma na minha vida. Sentia que o conhecia de fato, de alguma forma ele conhecia minhas dores internas e muito esquecidas, dores essas que estavam gravadas em minhas costas em forma de cicatriz.
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  A cada beijo que ele dava em cada cicatriz, sentia meu corpo arrepiar, seu toque em minhas costas formando os riscos de cada uma, faziam meu coração pulsar mais forte. Era uma parte de mim que ele parecia conhecer, uma parte da qual não me lembrava, mas que ele demonstrava que também tinha algo gravado nele.
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  — Senhor… — sussurrei mantendo meus olhos fechados, tocando no alto relevo que tinha no braço direito dele. — O que está fazendo comigo? Por que estou sentindo isso?
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  — Porque você também quer me amar. — sussurrou ele de volta.
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  Eu queria? Sim, meu corpo inteiro dizia que sim e meu coração já estava se entregando a isso, ao sentimento dele que estava vindo ao meu encontro. Como ele poderia me amar assim de forma tão intensa e me fazer retribuir na mesma proporção, este sentimento me deixava com ainda mais vontade de estar em seus braços?
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Quando seguro sua mão, o mundo todo tem inveja.
E quando te beijo, percebo que esse sentimento não mudará

O ‘para sempre’, como todos dizem, talvez não exista,
Mas pode ter certeza, independente de tudo, sempre te amarei.
Aos poucos entenderá isso.
Eu não sei por que,
Esse amor é insubstituível, uma surpresa repentina,
Você tornou-se uma pessoa melhor,
Contanto que viva ao meu lado, à vida é colorida.”
– What Is Love / EXO

Derbyshire – 1833

:

  Eu estava com fome. Já fazia três dias que estava caminhando pela beira da estrada, não sabia para qual destino estava indo, mas tinha a certeza de que não voltaria para a workhouse do senhor Cooper, jamais seria escravizado novamente por ele. Entretanto, isso não mudava minha atual situação, eu precisava encontrar algo para comer, apenas não sabia como.
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  Foi quando senti um cheiro vindo ao leste do campo de lavanda, que acompanhava toda a estrada. Pulei a cerca e adentrei o campo, eu estava me movendo de acordo com o aroma que sentia, do que parecia ser um pedaço de carne sendo assado. Em uma certa distância, avistei algumas pessoas, algumas estavam vestes de criadagem e outras trajando roupas de mais ostentação, certamente os donos da casa.
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  Eu me locomovi de forma silenciosa, poderia até ser comparado a um animal em momento de caça, fui chegando a cada momento mais perto e mais perto, até que me escondi atrás de uma árvore que tinha perto do cercado.
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  — O que está fazendo? — disse uma voz.
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  — Hum?! — eu olhei para trás de depois olhei para frente novamente, não tinha visto ninguém.
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  Será que pela fome, estaria eu ouvindo vozes? Ouvi um riso baixo, até que uma garota caiu em minha frente.
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  — O que está fazendo? — perguntou ela novamente.
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  Eu me movi para trás tentando não ficar nervoso, mas tinha que sair de lá.
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  — Ei, espere! — ela me gritou.
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  Mas não olhei para trás e continuei seguindo pelo campo de lavanda. Me abaixei e fiquei ali esperando o tempo passar, quanto mais eu esperava, mais eu sentia minha barriga doer. Algumas horas depois, eu senti uma movimentação no meio do campo, me encolhi ainda mais, pedia a Deus para que não fosse um adulto.
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  — Ei! Eu sei que ainda está aqui. — a voz era da menina — Você está com fome?
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  Fechei meus olhos colocando a mão na barriga, estava fazendo alguns barulhos involuntários de fome intensa.
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  — Acabei de ouvir isso. — disse a voz bem próxima de mim — Me parece que está mesmo com fome, eu vou deixar isto aqui.
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  Ergui de leve minha cabeça e vi a menina de costas, voltando para a direção da cerca. Me arrastei até onde ela estava e tinha um prato de porcelana com alguns pedaços de carne. De imediato minha boca salivou e aquele fundo em minha barriga havia retornado, ela tinha deixado para mim e eu não recusaria, mas estava torcendo para que não estivesse envenenado e que não fosse a última refeição da minha vida.
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  Peguei o prato para voltar onde eu estava me escondendo, e observei que havia uma chave caída. Será que ela tinha perdido ou deixado de propósito? Peguei a chave e guardei no bolso da calça, assim que comi todos os pedaços de carne, me mantive agachado novamente esperando.
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  Assim que escureceu, segui em direção ao castelo, de longe parecia grande, porém de perto era um pouco pequeno para ser um castelo, segui pelos pontos cegos que não tinha empregados. Parecia que os donos já tinham se recolhido e que estavam todos em seus aposentos, era loucura de minha parte, mas eu iria tentar abrir as portas com aquela chave.
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  Com os dedos cruzados e torcendo para que ninguém me ouvisse, tentei abrir a porta mais importante de todas, a da cozinha. Assim que a tranca fez aquele barulho e a porta se abriu, eu entrei silenciosamente, quase segurando minha respiração.
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  — Finalmente. — disse uma voz feminina vindo de trás de mim.
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  — O quê? — eu olhei para trás e lá estava a menina atrás da porta me olhando com um sorriso.
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  — Pensei que não tivesse visto a chave. — disse ela correndo seu olhar em minhas roupas.
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  — Vim agradecer pela comida e devolver isso. — disse esticando a mão com a chave.
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  — Lady Lewis, o que faz acordada ainda, sabe que seus pais estão em viagem, por isso deve se comportar dobrado e dar exemplo a suas irmãs. — disse uma mulher entrando na cozinha, ela lançou sua face para mim. — Oh, céus, o que… Quem é esta… — vi seus olhos focarem na chave em minha mão — Seu ladrãozinho.
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  — Não, eu posso explicar. — disse a garota pegando a chave de minha mão.
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  — Venha, lady Lewis. — a mulher a puxou pelo braço. — Não deveria estar aqui, menos ainda com um ladrão.
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  — Mas ele… — a garota tentou argumentar.
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  — O que está acontecendo aqui, estou ouvindo as vozes do corredor. — reclamou um homem entrando na cozinha.
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  — Senhor Rochefort, dê um jeito nessa criança, ela roubou minha chave e invadiu o Lewis Castle. — explicou ela olhando para mim em fúria.
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  — Ah, seu ladrãozinho. — disse o homem vindo em minha direção.
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  Eu, que estava estático naquele momento, tentei me locomover para sair daquele lugar, mas o homem pegou forte em meu braço.
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  — Me solte, senhorita Morre! — gritou a garota — Ele é inocente, fui eu quem pegou sua chave e dei a ele!
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  — Lady Lewis. — a mulher a olhou com ar de decepção. — Não acredito que tenha feito isso, ajudando um órfão rejeitado a roubar?
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  — Ele é uma pessoa como eu e a senhorita. — retrucou ela desviando seu olhar para mim. — Me desculpe, só queria te ajudar.
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  — Oh, que audácia. — a mulher segurou ainda mais forte no braço da garota. — Lady Lewis não deve se desculpar com a plebe, venha, terei que te castigar por esse seu ato de rebeldia.
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  A mulher saiu arrastando a garota consigo, eu conseguia ouvir seus gritos pedindo para que o tal senhor Rochefort me deixasse ir sem me machucar, a garota estava se colocando em meu lugar dizendo a culpa era toda dela. Eu tinha nove anos e nunca ninguém havia me defendido como aquela garota, Lady Lewis.
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  O homem ainda me prendendo em seus braços me arrastou para fora da casa e como castigo, fez um corte profundo em meu braço para que eu me lembrasse de nunca mais deixar uma dama fazer tal coisa por mim. Nem mesmo invadisse uma casa para roubar.
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  Eu corri o máximo que pude, por mais que meu lado racional me quisesse longe daquele lugar, eu não conseguia parar de pensar daquela garota, parei no meio do campo e olhei para trás, queria e precisava ver se ela estava bem. Me mantive naquela mesma posição por mais algumas horas, pela posição do céu já era alta madrugada.
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  Foi quando senti uma movimentação no campo, me abaixei de imediato e fiquei em silêncio, estava com medo que fosse o tal senhor Rochefort.
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  — Você ainda está aqui? — era a voz dela. — A senhorita Moore é uma preceptora muito distraída, então eu consegui pegar a chave novamente, mas desta vez a trouxe, assim você não ficará com problemas novamente.
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  Eu levantei minha face de leve, ela estava de costas para mim, vestida com uma camisola de linho, o brilho da lua em suas costas me permitiram ver algumas marcas de sangue em forma de traços. Ela também havia levado um castigo grande, por minha causa.
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  — Vou deixar aqui, espero que não fique com fome novamente. — disse ela se abaixando e deixando uma trouxa de tecido no chão — A propósito, eu não sei o seu nome, mas quero que saiba o meu. Sou lady Lewis, filha do Conde de Carnarvon.
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  Esperei até ela se afastar o máximo possível e caminhei até a trouxa de tecido que ela tinha deixado, olhei superficialmente ela tinha enchido aquilo com muita comida. Voltei minha visão para frente novamente, ainda conseguia avistar ela ao longe, voltando para o castelo.
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  — Lady Lewis. — sussurrei para mim mesmo.
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  Naquele momento, mais do que seu nome, eu a estava gravando em meu coração, e aquilo tinha me feito decidir que no futuro, ela estaria comigo e seria minha, sem reservas.
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Houve um evento que me fez feliz hoje, o momento quando
Te conheci e o fato de que eu sabia que tinha alguém para amar.”

– Creating Love / Personal Taste OST (4minute)

2. My Little Princess

Londres – Primavera de 1847

  :

  Aquela noite havia se estendido em meus sonhos, a lembrança mais vívida foi dos sussurros de em meu ouvido. Comecei a me espreguiçar em meio às cobertas e, aos poucos, quando a claridade da janela foi tomando conta do quarto, abri os olhos. O motivo da claridade se chamava Isla, a governanta da Wincher Hall.
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  — Bonjour, lady Winchester. — disse ela ao abrir uma pequena fresta na janela para que o ar adentrasse.
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  — Bom dia. — disse em um sussurro observando seus movimentos. — Onde está o senhor Winchester?
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  — No escritório, minha lady. — respondeu ela se virando para mim. — Em reunião com o lorde Lewis, conde de Carnarvon.
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  — Meu pai? — sussurrei, pensando em qual possível motivo para que ele estivesse aqui a esta hora da manhã.
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  — Minha lady, deseja algo em especial? — perguntou ela se mantendo parada de frente para minha cama.
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  — Não. — me levantei. — Apenas ajude-me a me vestir.
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  Ela assentiu, Isla parecia uma pessoa simpática e agradável, sempre dizia o necessário e se mantinha em silêncio, uma ótima profissional. Minhas roupas ainda estavam no baú que tinha trago de Lewis Castle, demorei um pouco para escolher, não havia levado toda a minha roupa, e sendo primavera, optei por colocar o vestido salmão pastel com bordados em linha verde musgo.
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  — Me deixe sozinha, por favor. — pedi a Isla.
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  — Como quiser, minha lady. — ela fez uma breve reverência com a cabeça e se retirou do quarto.
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  Respirei fundo ajeitando o vestido em meu corpo, caminhei até o espelho e pegando meu estojo de toilette que estava na mesa ao lado, me sentei na cadeira. Minha maquiagem seria suave, evidenciando somente meus lábios, como o campo de lavanda na primavera, ao final, peguei o frasco de metal com arabescos de ouro decorado, que continha meu perfume preferido e borrifei na altura do pescoço.
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  Fiquei alguns minutos me olhando no espelho. Desde que tinha acordado me sentia estranha, mas era um estranha bom, como se algo de diferente tivesse sido estabelecido em minha vida. Bem, eu oficialmente estava casada, oficialmente tinha me tornado a esposa do homem mais influente e rico de Londres, porém meus sentidos não estavam tendendo para isso.
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  O que eu sentia estava ligado diretamente a , descartando seu sobrenome ou tudo que envolvia ele socialmente. Talvez aquela estranheza que eu estava sentindo, pudesse ser convertida em sensação de complemento, como se tivesse completado em mim em uma única noite, o que eu sentia que faltava todos esses anos.
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  — Lady Winchester. — disse uma voz grossa vindo da porta, era ele, provavelmente para saber se eu já estava acordada.
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  — Senhor. — desviei meu olhar para seu reflexo no espelho. — Bom dia.
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  — Bom dia. — respondeu ele, mantendo-se imóvel na porta.
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  Apesar de poder olhar meu reflexo, notei que seu olhar estava diretamente para mim, mesmo de costas para ele, a intensidade era a mesma. Aquilo que me deixava ainda mais intrigada, se ele podia olhar em meus olhos através do espelho, por que se contentava em olhar diretamente para mim, mesmo que de costas para ele?
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  — Acredito que já saiba que vosso pai veio esta manhã. — continuou ele.
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  — Sim. — me levantei da cadeira e me virei para ele. — Isla me disse que estavam no escritório.
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  — Ele a espera na entrada, para se despedir. — confirmou abrindo um pouco mais a porta para que eu passasse.
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  Disfarcei um breve sorriso no canto do rosto e caminhei em sua direção, assim que passei por ele, fez uma breve reverência, movendo seu corpo para o lado para que eu pudesse passar com mais liberdade. Retribui a reverência e segui em direção às escadas; assim que cheguei no hall de entrada da casa, meu pai já estava parado olhando para o vaso chinês que estava na mesa em frente à porta.
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  — Papai. — disse indo a seu encontro e lhe abraçando.
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  — Olá, querida. — ele retribuiu meu abraço. — Como está?
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  — Tive uma boa noite. — respondi mantendo-me reservada aos detalhes. — Não me diga que veio por estar com saudades de mim, mal se fez vinte e quatro horas que estou casada.
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  — Ah. — ele riu de leve, mantendo seu olhar no vaso chinês. — Acabou descobrindo meu segredo, estava mesmo com saudade de minha filha amada. Está se sentindo confortável nesta casa?
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  — Um pouco, não é tão grande quanto a Lewis Castle, porém é maior e mais luxuosa que muitas casas em Londres.
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  — Fico aliviado em saber que minha filha estará vivendo bem.
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  — O senhor ficará para o desjejum? — perguntei a ele animada.
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  — Oh, não, não quero atrapalhar seu primeiro dia como uma senhora casada. — ele desviou seu olhar para trás de mim. — E tenho certeza que o senhor Winchester gostaria de passar esta manhã sem convidados indesejados.
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  Virei o rosto para , ele estava parado no último degrau da escada, seu olhar fixo em mim, sua face séria e os olhos suaves.
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  — Tenho certeza que o senhor não é um convidado indesejado. — retruquei, mantendo meu olhar em .
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  — Minha querida, teremos muitas manhãs pela frente. — meu pai tocou em minha mão me fazendo olhar para ele. — E tenho outro compromisso para esta manhã.
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  — Está sendo sincero? — reforcei.
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  — Claro que sim. — assentiu, me abraçando novamente — Prometo lhe visitar com frequência.
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  Assenti com um sorriso e o acompanhei até a porta, assim que fechei desviei meu olhar para , que continuava me olhando. Respirei fundo desviando meu olhar para o vaso chinês, era complicado ficar encarando ele, seus olhos pareciam invadir minha alma e ver meus pensamentos.
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  — O que meu pai realmente veio fazer aqui? — perguntei mantendo-me parada no mesmo lugar.
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  — Ele não lhe disse? — retrucou ele.
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  — Disse que estava com saudade de mim, porém, sei que é mentira.
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  — Se ele não quis lhe contar, não serei eu a fazer isso. — ele desceu o último degrau e se dirigiu para a sala. — Venha, nosso desjejum será no jardim.
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  Ele estendeu o braço, para que eu pudesse o acompanhar, dei alguns passos até chegar nele e pousando minha mão em seu braço, segui com ele até o jardim. Ao contrário da arquitetura clássica acompanhada do neogótico, que existia o interior da mansão, em sua fachada frontal e nas laterais, o jardim era mais gracioso e delicado.
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  Saímos pela porta da lateral da sala de jantar e seguimos por uma pequena trilha de seixos claros entre a grama baixa. Havia alguns pequenos arbustos espalhados por todo o espaço, usados como contorno dos canteiros de margaridas, rosas, peônias e lavandas, o que deixava o lugar ainda mais perfumado e colorido.
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  Continuamos seguindo a trilha, até chegar na fonte bem ao centro. pegou em minha mão e me soltou de seu braço, se afastou de mim seguindo até a mesa que estava posta mais a frente, então arrastou a cadeira e me olhou, como se estivesse me convidando para sentar. Sorri de leve, caminhei até ele e me sentei na cadeira, observando os bancos que ficavam do outro lado da fonte.
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  — Senhor Winchester, permita-me servi-los. — disse o mordomo ao se aproximar de nós.
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  — Agradeço, Lee. — consentiu .
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  Enquanto o mordomo nos servia, olhei para por algumas vezes, e como presumi, ele estava com seu olhar fixo em mim. Ainda era difícil não ficar envergonhada com tamanha intensidade, o que me deixava curiosa. Desejava saber por que, aparentemente, ele possuía uma certa obsessão por mim.
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  Lee se afastou, permanecendo no jardim, porém um pouco distante de onde estávamos.
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  — O jardim é muito bonito. — comentei desviando meu olhar para o pedaço de bolo, no prato de porcelana, que pelos ornamentos desenhados, parecia de origem francesa.
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  — Estou feliz que tenha gostado, foi feito para você, como tudo que existe nesta casa. — seu tom de voz permanecia inalterado, firme e grossa, com aquele toque suave.
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  — Suas palavras ainda me deixam sem reação, senhor. — disse me sentindo um pouco desnorteada.
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  — Pode me chamar de , se preferir. — ele tocou de leve em minha mão — Não precisa ser tão formal assim.
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  — Como quiser. — assenti com um sorriso.
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  Permaneci em silêncio enquanto saboreava meu desjejum, ao mesmo tempo que queria perguntar sobre sua enigmática vida, ainda tinha um certo receio no que provavelmente poderia descobrir. Em alguns momentos, eu fechava os olhos sentindo a brisa tocar minha pele, me envolvendo pelo aroma que deixava o lugar ainda mais confortável.
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  Mantive minha atenção nas flores do jardim, sabia que estaria com seu olhar fixo em mim, o que me fazia sorri de forma involuntária em alguns momentos. Me permitindo ter a sensação de que ele retribuía meu sorriso com outro um pouco discreto, atraindo meu olhar.
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  Assim que tomei o último gole de chá que estava em minha xícara, o mordomo Lee se aproximou com uma carta em uma bandeja de prata. Mantive-me em silêncio enquanto observava ele entregar a carta a , era difícil conter minha curiosidade, talvez fosse uma carta de felicitação por nosso casamento, ou alguma mensagem importante de alguns de seus muitos negócios.
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  — Algo urgente? — perguntei mantendo meu olhar no envelope.
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  — Não, apenas imprevistos que tenho que resolver. — respondeu ele se levantando da cadeira. — Perdoe-me por não poder apreciar esta manhã com você.
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  Ele desviou seu olhar para a carta. Era visível sua frustração por ter que se ausentar logo em nossa primeira manhã juntos.
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  — Terei você para o almoço? — perguntei me levantando também.
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  — Sim. — respondeu dele com um sorriso disfarçado. — Tudo que quiser, não hesite em pedir ao Lee ou a Isla, você é a nova dona desta casa.
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  Assenti, mantendo meu olhar nele. se aproximou de mim e pousou sua mão em minha cintura, acariciou meu rosto de leve com a outra, o que me fez ansiar mesmo que de leve por um beijo dele. Fechei meus olhos lentamente e logo senti seus lábios tocando os meus.
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  Em segundos meu corpo se arrepiou, seu beijo era doce e suave com nuances de intensidade, ao mesmo tempo que me aquecia por dentro, me deixava estática. Era estranho um simples beijo, de uma breve despedida, ser tão intenso como se fosse o beijo de uma partida eterna. Comecei a me perguntar se ele tinha medo de voltar e não me encontrar naquela casa.
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   ainda manteve seu rosto encostado no meu por alguns instantes, o que me fazia ter a sensação de que aquele beijo era insuficiente para ele. Abri meus olhos, deixando meu olhar baixo, percebi que nossas respirações estavam sincronizadas, recuperando o fôlego. Por dentro, meu coração se manteve acelerado todo o tempo, talvez estivesse concordando com ele e aquele beijo era, sim, insuficiente, mas consegui descobrir a primeira coisa sobre ele.
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   não queria se afastar de mim, nem por um segundo.
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“Por favor, espero que você veja como eu cresci.
Quero ser um homem que combine com você.
Por favor:
Permita-me entrar, em seu coração,
A qualquer hora que eu quiser.”

– My Little Princess / Dong Bang Shin Ki

3. Hug

Londres – Primavera de 1847

  :

  Ele se afastou de mim em silêncio, seguindo em direção à porta. Continuei imóvel onde estava, observando seus passos com meu olhar, respirei fundo sentindo meu coração se acalmar, porém uma certa melancolia por ele ter que partir logo em nossa primeira manhã juntos.
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  — Minha lady ? — disse Isla ao se aproximar de mim.
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  — Sim? — eu a olhei despertando de meus pensamentos.
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  — Minha lady deseja que algo em especial seja preparado para o almoço? — perguntou ela de forma natural, o que atestava ainda mais que eu era a nova dona daquela mansão.
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  Respirei fundo, não sabia o que responder, ainda mais por não conhecer os gostos e hábitos de . Aquela simples pergunta acabou me deixando um pouco insegura, pensando que se escolhesse de forma errada o cardápio a ser servido, talvez ele ficasse decepcionado ou irritado.
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  — Bem, eu ainda não… — a olhei — Preciso de alguns minutos para me decidir.
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  — Como quiser mi lady, caso queira me chamar, basta tocar. — disse ela deixando o sino de mão sobre a mesa.
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  Isla fez uma breve reverência e se retirou. Desviei meu olhar para a fonte ao meu lado, mantendo meu corpo de frente para ela. Um lado novo em ser a dona da casa, ter que decidir por tudo que acontecia. Por mais que tivesse sido preparada para isso durante toda a minha infância, estar casada e ter uma família para cuidar era bem mais complexo quando não se conhece o seu marido.
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  O que me despertava a vontade de descobrir quem ele era, internamente. Seus gostos, desejos, seus pensamentos, quem era por trás daquele olhar intenso e silêncio constante.
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  — Lady . — disse Lee retornando ao jardim. — O senhor Zachary, a senhora Poppy e o senhor Aidan estão no hall, aguardando a senhora.
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  — O quê? — sussurrei.
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  O que a família de estava fazendo aqui? Perguntei para mim mesma, tentando não imaginar o que eles queriam. Acompanhei Lee até o hall de entrada da mansão, eles estavam perto da porta conversando entre si, enquanto me esperavam.
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  — Bom dia. — disse no meu tom baixo e habitual de falar.
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  — Oh, aqui está ela! — disse a senhora Poppy vindo me abraçar com euforia. — Confesso que contei as horas para vir aqui esta manhã, estava curiosa para saber como foi a primeira noite do casa.
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  — Oh. — eu retribui o abraço dela com mais suavidade e me afastei um pouco. — Foi tranquila, na medida do possível.
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  — Não seja tímida, meu filho esperou tanto por esse casamento com você, tenho certeza que tranquila é um adjetivo que não classificou esta noite. — ela riu alto e deu um leve tapa em meu ombro.
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  Eu dei um sorriso meio tímido, desviando meu olhar para o senhor Zachary, pai de e depois para o senhor Aidan, sobrinho do senhor Zachary.
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  — Oh, sim. — ela riu ainda mais olhando para seu marido. — Me esqueci que estamos na presença dos senhores.
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  — Não se contenha por minha causa. — Aidan deu um leve sorriso malicioso. — De minha parte, adoro saber sobre essas coisas, a visão feminina sobre o amor é tão atraente.
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  — Modere suas palavras diante de duas senhoras casadas. — repreendeu o senhor Zachary num tom mediano.
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  Me encolhi um pouco, sentindo-me desconfortável com a presença deles, e mais ainda com as indagações da senhora Poppy.
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  — Senhores, fiquem à vontade na sala. — disse a senhora Poppy me pegando pela mão. — Quanto a nós, vamos ter conversas femininas.
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  Ela me puxou em direção às escadas sem que eu conseguisse me opor, subimos correndo e entramos no quarto principal. A senhora Poppy fechou a porta assim que entramos, então me fez sentar no sofá que tinha em frente à janela, ao seu lado.
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  — Senhora… — comecei a tentar fazê-la não se animar muito com o assunto.
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  — Minha querida, sei que está envergonhada. — ela segurou minha mão e me olhou de forma gentil. — A primeira noite de uma mulher é como um marco em sua vida, tenho certeza que não é somente eu que estou curiosa sobre isso.
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  — Sim. — assenti.
  Ela realmente poderia não ser a única, porém, eu sabia que minha família conseguiria ser bem mais discreta que ela. Mesmo com costumes visivelmente diferentes, eu conseguia sentir que a senhora Poppy era muito gentil e queria ser minha amiga, estava tentando encontrar alguma forma de retribuir seu carinho evidente por mim. Só não sabia como fazer.
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  — Senhora Poppy… — disse num tom mais baixo que de costume — A senhora disse que o senhor Win… , me esperou por muito tempo, o queria dizer com isso?
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  — Você não sabe? — indagou ela me olhando surpresa.
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  — Não senhora. — neguei.
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  — Bem. — ela deu um sorriso disfarçado. — Eu disse isso me referindo aos três anos que ele passou interessado em você, desde que retornou para Londres.
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  A explicação dela não me parecia convincente, menos ainda sincera, parecia que algo a mais tinha nesta história. A senhora Poppy passou a mão em seus cabelos e ajeitou um pouco a saia do vestido azul marinho que estava vestindo, suspirou um pouco como se escolhesse suas próximas palavras.
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  — Bem, voltemos para sua noite de núpcias. — disse ela se animando novamente. — Como foi? Meu filho foi gentil com você?
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  — Senhora Poppy, não quero ser indelicada com a senhora, mas gostaria de não mencionar sobre isso, é algo muito íntimo para mim. — eu me encolhi um pouco mais.
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  — Ah, sim, eu imagino que esteja me achando muito curiosa. — ela riu alto. — Mas em parte é preocupação de mãe, é um homem muito silencioso e pouco sociável, fico imaginando como poderia ser a convivência de vocês.
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  — A senhora não deveria se preocupar tanto, eu já percebi algumas características do , certamente me acostumarei com elas de acordo com o tempo. — assegurei com segurança.
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  — Posso ver em seus olhos uma ponta de curiosidade. — ela deu um largo sorriso. — Se quiser, posso lhe contar como encontrei ainda criança.
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  — A senhora faria isso? — disse me surpreendendo por ela ter confirmado os boatos. — Sempre ouço comentários indiretos sobre ele ser adotado.
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  — Bem, eu chamo de meu pequeno anjo, ele salvou minha vida em um momento em que eu não queria ser salva. — explicou ela com um pequeno brilho nos olhos. — E mesmo tendo passado alguns anos longe de casa, estou feliz e orgulhosa por ele ser meu filho, mesmo que adotivo.
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  — A senhora não pôde ter filhos? — perguntei meio receosa.
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  — Não. — ela suspirou fraco. — Infelizmente, Deus não quis que eu tivesse esse prazer, tenho um certo alívio por meu marido nunca ter cobrado, mas fico triste.
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  — Eu lamento. — coloquei minha mão sobre a dela e sorri de leve, não sabia ao certo o que falar.
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  — Ah, mas a vida me deu dois filhos lindos de criação. — ela sorriu também, era notável as pequenas gotas de lágrimas no canto de seus olhos. — Aidan às vezes me dá um certo trabalho, porém, me divirto com ele.
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  — Soube que os pais dele morreram em uma tempestade. — comentei.
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  — Soube de muitas coisas sobre nossa família. — ela riu um pouco.
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  — Perdoe-me senhora, se fui intrusa nos assuntos pessoais da família.
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  — Não precisa se desculpar. — ela riu novamente. — Não é novidade que minha cunhada e seu marido, morreram em uma viagem de navio para a Espanha.
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  Ela se levantou respirando fundo.
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  — Mas, vamos deixar o passado para trás e olhar para o futuro. — ela pegou em minha mão e me levantou da cama. — Temos um almoço para preparar, acredito que esteja curiosa para saber as preferências do seu marido.
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  — Confesso que um pouco, senhora.
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  — Vou adorar te contar tudo. — ela riu ainda mais alto me puxando para fora do quarto.
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  Descemos as escadas com ela ainda rindo, me contando algumas histórias de quando era criança, passamos pela sala de visitas, indo diretamente para a cozinha. Fiquei um pouco próxima à porta, observando a senhora Poppy montar todo o cardápio do almoço de forma bem detalhada, explicando à cozinheira, com a companhia da senhorita Isla, sempre reforçando em como deveria sair o sabor dos alimentos.
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  O cardápio, segundo a senhora Poppy, seria pudim Yorkshire de entrada, roast beef, ou como ela costumava pronunciar, rosbife, acompanhado de puré e vegetais cozidos para o prato principal. Era um pouco engraçado ver como a senhora Poppy pronunciava o nome dos pratos, e um pouco animador ver como ela ordenava tão bem os empregados.
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  Para sobremesa, segundo a senhora Poppy, seria uma surpresa dela para os recém-casados, então contive um pouco minha curiosidade. Assim que todas as instruções foram passadas, a senhora Poppy pegou minha mão e me levou de volta para a sala de visitas, onde o senhor Zachary e Aidan estavam conversando, sentados nas confortáveis e luxuosas cadeiras que compunha o mobiliário.
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  — Estou surpreso que tenha saído. — comentou o senhor Zachary.
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  — Deve ter sido algum problema grave no porto, para deixar sua esposa logo na manhã de recém-casado. — Aidan deu uma risada discreta, se levantando e caminhando em direção ao quadro de William Hogarth que estava na lateral direita da sala.
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  Eu o segui com meu olhar e analisei um pouco a obra de arte que estava dentro da moldura, vagamente poderia afirmar que já tinha visto este quadro quando criança, talvez na casa de algum aristocrata amigo do meu pai. Era curioso uma obra de arte de tanto valor estar na casa de um burguês, será que teria comprado?
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  O tempo foi passando. O senhor Zachary continuava seus assuntos sobre os negócios da família com Aidan, enquanto isso, a senhora Poppy, que se sentou na cadeira ao lado da minha, sempre puxava alguns assuntos triviais relacionados ao meu cotidiano em Derbyshire. Ela havia me contado que morou por anos em uma casa ao sul de Nottinghamshire, porém, após Aidan ir morar com eles, decidiram vir para Londres.
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  — Oh, . — a senhora Poppy se levantou da cadeira e caminhou em sua direção. — Estávamos à sua espera.
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  — O que fazem aqui? — disse surpreso.
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  — Viemos acompanhá-los para o almoço. — respondeu a senhora Poppy com um sorriso descontraído.
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  Ela parecia não se importar com o tom da voz dele, menos ainda com sua face séria. Seu olhar veio de encontro ao meu, estabelecendo assim aquela intensidade que sempre me deixava envergonhada.
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  — Não me lembro de tê-los convidado. — retrucou mantendo-se sério.
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  — Ah, deixe de pedir formalidade com sua própria família, queríamos fazer surpresa. — a senhora Poppy fez que iria se irritar, porém se virou para mim e piscou de leve.
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  Como se sua reação fosse uma forma de ensinamento para mim. Eu me levantei da cadeira e caminhei até ele, sorri de leve desviando meus olhares pelo percurso.
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  — Você chegou. — disse no meu tom baixo de sempre.
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  — Disse que viria para o almoço. — ele mantinha seu olhar em mim sem nenhum constrangimento de toda aquela intensidade que colocava. — Sempre cumpro minha palavra.
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  Senti um breve arrepio em meu corpo.
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  — Bem, já que está assim tão mal-humorado que não pode ter a companhia de sua família… — pronunciou a senhora Poppy, que estava ao nosso lado nos olhando.
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  — Sejamos honestos querida, estamos invadindo a privacidade do casal em seu primeiro dia juntos. — disse o senhor Zachary de forma franca.
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  — É claro que estamos agradecidos pela presença de vocês. — afirmei, mantendo meu olhar em .
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  — Eu já imaginava que sim. — a senhora Poppy riu um pouco e se dirigiu para o centro da sala, sentando ao lado do seu marido.
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   pegou em minha mão com suavidade e me guiou até o jardim. Ele parecia um pouco nervoso e desconfortável, mas não conseguia identificar se era pela presença de sua família ou pelo motivo que o fez sair pela manhã. De qualquer forma, parecia sério e a cada instante segurava minha mão ainda mais forte sem perceber.
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  — . — disse ao parar de anda, puxando um pouco minha mão para que ele percebesse o grau de sua força.
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  — Perdoe-me. — ele soltou minha mão e olhou para o céu, parecia tentar controlar sua voz. — Eles não deveriam estar aqui.
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  — Eu gostei da visita deles. — disse, tocando de leve seu rosto para que olhasse para mim.
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  Ele permaneceu em silêncio me olhando, percebi que o problema não era realmente sua família.
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  — Sua mãe é muito simpática. — disse suavizando ainda mais minha voz. — Ela me ajudou a descobrir suas preferências para a gastronomia, além de contar sobre sua infância…
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  Em um piscar de olhos senti os lábios de tocarem os meus, em uma profundidade incomum que fazia minhas pernas estremecerem. Suas mãos envolveram  minha cintura, aproximando nossos corpos, eu pousei de leve minha mão direita em seu tórax, senti seu coração um pouco acelerado.
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  — Pelo aroma, teremos um almoço especial. — comentei ao me afastar um pouco dele.
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   sorriu de leve mantendo seu olhar em mim. Voltamos para o interior da mansão, ao chegar na sala, Aidan estava contando mais uma de suas aventuras vividas em sua última viagem para a Espanha. Caminhei até a cadeira do canto, me sentando de frente para a senhora Poppy.
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   permaneceu de pé ao lado da lareira com seu olhar em mim, sua face estava um pouco mais serena, o que me fez ficar estranhamente bem mais aliviada.
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  — , você já mostrou à sua bela esposa, minha lady Winchester, seu dotes artísticos? — perguntou Aidan que estava de pé em frente ao outro quadro de Rembrandt.
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  — Ah, sim, toque para nós . — insistiu a senhora Poppy. — Tenho certeza que ficaria admirada em ver como é talentoso.
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  Meu olhar, que estava na mesa de centro, se desviou para ele encontrando os seus. Naquele momento, não conseguiria reagir de uma outra forma, que estar surpresa. Porém percebi uma certa movimentação na porta, era o mordomo Lee, que discretamente acenou sua face para , que assim como eu, tinha olhado em sua direção.
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  — Vamos. — disse ao se aproximar de mim e estender sua mão.
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  Assenti, pousando minha mão em seu braço, o senhor Zachary estendeu seu braço para a senhora Poppy e nos seguiu em direção da sala de jantar, acompanhado de Aidan. O almoço estava mesmo saboroso, a surpresa especial para a sobremesa foi gelado de baunilha, diferente do que costumávamos ver na sorveteria, havia sido encomendado com um sabor diferenciado, especialmente para aquele dia.
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  Foi um momento descontraído, que contava sempre com os comentários espontâneos da senhora Poppy. Eles não demoraram muito para partir após as xícaras de café que foram servidas na sala de visitas. Apesar de sempre se mostrar alegre para , ela havia percebido que ele precisava ficar a sós comigo.
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  Assim que me despedi deles na sala, deixei que os levasse até a porta. Caminhei para o jardim e me sentei em um dos bancos com encosto em frente da fonte no lado esquerdo, fiquei por um tempo olhando as águas que caíam do chafariz de escultura em mármore. Fechei meus olhos por um momento, graças à presença da família dele, aquele dia havia sido um pouco agitado para mim.
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  Logo senti alguém sentar ao meu lado, permanecendo em silêncio. De olhos fechados, tombei minha cabeça para o lado, encostando em seu ombro, uma breve sensação de conforto passou por mim, que me fez suspirar de leve. O aroma do seu perfume foi me envolvendo, acompanhado de suas carícias em meu cabelo, me fez adormecer lentamente.
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“Quero te ver dormir confortavelmente, carinhosamente nos meus braços,
Por você, resolvo todos os problemas e tudo o que te incomoda,
Inclusive o monstro dos teus pesadelos.
[…]
Fico curioso pensando o quanto você gosta de mim,
Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração.”

– Hug / Dong Bang Shin Ki

4. Destiny

  Derbyshire – Outono de 1833

  :

  Eu estava racionando a comida que tinha na trouxa de tecido, não sabia quando iria encontrar alimento novamente. Não podia voltar ao castelo da lady Lewis, não a colocaria contra sua preceptora novamente, não queria que ela fosse castigada por minha causa uma segunda vez.
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  Continuei caminhando pelas beiras das estradas, nem sabia ao certo em que lugar da Inglaterra me encontrava. Tinha perdido toda noção de tempo e espaço, em alguns momentos até pensava estar andando em círculos quando me aventurava pelos bosques e vales, não poderia ficar muito tempo nas estradas, não queria ser levado novamente para alguma workhouse por ser um órfão.
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  O pouco que consegui contar das noites que se passaram, desde que olhei lady de costas pela última vez, já tinha se passado dez dias caminhando, poderia ser bem mais que isso. Continuei caminhando pela borda da nascente, que tinha encontrado ao leste daquele colina, era um final de tarde tranquilo, até que comecei a ouvir de longe uma voz cheia de desespero.
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  Fui seguindo em direção de onde a voz surgia, quando cheguei próximo a uma árvore, avistei uma senhora na ponta do que parecia uma queda d’água. Eu conseguia ver nitidamente que estava chorando, mesmo que suas palavras fosse para o nada, ela agia como se estivesse falando com alguém.
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  Em um piscar de olhos, aquela senhora abriu seus braços e se jogou, por um breve momento meu corpo congelou, e sem pensar, corri até a ponta e me joguei atrás dela. Mesmo que tudo estivesse mal, não seria certo deixar aquela senhora se matar, mergulhei em meio ao impacto na água, e nadei até ela tentando segurar o máximo de fôlego que conseguia.
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  Eu tinha nadado apenas uma vez até aquele momento, ou melhor, eu tinha lutado contra a morte para sobreviver, quando o senhor Cooper me jogou no rio, após eu roubar a comida da despensa para dar às crianças mais novas. Esse foi o principal motivo para ter fugido de sua propriedade.
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  Assim que consegui passar por algumas rochas que apareceram pelo caminho, alcancei a senhora e, a segurando pelo braço, deixei a correnteza nos levar até chegarmos na margem do rio. Com uma certa dificuldade, pois era um pouco robusta, a arrastei até chegarmos em um arbusto e tentei acordá-la, não sabia o que fazer e lutava contra o pânico que estava se formando dentro de mim.
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  — Hum… — disse ela tossindo um pouco abrindo seus olhos. — Vocês é um anjo?
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  — Não. — disse num tom baixo me encolhendo.
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  — Você me salvou. — sussurrou ela erguendo seu corpo e me abraçando. — Meu anjo.
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  — Senhora, eu não sou um anjo. — repeti, sem saber se deveria ou não retribuir seu abraço.
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  — É claro que é. — ela sorriu de leve. — Oh, estamos molhados, precisamos nos secar antes que peguemos um resfriado.
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  — Hum. — eu olhei para minhas roupas, até mesmo a trouxa de tecido que tinha amarrado em minhas costas estava encharcada e vazia.
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  — Venha, me ajude a levantar. — disse ela pegando em minha mão. — Vamos para casa.
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  Eu me levantei primeiro e a ajudei a se levantar, estava tentando entender a que casa ela se referia, eu não tinha nenhum lugar para ir. Ela começou a seguir na frente, mas parou e se virou ao perceber que eu tinha permanecido no mesmo lugar.
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  — Por que não está andando? — perguntou ela.
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  — Me desculpe, senhora, mas não tenho casa, nem mesmo família, não posso ir para lugar nenhum.
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  — Mas é claro que pode. — ela abriu um largo sorriso novamente. — Venha comigo, você é meu anjo e minha casa agora é sua também.
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  Ela estendeu a mão para mim. Seu nobre gesto e suas palavras de conforto fizeram minha memória refletir a face de lady , o olhar doce que me ajudou sem nem perguntar quem eu era. Um gota de lágrima se formou no canto de meus olhos, como minha face ainda estava molhada, facilmente a senhora não notaria que eu estava um pouco emotivo naquele momento.
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  Segurei, ainda receoso, sua mão e segui com ela, andamos mais algum tempo, sua casa parecia ser longe, pois tínhamos chegado ao anoitecer. Quando entramos, um homem também robusto veio a nosso encontro e abraçou a senhora, sua preocupação resplandecia de forma curiosa.
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  — Oh, querida. — disse ele. — Estava preocupado e atormentado pelo desespero de não vê-la novamente.
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  — Eu estou bem agora, graças ao meu anjo. — disse a senhora ao desviar seu olhar para mim.
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  — Quem é este garoto? — perguntou o senhor me olhando de cara fechada.
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  — Este é meu anjo. — a senhora se aproximou de mim e colocou sua mão em meu ombro, ela sorriu de leve e olhou novamente para o senhor. — Ele será meu filho agora.
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  — O quê? — o senhor alterou sua voz. — Como pode dizer tal coisa, mal sabe sobre ele, e se tiver família?
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  — Ele não tem. — retrucou ela. — Agora somos a família dele, foi graças a esta criança que eu tive uma segunda chance.
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  A face dela começou a aparentar tristeza.
  — Quando me joguei no rio, estava desistindo da minha vida, mas ele me salvou. — ela acariciou meus cabelos com carinho. — Meu anjo, e não aceito que você diga o contrário.
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  — Mas ele… — o senhor se calou por um momento permanecendo com seu olhar em mim, respirou fundo. — Esta criança não vai substituir todos os bebês que perdemos.
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  — Eu sei. — ela me abraçou. — Mas tenho certeza que vai preencher o vazio que sinto dentro do meu coração. Já o considero meu filho, e se não fizer o mesmo…
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  — Tudo bem. — concordou o homem mesmo contrariado. — Qual o seu nome, garoto?
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  — , senhor. — disse em sussurro.
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  — Você tem família? — continuou ele.
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  — Não, senhor. — respondi.
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  — Quantos anos tem?
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  — Oito, senhor.
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  — A partir de agora, será nosso filho. — o senhor manteve seu olhar em mim. — Eu sou Zachary Winchester e esta senhora que deseja lhe dar o amor de mãe, se chama Poppy.
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  — E a partir de agora, me chame de mãe. — disse a senhora Poppy com um largo sorriso em seu rosto.
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  Assenti. Ainda tinha receio, mas no fundo estava feliz por ter encontrado uma família para chamar de minha, o que me fez sentir que aquilo estava relacionado a lady , conhecê-la tinha me dado sorte. A senhora Poppy, ou melhor, minha mãe, pegou em minha mão e me levou para o segundo quarto da casa. Segundo ela, eu precisava de um banho quente para não pegar um resfriado.
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  — Obrigado. — disse a ela assim que terminei de vestir as roupas novas que tinha me dado.
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  — Não precisa agradecer por isso, sou sua mãe agora, meu dever é garantir que esteja sempre confortável e sinta-se sempre amado. — ela me abraçou novamente. — Sonhei tanto com este momento, poder abraçar meu filho! Prometa que será para sempre meu anjo, querido .
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  — Eu prometo, mamãe. — disse num tom baixo e tímido.
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  Ela soltou um grito de felicidade, que me fez ficar assustado, mas era reconfortante que aquela senhora que há poucas horas desejava a morte, estivesse feliz por eu ter entrado em sua vida. Entretanto, lá no fundo, era eu que estava agradecido por ela ter entrado em minha vida, eu tinha ganhado uma família e um lar, além da esperança de poder ver lady novamente.
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  Minha família morava ao sul de Nottinghamshire, e meu novo pai era um açougueiro, o que explicava ele sempre estar cheirando a carne. Mesmo não gostando de mim e disfarçando seu desconforto por uma criança estranha chamá-lo de pai, o senhor Zachary era muito gentil comigo e estava me ensinando tudo sobre sua profissão, ofício que tinha aprendido com seu pai.
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  Passei dois anos aprendendo o básico com ele, até que finalmente pude acompanhá-lo aos mercados de carnes para vender as poucas peças que tinha. Aparentemente, seu ofício lhe dava mais prejuízo do que lucro, além de alguns clientes que nunca lhe pagavam ou barganhavam a carne dando outras coisas em troca.
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  — Conseguiu entender? — disse ele ao levantar a mão que estava a faca. — É assim que se corta a carne de javali.
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  — Por que o senhor só mata alguns machos? — perguntei um pouco curioso.
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  — Dizem que os javalis estão extintos aqui na Inglaterra desde de mil e setecentos e alguma coisa, porém, atualmente, basicamente sou o único açougueiro da região que ainda vende dessa carne. — explicou ele. — Então para continuar o negócio, preciso ser esperto e inteligente, não mato as fêmeas, pois procriam, deixo alguns machos para o acasalamento.
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  — Hum. — desviei meu olhar para o animal que estava ali morto em minha frente. — E as pessoas gostam de comer javali?
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  — É uma das melhores carnes para se ter em um banquete. — ele deu um suspiro de satisfação.
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  — Se o senhor disse que está extinto na Inglaterra, como pode existir estes? — perguntei confuso.
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  — Digamos que tenho um amigo sueco que me presenteou com um casal de javalis há alguns anos atrás. — respondeu ele. — Fui criando e hoje, minha pequena criação é o suficiente para vender a alguns nobres, clientes antigos.
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  — Hum. — me levantei do chão e arrastei a caixa de madeira até ele. — Senhor, o que sabe sobre eles?
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  — Eles quem? — indagou desviando seu olhar para mim.
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  — Os nobres, o que sabe sobre os nobres? — repeti a pergunta.
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  — Ah, o pouco que conheço, posso afirmar que esses aristocratas são esnobes, arrogantes e sempre pensam ser melhor que as pessoas que não tem título. — ele suspirou fraco. — Ah, fique longe deles, ou então pode correr o risco de parar na forca.
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  — Mas senhor, pensei que seus clientes fossem amigos.
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  — Ah não, esses aristocratas metidos só nos suportam porque a burguesia é o que movimenta a economia do país, mas um simples açougueiro como eu jamais teria espaço, além do mais, os nobres só socializam com nobres.
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  — Mas e se alguém da burguesia quisesse ser amigo de um nobre? — perguntei de forma inocente.
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  Ele começou a rir de mim, como se eu tivesse feito uma piada ou algo do tipo.
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  — Meu filho, um burguês só consegue ser notado por nobres se for realmente bem sucedido e muito rico. — ele respirou fundo. — Alguém como nós nem chegamos perto dos grandes comerciantes.
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  Permaneci em silêncio, o observando manipular a carne do javali, comecei a ficar um pouco pensativo sobre nossa conversa. De certa forma, não éramos ricos, a casa da minha nova família era um pouco humilde e pequena, nem se comparava ao castelos de lady , o que me deixou triste no momento, ao me lembrar dela.
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  Um sentimento de frustração e revolta começou a tomar conta de mim, comecei a perceber que tudo naquele mundo realmente girava em torno de ter ou não ter dinheiro. Eu não tinha, menos ainda minha família, então como eu poderia ser amigo dela? Respirei fundo, engolindo seco e tentei manter minha atenção no que estava aprendendo, aquele javali seria entregue na Morg House, que pertencia a família Morgan.
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  Os dias se passaram… Cada vez mais meus pensamentos continuava borbulhando sobre meu futuro e como poderia ver lady novamente. Logo à noite, após me recolher em meu quarto, minha mãe veio para me desejar boa noite, uma rotina que tinha criado todas as noites desde que tinha me adotado.
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  — Mamãe. — disse assim que ela fechou as cortinas da janela.
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  — Sim, querido? — ela me olhou com suavidade.
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  — Posso te fazer uma pergunta?
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  — Claro. — ela caminhou até minha cama e se sentou. — O que deseja saber?
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  — As pessoas só respeitam aqueles que têm títulos de nobreza ou dinheiro? — perguntei, já sabendo vagamente a resposta.
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  — Infelizmente sim, querido. — ela pegou em minha mão, seu olhar era de curiosidade. — Por que a pergunta?
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  — Uma vez o papai disse que nobres jamais eram amigos de pessoas que não eram nobres, mas eles respeitavam os grandes comerciantes que tinham muito dinheiro. — expliquei de forma objetiva.
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  — Sua curiosidade, tem alguma finalidade? Alguém te maltratou no mercado?
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  — Não. — respondi desviando meu olhar para a janela. — Hum, é sobre outra coisa.
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  — Que coisa? — perguntou ela — Sou sua mãe, pode dizer.
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  — Uma garota, me ajudou quando estava com fome. — contei quase em um sussurro. — Queria que ela fosse minha amiga.
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  — E ela é uma nobre? — perguntou ela como se estivesse decifrando o real motivo de minha pergunta.
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  Assenti com a face.
  — Querido, não fique triste, você ainda é uma criança e a sua vida ainda não está traçada por completo. — disse ela como palavras de ânimo. — A vida de uma pessoa é como um vale cheio de relevos, alto e baixos, ser for seu destino ser amigo dessa pequena dama, tenho certeza que nada e ninguém impedirá isso.
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  Ela deu um leve beijo em minha testa e se retirou, deixando a porta fechada e a vela ao lado da minha cama acesa. Deitei mais meu corpo e fiquei olhando para o teto, as palavras positivas de minha doce mãe haviam caído em meu coração como sementes férteis, e meus planos para o futuro seriam a água que regaria minhas esperanças.
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  Minha vida ainda não estava escrita por completo, isso significava que eu não era obrigado a aceitar a vida simples que meus pais tinham, significava que eu tinha o direito de ser rico assim como os comerciantes importantes. O sentimento de mudança estava vivo em meu coração, se ser rico e respeitado pelos nobres significava poder ser amigo de lady .
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  No futuro, eu seria o homem mais rico de toda a Inglaterra.
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“Você é linda, eu sonhei com você,
Eu me apaixonei por você, mesmo antes de saber seu nome.”

– Destiny / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)

5. My Answer

Londres – Primavera de 1847

  :

  Duas semanas se passaram desde o nosso casamento, eu estava tentando me adaptar a rotina agitada que Londres me proporcionava, mais especificamente, estava tentando me adaptar aos passeios constantes pela cidade que a senhora Poppy me convencia a realizar com ela. Mesmo sendo gentil e atenciosa comigo, eu ainda me sentia um pouco desconfortável com suas perguntas e curiosidades sobre minha vida íntima com .
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  Naquela manhã da primeira semana de maio, o sol estava formoso e convidativo a um breve passeio. Logo após me vestir com a ajuda de Sophie, – a acompanhante que tinha contratado, para que eu não ficasse tanto tempo sozinha em casa – tomei meu desjejum no jardim juntamente com ela. havia partido cedo para o porto, ele não podia deixar seus negócios sem supervisão.
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  Sophie era uma amiga de infância de minha prima Emilly, ambas cresceram juntas onde meu tio ainda mora, ao leste do condado de Northamptonshire, porém, naquele momento, a família de Sophie estava desamparada após a morte de seu pai, ela e sua mãe haviam perdido todo o patrimônio para um parente distante. Um dos problemas de não se nascer um homem, nossa sociedade podia ser bastante cruel com as mulheres.
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  Eu havia me sensibilizado com isso, quando Emilly me contou em sua breve visita há três dias, e então ao saber que planejava contratar alguém para ser minha acompanhante, sugeri uma pessoa que eu conhecia e poderia em parte, confiar. Sophie era discreta e muito educada, além de silenciosa quando necessário, o que era um ponto positivo em sua contratação, com isso eu poderia ajudá-la de alguma forma, principalmente consentindo sua mãe morar com ela, nos quartos dos empregados, em minha casa.
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  — Espero que sua mãe esteja confortável em seu quarto. — disse mantendo meu olhar na fonte ao nosso lado.
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  — Ah sim, minha lady, estamos muito bem instaladas e lhe sou muito grata por ter me contratado e acolhido minha mãe em sua casa também. — agradeceu ela com um olhar esperançoso.
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  — Fico feliz em ajudar uma amiga de minha prima. — sorri com gentileza.
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  Passamos um longo tempo em silêncio, dava para se ouvir até mesmo os pássaros nas árvores.
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  — Minha lady, seria refrescante um passeio pelas ruas de Londres hoje. — sugeriu ela ao terminar de tomar seu chá.
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  — Sim. — concordei me levantando da cadeira — Uma boa ideia, estou admirada de minha sogra não ter aparecido ainda para me convidar.
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  — A senhora Poppy é muito divertida em seus passeios. — comentou ela disfarçando o riso, se levantando da cadeira.
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  — Ela é espontânea a todo momento. — dei alguns passos em direção a porta de entrada da sala.
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  Sophie me acompanhou até sala, eu a deixei por um instante e subi para meu quarto, precisava pegar minha bolsa. Assim que saímos, o cocheiro já estava com a carruagem preparada, nos esperando próximo à entrada da mansão, entramos sem muita demora e seguimos em direção ao centro comercial de Londres.
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  Não demorou muito para que avistasse um rosto conhecido caminhando pelas ruas, pedi para que o cocheiro parasse e desci da carruagem. Sophie me acompanhou e juntas, atravessamos a rua até que chegasse de surpresa atrás de minha querida irmã Margareth, que olhava para a vitrine de uma luxuosa loja de sapatos com seus olhos brilhando.
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  — Aposto que está pensando em comprar. — disse em seu ouvido, como uma forma de assustá-la.
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  — AH. — ela se virou para mim surpresa. — .
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  — Estava mesmo concentrada. — eu ri.
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  — Sim. — assentiu, respirando fundo. — Que saudade.
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  Nos abraçamos por alguns segundos, então eu me voltei para minha acompanhante.
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  — Margareth, acho que se lembra de Sophie. — disse desviando meu olhar para minha irmã novamente. — Uma amiga de infância de Emilly.
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  — Hum, acho que me lembro sim. — Margareth vez uma breve reverência. — Como está?
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  — Já estive um pouco melhor. — respondeu Sophie meio tímida. — Mas graças a lady Winchester, não estou tão mal assim.
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  — Oh, soube que perdeu seu pai, lamento por isso. — Margareth desviou seu olhar para mim. — Mas mudando de assunto, adivinha quem está animada para passar uma temporada em Londres?
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  — Hum. — fingi estar pensando. — Para ser honesta, estou curiosa para saber o que faz em Londres.
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  — Inicialmente eu não viria, mas quando soube que minha mãe e Freya viriam, não me contive em vir. — explicou minha irmã caçula.
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  — O que sua mãe e Freya estariam querendo em Londres? Lady Evelyn nunca gostou desta cidade. — comentei direcionando meu corpo para frente e começando a caminhar.
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  — Ah, ambas começaram a ficar cheias de segredos entre si. — Margareth apoiou sua mão em meu braço ficando ao meu lado. — Isto está acontecendo desde que o papai veio te visitar.
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  Enquanto caminhávamos na frente conversando, Sophie continuou nos seguindo a uma certa distância, respeitando nossa privacidade.
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  — Eu ainda tenho curiosidades sobre isso. — afirmei. — Ele disse que estava preocupado, queria saber se estava confortável em minha nova casa.
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  — Nem sabe mentir. — Margareth riu baixo. — Você se casou com o homem mais rico da cidade, desde quando não estaria confortável em sua nova casa?
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  — Hum. — desta vez eu tinha que concordar. — Margareth, onde estão hospedados aqui?
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  — Estamos hospedados na casa de lorde Wood. — respondeu ela demonstrando um pouco de tédio. — Mas não posso afirmar que seja um bom lugar para se ficar, principalmente por sua adorável esposa.
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  — Ele é um grande amigo do papai. — disse mantendo meu olhar para frente. — Mas, você poderia ficar na minha casa.
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  — Sério? — ela me olhou com uma ponta de esperança em seus olhos.
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  — Sim. — assenti com um sorriso — Temos tantos quartos, além do mais, vou ficar muito feliz em receber minha irmã.
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  — Mas, e o senhor Winchester? — perguntou ela. — Acha mesmo que seu marido vai gostar da ideia? Vocês ainda estão em lua de mel.
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  — Ah. — dei um suspiro fraco. — Não estamos em lua de mel, para ser sincera, nem sei se teremos, só o vejo há noite e vagamente pela manhã.
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  — Hum. — ela me olhou. — Isso é triste, não imaginava que os burgueses trabalhavam tanto assim, nem mesmo almoçam juntos?
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  — Nos primeiros dias, sim. — sibilei um pouco. — Acho que houve um problema no porto e ele está resolvendo isso há dias.
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  De um simples passeio com minha acompanhante, minha caminhada se estendeu muito com a presença de minha irmã, tanto que até nos esquecemos da hora do almoço. Para nossa surpresa, encontramos minha madrasta Evelyn e nossa irmã Freya saindo de uma perfumaria com algumas sacolas, fiquei um pouco intrigada e curiosa, já que papai estava em uma péssima situação financeira.
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  — Boa tarde, lady Evelyn. — disse ao nos aproximarmos delas. — Boa tarde, Freya.
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  — Olá mamãe, olá Freya. — disse Margareth permanecendo ao meu lado.
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  — Boa tarde. — Freya não demonstrou satisfação em nos encontrar.
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  — Boa tarde, lady Winchester. — Evelyn me olhou de cima para baixo, permanecendo seu olhar um pouco mais no colar de pérolas negras, que estava em meu pescoço. — Margareth, não disse para ficar na casa do lorde Wood até retornarmos?
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  — Fiquei entediada. — respondeu Margareth. — Mas estou feliz, pois encontrei no caminho.
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  — E como vai o casamento, minha querida enteada? — Evelyn manteve seu olhar disfarçado em meu colar. — Está conseguindo sobreviver aos costumes dos burgueses?
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  — Meu casamento vai muito bem, afinal, os burgueses são tão normais quanto nós da nobreza. — respondi a ela, deixando minha voz permanecer suave. — Hum, acho que em uma coisa eles são diferentes.
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  — Em quê? — Evelyn subiu seu olhar para meu rosto.
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  — Eles conseguem ser sinceros a todo momento, mesmo sendo julgados por isso. — expliquei de forma direta.
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  Claro que, tanto ela quanto Freya tinham pegado minha indireta, ambas conseguiam ser mais falsas que a cobra que enganou Adão no paraíso. Ainda não entendia como meu pai tinha se casado com aquela mulher após a morte de minha mãe, menos ainda como Margareth, tão gentil e legal, poderia ser filha dela.
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  Desviei meu olhar para Freya por um instante, notei que no canto do seu rosto havia um disfarçado sorriso de deboche, o que me deixava um pouco irritada, afinal, desde criança Freya sempre era assim comigo, invejava tudo que eu tinha e tentava pegar para ela. Passei minha mão de leve em meu colar, e devolvi o seu deboche com um sorriso gentil.
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  — Já que nos encontramos aqui, gostariam de tomar um chá em minha casa? — perguntei de forma natural e espontânea.
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  — Agradecemos, mas… — iniciou Evelyn.
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  — Oh, por favor, não aceito recusa. — intervi de forma suave. — Vocês ainda me devem uma visita.
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  Minha madrasta assentiu com a face.
  — Vamos então. — disse me virando para trás. — Ah, acho que já conhecem Sophie, ela é minha acompanhante agora.
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  — Boa tarde, lady Evelyn, senhorita Freya. — cumprimentou Sophie.
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  Segurei um pouco meu riso enquanto caminhavam pelas ruas, logo avistei minha carruagem. Nós quatro entramos e nos sentamos, Margareth ficando ao meu lado, enquanto isso, Sophie iria na frente junto com o cocheiro. Assim que chegamos, Lee nos recebeu na porta, pedi para Isla preparar a mesa do chá no jardim, enquanto isso nos reunimos na sala de visitas.
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  Era visível os olhares admirados de Evelyn para os muitos quadros que estavam nas paredes da mansão, além de algumas esculturas que já havíamos visto em casas de alguns aristocratas de renome. Permanecemos sentadas conversando um pouco, ou melhor, Margareth era quem mais falava, contando sobre sua experiência ao explorar a pequena biblioteca da casa de lorde Wood.
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  Assim que Isla deu-me o sinal de que tudo estava pronto, guiei minhas convidadas até meu lindo jardim, as deixando ainda mais encantadas com minha nova casa. Nos sentamos ao lado da fonte, nosso chá seria acompanhado por deliciosos crumpets com geleias, queijos e compotas.
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  — Nossa. — disse Margareth. — Isso é porcelana francesa?
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  — Não. — segurei um pouco o riso e expliquei. — É porcelana chinesa, as cores são mais vibrantes.
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  — São muito bonitas. — elogiou Freya, por seu tom de voz, parecia estar engolindo sua inveja junto com o chá que tomava.
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  — Sim, foi um presente de casamento de um nobre chinês, acho que sobrinho do imperador. — continuei de forma espontânea.
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  — Nossa, então é verdadeiro os boatos que o senhor Winchester tem muitos amigos orientais. — comentou Evelyn.
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  — Segundo minha sogra, sim. — assenti sem medo. — Isso é bom, principalmente para os negócios.
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  Degustamos do nosso chá, com paradas para breves comentários sobre meu jardim e a decoração da casa, até que Isla se aproximou de mim discretamente.
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  — Minha lady, o senhor Winchester retornou. — disse quase em sussurro.
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  Logo que assenti, desviei meu olhar para minha madrasta e ela estava olhando para trás de mim. Meu coração pulsou um pouco mais forte, de certo era meu marido que estava em seu campo de visão, virei meu rosto e lá estava com seu olhar intenso e fixo em mim.
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  — Senhoras, me deem licença. — eu me levantei.
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  Fiz uma breve reverência para elas, e me afastei indo em direção a que já havia entrando novamente na mansão. Ao chegar na porta, respirei fundo, era estranho meu coração estar daquela forma só por eu tê-lo visto, mas era um estranho bom.
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  — . — disse após adentrar a sala de visitas.
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  Ele, que estava de costas, se virou e estendeu sua mão para mim. Dei mais alguns passos até ele e segurei em sua mão, deu mais um passo se aproximando ainda mais de mim, pousando minha mão em seu coração. De leve acariciou minha face e aproximando seu rosto do meu, nossos lábios se tocaram em um beijo intenso e aquecedor.
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Você é o meu tudo, eu tenho certeza,
Eu serei mais cuidadoso e te protegerei,
Então o seu coração nunca será machucado,
Eu nunca me senti assim antes,
Como se minha respiração fosse parar.”

– My Answer / EXO

6. Fallin’ in Love

Londres – Primavera de 1847

   ver.:

  Seu beijo estava tão doce, que comecei a cogitar a ideia de não voltar para a mesa de chá, porém, tinha que terminar o que havia começado, principalmente por causa de minha não tão querida madrasta.
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  — Estarei no escritório. — disse ele em sussurro ao se afastar de mim. — Tenha um bom chá.
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  Eu sorri de leve, agradecida, e após uma breve reverência, voltei para o jardim. Minhas convidadas estavam falando sobre enxovais de casamento, Freya fez questão de contar-me a novidade sobre seu possível noivado e casamento com um nobre, o que tinha me deixado curiosa em saber o nome do pretendente.
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  — Assim não vale. — disse Margareth. — Conta-nos a novidade, porém pela metade.
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  — Concordo com a Margareth, também estou curiosa para saber. — disse sorrindo.
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  — Bem, esta informação somente será revelada em nosso jantar de noivado. — explicou Freya num tom de satisfação. — E tenho certeza que vocês irão se surpreender.
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  — Esperarei ansiosa por meu convite oficial. — retruquei um pouco pensativa em quem poderia ser o “sortudo”.
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  — Você e o senhor Winchester serão os primeiros da lista. — confirmou Evelyn dando um sorriso de superioridade.
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  — Agradeço a consideração. — fiz uma breve reverência e desviei meu olhar para Margareth. — Ah, Marg, disse para elas que ficará aqui em minha casa?
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  — Oh, ainda não. — Margareth pegou em sua xícara. — Estava para contar sobre isso assim que retornasse.
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  — Margareth aqui? — a face de Evelyn ficou mais séria.
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  — Sim, eu a convidei hoje mais cedo. — confirmei. — Algum problema?
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  — Nenhum, porém… — Freya desviou seu olhar para o lado.
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  — Porém…? — insisti.
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  — Não acha que nossa irmã aqui atrapalharia sua lua de mel? — Freya terminou a frase.
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  — Bem, minha lua de mel foi adiada temporariamente. — respondi não demonstrando estar abatida por sua pergunta. — Meu marido tem estado ocupado com os negócios.
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  — Ah, burgueses e seus deveres. — Evelyn riu de leve do próprio comentário. — É uma pena minha querida, que tenha se casado com alguém tão diferente de nós.
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  — Eu não acho. — retruquei com segurança. — Pelo contrário, estou imensamente satisfeita com a minha escolha.
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  — Sua escolha? — Freya riu. — Sabemos o real motivo de seu casamento, a dívida do papai.
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  — Freya está correta. — confirmou Evelyn.
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  — Não exatamente, claro que existia, sim, uma dívida, mas nosso pai nunca me obrigou a dizer ‘sim’ perante o padre, então a escolha foi minha. — soltei um suspiro de satisfação. — E jamais farei uma escolha tão certa em toda a minha vida, quanto a que fiz ao me casar com ele.
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  Meu coração acelerou um pouco, senti que minhas palavras eram reais e verdadeiras, eu não estava arrependida de ter me casado com , melhor ainda, eu ansiava conhecê-lo ainda mais do que já o conhecia. Minhas palavras tiveram um grande efeito sobre o sorriso de deboche que se apagou na face de ambas.
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  — Bem, estou imensamente feliz por terem aceitado meu convite. — disse me levantando da cadeira. — Porém, agora irei me recolher, Isla irá acompanhá-las até a porta, e Margareth, mandarei que busquem suas coisas na casa do lorde Wood.
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  Fiz uma breve reverência a elas e segui em direção à mansão. Ao passar por Isla, dei minhas ordens e pedi para que um dos cocheiros levasse minha madrasta e Freya para a casa de lord Wood, e aproveitasse para pegar as bagagens de Margareth. Segui indo diretamente para o escritório onde estava, dei alguns toques na porta antes de entrar.
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  — — entrei fechando a porta —, está ocupado?
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  — Não. — ele fechou o livro que estava em suas mãos e manteve seu olhar em mim. — Deseja algo, minha senhora?
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  — Desejo saber se está tudo bem, como foi seu dia? — disse dando mais alguns passos até sua mesa.
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  Ele sorriu de canto disfarçadamente e se levantou de sua poltrona, mantendo-se em silêncio e com o olhar fixo em mim. era de poucas palavras, o que me deixava intrigada pelo fato de ser filho de burgueses, por mais que lhe perguntasse coisas sobre seu dia ou sobre sua infância, ele respondia da forma mais breve e direta possível.
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  — Está tudo bem. — assentiu ele.
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  Silencioso e observador eram as maiores e mais marcantes características dele, o que me deixava irritada, sua voz grossa e marcante havia me deixado um tanto fascinada, principalmente quando sussurrava em meu ouvido. Dei mais dois passos até ele, tentava desviar um pouco meu olhar dele, ainda não conseguia confrontar toda a intensidade do seu olhar em mim.
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  — Eu…. — precisava dizer sobre meu convite a minha irmã. — Convidei Margareth para passar alguns dias em nossa casa, enquanto está em Londres.
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  Levantei meu olhar. Eu já havia percebido que ele não gostava muito de visitas inesperadas, a senhora Poppy era uma prova disso, suas aparições para o almoço ou jantar faziam atiçar os olhares de reprovação de .
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  — A casa é sua, tem a permissão de convidar quem quiser. — assentiu ele.
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  — Não quero deixá-lo desconfortável em sua própria…. — ele tocou em meus lábios com seu dedo indicador.
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  — Só há um momento em que me sinto desconfortável. — ele desceu sua mão até minha cintura me deixando ainda mais próxima a ele. — Quando não está ao alcance dos meus olhos, ou longe o bastante para que eu não possa tocá-la.
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  Ele encostou seus lábios em minha testa por alguns instantes, até que enfim meu coração se acelerou com o gosto doce do seu beijo, suave no início e se intensificando ainda mais a cada segundo. Minhas pernas sempre bambeavam quando sentia suas mãos segurando em minha cintura, assim como meus sentimentos por ele estavam pouco a pouco crescendo e se fortalecendo, eu já poderia admitir que estava apaixonada pelo meu marido.
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  — …. — sussurrei me afastando um pouco. — Quem é você?
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  — Por que a pergunta? — ele me olhou confuso. — Sou seu marido.
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  — Você é bem mais que isso. — suspirei de leve. — Como pode saber tudo sobre mim, e eu não saber nem a metade sobre você?
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  Ele sorriu de canto mantendo seu olhar em mim.
  — Um dia você saberá. — ele segurou em minha mão e deu um leve beijo.
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  Assenti com um sorriso, não estava muito conformada, tinha esperanças que obter todas as respostas dele, mesmo que superficiais e sem nenhum tipo de detalhe. Permanecemos no escritório por um longo tempo, ele sentado em sua mesa concentrado nos documentos de seus negócios, e eu sentada na chaise lendo o livro de poesias que ele estava lendo quando entrei.
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  Foi um pouco engraçado ver ele tentando concentrar sua atenção nos papéis, pois seus olhos sempre vinham em minha direção. Mantive meu riso disfarçado, porém, sempre que o via me olhando, não conseguia deixar de sorrir para ele antes de desviar meu olhar e voltar à minha leitura.
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  — Senhor Winchester? — disse Lee ao bater na porta.
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  — Entre. — respondeu .
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  — Senhor, minha lady. — Lee caminhou até ele e disse algo em sussurro.
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  Se afastando um pouco, fez uma breve reverência para mim e saiu.
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  — Algum problema? — perguntei.
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  — Não. — se levantou e caminhou até mim, esticando sua mão. — Venha, o jantar nos aguarda.
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  Assenti e segurei em sua mão, assim seguimos em direção à sala, Sophie e Margareth estavam sentadas no sofá nos aguardando. Seus olhares para mim pareciam curiosos e cheios de perguntas sobre o que possivelmente eu estaria fazendo no escritório com o senhor meu marido.
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  Nos sentamos à mesa e fomos servidos pelos valetes, para minha surpresa, nosso jantar foi um pouco silencioso, acho que Margareth estava com um pouco de vergonha de , entretanto, mesmo que suas palavras não saíssem, seus olhares para mim diziam tudo. Após o jantar, permanecemos mais algum tempo na sala de visitas, Margareth me fez tocar a canção da noite que meu pai tinha me ensinado quando criança.
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  Aquela foi a primeira vez que toquei na presença de .
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  — Ele é bem silencioso. — comentou Margareth assim que entramos no quarto que Isla e uma das criadas havia preparado para ela.
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  — Sim. — assenti permanecendo na porta. — Acho que já estou me adaptando a isso, em alguns momentos sinto que seu olhar pode dizer mais do que mil palavras.
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  — Hum. — ela sorriu de leve. — Seus olhos estão brilhando.
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  — Estão? — perguntei surpresa.
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  — Está gostando dele, não está? — indagou Margareth se sentando na cama.
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  — Sinto que sim, a cada dia consigo gostar ainda mais de estar ao lado dele, será que posso considerar estar apaixonada por ele?
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  — Claro que sim. — Margareth riu de leve. — A maneira como o defendeu dos comentários da minha mãe e Freya hoje no chá, já é o suficiente para perceber que está se apaixonando por ele.
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  — Ah — dei um suspiro forte —, vou me recolher agora, lhe desejo uma confortável noite.
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  — Neste quarto maravilhoso? Minha noite será encantadora. — brincou ela tombando seu corpo sobre a cama.
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  — Boa noite, Marg. — disse abrindo a porta.
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  — Boa noite, ! — ela sorriu de leve.
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  Eu pisquei de leve para ela antes de fechar a porta do quarto, assim que entrei em meu quarto, a criada já estava me esperando, ela me ajudou a me banhar e colocar minha camisola nova de linho egípcio, um presente da senhora Poppy. Segundo ela, uma senhora casada não deveria repetir suas roupas íntimas nos primeiros meses de casada.
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  — Agradeço, pode ir agora. — disse a criada.
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  — Com sua licença, minha lady. — a criada se retirou.
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  Eu me coloquei em frente ao espelho e comecei a pentear meus cabelos com a escova, por um momento fiquei um pouco distraída e perdida em meus pensamentos, estava pensando na notícia do noivado de Freya. Inegável minha curiosidade em saber quem seria o corajoso a se casar com a pessoa mais materialista que eu conhecia.
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  Em meio a muitos pensamentos desnecessários, senti de repente um longo arrepio em meu corpo, proveniente de um beijo que tinha dado em meu pescoço. Toda minha atenção se voltou para ele de imediato, meus olhos direcionados para seu reflexo no espelho. Respirei fundo tentando manter meu coração calmo, virei-me para ele.
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  — Pensei que demoraria mais. — disse com minha voz meio falha. — Sua conversa com Lee parecia séria e importante.
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  — Hum. — ele acariciou minha face suavemente.
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  — Posso saber sobre o que conversavam? — perguntei mordendo meu lábio inferior.
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  — Estava confirmando minhas ordens sobre… — ele parou por um momento, seu olhar suavizou um pouco.
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  — Sobre?
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  — Aprontarem minha casa em Paris. — finalizou ele.
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  — Vai viajar para Paris?
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  — Não. — ele segurou em minha cintura, acho que já tinha descoberto meu ponto fraco. — Nós vamos a Paris, em lua de mel.
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  — Paris? — sussurrei sentindo meu coração acelerar um pouco.
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  — Perdoe-me por adiar tanto. — disse ele sorrindo de leve.
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  — Não há o que perdoar, sei que tem muitos compromissos. — desviei meu olhar para o chão.
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  — Sim, eu tenho. — ele tocou em meu queixo erguendo minha face, me fazendo olhar para ele. — Mas você é mais importante que todos eles.
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  Me senti um pouco sem ar com aquela declaração, senti sua aproximação e logo fechei meus olhos, instantes depois seus lábios já estavam tocando os meus. Era como se toda a intensidade que ele tinha em seu olhar, se transferisse para seus beijos maliciosos e ao mesmo tempo doces, que faziam meu corpo se aquecer de forma incontrolável.
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  O toque de seus dedos em minhas costas faziam meu corpo se arrepiarem, e quando ele alisava todas as linhas das minhas cicatrizes, eu perdia até mesmo os sentidos. Todos os músculos do meu corpo se movia em sincronia com o dele, principalmente minha respiração, que a cada beijo parecia ainda mais ofegante.
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  — Você perguntou quem eu era. — disse ele assim que nossos corpos tocaram os lençóis de seda da cama.
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  — Sim. — assenti o olhando nos olhos.
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  Ele aproximou seus lábios do meu ouvido e sussurrou.
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  — Permita-me mostrá-la quem sou eu.
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  Senti meu corpo se arrepiar por inteiro, eu queria, sim, saber quem realmente era , e por que eu tinha me apaixonado tão rápido por ele. Por que meu coração acelerava simplesmente ao ouvir sua voz, por que minhas pernas ficavam bambas com o toque de tuas mãos, por que, de forma tão intensa, meu corpo reagia ao amor dele sem nenhuma resistência.
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“Estou apaixonada por você, eu devo ter perdido a cabeça,
No momento em que as pontas dos seus dedos tocaram meu corpo,
[…]
Meu coração,
Está batendo tão rápido.”

– Falling In Love / 2NE1

7. Destination

  Nottinghamshire – Inverno de 1837

   ver.:

  Havia passado alguns anos e recentemente nossa casa havia recebido mais um hóspede, Aidan era sobrinho dos meus pais, devido a uma fatalidade acontecida com seus pais, que vieram a falecer em um desastre, sua única opção além de um orfanato foi morar em nossa casa. Ele era um pouco mais novo que eu, porém nem sua pouca idade impediu meu pai de lhe ensinar o ofício da família, claro que eu seria responsável por Aidan.
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  — Estou com fome. — disse aquela pequena criança pela quinta vez, ao se sentar no chão.
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  — Não podemos comer agora. — abaixei a faca que estava em minha mão e o olhei. — Ainda estamos trabalhando, meu pai deixou tudo isso para fazermos.
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  — Mas estou com fome. — ele suspirou fraco me olhando como um cachorro abandonado.
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  — Hum, tudo bem, pode ir comer, eu termino de fazer isso. — assenti voltando meu olhar para os cortes do porco que estavam em minha frente.
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  — Obrigado, . — ele se levantou mais que depressa e saiu correndo em direção à casa.
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  Respirei fundo e voltei ao trabalho, a parte boa de finalmente aprender todos o segredos daquele ofício, foi aprender também o básico sobre negócios, o que me levou a perceber que meu pai era um tanto ruim neste quesito. Além de não anotar todas as dívidas dos seus clientes, ele também não sabia negociar e nem cobrar o que lhe deviam, o resultado era a nossa vida precária e miserável. Eu sentia, lá no fundo, que deveria fazer algo a respeito, mas não sabia o quê, ninguém daria ouvidos a uma criança.
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  Porém, mesmo assim já estava determinado a mudar meu destino, uma vida de pobreza não estava nos meus planos para o futuro, principalmente por causa do meu propósito inicial, que é me aproximar da lady . Continuei meu trabalho em silêncio, fazendo minha mente funcionar constantemente arquitetando soluções, a primeira delas me veio juntamente com um brilho no olhar.
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  Mesmo que inicialmente meu pai não quisesse seguir, eu estava decidido a insistir, então assim que terminei de colocar todos os cortes dos porcos em seu lugar para conserva, corri para casa para compartilhar a ideia com minha mãe.
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  — Oh, anjo, pensei que não viria comer também. — minha mãe me olhou com aquele doce sorriso em seu rosto, que sempre me fazia sentir acolhido.
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  — Estava terminando meus afazeres, mas confesso que estou mesmo com fome. — desviei meu olhar para o chão, colocando a mão na barriga, a sentindo fazer alguns barulhos estranhos.
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  — Ah, estou percebendo, você se dedica muito a este ofício, estou orgulhosa que esteja ajudando seu pai. — ela manteve aquele sorriso no rosto. — Olha, lave as mãos e venha comer.
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  Assenti e corri até o balde com água que estava em cima de uma cadeira ao lado da porta, lavei minhas mãos rapidamente e me voltei para a mesa.
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  — Estaríamos muito melhor se o papai conseguisse receber dos seus clientes. — comentei.
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  — O que está falando de mim? — logo sua voz soou vindo da porta, assim como eu, sua roupa estava suja de sangue.
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  — Nosso filho só está falando a verdade. — consentiu minha mãe. — Os clientes do açougue são nobres, deveriam pagar pelo que compram.
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  — Não devemos reclamar…. — ele suspirou com um ar de cansado, sua face parecia mesmo cansada, ele estava trabalhando nas entregas desde a primeira hora do dia. — Temos cliente e isso já é uma benção.
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  — Clientes que não pagam, e quando fazem, são somente restos de seus castelos. — mantive meu olhar para o prato, me sentindo frustrado.
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  — E o que você sabe sobre isso, ainda é uma criança. — ele levantou seu tom de voz. — Acha que consegue fazer melhor que eu?
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  — Não senhor. — sussurrei.
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  — Deixemos de discutir, a hora do almoço é sagrada, então vamos nos sentar e agradecer a Deus pelo que temos. — minha mãe sentou na cadeira ao meu lado. — Tenho certeza que mesmo sendo uma criança, quer fazer o melhor pela nossa família, isso me deixa ainda mais feliz.
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  Dei um sorriso fraco, por dentro me sentia incapaz de tudo por ser uma criança, queria ser um adulto e poder resolver tudo no lugar deles. Para mim aquele almoço foi amargo, ainda mais por todos os defeitos que meu pai ainda apontava em tudo que eu fazia, talvez ele estivesse chateado por minha reclamação, mas eu estava certo, não seríamos pobres se ele fosse um bom comerciante. Passei o resto do dia pensando sobre como eu poderia ajudar minha família, minha única solução foi a mais perigosa.
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  Eu fugiria de casa.
  Sem o menor remorso, eu teria que aprender longe de casa, precisava crescer não somente fisicamente, mas também mentalmente, e não conseguiria fazer isso perto da minha família, meu pai era um bom homem, mas tinha medo da nobreza. Eu não conseguiria aprender o que é ser respeitado ou temido com ele, precisava aprender com alguém que não tinha receio nenhum de enfrentar aquele nobres. Eu precisava me tornar um homem forte e respeitado.
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  No meio da madrugada, me levantei da cama, já havia deixado uma trouxa de tecido com alguns suprimentos escondida debaixo da minha cama, respirei fundo ao pegá-la tentando não fazer muito barulho. Não queria acordar ninguém, pois daria uma enorme confusão.
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  — ? — disse Aidan se remexendo na cama. — Onde está indo?
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  — Na cozinha, pegar um pouco de água. — sussurrei ao olhar para ele. — Volte a dormir.
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  O cobri mais um pouco e me afastei de sua cama, olhei novamente para minha cama, fixando meu olhar no pequeno bilhete, meu coração estava apertado, pois a segunda pessoa que mais amava choraria com meus atos. Minha mãe ficaria triste sem seu anjo, mas faria isso por ela também, de alguma forma beneficiaria a minha família. Respirei fundo pela última vez deixando aquele quarto, aquela casa, aquela família; eu voltaria, não como uma criança, mas como um homem de respeito.
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  Segui pela estrada secundária do condado, até que avistei algumas tropas da nobreza e me escondi no meio dos grandes arbustos. Já havia ouvido sobre a visita de um de um grão-duque ao condado de Nottinghamshire, primo de terceiro grau do príncipe, que vagamente se lembravam que estava na linha de sucessão, mas com um título de nobreza tão alto, já era o bastante para ser bajulado por toda a população.
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  — Odeio os aristocratas. — sussurrei vigiando a passagem das tropas.
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  Todos com sua impecável postura de cavaleiros da realeza, com o brasão britânico serigrafado em suas armaduras e o estandarte logo a frente guiando os demais, tive que continuar meu caminho pelos arbustos, pois a comitiva parecia grande. Aproveitei aquele momento para comer uma das frutas que estavam na trouxa, além de descansar também. Demorou vários dias, até que consegui chegar em Nottingham, considerado o centro administrativo do condado.
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  Para mim, aquela cidade poderia representar uma oportunidade para mim, comecei aproveitando a estadia do tal nobre, para oferecer meus serviços a um mercador que precisava de mais funcionários. Apesar de ser uma criança, mostrei a ele o quanto poderia ser útil no esforço físico, aproveitando, observaria como seu comércio funcionava e como ele comercializava seus produtos diante da nobreza. Aquele homem era um mercador de peles de animais, era conhecido como Jones das peles, e parecia ser muito famoso entre os outros comerciantes, principalmente alfaiates e costureiras.
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  Segundo o senhor Jones, suas peles eram as mais raras que as pessoas encontrariam, o que fazia seus produtos ficarem mais caros, já que todos procuravam. Esta foi a primeira coisa que aprendi longe de casa, um comerciante deve sempre valorizar seus produtos e fazê-los ser mais raros e preciosos aos olhos dos clientes. Isso me lembrava das criações de javali que meu pai tinha, eram raras e ele não as valorizava, já que estavam extintos em nosso país.
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  — Ei, garoto, vais ficar parado aí? — gritou o senhor Jones. — Se apresse e coloque as peles no baú.
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  — Sim, senhor. — corri até a carroça onde estavam as peles e peguei as duas que o homem tinha comprado e levei até onde estava o baú, em sua carruagem.
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  Passei toda aquela temporada aprendendo sobre peles com o senhor Jones e principalmente como conservá-las, aprendi também algumas coisas sobre como negociar com os clientes, aquilo havia me deixado maravilhado. Continuei trabalhando com o senhor Jones durante alguns anos, indo de condado em condado até que chegamos à grande capital Londres. Meus olhos até brilharam com todas aquelas construções monumentais e luxuosas.
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  Fiquei ainda mais tentado a passar algum tempo naquele lugar para aprender um pouco mais como aquela desigual sociedade funcionava, foi neste momento que comecei a trabalhar na mais famosa padaria da cidade.
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  — Tem certeza que conseguirá fazer todas estas tarefas ao dia? — perguntou novamente a senhora Hill.
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  — Sim senhora, eu consigo fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, tenho muito conhecimentos em conservar mercadorias. — assenti me encolhendo um pouco.
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  A senhora Hill era uma mulher robusta e suas expressões faciais eram de causar medo, mulheres independentes como ela eram consideradas pela sociedade má influência às damas da nobreza, porém, mesmo assim todos faziam diversas encomendas em sua padaria. O segredo do seu sucesso eram os famosos pães de mel, que fazia toda a cidade reverenciar e aplaudir aquela padaria, mas tinha que admitir que eram realmente gostosos, principalmente por serem feitos com puro mel de abelha das colmeias que ela cultivava no jardim dos fundos da padaria.
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  — Você já trabalhou em açougue, com mercador de peles, sabe que o tipo de alimento que eu produzo não é algo para se conservar. — ela se levantou de sua cadeira, com aquele olhar sério, que fazia minha espinha tremer. — Todos os pães, bolos, croissants, biscoitos que existem nessa padaria são feitos e vendidos diariamente, não guardamos nada.
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  — Então, o que a senhora faz como o que sobra? — perguntei confuso.
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  — Vendemos para um senhor, para alimentar seus porcos. — respondeu ela com um leve ar de superioridade, como se estivesse fazendo um bom negócio.
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  — Mesmo assim, senhora, tenho certeza que conseguirei fazer todas estas tarefas. — afirmei com confiança.
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  — Muito bem, lhe darei uma chance, se falhar no primeiro dia, te enxotarei daqui. — assegurou ela com aquele tom intimidador.
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  Assenti pensando se aquilo era um bom negócio, pois havia visto alguns pães dormidos semelhantes aos da sua padaria sendo vendidos mais barato, o que me levou a acreditar que não eram porcos que comiam. Felizmente consegui sobreviver o primeiro mês, tinha certeza que minha motivação estava nas duas pessoas que mais amava na vida, minha mãe e lady , a cada amanhecer, eu mantinha meus pensamentos nela para aguentar mais um dia.
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  — , já limpou toda a área pública da padaria? — perguntou Oliver ao se aproximar de mim, ele era o filho único da senhora Hill, que apesar desse grau de parentesco era tratado da mesma forma que os demais funcionários, pela mãe.
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  — Sim, é o primeiro lugar que eu limpo, sei que a padaria abre para o público na primeira hora da manhã. — confirmei minha tarefa inicial do dia, que me fazia acordar de madrugada. — Precisa de mais algo?
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  — Sim, que limpe o escritório, a senhora Hill irá receber um cliente especial. — pediu ele dando demonstrações de estar cansado.
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  — Está tudo bem, senhor? — perguntei preocupado.
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  — Não muito, estamos com problemas de sobra, como se as pessoas estivessem parando de comprar em nossa padaria. — explicou ele.
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  — Acho que sei a causa. — eu estava guardando aquilo para mim, pois a senhora Hill jamais daria ouvidos a um subalterno como eu, mas seu filho, talvez. — Eu acabei presenciando uma cena bastante curiosa, já vem acontecendo desde que comecei a trabalhar aqui.
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  — O que seria? — ele parecia curioso por minha informação.
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  Contei a ele sobre as vendas de produtos semelhantes ao da padaria. Oliver, por incrível que pareça, acreditou em mim de imediato e pediu para que eu comprasse um desses produtos para servir de prova. Eu o ajudaria a convencer sua mãe a acreditar e experimentar uma ideia que ele havia tido tempos atrás, em troca ele me daria uma recompensa além do salário que eu ganhava ao trabalhar lá.
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  Assim que apresentamos a prova à senhora Hill, e Oliver propôs novamente a solução de reutilizar as sobras como outros produtos, ela ficou um tempo em silêncio olhando para aquele pães dormidos.
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  — Você acha que minha padaria deveria fazer isso? Somos seletos em nossos pães e derivados, como poderíamos vender algo passado? — ela parecia confusa e furiosa ao mesmo tempo.
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  — Senhora, tenho certeza que dará certo, pelo menos da forma que desejo fazer. — argumentou seu filho. — Dê-me esta chance que eu lhe mostrarei resultados positivos.
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  — O que este funcionário está fazendo aqui?
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  — Ele está me ajudando senhora, foi ele quem me contou sobre as vendas falsas. — explicou Oliver.
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  — Darei somente uma oportunidade, se falharem, já conhecem o caminho da porta. — anunciou ela.
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  Um frio gelado passou por meu corpo. A senhora Hill teria mesmo coragem de expulsar o próprio filho?
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  Foi trabalhoso para Oliver conseguir colocar em prática suas ideias, porém, após cinco noites em claro de testes e mais testes, conseguimos chegar ao resultado esperado. Ele havia finalmente provado para sua mãe que seria o melhor padeiro de Londres e eu finalmente tinha aprendido todo o ofício deles, além de como funcionava a cozinha de uma padaria. O que resultou na segunda coisa que aprendi longe de casa, jamais se contentar com o que está fazendo e sempre se superar. Oliver superou todas as expectativas com os pães dormidos, transformando eles em coisas melhores e mais saborosas, finalmente a padaria voltaria a sua fama e riqueza inicial.
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  Mais anos foram passando, quando finalmente o glamour de Londres começou a me deixar entediado. Além da padaria, trabalhei em quase todos os comércios da cidades, sempre adquirindo mais conhecimento e experiência. Porém, um mercador de peixes do porto cruzou o meu caminho, me deixando ainda mais curioso para ser como funcionava o comércio marítimo, algo que estava gerando muito lucro atualmente.
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  Logo, me ofereci para trabalhar com ele, e graças a toda minha experiência com os burgueses da cidade, ele me contratou sem o menor problema, felizmente naquele trabalho eu ganharia bem mais. O que me fazia lembrar que tinha que ser mais cuidadoso com minha pequena fortuna, como não tinha despesas e sempre comia as sobras, guardava cada moeda de prata que recebia de pagamento.
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  Foi no porto de Liverpool no condado de Merseyside, que a coisa mais imprevisível aconteceu comigo, eu a vi ao longe, lady também estava naquela cidade. Por um breve momento, mas tinha certeza que era ela, estava linda como da primeira vez que a vi, segui sua carruagem ao longe, até chegarem a casa do governador. Fui me aproximando aos poucos, até que percebi uma movimentação suspeita aos arredores da casa.
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  Pela primeira vez, me deparei com piratas, os mesmos das histórias que minha mãe me contava.
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  — Lady . — sussurrei, já me preocupando com ela.
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Os golpes da bandeira ao vento, minha visão se torna mais escura
Eu serei capaz de ver o meu destino
O vento agitava a bandeira, os meus passos estão perdidos ao longo da frente
Eu seria capaz de chegar ao meu destino”

– Destination / SHINee

8. Black Pearl

  Liverpool – Outono de 1842

   ver.:

  Mesmo de longe eu conseguia ver algumas armas que estavam mal escondidas nas mãos de um deles, me mantive escondido atrás de uma das carruagens que estavam estacionadas, respirei fundo desejando que eles não adentrassem aquela enorme casa. Em minha mente, a imagem de lady se firmava de forma intensa, mesmo não sabendo ao certo se era realmente ela.
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  — Preciso fazer algo. — sussurrei de leve mantendo meu olhar em um dos piratas que parecia comandá-los.
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  Respirei fundo e, passando por alguns barris que estavam próximo à entrada dos criados, cheguei à cozinha. Pela posição dos piratas, tudo indicava que entrariam pela porta da frente, então só teria um lugar para que eu pudesse entrar. Como todos naquele lugar estavam aparentemente concentrados em seus afazeres, aproveitei para passar silenciosamente pelas beiradas do longo caminho que levava ao grande salão.
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  Ao chegar próximo de uma grande escultura de mármore, me escondi atrás e fiquei observando, haviam muitas pessoas naquele lugar que deveriam ser importantes. Minha visão passou por cada um daqueles homens que falavam tão cordialmente e baixo, ao contrário dos comerciantes que eu estava acostumado a conviver. Depois, voltei minha atenção para o lado, onde se concentravam as mulheres, todas com seus vestidos monumentais e cheias de joias, eram belas e delicadas.
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  Porém, uma bela dama que estava mais próxima à escultura; era essa que meus olhos procuravam, seu olhar voltado para o vaso ao lado a fez se aproximar ainda mais do lugar onde eu estava. Foi neste momento que um estouro surgiu bem próximo à porta da frente e logo os piratas adentraram o lugar, não me contive em meu desespero de pensar que algo aconteceria a ela. Peguei na mão de lady em um momento de distração que seus olhos se voltaram para os piratas que adentravam, então a impulsionei para minha direção, a envolvendo em meus braços, abaixando um pouco seu corpo.
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  — O que está…. — ela se remexeu, mas logo outro barulho, do que seria de uma colt, a fez se encolher um pouco mais para perto de mim.
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  Meu coração acelerou um pouco com aquilo, ajeitei o capuz que estava em minha cabeça escondendo um pouco mais meu rosto, eu teria que tirá-la de lá o mais rápido possível. Como tinha muitas pessoas além dos diversos empregados, era uma oportunidade, segurei em sua mão de maneira firme, mas que não a machucasse e, tomando impulso, direcionei nossos corpos para um corredor lateral que estava mais escuro. Não sabia para onde nos levaria, mas era nossa oportunidade para sair dali ou nos esconder.
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  Então chegamos a uma porta, que sem maiores preocupações, abri. Saímos no que parecia um jardim lateral, diferente de todo jardim que eu já havia visto antes, o que foram poucos, eu mantive minha mão segurando a dela e a guiei para longe da porta, até chegarmos em um alto arbusto.
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  — Espere, por favor. — disse ela de forma insegura. — Quem é você?
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  Me mantive em silêncio, virando minha face para o lado para que não visse meu rosto.
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  — Diga-me, por favor, preciso agradecer adequadamente a pessoa que tanto me protege. — insistiu ela com mais afinco.
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  Logo ouvi vozes perto da porta e então a afastei de mim para que ficasse atrás dos arbustos, foi então que outro tiro soou atrás de mim.
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  — Ei, você! — gritou um homem com voz rouca. — Pelas vestes, não é um nobre, deve ser a plebe.
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  — Olha, ele parece não ter língua. — um pouco robusto logo atrás deu dois passos em minha direção. — O que esconde aí?
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  Balancei minha face negativamente, recuando um pouco.
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  O homem robusto se aproximou de mim e, antes que segurasse minha capa com força, fiz um sinal com a mão direita para trás, para que lady não fizesse nenhum movimento que a denunciasse. O homem me arrastou por alguns instantes, mesmo debatendo meu corpo e tentando me soltar, era um tanto inútil por seu tamanho.
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  — Coloque ele para dormir. — disse o homem da voz rouca. — Temos que ir.
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  — Vou levá-lo comigo. — disse o robusto. — O capitão vai gostar de um mascote.
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  Aquelas palavras fizeram a espinha do meu corpo estremecer, antes que eu pudesse fazer mais algum movimento, senti um forte impacto em minha nuca, me fazendo perder os sentidos.
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– x –

  Acordei sentindo um leve enjoo que me fez vomitar assim que abri os olhos, uma estranha sensação de instabilidade tomou conta de mim. Ao olhar em minha volta, estava em um lugar úmido e cheirando a mofo. Ergui meu corpo do chão, colocando-me de pé, e lancei meu olhar para frente, a poucos passos havia uma grade diante de mim, me fazendo presumir que estava em algum tipo de cela.
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  — Olha só, o mascote acordou. — o homem robusto estava do outro lado, fixei um pouco meu olhar naqueles dentes sujos e podres, que me davam mais ânsia de vômito. — Vou te tirar daí, vamos ver se diante do capitão continua mudo.
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  Ele deu uma gargalhada estranha e, destrancando a fechadura, abriu a cela e logo veio para cima de mim, me pegando desta vez pela camisa, já que haviam retirado a capa de mim, e me arrastou em direção à proa no navio.
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  — Vejam só nosso mascote. — aquele homem da voz rouca estava em próximo a escada que subimos. — Torça para o capitão ir com a sua cara.
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  Mantive minha face mais abaixada, ainda sendo puxado por aquele homem robusto e fedorento.
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  — Aqui está ele, capitão. — disse o homem me jogando no piso da proa.
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  — Ora, ora…. — a voz do capitão era áspera e firme, soava um certo sarcasmo. — Vocês me trouxeram uma criança de mascote.
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  Criança? Eu já estava me aproximando de meus 18 anos e ele me olhava como uma criança, levantei meu corpo daquele chão grudento e respirei fundo, com minha face abaixada meu olhar continuava direcionado para as velhas botas daquele homem.
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  — Olhe para mim, mascote. — ele aumentou um pouco o tom de sua voz.
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  Meus olhos foram seguindo cuidadosa e atentamente, das botas, até chegar em seus olhos cheios de mistérios. Engoli seco já imaginando que aquele poderia ser meu último momento em vida. Um aperto logo veio em meu peito, imaginando que não teria nem mesmo sequer uma gota de oportunidade de me aproximar adequadamente de lady . Soltei um suspiro de satisfação, pelo menos ela estava segura e longe de tudo aquilo que me acontecia.
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  — Você tem nome? — perguntou ele.
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  Mantive-me em silêncio novamente.
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  — Ele é mudo, capitão. — comentou o robusto. — Não soltou nenhum som desde o momento em que o vimos.
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  — Hum…. — ele me olhou de cima para baixo e sorriu de canto. — Acho que você tem sorte criança, bem-vindo ao Bella Donna.
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  Disse ele, enfatizando o nome do navio.
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  Com aquilo, pude respirar mais aliviado, ou melhor, era o que eu pensava até me jogarem na cozinha. Não parecia ao certo uma cozinha e ficava próximo às celas, bem abaixo do convés. Outra sorte minha foi ter aprendido a cozinhar com Oliver, assim, eu não seria um inútil naquele navio e poderia garantir alguns dias a mais de vida, apesar de começar a acreditar que morreria de tanto trabalhar naquele lugar. Algo que fazia voltar a memória meus dias na workhouse do senhor Cooper, nem mesmo na casa de meus pais eu trabalhava tanto quanto naquela cozinha.
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  Os meses no mar foram passando, aos poucos consegui me acostumar com o balançar do navio, até mesmo havia feito algum tipo de amizade louca com os dois piratas que arrastaram-me para aquilo tudo. O de voz rouca era chamado de Sid, já o robusto se chamava Gibbs, quanto a mim, fiquei sendo chamado por todos de Mascote, algo que me cansava.
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  — Mascote, mandei que trouxessem-lhe, pois estou com um novo objetivo em vista. — disse o capitão ao pegar uma maçã verde que estava junto a bandeja de prata com as outras frutas.
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  Mantive meu olhar observado em suas expressões corporais, no pouco tempo que estava ali, já havia percebido que o capitão era diferente dos outros, mesmo com aquelas vestes sujas e fedorentas de um homem que estava ao mar a anos, ele tinha um porte que lembrava os nojentos nobres da Inglaterra. O que me fazia pensar sobre o passado do capitão, será que ele era da nobreza ou conviveu com eles?
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  — Sou um homem que dispõe de muito tempo, venho o analisando durante este tempo, percebi que mesmo sendo mudo, és muito observador ou que nos ajudaria muito, e como provaste ser de confiança, irei te ensinar algumas coisas sobre a vida, principalmente sobre as riquezas do mundo. — seu olhar ficou mais intenso, como se estivesse imaginando algo para mim.
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  Senti-me receoso por isso, entretanto, uma breve palavra que me dissera havia atiçado minha vontade de aceitar seus ensinamentos: riqueza. Era aquilo que eu buscava acumular a muito tempo e não conseguia, mantendo meu olhar no capitão, respirei fundo e assenti com segurança no olhar.
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  — Muito bem, começaremos agora mesmo, há muito para aprender em pouco tempo. — ele sorriu de canto.
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  O capitão parecia mesmo muito animado, todos os dias ele me acordava antes do pôr-do-sol, e meu treino se iniciava da forma mais cruel e brutal possível, desde manejar uma espada ou atirar com armas mais modernas como uma colt, a combates físicos contra os outros piratas em pleno sol do meio dia. Comecei a constatar que aqueles treinamentos eram mais cansativos que trabalhar o dia todo limpando o barco e cozinhando para toda a tripulação.
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  Eu sentia os ossos do meu corpo quererem se partir ao meio, minha carne ardia de dor e todos os dias eu dormia na ponta da proa sob o céu estrelado, sempre amarrado como um castigo por não ganhar nenhuma luta. Eu queria desistir, eu ansiava por algo que me tirasse daquela situação, mas quando me lembrava que o segundo nível do treinamento era conhecimento, sentia meu corpo se fortalecer instantaneamente.
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  — Congratulations, mascote, sobreviveu a tudo até agora. — a ironia soava um pouco em seu olhar, batendo algumas palmas para mim.
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  Assenti mantendo meu olhar voltado para ele.
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  — Agora vamos para a sua recompensa, vamos ao conhecimento. — ele sorriu com satisfação.
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  Sim, conhecimento. Era naquele estágio que eu queria chegar, era conhecimento que os nobres tinham e eu queria ter.
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  — Eu lhe ensinei a ser forte e brutal, agora te ensinarei a ser cordial e cavalheiro. — ele deu alguns passos até o fundo da cabine e alisou algo grande que era coberto por uma capa. — Este é meu segredo, sei que não contará nem mesmo para os marujos, eu não nasci no mar… Eu era… Em uma breve parte de minha vida, fui um nobre.
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  “Eu já imaginava, capitão.” Pensei comigo.
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  — Por que mudei o curso de minha vida? Por amor, o amor nos faz mudar de rota e causar grande destruição, se assim desejar…. — ele suspirou fraco e, pegando na capa, a puxou, mostrando o grande piano que havia debaixo. — Mas minha vida não vêm à situação atual, vamos à sua primeira aula, um verdadeiro cavalheiro deve saber tocar este instrumento e lhe ensinarei.
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  Assenti novamente deixando meu olhar voltado para o piano, aquilo era muito mais do que eu poderia imaginar aprender, mas estava ansioso para começar. Não somente o piano, mas tinha aulas sobre literatura, economia, ciências, filosofia e outras coisas a mais que o capitão havia estudado em seu passado. De tudo aquilo, o que mais me atraía era sobre economia, entender como funcionava realmente o mundo capitalista.
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  — Confesso que não sei por quanto tempo mais ficará conosco, entretanto, sinto-me com o dever cumprido. — disse o capitão ao se aproximar de mim na ponta da proa do navio. — Não mais um menino, agora um homem completo.
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  Mantive meu olhar no mar vendo o brilho da lua tocá-lo, permanecendo debruçado no beiral, ele permaneceu a dois passos de mim.
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  — Confesso que sempre pensei em ter um filho, para ensiná-lo tudo o que ensinei-lhe, mas acho que posso considerar este jovem à minha frente uma pequena porção do que seria ter um filho. — ele riu. — Acredito que teria sofrido bem mais.
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  Ele soltou uma gargalhada estranha.
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  — Enfim — seu suspiro pareceu cansado —, chegamos à parte que realmente deve estar interessado, a riqueza.
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  Eu ergui meu corpo e voltei meu olhar para ele.
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  — Agora, sim, após todo o conhecimento e força, apenas te falta uma coisa. — ele olhou para o céu. — Vou te ensinar a forma mais segura e rápida de conseguir.
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  Riqueza. Finalmente havia chegado nesta fase de todo o treino. Finalmente, depois de quase dois anos, havia conquistado não só a confiança, mas também o respeito e a lealdade do capitão, me deixando assim com boa esperança para o que aconteceria em minha vida daquele momento em diante. Como eu não participava de nenhuma das pilhagens por ordem do capitão, porém ajudava muito em todos os planos, ele tinha um singelo presente para mim, singelo e perigoso ao mesmo tempo.
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– x –

  — Aqui está. — disse o capitão ao me entregar um velho pedaço de pergaminho. — Seu presente.
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  Eu o olhei confuso ao pegar o pergaminho.
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  — Por todo este tempo, você conseguiu chegar a um nível que nenhum desses marujos conseguirão, se considere abençoado por isso, Mascote. — ele sorriu de leve. — Este pedaço de pergaminho é meu maior tesouro, porém, não precisarei dele.
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  Assenti mantendo meu olhar no capitão.
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  — Em dois dias vamos atracar no mar da China oriental, próximo a Xangai. Lá, você seguirá seu destino.
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  Respirei fundo, mantendo meu olhar no pergaminho.
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Eu não preciso de um mapa, meu coração me leva a você,
Mesmo que o caminho seja perigoso, eu não posso parar agora,
Eu nunca me esqueci de você por apenas uma hora,
Se eu só posso vê-la no final do horizonte distante.”

– Black Pearl / EXO

9. Colorful

  Paris – Primavera de 1847

   ver.:

  Assim como o prometido, estávamos desembarcando no porto de Le Havre, na França, para nossa planejada lua de mel.
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  Pelo que havia notado, aquele era o único porto do país que recebiam os navios mercantes de , ele tinha uma singularidade para os negócios que o fazia ser um tanto quanto seleto em suas negociações, além de escolher a dedo para quem venderia seus carregamentos. E toda essa exclusividade fazia seus negócios serem ainda mais prósperos, o tornando ainda mais rico do que já era.
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  — Uahhhh… Não me lembro nem mesmo de quando foste a última vez que estive em Paris.  — comentou Margareth deslumbrada ao finalmente chegarmos a carruagem, seus olhos pareciam sem rumo certo olhando para todos os pontos importantes daquele lugar.
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  — Confesso que também não me lembro, vagamente posso afirmar que nossa última estada aqui faz uns dez anos. — observei procurando discretamente com meu olhar.
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  — Freya deve estar morrendo de inveja de mim agora. — Marg deu uma risada baixa desviando seu olhar para a carruagem que nos aguardava. — Vamos esperar pelo senhor Winchester?
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  — Não sei. — sussurrei mantendo minha atenção na direção em que ele se encontrava. — Quanto a Freya, ela irá se casar com alguém rico, certamente, aposto que pedirá por uma lua de mel em Paris também.
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  — Freya sempre teve inveja de você. — ela bufou de leve. — Não entendo o porquê, você sempre foi legal com nós duas, além do mais, te considero mais minha irmã do que ela.
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  — Que sua mãe jamais a ouça dizendo tal coisa, te colocaria no convento ao sul da Itália. — ri baixo.
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  — Verdade. — ela riu junto. — Andas muito silenciosa, Sophie.
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  — Oh, senhorita Margareth, é minha primeira vez na França, ando um pouco impressionada com tudo o que meus olhos alcançam. — ela deu um sorriso tímido. — Fico honrada por ter convidando-me a vir juntamente.
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  — Por mais que esta seja minha lua de mel, aposto de não ficarei as quatro fases do dia com o senhor meu marido. — disso eu não tinha dúvidas.
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  — Isso é verdade, os burgueses sempre estão tão ocupados trabalhando. — comentou Marg.
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  — Ainda nessas circunstâncias, agradeço a oportunidade. — Sophie tinha uma leve humildade que me deixava confortável e ao mesmo tempo me fazia querer ajudá-la ainda mais.
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  Era um tanto quanto estranho minha necessidade de sempre ajudar pessoas menos abastadas, talvez seria uma forma de gratidão a minha mãe que morreu ao dar à luz a mim, somente preocupada se eu ficaria bem e saudável. Uma maneira de retribuir a ela por tal amor e cuidado, mesmo tendo uma saúde frágil, optou por ter um filho com meu pai, eu jamais conseguiria chegar ao seu nível de afeto ao próximo, algo que meu pai sempre me contou sobre ela. Lady Mary Lewis, uma mulher caridosa e admirada por toda sociedade londrina, espero um dia conseguir fazer o mesmo.
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  Desviei meu olhar por um momento para o cocheiro, que organizava com tanto cuidado nossas bagagens no bagageiro da carruagem, neste pequeno tempo de distração foi o suficiente para que se aproximasse de mim sem que percebesse. Ele se colocou ao meu lado, logo senti o aroma de seu perfume assim como os movimentos discretos nas mãos de minha irmã.
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  — Iremos agora? — o perguntei num tom ainda mais baixo.
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  — Terei que deixá-la ir na frente, mas em três dias estarei em Paris. — sua voz tinha traços de frustração, porém a entonação de firmeza continuava a mesma, além do seu olhar fixo em meus olhos.
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  — Eu ficarei bem. — assenti sem demora. — Estarei bem acompanhada.
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  — Acredito de sim. — ele sorriu de canto e foi se aproximando aos poucos de mim, até encostar seus lábios em minha testa, demorando um pouco para se afastar. — Tenho que ir agora, divirtam-se.
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   se afastou de nós sem mais demora, indo até um senhor que o esperava junto a um outro homem que parecia comerciante, voltei meu olhar para Marg que escondia um sorriso no canto do rosto.
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  — Você ainda fica tímida perto dele, me pergunto o motivo. — ela riu. — Será o olhar intenso ou a voz estremecedora?
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  — Marg! Olhe os modos, deixe-me em paz com esta parte de meus sentimentos. — dei de ombros e olhei para o cocheiro que já nos aguardava com a porta da carruagem aberta. — Vamos agora, serão algumas horas de viagem.
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  — Claro, irmã preferida. — ela riu ao me seguir até a carruagem.
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  Foram mesmo longas horas até que chegamos à bela cidade de Paris.
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  Após um dia na estrada e duas paradas somente para as tocas de cavalo, a carruagem finalmente estacionou em frente à Cher House, a mansão que, segundo a senhora Poppy, havia construído há pouco mais de dois anos, no melhor bairro de Paris, bem próximo ao Jardin du Luxembourg. Lembro-me dela frisando várias vezes o quanto o imóvel velho que ficava no lugar havia custado ao filho, que sem menores problemas, pagou a quantia exigida.
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  Esse tipo de comentários feitos pela senhora Poppy, principalmente nos momentos em que está na presença da minha família, faz-me acreditar que não era somente capricho em ostentar a fortuna do filho, mas mostrar que sua família também tinha seu valor, apesar de pertencer à burguesia. Suspirei fraco ao avistar os empregados todos enfileirados à minha espera, apesar de sempre dizer que eu era a dona de tudo que ele possuía, ainda tinha alguns receios sobre até que parte de tudo eu poderia tocar.
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  — Está tudo bem, senhora? — perguntou Sophie.
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  — Sim. — assenti mantendo meu olhar na mansão.
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  — Uau, seu marido realmente tem dinheiro, não são somente boatos. — comentou Marg boquiaberta. — Esse lugar é lindo, ainda mais lindo que a Wincher Hall.
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  — Arquitetura francesa. — sussurrei.
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  Sim, a mansão tinha traços mais limpos de clássicos do que a de Londres, o jardim era na frente da casa compondo toda a entrada que tinha um caminho de pedras ornamentais que levava à entrada da mansão. Logo, o mordomo abriu o portão e se curvou de leve, desviou seu olhar para os lacaios que estavam atrás fazendo um gesto para que pegassem nossas bagagens.
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  — Bem-vinda a Cher House, minha lady Winchester. — disse o mordomo de traços e roupas indianas, voltando seu olhar para mim.
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  — Agradeço. — me curvei de leve e respirei fundo.
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  — Eu sou Patel, o mordomo, e esta é Aimee, a governanta, tudo que minha lady precisar, basta ordenar. — ele se curvou novamente e estendeu a mão para que eu entrasse.
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  Assenti, me movendo para entrar. Marg e Sophie seguiram atrás de mim, ainda deslumbradas com o jardim que seguia pela extensão até chegarmos à fileira de empregados. Patel pronunciou o nome de cada um para mim, porém, estava com meus pensamentos tão longe daquele lugar que não conseguir nem mesmo memorizar o nome do primeiro.
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  A mansão era realmente luxuosa, com todos os seus cômodos amplos e decorados de forma que atraía leveza. Aimee me acompanhou mostrando cada um dos ambientes, demorou algum tempo até chegarmos ao terceiro andar, onde ficavam os quartos, ainda havia o quarto andar, que estava em reforma. Ao chegarmos no primeiro quarto principal, Sophie, que estava atrás de mim, continuou sendo guiada por uma criada até seu quarto que ficava um pouco mais afastado, Marg, por sua vez, acompanhada por outra criada, escolheu um bem próximo ao meu.
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  Assim que adentrei o quarto principal, me deparei com um ambiente claro e visualmente confortável, as diferenças entre o quarto principal da Wincher Hall eram notórias à primeira vista.
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  — Todas as bagagens referentes a minha lady e ao senhor Winchester estão aqui, logo mandarei uma criada para guardar os pertences. — ela se manteve próxima a porta, sua postura, assim como a de Isla, era impecável, seu tom de voz baixo e olhares discretos. — Deseja algo mais, minha lady?
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  — Gostaria que servisse o chá da tarde no jardim, por favor, em vinte minutos. — ordenei.
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  — Como desejar, com sua licença. — assim que ela abriu a porta, Marg apareceu com sua empolgação adentrando o quarto.
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  Esperamos até Aimee sair fechando a porta, para que os surtos de minha irmã se iniciassem:
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  — , eu estou encantada com sua casa, quero definitivamente morar em Paris. — ela deu alguns rodopios pelo quarto enquanto falava, até que se jogou em minha cama. — Isto é um sonho, não quero acordar.
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  — Margareth, só estamos no primeiro dia. — ri de leve de minha irmã, voltando meus passos para perto da extensa janela que tomava quase toda a parede da varanda do quarto. — Apesar de…
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  — Apesar de quê? — ela ergueu seu corpo e saltou da cama vindo até mim. — Oh… Isso é mais que um sonho, estamos no paraíso?
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  — Claro que não, isto é simplesmente Paris. — a corrigi delicadamente.
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  — O senhor Winchester deve mesmo ter muito prestígio até em Paris, para lhe proporcionar uma vista tão linda. — comentou ela impactada pelo que via.
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  — Sim. — consenti sussurrando.
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  Passamos algum tempo admirando a deslumbrante paisagem do Jardin du Luxembourg, era mesmo uma surpresa que a janela do quarto principal desse vista para aquele colorido lugar, que era ainda mais perfumado na primavera. Se era um sonho, estava a cada dia não querendo acordar dele.
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  — Já me decidi. — Marg se afastou um pouco e voltou a sentar sobre a cama.
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  — Sobre o quê? — a olhei curiosa.
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  — Quero me casar com um francês. — havia uma entonação forte de certeza em sua voz.
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  — Um francês? Acha que papai deixaria você se casar com um? — aquilo me admirou um pouco.
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  — O que tem? Se ele for um nobre, melhor ainda. — ela deu me ombros. — Além do mais, você se casou com um burguês.
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  Mesmo sabendo que eram palavras inocentes, aquilo me feriu um pouco, como se fosse vergonhoso ter um marido burguês. Talvez eu tivesse achado isso há alguns meses, quando recebi o pedido de casamento, ou até mesmo estivesse chateada por um casamento arranjado em minha noite de núpcias. Porém, agora, eu me sentia um pouco mais leve sobre o assunto, de fato, a escolha havia sido minha de qualquer forma e estava em paz com isso.
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  — Perdoe-me as palavras inoportunas que usei. — disse Marg com uma carinha de arrependida, talvez tivesse pensado no peso de suas palavras.
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  — Está tudo bem. — dei um suspiro cansado. — Sei que não foi intencional.
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  — Você está mesmo bem com este casamento. — comentou ela. — Apesar da diferença entre vocês.
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  — Sim, em alguns momentos consigo perceber esta diferença, em outros é como se algo muito além do casamentos nos unisse, é loucura isso.
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  — Eu diria que é amor. — ela sorriu. — Dizem que os opostos se atraem.
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  — Somos mesmo muito opostos. — admitir a realidade. — Mas é tão… Não encontro adjetivos para classificar isso, conhece todos os meus gostos.
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  — Todos? — a surpresa pairou em seu olhar.
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  — Todos, que eu me lembre. — mordisquei o lábio inferior de leve. — Incomum, mas comparando à época em que o sir Ulrich me cortejava, ele não conseguia nem mesmo gravar em sua memória minha cor favorita.
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  — Que loucura. — ela riu de leve. — Você era fascinada por ele, desde o momento em que ele a salvou na cachoeira naquele verão, achei mesmo que se casaria com ele.
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  — Eu também, até aparecer. — desviei meu olhar para a janela olhando o jardim da frente da mansão. — Sinto meu coração acelerar quando menciona algum detalhe sobre mim, ele sabe até mesmo quando estou apreensiva com algo.
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  — Uau, em tão pouco tempo de casados, ele já consegue ler suas expressões corporais?
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  — Como eu disse, parece loucura…. — eu a olhei novamente. — Mas ele demonstra me conhecer de uma forma mais profunda ainda.
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  — Seria invejoso desejar um marido assim? — Marg me olhou com uma cara sapeca, se levantando da cama.
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  — Um pouco. — nós rimos de leve. — Vamos descer, um chá nos aguarda.
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  — Sim, minha lady Winchester. — ela fez uma breve reverência.
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  Eu a abracei, lhe fazendo algumas cócegas, era divertido estar com a Marg naquele momento, mesmo ainda estando no início de um casamento, ter alguém familiar por perto de passava mais força e coragem. Assim como desejado, nosso chá da tarde foi em meio do perfume das flores do jardim, estávamos em meio a uma conversa nada tendenciosa sobre o possível perfil do noivo de Freya, quando Aimee se aproximou:
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  — Minha lady, há pouco chegou este convite para a senhora. — ela segurava uma bandeja de prata com um envelope prateado.
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  — Agradeço. — peguei o envelope e o cortei com a pequena faca de prata que havia ao lado.
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  Era mesmo um convite para um jantar de recepção, pela vinda de a Paris e também com algumas felicitações por nosso casamento, dizia também que já haviam enviado este convite a ele no porto, para que não pudéssemos ter oportunidade de recusar. Eu não estava tão confortável assim com a ideia, mas Marg já estava sonhando em conhecer algum aristocrata francês de muitas posses neste jantar.
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  Uma casa tão grande pareceu ainda mais solitária e vazia nos dias que se passaram, mesmo com a companhia de Margareth e Sophie durante todo o dia, lá no fundo, algo estava incompleto em meu tempo. O que me fazia passar a maior parte do tempo na biblioteca, enquanto Marg sequestrava Sophie e a forçava andar pelas ruas de Paris, era um fato que os livros me distraíam mais do que elas, apesar dos assuntos aleatórios que Marg propunha.
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  — O Conde de Monte Cristo. — sussurrei ao ler o nome do livro que estava em minha mão.
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  — Devo dizer que este é o melhor livro entre todos que se encontra nesta biblioteca? — a voz firme e grossa do meu marido ecoou na direção da porta.
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  Senti minha respiração parar de imediato e então soltei um suspiro fundo, me virei em sua direção e sorri de leve, seu olhar intenso em mim continuava o mesmo, não… Parecia ainda mais desejoso em olhar para mim.
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  — Levarei em consideração sua sinceridade ao ler. — desviei meu olhar dele por um momento e voltei para o livro. — Quando chegou?
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  — Não tem muito tempo, gostaria de ter vindo com você. — ele deu alguns passos até mim de forma tranquila e lenta, mas sentia sua pressa em se aproximar. — Espero que tenha se divertido.
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  — Eu não fiquei sozinha, já foi um começo…. — pensei por um instante no que havia dito. — Bem, agradeço por não se importar com a presença da Marg, sei que Sophie é minha dama de companhia, mas minha irmã também veio…
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  Eu não estava muito atenta a sua aproximação, ao tentar encontrar a explicação certa se realmente me diverti ou não nestes três dias sem ele, até que ele me beijou de surpresa sem que eu terminasse de falar. E ali estava o complemento, não era somente seu beijo intenso e doce, nem a forma como envolvia seus braços em minha cintura como demonstração de segurança, mas o conjunto de tudo o que acontecia quando ele estava presente me fazia sentir mais completa.
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   era um dos motivos pelo qual eu era ainda mais grata a Deus pela minha vida. Um casamento com um burguês, que significava uma maldição para muitas das garotas que um dia se nomearam minhas amigas, desde o primeiro dia havia se mostrado uma bênção que talvez eu não fosse merecedora. Logo que meu coração acelerou ainda mais com o gosto do seu beijo, senti uma lágrima se formar no canto do meu olho, me fazendo afastar dele.
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  — Algum problema? — perguntou ele um pouco preocupado.
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  — Não. — me virei de costas para ele e limpei rapidamente aquela lágrima. — Estou bem.
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  — Não deveria esconder seus sentimentos de seu marido. — insistiu ele ao segurar de leve em minha mão. — Bons ou ruins.
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  — Não quero lhe preocupar. — sorri de leve. — O único sentimento que tive foi… saudade.
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  — Tenha a certeza de que este sentimento é recíproco. — sussurrou ele me envolvendo ainda mais em seus braços.
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  Nem mesmo terminei e logo ele me abraçou, foi confortável sentir seu perfume e ouvir os batimentos acelerados do seu coração, cada pequeno detalhe de descobria dele era uma conquista para quem não sabia nada sobre o próprio marido.
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– x –

  — Estamos de fato muito honrados por ter aceitado nosso convite. — a senhorita Belle, filha do conde Remy Chermont, abriu um sorriso largo mantendo seus olhos em , direcionando seu comentário de forma singular.
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  — Winchester. — disse o conde Remy ao se aproximar com uma taça de champanhe em sua mão. — Finalmente, esta é a primeira vez que aceitas um convite para um jantar de recepção.
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  — Só aceitei desta vez para que pudesse ter a oportunidade de conhecer minha esposa. — voltou seu olhar para mim. — Lady Winchester.
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  Senti uma certa satisfação em sua voz assim que pronunciou seu sobrenome.
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  — Oh, madame. — conde pegou de forma respeitosa em minha mão e deu um suave selinho, cortesia vinda do charme dos franceses. — Me sinto honrado em poder conhecer-te, a tal famosa lady .
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  — Famosa? — olhei para um tanto curiosa.
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  — Vamos omitir algumas partes. — manteve seu olhar suave, voltando-o para o conde Remy.
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  — Oh… Oui, como quiser. — o conde se colocou um pouco mais sério e voltou seu olhar para Marg. — E quem é esta mademoiselle?
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  — Esta é Margareth, minha irmã caçula. — respondi prontamente, ainda intrigada.
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  — Prazer, meu lorde. — Marg fez uma breve reverência.
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  — Oui, prazer.
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  — E esta é Sophie, minha dama de companhia. — completei apresentando a Sophie, que reverenciava em silêncio.
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  — Uma dama de companhia. — Belle desviou seu olhar de surpresa de para mim, aquilo já estava começando a me incomodar.
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  — Como já viram, esta é minha bela e doce Belle, minha caçula e aquele boêmio ao fundo a jogar sinuca, é meu filho Pierre.
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  — Tens uma bela família, meu lorde. — elogiei de forma cordial.
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  — Agradeço, são muito bem vindas em minha casa. — conde Remy estendeu a mão, para que adentrássemos um pouco mais o pequeno salão. — Espero que se divirtam esta noite.
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  Diversão… Não diria ao certo se conseguiria me divertir, com os constantes olhares que Belle lançava em de forma pretensiosa, o que, ao longo da noite, passou a me deixar ainda mais desconfortável. Porém, ao contrário de mim, Margareth parecia mesmo estar se divertindo ao conhecer algumas jovens da nobreza francesa, até mesmo arriscou a aprender a jogar sinuca, algo totalmente fora de nosso cotidiano.
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  — Se Evelyn visse isso — sussurrei observando minha irmã —, certamente mataria-me.
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  — Sua madrasta parece ser uma pessoa de difícil convivência. — comentou Sophie.
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  — Difícil ainda seria um adjetivo suave para ela. — suspirei fraco. — Aquela mulher foi o pesadelo da minha infância.
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  — Ela realmente não demonstra muito afeto por você. — admitiu Sophie de forma discreta. — Pude observar isso nos chás que participei.
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  — Acho que esta falta de demonstração só não é vista por meu pai. — desviei meu olhar para a janela ao lado. — Entretanto, isso não me afeta mais.
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  — Acredito que este olhar triste não seria por causa do que sua madrasta pensaria sobre o comportamento de vossa irmã neste jantar. — Sophie realmente era perspicaz em suas suposições.
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  — Observou bem, meu desconforto está sendo gerado por outro motivo. — engoli seco ao lançar novamente meu olhar para Belle que havia se aproximado propositalmente de . — Creio que não estou me sentindo bem.
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  Me encostei de leve na parede para manter o equilíbrio de meu corpo, talvez minha mente não estivesse preparada para tal situação, talvez eu nem imaginasse que em algum momento poderia por menor que fosse a intensidade, sentir ciúmes do meu marido. Principalmente por começar a considerar que a senhorita Belle o conhecesse a mais tempo que eu.
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  — Minha lady? O que está sentindo? — Sophie pegou em minha mão me fazendo apoiar sobre seus ombros.
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  — Eu…. — respirei fundo. — Não sei, como se o ar estivesse sendo tirado de mim a força…
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  Antes que eu pudesse pedir para que Sophie me tirasse daquele lugar, já surgiu em meu lado e, me pegando no colo, tirou-me daquele ambiente que me causava mal. Um tanto quanto surpreendente para mim, porém um gesto assim somente poderia ser esperado de um burguês.
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  — , não deverias…. — sussurrei.
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  — Logo chegaremos ao lugar que deseja estar. — disse ele me interrompendo.
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  Assim que me colocou dentro da carruagem, me acomodei adequadamente e tentei ouvir as ordens que ele dava a Sophie do lado de fora, não demorou muito até que ele subisse. Encostei minha face na janela da outra lateral e fiquei olhando para rua, não sabia ao certo o que poderia dizer em explicação ao meu mal estar, seria tolo dizer que era emocional devido a uma crise de ciúmes.
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  — Patel, leve-nos um pouco de chá. — ordenou assim que entramos na mansão e fomos recebidos pelo mordomo.
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  — Como desejar, senhor. — ele assentiu já se retirando em direção a sala de jantar, por onde dava passagem para a cozinha.
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   me guiou até o primeiro quarto principal, considerado não meu, mas sim, nosso. Pois, diferente dos casamento tradicionais, meu casamento não era nada tradicional e ele testificava isso, ao insistir que deveríamos dormir no mesmo quarto.
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  — Agora pode me dizer. — disse ele com tranquilidade ao me ajudar a sentar na cama.
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  — Dizer o quê? — o olhei um pouco confusa.
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  — O que estava lhe perturbando? — seu olhar se intensificou mais, como se analisasse cada movimento e expressão minha.
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  — Poderia algo me perturbar? — retruquei sentindo o desconforto voltar.
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  — Acredito que tenha ficado desconfortável com algo, seu olhar estava triste e seu sorriso, um tanto quanto artificial. — ele foi direto e descritivo, realmente me conhecia melhor que eu mesma.
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  — Conseguiu perceber tudo isso? — desviei meu olhar para a porta, sentindo uma movimentação ao lado de fora.
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  Logo dois toques na porta soaram.
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  — Entre. — disse mantendo seu olhar em mim.
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  — Senhor. — Patel entrou rapidamente, parecia reconhecer na voz de que deveria ser preciso.
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  Assim que ele deixou a bandeja com o chá na mesa de canto, saiu em silêncio, nos deixando novamente a sós, tudo ocorrendo com aquele olhar fixo em mim.
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  — Não vai mesmo dizer? — insistiu ele. — Ou prefere que eu suponha?
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  — Belle Chermont. — um nome e muitos significados.
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  — Como eu esperava. — sussurrou ele num tom que me permitisse ouvir. — O que sua mente fez parecer?
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  — Não me pareceu nada, mas fiquei desconfortável por ver que o olhar dela estava sempre em você. — admiti sem receios.
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  — E o meu olhar estava onde? — perguntou ele tranquilamente.
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  Respirei fundo me mantendo em silêncio.
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  — Diga. — ele se aproximou de mim e segurando minha mão me fez levantar da cama. — Permitiu-se ficar sem equilíbrio, por estar preocupada com uma pessoa que olha para seu marido, por que fizeste isso?
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  — , eu…
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  — Não importa quem está olhando para mim, o que importa é para quem eu estou olhando. — a firmeza em sua voz estremecia meu interior e minha insegurança.
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  — Peço que somente releve o que lhe causei esta noite. — me senti um pouco envergonhada.
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  — Não me causaste nada, não gosto de festas, somente aceitei ao convite, pois vi o quanto vossa irmã ficou empolgada, então percebi que aceitaria ir para deixá-la mais alegre. — ele acariciou meu rosto. — Para ser sincero, o melhor lugar para eu estar é aqui, com você em meus braços.
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  Ele me puxou para mais perto e me envolveu em seus braços, me abraçando de forma que me transmitia ainda mais segurança e carinho, com sua leve mão acariciando meu cabelo.
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“Por causa de você, meu coração é colorido,
No mundo em preto e escuro,
No momento em que tento fechar meus olhos,
Você faz minha vida colorida.”

– Colorful / SHINee

10. Evanesce

  Limerick – Verão de 1847

   ver.:

  Já havíamos completado pouco mais de quatro meses de casados, era a estação mais quente do ano, porém, em raros momentos, eu sentia uma certa frieza rondando minha vida. Isso se iniciou assim que recebi o convite formal para o noivado de Freya, em um papel branco com letras douradas e bem adornadas, o nome de seu noivo ainda era uma incógnita, porém, a estranheza veio ao ver que o evento seria recepcionado no castelo de Meagher, em Limerick.
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  A princípio percebi que um desconforto pairou na face de quando leu o convite, porém, não havia nenhum motivo para recusar nossa presença, pelo contrário, Freya era minha irmã e minha presença era demais necessária. O ponto mais crítico e assombroso foi o fato do meu marido ter que se ausentar, por uma semana teria que resolver alguns assuntos em Nottinghamshire, onde ficava os terrenos que sua família criava animais.
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  Aquela ausência significava que eu ficaria uma semana em Limerick, algo que de alguma forma o perturbava visivelmente, mas seu cavalheirismo era maior em relação a não me manter afastada de minha família. Não era somente ele que ficaria frustrado com a distância, era um fato que havia uma parte do meu passado em Limerick, porém, meu presente com importava bem mais para mim.
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  — Ainda me lembro da última vez que estivemos aqui. — comentou Marg sentada ao meu lado na carruagem.
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  — Sim, o dia que seria meu noivado com sir Ulrich e acabou sendo o anúncio do meu casamento com . — dei um suspiro ao me lembrar nitidamente daquela noite.
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  — Verdade, todos fomos pegos de surpresa. — Marg me olhou. — Papai foi um tanto direto ao dizer que você estava prometida ao , mesmo sem lhe perguntar se queria.
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  — Talvez ele já imaginasse que eu aceitaria. — desviei meu olhar para a janela, olhando para o sol que já se punha atrás das colinas do campo. — Somente hoje percebo que realmente não sentia algo forte por Ulrich, que vale-se lutar naquela época.
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  — Mas, você teria coragem de falar não, minha lady? — Sophie que estava sentada em nossa frente, me perguntou em um tom curioso.
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  — sempre teve coragem para enfrentar nosso pai e estabelecer seus sentimentos. — respondeu Marg prontamente com um leve sorriso nos lábios. — Gostaria de ser assim.
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  — Marg, nem sempre dizer ‘não’ é o melhor caminho, mas estou feliz por ter dito ‘sim’ ao . — a olhei e sorri junto. — Deixemos o passado para trás, de fato, também estou curiosa para saber o motivo pelo qual o noivado será feito no castelo dos Meagher, entretanto, não me importo mais com Ulrich e seu destino.
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  — Pois eu já suspeito do motivo. — disse Marg.
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  — E qual seria?
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  — Sabes que a Lewis Castle está em ruínas de tão vazia e sem adornos, quase todas as nossas obras de arte já foram vendidas, somente restam lá dois quadros que são sua herança da família de sua mãe. — explicou Marg num tom amargurado. — Tenho certeza que o orgulho do papai não o deixaria fazer nenhuma recepção em nossa casa.
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  — Faz sentido e além do mais, o falecido pai do conde sir Ulrich era um grande amigo de nosso pai, talvez seja por cavalheirismo que esteja sendo planejado neste lugar. — concordei.
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  — Pelo menos poderemos estaremos em um lugar que conhecemos. — disse Marg empolgada. — Não vejo a hora que poder andar a cavalo novamente, tivemos que vender os nossos.
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  — Hum…. — desviei meu olhar para a janela. — Espero ser bem recebida, após todo aquele constrangimento.
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  — Ah, tenho certeza que irá, você é casada com o homem mais rico da Inglaterra, acha mesmo que vão te maltratar? — Marg riu. — Se não for por naturalidade, acredite, será por interesse, já sabemos que todas as pessoas em nossa volta querem sempre agradar o senhor Winchester.
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  — Não sei se devo levar isso como algo positivo ou negativo. — dei um suspiro fraco. — Nunca sabemos quem está sendo sincero e quem está sendo falso, fico feliz que pelo menos a família de não me julga por eu ter me casado inicialmente por dinheiro.
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  — Acho que o argumento de ter sido por dinheiro já foi quebrado há muito tempo, basta olhar em seus olhos para ver o brilho que aparece quando fala o nome dele. — Marg riu. — Está mesmo muito apaixonada pelo senhor Winchester, já é visível.
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  — Acho que sim. — dei um suspiro esperançoso ao sentir a carruagem parar. — Acho que chegamos.
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  Logo o cocheiro abriu a porta para que saíssemos, a mãe de Ulrich já estava ao lado de fora do castelo, bem na entrada, acompanhada de minha madrasta, nos aguardando. Respirei fundo ao desembarcar da carruagem e segui com Marg e Sophie pelo caminho de pedras ornamentais até chegar a elas.
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  — Seja bem-vinda, lady Winchester. — a ênfase que a senhora Lira havia dado ao sobrenome do meu marido me causou um certo desconforto. — Seja bem vinda também Margareth, e quem é esta jovem ao lado?
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  — Esta é Sophie, minha dama de companhia. — respondi mantendo meu tom de voz baixo, porém firme, acho que estava absorvendo um pouco da superioridade que meu marido exalava perto dos nobres.
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  — Uau, dama de companhia. — ela desviou seu olhar para Sophie por um momento e depois voltou para mim. — Pensava que somente a realeza se agraciava com isso.
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  — Foi um singelo presente de casamento do meu marido. — expliquei segurando o sorriso de satisfação que queria sair.
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  — Imagino, o senhor Winchester é muito conhecido em Limerick também. — Lira tentou-me jogar um olhar de desdém, porém, não conseguia.
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  — Bem, quem no Reino Unido não o conhece? — sorri de leve. — Ainda assim, agradecemos pela estadia, tenho certeza que ficarei muito confortável em seu castelo, mas devo anunciar que só poderei ficar enquanto o senhor Winchester estiver longe.
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  — Então, ele não se hospedará aqui? — Evelyn me olhou curiosa.
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  — Como sabe, ele possui suas próprias propriedades, onde quer que necessite. — expliquei tranquilamente. — Somente permitiu que ficasse no castelo de Meagher para que pudesse estar perto de minha irmã em um momento tão importante.
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  — Não é surpreendente saber que ele tenha alguma propriedade em Limerick. — Lira desviou seu olhar para Evelyn.
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  — Pois quanto a mim, estou demasiadamente surpresa. — ela deu um sorriso forçado. — Se seu pai soubesse, talvez tivesse pedido para que o casamento fosse planejado…
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  — Oh não, isto também foi uma surpresa para mim, afinal, foi adquirida recentemente. — completei, interrompendo ela.
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  — E podemos saber qual propriedade ele comprou? — perguntou Lira.
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  — Ah, digamos que ele não comprou…. — mordi de leve meu lábio inferior.
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  — Não? — Evelyn me olhou curiosa.
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  — Não, bem… A família do marquês James Allen contraiu uma grande dívida com o senhor Winchester, dívidas de muitos anos que não poderia ser paga de outra forma.
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  — Este é o pior lado dos burgueses, sempre querem tudo o que pertence aos nobres. — Lira finalmente conseguiu me lançar aquele olhar de superioridade.
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  Eu engoli seco, pensando por um breve momento se deveria ao não responder à altura de seu projeto de humilhação.
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  — Bem, é uma via de mão dupla. — respirei fundo mantendo meu olhar tranquilo sobre Lira. — Já que os nobres também desejam ter a fortuna dos burgueses.
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  — Ah…. Está me dando uma fome… — disse Marg querendo quebrar o clima de confronto. — Tenho certeza que a senhora nos preparou um delicioso chá, como quando éramos crianças.
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  — Ah sim, claro. — Lira se virou para Marg e sorriu. — Venham, os servos irão acomodar suas bagagens nos devidos quartos. — Lira se voltou para mim. — Como não sabíamos que traria uma serviçal, espero que não sinta desprezo se ela ficar na ala da criadagem.
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  — Está tudo bem, lady Meagher, sou somente uma criada. — Sophie manteve sua face levemente abaixada em forma de respeito.
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  — Pois eu gostaria que Sophie fosse instalada no quarto ao lado do meu. — intervi sem o menor receio.
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  Senti todos os olhares virem de encontro a mim, porém, mantive meu olhar em Lira, acho que estava sendo divertido a confrontar em sua própria casa.
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  — Minha lady? — Sophie me olhou desacreditada.
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  — Tenho certeza que com mais de duzentos quartos neste castelo, não haveria problema, não é mesmo, lady Lira? — dei um sorriso pretensioso.
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  — Claro que não. — ela deu um sorriso forçado. — Não queremos causar nenhum desconforto em sua estadia, mandarei a governanta cuidar disso pessoalmente.
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  — Agradeço a gentileza. — retribui com uma sorriso singelo, daqueles que sempre fazia meu pai se lembrar de minha mãe.
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  — Lady . — disse uma voz masculina que bem conhecia, vindo de trás de mim. — A quanto tempo.
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  Era a voz de Ulrich, em quem estive parte de minha vida solteira fascinada, quem um dia sonhei que me casaria e teria filhos, era algo de meu passado que há muito havia decidido esquecer, mas como poderia esquecer completamente dele, já que me salvara de um afogamento quando criança. Respirei fundo de forma discreta e me virei com leveza em sua direção, logo meu corpo paralisou ao ver Freya ao lado de braços dados com ele, como um casal feliz.
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  — Sir Ulrich…. — voltei meu olhar para minha irmã que dispunha de uma sorriso de satisfação como se tivesse vencido algo ou alguém. — Boa tarde, Freya.
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  — Olá, . — o olhar de Freya exalava vitória. — Fico feliz por ter vindo.
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  O que me fazia de fato constatar que o noivo de Freya era ele, pior, lembrar de como sua face superior estava quando anunciou que se casaria. Agora estava entendendo porquê a pressa, o noivado seria celebrado formalmente no sábado à noite e logo pela manhã teríamos a cerimônia na catedral da cidade. Senti até mesmo minha face ficar rígida e imóvel, meu olhar não conseguia se desviar dos braços deles que estavam entrelaçados.
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  — Nos sentimos honrados por voltar de Paris só pelo nosso casamento. — Ulrich parecia sem graça com a situação, por certo deve ter entendido que eu não sabia que ele era o noivo. — Soube que esteve todo este tempo lá com o senhor Winchester.
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  — Sim, Paris também é bela no verão, mas após quatro meses longe, já estava sentindo falta de casa, Londres, sim, é o melhor lugar para mim. — expliquei ponderando minha voz e tentando achar equilíbrio interno. — Além do mais, não poderíamos prolongar ainda mais nossa lua de mel, o senhor Winchester tem muitos negócios.
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  — Por mim, teríamos ficado ainda mais. — comentou Margareth sem nenhum pudor. — Sua casa em Paris é como um sonho de verão, principalmente por causa da vista.
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  — Vejo que se divertiu muito, pequena Margareth. — Ulrich deu um breve sorriso de canto, mantendo seu olhar em mim. — Paris é realmente mágica.
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  — Sim, fomos convidados a todos os bailes e recepções organizados durante esse tempo, apesar de e o senhor Winchester não aceitarem participar de todos. — ela deu um suspiro frustrado.
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  — Ainda assim conseguiu se divertir, Marg. — a olhei com repreensão.
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  — Desculpe-me, sim, me diverti muito mesmo. — ela olhou para Freya. — E vocês, já escolheram onde passarão a lua de mel?
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  — Não nos olhe assim, pois não a levarei como . — ela se agarrou um pouco mais a Ulrich. — Quero minha privacidade.
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  Ulrich deu uma risada baixa e se afastou um pouco dela, beijando-lhe a mão.
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  — Adoraria desfrutar do chá com a belas damas, mas tenho outro compromisso agora. — ele se voltou para mim. — Espero que possa se acomodar confortavelmente, deve estar acostumada com lugares mais luxuosos oferecido pelo senhor Winchester.
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  — Agradeço a preocupação. — fiz uma breve reverência.
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  Ele se afastou de nós, em direção a carruagem da família que já o aguardava pronta.
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  — Bem, vamos ao nosso chá. — disse Lira estendendo a mão para a direção onde a mesa já estava posta nos esperando.
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  A seguimos pela lateral o centro do jardim, nos acomodamos devidamente, apesar de Sophie ter que ficar de pé um pouco mais afastada, o que me deixou um tanto incomodada pela forma que tratava minha dama de companhia.
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– x –

  — Está mesmo tudo bem? — perguntou Marg ao entrar no meu quarto.
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  — Sim. — eu me encolhi um pouco, estava encostada na parede ao lado da janela, olhando para o jardim. — Não deveria estar tão preocupada, tivemos uma longa viagem até aqui, deveria estar descansando.
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  — Eu sei, mas não consegui deixar de pensar em sua cara de surpresa. — ela fechou a porta e deu alguns passos para se sentar na cama. — Confesso que também fui pega de surpresa, mas já era de se esperar algo assim…
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  — Não consigo entender, como papai pode fazer isso. — segurei todas as lágrimas que queria rolar em minha face. — Não me importo que seja o Ulrich, me importo que não tenham me contado, o pior foi o olhar de vitória, de superioridade…
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  — Freya e sua inveja. — Marg bufou. — Não consigo acreditar nisso, pelo menos você tinha mesmo o direito de ser a primeira a saber.
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  — Não pensarei mais sobre isso, pelo menos até amanhã, já que terei que conviver com ambos juntos durante esta semana. — voltei meu olhar para minha irmã. — Nunca desejei tanto que o tempo passasse rapidamente.
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  — Você vai ficar bem? — Marg se levantou da cama e veio me abraçar.
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  — Tentarei. — retribui o abraço e sorri de leve. — Agora já para cama, Marg.
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  — Boa noite.
  — Boa noite.
  Eu a acompanhei até a porta.
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  Antes de me deitar, certifiquei que a porta estava devidamente trancada para não ter nenhuma visita indesejada, seja por Freya ou pelo próprio sir Ulrich. Assim que meu corpo tocou o fino lençol, senti como se um peso tivesse saído de mim e logo fiquei relaxada, isso possibilitou para que meu sono não demorasse a chegar.
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  Os dias que seguiram foram monótonos, quando não estava em meu quarto lendo o livro que havia me indicado, estava na biblioteca folheando outros livros para passar o tempo. Havia momentos em que me esquivava de Ulrich, que sempre tentava orquestrar um encontro a sós comigo, em outro momento, me sentia entediada com os assuntos das mulheres na mesa de chá ou na sala de música.
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  Pior ainda eram os momentos em que Freya sentia sua necessidade habitual de demonstrar que sabe tocar melhor que eu, apesar de sempre falhar miseravelmente.
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  — Graciosa como sempre. — elogiou Lira ao aplaudir.
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  — Agradeço, minha lady. — Freya sorriu com satisfação.
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  — Você toca melhor do que ela. — cochichou Marg que estava ao meu lado, me fazendo segurar o riso.
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  — O que disse, Margareth? — Evelyn a olhou atravessado.
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  — Nada mamãe, só pensei que Freya tocaria algo como Mozart. — respondeu Marg segurando o riso.
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  — Todos sabemos que Freya tem dificuldades com Mozart. — expliquei de forma natural.
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  — Não deveria. — retrucou Marg. — Até mesmo um burguês sabe tocar.
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  — De quem está falando? — Freya se levantou do bando que sentava em frente ao piano.
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  — Margareth, não deveria dizer tal coisa. — olhei para Marg tentando repreendê-la, mas por dentro estava aplaudindo sua ousadia. — Não deve espalhar a intimidade dos outros.
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  — De quem estão falando? — sir Ulrich apareceu da porta e me olhou curioso, dando alguns passos para mais perto de onde Freya estava.
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  — Nada de mais importante. — Freya sorriu.
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  — Como não? — Marg o olhou. — Só estava falando que o senhor Ulrich sabe tocar Mozart.
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  Eu senti a afronta que aquelas palavras causaram não somente em Freya, mas em todos os outros presentes.
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  — Ele sabe… Não acredito que um burguês consiga ser assim tão suave com a teclas de um piano. — Lira me olhou.
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  — Você se surpreenderia ao ouvi-lo tocar. — comentei tranquilamente.
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  Logo o mordomo entrou na sala.
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  — Sir Ulrich, minha ladies. — ele se curvou de leve. — Anuncio meu lord, conde Lewis e o senhor Winchester.
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  Meu olhar se voltou para porta automaticamente, assim que ele apareceu meu coração acelerou de forma inesperada.
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  — Agora vai ficar mais interessante. — sussurrou Marg.
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  — Meus cumprimentos, senhores. — sir Ulrich se aproximou deles e os cumprimentou com um aperto de mão.
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  Mesmo tendo aceitado o cumprimento, o olhar do meu marido estava fixo em mim como sempre, eu que me sentia ainda tímida com aquela intensidade no olhar, agora estava sentindo um conforto inexplicável. Como esperado, em menos de vinte minutos de conversa, , que mantinha seu olhar em mim todo aquele momento, se retirou da sala, um sinal de que queria estar sozinho em minha presença.
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  Eu me levantei discretamente e segui em direção à porta, ouvindo alguns cochichos vindos de trás. Caminhei por toda a extensão do corredor até chegar a escada principal, lá estava ele, olhando o grande estandarte na parede com o brasão dos Meagher bordado com fios de ouro.
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  — Oi. — disse quase em sussurro. — Está tudo bem?
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  Ele deu alguns passos até mim e pegou em minha mão.
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  — Agora estou melhor. — ele sorriu de leve. — Perdoe-me por todo este tempo longe.
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  — Infelizmente, devo me acostumar com suas breves ausências, agradeço por sempre ter uma companhia.
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  — Hum. — ele moveu seu olhar para o carpete do chão.
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  — Claro que nenhuma companhia se compara à sua. — minha voz saiu tão suave.
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  Ainda segurando em minha mão, entrelaçou nossos dedos e se virou para a escada.
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  — Que tal um passeio? Sei que gosta de jardins. — convidou ele.
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  — Seria um prazer passear com meu marido. — respondi sorrindo de leve. — O jardim do castelo do Meagher é lindo.
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  — Não estava me referindo a este jardim. — ele me olhou tranquilamente. — Estava me referindo ao jardim que construí para você.
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  — Para mim? — o olhei surpresa.
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  — Sim. — ele sorriu de canto e respirou fundo. — Vamos.
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  Assenti, me deixando ser guiada por ele, ao chegarmos na entrada do castelo, nossa carruagem já nos aguardava. Nos acomodamos e silenciosamente seguimos o caminho até o castelo que ele havia comprado, mesmo ainda passando por reformas internas, mantinha sua vontade de se instalar em algo que é dele. Assim que a carruagem parou e ele me ajudou a desembarcar, meu coração paralisou e pulsou mais forte.
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  Era lindo o jardim que compunha a entrada do castelo, ele segurou minha mão entrelaçando nossos dedos e começou a me guiar em direção a entrada. O jardim era como um leve desenho de formas em arabescos, com os canteiros precisamente posicionados da forma para que o caminho de pedras ornamentais traçassem esse desenho.
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  — Camelia…. — disse ele tranquilamente. — São suas flores favoritas.
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  — Não me lembro de ter comentado sobre isso com…. — sorri de leve, me lembrando vagamente de uma conversa que tive com sua mãe. — A senhora Poppy lhe contou.
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  — Minha mãe é uma boa pessoa para contar informações. — ele riu baixo. — E margaridas são as flores preferidas da sua mãe.
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  Senti um breve arrepio em meu corpo, uma emoção tomou conta do meu coração de maneira surpreendente, poucas pessoas sabiam daquilo, ou melhor, apenas eu e meu pai sabíamos. era mesmo uma caixinha de surpresa, aquela havia sido a mais intensa de todas, ele realmente me conhecia além do que eu poderia saber.
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  — Presumo que desta vez tenha sido meu pai. — sorri naturalmente, sentindo uma paz grande ao olhar aquele jardim.
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  — Sim. — assentiu. — Achei que gostaria de ter algo que lembrasse sua mãe aqui, já que ela nasceu em Limerick.
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  — Você sabe tantas coisas sobre mim. — observei. — Gostaria de saber algo a mais sobre você.
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  — Saber que eu te amo não lhe é suficiente? — ele parou e me olhou. — O que mais quer saber?
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  — Como sabe tanto sobre mim? Quando exatamente me viu pela primeira vez? A senhora Poppy menciona tanto sobre seu amor por mim e sua vontade de se casar quando retornou a Londres aos dezenove anos, fico me perguntando sobre isso. — suspirei fraco. — Às vezes sinto que há algo mais profundo que nos une.
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  — Sim, o nosso amor. — ele sorriu. — Sou grato a Deus por nosso amor.
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  Ele foi se aproximando pouco a pouco de mim, até que seus lábios tocaram os meus. Senti meu corpo estremecer de imediato assim que ele envolveu seus braços em minha cintura, o beijo de ainda me deixava sem direção e totalmente entregue, seja em qualquer momento ou lugar que acontecesse.
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  — Minha lady. — Sophie se aproximou de mim discretamente e me entregou um bilhete.
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  Eu peguei sem que Margareth, que estava ao meu lado, percebesse.
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  — Distrai minha irmã, por favor. — sussurrei para ela, que assentiu sem problemas.
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  Olhei para a direção em que estava, naquele momento sua atenção se voltava para os nobres que meu pai o apresentava, de fato sua presença estava sendo o destaque da noite. Me aproximei mais das laterais, o grande salão estava cheio de nobres convidados, então seria fácil conseguir me afastar sem que percebessem. Assim que cheguei ao corredor, senti uma mão segurar a minha e me puxar.
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  — O que…. — tentei me soltar mas sem sucesso.
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  — Não lhe farei nenhum mal. — a voz era de Ulrich.
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  — Para onde está me levando?
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  — Você verá.
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  Subimos alguns lances pela escada dos serviçais, até que entramos na biblioteca.
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  — Sir Ulrich, tem noção do que está fazendo? — olhei para o bilhete que estava em branco. — Presumo que isso lhe pertença.
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  — Perdoe-me por meu impulso. — ele pegou o bilhete. — Mas lhe devo mais desculpas.
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  — Não me deve nada, sir Ulrich. — o olhei.
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  — Eu realmente pensei que soubesse sobre eu e Freya. — seu tom estava um pouco mais baixo. — Sinto que lhe devia algumas explicações, já que…
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  — Repito que não me deves nada. — respirei fundo. — Sei que tivemos algo no passado, mas não estamos mais no passado, hoje sou uma senhora casada, e você se casará com Freya.
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  — Me casar com ela não significa que meu coração pertença a ela. — ele segurou em minha mão. — Ainda penso em você.
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  — Sir Ulrich, pedirei somente uma vez. — respirei fundo segurando sua mão, para que soltasse a minha. — Esqueça o passado, seu coração deve pertencer somente a Freya, assim como seus olhos devem estar na direção dela.
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  — Ulrich, eu…. — Freya adentrou na biblioteca de forma repentina. — .
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  Me afastei dele mais que depressa para que ela não imaginasse coisas erradas.
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  — O que está havendo aqui? — seu olhar fuzilante para mim era intenso.
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  — Não está havendo nada. — Ulrich fez uma breve reverência com a face e saiu da biblioteca.
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  — Não deveria estar com seu marido, ? — perguntou ela dando dois passos para frente.
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  — Não gosto de participar de conversas políticas ou econômicas, além do mais, isso não é assunto para uma dama. — a olhei com tranquilidade. — Temos que concordar que meu marido está sendo o centro das atenções de todos os convidados, em seu próprio noivado, devo pedir desculpas por isso?
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  — Não, ele tem um singelo crédito neste dia. — ela deu um sorri de satisfação. — Já que foi ele quem deu dinheiro ao papai pelo meu dote, hum… Devo agradecer por isso?
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  Meus punhos se fecharam automaticamente, senti uma forte raiva pairar em meu interior.
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  — Tenha uma boa noite. — Freya saiu rindo da biblioteca.
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  Passei um longo momento paralisada remoendo todas as palavras que Freya havia dito, era o responsável pelo dote e provavelmente sabia que o noivo era Ulrich, logo, me lembrei da visita que meu pai fizera no dia seguinte a minha noite de núpcias. Não era exata para me visitar ou por preocupação, certamente sua visita foi para obter dinheiro para o dote de Freya.
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  — Minha Lady? — uma voz me despertou de meus pensamentos, era Sophie.
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  — Sim? — a olhei respirando fundo. — Algum problema?
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  — Estava à sua procura, o senhor Winchester…
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  — Entendi. — tomei impulso para a direção da porta.
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  — Está tudo bem? — perguntou ela.
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  — Não, mas ficarei bem.
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  Dei um sorriso forçado e segui em direção ao corredor.
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   já nos aguardava perto da carruagem, meu pai estava ao seu lado, ambos pareciam falar sobre assuntos rotineiros. Me aproximei em silêncio deles e me despedi do meu pai, entrei na carruagem, primeiro sendo seguida por Sophie, e pedi para que se sentasse ao meu lado. entrou instantes depois e mesmo sabendo que seu olhar ficaria em mim por todo o caminho, mantive meu olhar direcionado para a janela e minha atenção bem distante dali.
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  — Está tudo bem? — perguntou assim que adentrou o nosso quarto.
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  — Por que não estaria? — eu que estava de frente para o espelho olhei seu reflexo.
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  — Talvez pela sua voz não estar normal, seu olhar distante…. — ele respirou fundo. — Está assim por Freya estar se casando? Ou pelo noivo ser ele?
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  — Talvez esteja assim por ter sido a última a saber que meu marido foi o financiador de tudo. — não resisti em dizer o real motivo. — O que sinto não é referente a sir Ulrich.
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  — Pode realmente confirmar isso? Posso acreditar que se não fosse ele a se casar com Freya, também reagiria assim?
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  — O que está querendo afirmar com isso? — me virei e o olhei.
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  — Que ainda não o esqueceu, por isso está agindo com tanta indiferença a mim. — sua voz tinha um pouco de amargura. — Mas como eu poderia competir, mesmo que tenhamos nos casado, continuo sendo um mero burguês, não é mesmo?
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  — Como podes insinuar tal coisa? — um sentimento de chateação tomou meu coração. — O que me deixou assim não foi pelo fato dele ser o noivo, o que me deixou assim foi saber que escondeste de mim por achar que meu sentimento por você é leviano e frágil, vejo que ainda sente que o que nos uni é somente seu dinheiro, sinto-me por completo indignada por ainda pensar assim.
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  — Perdoe-me, não queria lhe causar este tipo de sentimento. — ele deu alguns passos até mim estendendo sua mão para me tocar, porém recuei.
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  — Não sei se consigo lhe perdoar, não neste momento. — me virei em direção à janela. — Preferiria que não me tocasse durante este tempo.
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  — Como desejar. — sua voz ficou seca e áspera.
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  Instantes depois ouvi o som da porta bater, fazendo meu corpo se arrepiar e minha alma estremecer. Senti como se estivesse atiçado o pior lado do meu marido, entretanto, estava chateada demais para me importar com os sentimentos dele. Respirei fundo e mantive meu olhar no jardim ao lado de fora, mesmo que o dia seguinte fosse algo especial para meu pai e os outros, eu não seria tão cordial assim e não colocaria meus pés naquela igreja.
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Não sei por quê (não sei por quê)
Me diga por quê (me diga por quê)
Por que o amor acaba?
Por que as coisas
Desaparecem?
Tão bonito?
É apenas um sonho,
O amor é como um sonho

– Evanesce / Super Junior

11. Islands

Kyoto (Japão) – Inverno de 1843

   ver.:

  Assim como o planejado, o navio atracou em um porto desconhecido ao norte de Hyogo, o plano dos marujos seria saquear as cidades do litoral, já o capitão me levou até uma trilha secreta que estava entre os bosques. Nem mesmo os outros sabiam sobre aquela trilha, pois fazia parte do pergaminho que ele havia me entregado.
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  — Chegamos, Mascote. — disse o capitão Salazar. — A partir desta trilha, Kyoto está à leste daqui, basta somente seguir de acordo com o pergaminho.
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  — Obrigado por tudo, capitão — disse quase em sussurro.
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  — Você fala? — o capitão me olhou surpreso e logo riu exageradamente. — É por isso que ganhou minha confiança, continue sábio assim que ganhará o mundo.
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  Assenti com a face, durante todo aquele tempo com os piratas aprendi que ficar em silêncio era uma qualidade útil, além de me fazer mais observador, minha audição havia se tornado bem mais aguçada que o normal. Porém, toda a minha evolução ao longo dos anos não estava relacionado ao poder, só havia um motivo para eu querer ser uma pessoa importante e respeitada na sociedade, ou melhor, uma palavra determinava todo o meu esforço: .
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  Eu havia perdido minhas poucas economias quando fui levado ao navio dos piratas, nesses meses que estive com eles não consegui juntar muita coisa e tudo o que possuía além daquele velho pergaminho que já havia decorado totalmente, estava em uma trouxa de pano juntamente com um cantil de água. Me despedi do capitão, que voltou pela mesma rota em que viemos, a partir daquele momento eu estava sozinho novamente.
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  Andei por dias, sem saber onde estava e nem exatamente onde chegaria, entre bosques e montanhas, até que decidi sair da trilha principal e pegar o caminho alternativo, que estava indicado com uma fina linha tracejada no pergaminho. Mais dias de caminhada, percebi que até a água do cantil havia acabado, meu corpo quase desidratado não conseguia mais se manter de pé.
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  Em pleno sol que se encontrava bem ao centro do céu, minhas vistas escureceram e logo que meu corpo desabou sobre a terra, perdi a consciência. Fui despertando aos poucos sentindo meu corpo balançar, como se estivesse sendo carregado por algo ou alguém, nem mesmo meus olhos tentaram se abrir e desmaiei novamente. Não sei quanto tempo permaneci desacordado, mas despertei novamente sentindo alguém me dar água de um cantil.
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  — Você está bem agora! — era uma voz feminina, transmitia calma. — Nós cuidamos de você.
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  — Onde estou? — sussurrei abrindo os olhos.
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  Minha visão embaçada foi tomando forma, diante de mim a figura de uma jovem dama surgiu, seus traços orientais de sua face eram mais finos e delicados que as nobres damas de Londres, até mesmo seus trajes eram diferentes e de acordo com o que tinha aprendido, deveria ser uma jovem japonesa. Ela mantinha um sorriso singelo nos lábios, enquanto me olhava com serenidade.
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  Retirando com cuidado o tecido que estava em minha testa e o umedecendo, colocou novamente sobre mim, curiosamente aquilo me fazia sentir refrescância já que minha temperatura parecia elevada além do normal.
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  — Senpai, ele acordou — disse ela assim que um homem entrou na tenda.
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  — Onde estou? — sussurrei novamente tentando me levantar, porém meu corpo ainda estava sem forças.
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  — Nós é que perguntamos, que és? — retrucou ele parando em frente o lugar onde estava deitado.
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  — Meu nome é . — respondi ainda sentindo um pouco de tontura. — O que aconteceu comigo? Quem são vocês?
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  — Eu sou Michimiya — disse a jovem — e este é Daichi senpai, nós te resgatamos na trilha secreta ao oeste.
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  — Trilha secreta? — não conseguia entender o que eles queriam dizer com isso.
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  — Como conseguiu achar aquela trilha? — perguntou o homem de nome Daichi. — O que veio fazer aqui?
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  — Eu tenho um pergaminho que me trouxe até aqui. — expliquei.
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  O homem se afastou.
  — Fique de olho nele, Michimiya.
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  Assim que ela assentiu com a face, ele se retirou. Voltei meu olhar para ela, parecia ser uma pessoa caridosa e gentil, aparentemente estava cuidando de mim, então mesmo que de forma receosa poderia confiar nela.
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  — Michimiya, onde estou? — perguntei.
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  — Estamos no vilarejo Akaashi. — respondeu ela. — Como conseguiu seu pergaminho? Poucas pessoas sabem da nossa localização.
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  — Ganhei de um amigo. — respondi. — Mas, por que este lugar é tão escondido e secreto?
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  — Porque o homem do mundo externo não sabe conviver com nossas riquezas — respondeu um outro homem, um pouco mais velho e de cabelos brancos ao entrar na tenda.
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  — Papai — Michimiya se levantou e o olhou — Daichi foi avisar sobre…
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  — Agradeço sua dedicação, minha filha, mas acho que a partir de agora, nosso hóspede conseguirá se mover sozinho — disse ele num tom de ordem, mas não era para mim.
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  Logo a jovem entendeu aquilo como se fosse um recado para ela, então em silêncio e discreta frustração se retirou da tenda.
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  — é seu nome. — continuou ele e elevando sua mão direita, mostrou estar segurando meu pergaminho. — Isto? Devo presumir que não lhe pertença.
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  — Atualmente sim, mas antes, não. — concordei. — Ganhei de um amigo.
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  — Foi o que presumi, você sabe onde este caminho o leva? — perguntou ele novamente.
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  — Não senhor, só tem um caminho para qual eu quero chegar, não é aqui. — fui claro e um pouco verdadeiro em minhas palavras.
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  — Consegue se levantar?
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  Assenti com a face, mesmo sem saber se realmente conseguiria. Apoiando minhas mãos onde estava deitado, ergui meu corpo e me levantei com um pouco de dificuldade, o senhor continuou me olhando atentamente em cada movimento.
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  — Venha, meu jovem, vamos conversar um pouco — disse ele caminhando em direção à saída da tenda.
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  Assenti com a face o seguindo, do lado de fora me deparei com um lugar encantador, haviam várias tendas montadas pelos arredores, a mistura entre a natureza e as simples construções do homem traziam uma harmonia incomum ao lugar. À direita onde estávamos, haviam alguns arbustos que davam flores e frutos, à esquerda, ao longo do monte, haviam várias plantações do que parecia ser arroz.
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  Me peguei impressionado com tudo o que via ao meu redor, consegui sentir que não somente o lugar era puro e aconchegante, mas as pessoas que ali moravam mesmo eu sendo tão diferente, não me olhavam com preconceito ou superioridade, mas só conseguia enxergar a curiosidade neles.
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  — Presumo que você seja de muito longe — disse o senhor.
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  — Sim, sou, mas tem muito tempo que não volto para casa. — assenti me lembrando vagamente da minha família. — O senhor é o líder deste vilarejo?
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  — Não diria assim…. — ele riu baixo — Porém, sou o ancião mais velho, por isso sinto que devo proteger a todos.
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  — Um lugar tão lindo, deve mesmo ser protegido — concordei — Agora entendo sua palavras sobre as riquezas daqui, um lugar que nenhum ouro pode comprar.
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  Senti o olhar admirado do ancião vir sobre mim.
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  — Você parece ser um jovem muito sábio. — comentou ele. — Acho que pode ficar aqui até estar melhor por completo.
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  — Agradeço por poder ficar.
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  Após algumas horas de longos passeios pelos arredores do vilarejo sendo apresentado para os moradores, acabei descobrindo o nome daquele ancião, o senhor Takashi havia me acolhido com gentileza e eu ficaria naquela mesma tenda sob a companhia de Daichi, que seria responsável por mim. Passei algumas semanas aprendendo um pouco mais sobre a cultura deles, desde o idioma e sua escrita, até a agricultura, era ainda mais fascinante meus momentos de conversa com o senhor Takashi ao pôr do sol.
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  — Então seu desejo é se tornar importante para conquistar esta jovem — concluiu o senhor Takashi assim que terminei de contar sobre minha história.
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  — Sim, meu coração tem batido por ela desde o primeiro momento em que a vi. — confirmei serenamente, enquanto mantinha meu olhar para frente vendo o sol de pôr. — É um dos motivos de ter saído de casa, pertence à nobreza e eu não era ninguém no mundo.
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  — Te conhecendo um pouco mais através desses dias, começo a perceber que ainda é uma criança pura e inocente — disse ele com seu tom suave de sempre.
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  — Criança? — o olhei confuso.
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  — Sim, ainda é uma criança sob o olhar dos gananciosos. — explicou ele. — Espero que seu coração jamais se corrompa pela a ambição das riquezas e do poder, para isso, mantenha sempre seu olhar nesta jovem que te motiva a ser melhor.
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  — Me lembrarei deste conselho, senhor. — me curvei de leve em forma de respeito. — Irei primeiro.
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  Assim que ele assentiu, me afastei indo em direção a Daichi, que já se preparava para fazer sua ronda noturna pelo perímetro dos bosques, eu havia me oferecido para ajudá-lo e, mesmo relutante em aceitar minha companhia, teve que acatar a ordem do senhor Takashi.
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  — Estou aqui, podemos ir agora — disse num tom respeitoso, já que Daichi era o segundo no comando por ser o guerreiro mais forte e corajoso do vilarejo.
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  Ele era considerado um protetor por todos, tão silencioso e observador como eu. Seguimos pela nascente primeiro até chegar ao rio, caminhamos por mais algumas horas entre as árvores do bosque, me afastei um pouco de Daichi ao ouvir um barulho estranho ao sul perto da trilha. Quanto mais próximo do som eu chegava, mais nítido dava para entender que eram vozes de homens, me aproximei de um arbusto e fiquei abaixado observando.
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  — São piratas orientais. — sussurrou Daichi aparecendo misteriosamente ao meu lado. — Não é a primeira vez deles aqui.
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  — Estão bem perto do nosso perímetro, não vamos fazer nada? — perguntei mantendo meu olhar naqueles homens.
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  — Não. Enquanto estiverem longe de nós, ficaremos longe deles. — respondeu mantendo a firmeza em sua voz.
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  Ficamos por um longo tempo observando-os, até que adormeceram, aproveitamos para sair daquele lugar, ao chegar na metade do caminho, eu que estava caminhando na frente, senti Daichi me empurrar forte. Assim que olhei para trás, ele já estava caído e sendo preso por uma armadilha estranha, sua calça de linho estava rasgada e o sangue já se escorria pela roupa.
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  — Vá embora, volte e não deixe ninguém te seguir — disse ele num tom preocupado.
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  — E te deixar aqui? Jamais. — me levantei depressa e indo até ele, comecei a analisar como era feita aquela armadilha. — Eu já vi uma assim antes.
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  — Deixe-me aqui à minha própria sorte. — ele me empurrou novamente. — De certo não valerei mais nada.
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  — Pare de dizer tal coisa, sempre há como reverter algo. — mexi em alguns pinos que compunham a armadilha e desprendendo uma ponta solta, consegui abri-la sem que fizesse algum barulho ou machucasse mais ele. — Vamos agora.
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  O ajudei a se levantar e o fiz se apoiar em mim, tinha que levá-lo imediatamente ao vilarejo, assim, Michimiya com sua sabedoria em ervas, poderia ajudar de alguma forma.
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  — Acho que te devo essa — sussurrou ele, sua cara demonstrava o quanto era forte a dor que sentia.
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  — Você me salvou antes, quando me empurrou. — ri de leve. — Estamos acertados.
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  Assenti, parei por um momento para que ele pudesse descansar, não estávamos muito longe da trilha que levava ao vilarejo, porém Daichi não estava conseguindo andar. O ajudei a se sentar e rasgando uma parte de sua calça, amarrei o tecido na região em que sua perna estava ferida, para estancar o sangue. Meus conhecimentos da medicina eram poucos, mas o básico conseguiria fazer para ajudá-lo.
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  — Onde aprendeu tudo isso? — perguntou ele.
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  — Eu tenho uma vida fora daqui. — disse de forma descontraída. — Passei um tempo com alguns marujos, pude aprender muita coisa.
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  — Perdoe-me — sussurrou ele.
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  — Pelo quê? — o olhei confuso.
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  — Por achar o pior de você. — ele suspirou fraco. — Talvez por ciúmes.
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  — Fique tranquilo, jamais haverá algo entre eu e Michimiya. — o assegurei com confiança. — Meu coração já está ocupado por alguém, mesmo que ela venha não me querer, serei somente dela.
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  — Vejo a sinceridade em seu olhar, desejo que consiga o amor dela — Daichi desviou seu olhar para trás de mim e suas pupilas se dilataram.
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  — Levante-se — uma voz grossa surgiu.
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  Eu me levantei cautelosamente, precisava de uma ideia para mudar aquela situação, se aquele homem tivesse acompanhado, poderia ser um perigo para nós e mais perigoso ainda se eles encontrassem a trilha. Assim que me virei para o homem, fiz um movimento rápido para derrubá-lo, antes mesmo que ele perdesse completamente o equilíbrio, peguei sua espada e cortei sua mão.
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  Era a minha primeira vez ferindo alguém em uma luta, em muitas batalhas que enfrentávamos no mar, o capitão sempre me deixava trancado em sua cabine para que eu não me machucasse, mesmo sendo o melhor em armas de toda a tripulação. Em segundos, os outros vieram e Daichi, mesmo machucado levantou e, com sua força e coragem, ajudou-me a desarmar e ferir todos.
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  Era admirável como Daichi me superava de todas as formas em um manejo com a espada, talvez por seu modo de lutar ser um tanto diferente do meu, entretanto, suas habilidades mesmo machucado não estavam sendo afetadas.
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  — Pela contagem, estão todos aqui. — disse assim que empurrei o último corpo pela colina abaixo, todos estavam feridos e desmaiados. — Analisando agora, acho que sabiam que estavam sendo vigiados.
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  — Talvez, ou deve ter sido pela armadilha — Daichi se escorou em uma grande rocha e colocou a mão na altura da barriga.
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  — Oh, não. — disse ao ver uma ponta de sangue surgir. — Está mais ferido ainda.
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  — Penso em desistir agora — disse ele cambaleando um pouco.
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  — Não vai. — o segurei firme. — Você irá continuar e ainda o verei se declarar para Michimiya.
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  — Acha mesmo que ela aceitará? — ele me olhou, suas pálpebras pareciam pesadas. — Michimiya anda com seu olhar em outra pessoa.
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  — Ela já sabe o que penso sobre isso. — assegurei. — Já disse, ainda quero vê-lo se declarando para quem está em seu coração…
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  Seu corpo desfaleceu antes mesmo que pudesse terminar o que dizia, o joguei em minhas costas e segui em direção à trilha. Uma noite em claro de caminhada, até que cheguei ao vilarejo gritando por socorro, os homens vieram ao meu encontro e sem demora levaram Daichi para a tenda. Meu corpo também desfaleceu no chão, porém permaneci consciente, vi ao longe Michimiya sendo solicitada e correndo para a tenda.
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  Permaneci lá mesmo, na terra onde havia caído, pedindo a Deus para que meu novo amigo sobrevivesse. Assim que Takashi veio até mim, contei a ele tudo o que havia se passado, desde o momento em que saímos do vilarejo até nosso retorno. Ele havia confirmado que não era a primeira vez daqueles homens ali, assim como todas as outras pessoas que já se aproximaram da trilha para o vilarejo, eles estavam à procura das riquezas daquele lugar.
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  — Sua coragem foi admirável. — disse o senhor Takashi ao se aproximar de mim. — Muitos deixariam Daichi para trás.
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  — Não costumo fazer isso. — assegurei. — E ficarei mais aliviado quando vê-lo em segurança novamente.
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  — Mesmo ele te tratando com indiferença todo este tempo, vejo que ainda o respeita e considera — o ancião era sempre direto e sincero em suas palavras, sejam elas quais forem.
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  — Sim, sempre serei. — suspirei fraco. — Além do mais, não queria privá-lo de receber os cuidados de Michimiya.
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  — Ah, sim, todo este tempo que esteve aqui, Daichi sempre lutou para despertar o interesse de minha filha. — ele manteve seu olhar na direção da tenda. — Agora ele terá, me entristece que seja nessas circunstâncias.
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  — A mim também.
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  As horas foram se passando, eu descansei um pouco na tenda do ancião, quando acordei recebi a notícia que Daichi estava bem e já havia acordado. Meu coração se alegrou por isso e logo fui vê-lo pessoalmente.
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  — Você está realmente bem. — disse ao entrar na tenda. — Está pronto para outra aventura.
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  — Por favor, deixe-me mais um pouco aqui. — brincou ele. — Estou em meu melhor dia.
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  — Imagino o motivo. — desviei meu olhar para fora da tenda onde Michimiya estava pegando mais água. — Então se declarou?
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  — Quando pensei que realmente iria morrer — respondeu ele.
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  — E a reação dela?
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  Assim que terminei minha pergunta Michimiya adentrou na tenda.
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  — Meu pai o aguarda lá fora — disse ela ao se aproximar de mim.
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  Assenti em silêncio e me afastei dela indo em direção ao ancião.
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  — Espero que esteja melhor hoje, meu jovem — disse ele.
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  — Sim, senhor.
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  — Venha, quero lhe mostrar algo — disse ele seguindo para o leste.
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  Assenti o seguindo, não sabia ao certo para onde estávamos indo, mas confiava no ancião. Foi uma longa caminhada entre as colinas, até que chegamos a uma escadaria que parecia ainda mais infinita, ao topo uma espécie de templo, que estava em ruínas. Virei meu olhar para trás e contemplei um pouco o horizonte rico de belezas naturais, o ancião me fez esperar sentado por um tempo. Segundo ele, só poderíamos entrar naquele lugar quando a lua surgisse no céu.
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  E assim aconteceu, ao anoitecer, ele acendeu a tocha que havíamos levado e encontrando em uma velha pira, logo o fogo tomou a pira, seguindo por toda a extensão da lateral. Deste modo, adentramos o lugar que já se encontrava totalmente iluminado pelo fogo, meu corpo congelou e minha mente parou assim que coloquei meus olhos em todo aquele tesouro que ocupava o salão principal do tempo.
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  — Um dia eu lhe disse sobre nossa riqueza. — se pronunciou o ancião. — Mas não me referia às belas paisagens que nos rodeia.
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  Agora, sim, eu entendi, principalmente sobre o modo em que mencionava sobre a ganância do homem por ouro e prata, me faz imaginar que todo este tempo em que Takashi me deixou ficar no vilarejo, era um teste para saber se eu era ou não digno de saber sobre a verdade que se escondia naquele lugar.
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A estrada é longa e a água era profunda,
Meus pés estão congelados e houve luz além do oceano,
O tempo flui, mesmo em dias que não são calmas,
Você estava comigo durante todo o meu tempo.”

– Islands / Super Junior

12. Miracles in December

  Derbyshire – Inverno de 1847

   ver.:
  — Minha lady — disse Sophie, ao adentrar a biblioteca —, bom dia.
  — Bom dia — mantive meu olhar na janela, estava observando conversando com meu pai.

  Ainda estávamos brigados, o que era um absurdo segundo as palavras da senhora Poppy, mas eu me mantinha contínua em meu pensamento, não o deixaria tocar em mim até que confiasse por completo em meus sentimentos por ele. Talvez pudesse ser meu orgulho ferido em admitir que estava errada por ter brigado com ele, de fato, Freya ter se casado com Ulrich havia se tornado algo tão insignificante para mim.
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  Entretanto, o que me irritava era sempre me lembrar da forma em que Freya havia mencionado sobre seu dote, isso deixava meu coração congelado de raiva, se me amava mesmo, jamais esconderia algo deste nível de mim.
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  — A senhorita está bastante pensativa esses dias — comentou ela permanecendo perto da porta.
  — Vou aprendendo com a convivência. — disse de forma espontânea me referindo ao meu marido. — Sabe se Margareth já acordou?
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  — Sim, eu vi a senhorita Margareth indo cavalgar com lady Evelyn — respondeu ela.
  — Cavalgar? — desviei meu olhar para ela confusa. — Desde quando tem cavalos novamente em Lewis Castle?
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  — Chegaram hoje pela manhã, na primeira hora do dia. — explicou. — A senhorita Margareth se empolgou tanto que quis cavalgar de imediato.
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  — Eu não saí do quarto esta manhã — sussurrei a causa de minha surpresa.
  Voltei meu olhar para a janela, fixando meu olhar no motivo de termos cavalos novamente no castelo: Winchester. Certamente deve ter feito isso para ganhar mais pontos com meu pai ou o restante da minha família, ou somente inutilmente tentando me agradar; se aproximar de mim era tudo que ele mais tentava fazer ao longo daqueles meses de silêncio de minha parte.
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  Sophie era, sem dúvida, a melhor e mais discreta dama de companhia que eu já havia visto, ela estava passando todo o tempo comigo em silêncio, comentários curiosos ou inoportunos jamais viriam dela e isso era a melhor parte. A única coisa que me preocupava era, ainda, o primo de começar a demonstrar certo interesse por ela. Já sabia de sua fama de libertino, o que intensificava ainda mais minha preocupação.
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  — — disse Margareth, ao bater na porta —, está ocupada?
  — Não, Marg. — virei minha face para sua direção. — Já se cansou dos cavalos novos?
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  Infelizmente um tom de ironia escapou de minha voz.
  — Estou sentindo um tom diferente vindo de você. — ela adentrou o quarto e fechou a porta. — Está tudo bem?
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  — Sim — cruzei os braços e deu um suspiro cansado.
  — Estou vendo que não. — ela caminhou um pouco mais em minha direção. — Poderia nos deixar a sós, Sophie?
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  — Claro, com sua licença — Sophie se afastou de mim, indo em direção a porta.
  — Desculpe-me, Marg, estou um pouco de mau humor hoje — a olhei arrependida.
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  — Percebe-se. — ela veio ao meu encontro e me abraçou. — Ainda estão brigados?
  — Sim.
  — Não se preocupe, não disse nada sobre isso a ninguém — assegurou ela.
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  — Não sei como irei me sustentar no natal — disse sentindo um aperto em meu coração.
  — , não deveria se reconciliar com ele? — sugeriu ela. — Tenho certeza que é o que o senhor Winchester mais quer, ele é louco por você.
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  — Não, não sem que ele tenha certeza que meus sentimentos são reais. — mantive-me séria. — Não quero que novamente nosso casamento seja baseado somente no dinheiro que ele tem.
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  — Então mostre a ele o que pensa sobre isso. — Marg tocou de leve em meus braços me fazendo descruzá-los. — Ele só vai saber que gosta dele verdadeiramente, se demonstrar isso.
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  Ela estava teoricamente certa.
  — Deixe de orgulho — insistiu.
  — Vou pensar sobre isso — assegurei.
  — Hum… Vamos falar sobre outra coisa. — Marg me puxou para longe da janela e me fez sentar na cama com ela. — Freya disse que tem uma surpresa para nos contar no natal, o que acha que vai ser?
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  — Se tratando da Freya… Nem consigo imaginar — suspirei fraco.
  — Verdade… Se bem que a surpresa mais louca foi seu casamento. — ela me olhou meio curiosa. — Você deveria ter ido à igreja.
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  — Sophie me representou muito bem. — disse em um tom tranquilo. — E não estava me sentindo bem naquele dia.
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  — Eu fiquei intrigada pelo senhor Winchester ter ido. — comentou ela. — Mudando de assunto, você vai mesmo viajar para o Japão com ele?
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  — Como soube sobre isso? — a olhei intrigada, havia mencionado de nossa viagem há somente dois dias.
  — Eu discretamente ouvi a senhora Poppy comentando sobre isso — respondeu ela com um olhar sapeca.
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  — Já estou entendo este seu olhar. — cruzei os braços. — Não me faça pedir isso ao .
  — — ela segurou minha mão fazendo uma carinha de criança abandonada — Eu fui para Ásia, nem sei quando poderei ter outra oportunidade, deixei-me ir com vocês, só desta vez.
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  — Você disse isso da última vez, quando fomos para Espanha no final do outono — a olhei séria.
  — Sei que você precisa de privacidade, mas quem teria privacidade com a senhora Poppy no mesmo ambiente? — seu argumento tinha fundamentos, porém…
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  — Mesmo a família dele estando presente, Marg, não quero ter que… — me calei por um momento, vendo seu olhar. — Tudo bem, pedirei a ele para ir conosco.
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  — Sério? — seu olhar se encheu de esperança. — Sério mesmo?
  — Sim — sorri de leve.
  — Você é a melhor irmã do mundo… — ela me abraçou empolgada. — E direi isso na presença de Freya.
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  — Não precisa causar discórdias. — comecei a rir retribuindo o abraço. — Comece a preparar suas coisas no baú, só por precaução, iremos logo após o natal.
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  — Ahhhh!!! — ela se levantou e começou a dar alguns rodopios pelo quarto. — Já estou sonhando com esta viagem.
  Eu ri um pouco de seu deslumbramento, Margareth ainda era uma criança inocente que só pensava em se divertir, o que me deixava feliz em poder lhe proporcionar dias alegres. Logo ouvimos alguns toques na porta, Sophie entrou com suavidade e veio até mim.
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  — Minha lady, seu pai a solicita — disse num tom mais baixo.
  — Meu pai? — voltei meu olhar para Marg, que também me olhava com curiosidade.
  Assenti brevemente e segui em direção a porta, Marg me deu o braço ficando ao meu lado, enquanto Sophie nos seguiu a uma certa distância. Assim que terminamos de descer a escadaria principal do Lewis Castle, avistei um rosto novo e conhecido.
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  — Pierre — disse Marg com uma entonação de surpresa — O que faz em Derbyshire?
  — Pierre veio passar o natal com nossa família — explicou papai com um olhar de satisfação.
  Ele sempre fazia este olhar quando conhecia alguns amigos importantes de , e como Pierre era filho de um renomado conde francês, tinha certeza que sua satisfação estava ainda mais elevada.
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  — Mon cherí — Pierre deu um daqueles seus sorrisos galanteadores e logo pegando a mão de Margareth beijou suavemente as costas — Gostaste da surpresa?
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  — Imensamente — ela sorriu com alegria, mas se conteve um pouco por causa de nosso pai.
  — Minha lady Winchester — Pierre se curvou em respeito, ele já sabia que não gostava que outros homens me beijasse as mãos — É um prazer vê-la novamente.
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  — Sinta bem-vindo a Lewis Castle.
  — Oh sim, já estou honrado só de estar aqui. — ele olhou rapidamente ao nosso redor. — Este lugar é encantador, assim como as pessoas quem pertence.
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  Olhei rapidamente para Marg, seus olhos fixos em Pierre brilhavam ainda mais pelo elogio.
  — Agradeço as palavras sinceras. — disse segurando um pouco mais firme na mão de Marg para que suavizasse sua face deslumbrada. — Vieste sozinho?
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  — Sim, meu pai e Belle tiveram outros compromissos inadiáveis — explicou ele.
  — E Louise? — perguntou Marg.
  Minha irmã havia se tornado amiga, e muito íntima, da prima de Pierre, a qual lhe prometera ajudar conquistá-lo. De fato, Marg estava apaixonada por aquele francês bon vivant.
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  — Deixarei vocês por algum tempo. — disse meu pai voltando seu olhar para mim, assim como Marg, ele também havia me dito para fazer as pazes com meu marido. — Tenho alguns compromissos para esta tarde. Pierre, mais uma vez, seja bem-vindo.
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  — Merci, mi lord — agradeceu ele.
  Assim que papai se afastou, pude perceber a presença de , como sempre com seu olhar inteiramente voltado para mim. Confesso que a empolgação de Margareth e a surpresa de ter Pierre conosco havia prendido toda minha atenção para aquele possível futuro casal.
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  — Permita-me mostrá-lo a Lewis Castle? — se ofereceu Margareth.
  — Adoraria sua companhia, mas acho que não seria bem visto adentramos o castelo sozinhos — disse ele um pouco preocupado com o que eu pensaria.
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  — Sophie se juntará a nós. — Margareth olhou para mim como sempre olhava quando queria algo de mim. — Não é?
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  — Claro. — assentiu sem saber dizer não a ela. — Sophie, poderia acompanhá-los?
  — Como quiser, minha lady. — assentiu ela.
  — Agradeço — Marg deu um suave porém apressado beijo em minha bochecha, se afastando pousou sua mão no braço de Pierre que já estava a sua espera.
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  Sorri com gentileza ao vê-la animada por novamente ter a oportunidade de estar perto dele, seu interesse era visível. Assim que se afastaram também, meu olhar se voltou para por um breve momento, seu olhar, mesmo triste, continuava intenso e sua face ainda que séria, transmitia suavidade.
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  — Espere. — disse ele ao segurar minha mão, assim que deu o primeiro passo para me retirar. — Por favor.
  — Hum — virei minha face para sua direção, permanecendo com meu olhar abaixado.
  Ele me puxou para mais perto e me abraçou, meu coração se acelerou de imediato e todo o meu corpo se aqueceu. Um sentimento de arrependimento tomou conta de mim, percebi que não somente ele sentia a minha falta, mas eu também estava sentindo a sua, todos aquele meses me mantendo afastada dele só estava nos trazendo solidão, mesmo vivendo em um mesmo ambiente.
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  — Perdoe-me por te afastar de mim — sussurrou ele, senti ainda mais tristeza em sua voz.
  Por que ele estava pedindo desculpas, seu a culpa era minha per tê-lo afastado?
  Senti a primeira lágrima rolar pelo meu rosto, me agarrei um pouco mais em seu colete, me aninhando em seus braços, aquele abraço que me fazia sentir segurança estava de volta em minha vida. Naquele momento decidi em meu interior que nunca mais me afastaria de , queria para sempre estar em teus braços, sentir o teu amor sem reservas.
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  — Eu te amo — sussurrou ele me fazendo chorar ainda mais. — Não chore, apenas sorria e deixe-me chorar em seu lugar.
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  Eu me agarrei ainda mais a ele, meu coração que estava apertado todo aquele tempo ficou mais leve e em paz, senti que tudo estava se encaixando novamente em minha vida.
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  — Oh, não sabia que estavam aqui — disse uma voz indesejada que parecia ser de Freya.
   se virou para a sua direção, enquanto eu fiquei de costas secando minhas lágrimas, desejando que ela não tivesse nos interrompido.
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  — Está tudo bem? — a segunda voz era de Ulrich.
  — Sim — respondeu em seu habitual tom sério e firme.
  — Acabamos de chegar, Freya, acho que devemos nos acomodar — sugeriu Ulrich.
  — Freya. — uma terceira voz surgiu ao lado, de Evelyn. — Minha filha querida, não sabia que já havia chegado.
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  — Acabamos de desembarcar da carruagem, ordenei aos criados levarem nossas bagagens aos quartos — respondeu ela com um tom de satisfação, já que eles estavam voltando de sua viagem de lua de mel aos Estados Unidos.
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  — Como está, sir Ulrich? — perguntou Evelyn. — A viagem lhe fez muito bem.
  — O casamento me fez muito bem — corrigiu ele.
  — Oh, senhor Winchester e , o que fazer aqui? — perguntou minha madrasta.
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   permaneceu em silêncio pegando em minha mão.
  — Já estávamos de saída — sempre de poucas palavras, ele me guiou para frente.
  Nem me dei ao trabalho de dizer uma só palavra a eles, segui meu marido para a direção que ele estava disposto me levar. Caminhamos um pouco mais a diante até chegarmos ao campo de lavandas, era meu lugar favorito da Lewis Castle, de alguma forma me fazia querer lembrar de uma parte de minha vida que havia se perdido em meu acidente.
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  — Gosto daqui. — sussurrei de leve vendo os flocos de neve que cobria toda a extensão do campo. — Sinto que é um lugar especial para mim, só não sei o motivo.
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  Ele permaneceu em silêncio. Voltei meu olhar para ele e vi que a tristeza ainda permanecia em seu olhar, me senti um pouco chateada por isso.
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  — O que houve, disse algo errado? — perguntei.
  — Não. — ele deu um sorrido de canto. — Estou feliz por estar aqui com você, neste lugar especial.
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  Seu olhar ficou um pouco mais feliz, eu o abracei novamente.
  — Por mais que não consiga me lembrar o motivo de gostar daqui… — sorri de leve. — Agora formarei uma nova lembrança para torná-lo ainda mais especial.
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   envolveu seus braços em mim e logo senti uma gota cair em meu ombro, certamente era uma lágrima sua que caíra sem permissão, o que me fez querer saber ainda mais seus sentimentos e emoções que demonstrava com tanta facilidade quando estávamos a sós. Declarei internamente que aquele lugar seria o pedaço em toda a Lewis Castle que nos representaria.
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  Fechei os olhos sentindo o perfume dele envolvendo meus sentidos, pensando como poderia uma pessoa me amar tanto assim, amar alguém com tantos defeitos como eu. Internamente e externamente, não era como as belas moças da Inglaterra, possuía várias cicatrizes que jamais se apagariam, mas que me ajudavam a lembrar que mesmo tendo perdido algumas memórias naquele acidente de quando criança, algo importante havia acontecido.
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   já sabia sobre o acidente e minha perda de memórias, também e principalmente que Ulrich havia me salvado de afogar, pois estava inconsciente após ter batido a cabeça em uma pedra. Nem mesmo me lembrava de como eu tinha caído, só sabia que havia sido um pouco depois que ganhei as cicatrizes nas minhas costas, porque Margareth me contou em segredo.
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  Talvez por causa daquele acidente, me sentia incompleta, até que me casei com ele.
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– x –

  — Feliz natal — disse meu pai ao me abraçar.
  — Feliz natal, papai. — retribui o abraço. — Agradeço por nos convidarem.

  — Lewis Castle sempre será seu lar. — disse ele com um olhar carinhoso. — Apesar de ter tantos lares.
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  — Lar é onde está nosso coração. — sorri para ele. — Um pedacinho do meu está aqui também.
  — Minha querida — ele parecia mais emocionado que o normal —, sinto-me tão aliviado por estar feliz com o senhor Winchester.
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  — Deixe esses sentimentos de lado, sei que ainda se sente culpado por um casamento arranjado, mas estou grata a Deus por esse casamento. — segurei em sua mão. — Apenas se sinta feliz por sua filha.
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  Voltei minha face para o lado sentindo alguém se aproximar, era e seu olhar de sempre.
  — Feliz natal — senti que sua voz estava direcionada a mim, aparentemente meu pai também sentiu, tanto que se retirou discretamente.
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  — Feliz… — sorri automaticamente mantendo meu olhar nele — Eu te amo.
  Ele deu um sorriso singelo, seu olhar se encheu de alegria e parecia estar emocionado. Eu ainda não sabia como reagir, quando ele demonstrava com tanta clareza em suas expressões faciais, os seus sentimentos, somente conseguia sorrir na mesma proporção de seu espontâneo sorriso.
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  — Pronto, Freya, já saboreamos a ceia e logo abriremos os presentes, já pode nos contar sua surpresa — disse Margareth de forma impaciente por todo o mistério que nossa irmã estava fazendo.
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  — Não seja tão apressada assim, criança. — repreendeu nosso pai rindo. — Deixe que sua irmã diga a seu tempo.
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  — Freya sempre faz suspense com suas notícias — reclamou Marg se colocando ao lado de Pierre que segurava o riso.
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  — Confesso que estou um pouco curiosa também. — disse Evelyn ao pegar outra taça de vinho. — Freya não quis contar nem para sua própria mãe.
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  — Bem, é que ainda haviam algumas dúvidas, porém, agora podemos afirmar para todos. — explicou ela com aquele sorriso desagradável de superioridade em sua face. — Estamos esperando nosso primeiro herdeiro.
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  Seu olhar veio diretamente em minha direção, fazendo-me sentir um gosto amarga na boca.
  — Oh, querida! — Evelyn a abraçou de forma carinhosa. — Um herdeiro, estou tão emocionada.
  — Meu parabéns, Ulrich, vamos torcer para que venha um menino forte e cheio de saúde — disse meu pai um pouco surpreso.
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  Certamente papai esperava ter seu primeiro neto vindo de mim, porém, após tantos alarmes falsos, comecei a pensar que não havia nascido para isso, estava quase completando um ano de casada e não havia engravidado. Por outro lado, Freya, com poucos meses, já daria a Ulrich um herdeiro, isso me fazia novamente lembrar de minhas cicatrizes, em instantes senti segurar minha mão como se estivesse demonstrando estar ao meu lado sempre, e encostando sua face em meus cabelos, meu corpo se arrepiou.
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  — Deseja sair daqui? — sussurrou ele.
  Assenti em silêncio.
   me guiou até a porta e subimos as escadas até nosso quarto. Todos já sabiam da minha dificuldade em engravidar, por um deslize da senhora Poppy, que acabou comentando com Evelyn. Assim que entramos no quarto, me direcionei para a janela, mas não soltou minha mão, me puxou para mais perto aninhando-me em seus braços, seu gesto me fez sentir ainda mais segura e protegida.
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  — Obrigada — sussurrei segurando minhas lágrimas.
  — Sua dor também é a minha dor. — sussurrou de volta com carinho. — Nós ficaremos bem, apenas descanse em meus braços.
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  Deus era mesmo bom comigo, por ter me dado alguém como para me apoiar e me alegrar, meu marido, mesmo com toda a sua intensidade no seu amor, me transmitia paz e tranquilidade, a calmaria que sempre desejei ter em minha vida. Estava começando a gostar de todas as noites dormimos juntos no mesmo quarto, era um dos lados dos burgueses que eu mais apreciava.
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  — Estarei sempre em seus braços — sussurrei novamente dando um suspiro aliviado.
  — É o lugar que eu sempre desejo que esteja. — ele acariciou meus cabelos. — Eles sempre estarão abertos para você, somente você.
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  Outro arrepio veio-me ao corpo, senti-me aquecida por dentro juntamente com o pulsar mais forte de meu coração.
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  As horas se passaram…
  No meio da madrugada decidi me levantar, já estava a um tempo sem conseguir voltar a dormir e decidi procurar por algum livro que pudesse me fazer sentir sono. Eu poderia até mesmo terminar minhas últimas páginas de O conde de Monte Cristo, mas estava tão encantada com a riqueza daquela história que não queria terminá-la assim com tanta rapidez. Assim que me levantei da cama, voltei meu olhar para que dormia em seu sono profundo, sorri um pouco e vesti o longo casaco francês que havia ganhado de de presente.
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  Desci as escadas com calma devido ao escuro, só estava segurando um castiçal de prata com uma vela que já pequena não iluminava muito. Foi um pouco confuso minha coordenação ao definir em que direção eu ia, à noite era um pouco mais complicado para conseguir encontrar a biblioteca. Entretanto, quando cheguei ao corredor certo, comecei a ouvir alguns risos vindo de mais ao fundo.
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  Assim que adentrei silenciosamente a biblioteca, paralisei com a cena que estava diante de mim. Ulrich estava deitado no tapete em frente ao sofá, com seu corpo sobre o de uma das criadas que trajava somente as peças íntimas, sua face ao olhar para trás e me ver ficou rígida, assim como seus olhos surpresos.
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  — — sussurrou ele.
  Mesmo meu corpo congelado pelo impacto de ver meu cunhado tendo intimidades com uma serviçal na casa onde fui criada, minhas pernas conseguiram se mover para fora daquele lugar. Segui pelo corredor de forma apressada, porém senti uma mão me segurar de forma forte.
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  — Espere , eu posso explicar. — disse ele como se estivesse traindo a mim e não a sua esposa. — Por favor.
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  — Não deve-me nada. — disse me soltando. — Não é a mim a quem precisa se explicar.
  Dei alguns passos para trás e voltei o mais rápido que pude ao meu quarto. Assim que entrei fechei a porta e a tranquei, elevei a mão em meu coração e olhei para cama, não estava deitado, voltei meu olhar para a janela e lá estava ele olhando o lado de fora, pensativo.
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  — Achou o que procurava? — perguntou como se soubesse de algo.
  — Não. — sussurrei direcionando meu corpo para a direção da cama. — Vou me deitar.
  Permaneci em silêncio sobre aquilo durante todos os outros dias em que ficaríamos em Derbyshire, não sabia se contava ou não para Freya, pois a mesma poderia dizer que era mentira de minha parte. Porém, Ulrich não se conteve em sempre tentar me abordar em algum canto para se explicar, por isso sempre mantinha Sophie por perto para que ele não se aproximasse de mim.
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  Finalmente o dia de nosso embarque para o Japão chegou, o navio já nos aguardava no porto de Liverpool, onde possuía seus maiores investimentos e empreendimentos. Felizmente Margareth conseguiu a autorização de meu pai e Evelyn, após estrategicamente meu marido a convidar para ir, seus pedido para meu pai quase valiam como uma ordem. Sophie, como minha dama, já iria, assim como a família de , a surpresa seria com a companhia de Pierre, que resolveu não voltar para Paris e seguir viagem conosco.
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  Assim que adentramos o navio, segurei meu riso, já imaginava que minha viagem jamais poderia ser com privacidade, mas pelo menos teriam momentos de alegria e diversão, burgueses tinham um humor mais leve que os nobres, apesar dos exageros em suas gargalhadas.
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  — Espero que esteja se sentindo bem acomodada — disse ao entrar na nossa cabine que era a cabine do capitão.
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  — Sim, estou. — assenti mantendo meu olhar para o vidro que compunha um pequeno vitral no meio de toda aquela armação, forros e estruturas. — Imagino que seja pela vista que tenha reservado a cabine do capitão para nós dois.
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  — Pode se dizer que sim, além do conforto — admitiu ele dando mais alguns passos até mim.
  — Hum — continuei com minha atenção ao mar.
  — Estava mais silenciosa do que eu no jantar. — observou ele ao chegar atrás de mim e colocar suas mãos frias em minha cintura. — Aquilo ainda te preocupa?
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  — Aquilo o quê? — perguntei confusa.
  — Não precisa mais agir como se eu não soubesse. — explicou ele. — Aquela noite não foi a primeira dele fora de seu quarto, e sabemos que não seria a última.
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  Céus! também sabia da traição de Ulrich, o que me faz sentir que sua frase quando entrei no quarto naquela noite, era sobre isso, explicava o motivo dele não ter insistido em perguntar onde eu estava como sempre.
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  — Não está assim por causa de Freya, não é? — perguntou ele. — Está assim porque acha que farei o mesmo com você.
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  — Perdoe-me por pensar tal coisa. — mantive meu olhar para frente, envergonhada por não conseguir encará-lo. — Durante toda a minha vida, vi sempre esta parte dos casamentos entre os nobres, os senhores traindo suas esposas sem a menor preocupação, até mesmo o meu pai, o vi uma vez quando criança, estava às portas fechadas na biblioteca com uma amiga de Evelyn, estávamos comemorando o aniversário de um nobre com um baile de máscaras.
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  Lembrar de todas as cenas que havia presenciado quando pequena, de senhores que traíam suas esposas, fazia meu coração se encher de receio e tristeza. De repente, os abraços de envolveram em minha cintura, senti seu tórax encostar em minhas costas e um breve, porém significativo beijo em meu pescoço, que fez meu corpo se aquecer.
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  — Jamais pense tal coisa de mim novamente. — sussurrou ele. — Assim como meus olhos e pensamento estão sempre em você, és a única com direitos e deveres sobre meu coração e meu corpo.
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  Eu ri baixo daquelas palavras, um pouco engraçadas, mas no fundo sérias e sinceras.
  — Sou teu, mesmo em dias que não me queira — sussurrou ele.
  — Sempre irei te querer. — voltei meu olhar para ele. — Eu te amo.
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  Não que estivesse mais fácil dizer que o amava, porém, aquela pequena expressão de três palavras era a única forma que conseguia expressar verbalmente o que meu corpo já expressava.
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Eu que era egoísta e só sabia de mim mesmo
Eu que era negligente e desconhecia os seus sentimentos
Eu não consigo acreditar que eu tenha mudado assim
O seu amor continua mexendo comigo assim.”

– Miracles in december / EXO

13. Indestructible

Tóquio (Japão) – Primavera de 1848

   ver.:

  Eu estava encantada com cada detalhe da arquitetura de Tóquio. Visitar o oriente era realmente uma oportunidade única, o que me fazia ficar ainda mais curiosa em saber sobre como havia feito amizade com aquele tal nobre japonês. Em Tóquio, nos hospedamos na casa de um comerciante, que era representante dos negócios do meu marido em toda a Ásia Oriental, o senhor Kagami era muito gentil e tinha uma esposa adorável chamada Sakura.
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  A senhora Sakura além de dócil, havia me aconselhado bastante sobre o que eu deveria comer para me ajudar a engravidar, e assim como todos que eu conhecida, ela também era muito curiosa para me conhecer.
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  — Vamos — disse assim que terminei de despedir de Margareth.
  — Sim. — assenti, me distanciando um pouco de minha irmã. — Tenha juízo, Marg.
  — Pode ir tranquila. — a senhora Poppy pegou na mão de Marg e colocou em seu braço. — Vou cuidar muito bem de sua irmã, como se fosse minha filha.
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  Eu tentei dar um sorriso despreocupado, mas não sabia se era algo positivo ou não, afinal, a senhora Poppy era um tanto liberal demais. segurou em minha mão e me olhou com tranquilidade, o que me fazia me sentir um pouco mais segura em deixar minha irmã para trás. Assim, entrei na carruagem e seguimos, os outros ficariam mais dois dias em Tóquio, dessa maneira poderia comparecer a um evento da nobreza em que havia sido convidado, mas como sempre, não queria participar.
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  Enquanto isso, nós dois seguimos na frente com destino a Kyoto, onde uma casa que havia sido finalizada de sua construção recentemente já nos aguardava. Alguns dias na estrada, até que finalmente chegamos diante daquela linda e encantadora casa, extremamente diferente da francesa e da londrina, a arquitetura japonesa era bem mais vibrante, principalmente em suas cores.
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  — O que achou? — perguntou ele ao segurar minha mão.
  — Não encontro palavras para expressar-me. — sim, eu não encontrava mais nada. — Sinto-me ainda mais admirada.
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  — Imaginei. — ele sorriu. — Assim como as outras, esta também é a sua, sinta-se à vontade para fazer dela o que quiser, só não poderá vender.
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  Raramente ele brincava em seus comentários, o que me fez rir um pouco.
  — Não a venderia. — sorri um pouco voltando meu olhar para a porta por onde entramos. — Aqui é tudo tão diferente.
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  — Ainda não viu nada.
  O olhei surpresa! Ainda havia mais coisas para se ver?
  — Venha ver o seu jardim — disse ele me puxando para a lateral da sala.
  Eu já havia visto alguns quadros retratando os delicados porém exuberantes jardins orientais, mas nunca em toda a minha vida, imaginei que teria um feito exclusivamente para mim, era ainda mais do que um sonho. Certamente eu era a mulher mais feliz do mundo, mais até que a própria rainha Victoria.
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  Aquele jardim era ainda mais bonito e envolvente que as pinturas, o aroma que exalava deixava todo o ambiente perfumado, certamente era proposital estarmos ali em plena primavera. Logo mais à frente, após os pequenos bonsais, estava uma grande árvore de cerejeira, toda florida com suas flores cor-de-rosa abertas.
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  — Sakura — disse ele.
  — O quê? — o olhei.
  — Aqui esta árvore recebe o nome de Sakura — explicou ele.
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  — É linda. — voltei meu olhar para a árvore. — Tudo aqui é incrível.
  — Sim. — ele sorriu. — Venha, precisamos descansar um pouco para amanhã.
  — Amanhã? — eu comecei a segui-lo de volta para a casa. — O que faremos amanhã? Não ficaremos em Kyoto?
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  — Sim, mas não aqui. — respondeu ele tranquilamente. — Quero te levar a um lugar especial, o meu lugar especial.
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  — Hum. — sorri levemente curiosa para saber que lugar era esse. — Pensei que esta casa fosse o seu lugar especial aqui.
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  — Não, entenderá quanto estiver lá. — explicou ele.
  — E quanto aos outros? — perguntei. — Vão também?
  — Não. — respondeu ele. — Eles virão para esta casa e ficarão aqui; o lugar que te mostrarei, só você poderá ir.
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  Assenti sem fazer mais perguntas, mesmo que pudesse me preocupar com Margareth, confiava ou pelo menos tentava confiar que a senhora Poppy cuidaria bem de minha irmã deslumbrada.
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  Na manhã seguinte, acordamos bem cedo, ao sair por uma passagem que ficava atrás do jardim, seguimos em uma outra carruagem, um pouco mais simples até um certo ponto da estrada. Como havia me presenteado com algumas roupas da cultura japonesas, havia me vestido com um de seus presentes e estava me sentindo um pouco mais confortável, com aquele quimono com o tecido de linho, já que a seda era um tanto quanto mais quente.
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  Apesar de estranhar um pouco, estava me divertindo ao usar roupas mais simples do que costumava vestir, ver trajando o mesmo tipo de roupa me deixava ainda mais intrigada, pois ele continuava charmoso e atraente ao meu olhar. Assim que descemos da carruagem, eu me afastei um pouco olhando para o horizonte o sol já estava caminhando para se por. Ao se aproximar de mim, segurou em minha mão e me guiou bosque a dentro.
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  Caminhamos muito e um pouco mais, até que chegamos a uma pequena e escondida trilha, naquela altura do dia eu já estava me perguntando se meu marido estava perdido em seu senso de direção. Porém mantive-me em silêncio e continuei o seguindo, fazendo algumas paradas pelo caminho para retomar o fôlego, logo ao escurecer senti minhas pernas bambearem um pouco e me apoiei nele, foi neste momento em que encontramos o que ele tanto procurava.
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  — ? — disse uma voz desconhecida no meio de todo aquele breu.
  — Por um momento pensei que estivesse perdido — disse ele ao segurar firme em minha cintura para me dar mais segurança.
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  — Eu também — sussurrei de forma que ele não pudesse ouvir.
  — Venha comigo. — o homem que também tinha traços japoneses riu um pouco. — É uma surpresa vê-lo aqui.
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  — É bom estar de volta — disse num tom mais suave, ao começarmos a andar novamente.
  — E vejo que está acompanhado. — comentou o homem indo na frente. — O ancião vai ficar feliz em vê-la.
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  Me ver? Mais uma pessoa que me conhecia antes mesmo de eu saber sobre. Seguimos aquela trilha até chegarmos no que parecia um pequeno vilarejo, que se estendia em tendas sobre toda a colina. Olhei para tentando entender que lugar era aquela e que relação eu teria com nossa visita ali, não estava conseguindo ver nada de especial até aquele momento.
  — Jovem Taikyu. — disse um senhor ao se aproximar de nós. — Algo me dizia que o veria em breve.
  — Takashi sensei. — disse curvando de leve sua cabeça como modo de respeito. — Eu disse que voltaria.
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  — Sim, você disse. — o homem desviou seu olhar para mim. — Seja bem vinda… Daichi os levará para a tenda, certamente estão cansados.
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  Assenti de leve e voltei meu olhar para meu marido, parecia confortável naquele lugar, seu rosto transparecia uma tranquilidade fora do comum, o que me fez sentir que estávamos bem e seguros ali. Ao entrarmos, me guiou até uma cama feita de almofadas e futon, com um suporte de bambu por baixo de uma baixa altura, assim como as mesas daquele país.
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  — Que lugar é este? — perguntei assim que ficamos a sós.
  — Meu lugar especial. — respondeu ele ao se encostar em um pequeno armário de madeira que tinha aos pés da cama. — Perdoe-me por trazê-la em um lugar tão simples…
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  — Qualquer lugar estando com você, me sinto confortável. — disse o interrompendo. — Seja em um luxuoso castelo ao sul da Rússia, ou aqui, nesta tenda.
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  Ele sorriu com alegria de imediato, seu olhar carinhoso veio de encontro ao meu.
  — Fico aliviado por isso. — ele respirou fundo. — Passei pouco mais de um ano aqui, mas sinto que de todos os lugares do mundo, este é o que mais desejava estar com você.
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  — Sinto-me por completo honrada por estar aqui. — sorri com leveza. — Mas devo confessar que estou muito cansada, chegar aqui foi…
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  — Eu sei. — ele riu baixo. — Confesso que perdi-me em um trecho do caminho, mas felizmente chegamos.
  — . — disse uma mulher ao adentrar a tenda, seu sorriso era delicado assim como os traços de seu rosto. — Fiquei feliz ao saber que estava aqui, trouxe um pouco de chá para relaxá-los.
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  — Agradeço a gentileza, Michimiya. — disse ele ao pegar a bandeja de sua mão. — Ficaremos bem.
  — Tenham uma boa noite — a mulher suavizou um pouco mais seu sorriso e olhou para mim com gentileza e curiosidade, certamente deveria saber sobre mim.
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  — Cada vez fico mais curiosa por ver que pessoas que nunca vi, sabem tanto sobre mim — comentei assim que a mulher saiu.
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  — Devo enfatizar ainda mais o quanto você é importante para mim? — ele me olhou com serenidade e se ajoelhando em minha frente, colocou a bandeja entre nós. — Aceita chá?
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  — O que mais devo saber sobre você? A cada dia me surpreende mais — comentei mantendo meu olhar nele.
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  — Confesso que gostaria…. — ele se calou.
  — Gostaria? — insisti.
  Ele sorriu e me beijou de leve, um toque suave e doce que, mesmo sabendo que o propósito era me distrair de minhas perguntas, consenti na mesma proporção. Nossa noite naquele lugar foi um tanto admirável de minha parte, e a cada momento em que ele me interrompia com um beijo, pude perceber o quão à vontade aquele lugar o deixava, tanto que, na manhã seguinte, nem me lembrava se havíamos ou não lembrado de desfrutar do chá.
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  — Suponho que seu nome seja — disse a mulher ao adentrar na tenda.
  Eu havia acabado de acordar e não estava lá, terminei de me espreguiçar e voltei meu olhar para ela, não entendia o porquê, mas sempre sentia-me incomodada quando uma mulher sorria para meu marido. Bem, eu sabia o porquê, tinha ciúmes dele, por mais que não gostasse de admitir tal sentimento, porém, algo que me deixava ainda mais frustrada é por sempre aquelas mulheres como Michimiya e Belle, ou até mesmo Louise, parecerem conhecer ele bem mais do que eu.
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  — Sim. — sorri de leve. — Sou lady Winchester.
  — Então ele finalmente conseguiu ficar ao seu lado — comentou ela.
  — O que quer dizer com finalmente? — aquilo me deixava por de modo confusa.
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  — Michimiya? — entrou. — O que faz aqui?
  — , vim saber se havia dormido bem. — ela voltou seu olhar para ele. — Estava conversando com meu pai?
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  — Sim. — ele respirou fundo voltando seu olhar para mim. — Michimiya, poderia nos deixa a sós?
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  — Claro — ela sorriu meio sem graça e se retirou apressadamente.
  Voltei meu olhar para a bandeja de frutas que ele havia deixado aos pés da cama, para mim.
  — Tudo bem? — perguntou ele num tom preocupado.
  — Ficará quando eu realmente descobrir a verdade. — voltei meu olhar para ele. — Por que sinto que sempre está escondendo algo de mim? Algo que seja muito importante?
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  — Perdoe-me por isso. — ele respirou fundo. — Posso te convidar para um passeio após o café?
  Assenti em silêncio. Ele sorriu estendendo sua mão para a bandeja e me fez sentar novamente ao seu lado na cama. Após o café, saímos da tenda e me deparei com o lugar lindo e fascinante onde estava, a claridade do dia realçava a beleza da natureza em nossa volta. Antes de nos distanciarmos do vilarejo, trocou algumas poucas palavras com o ancião e o homem que nos trouxera, de nome Daichi. Havia descoberto que o nobre japonês a quem nos enviou aquele presente era ele, um velho amigo que havia salvado há anos.
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  Logo seguimos por uma trilha diferente da que viemos, subindo um pouco a colina, adentramos um pequeno túnel formado por grandes rochas e assim que passamos por um estreito rio, chegamos a uma escadaria.
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  — Onde estamos? Isso parece ser um templo — perguntei observando aquelas paredes em ruínas, mas que certamente possuía muitas histórias a serem contadas.
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